Open-access Práticas de cuidado com os pés e perfil clínico e sociodemográfico de pessoas idosas com diabetes tipo 2: um estudo transversal em Itamaraju, Bahia, Brasil

Resumo

Objetivo  Avaliar as práticas de cuidado com os pés e o perfil clínico e sociodemográfico de pessoas idosas com diabetes tipo 2 (DM2).

Métodos  Estudo observacional, transversal e analítico, onde 156 usuários das Unidades Básicas de Saúde de Itamaraju-BA foram entrevistados entre outubro e dezembro de 2024. Realizaram-se análises descritivas e testes qui-quadrado e exato de Fisher.

Resultados  A maioria era do sexo feminino (66,7%), tinha baixa escolaridade (82,7%), sobrepeso (59%), falta de registro de hemoglobina glicada (A1c) no prontuário (64,7%) e sem exame completo dos pés (93,6%). Somente 44,9% realizava autoexame regular dos pés. Não houve associação significativa entre as variáveis sociodemográficas/clínicas e a prática de cuidado com os pés.

Conclusão  Verificou-se baixa adesão às práticas recomendadas de cuidado dos pés e falhas no acompanhamento clínico dos participantes, reforçando a necessidade de implementar o exame anual dos pés, monitoramento da A1c e estratégias educativas contínuas na atenção primária, para prevenir complicações evitáveis como as amputações em pessoas idosas com DM2.

Palavras-chave
Diabetes Mellitus Tipo 2; Saúde do Idoso; Idoso; Pé Diabético; Educação em Saúde; Atenção Primária à Saúde.

Abstract

Objective  To evaluate foot care practices and the clinical and sociodemographic profile of older adults with Type 2 Diabetes Mellitus (T2DM).

Methods  This was an observational, cross-sectional, and analytical study in which 156 users of Primary Healthcare (PHC) units in Itamaraju, Bahia, Brazil, were interviewed between October and December 2024. Descriptive analyses were conducted, and associations were assessed using chi-square and Fisher’s exact tests.

Results  Most participants were female (66.7%), had low educational attainment (82.7%), were overweight (59%), had no record of glycated hemoglobin (A1c) in their medical charts (64.7%), and had not undergone a complete foot examination (93.6%). Only 44.9% performed regular foot self-examination. No significant associations were identified between sociodemographic/ clinical variables and foot care practices.

Conclusion  The findings revealed low adherence to recommended foot care practices and gaps in clinical follow-up, underscoring the need to implement annual foot examinations, monitor A1c, and strengthen continuous educational strategies in primary care to prevent avoidable complications, such as amputations, in older adults with T2DM.

Keywords
Type 2 Diabetes Mellitus; Health of the Elderly; Aged; Diabetic Foot; Health Education; Primary Healthcare.

INTRODUÇÃO

O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é uma das principais condições crônicas não transmissíveis em ascensão no mundo e, particularmente, no Brasil, onde sua prevalência já atinge 16,6 milhões de adultos (2025)1. Além disso, a associação entre neuropatia periférica e doença arterial periférica, complicações comuns do diabetes, favorece o aparecimento de úlceras que, quando não tratadas precocemente, podem evoluir para infecções graves e culminar em amputações2, sendo extremamente incapacitantes. Entre 2012 e 2023, mais de 282 mil amputações de pernas ou pés foram realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Brasil, das quais mais da metade esteve relacionada ao diabetes3.

Entre os grupos mais suscetíveis a essas consequências estão as pessoas idosas, uma vez que o processo de senescência impõe desafios adicionais ao controle glicêmico pela presença de comorbidades, sarcopenia, fragilidade, alterações cognitivas, maior risco de hipoglicemia e polifarmácia4,5. Em estudo sobre úlceras nos pés de pessoas idosas com diabetes, realizado na Suécia, observou-se 93% neuropatia, sendo que 8 a 9% evoluíram para amputações menores (dedos dos pés), 9% para amputações maiores (acima do tornozelo), e 26% faleceram sem cicatrização6.

Adicionalmente, existe uma carência de profissionais capacitados para orientar e realizar o exame anual dos pés, pela falta de tempo nas consultas, infraestrutura e ações educativas na atenção primária7. Em estudo realizado no sudoeste da Bahia, apenas 45% dos participantes examinavam os pés8; e no Sul do país, 43% dos participantes apresentavam risco de ulceração nos pés, associado ao menor poder aquisitivo, escolaridade, presença de onicomicose e hipertensão arterial, em residentes de áreas rurais9.

Embora estudos anteriores tenham abordado cuidados com os pés em pessoas com diabetes8,9, ainda são escassas investigações integradas que analisem os fatores de risco para lesões nos pés em pessoas idosas com diabetes e a realidade das Unidades Básicas de Saúde (UBS) em municípios de pequeno porte do Nordeste Brasileiro. Dessa forma, este estudo transversal objetivou avaliar as práticas de cuidado com os pés, com foco na identificação de fatores associados ao autocuidado e o perfil sociodemográfico e clínico de pessoas idosas com DM2 no município de Itamaraju-BA, Brasil.

MÉTODOS

Trata-se de estudo observacional, analítico e transversal realizado nas UBS do município de Itamaraju-BA, Brasil, entre outubro e dezembro de 2024.

Inicialmente, foram verificados os registros no sistema de prontuários eletrônicos do SUS (E-PEC) para busca ativa da população-alvo a ser estudada segundo os critérios de elegibilidade, onde se verificou um total de N=935 indivíduos registrados.

O cálculo do tamanho amostral foi realizado por meio da fórmula para populações finitas: n=[Z2p(1p)N]/[Z2p(1p)+(N1)E2] 10. Considerando uma prevalência desconhecida do desfecho (p = 0,50 para maximizar a variância), um nível de confiança de 95% (Z = 1,96) e uma margem de erro de 10% (E = 0,1), estimou-se uma amostra mínima de 97 participantes. A margem de erro de 10% foi adotada em virtude da natureza exploratória do estudo e das limitações operacionais para a coleta de dados. Assim, essas pessoas idosas foram convidadas a participar do estudo nos dias de consulta do HIPERDIA, caracterizando uma amostragem por conveniência.

Os critérios de inclusão adotados foram: (1) pessoas idosas (≥ 60 anos de idade); (2) com diagnóstico de DM2 e (3) adscritos nas UBS de Itamaraju-BA. Os critérios de exclusão foram: (1) pacientes acamados ou com impedimentos físicos que inviabilizassem o atendimento na UBS; (2) indivíduos com comprometimento cognitivo e sem a presença de cuidador ou familiar apto a auxiliar na resposta das questões da entrevista; e (3) residentes fora da zona urbana do município, por serem de difícil acesso para execução do trabalho dentro do cronograma e orçamento previstos.

As variáveis independentes analisadas foram: idade, sexo, escolaridade, tempo de diagnóstico, Índice de Massa Corporal (IMC), arranjo domiciliar, presença de complicações e controle glicêmico (hemoglobina glicada - A1c). A variável dependente foi a prática de cuidado com os pés, mensurada a partir das respostas do questionário utilizado na entrevista, incluindo itens específicos como autoexame dos pés, uso de calçados adequados, cuidados com as unhas e higiene dos pés. O protocolo metodológico foi composto por três etapas: (1) triagem inicial com aferição de peso e altura; (2) entrevista semiestruturada, para coleta dos dados sociodemográficos e práticas de autocuidado; e (3) momento educativo com orientações sobre o cuidado com os pés e entrega de material educativo.

Utilizou-se um questionário semiestruturado, elaborado pelos autores para este estudo com base no Diabetes Self‑Management Questionnaire‑Revised (DSMQ‑R)11, 12 e adaptado para incluir questões sobre cuidado com os pés, conforme as diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (2021)13 e do International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF)2. A variável dependente, "prática de autoexame dos pés", foi classificada de forma dicotômica (sim/não) com base na resposta do participante à pergunta: "O(a) senhor(a) ou examina seus pés regularmente ou pede para alguém examinar?"14.

Três pesquisadores previamente treinados realizaram as entrevistas com os participantes, com duração média de 15 minutos, em ambiente reservado. As respostas foram registradas em formulários on-line. Adicionalmente, foram coletados dos prontuários os dados referentes à A1c.

Ao final das entrevistas, foi realizado um momento educativo, individualmente, padronizado para todos os participantes, não sendo avaliado como desfecho. Essa intervenção incluiu orientações verbais sobre os cuidados com os pés, com ênfase nas temáticas com menor pontuação de conhecimento identificadas durante a entrevista e entrega de um fôlder ilustrado com imagens selecionadas para reforçar as orientações, estando disponível em repositório público de acesso aberto (DOI: 10.5281/zenodo.1691124)15.

Após a tabulação dos dados, foi realizada uma checagem dos mesmos com dupla verificação, observando a presença de duplicidades, valores ausentes ou inconsistentes. Os dados ausentes (missing data) foram tratados por meio da abordagem de exclusão pairwise (caso a caso), na qual as análises estatísticas foram realizadas utilizando todos os dados disponíveis para cada par de variáveis.

As decisões analíticas foram registradas em protocolo interno para garantir a rastreabilidade dos dados, com discussões entre a equipe, à luz da pergunta de pesquisa. Sequencialmente, foi realizada a análise estatística.

As variáveis categóricas foram apresentadas em frequências absolutas e relativas. As variáveis contínuas foram analisadas quanto à distribuição normal pelo teste de Shapiro-Wilk, e descritas por média e desvio padrão (distribuição normal) ou mediana e intervalo interquartil (AIQ) (distribuição assimétrica). Para o desfecho principal, foram aplicados testes de associação, qui-quadrado e exato de Fisher, com intervalos de confiança de 95% e nível de significância menor que 5%. As análises foram realizadas no software Jamovi® (versão 2.4).

Este estudo integra um projeto de iniciação científica financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Biodiversidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). O trabalho foi conduzido em conformidade com os preceitos éticos das Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFSB (Certificado de Apresentação e Apreciação Ética nº 79286624.4.0000.8467).

DISPONIBILIDADE DE DADOS

O conjunto de dados não está publicamente disponível devido a restrições éticas estabelecidas pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Sul da Bahia (Parecer nº 7.149.246). Os dados contêm informações sensíveis de saúde que, mesmo anonimizadas, poderiam comprometer a privacidade dos participantes, considerando o contexto de um município de pequeno porte. Solicitações de acesso aos dados para fins de pesquisa podem ser direcionadas ao autor correspondente e estarão sujeitas à análise do Comitê de Ética.

RESULTADOS

A amostra final foi composta por 156 pessoas idosas com DM2, com mediana de idade de 68 (64–74) anos, sendo 66,7% do sexo feminino, 82,7% sem concluir o ensino fundamental. Em relação ao desfecho principal, 44,9% declarou realizar o autoexame dos pés ou contar com avaliação feita por um cuidador ou familiar, e 6,4% já ter realizado o exame completo dos pés com algum profissional de saúde, sendo que, entre estes, 77,8% o fizeram há mais de um ano. As demais características sociodemográficas e clínicas estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1
Perfil sociodemográfico e clínico dos participantes (n=156). Itamaraju, BA, 2024.

Ressalta-se a verificação de 64,7% de dados faltantes quanto ao registro de A1c nos prontuários dos participantes. Outros dados clínicos verificados foram: 89,1% possuíam comorbidades associadas ao diabetes, sendo a hipertensão arterial sistêmica a mais prevalente, 82,7%. Outras condições referidas incluíram dislipidemia (17,3%), doenças osteomusculares (7,7%), doenças da tireoide (4,5%), transtornos de ansiedade (3,2%). Comorbidades menos frequentes incluíram doença celíaca, depressão, apneia do sono e doenças hepáticas, todas com 0,6%. Em relação às complicações específicas do diabetes, 5,1% relataram ter doença cardiovascular, 1,3% neuropatia e 0,6% retinopatia. Dos 35,3% que tinham registro de A1c em seus prontuários, a mediana foi de 7,2% (6,4-9,1).

Dentre os participantes que realizavam autoexame dos pés, 34,8% o faziam entre 1 a 4 dias por semana, 33,3% menos de uma vez por semana, e 30,4% diariamente. A estratificação dos cuidados com os pés referidos pelos participantes está apresentada na Figura 1.

Figura 1
Frequência das práticas de autocuidado com os pés relatadas pelos participantes (n=156). Itamaraju, BA, 2024.

A análise bivariada entre as características dos participantes e a prática de autoavaliação dos pés está apresentada na Tabela 2. Não houve associação significativa entre as variáveis testadas (sexo, IMC, raça, estado civil, arranjo familiar, escolaridade e tempo de diagnóstico) e o desfecho principal, a prática referida de cuidado com os pés dos participantes, com p>0,05 para todos os testes.

Tabela 2
Análise bivariada da associação entre as características dos participantes e a prática referida de autoavaliação dos pés (n=156). Itamaraju, BA, 2024.

DISCUSSÃO

Os achados deste estudo evidenciaram uma baixa frequência das práticas de autocuidado dos pés, uma ocorrência ainda menor do exame completo dos pés realizado por profissional treinado e do teste laboratorial da A1c, entre pessoas idosas com DM2 no município de Itamaraju-BA, Brasil.

A falta de inspeção periódica e das práticas específicas de cuidado dos pés também foram verificadas em outros estudos, tanto no Brasil, onde apenas 45% dos participantes examinavam os pés8, quanto em outros países16,17. Em estudo realizado na Espanha, apenas 36,3% dos enfermeiros realizavam exame dos pés16 e, na Arábia Saudita, apenas 27% dos pacientes apresentavam boas práticas de cuidado com os pés17. Esses achados são preocupantes, pois podem acarretar maior ocorrência de lesões e complicações evitáveis, como úlceras e futuras amputações.

O exame completo dos pés realizado por profissional treinado é fundamental para a identificação precoce de fatores de risco e prevenção de complicações graves. No entanto, estudos recentes evidenciam lacunas significativas no conhecimento e na prática de profissionais da atenção primária em relação ao manejo dos pés da pessoa com diabetes18-20.

Em estudo realizado na África do Sul, demonstrou-se que 63,9% dos profissionais de saúde não receberam treinamento prévio sobre cuidados com os pés da pessoa com diabetes18. No Brasil, estudos demonstram que enfermeiros da atenção primária necessitam de capacitação para avaliar corretamente os pés de pessoas com diabetes19, e que a maioria não realiza testes essenciais como o monofilamento (81,2%) e a avaliação da sensibilidade vibratória (93,7%)20.

Esses achados reforçam a necessidade de investimento em programas de educação continuada e treinamento específico para profissionais da atenção primária, visando melhorar a qualidade do cuidado e reduzir a incidência de complicações evitáveis relacionadas ao pé da pessoa com diabetes.

A alta proporção de dados faltantes da A1c no presente estudo reflete a falta de realização ou de registro sistemático desse exame laboratorial nos prontuários dos participantes. Essa lacuna no acompanhamento clínico também representa um achado preocupante, pois inviabiliza a avaliação do alcance das metas glicêmicas.

Segundo as recomendações das Sociedades Brasileira (SBD)21 e Americana (ADA)22 de Diabetes e do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde23, todas as pessoas com DM2 devem passar por avaliação dos pés ao diagnóstico, e posteriormente, pelo menos uma vez por ano. Também se preconiza a realização da A1c a cada 6 meses para avaliação do acompanhamento clínico2124.

Os estudos de Neves et al.25 e Camargo et al.26 identificaram que as falhas na realização da A1c estão frequentemente relacionadas a barreiras socioeconômicas e limitações no acesso ao cuidado no contexto do SUS27. Esse cenário compromete a verificação das metas glicêmicas e, por consequência, a prevenção das complicações crônicas, como as que acometem os pés.

Entretanto, em setembro de 2025, o Ministério da Saúde atualizou suas recomendações sobre o cuidado da pessoa com diabetes na Atenção Primária à Saúde, com o objetivo de avaliar o acesso e monitorar de forma mais efetiva o cuidado integral dos pacientes. Nessa nota técnica, foi incluída a avaliação anual dos pés e pelo menos um registro de A1c nos últimos 12 meses, avaliado ou solicitado, dentro das boas práticas para cálculo do indicador. Isso demonstra o reconhecimento da importância desses parâmetros no gerenciamento adequado do diabetes28.

A predominância de mulheres com baixa escolaridade na população amostral analisada do presente estudo foi semelhante às descritas por Pereira et al.29 e Veloso et al.30. Historicamente, por fatores socioculturais relacionados ao papel tradicional da mulher como cuidadora, verifica-se uma maior participação feminina nos cuidados com a saúde, favorecendo a busca precoce por atendimento 31.

Apesar da ausência de associação significativa entre o cuidado com os pés e as variáveis sociodemográficas e clínicas em nosso estudo, outros trabalhos identificaram associação entre o menor nível educacional e a menor capacidade de realizar os procedimentos de autocuidado dos pés32, bem como correlação direta entre os níveis de educação e os comportamentos de autocuidado 32,33.

No entanto, essa ausência de associação no presente estudo sugere que as falhas no cuidado dos pés podem não estar restritas a perfis específicos de pacientes, mas sim distribuídas de forma ampla na população estudada. Esse resultado reforça a hipótese de que as barreiras para o autocuidado adequado são de natureza sistêmica, relacionadas à organização dos serviços de saúde, à falta de educação continuada e ao acesso limitado a profissionais capacitados, independentemente das características individuais dos pacientes.

A homogeneidade da amostra, embora represente uma limitação para análises de associação, reflete a realidade sociodemográfica da população atendida pelas UBS do município. Adicionalmente, o tamanho amostral, embora adequado para os objetivos descritivos do estudo, pode ter limitado a capacidade de detectar associações de menor magnitude. Estudos futuros com amostras mais diversificadas e análises multivariadas poderão complementar esses achados.

Observou-se ainda em nosso estudo uma elevada frequência de sobrepeso e comorbidades associadas, como hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia, fatores que elevam o risco cardiovascular e prejudicam o alcance das metas glicêmicas no DM2 30,34,35.

Este trabalho representa uma contribuição inédita para o conhecimento científico na área da Geriatria e Gerontologia, sendo o primeiro levantamento regional sobre cuidados com os pés em pessoas idosas com DM2 no Extremo Sul da Bahia, fornecendo subsídios para o fortalecimento das políticas de prevenção de amputações na atenção primária.

Outros aspectos relevantes de nosso trabalho foram: a representatividade amostral, e a utilização do DSMQ-R11,12, instrumento validado para atenção primária12, como base para adaptação e inclusão das questões sobre cuidado com os pés segundo recomendações da SBD21,24 e do IWGDF2.

O estudo possui limitações que devem ser consideradas. Primeiramente, a utilização de amostra não probabilística, restrita ao contexto urbano de um único município, limita a generalização dos achados, que não podem ser extrapolados para residentes de áreas rurais ou outras realidades socioculturais. Em segundo lugar, a dependência de dados autorreferidos para a variável de desfecho pode ter introduzido viés de informação (memória ou desejabilidade social). Por fim, a ausência de avaliação de fatores psicossociais, como a motivação do paciente e o vínculo com a equipe de saúde, representa uma lacuna a ser explorada em estudos futuros.

Adicionalmente, o uso de uma intervenção educativa padronizada sem avaliação posterior de impacto deve ser considerado, evitando interpretação de que houve desfecho pós-intervenção. Assim, estudos longitudinais e/ou intervencionais são necessários para avaliar a efetividade de estratégias educativas no autocuidado dos pés em pessoas idosas com DM2, de forma a complementar os achados do presente estudo.

CONCLUSÃO

O autocuidado dos pés é uma tarefa desafiadora para pessoas idosas com diabetes, especialmente quando há comprometimento motor, neurológico, visual ou socioeconômico. Este estudo evidenciou uma baixa adesão na inspeção periódica dos pés e limitadas práticas de autocuidado entre os participantes. Além disso, a ausência da realização anual do exame completo dos pés por profissional treinado e a falta do registro da hemoglobina glicada nos prontuários, para a maioria dos participantes, apontam lacunas importantes no cuidado desses pacientes.

A ausência de associações significativas entre as variáveis sociodemográficas e clínicas com as práticas de autocuidado sugere que as barreiras para o cuidado adequado dos pés transcendem características individuais, indicando necessidade de abordagens sistêmicas. Os achados reforçam a complexidade dos cuidados com os pés na população idosa com diabetes e apontam para a necessidade de estratégias educativas mais acessíveis, integradas ao cotidiano das equipes de Saúde da Família.

As implicações práticas deste estudo apontam para a necessidade de ações concretas na atenção primária. Recomenda-se: (1) a implementação de um protocolo assistencial que inclua o exame anual sistemático dos pés, com estratificação de risco, realizado por enfermeiros ou médicos capacitados; (2) a incorporação da inspeção rápida dos pés como “sinal vital” em todas as consultas de rotina de pessoas com diabetes; (3) o treinamento específico de Agentes Comunitários de Saúde para a identificação de sinais de alerta e o reforço contínuo das orientações de autocuidado durante as visitas domiciliares; e (4) a criação de um fluxo para garantir a solicitação e o registro semestral da hemoglobina glicada, vinculando o resultado a metas terapêuticas individualizadas.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Secretaria Municipal de Saúde de Itamaraju pelo apoio institucional à realização da pesquisa, à UFSB pela estrutura acadêmica que viabilizou este estudo, ao PPGSAB-UFSB, aos dois mestrandos do programa pela colaboração e trabalho em equipe, e ao CNPq pela concessão da bolsa de iniciação científica, essencial para o desenvolvimento deste trabalho.

  • Financiamento
    Este trabalho foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 155983/2024-5.

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Editado por

  • Editado por
    Cristian Arnecke Schröder

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    22 Ago 2025
  • Aceito
    11 Nov 2025
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