RESUMO
Objetivo: mapear as evidências científicas sobre as competências e habilidades profissionais de enfermeiros que atuam na saúde escolar.
Método: Revisão de escopo a partir do protocolo do Manual para Síntese de Evidências do Joanna Briggs Institute e redação orientada pelo Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews. A busca foi realizada nas bases de dados: Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature; Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde; Medical Literature Analysis and Retrieval System Online; SCOPUS; Web of Science; Science Direct; Educational Resources information Center; Embase; Google Scholar.
Resultados: Foram selecionados 20 estudos, nenhum deles de origem brasileira. As evidências científicas organizaram-se em quatro eixos temáticos: promoção, prevenção, assistência e educação em saúde. Verificou-se uma fragilidade na compreensão da função do enfermeiro na escola, com rotinas e regulamentações que variam de acordo com os aspectos socioculturais de cada território. As competências mais referidas foram comunicação, gerência e liderança.
Conclusão: As competências e habilidades em enfermagem mapeadas se mostraram diversificadas internacionalmente, no entanto, recomenda-se estudos que investiguem as práticas dos enfermeiros atuantes no contexto das políticas públicas de saúde estudantis brasileiras e uma melhor delimitação do conceito enfermagem escolar.
Descritores:
Serviços de Saúde Escolar; Serviços de Enfermagem Escolar; Promoção da Saúde Competência Profissional
ABSTRACT
Objective: to map scientific evidence on the professional competences and skills of nurses who work in school health.
Method: Scoping review based on the manual from the protocol for writing Evidence Syntheses from the Joanna Briggs Institute and the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses - extension for Scoping Reviews. The search was conducted in the following databases: Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature; Latin American and Caribbean Literature in Health Sciences; Medical Literature Analysis and Retrieval System Online; SCOPUS; Web of Science; Science Direct; Educational Resources Information Center; Embase; Google Scholar.
Results: Twenty studies were selected, none of them Brazilian. The scientific evidence was organized into four thematic axes: promotion, prevention, assistance, and health education. There was a shortcoming as the role of nurses in schools was not well understood, with routines and regulations that vary according to the sociocultural aspects of each territory. The most mentioned skills were communication, management and leadership.
Conclusion: The nursing competences and skills mapped proved to be internationally diverse, however, studies are recommended that investigate the practices of nurses working in the context of Brazilian student health public policies and a better delimitation of the concept of school nursing.
Descriptors:
School Health Services; School Nursing Services; Health Promotion; Professional Competence
RESUMEN
Objetivo: mapear la evidencia científica sobre las competencias y habilidades profesionales de los enfermeros que actúan en salud escolar.
Método: Revisión del alcance basada en el protocolo del Manual de Síntesis de Evidencia del Instituto Joanna Briggs y redacción guiada por los Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses - extension for Scoping Reviews. La búsqueda se realizó en las siguientes bases de datos: Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature; Literatura Latinoamericana y Caribeña en Ciencias de la Salud; Sistema de recuperación y análisis de literatura médica en línea; ESCOPUS; Web de la Ciencia; Ciencia directa; Centro de información de Recursos Educativos; Embase; Google Académico.
Resultados: Se seleccionaron 20 estudios, ninguno brasileño. La evidencia científica se organizó en cuatro ejes temáticos: promoción, prevención, asistencia y educación para la salud. Hubo debilidad en la comprensión del papel del enfermero en las escuelas, con rutinas y normativas que varían según los aspectos socioculturales de cada territorio. Las habilidades más mencionadas fueron comunicación, gestión y liderazgo.
Conclusión: Las competencias y habilidades de enfermería mapeadas resultaron ser diversas a nivel internacional; sin embargo, se recomiendan estudios que investiguen las prácticas de los enfermeros que actúan en el contexto de las políticas públicas de salud estudiantil brasileñas y una mejor delimitación del concepto de enfermería escolar.
Descriptores:
Servicios de Salud Escolar; Servicios de Enfermería Escolar; Promoción de la Salud; Competencia Profesional
INTRODUÇÃO
A escola é um cenário propício ao desenvolvimento da criança e do adolescente e deve estar apta a fornecer estímulos adequados aos aspectos cognitivo, afetivo e psicomotor. A enfermagem escolar se dedica ao acompanhamento deste processo, que se configura em um determinante social de saúde, exercendo atividades de promoção, prevenção e educação em de toda a comunidade1.
A origem do conceito de enfermagem escolar remonta ao final do século XIX, com a atuação pioneira de Lina Rogers Struthers, a primeira enfermeira escolar dos Estados Unidos, que implementou programas de saúde nas escolas de Nova York. Sua atuação demonstrou a importância da integração entre saúde e educação, estabelecendo as bases para o desenvolvimento da enfermagem escolar como uma prática especializada2.
Em muitos países, a enfermagem escolar se apresenta como uma vertente da atuação do enfermeiro que se especializou em reconhecer, rastrear e antecipar as necessidades de cuidado de um perfil de indivíduos3. Para alcançar um desempenho proficiente, é fundamental que este profissional se apoie em conhecimentos teóricos e práticos capazes de produzir resultados efetivos e compatíveis com as metas em saúde das crianças e dos adolescentes1.
Embora amplamente reconhecida em diversos países como uma especialidade voltada ao cuidado e à promoção da saúde de crianças e adolescentes no ambiente escolar, ainda não é oficialmente regulamentada como uma especialidade no Brasil, permanecendo, em grande parte, como uma atividade complementar às funções desempenhadas em outros contextos de saúde pública2. De toda sorte, esta inciativa é especialmente expressiva em áreas onde o acesso a serviços de saúde é limitado3.
No Brasil, o termo “enfermeiro escolar” tem raízes históricas que refletem as primeiras décadas do século XX, quando a enfermagem escolar se apresentou associada às ações de controle de doenças infecciosas em escolas, em um período em que as condições sanitárias eram precárias e a educação em saúde começava a ser integrada ao currículo2.
Em 2007, o decreto presidencial de nº 6.286 tornou o Programa Saúde na Escola (PSE) uma política pública4, orientada para a atividade intersetorial que articula saúde e educação para o enfrentamento das vulnerabilidades que ameaçam o desenvolvimento dos escolares brasileiros e sua formação cidadã5.
As ações em saúde previstas para o contexto do PSE consideram as competências multiprofissionais de atenção, promoção, prevenção e assistência, sendo desenvolvidas simultaneamente pelas redes públicas de saúde e de educação básica, coerentes com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS)5,6.
As ações compreendem avaliações da saúde dos educandos (clínica, oftalmológica, bucal, auditiva e psicossocial); atualização e controle do calendário vacinal; ações de prevenção do uso drogas; redução do consumo de álcool; redução da morbimortalidade por acidentes e violências; e controle do tabagismo e de outros fatores de risco de câncer. Ademais, ações de promoção da saúde sexual e reprodutiva, alimentação saudável, atividade física e cultura de paz; além da educação permanente em saúde e inclusão das temáticas de educação em saúde no Projeto Político Pedagógico (PPP) das escolas6.
Neste contexto, o enfermeiro atua, frequentemente, como educador, cuidador e agente promotor da saúde escolar, à frente de atividades como: palestras, formações profissionais, gincanas e eventos em saúde nos diversos cenários territoriais7. Contudo, a implementação de práticas de enfermagem em sáude escolar enfrenta desafios significativos. Entre eles, destaca-se a crescente privatização dos serviços de atenção primária à saúde no Brasil, o que exige alta produtividade dos profissionais de enfermagem, muitas vezes, em detrimento de ações de promoção da saúde que vão além das unidades de saúde8.
Outrossim, a alta rotatividade desses profissionais compromete a continuidade e a qualidade das ações intersetoriais propostas em políticas públicas de saúde, enfraquecendo o vínculo necessário entre os profissionais de saúde e a comunidade escolar. Em muitas localidades, a responsabilidade por essas ações recai sobre os Agentes Comunitários de Saúde (ACS), o que pode limitar a abrangência e a eficácia das intervenções em saúde escolar4.
Mesmo diante da complexidade e da importância dessa política de saúde, percebe-se fragilidades em sua operacionalização. Isto acontece em razão da carência de conhecimentos específicos, consistentes no que fazer e como fazer da enfermagem no cenário escolar. Além disso, em diversos países, registra-se fragmentações de ações intersetoriais, que se mostram pouco articuladas e episódicas7.
Dada a carência de estudos que discutem e apontem aspectos que reúnem diferentes realidades, experiências existosas e estratégias profícuas para a saúde escolar na prática da enfermagem, é inescusável trazer à tona esta oportunidade de pensar soluções e aprofundamentos que favoreçam uma articulação mais eficaz entre saúde e educação, e, por sua vez, contribuam com os objetivos 3 e 4 do desenvolvimento sustentável 8, de saúde e bem-estar e educação de qualidade.
A compreensão desta lacuna é socialmente relevante, uma vez que interfere diretamente na qualidade da assistência e do suporte prestados às crianças e jovens em ambiente escolar - e, por conseguinte, à família e à sociedade. É interessante melhorar a evidenciação das competências e habilidades necessárias à educação permanente de enfermeiros escolares que possam orientar e fortalecer políticas públicas de assistência ao escolar.
Desse modo, este estudo tem por objetivo mapear as evidências científicas sobre as competências e habilidades profissionais enfermeiros que atuam na saúde escolar.
MÉTODO
Desenho do estudo
Trata-se de uma Revisão de Escopo que corresponde a um estudo que tem como proposta rastrear informações sobre um conceito, cenário ou condição específica. Para a descrição desta pesquisa, utilizou-se o check list dos Principais Itens para Relatar Revisões Sistemáticas e meta-análises com extensão para Revisão de Escopo (PRISMA-ScR)9, sob o protocolo do Manual para Síntese de Evidências do Joanna Briggs Institute10 e com registro no Open Science Framework (https://osf.io/ahru9/)11.
Pergunta de Pesquisa, Busca e Critérios de Inclusão
A construção da pergunta de pesquisa ocorreu de acordo com o mnemônico “PCC”, sendo “P” para “População”, “C” para “Conceito” e “C” para “Contexto”, a saber: como se caracterizam as competências e habilidades profissionais do enfermeiro que atua no Serviço de Saúde Escolar?. Destaca-se que o PCC auxiliou a formulação da estratégia de busca por meio dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH) (Quadro 1).
Os critérios de inclusão foram: estudos que atendam ao objetivo proposto nesta pesquisa e publicados a partir de 2007 (ano de criação do PSE); estudos primários; estudos secundários do tipo revisões sistemáticas, metanálises e/ou metassínteses; livros e guidelines, publicados em fontes indexadas ou na literatura cinzenta; estudos com acesso aberto pelo portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio do acesso institucional CAFe. Não foi estabelecida restrição de idioma com a finalidade de resgatar estudos de diferentes nacionalidades.
Os critérios de exclusão foram: publicações de opiniões, consensos, retrações, editoriais, websites e propagandas veiculadas em mídias. Artigos em duplicata foram considerados uma vez.
A busca foi realizada nas seguintes bases de dados: Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) via Pubmed, Web of Science, SCOPUS, Science Direct, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Embase e Educational Resources information Center (ERIC). Ademais, com o objetivo de identificar outros estudos relevantes, procedeu-se à busca no Google Scholar (cinco primeiras páginas).
A expressão de busca se ajustou ao vocabulário adotado por cada base de dados (DeCS, MeSH Terms, Emtree, Palavras-chave e Termos CINAHL), em que a estratégia de busca avançada combinou os termos por meio de operadores booleanos (AND e OR). A estratégia de busca passou pelas bases Web of Science e MEDLINE, sendo eleita a terceira estratégia com maior potencial de resgate de estudos (Quadro 2).
Seleção, Análise e Tratamento dos Dados
A busca foi realizada entre os meses de março e maio de 2023, por dois pesquisadores independentes e às cegas, em todas as bases de dados. Os casos de divergências, quando houve, foram mediados por um terceiro pesquisador.
Os estudos triados foram classificados como elegíveis após a eliminação das duplicatas através do gerenciador de referências EndNote®. Os resultados obtidos foram exportados para o Rayyan®, desenvolvido pelo Qatar Computing Research Institute (QCRI), que possibilitou mais uma verificação de documentos duplicados e procedeu-se com seleção dos estudos a serem incluídos por dois pesquisadores às cegas por meio da leitura de títulos, resumo e na íntegra.
A amostra dos artigos foi tabulada em um instrumento de coleta de dados elaborado pela primeira autora deste estudo. Esses dados foram identificados por um código (ID), combinando a letra A e um número em ordem crescente iniciado pelo “1”, e agrupados em um quadro com os itens: código Identificador (ID), metodologia, ano, base de dados e objetivo, atividades do enfermeiro na escola. Em seguida, as competências e habilidades foram identificadas a partir das descrições das intervenções em enfermagem escolar e compreendidas tematicamente por eixos de ação, conforme discrimina o Sistema Único de Saúde (SUS) (prevenção, promoção, educação e assistência), no PSE.
Habilidades e competências são termos frequentemente usados no contexto educacional e profissional, mas têm significados distintos. Neste estudo, foram assumidos os conceitos compreendidos pelo Ministério da Educação (MEC), no qual as habilidades se referem à destreza operacional para executar as tarefas ou atividades específicas. Elas são geralmente adquiridas por meio de treinamento, prática e experiência, e são mais voltadas para o saber fazer11.
As competências englobam a capacidade de alinhar um conjunto mais amplo de conhecimentos, habilidades e atitudes que permitem uma pessoa agir eficazmente em diferentes contextos de uma determinada atividade. Enquanto as habilidades são mais abrangentes e multidimensionais, uma vez que envolvem a aplicação integrada e especifícas de técnicas, sociais, emocionais, cognitivas e éticas para desempenhar uma função com excelência12.
A partir da descrição de cada intervenção realizada pelos enfermeiros escolares, foi possível inferir que a competência é um elemento que articula um conjunto de habilidades semelhantes para um determinado fim. No relato das ações dos enfermeiros, algumas condutas, frequentemente reiteradas e repetidas para um tipo de intervenção, foram identificadas como padrões e classificadas como competências essenciais para a prática do cuidado em contextos escolares.
Em seguida, as intervenções foram analisadas detalhadamente, destacando-se as habilidades operacionais para a execução da competência dentro da intervenção, algumas destas estão destacadas explicitamente nos artigos.
Por meio desta análise, compreendeu-se as capacidades necessárias para a efetiva atuação dos enfermeiros em ambientes educacionais, evidenciando como a competência coordena diferentes habilidades para uma resolução prática.
RESULTADOS
A pesquisa resultou, inicialmente, em 72.132 registros, sendo três recuperados pelo Google Scholar. Após a remoção das duplicatas e aplicação dos critérios de inclusão, permaneceram 634 para o processo de seleção por títulos e resumos. Nesta etapa, 597 foram excluídos, por não atenderem aos critérios pré-estabelecidos, resultando em 37 estudos para avaliação na íntegra. Nesta fase, 17 estudos foram excluídos e 20 artigos foram incluídos, pois atenderam aos critérios de elegibilidade (Figura 1).
Fluxo do processo de seleção dos estudos para a revisão de escopo baseado no Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) - Recife, PE, Brasil, 2023.
Dos 20 registros incluídos, todos foram publicados em inglês. Quanto à origem, 12 foram produzidos no continente Americano, seis na Europa, um na Ásia e um na África. Quanto ao método utilizado, 11 eram estudos quantitativos, dois eram revisões ou orientações baseadas em estudo bibliográfico e seis eram qualitativos (Quadro 3).
As informações contidas nos registros incluídos compreendem as competências e habilidades do enfermeiro direcionadas a objetivos para a saúde do aluno, bem como recomendações técnicas e gerenciais, a saber: promoção à saúde, assistência à saúde, prevenção em saúde e educação em saúde (Quadro 4).
Competências e Habilidades de Enfermagem no Serviço de Saúde Escolar
Os estudos indicaram que as competências do enfermeiro escolar estão compreendidas em intervenções assertivas que requisitam um conhecimento aprofundado do perfil e das necessidades dos estudantes, bem como a administração de recursos humanos e materiais para o alcance dos objetivos em saúde13-16,23,27,31. As competências para esta atuação versam sobre: Liderança14,17-19,22,24,31; Gerenciamento14,19,20,22; Planejamento16,27,32; Comunicação13-16,17,20,23-26,28-32; Articulação e colaboração17,18,25,30,32; Advogar pelo indivíduo ou coletividade17-19; e Perícia clínica em avaliações de saúde15-17,21,24,32.
As habilidades, que constituem o processo de operacionalização das competências e alcance das demandas em saúde, mostraram-se em concordância como uma série de requisitos fundamentais para o fortalecimento de vínculos entre a escola, a família e o serviço de saúde. Pode-se inferir como habilidades: orientar em saúde; acolher o indivíduo, família ou coletividade; ter o conhecimento específico para manejar a condição de saúde; preparação para ensinar, desenvolver e aplicar políticas de saúde; investigar, descrever e monitorar eventos de saúde, encaminhar e acompanhar em saúde; triar e administrar as necessidades de saúde; aconselhar em saúde; realizar consulta de enfermagem; entre outros 13-31.
As habilidades pressupõem o pleno domínio das competências teórico-práticas, sendo inferidas uma a partir da outra. Uma relação de correlação ou influência entre os conjuntos de competências e habilidades não foi apontada dentre os estudos, mas é sugerido a partir da interpretação das intervenções registradas (Figura 2).
Competências e habilidades de enfermeiros escolares inferidas a partir dos estudos. Recife, PE, Brasil, 2023.
Educação em Saúde na Escola
A educação em saúde na escola é descrita de modo objetivo com o planejamento de atividades que concorrem com as carências de cada público escolar13,14,18, e mostram-se imbricadas às condições socioeconômicas, espirituais e transculturais da coletividade25,26,28. O enfermeiro escolar obtém êxito em atividades de educação em saúde quando ensina sobre cuidados que pertencem à realidade daquele conjunto, com segurança, autonomia e respaldo teórico e técnico17,29-31.
A educação em saúde no serviço de saúde escolar foi apontada como um objetivo geral que recruta estratégias importantes para fortalecer a saúde e o bem-estar dos estudantes 18,21,27, contribuindo para seu desenvolvimento integral e para a formação de cidadãos conscientes e responsáveis22-24. Ao fornecer informações e habilidades essenciais para a promoção da saúde, essa abordagem visa melhorar a qualidade de vida dos alunos e promover uma cultura de saúde dentro das escolas e comunidades21-26.
Os temas relacionados à saúde abarcam uma variedade de vulnerabilidades, como higiene pessoal, alimentação saudável, atividade física, prevenção de doenças, educação sexual, uso de drogas e álcool, saúde mental, entre outros 13,14,17,25,28. Esses temas são abordados de forma integrada ao currículo escolar, por meio de aulas, palestras, projetos, campanhas e atividades extracurriculares 13,14,18,28.
Além disso, a Educação em Saúde no Serviço de Saúde Escolar busca promover a participação ativa dos estudantes e familiares, incentivando-os a assumir a responsabilidade por sua própria saúde e a se envolverem em atividades de promoção da saúde dentro e fora da escola 27,28.
Prevenção em Saúde Escolar
A enfermagem desempenha um papel fundamental na prevenção, no Serviço de Saúde Escolar, contribuindo para a promoção da saúde e do bem-estar dos estudantes20,21. Os enfermeiros que atuam nessa área são responsáveis por fornecer cuidados de enfermagem, educação em saúde e intervenções preventivas para os alunos.
O enfermeiro tem a importante tarefa de realizar exames de saúde periódicos nos alunos, com o objetivo de identificar possíveis problemas, como deficiências visuais, auditivas, problemas posturais, distúrbios nutricionais, entre outros13,14,17,18-22,27,29. Esses exames permitem uma detecção precoce e intervenção adequada, contribuindo para a prevenção e o tratamento de condições de saúde13,27.
A enfermagem também desempenha um papel importante na administração de vacinas e imunizações. Além disso, os enfermeiros escolares estão preparados para lidar com situações de emergência e primeiros socorros25,28,29. Eles são treinados para fornecer atendimento imediato em casos de lesões, acidentes ou doenças agudas que possam ocorrer durante o horário escolar. Sua presença e prontidão ajudam a garantir a segurança e o bem-estar dos estudantes14,21,22), .
Há grande ênfase na identificação e na prevenção de problemas de saúde mental entre os alunos. Eles estão atentos aos sinais de ansiedade, depressão, bullying e outros problemas emocionais, e trabalham em estreita colaboração com os profissionais de saúde mental para oferecer suporte adequado aos estudantes14,20.
Promoção da Saúde Escolar
Uma das formas de atuação do enfermeiro escolar é na promoção da saúde21. Ele fornece, além das orientações, ferramentas facilitadoras que viabilizam a consolidação dos hábitos saudáveis24-26. Essas ações são essenciais para capacitar os alunos a tomarem decisões informadas sobre sua saúde e adotar hábitos saudáveis desde cedo29,30.
A promoção da saúde escolar abrange desde a educação em saúde até o diagnóstico ou suspeita de problemas de saúde, administração de vacinas, suporte ao gerenciamento de doenças crônicas e apoio à saúde mental dos alunos26. Sua presença no ambiente escolar contribui para a criação de um ambiente saudável, seguro e propício ao aprendizado, promovendo o bem-estar dos estudantes e a capacidade de alcançar o pleno potencial acadêmico e pessoal16-18.
Assistência de Enfermagem à Saúde do Escolar
O objetivo da assistência de enfermagem à saúde do escolar é promover e preservar a saúde dos estudantes, fornecendo cuidados de enfermagem adequados ao ambiente14,15. As ações do enfermeiro compreenderam medidas preventivas, curativas e de reabilitação, visando garantir o bem-estar e o desenvolvimento saudável dos alunos19,20.
Há ainda relatos de administração de medicamentos e cuidados básicos de enfermagem no ambiente escolar, pois se trata de um profissional apto em lidar com situações emergenciais, como quedas, lesões, crises convulsivas etc., fornecendo primeiros socorros, realizando curativos, monitoramento da administração de medicamentos prescritos e orientação dos alunos sobre cuidados de saúde14,15,17,19,20.
O trabalho do enfermeiro foi visto como relevante no diálogo de orientação aos pais e responsáveis pelos estudantes17,19, haja vista que esse profissional fornece informações sobre cuidados de saúde, esclarece dúvidas e orienta sobre medidas preventivas a serem adotadas em casa14,20.
DISCUSSÃO
As habilidades são derivadas das competências adquiridas e se referem ao nível prático do saber fazer. As competências estão relacionadas à capacidade de realizar tarefas complexas e são conceituadas como as estruturas fundamentais da nossa capacidade intelectual. Assim, são as habilidades e ações que utilizamos para estabelecer conexões e interações com objetos, situações, fenômenos e pessoas que desejamos compreender. Por meio das ações e operações que realizamos, as habilidades são aprimoradas e se combinam, permitindo uma nova reorganização das competências existentes33.
Ao analisar a literatura, é possível perceber a práxis em enfermagem no meio escolar como a operacionalização de um conjunto de competências e habilidades que incidem sobre os objetivos de prevenção, promoção, assistência e educação em saúde. Em uma intervenção multinível no sistema escolar estadunidense, constatou-se que os enfermeiros escolares conseguiram encaminhar os alunos ao sistema de saúde para serviços de triagem de infecções sexualmente transmissíveis e contracepção, além de ofertar preservativos13.
Em outro estudo, o engajamento do enfermeiro em um ambiente escolar seria estatisticamente significativo, mais apreciado pelas meninas em comparação com os meninos, não apenas para resolver problemas relacionados a um estilo de vida saudável, mas também em relação à sexualidade, parentalidade e casamento34. Portando, é possível verificar que a presença de um enfermeiro escolar também seria capaz de realizar com sucesso a educação sexual nas escolas13,25,28,33.
As habilidades relacionadas à liderança transformacional e situacional dos enfermeiros escolares são fatores que agregam culturalmente em ambientes escolares31. Foi verificado que a competência da liderança colabora com o desenvolvimento de planos de cuidados dos alunos. Diante disso, as experiências internacionais mostram que os enfermeiros realizam intervenções com alunos, pais e funcionários da escola para promover a saúde e o sucesso acadêmico dos estudantes14,17-19,22,24,31,32.
Essas atividades contribuem para a diminuição da evasão escolar, aumento da adesão à imunização, melhoria do manejo de condições crônicas, prevenção de doenças, apoio na identificação e gerenciamento de problemas mentais e questões de saúde, bem como suporte psicossocial, porém a indisponibilidade de profissionais para o desenvolvimento da enfermagem escolar impossibilita efetivar ações integradas, sendo este um impeditivo para o planejamento e a continuidade da gestão intersetorial34,35.
Ao promover um ambiente escolar saudável na Dinamarca, observou-se a implementação de um plano de prevenção à violência escolar, ao bullying, aos desastres e ao terrorismo20. Diante disso, os enfermeiros escolares desempenham um papel essencial na proteção de crianças e jovens36. Em estudos suecos e estadunidenses, o enfermeiro é considerado como um profissional-chave, que pode identificar sinais precoces de maus-tratos, fornecer suporte emocional, educar a comunidade escolar e colaborar com outros profissionais para garantir a segurança e o bem-estar das crianças e dos jovens nas escolas23,26,37.
A violência e o bullying nas escolas são problemas significativos que afetam o bem-estar físico e mental dos estudantes brasileiros. Políticas de conscientização e prevenção, além de intervenções diretas, são essenciais para criar ambientes escolares seguros e acolhedores. A eficácia dessas políticas, entretanto, varia amplamente, com algumas escolas implementando programas robustos enquanto outras carecem de recursos e treinamento adequados38.
As habilidades e práticas de educação em saúde que abordam tópicos como nutrição, exercícios, prevenção e cessação do tabagismo, saúde bucal, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e outras doenças infecciosas, gravidez na adolescência, parentalidade e outros, são fundamentais para a diminuição destes eventos na saúde do escolar13,14,17,18,28.
A educação em saúde ministrada pelos enfermeiros escolares pode levar a uma melhoria no conhecimento e nas atitudes em relação à saúde, resultando em comportamentos mais saudáveis entre os alunos15,37,39. Além dos efeitos diretos na saúde dos alunos, as intervenções do enfermeiro escolar também foram associadas a benefícios no rendimento educacional39.
O enfermeiro escolar, em contextos como nos Estados Unidos e Egito, que atuam em enfermarias escolares, são o elo de ligação entre o pessoal da escola, a família, os profissionais de saúde e a comunidade17,18,25. Além disso, a competência gerencial, em casos de alunos com problemas de saúde e administração de recursos, garante que haja comunicação e colaboração adequadas entre a família, equipes de saúde, escolar e os provedores de recursos comunitários14,23-26. Esta é uma interface crucial, na qual o enfermeiro escolar atua junto a organizações comunitárias e equipe de cuidados primários para tornar a comunidade um lugar saudável para todas as crianças e famílias25,30,32.
Embora os serviços de saúde escolar varie de acordo com o território, política, cultura e recursos, atualmente, enfermeiros escolares estão despreparados13,16,25,39. De acordo com o manual da Academia Americana de Pediatria (AAP) School Health: Policy and Practice, os seguintes serviços de saúde são o mínimo a serem oferecidos: avaliação de queixas de saúde, administração de medicamentos e atendimento a alunos com necessidades especiais de saúde; sistema de gestão de emergências e situações de urgência; programas obrigatórios de triagem de saúde; verificação de imunizações e notificação de doenças infecciosas; e identificação e gerenciamento das necessidades crônicas de saúde dos alunos que afetam o desempenho educacional40.
A AAP reconhece a necessidade de gerenciamento adequado das condições de saúde do aluno em sua declaração de política, como também a necessidade de políticas para situações médicas de emergência que podem ocorrer na escola e o papel do enfermeiro escolar no desenvolvimento e implementação dessas políticas40. Esse profissional atua como uma extensão dos serviços tradicionais de saúde da comunidade, garantindo a continuidade, adesão e supervisão profissional dos cuidados dentro do ambiente escolar 27,37.
As atividades que exigem as competências de colaboração intersetorial e comunicação, para o melhor acolhimento e provisão de estratégias em saúde, incidem sobre a importância e qualidade do vínculo que deve ser criado entre enfermeiros escolares e educandos, exigindo habilidades de flexibilidade em suas abordagens13-16,30,32.
Este fenômeno é observado a partir de seis condutas: esforçar-se para estabelecer confiança relacionamentos; ajudar as meninas a alcançar uma visão sobre sua situação; promover suporte a um ritmo de vida saudável; ser confiável quando as adolescentes estão com problemas sérios; tentar minimizar valores e atitudes; e colaborar para apoiar a saúde e a aprendizagem26.
A Associação Nacional de Enfermeiras Escolares detalhou algumas funções abrangentes e aplicáveis, com destaque para a triagem e para o encaminhamento das condições de saúde, diminuindo, dessa forma, os efeitos negativos dos problemas de saúde na educação e identificando precocemente os possíveis problemas médicos. A triagem inclui, mas não está limitada a avaliações de visão, audição e índice de massa corporal (IMC)41.
Quando observados no contexto brasileiro, verificamos um aspecto distintivo que é a aplicação dos princípios doutrinários do SUS (equidade, universalidade e integralidade), proporcionando uma porta de acesso, por meio das unidades básicas de saúde com assistência regionalizada e descentralizada, capaz de acolher e acompanhar os estudantes, bem como encaminhar para serviços especializados de saúde em casos necessários. A implementação do PSE, dentre outras inciativas (Programa Nacional de Assistência Estudantil), pode influenciar significativamente a função do enfermeiro que se aloca ou realiza visitas de saúde nas escolas, alinhando suas ações às estratégias do SUS3,4.
Além disso, o enfermeiro escolar deve oferecer cuidados diretos aos alunos, incluir um plano de saúde personalizado para estudantes com condições crônicas e elaborar um plano de emergência para lidar com situações emergenciais no ambiente escolar, como diabetes e asma. Não estão excetuados os cuidados prestados às crianças com necessidades especiais de saúde42.
Em diversos contextos, o enfermeiro se apresenta como líder da equipe de saúde escolar, e deve coordenar a avaliação do crescimento e do desenvolvimento em saúde do aluno, identificar problemas de saúde que possam dificultar o progresso educacional e desenvolver um plano de saúde para o gerenciamento dos problemas no ambiente escolar28-32,43,43.
Um estudo na Grécia16 indicou o envolvimento moderado em programas de promoção da saúde devido às políticas de saúde existentes definidas principalmente pelo pessoal escolar e pelos serviços do Estado. A ausência de uma estrutura legislada sobre o papel do enfermeiro escolar com a descrição do trabalho assumido apresentou uma consequente diminuição do envolvimento com a saúde e atividades de promoção16.
No Brasil, os investimentos em infraestrutura escolar e recursos financeiros adequados e contínuos para programas de saúde escolar marcam a desigualdade da oferta desse serviço ao longo do território. A escassez da capacitação de profissionais de educação e saúde figura intervenções fragmentadas e pontuais na implementação das políticas de saúde na escola44.
Enfermeiros escolares de instituição de financiamento privado realizam uma quantidade significativa de cuidados de saúde diretos, ainda que as seguradoras não ofereçam suporte financeiro (14. Com isso, diferentemente do que ocorre no Brasil, nos Estados Unidos é mais provável que uma criança seja assistida por um enfermeiro escolar do que um prestador de cuidados primários, o que evidencia ser esta categoria mais acessível aos cuidados com os estudantes26,27.
Outro estudo revelou que muitas escolas públicas dos Estados Unidos enfrentam desafios na provisão de serviços de enfermagem eficazes45. Muitas escolas têm uma proporção insuficiente de enfermeiros para alunos, o que pode resultar em acesso limitado aos cuidados de saúde. Além disso, a falta de financiamento e recursos adequados também pode afetar a capacidade dos enfermeiros escolares de atender as necessidades dos alunos. Destaca-se a importância de políticas e diretrizes eficazes para apoiar a prática de enfermagem em escolas públicas45.
A Organização Mundial da Saúde46 indicou a relevância de serviços de saúde escolar abrangentes que incluem a promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento e apoio aos alunos com problemas de saúde. Os serviços de saúde escolar devem ser baseados em evidências, sendo culturalmente adequados e fornecidos por profissionais de saúde qualificados.
Embora haja diferenças culturais e sociodemográficas, há desafios à saúde escolar comum em países norte-americanos, que possuem um sistema de saúde privado, e países como o Reino Unido, a Grécia, o Egito e o Brasil, que oferecem um sistema de saúde universal e gratuito, configurando-se como insumos ineficazes para sustentar ações contínuas e a falta de apoio ou interesse dos pais e professores15,16,24,25,30. Assim, incentivos que estimulem a promoção regular da saúde, aprimoramento das habilidades e a incorporação da educação em saúde no currículo escolar são estratégias que cooperam com a qualidade da promoção à saúde infantil47.
Apesar de os enfermeiros escolares serem frequentemente apontados como essenciais para a saúde e educação, a comunidade percebe que poderiam fornecer mais serviços mediante recursos adequados e tempo disponível 13,25-28. Em virtude da escassez de estudos rigorosos, tornou-se difícil mensurar o impacto das intervenções nos resultados de saúde mental dos alunos, fazendo com que os enfermeiros continuem se sentindo despreparados e sem apoio nessa área13,46.
Desse modo, a utilização dos serviços de saúde durante a rotina escolar suscita questões sobre seu impacto nos resultados educacionais e de saúde. Ainda que setorizar a saúde dentro da escola não seja proposta, é apropriado melhorar o aproveitamento da oferta de ações de saúde. Isso diminui o aproveitamento dos enfermeiros escolares e dos prestadores de cuidados primários em promover a saúde dos escolares. É necessário melhorar os sistemas e as redes de comunicação e articulação intersetorial.
Devido às limitações temporais, é possível que alguns estudos relevantes não tenham sido incluídos na revisão da literatura. No entanto, argumenta-se que esta exclusão não teria um impacto substancial nos resultados, considerando a saturação dos dados obtidos. Por fim, uma das limitações notáveis é a variação no conceito das atribuições dos enfermeiros no ambiente da educação brasileira e o termo enfermagem escolar, dificultando a síntese de evidências consistentes e abrangentes, destacando a necessidade de mais estudos que avaliem essas práticas e competências no cenário escolar brasileiro para a (re)formulação de políticas públicas mais eficazes e inclusivas.
CONCLUSÃO
As competências e habilidades do enfermeiro nos serviços de saúde escolar foram mapeadas nas estratégias e intervenções empenhadas por esses profissionais, que se mostraram em estabelecidas no cenário internacional, indispensáveis à conduta assertiva para a saúde e ao rendimento escolar de crianças e adolescentes. Essas competências e habilidades são: comunicação, perícia clínica, liderança, articulação e colaboração, gerenciamento, advogar pelo paciente/coletividade e planejamento.
Diante da contextualização da prática da enfermagem escolar, foi possível indicar experiências internacionais exitosas, com possibilidade de incentivar e fortalecer a integração entre saúde e educação, aprimorando os resultados de saúde no ambiente escolar. Todavia, em virtude da inexistência formal de enfermeiros escolares no Brasil e das fragilidades na compreensão do termo “enfermagem escolar”, recomenda-se estudos que investiguem as práticas dos enfermeiros atuantes no contexto das políticas públicas de saúde estudantis, assim como uma melhor delimitação do conceito enfermagem escolar.
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Fonte: Dados da pesquisa, 2023.
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