Resumo
Este estudo buscou identificar padrões de consumo alimentar que ocorrem entre pessoas idosas quilombolas e examinar a associação desses padrões identificados com as características socioeconômicas e demográficas desses indivíduos. Trata-se de um estudo transversal realizado com um censo de 236 pessoas idosas (≥60 anos de idade) de 11 comunidades quilombolas da cidade de Bequimão, Maranhão, Brasil. Foi investigada a prevalência de marcadores de alimentação. A análise de Classe Latente foi utilizada para se identificar os padrões alimentares mais comuns desse consumo. Foram calculadas as frequências relativas e verificadas associações das variáveis socioeconômicas com as classes latentes por meio do teste de qui-quadrado de Pearson ou do teste de Mann-Whitney (α=0,05). Foram identificados dois padrões de consumo: ‘Alimentação não saudável e hipercalórica’ (13,6%) e ‘Alimentação não saudável (86,4%)’. Além disso, sexo, idade e escolaridade estiveram associados aos padrões identificados. As pessoas idosas apresentaram padrão de consumo alimentar que caracteriza o acúmulo de consumo não saudável e que estão associados às características socioeconômicas e demográficas. Intervenções específicas são essenciais para reduzir o consumo alimentar não saudável e favorecer oportunidades de segurança alimentar e nutricional mais equitativas.
Palavras-chave
Pessoas Idosas; Grupos de Ascendência Africana; Doenças Crônicas; Análise de Classe Latente.
Abstract This study aimed to identify dietary consumption patterns among quilombola older adults and examine the associations between these patterns and the individuals’ socioeconomic and demographic characteristics. This is a cross-sectional study conducted with a census of 236 older adults (aged ≥60 years) from 11 quilombola communities in the municipality of Bequimão, Maranhão, Brazil. The prevalence of dietary markers was assessed. Latent Class Analysis was applied to identify the most common dietary patterns. Relative frequencies were calculated, and associations between socioeconomic variables and latent classes were tested using Pearson’s chi-square test or the Mann-Whitney test (α=0.05). Two dietary patterns were identified: ‘Unhealthy and hypercaloric diet’ (13.6%) and ‘Unhealthy diet’ (86.4%). Moreover, sex, age, and educational level were associated with the identified patterns. The older adults exhibited dietary patterns characterized by the accumulation of unhealthy food consumption, associated with socioeconomic and demographic conditions. Targeted interventions are essential to reduce unhealthy dietary behaviors and promote more equitable opportunities for food and nutrition security.
Keywords
Older Adults; Groups of African Descent; Chronic Diseases; Latent Class Analysis.
INTRODUÇÃO
Comunidades afrodescendentes localizadas em áreas rurais e remotas formadas por pessoas que fugiram do sistema escravocrata são encontradas em países da América Latina. No Brasil, essas comunidades foram definidas como quilombolas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística1 indicam que 0,65% da população brasileira (n=1.327.802) é formada por quilombolas. A região Nordeste concentra a maior parte dessa população (n=905.415 pessoas; 68,2%), seguido pelo estado do Maranhão (n=269.074 pessoas; 20,6%), que vivem em 81 territórios, que abrangem 34 municípios do estado2.
Grande parte da subsistência dessas comunidades inclui a pesca artesanal, o plantio de roças de leguminosas, frutas e vegetais, o extrativismo vegetal e a criação de pequenos animais3. Contudo, o contexto e a cultura alimentar nessas comunidades também dependem das condições socioeconômicas e ambientais que elas enfrentam ao longo dos séculos4,5.
A maioria das comunidades quilombolas convive com intensa vulnerabilidade social, precários serviços de saúde e abandono estatal no apoio à produção e reduzido acesso a alimentos saudáveis. Esses fatores dificultam o acesso às orientações e cuidados de saúde, que diminuem a adesão a hábitos e comportamentos saudáveis e aumentam os riscos de morbimortalidade por agravos crônicos6,7.
Análise das mudanças de comportamento de saúde de pessoas idosas no Brasil com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013 e 2019 revelou que comportamentos saudáveis (consumo de frutas, verduras e legumes e a prática de atividade física), foram mais prevalentes nas capitais do país. O estímulo aos hábitos saudáveis depende mais de ações relacionadas ao acesso à renda, produção e comercialização de produtos, controle de preços, taxação, subsídios e infraestrutura das cidades do que de ações de sensibilização e propaganda para a população em geral8. No contexto quilombola, essa questão se agrava, pois, essas comunidades são ainda mais vulneráveis, com a maioria de suas localidades afastadas dos centros urbanos6.
O consumo alimentar saudável é vital para a saúde, a capacidade funcional e o bem-estar psicológico, especialmente para a população idosa9, pois ajuda o corpo manter-se em equilíbrio e a prevenir enfermidades9. Porém, o consumo alimentar de pessoas idosas quilombolas é cercado por inseguranças alimentar e nutricional que afeta negativamente o estado nutricional desses indivíduos, agravando os seus problemas de saúde e limitando a sua qualidade de vida10,11.
Estudos prévios já verificaram que pessoas idosas quilombolas apresentaram alta prevalência de baixo peso, perda de massa muscular e alto risco cardiovascular, sendo maior risco entre mulheres e nos grupos de maior idade12. A prevalência de comprometimento funcional, inatividade física no lazer, abuso de álcool e agravos crônico-degenerativo é ainda mais elevada entre eles do que na população idosa geral13,14.
Pessoas idosas quilombolas são uma parcela da população socialmente vulnerável, cujas condições de vida são marcadas por desigualdades históricas e persistentes7. Essas variadas demandas e necessidades de cuidados em saúde dessa população indicam a importância de estudos sobre a condição alimentar deles. Entretanto, padrões de consumo alimentar de pessoas idosas quilombolas ainda não foram identificados, o que ainda dificulta a atenção e cuidados de saúde centrados nos subgrupos de pessoas idosas com padrões menos saudáveis de saúde.
Portanto, este estudo visa identificar padrões de consumo alimentar que ocorrem frequentemente entre pessoas idosas quilombolas que vivem em contexto de vulnerabilidade social e de saúde. Além disso, examina a associação dos padrões identificados com as características socioeconômicas e demográficas dessa população.
MÉTODO
Trata-se de estudo transversal, de base domiciliar, realizado em 11 comunidades remanescentes de quilombolas do município de Bequimão, Maranhão, Brasil. Todas as comunidades são oficialmente reconhecidas como remanescentes pela Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura. (Mapa 1). Para a escrita deste artigo foi adotado o protocolo STROBE.
Localização geográfica das comunidades e residências de idosos quilombolas de Bequimão, Maranhão, Brasil, 2020.
Este estudo está vinculado ao projeto “Inquérito populacional sobre as Condições de Vida e Saúde dos Idosos Quilombolas de uma Cidade da Baixada Maranhense” (Projeto IQUIBEQ). Foram coletados dados de pessoas com 60 anos ou mais de idade, residentes nas comunidades quilombolas. A partir do levantamento feito pela Secretaria de Assistência Social do município e os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) das respectivas comunidades, foram identificados um total de 245 pessoas idosas. Todos eles foram convidados a participar da pesquisa a partir de ações dos ACS e lideranças comunitárias casa a casa. Mas, após recusas e dificuldades de encontrá-los nas comunidades em duas tentativas em datas distintas, e em decorrência da função cognitiva alterada (identificada por mini-mental)15 que comprometesse o entendimento das questões, a população final avaliada foi de 236 participantes com 60 anos ou mais (96,3%). Considerando-se a diferença bilateral entre os grupos de comparação e nível de significância de 5,0%, essa população final teve poder de teste de 98,1%.
As coletas de dados foram realizadas durante a semana, em horário comercial, de julho de 2018 a abril de 2019, nos domicílios e espaços coletivos das comunidades (igrejas e associações). Nesta pesquisa foram utilizados dados coletados por meio de formulário adaptado da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013, relacionados à situação socioeconômica, demográfica, condições de saúde e de acesso e uso de serviços de saúde pelos entrevistados. As questões relacionadas ao consumo alimentar foram retiradas da Vigitel (2013).
O consumo alimentar foi identificado por meio de autorrelato dos participantes. Foram analisados o consumo de alimentos saudáveis: vegetais ou legumes (cru ou cozido), frutas e feijão em pelos menos cinco dias por semana (sim, não), e peixes em pelos menos três dias por semana (sim, não); e de alimentos não saudáveis: carne vermelha com gordura, frango com pele e leite integral em pelo menos um dia por semana (sim, não), e consumo de bebidas adoçadas (refrigerantes e suco artificial) e doces em pelos menos três dias por semana (sim, não).
Entre as variáveis socioeconômicas e demográficas foram consideradas: sexo (masculino ou feminino), idade (em anos), sabe ler ou escrever (sim ou não), adequação da moradia (o material utilizado na construção de paredes, telhado e piso é conjuntamente adequado e ideal ou não) e renda familiar em salário-mínimo de 954,00 (em reais em 2018) (<1 salário-mínimo ou 1 a 2 salários-mínimos). Testou-se a normalidade das variáveis numéricas pelo teste Shapiro-Wilk.
Foram estimadas prevalência dos marcadores do consumo alimentar e variáveis socioeconômicas e demográficas. Para identificar as combinações recorrentes dos alimentos, todas elas foram testadas duas a duas em possíveis combinações (C92=36). As combinações foram complementadas com valores de qui-quadrado de Pearson (χ2) ou Exato de Fisher para identificar associações estatisticamente significante ou tipos de alimentos associados entre si (α<0,05).
A LCA (Latent Class Analysis) foi usada para identificar padrões de consumo com ocorrência frequente. LCA é um procedimento estatístico usado para identificar subgrupos homogêneos (latentes) não observados dentro de uma população. A abordagem gera subgrupos homogêneos internamente e heterogêneos entre si16-18. Nesse estudo, os subgrupos foram identificados com base no autorrelato das respostas categóricas coletadas sobre os alimentos citados. Assim, obtém-se um valor de probabilidade para cada idoso ser atribuída aos grupos identificados.
Uma série de modelos de classes latentes foi ajustada antes de se selecionar o número ideal de classes latentes. A literatura existente não define nenhuma maneira definitiva dos melhores critérios. Porém, o mais amplamente aceito são os critérios estatísticos16-18. Para este estudo, foram considerados estatísticas de ajuste múltiplo, juntamente com parcimônia e interpretabilidade teórica. O critério de seleção foi baseado em vários índices de ajuste de modelo, Akaike information criterion (AIC), Bayesian information criterion (BIC), adjusted Bayesian information criterion (aBIC), consistent Akaike information criterion (cAIC)16-18. Esses critérios estão consolidados na literatura para seleção do número de LCA. Parcimônia e interpretabilidade teórica foram preferidas para se identificar o número ideal (n) de classes de doenças. Além disso, qualidade de ajuste χ2, estatísticas G2, entropia e testes de razão de verossimilhança foram relatados16-18. Ademais, a classe com maior entropia foi selecionada como a que melhor definiu os padrões de consumo alimentar.
Essas ‘n’ classes foram rotuladas com base nas probabilidades de resposta aos itens das morbidades crônicas selecionadas incluídas no16-18. A literatura existente sugere que as probabilidades de resposta ao item são semelhantes às de carga fatorial16,17. Diante disso, recomenda-se que um padrão carga de 0,3 ou superior deve ser empregado para definir um fator particular16-18. Dessa forma, o ponto de corte de 0,3 foi escolhido para atribuir rótulos. Um item específico, nesse estudo relacionado a um tipo de consumo, com uma probabilidade de resposta ao item de ≥0,3 representa uma forte associação com o padrão ou classe latente identificado. Assim, esse item foi informativo e usado para atribuir rótulos para uma classe latente específica. Uma vez definido o número de classes, foram calculadas as frequências relativas e verificadas associações entre as variáveis socioeconômicas e antropométricas com as classes latentes por meio do teste de qui-quadrado de Pearson ou do teste de Mann-Whitney. Foi realizado também o teste de Lo-Mendell-Rubin ad-hoc adjusted likelihood ratio rest para se verificar diferença estatisticamente significante na razão de verossimilhança entre o número classes latentes do modelo selecionado e o imediatamente com maior número de classes19. Para a variável idade foi testada a normalidade. Em todas as análises, adotou-se nível de significância de 5%.
Após a coleta os dados foram transferidos para as análises no software livre RStudio versão 2022.7.2.576 (R Foundation for Statistical Computing, Boston, United States of America). Foi utilizado o pacote “poLCA".
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos (nº parecer: 3.121.981), além de ter sido conduzida de acordo com os aspectos éticos para pesquisas envolvendo seres humanos dispostos na resolução nº 466/2012. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
RESULTADOS
Este estudo foi realizado com 236 pessoas idosas (≥60 anos de idade), com 96,3% do total identificado nas onze comunidades. Essa amostra apresentou um poder de 98,1% para os testes estatísticos realizados. A mediana de idade foi de 69 anos (Q25: 64; Q75: 77). A Figura 2 ilustra o perfil do consumo alimentar, as relações e a prevalência de todas as combinações bidirecionais possíveis entre os tipos de alimentos selecionados. Os valores nas células diagonais (coloridas em cinza) representam a prevalência de todos os alimentos incluídos no estudo. Entre os alimentos saudáveis, a maior prevalência foi para o consumo de peixes (80,1%) e frutas (45,8%), e a menor para feijão (6,4%) e verduras e legumes (12,7%). Já entre os alimentos não saudáveis, a maior prevalência foi para o consumo de leite integral (68,2%) e frango com pele (18,2%), e a menor para doces (7,6%) e bebidas adoçadas (14,8%). Os valores fora da diagonal representam as prevalências (%) de todas as combinações bidirecionais possíveis. Além disso, a cor azul indica a associação entre dois alimentos em quaisquer combinações específicas.
Prevalência (%) do consumo alimentar saudável e não saudável e associação entre eles a partir da combinação dos tipos de alimentos saudáveis e não saudáveis entre idosos quilombolas ≥60 anos (N=236). Bequimão (Projeto Inquérito populacional sobre as Condições de Vida e Saúde dos Idosos Quilombolas de uma Cidade da Baixada Maranhense), MA, Brasil, 2019.
O estudo explorou 36 combinações de tipo de consumo (C9 2=36), das quais cinco foram estatisticamente significantes (p-valor<0,05): frutas com vegetais e legumes, feijão e frutas, carne vermelha com gordura e peixes, frango com pele e carne vermelha com gordura e leite integral com doces. Entre as combinações de alimentos saudáveis, apenas uma delas não teve prevalência superior a 10,0%, as maiores foram para o consumo de frutas e feijão (40,0%; p-valor<0,05) e peixes e frutas (46,0%). Já entre as combinações de alimentos não saudáveis, todos tiveram prevalência maior ou igual a 10,0% as maiores foram para carne vermelha com gordura e frango com pele (39,0%; p-valor<0,05) e doce e frango com pele (27,8%). Por fim, a combinação de alimentos saudáveis com não saudáveis revelou que a maioria apresentou prevalência superior a 10,0%, sendo as maiores prevalências para alimentos associados a peixes, tais como frango com pele (81,4%), doces (83,3%), leite integral (82,6%), bebidas adoçadas (74,3%) e carne vermelha com gordura (65,7%; p-valor<0,05).
Os resultados de ajuste do modelo LCA são apresentados na Tabela 1. AIC, BIC, cAIC e aBIC diminuíram até o modelo de duas classes e depois voltaram a aumentar até seis classes. O modelo de duas classes foi selecionado como ótimo com base no valor BIC mais baixo (ademais, todos os outros ajustes os índices estavam de acordo) juntamente com a interpretabilidade teórica do modelo. Esse modelo de duas classes relatou aceitável nível de entropia (entropia=0,837). Ademais, o teste de Lo-Mendell-Rubin ad-hoc adjusted likelihood ratio rest indicou que não há diferença estatisticamente significante entre o modelo com duas e três classes (p-valor=0,213), não havendo assim vantagens adicionais ao se usar o modelo de três classes.
Modelo de ajuste e critérios de diagnóstico para Classe Latente do consumo alimentar saudável e não saudável entre idosos quilombolas ≥60 anos (N=236), Bequimão (Projeto Inquérito populacional sobre as Condições de Vida e Saúde dos Idosos Quilombolas de uma Cidade da Baixada Maranhense), MA, 2019.
Os resultados das probabilidades (ρ) para cada alimento são apresentadas na Figura 3. Essas probabilidades estimadas de resposta ao item (ρ≥0,3) foram empregadas para atribuir rótulos ao modelo de duas classes identificado. A Classe 1 compreendia indivíduos com alta probabilidade para sete dos nove tipos de alimentos. Apenas consumo de doces e bebidas adoçadas não apresentaram probabilidade relevante. Esse grupo foi rotulado como Alimentação não saudável e hipercalórica: não come verduras, legumes, frutas, feijão e peixes, come carne vermelha e frango com pele e tomar leite integral. Já Classe 2 foi rotulada de Alimentação não saudável, pois continha indivíduos com ρ≥0,3 para quatro dentre os nove agravos avaliados: não come verduras e legumes, frutas e feijão e tomar leite integral (Figura 3).
Probabilidades condicionais do consumo alimentar saudável e não saudável entre idosos quilombolas ≥60 anos (N= 236). Bequimão (Projeto Inquérito populacional sobre as Condições de Vida e Saúde dos Idosos Quilombolas de uma Cidade da Baixada Maranhense), MA, 2019.
A Tabela 2 apresenta a proporção das classes 1 e 2 e proporção das características socioeconômicas e demográfica segundo essas classes. A proporção de idosos na classe 1 foi de 13,6% e 86,4% na classe 2. Verificou-se diferença estatisticamente significante entre as classes 1 e 2 para as variáveis sexo, mediana de idade e saber ler e escrever. Idosos da classe 1 rotulada de Alimentação não saudável e hipercalórica apresentaram maior proporção de mulheres, com maior idade mediana e que sabem ler e escrever.
Caracterização socioeconômica e demográfica segundo as classes latente formadas com o consumo alimentar saudável e não saudável de idosos quilombolas ≥60 anos (N= 236). Bequimão (Projeto Inquérito populacional sobre as Condições de Vida e Saúde dos Idosos Quilombolas de uma Cidade da Baixada Maranhense), MA, 2019.
DISCUSSÃO
Os resultados apontaram padrões alimentares de pessoas idosas quilombolas e associação dos padrões com características socioeconômicas e demográficas. Os marcadores de alimentos saudáveis mais consumidos foram: peixes (80,1%) e frutas (45,8%), e os não saudáveis: leite integral (68,2%) e frango com pele (18,2%). Esses achados podem refletir características culturais e de acesso alimentar das comunidades quilombolas, que é mais garantida por meio da pesca artesanal, caça e criação de pequenos animais, além da prática de horticultura pelas famílias19,20.
Estudos anteriores sugerem que o consumo de peixe pode estar associado a benefícios cardiovasculares21,22. A ingestão regular de peixes está ligada à redução no risco de doenças cardíacas e mortalidade na população21,22. Porém, um estudo realizado por Silva et al 23. sobre risco nutricional e cardiovascular em idosos quilombolas, revelou que 54,1% das pessoas idosas apresentaram risco cardiovascular, sendo tal risco maior em mulheres.
O consumo frequente de verduras e legumes pode reduzir a ocorrência de doenças crônicas e melhorar a qualidade de vida. Contudo, o baixo consumo de feijão (6,4%), verduras e legumes (12,7%) é preocupante, dado que esses alimentos são ricos em nutrientes essenciais (fibras, vitaminas e minerais), fundamentais para a manutenção da saúde em populações. O feijão é um alimento rico em compostos fitoquímicos - flavonoides e ácidos fenólicos -, que promovem efeitos cardioprotetores, antidiabéticos e antioxidantes no organismo. Esse alimento é um símbolo importante da cultura alimentar brasileira. Todavia, o processo de urbanização e as mudanças nos padrões alimentares na atualidade podem estar influenciando a redução do consumo desses alimentos. Essa redução pode privar o organismo desses nutrientes e compostos benéficos, aumentando o risco de doenças crônicas24,25.
Uma provável explicação para o maior consumo de frutas é a presença de hortas e pomares localizados próximo às residências. Geralmente nos quintais delas existem árvores frutíferas (manga, jaca, caju e banana), que também são importantes fontes de alimento3. Contudo, destaca-se que o consumo de frutas e verduras entre os quilombolas foi muito mais baixo do que o encontrado na população idosa do Brasil nos anos de 2013 e 2019, independentemente do local de residência e sexo. O consumo de frutas chega a ser 10% mais baixo e de verduras e legumes quase 4x menor8. Pesquisa com comunidades quilombolas na Bahia confirma os achados citados quanto ao consumo diário de frutas e verduras, em que 69,3% informaram consumo satisfatório e ausência de diagnóstico de doença crônica foi observada em 39,8% dos entrevistados26.
Entre os alimentos não saudáveis, o consumo elevado de leite integral e frango com pele contribui para a ingestão excessiva de gorduras saturadas, o que está associado a maior risco de doenças cardiovasculares. A baixa prevalência de consumo de doces (7,6%) e bebidas adoçadas (14,8%) é positiva, uma vez que esses alimentos estão ligados a maior risco de obesidade e diabetes tipo 2. As combinações de alimentos analisadas no estudo mostraram que frutas e feijão, peixes e frutas foram os mais prevalentes entre os alimentos saudáveis. Essas combinações indicam padrões alimentares que podem proporcionar dieta rica em nutrientes essenciais, promovendo a saúde e prevenindo doenças crônicas. Essa prevalência tem associação com as práticas tradicionais e o uso sustentável dos recursos naturais desempenhando um papel importante na subsistência e na economia local. Práticas da pesca artesanal e agricultura são fundamentais para a segurança alimentar e o bem-estar das comunidades20.
Entre os alimentos não saudáveis, combinações de carne vermelha com gordura e frango com pele refletem padrões de consumo que podem aumentar o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares. Estudo realizado em comunidades quilombolas do Norte de Minas Gerais em 2019, demonstrou a associação desse tipo de alimento com o a obesidade abdominal27.
Em relação aos padrões emergentes de consumo alimentar identificados, predominou (86,4%) a de Alimentação não saudável, e outra classe de Alimentação não saudável e hipercalórica com menor proporção (13,6%). Verificou-se associação dessa classe com homens, de idades mais jovens e que sabem ler e escrever. Esse padrão de consumo alimentar mais deletério acumula riscos que podem afetar diferentes dimensões da saúde das pessoas idosas quilombolas. Essa condição pode estar associada ao acesso a alimentos industrializados, pobres em valor nutricional e altamente calóricos, porém de baixo custo financeiro. Enfatizando, assim, que os hábitos alimentares inadequados foram moldados pela invisibilidade social e precárias condições socioeconômicas a que essas comunidades estão historicamente submetidas26.
Os saberes dos quilombolas são popular/tradicional apreendidos culturalmente e permeado por conhecimentos biomédicos, moldando-se para traduzir suas compreensões sobre como agir para permanecer ou torna-se saudável. A interpretação da saúde como ausência de doenças ainda permeia o entendimento desse grupo, e a compreensão de ser saudável fortemente considera a capacidade laborativa, como principal indicador de saúde14. Essa população enfrenta dificuldades na operacionalização das políticas públicas e interrupção das ações propostas pelo Estado favorece o aumento das iniquidades e vulnerábilidades4.
Pessoas idosas quilombolas têm menos acesso a recursos socioeconômicos e de infraestrutura de distribuição de alimentos que aumentam adesão a comportamentos alimentar saudáveis. A menor exposição deles as ações estatais e de promoção a saúde pode levá-los a receber menos estímulos socioeconômicos, comunitários e culturais para uma vida saudável. As consequências dessa realidade são as desigualdades nas condições de vida e saúde13 e nos elevados riscos nutricionais e cardiovasculares já apontados nessas coortes idosos quilombolas23.
Apesar de esses achados, eles apresentam algumas limitações. Por ser um estudo transversal, causalidade reversa pode afetar esses resultados. Não está claro se o padrão de consumo é adotado simultaneamente ou se a adoção de um tipo de consumo leva subsequentemente a outro. A análise deste estudo foi com base em medidas de autorrelato que podem ser afetadas por viés recordatório, e o viés de sobrevivência pode ter atenuado o cenário. As questões sobre consumo alimentar foram baseadas naquelas aplicadas na Vigitel. Mesmo sendo válidas e relevantes podem não ter captado especificidades de pessoas idosas quilombolas. Além disso, são marcadores de alimentação e não o consumo alimentar de forma ampla. A atribuição das classes é baseada no método de classificação por probabilidades, que é uma fonte potencial de viés. Por fim, os rótulos designados para as classes são baseados a critério do autor, a subjetividade na nomenclatura não pode ser descartada. Entretanto, esta análise utilizou relevante técnica com base em variáveis categóricas para examinar agrupamento e padrões de tipos de consumo alimentar, criando grupos mais homogêneos com importantes implicações para as estratégias de promoção da saúde das pessoas idosas quilombolas e redução da insegurança alimentar delas.
CONCLUSÃO
As pessoas idosas quilombolas apresentaram padrão de consumo alimentar que caracteriza o acúmulo de consumo não saudável e que estão associados a características socioeconômicas e demográficas. As estimativas apontadas de consumo não saudável são ainda mais elevadas do que as observadas na população idosa do Brasil. Intervenções específicas são essenciais para favorecer entre pessoas idosas de áreas rurais e remotas o acesso a alimentos saudáveis e ajudá-los a manejar formas de maior soberania alimentar. Oportunidades sociais para aquisição e produção de alimentos podem contribuir para atender as várias demandas e necessidades sociais dessas pessoas e favorecer um consumo alimentar e nutricional mais saudável e equitativo durante o envelhecimento dos quilombolas.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA). Oliveira, BLCA é bolsista produtividade da FAPEMA.
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Financiamento da pesquisa
O presente estudo foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, da Universidade Federal do Maranhão e da Fundação de Pesquisa do Estado Maranhão (FAPEMA), Brasil. BLCA Oliveira é bolsista produtividade FAPEMA.
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