RESUMO
Objetivo: Elaborar e validar o conteúdo de checklists para a admissão e alta seguras em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal.
Métodos: Estudo metodológico, realizado entre 2018 e 2020, em quatro etapas: 1) revisão de literatura; 2) construção dos checklists; 3) validação de conteúdo por 32 enfermeiros especialistas em neonatologia de diferentes estados brasileiros, predominantemente da região Sudeste; 4) elaboração da versão final dos instrumentos. A validação se deu por meio de escala tipo Likert. Foram aceitos itens com Índice de Validade de Conteúdo igual ou superior a 0,90. Para análise dos dados, utilizou-se estatística descritiva.
Resultados: Foram construídos e validados os conteúdos de dois checklists: um para admissão, com 18 itens, e outro para alta, com sete itens. Para o de admissão, 41,03% dos itens foram validados na primeira rodada, 33,33%, na segunda, e 23,08%, na terceira. Um item foi excluído por não atingir Índice de Validade de Conteúdo mínimo (>0,90). Para o checklist de alta, todos os itens obtiveram ICV ≥ 0,90, sendo 64,7% validados na primeira rodada e, 35,3%, na segunda rodada. Nenhum item foi excluído.
Conclusão: O conteúdo dos checklists de segurança do paciente para a admissão e alta em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal foi considerado válido.
Descritores:
Segurança do Paciente; Unidades de Terapia Intensiva Neonatal; Lista de Checagem; Admissão do Paciente; Alta do Paciente
ABSTRACT
Objective: To develop and validate the content of checklists for safe admission and discharge in Neonatal Intensive Care Units.
Methods: A methodological study conducted between 2018 and 2020 in four stages: 1) literature review; 2) checklist construction; 3) content validity by 32 neonatal nursing specialists from different Brazilian states, predominantly from the southeastern region; 4) development of the final version of the instruments. Validity was performed using a Likert-type scale. Items with a Content Validity Index of 0.90 or higher were accepted. Descriptive statistics were used for data analysis.
Results: The contents of two checklists were constructed and validated: one for admission, with 18 items, and another for discharge, with seven items. For the admission checklist, 41.03% of items were validated in the first round, 33.33%, in the second, and 23.08%, in the third. One item was excluded for not achieving the minimum Content Validity Index (>0.90). For the discharge checklist, all items achieved a CVI ≥ 0.90, with 64.7% validated in the first round and 35.3% in the second round. No items were excluded.
Conclusion: The content of patient safety checklists for admission and discharge in Neonatal Intensive Care Units was considered valid.
Descriptors:
Patient Safety; Neonatal Intensive Care Units; Checklist; Patient Admission; Patient Discharge
RESUMEN
Objetivo: Elaborar y validar el contenido de listas de verificación para la admisión y el alta seguras en Unidades de Cuidados Intensivos Neonatales.
Métodos: Estudio metodológico realizado entre 2018 y 2020 en cuatro etapas: 1) revisión de la literatura; 2) construcción de las listas de verificación; 3) validación de contenido por 32 enfermeros especialistas en neonatología de diferentes estados brasileños, predominantemente de la región Sudeste; 4) elaboración de la versión final de los instrumentos. La validación se realizó mediante una escala Likert. Se aceptaron ítems con un Índice de Validez de Contenido igual o superior a 0,90. Se utilizó estadística descriptiva para el análisis de los datos.
Resultados: Se construyeron y validaron los contenidos de dos listas de verificación: una para la admisión, con 18 ítems, y otra para el alta, con siete ítems. Para la lista de verificación de admisión, el 41,03% de los ítems fueron validados en la primera ronda, el 33,33%, en la segunda, y el 23,08%, en la tercera. Un ítem fue excluido por no alcanzar el Índice de Validez de Contenido mínimo (>0,90). Para la lista de verificación de alta, todos los ítems obtuvieron un IVC ≥ 0,90, con un 64,7% validados en la primera ronda y un 35,3% en la segunda ronda. Ningún ítem fue excluido.
Conclusión: Se consideró válido el contenido de las listas de verificación de seguridad del paciente para la admisión y el alta en Unidades de Cuidados Intensivos Neonatales.
Descriptores:
Seguridad del Paciente; Unidades de Cuidado Intensivo Neonatal; Lista de Verificación; Admisión del Paciente; Alta del Paciente
INTRODUÇÃO
O cuidado no cenário das Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTINs) pode ser ameaçado pela ocorrência de eventos adversos (EAs), que se apresentam como obstáculos para a segurança do paciente (SP), impactando negativamente o desfecho clínico do recém-nascido (RN) internado1,2.
A discussão sobre os EAs é de abrangência internacional: na Alemanha, pesquisadores identificaram uma taxa de ocorrência de 1,1 EA por neonato internado em UTIN3. No Brasil, foram observados 30 EAs em 22 pacientes pediátricos e neonatais internados4. Nos Estados Unidos, 14,1% dos neonatos sofreram um EA pós-alta, e quase metade desses eram evitáveis5. Dessa forma, fica evidente a necessidade da criação de estratégias que possam ser utilizadas para evitar a ocorrência de EA, favorecendo a promoção da SP.
A assistência neonatal exige medidas para garantir a segurança desde o momento da admissão até a alta na UTIN6. Durante a admissão, são necessários cuidados complexos para garantir a sobrevivência do RN7. A alta, por sua vez, não é menos desafiadora, já que os pais precisam lidar com sentimentos de estresse, medo, incerteza e falta de confiança no seu exercício enquanto pais, além de necessitarem desenvolver habilidades adequadas para dar continuidade aos cuidados com o RN em casa6-9.
A transição de cuidados da sala de parto para UTIN ou da UTIN para casa é caracterizada como momento crítico na assistência, pois consiste em mudanças significativas no plano de cuidados do RN, nos quais há uma transferência formal de informações do paciente e de responsabilidades relacionadas ao cuidado do neonato10,11. Esses momentos de transição de cuidados apresentam risco adicional para ocorrência de erros12, como falhas na comunicação, omissão de informações importantes ou transferência de informações inadequadas13. Portanto, com o intuito de evitar a ocorrência de EAs inerentes à transição de cuidados, é fundamental obedecer a quatro pilares: comunicação; trabalho em equipe; integração com a família; e padronização11.
Como estratégia para mitigar a variabilidade e melhorar o processo de transição de cuidados nos momentos de admissão e alta, a implementação de checklists pode ser uma ferramenta eficiente, ao sistematizar ações, proporcionar lembrete aos profissionais, promover comunicação entre a equipe profissional, aumentar o engajamento da família, além de fornecer dados para análise e melhora da performance da assistência, prevenindo a ausência de determinada tarefa ou sua execução de forma equivocada14,15.
No âmbito dos serviços de saúde, os profissionais reconhecem essa ferramenta como importante para a qualidade da assistência16, e sua utilização tem trazido impactos importantes, por exemplo, para cirurgia segura, como proposto pela Organização Mundial da Saúde14. Nas UTINs, os checklists são utilizados na sistematização de punção de acessos venosos centrais, sedo-analgesia e intubação orotraqueal14. Porém, há um alerta para uma lacuna de conhecimento em relação ao uso de checklists na área de cuidados seguros na admissão e alta na neonatologia16, sendo este o foco deste trabalho.
Assim, o processo de elaboração e validação de checklists que abordem cuidados de enfermagem pautados na SP nos momentos da admissão e alta dos neonatos se apresenta como uma estratégia para estabelecer barreiras de segurança e efetivar melhorias na assistência neonatal. O presente estudo teve como objetivo elaborar e validar o conteúdo de checklists para admissão e alta seguras em UTINs.
MÉTODO
Trata-se de pesquisa metodológica, com o intuito de elaborar e validar o conteúdo de dois checklists de cuidados de enfermagem acerca da temática de SP nas UTINs durante a admissão e alta do RN. O estudo foi conduzido em quatro fases: revisão de literatura; construção da primeira versão do checklist; validação de conteúdo por especialistas; e elaboração final do instrumento. Essas etapas foram definidas com base nos princípios da psicometria, que orientam o desenvolvimento de instrumentos de medida em saúde17.
A primeira etapa consistiu no desenvolvimento de revisão integrativa conduzida a partir da pergunta de pesquisa: quais elementos devem compor checklists de cuidados de enfermagem com vistas à SP internado em UTINs? Foram considerados estudos entre os anos de 2010 e 2019 que descreviam recomendações de cuidados de enfermagem com vistas à segurança do RN durante a admissão e alta em UTINs.
A busca na literatura ocorreu em sete bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) via PubMed; Banco de Dados em Enfermagem (BDENF); Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL); US National Library of Medicine (PubMed); Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS); Cochrane Library; e Scopus. Para a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), foram considerados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCs) e Medical Subject Headings (MeSH) “Segurança”, “Medidas de Segurança”, “Gestão da Segurança”, “Segurança do Paciente”, “Erros de Medicação”, “Pele”, “Sistemas de Identificação de Pacientes”, “Cuidados de Enfermagem”, “Unidades de Terapia Intensiva Neonatal”, “Cuidados Críticos”, “Comunicação”, “Recém-Nascido” e “Controle de Infecções e Acidentes por Quedas”. Para a MEDLINE, BDENF, CINAHL, PubMed, LILACS, Cochrane Library e Scopus, foram utilizados os descritores “Safety”, “Safety Measures”, “Safety Management”, “Patient Identification System”, “Patient Safety”, “Medication Errors”, “Intensive Care, Neonatal”, “Critical Care”, “Infant Newborn”, “Communication”, “Skin”, “Neonate”, “Infection”, “Accidental Falls”.
Foram selecionados 27 artigos que apresentavam recomendações de cuidados de enfermagem ao RN com base no Programa Nacional de Segurança do Paciente18 e nas Metas Internacionais de Segurança do Paciente19.
Na segunda etapa, foi elaborada a primeira versão dos dois checklists com base nos resultados encontrados na revisão de literatura. Os instrumentos foram estruturados em uma página frente e verso, sendo que, na frente, constava o título, o cabeçalho e as ações para melhoria da SP. As ações foram organizadas em duas colunas: a primeira possuía o item a ser conferido; e a segunda coluna apresentava uma caixa para marcação da resposta “sim” ou “não”. O verso do checklist era composto pelas instruções de preenchimento referente a cada item.
A terceira fase consistiu no encaminhamento dos checklists para especialistas em neonatologia, para fins de validação. Para a seleção dos especialistas, foram incluídos enfermeiros com pelo menos dois anos de atuação em unidades neonatais, especialização/residência em neonatologia ou mestrado/doutorado/pós-doutorado com dissertação/tese em saúde da criança.
Os profissionais foram selecionados por conveniência e pela Plataforma Lattes, por meio da busca direcionada pelas palavras-chave “Neonatologia”, “Saúde da Criança”, “Segurança do Paciente” e “Terapia Intensiva Neonatal”. Para identificação de profissionais que não estão na área de pesquisa e docência e, portanto, não possuem currículo cadastrado na Plataforma Lattes, empregou-se a técnica “bola de neve”20. Assim, os participantes iniciais indicavam nomes e e-mails de potenciais respondentes que atendiam aos critérios de inclusão. No primeiro contato, realizado via Plataforma Lattes ou via e-mail, foi enviada uma carta explicativa sobre a relevância dos conceitos envolvidos e dos instrumentos, o objetivo do estudo, a descrição dos checklists, a forma de preenchimento e o motivo pelo qual ele foi convidado a participar da pesquisa. Foram convidados 263 profissionais, sendo que 220 não retornaram o contato em um período de até dez dias e foram excluídos do estudo. Assim, participaram 43 profissionais que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foi considerado um prazo de até 15 dias para preenchimento e devolução dos instrumentos. Os participantes responderam a questões de caracterização (idade, gênero, tempo de formação, tempo de atuação em neonatologia e formação adicional) e questões de avaliação dos itens dos checklists.
Os questionários utilizados na etapa de validação foram construídos na plataforma Survey Monkey®, com envio eletrônico a todos os participantes. Os profissionais opinaram sobre pertinência, objetividade, clareza e relevância de cada um dos itens descritos21. Para tanto, utilizou-se a escala do tipo Likert, sendo: 1 = discordo; 2 = não concordo nem discordo; e 3 = concordo. Ao assinalar as respostas 1 ou 2, o participante deveria justificar sua resposta e fazer sugestões ou comentários para modificações dos itens.
Após cada rodada de resposta, os dados foram analisados com base no Índice de Validade de Conteúdo (IVC)20. Esse escore foi calculado a partir da soma dos itens marcados com “concordo” (3) e dividido pelo número total de respostas. O conteúdo que não atingiu um IVC de 0,90 foi reformulado e encaminhado para uma nova rodada de validação20.
Por fim, a quarta etapa referiu-se à proposição da versão final dos dois checklists após o processo de validação pelos especialistas.
Este estudo foi conduzido seguindo os preceitos éticos da Resolução no 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, e recebeu aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, sob Parecer no 2.172.832 e Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) no 69001317.0.0000.5149.
RESULTADOS
A revisão de literatura apontou para seis dimensões principais da SP, nas quais a primeira versão dos checklists foi embasada: identificação do paciente; comunicação efetiva com inclusão da família; administração segura de medicamentos; prevenção de infecções relacionadas ao cuidado em saúde; prevenção de quedas; e prevenção de lesões de pele. Considerando as boas práticas de comunicação da ciência aberta, os dados referentes aos 27 estudos considerados na revisão se encontram no repositório SciELO Data sob DOI disponível em: https://doi.org/10.48331/scielodata.OGNKQV.
Na segunda etapa, portanto, foi construída a primeira versão dos dois checklists com base nas ações extraídas dos estudos de revisão. Os checklists foram inicialmente denominados “Checklist de segurança do paciente neonatal - admissão” e “Checklist de segurança do paciente neonatal - programação para a alta”. O checklist de admissão foi estruturado com 18 itens, e o de alta, com sete itens. Todos os itens apresentaram instruções iniciadas por um verbo que indicava como executar a atividade de melhoria de SP.
A terceira etapa foi composta por três rodadas, sendo que, dos 263 profissionais convidados, 220 não retornaram o contato inicial. Portanto, 43 profissionais completaram a primeira rodada de validação. Na segunda rodada, os mesmos 43 profissionais foram novamente convidados a responder ao questionário, obtendo-se reposta de 33. Na terceira rodada, 32 dos 33 profissionais acessados responderam a todos os itens. Houve a descontinuidade de dez profissionais, entre a primeira e segunda rodada de validação, e de um profissional, entre a segunda e a terceira rodada, devido à ausência de resposta após quatro tentativas de contato.
O perfil dos especialistas que participaram em todas as etapas de validação de conteúdo (n=32) foi predominantemente feminino (96,87%), com idade média de 40,34±8,12 anos. Nesta pesquisa, prezou-se por incluir pelo menos um especialista de cada uma das cinco regiões do Brasil, obtendo-se a maioria da região Sudeste (75%). Em relação à formação profissional, 30 enfermeiros (93,75%) possuíam formação adicional, sendo cinco doutores (15,82%), seis mestres (18,75%) e 19 especialistas em neonatologia (59,93%), com tempo de atuação na neonatologia de 13,22±8,16 anos.
Os especialistas julgaram tanto o item a ser avaliado quanto sua instrução para preenchimento, bem como o título, a orientação e o cabeçalho, em três rodadas de validação. Para facilitar a apresentação dos itens, estes foram numerados e identificados como AD (admissão do paciente), nos itens pertencentes ao checklist de admissão, e AL (alta do paciente), no caso do checklist para a alta.
Os Quadros 1 e 2 apresentam, respectivamente, a versão final itens dos checklists de admissão e alta, com o IVC final e a rodada na qual o item foi validado.
No Quadro 1, dos 39 tópicos avaliados referentes ao checklist de admissão do paciente, 48,72% (n=19) foram validados na primeira rodada. Os demais itens foram alterados conforme as sugestões dos especialistas, sendo 30,77% (n=12) validados na segunda rodada e, 17,95% (n=7), na terceira. Apenas um item, que se referia à segurança medicamentosa (item AD7), foi avaliado com IVC de 0,88 ao final das três rodadas, sendo, então, excluído da versão final do checklist.
O Quadro 2 apresenta o IVC do checklist do período de preparo para alta do paciente. A avaliação dos peritos resultou em 100% dos 17 itens avaliados com IVC maior ou igual a 0,90 até a segunda rodada de validação, sendo 64,70% (n=11) na primeira rodada, e os demais itens, após os ajustes sugeridos, foram validados na rodada seguinte.
As versões finais dos checklists disponíveis em https://doi.org/10.48331/scielodata.OGNKQV abordam as dimensões “identificação do paciente”, “comunicação efetiva”, “segurança medicamentosa”, “prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde”, “prevenção de quedas” e “prevenção de lesão de pele”. A estrutura em uma página (frente e verso) foi mantida.
A versão final do checklist de admissão englobou três itens em cada uma das dimensões: “identificação do paciente”, “comunicação efetiva”, “prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde”, “prevenção de quedas” e “prevenção de lesão de pele”. Já no quesito “segurança medicamentosa”, o checklist foi finalizado com dois itens.
A versão final do checklist de preparação para alta contemplou um item em cada uma das dimensões “identificação do paciente”, “comunicação efetiva”, “prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde”, “prevenção de quedas” e prevenção de lesão de pele” e dois itens na dimensão “segurança medicamentosa”.
DISCUSSÃO
Devido à crescente complexidade da assistência em saúde, o número de EAs e incidentes relacionados a essa assistência tem aumentado substancialmente, o que coloca a SP como foco central das atividades desenvolvidas por profissionais14. Dessa forma, são necessárias barreiras máximas de proteção e prevenção, por meio de diversas estratégias. No presente estudo, foram propostos dois checklists: um para a admissão e outro para a alta de RNs na UTIN, o que tem sido incentivado como estratégia para promoção da SP, podendo, também, ser adaptados a contextos individuais de assistência, minimizando a ocorrência de EAs16.
Entre as principais características de um checklist, pode-se citar o seu caráter não normativo e rígido, além da sua simplicidade, objetividade e uma base teórica sólida14,22. Por sistematizar o cuidado e diminuir a variabilidade entre profissionais, esses instrumentos potencializam o trabalho em equipe e a comunicação efetiva, além de possibilitar a realização de uma tarefa com passos em ordem específica e minimizar o esquecimento de alguma etapa por desatenção ou excesso de confiança14,22.
Adicionalmente, os checklists precisam ter aplicabilidade em diferentes cenários e possibilidade de medição14. Para que essas características possam ser alcançadas, é fundamental a criteriosidade do seu processo de elaboração e validação, além do envolvimento de profissionais experientes. A participação de enfermeiras especialistas na assistência à beira leito com expertise em ensino/pesquisa contribui significativamente na avaliação teórica do conteúdo de um instrumento e sua aplicabilidade na prática clínica16. Corroborando a evidência encontrada, é notável a colaboração dos especialistas no desenvolvimento dos itens de ambos os checklists propostos no presente estudo, resultando em índices de concordância que evoluíram de 0,30 para 0,91. Digno de nota, foi possível obter IVC > 0,9 em quase todos os itens avaliados.
Quanto à temática dos checklists, uma revisão da literatura apontou que, no campo da pediatria, essas ferramentas são voltadas majoritariamente para cirurgia segura, uso seguro de medicamentos, comunicação efetiva, terapia intensiva, intubação traqueal, transfusão de hemocomponentes e realização de radiografias23. Conteúdos semelhantes foram abordados no checklist resultado do presente estudo, que também foi embasado em revisão de literatura, mas com foco no público neonatal. Isso demonstra que as preocupações para a neonatologia e pediatra são semelhantes, apesar das especificidades de cada faixa etária. Entretanto, para os momentos de alta e admissão, não foram encontrados checklists na literatura, o que faz deste estudo o pioneiro nesse cenário.
Os momentos de admissão e alta são considerados críticos no cenário neonatal. A admissão em unidades neonatais é fundamental para garantir a sobrevivência do neonato crítico, especialmente do prematuro. Trata-se de período de adaptação do padrão fetal para o ambiente extrauterino, no qual fica evidenciada a imaturidade fisiológica. As ações adotadas nesse momento, portanto, impactam significativamente o seu prognóstico e desenvolvimento9.
O crescente avanço na assistência em saúde tem permitido a sobrevida de muitos neonatos críticos. Entretanto, vários desses pacientes apresentam problemas em saúde complexos e crônicos permanentes após a alta hospitalar24. Portanto, o momento da alta também é considerado crítico, já que se devem garantir a transição e a coordenação segura dos cuidados, por vezes bastante específicos, dos profissionais de saúde para a família ou cuidadores9.
Uma transição de cuidados ideal deve ser segura, oportuna, eficiente, eficaz, equitativa, centrada no paciente e na família, bem como ser socialmente responsável11. Para alcançar esses critérios, a padronização e a eficiência da comunicação e do cuidado foram definidas como fatores que devem ser considerados. Por sua vez, esses podem ser atingidos eficientemente por meio do uso de instrumentos como os checklists11. Um ponto limitante e desafiador no preparo para a alta hospitalar é a falta de sistematização, padronização e registro de ações, o que pode influenciar o estresse dos pais, perda de tempo e aumento da insegurança9,11. Portanto, é evidente a necessidade de sistematizar e garantir qualidade e segurança a esses dois momentos da internação neonatal. Notavelmente, os checklists propostos no presente trabalho avançam nesses pontos, podendo ser fatores preponderantes na sistematização e padronização da admissão e da alta25.
Entre as metas internacionais de SP, destaca-se a identificação correta do paciente, sendo que as falhas nesse processo predispõem à ocorrência de EAs, especialmente em momentos cruciais como os de admissão e alta. Revisão de escopo, que teve como foco o mapeamento das estratégias utilizadas para a identificação de neonatos, evidenciou o uso da pulseira de identificação em dez dos 11 artigos incluídos na busca26. No entanto, outro estudo conduzido durante a admissão de neonatos em uma UTIN mostrou que, apesar de 80% dos neonatos possuírem pulseira de identificação, nenhuma dessas pulseiras continha suas informações validadas27. Essa falha na conferência pode ser um indicativo da desimportância conferida pela equipe em relação às medidas de segurança voltadas para a identificação do paciente26,28. Dessa forma, o uso do checklist, mais uma vez, mostra-se um lembrete aos profissionais e, principalmente, uma importante ferramenta de sistematização nesses processos.
Com relação à variável da comunicação efetiva, constituinte do presente checklist, trata-se de um processo cujas falhas também originam EAs, motivo pelo qual ela foi estabelecida como a segunda meta internacional de SP, e é alvo de significativo número de produções científicas. Dessa forma, recomenda-se que o preparo para a alta deve iniciar logo após a admissão, em conjunto com a família24. Esse preparo em tempo oportuno permite à família o desenvolvimento de competências e habilidades para o cuidado domiciliar, reduzindo o estresse, a ansiedade e as taxas de reinternações25,29. Cabe ao enfermeiro fornecer orientações e supervisionar essa transição de cuidados, sendo fundamental a comunicação efetiva como estratégia para garantia da alta segura. Algumas tecnologias educativas podem contribuir para esse momento, como cartilhas, folders e o próprio uso de checklists29.
No que tange ao domínio de segurança medicamentosa, revisão integrativa da literatura apontou que a utilização do checklist voltado a essa temática contribuiu para o aumento da qualidade da prescrição médica, redução dos erros de administração e identificação precoce desses erros, para intervenções em tempo oportuno23. Com relação ao cenário domiciliar, ressalta-se que os erros medicamentosos são os principais EAs após a alta24 e, portanto, trata-se de assunto de fundamental discussão, tanto na admissão quanto na alta do paciente neonatal.
As infecções associadas à saúde estão entre as maiores preocupações das UTINs, pois, durante o período neonatal, a imaturidade do sistema imunológico contribui para que as infecções sejam a causa importante de morbimortalidade de RNs internados. Portanto, a prevenção de infecções deve acontecer desde o nascimento até a alta hospitalar do RN. Estudo de coorte que acompanhou RNs pré-termo durante 24 meses mostrou que 47% precisaram ser reinternados após a alta hospitalar, sendo 70% desses por infecções do trato respiratório, e 15%, por outras doenças infecciosas30. Alinhada a essas informações, a higiene das mãos configura-se uma estratégia simples a ser seguida pelos profissionais de saúde e pela família, devendo ser continuada no domicílio. Em estudo nigeriano, no qual foram observadas 459 oportunidades de higienização das mãos em ambiente domiciliar durante o cuidado com o neonato, somente 1% foram consideradas adequadas31. Esse mesmo estudo mostra que as recomendações no momento da alta são infrequentes e não padronizadas, resultando no esquecimento pela mãe uma semana após a alta31.
Destacam-se também os cuidados com a pele do RN abordados nos checklists aqui propostos. A pele configura a principal barreira do corpo humano contra patógenos, além de favorecer a termorregulação e o equilíbrio eletrolítico32. Devido à imaturidade da pele do neonato - especialmente do estrato córneo - e sua consequente vulnerabilidade ao meio externo, é fundamental acompanhar a pele e a temperatura do RN desde a admissão32. Além de orientar os cuidadores quanto ao processo de higienização corporal e aos cuidados com a pele, é necessário que os cuidadores realizem os cuidados na prática sob supervisão ainda durante a internação, o que reduz o estresse e a insegurança25.
No que se refere ao risco de queda, os checklists propostos indicam a avaliação sistemática de travas de rodas de berços e incubadoras, fechamento das portinholas e fornecimento de informações ao acompanhante sobre a temática. Estudo que avaliou a adesão dos profissionais de saúde às ações de SP neonatal durante a admissão apontou rodas destravadas em 55,5% das observações27. Ademais, um segundo estudo mostrou baixa conformidade no fornecimento de informações referentes ao risco de queda do neonato no momento da alta24.
De forma geral, a literatura aponta que a família apresenta carga emocional significativa no momento da alta, o que pode influenciar o aprendizado de informações. Portanto, não basta apenas que o enfermeiro oriente, mas é necessário verificar se os cuidadores compreenderam e assimilaram as orientações9,25. Em particular, esses pontos podem ser verificados no momento do preenchimento do presente checklist.
Apesar de o checklist ser utilizado de forma bem estruturada em determinados ambientes, como centros cirúrgicos, promovendo desfechos positivos, nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), seu uso ainda é incipiente, especialmente em neonatologia16. A translação do conhecimento é um processo dinâmico e iterativo que inclui síntese, disseminação, troca e aplicação ética do conhecimento, para obter resultados benéficos para a sociedade, porém, na prática, esse processo ainda encontra diversas barreiras em níveis individuais e institucionais33.
Entre as dificuldades encontradas para a implementação dos checklists na prática, tem-se a dificuldade de monitoramento do uso do instrumento, o fato de alguns profissionais não acreditarem que essas ferramentas sejam capazes de prevenir erros assistenciais ou, ainda, que eles são experientes o suficiente para não precisarem de lembretes do seu processo de trabalho15,22. Portanto, uma das estratégias é incluí-los na formulação desses instrumentos e/ou envolvê-los nas etapas de implementação, revisão e avaliação. Para que o checklist possa se provar efetivo, entretanto, são necessárias, após elaboração e validação, capacitação, implementação, revisão e avaliação contínuas14, etapas ainda necessárias ao presente instrumento.
Apresenta-se como limitação o fato de o instrumento ainda não ter sido testado na prática clínica. É recomendável realizar estudos piloto em ambientes de prática e considerar testes de validação com usuários finais, para alcançar outros critérios e atributos, como sensibilidade, confiabilidade e praticabilidade no cotidiano profissional.
CONCLUSÃO
O conteúdo de dois checklists voltados para a admissão e alta seguras em UTINs foi elaborado e validado. Tratam-se de instrumentos com potencial transformador da prática, pois foram propostos com base em evidências científicas e práticas recomendadas, além de serem passíveis de adaptação a contextos individuais de assistência.
O envolvimento de profissionais experientes assegurou ao checklist relevância, em razão dos altos índices de concordância. A implementação desses checklists representa um avanço na promoção da segurança, na qualidade do cuidado e no registro de informações, contemplando um indicador importante de qualidade da assistência.
São necessários estudos que apliquem os checklists na prática, a fim de avaliar sua usabilidade e os possíveis impactos na SP neonatal. Destaca-se ainda a necessidade de revisões e avaliações contínuas, a fim de garantir a efetividade assistencial.
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