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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.13 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/2176-457335404 

ARTIGOS

O intérprete de libras-português no contexto de conferência: reflexões sobre sua atuação

Kátia Andréia Souza dos Santos* 
http://orcid.org/0000-0003-4351-3618

Cristina Broglia Feitosa de Lacerda** 
http://orcid.org/0000-0002-3250-1374

*Universidade do Estado do Pará - UEPA/PA, Centro de Ciências Sociais e Educação, Belém, Pará, Brasil; CAPES/PROEX - Nº do Processo: 23038.005155/2017-67; https://orcid.org/0000-0003-4351-3618; katiaandreiasantos@gmail.com

**Universidade Federal de São Carlos - UFSCar/SP, Centro de Educação e Ciências Humanas, São Carlos, São Paulo, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-3250-1374; cbflacerda@gmail.com


RESUMO

Esta pesquisa aborda o ato interpretativo e tem como objetivo conhecer melhor a atuação do intérprete de língua brasileira de sinais (Libras), que atua na modalidade simultânea, no contexto de Conferências acadêmicas. A reflexão sobre esta prática baseia-se em autores que se fundamentam em conceitos bakhtinianos. Assim, foi desenvolvida pesquisa descritiva de abordagem qualitativa, usando a técnica da autoconfrontação simples na coleta de dados. O estudo mostrou que a conferência é um contexto complexo de atuação para esses profissionais, quanto: (i) ao tempo necessário para tomada de decisões; (ii) à exposição resultante do destaque físico; (iii) à posição, ao lado ou um pouco à frente no palco, e (iv) ao preparo, que por vários motivos nem sempre é possível ser previamente executado. A compreensão mais aprofundada do contexto de interpretação em Conferência favorece a proposição de ações formativas adequadas às demandas e indica a necessidade de novos estudos nesse campo.

PALAVRAS-CHAVE: Contexto de conferência; Intérprete Libras-português; Autoconfrontação

ABSTRACT

This research approaches the interpreting act and aims to better understand the performance of Brazilian sign language (Libras) interpreters who work in the mode of simultaneous translation in academic conferences. It reflects on this practice based on authors whose studies are founded on Bakhtinian concepts. Thus, a descriptive qualitative approach was developed using the simple self-confrontation technique during data collection. The study showed that a conference is a complex context for interpreters to work due to: (i) time required for decision making; (ii) highlighted physical exposure; (iii) interpreter positioning on stage (towards the side or the front of the stage), and (iv) need for advance preparation, which is not always possible. In-depth understanding of the interpretation context in conferences makes it possible to propose qualifying actions that can meet the demands of the interpreting act and points out the need for new studies in the field.

KEYWORDS: Conference context; Libras-Portuguese interpreters; Self-Confrontation

Introdução

Nos moldes atuais, o intérprete de língua de sinais (ILS1) desenvolve suas atividades de trabalho realizando a comunicação entre falantes de duas línguas diferentes, uma auditivo-oral e outra viso-gestual, possibilitando a comunicação entre eles. Segundo Quadros (2004, p.9) essas línguas são denominadas Língua Fonte (LF), língua que o intérprete ouve ou vê e que, a partir dela, faz a tradução e interpretação para a outra língua, denominada Língua Alvo (LA). Ainda segundo a autora, traduzir e interpretar são atividades de naturezas distintas. “Vale destacar que o termo tradutor é usado de forma mais generalizada e inclui o termo interpretação” (QUADROS, 2004, p.9).

Utilizaremos os conceitos de LF e LA descritos pela autora, porém compreendemos que os atos de traduzir e interpretar são distintos e abordaremos especificamente a atuação do intérprete de libras-português em situação de conferência acadêmica, ou seja, atos de interpretação.

O intérprete recebe a informação na LF e deve escolher como enunciar essa informação na LA. Essa escolha não é simples, pois não são somente palavras pronunciadas, mas ideias e opiniões. Não se encontram referentes diretos de uma língua na outra, e por isso é necessário interpretar o significado do que foi dito em uma língua e buscar manter o sentido o mais próximo possível na outra língua.

Assim, as escolhas feitas devem levar em consideração mais do que a palavra em si, em seu sentido literal. Durante sua atuação, o profissional passará por momentos de decisões que ocasionarão o uso de estratégias para conseguir alcançar as línguas fonte e alvo, “e um pormenor gramatical pode, às vezes, modificar todo o teor do que se diz” (VYGOTSKY, 2008, p.160).

A maioria das pesquisas a respeito da atuação do ILS está focada na área educacional, e poucas se interessam pelo intérprete em outras áreas de atuação, como conferências acadêmicas. Nessa área podemos citar as pesquisas de Barbosa (2014) e Nogueira (2016) como pioneiras em nosso país. Por ser um ambiente pouco explorado e que apresenta muitas questões a serem discutidas, propõe-se, neste estudo, explorar esse campo de atividade. Conferências acadêmicas apresentam um contexto mais formal, com dinâmica própria, em que não cabem interferências, o que torna a atuação do intérprete mais tensa e cansativa. Nesse cenário, dependendo da quantidade de horas a serem trabalhadas, os intérpretes de línguas de sinais, como os de línguas orais, organizam-se em revezamento entre dois ou mais profissionais a cada vinte ou trinta minutos, buscando oferecer ao público a melhor interpretação possível.

Mesmo com essa configuração, a atuação do profissional é solitária, já que por mais que haja revezamento entre intérpretes não há necessariamente um feedback dos surdos que assistem às conferências. Não há tempo para discutir sobre a atuação do intérprete, algo comum em contextos informais. Nesse sentido, investigar aspectos dessa prática pode ser proveitoso para aqueles que atuam nesse campo.

Este trabalho está organizado da seguinte forma: Introdução; 1. Interpretação - explicitando aspectos da discussão teórica; 2. Interpretação Simultânea e o intérprete em sua atuação, caracterizando a situação específica de interpretação; 3. Autoconfrontação Simples, com os pressupostos teóricos dessa abordagem metodológica; 4. Percurso Metodológico; 5. Análise dos Dados; Considerações Finais e as Referências utilizadas.

1 Interpretação e tradução

É comum encontrar a expressão tradutor-intérprete sendo usada como uma palavra composta, o que faz pensar que ambos os termos se referem a um único significado. No entanto, há características distintas em cada uma dessas atividades. Para Pagura (2003, p.210), no Brasil, alguns autores utilizam os termos tradução e interpretação como sinônimos, reflexo talvez do uso do termo tradutor-intérprete pela Lei 5692/71 (Lei da Reforma do Ensino de 1971), que se referia às duas atividades como uma só. Outra explicação seria que, embora saibam que se trata de atividades diferentes, detêm a “ideia de que os fundamentos teóricos são, de fato, os mesmos tanto no processo de tradução como no da interpretação.” (PAGURA, 2003 p.218).

Mesmo sendo atividades que se originam de um mesmo processo, compreende-se que cada uma possui características próprias. Além da origem em comum, assemelham-se, ambos profissionais - tradutor e intérprete, na necessidade de terem uma boa compreensão de assuntos diversos e conseguirem expressar ideias relacionadas a eles, mesmo não sendo especialistas. No contexto de conferências, esse aspecto fica bastante evidente, pois sua atuação pode acontecer em eventos dos mais variados temas.

O contexto de conferência analisado neste estudo é o de conferências acadêmicas, no qual o intérprete trabalha, em geral, vertendo para língua de sinais conteúdos científicos e de pesquisas. Comumente, trata-se de um pesquisador/professor bastante experiente em seu campo de estudo que fala para uma audiência interessada em ampliar seus conhecimentos sobre aquele tema específico. Esse contexto é peculiar, por ser um momento de exposição de ideias, em um tempo pré-determinado, o que muitas vezes faz com que os palestrantes acelerem suas explanações, usem um vocabulário bastante específico de suas áreas de estudo, e abordem temática, em geral, bastante complexas. A demanda de trabalho dos ILS vem aumentando para esse contexto, em função da ampliação do acesso das comunidades surdas ao ambiente acadêmico. O contexto de conferência se diferencia de outros, pois a interação entre palestrante e plateia é limitada e existem protocolos específicos que geram explanações mais formais.

2 Interpretação simultânea e o intérprete em sua atuação

A interpretação simultânea (IS), usada inicialmente nos tribunais após a segunda grande guerra (PAGURA, 2003, p.211) é a modalidade de interpretação mais utilizada nas grandes reuniões internacionais. A IS permite dinamismo às reuniões e possibilita a participação ilimitada de línguas. No caso das línguas orais, a simultaneidade demanda equipamentos2, como cabine com intérpretes que se ajudam, microfones e fones de ouvido, de modo que apenas suas vozes cheguem à audiência.

A modalidade simultânea é a mais amplamente utilizada hoje em dia [...] Nessa modalidade, os intérpretes - sempre em duplas - trabalham isolados numa cabine com vidro, de forma a permitir a visão do orador e recebem o discurso por meio de fones de ouvido. Ao processar a mensagem, re-expressam-na na língua de chegada por meio de um microfone ligado a um sistema de som que leva sua fala até os ouvintes, por meio de fones de ouvido ou receptores semelhantes a rádios portáteis. [...] (PAGURA, 2003, p.211-212; grifos do autor).

A IS é complexa, difícil e cansativa, pois estão envolvidos nessa atuação restrição de tempo, escolhas adequadas, preparo amplo sobre os mais diversos aspectos, além de questões relativas ao contexto específico de cada situação. O intérprete, dentre várias habilidades, deverá conhecer as línguas em questão no ato interpretativo, o que envolve não só saber as palavras nas duas línguas, mas possuir vasto conhecimento gramatical, linguístico, cultural, mantendo os sentidos pretendidos, para além da literalidade. Sua responsabilidade é grande frente às dificuldades que aparecem ao longo de sua atuação. Sobral (2008), fundamentado na perspectiva bakhtiniana, afirma que o profissional da área

[...] exprime em outra língua aquilo que é expresso de uma dada maneira numa língua, levando em conta a correspondência entre os modos de expressão das duas línguas envolvidas. Isso implica que entender o que é expresso é entender, mais do que o texto ou o sentido das “palavras” e “frases” que compõem esse texto, tomados isoladamente, aquilo que o sujeito que produziu esse texto quer indicar sobre como se deve entender o que exprime: como afirmação, recusa, agressão, aceitação, ordem, obediência, brincadeira, etc. para ficar numa descrição geral (p.82-83).

O intérprete de conferência de qualquer língua trabalha em equipe, em função da especificidade do evento, o que demanda dos profissionais um revezamento a cada 20 ou 30 minutos, devido ao alto grau de concentração necessário. Com base em Hoza (2010) e Nogueira (2016) esclarecem que as equipes são organizadas quando envolvem situações de longa duração, ou diante de configurações complexas e com necessidades singulares, ou inclusive que envolvam um ambiente complexo do ponto de vista emocional e físico.

No contexto complexo de interação, o intérprete tem a difícil função de verter uma língua em outra, sem se deixar influenciar apenas por suas próprias bagagens culturais e históricas. Não há neutralidade possível, pois todos são sujeitos constituídos por suas vivências e interações, que não podem ser subtraídas. É preciso que o intérprete esteja atento àquilo que o enunciador pretende dizer e ao sentido que é possível conferir ao discurso, levando em conta suas experiências culturais e como elas se interpenetram em seu ato interpretativo, pois “o discurso vem a existir fundamentalmente por meio de um processo de produção de sentidos realizado por, para e entre sujeitos” (SOBRAL, 2008, p.59).

Os indivíduos e suas relações com a língua são determinantes nesse processo, pois a língua não pode ser pensada separada das interações humanas que a constituem enquanto língua. A língua se faz por e para falantes dentro de um contexto social, que compartilham das mesmas convenções associativas entre significado e significante, para expressarem pensamentos e ideias. Ela não está pronta a espera de quem a use, mas sim, se atualiza à medida que é usada. “Em sua essência, a palavra é um ato bilateral. Ela é determinada tanto por aquele de quem ela procede quanto por aquele para quem se dirige. Enquanto palavra, ela é justamente o produto das inter-relações do falante com o ouvinte” (VOLÓCHINOV, 2017, p.205; grifos do autor).

Assim, o intérprete deve pensar questões que envolvem a língua, suas relações e interlocutores, pois buscará, em outro mundo cultural, linguístico e histórico, sentidos expressos em um determinado contexto. Portanto, o ato interpretativo envolve muito mais do que verter palavras de uma determinada língua para que seja compreendido em outra, porque estão em jogo vários fatores que não envolvem somente a língua, mas as relações que se estabelecem a partir dela e para além dela.

3 Autoconfrontação simples

Na autoconfrontação, a tríade observação/atividade/subjetividade permite novos olhares e mudanças internas que serão levadas ao social, aos novos contextos, e “graças à autoconfrontação, formas de fazer muito características aparecem e provocam um discurso específico” (FAÏTA, 2004, p.75).

Proposta por Yves Clot (2010, p.138), como método dialógico da análise do trabalho, a autoconfrontação simples é uma metodologia que utiliza vídeos para confrontar o sujeito com sua prática de trabalho, criando a possibilidade de reflexão sobre suas ações, pois não faz uso de experimentos, com situações simuladas, mas sim de ações reais de trabalho, em que os trabalhadores possam pensar sobre o seu agir real.

A situação de autoconfrontação é aquela em que os operadores, expostos à imagem do próprio trabalho, começam por colocar em palavras, para serem utilizadas pelo próprio parceiro-espectador, o que eles julgam ser suas constantes. Assim, eles dialogam com o outro e com eles mesmos, ao se descobrirem na tela e ao verbalizarem as condutas que eles observam (CLOT, 2010, p.138).

Ao se deparar com suas ações, o trabalhador tenta verbalizar de forma linear, sendo que o mais importante reside no que o sujeito percebe a respeito de sua atividade, ainda mais quando ele não consegue expressá-la (CLOT, 2010). Ao se desprender das palavras na tentativa de explicar suas ações, tem início o momento da descoberta de si. Pois ele tem a possibilidade de ver o que fez, o que poderia e/ou gostaria de ter feito.

Os resultados da autoconfrontação se ampliam, já que a observação não é mais feita somente com os seus próprios olhos, mas também com olhos de um observador exterior, que não é o pesquisador, mas sim o coletivo que agora está em si para se olhar com outros olhos. Nesse ponto, pode ser que esse novo observador continue a contribuir com o sujeito, pois agora “ele se observa em atividade com os olhos do ‘ofício’ e observa o ofício com outros olhos [...] ou esse ‘a gente’ se torna um obstáculo para o desenvolvimento da atividade interior” (CLOT, 2010, p.255-256).

Ao se pensar no intérprete de língua de sinais (ILS), verifica-se que apesar do revezamento e do intérprete de apoio, ele atua bastante sozinho, por estar à frente do público que participa do evento, sem ter naquele momento a oportunidade de se ver e analisar sua atuação. Então, a oportunidade de se olhar, em uma experiência de autoconfrontação, favorece pensar o coletivo, o que é seu ofício, tudo o que cerca, desde as possibilidades que não aparecem na atividade real, até sentimentos retomados no momento da autoconfrontação. A avaliação de sua própria prática em situação real de trabalho lhe possibilitará conhecer melhor como se dá a atuação do ILS no contexto de conferências acadêmicas.

4 Percurso metodológico

Este trabalho se dá no âmbito da abordagem qualitativa, realizando uma pesquisa descritivo-exploratória, já que muito pouco3 tem sido produzido sobre a realidade de ILS em conferência. Nesse sentido, pretende-se descrever aspectos da atividade dos intérpretes de Libras-Português, colaborando para o aprofundamento de conhecimentos nesse campo.

A metodologia utilizada será a autoconfrontação simples, e foi escolhida por favorecer que os profissionais reflitam e ressignifiquem suas práticas por meio da linguagem, ao observarem filmagens das suas práticas profissionais.

Participaram três ILS, destes, um homem e duas mulheres, com idades entre 26 e 31 anos, todos com nível superior (dois concluídos e um cursando). Destes, dois cursam ou cursaram cursos específicos da área da interpretação e um curso em outra área. O tempo de atuação com interpretação varia de um a oito anos, mas todos declararam já ter experiência com palestras, congressos, etc., ou seja, já haviam feito interpretação simultânea em conferência acadêmica diversas vezes. Dois aprenderam a interpretar junto à comunidade surda em diferentes situações e um em formação específica e experiência posterior. Um dos participantes sem formação específica inicial buscou formação após as primeiras atuações e o outro não. Dois deles atuam no momento da pesquisa no serviço público e o outro na iniciativa privada. Todos os sujeitos atuam na região sudeste brasileira.

Durante um evento nacional de grande porte na área da educação especial, os ILS foram filmados atuando em vários espaços: palestras, mesas redondas e comunicações orais. Das filmagens foram selecionados trechos que aparentemente provocariam reações significativas nos intérpretes, seja de insatisfação, angústia ou alegria. Para todos os participantes, optou-se por utilizar trechos que aparentemente tinham o mesmo grau de dificuldade, por apresentarem semelhanças, tais como: início de uma palestra principal, apresentação dos palestrantes, uso significativo de datilologia; trechos com falas aceleradas dos locutores; palestras com muitos termos técnicos, etc. Assim, o material selecionado para a sessão de autoconfrontação constituiu-se de quatro trechos (quatro minutos cada), para cada um dos três participantes. E para que os participantes pudessem compreender melhor o contexto em que cada trecho foi selecionado, optou-se por recortar o vídeo no momento em que o palestrante iniciava uma nova ideia em seu discurso. Vale ressaltar que as sessões de autoconfrontação foram realizadas seis meses após a ocorrência do evento, fazendo com que os intérpretes esquecessem da maioria dos conteúdos interpretados, e permitindo que eles buscassem nos vídeos as informações para a autoconfrontação.

As sessões de autoconfrontação consistiram em: i) apresentação do trecho 1, sem o áudio - apenas visualização da própria interpretação em Libras e posterior comentário do intérprete sobre o que compreendeu do que foi dito; ii) visualização do trecho 1, ainda sem áudio - com realização da interpretação sinal/voz; iii) visualização do trecho 1, com o áudio - comentário sobre sua atuação. Foram apresentados quatro trechos para cada intérprete, assim, essa sequência de ações foi repetida quatro vezes, uma para cada um dos trechos selecionados.

A duração de 3 a 4 minutos dos vídeos visava que sua extensão não comprometesse a memória e execução das atividades propostas ao intérprete. Cada sessão de autoconfrontação durou aproximadamente uma hora e meia. As três sessões foram gravadas em vídeo e consistiram no material que serviu para as análises apresentadas neste estudo. As sessões foram transcritas com base na enunciação dos intérpretes ao se verem em atividade laboral. Essa transcrição foi realizada a partir do português, porém com algumas referências em Libras, pois os intérpretes muitas vezes falavam (oralmente) e sinalizavam ao mesmo tempo, ou interrompiam a fala e faziam um sinal para completar o que diziam, já que a pesquisadora também é fluente em língua de sinais e eles sabiam estar sendo compreendidos.

As análises foram realizadas a partir da observação dos vídeos das sessões de autoconfrontação e posterior transcrição das enunciações. As informações presentes nesse material possibilitaram a criação de categorias para favorecer uma melhor compreensão dos dados. A análise foi realizada com o intuito de alcançar o objetivo geral de conhecer melhor a atuação do ILS no contexto da conferência, e ainda discutir estratégias apontadas pelos intérpretes no contexto de conferência.

5 Análise dos dados

Cabe destacar que ao trabalharmos sobre a interpretação do Português para a Libras, estaremos neste artigo buscando compreender alguns pontos desse processo. Contudo, estamos conscientes de que certos aspectos inferenciais, efeitos de modalidade e algumas estratégias presentes na interpretação simultânea de uma língua oral para uma de sinais nos escaparão por não serem o foco de nossa discussão. Sabemos que

[...] diversos são os elementos específicos envolvidos no processo de interpretação entre línguas de diferentes modalidades. Essa diferença de modalidade entre as línguas envolvidas no processo de interpretação impacta diretamente a atividade interpretativa, exigindo dos intérpretes um monitoramento consciente dos elementos e das estratégias que a modalidade gesto-visual possibilita (RODRIGUES, 2013, p.267).

Assim, da transcrição dos vídeos obtidos com as sessões de autoconfrontação, elencaram-se quatro temas importantes, seja por uma característica colaborativa ou por terem indicado algum tipo de prejuízo para o trabalho. Os temas foram: (I) o Tempo; (II) a Exposição; (III) a Posição; e (IV) o Preparo.

Relativo ao tema tempo, sabemos que os eventos científicos têm como objetivo principal a troca de informação científica. Assim, os discursos, em geral, introduzem novidades na área de estudo e precisam comunicar pontos de reflexão em tempo limitado de exposição, sendo comum que palestrantes ou mestres de cerimônia leiam textos previamente elaborados para otimizar o uso do tempo.

Além disso, palestrantes tendem a ter uma fala rápida, pois o tempo disponível nem sempre é suficiente para explanar com detalhes aquilo que almejam. No episódio 1, Karina, após fazer sua própria voz, comenta o trecho da abertura do evento, quando é apresentada a composição da mesa, os palestrantes e um resumo de seus currículos.

EPISÓDIO 1

Karina: Caramba, super tenso, porque naquele calor do momento do evento você depende da velocidade da fala do palestrante, e essa velocidade da fala interfere diretamente na sua interpretação muito louco isso e aí você tem que meio seguir essa velocidade, mas às vezes fica incompreensível. A datilologia eu não consegui pegar, por exemplo, então assim é engraçado porque é uma estratégia de interpretação às vezes, você tem uma palavra enorme e você tem um tempo para poder fazer essa palavra até que você fala letra por letra, é estratégia às vezes você faz o começo e vai logo para o final, não é? Então é uma estratégia que o intérprete adota, e quando você adota isso para mim enquanto intérprete é ótimo, mas é para os outros que estão vendo isso, não é? Tenso nossa, é autoconfrontação mesmo porque você usa de uma estratégia que vai te beneficiar e que você não se preocupa se o outro está de fato entendendo aquilo.

Pagura, ao descrever o percurso histórico dos intérpretes de língua orais, nos diz que “Caldwell chegou à conclusão, perfeitamente acertada, de que o intérprete deveria ouvir o orador perfeitamente e que a velocidade do orador não deveria ser excessiva” (PAGURA, 2010, p.43). Karina aborda como é complicado seguir um ritmo de fala acelerado, principalmente quando o que está sendo dito é uma lista de nomes e datas. Gile (2009, p.171) considera que os gatilhos de problemas (nomes, números, enumerações, discursos rápidos, sotaques estrangeiros ou regionais fortes, discurso desconexo, som ruim, etc.) são associados aos requisitos de capacidade de processamentos mais complexos que podem ultrapassar a capacidade que está disponível no momento. Esses gatilhos podem ser causas de problemas que envolvem a atenção, seja num lapso momentâneo derivado de uma distração ou pela necessidade de direcionar a atenção para um determinado recurso discursivo utilizado.

Para tentar não perder as informações, a profissional opta por acelerar a digitalização das palavras, mas ao se autoconfrontar no vídeo, percebe que nem todas as palavras ficaram compreensíveis e, por isso, preocupa-se com o entendimento de seus interlocutores no momento da interpretação.

A digitalização das palavras do português em Libras é chamada de datilologia, e é usada com frequência para nomes, endereços, ou seja, situações em que é necessário explicitar a palavra. A digitalização demanda mais tempo de execução do que a pronúncia da palavra ou mesmo o sinal referente a ela, justamente por se tratar de uma soletração. Ao perceber que sua estratégia pode não ter sido a mais adequada (digitalizar parte dos nomes), a intérprete reflete sobre outras possibilidades que teria, mas que não considerou no momento pelo pouco tempo que possuía para tomar decisões.

A velocidade excessiva da fala do palestrante só foi apontada pelos intérpretes como difícil quando o discurso incluiu uma lista de nomes e datas. Mesmo que a fala do palestrante fosse acelerada, em nenhum outro episódio isso foi apontado como desafio. Percebe-se, então que o tema Tempo está relacionado a quais e quantas informações devem ser transmitidas num determinado intervalo. Rodrigues (2012) discute elementos interessantes no processo de interpretação simultânea Português-Libras, que ainda que não especificamente voltados para o contexto de conferências acadêmicas, poderiam ser aproximados da situação investigada.

Considerando-se que os sinais têm uma taxa de produção menor que as palavras e que a LS, por sua vez, emprega dispositivos linguísticos específicos capazes de compensar essa baixa taxa de produção e, assim, manter a mesma taxa de produção de proposições, é possível inferir que interpretar entre diferentes modalidades têm implicações específicas, as quais precisam ser mais bem investigadas (RODRIGUES, 2012, p.106).

Reflete-se, assim, sobre que outras formas os intérpretes poderiam utilizar para organizar este tipo de discurso em língua de sinais, uma vez que a língua portuguesa se organiza de um modo diferente da Libras.

Com relação à Exposição do intérprete, aborda-se o local de destaque em que esse profissional se posiciona e as implicações disso em sua atuação.

EPISÓDIO 2

Thamires: Então, parece mais confortável para mim. Aí eu achei que realmente eu deveria ter mantido a calma, ter ouvido o discurso e ter sinalizado. Não, acho que o externo influenciou o meu interno. É horrível isso. Mas, mesmo assim, é indesculpável.

Entrevistadora: Ah, então é o primeiro evento grande, assim, o tamanho que tu dizes, porque tu já tinhas feito conferência, né?

Thamires: Sim, sim. Mas aí em sala menor. Tudo bem que tinha outras línguas, tinha inglês e espanhol, mas era menor, não sei, parece que um lugar menor é mais confortável do que um maior. Um maior parece que a magnitude...

Entrevistadora: Porque nesses eventos tu ficas acima, alto, todo mundo te vê.

Thamires: Sim. Mas no outro você não ficava tão destacado, ficava mais ou menos no mesmo nível dos palestrantes, assim, de altura. Por mais que tivesse uma câmera na minha frente, o que já aconteceu, eu já fiquei mais calma, porque era um lugar que eu tinha ido várias vezes, então.... Aqui também tinha outros intérpretes. Não era apenas mais um. Eram vários. E famosos. Piorou. (-risos) Porque aí você fica: “ai, meu Deus, ai, meu Deus” (risos) Você fica atenta...

Na fala da intérprete, no episódio 2, percebe-se que a sua exposição frente a um grande público lhe gerou inquietações e desconforto, ainda mais por estar na presença de pessoas com destacada titulação acadêmica (com muito conhecimento, na visão dela) e pessoas com muita experiência como intérpretes (que poderiam vê-la e criticar sua forma de atuar). A exposição como fator de comprometimento da atuação é destacada por Magalhães Junior.

Se imagino que não posso errar, e que todos na plateia estão ali para me julgar, crio um nível de tensão absurdo. No início da carreira, o que mais nos mete medo é o público. Quanto mais gente na plateia, pior, [...] O grande limitador de rendimento na tradução simultânea é o emocional, não o linguístico (MAGALHÃES JUNIOR, 2007, p.65).

A própria intérprete conclui que sua atuação foi comprometida pela exposição, quando diz que o externo influenciou o interno, já que ficou à frente de muitas pessoas desconhecidas e com um destaque maior do que de costume. Percebe-se, também, que apesar de ter experiência com a interpretação simultânea, protelou o quanto pôde atuar em um grande evento, pois afirma que o cargo das pessoas presentes e a magnitude do evento a incomodam, a ponto de não aceitar convites para atuar em determinados eventos, preferindo atuar em ambientes menores que lhe trazem uma sensação de calma. Essa exposição do ILS pode sofrer alteração se a experiência recente de realizar interpretações da língua de sinais para a língua portuguesa com o uso de equipamentos e cabines se ampliar (NASCIMENTO e NOGUEIRA, 2017).

Segundo a intérprete, para além da interpretação, há a sensação de estar sendo avaliada, tanto pelo público alvo de seu trabalho, quanto por outros profissionais ali presentes, que, segundo ela, eram famosos, com mais experiência e destaque, deixando-a mais alerta em relação à sua própria atuação e contribuindo para o aumento da tensão.

Nosso terceiro tema Posição está relacionado especificamente ao local em que o intérprete fica no momento de sua atuação. No episódio 3, o intérprete de Libras-Português fala quando assiste ao trecho apresentado, já com a voz, ou seja, depois de sua terceira visualização.

EPISÓDIO 3

Bruno: Não ouvi, olha o que [ininteligível] eu faço: - "não entendi". Aí nessa hora aqui, olha que interessante, é a hora que ela falou "vamos juntos e juntas". Bom, “então vamos começar” aí eu olhei para ver o que ‘nós vamos começar’, para ter uma geral. Importante que a gente consiga ver isso, o que está acontecendo no slide.

Entrevistadora: Sim.

Bruno: Isso já aconteceu comigo quando eu não tinha tanta experiência de Conferência eu interpretava "vamos ver as duas imagens", eu falava "vamos ver essas duas imagens". Aí não eram duas imagens, eram DUAS imagens [mostra com as mãos as posições diferentes que as “imagens” poderiam ter]. Então comecei a entender que não se faz dessa forma assim até se entender o que está acontecendo. Dar uma olhadinha para trás não mata ninguém. É importante para que o discurso de sinais não se trunque, não tropece.

Por se tratar de interpretação de uma língua gestual/visual, compreende-se que o ILS deve ficar à frente da plateia, todavia, em local nem sempre adequado para o bom desempenho de seu trabalho, pois ao ser colocado no palco, geralmente fica ao lado ou de costas para o palestrante e a tela de projeção. Essa posição desfavorável é evidenciada na fala de Bruno, que indica como sua atuação foi dificultada. Ele precisa se virar para ver o que está acontecendo ou o que é projetado nos slides, o que demanda mais tempo e quebra o ritmo da interpretação. Porém, segundo ele, isso é necessário para que ele possa enunciar coerentemente com o que está sendo mostrado.

Percebe-se que, por se tratar de uma língua gestual, o espaço de enunciação é extremamente importante para a compreensão do que está sendo dito, contextualmente. Dessa forma, o intérprete além de sua preocupação com a interpretação da fala do palestrante, deve também se preocupar com as informações visuais citadas, que podem passar despercebidas da plateia em função das escolhas de interpretação do intérprete.

Pagura destaca do Regulamento da APIC4 a seção denominada Das Condições de Trabalho, mais especificamente em seu Artigo 2º que “destaca, inicialmente, as condições de audição, visibilidade e conforto [...], sendo-lhe fundamental saber [...] que outros recursos estão utilizando, além da fala.” (PAGURA, 2010, p.88). Se para a interpretação de línguas orais a visibilidade do ambiente é importante para a troca de informações, para as línguas de sinais ela é ainda mais necessária, pois a visualidade faz parte da língua. Na conferência, o ILS não pode ficar se deslocando à procura da melhor posição, essa questão deve ser pensada a priori, antes do início do trabalho, pois interfere diretamente em sua atuação. Em geral, sabe-se que palestras são acompanhadas de slides e vídeos, e visualizar esse material é essencial e contribui para a atuação do intérprete, seja ele de línguas orais ou de sinais.

O tema Preparo visa discutir a preparação do intérprete antes do ato interpretativo. Seja em eventos, ou em ambiente escolar, é necessário um preparo anterior, em que o intérprete deverá buscar informações acerca do que irá interpretar. Além disso, há a necessidade de formação inicial e continuada, e ainda um constante aprimoramento em diversos assuntos específicos do campo de atuação.

Atuar como ILS implica ter em mente que será solicitado a interpretar sobre uma miríade de temas. Ainda que o intérprete saiba que o palestrante falará sobre uma dieta adequada e saudável, nada impede que em exemplos, metáforas e digressões ele fale de política, golpes de judô ou qualquer outro tema inesperado para o profissional. Nesse sentido, a formação é fundamental, pois dá ao intérprete ferramentas para contornar situações e fazer as melhores escolhas enunciativas.

EPISÓDIO 4

Bruno: ...Mas eu usei uns classificadores que eu achei legais... estudar palestra é muito importante, ter acesso ao conteúdo antes é muito importante, todas elas eu tive acesso ao conteúdo, porém algumas eu tive mais afinidade para buscar mais material também na Internet e ver como se fala sobre isso em língua de sinais.

Entrevistadora: Você pegava resumo das palestras? De todas?

Bruno: Sim, todos os resumos a gente pegou. E inclusive aquelas que a gente ia interpretar...que eu não estava escalado para interpretar tal palestra mas em alguns momentos eu tive que ir para aquele lugar então a gente recebeu de tudo....a gente estava preparado para esta flexibilidade. Até ... essa é uma das dificuldades de se interpretar um evento grande assim, que existem várias opções e você não consegue se especializar em uma especificamente, porque o surdo tem direito de ter acesso até aqui. Mas o que favorece é que se ele marcou que vai estar aqui e a gente estudou para estar aqui, o discurso em línguas de sinais, ele sai muito mais claro.

No episódio 4, o intérprete também frisa a importância de estudar as palestras antes de interpretá-las, buscando a melhor forma de atuar, para não se surpreender com palavras ou assuntos totalmente desconhecidos. Mesmo assim, manter a flexibilidade é necessário em grandes eventos, pois inúmeros imprevistos podem ocorrer. O ideal é se preparar com antecedência, mas dadas as variáveis no contexto de conferências, é pouco provável antecipar tudo. Mesmo o intérprete se preparando, há maior afinidade com alguns temas, fazendo com que sua atuação flua de maneira diferente a depender do tema apresentado. Nesse sentido Nogueira (2016) destaca que

[...] uma das premissas para qualquer trabalho de interpretação é a preparação, e essa etapa está relacionada com o período chamado por Hoza (2010) de “pré-evento”, devendo ocorrer logo quando os intérpretes aceitam determinada atividade de interpretação. A preparação é a fase de busca por materiais de estudo, relacionados a determinado contexto interpretativo (p.113).

Os ILS passam pelas mesmas dificuldades que os intérpretes de línguas orais, com relação a problemática de ter acesso às informações previamente, pois a questão está no contexto de trabalho, quando os organizadores desconhecem a importância do preparo do profissional intérprete, não transmitindo adequadamente as informações.

A interpretação é, então, a somatória do conhecer bem o tema e do saber enunciar mesmo quando se conhece superficialmente, vertendo o conteúdo sem poder se envolver muito com a informação. Esse conhecimento geral acerca do que está sendo trabalhado traz certo conforto ao intérprete no momento de sua atuação, pois se o tema já é conhecido e o intérprete tem afinidade com ele, o trabalho flui melhor. O tema conhecido reassegura o fazer do intérprete, que fica menos tenso e atua com maior segurança. Há uma interferência importante em como ele se vê e como ele desenvolve sua atuação. Mesmo nesse contexto ocorrem equívocos, pontos que não entende e que então verte para a LA de forma inexata, isso é inevitável nesse campo de atuação.

Vale destacar que, por se tratar de um processo de extrema complexidade, a interpretação não deve ser considerada unicamente como a transposição das palavras de uma língua para outra. Nessa perspectiva, nem sempre o que é produzido na LF é “encontrado” na LA de forma literal. Há elementos no texto que não fazem sentido para a cultura de chegada, que precisam passar por uma interpretação cultural feita pelo profissional (BARBOSA, 2014, p. 26).

Conhecer todas as variedades é uma tarefa inimaginável, mas estar sempre buscando conhecimentos em cada variedade linguística é extremamente importante para o ILS, pois existem modos diferentes de dizer a mesma coisa dentro de um determinado contexto. Nas palavras de Sobral (2008, p.132), “o intérprete tem que ser um profissional capaz de entender quando deve dizer o que, a quem e de que maneira, a depender de onde ele esteja e quem esteja envolvido”. O intérprete não só encontra correspondentes de uma língua em outra, mas sim, traduz discursos que “vêm a existir fundamentalmente por meio de um processo de produção de sentidos realizado por, para e entre sujeitos” (SOBRAL, 2008, p.59).

Considerações finais

A atual conjuntura social tem contribuído para que a pessoa com deficiência passe a atuar de forma mais expressiva nos diferentes espaços sociais, e aumentado a busca por melhor conhecer os sujeitos envolvidos nessa mudança. Assim, quando a participação dos surdos é mais ativa, e esses conseguem avançar no engajamento cultural, participando de eventos em diferentes esferas culturais, fica mais importante conhecer um dos profissionais envolvidos nesse processo - o intérprete. Assim, um dos ambientes em que vem aumentando sua participação é em conferências, local em que a interpretação simultânea é necessária e traz novas formas de atuação.

Apesar da crescente atuação do ILS em conferências, os materiais específicos são escassos (NOGUEIRA, 2016 e BARBOSA, 2014), e poucos também são os que se referem a estudos sobre intérpretes de línguas orais (PAGURA, 2003, 2010; MAGALHÃES-NETO, 2007). Destarte, as bases para as análises apresentadas foram buscadas também em referências sobre os intérpretes de línguas de sinais em outros contextos. Ainda, identificou-se também a necessidade de aprofundar estudos nessa temática, para ampliar os conhecimentos sobre esse campo de atuação e interferir posteriormente na formação desse profissional. Ao buscar conhecer mais sobre esse tipo de atuação, emergiram aspectos que podem nos dar indícios de uma caracterização da atuação dos ILS nesse contexto específico.

O Tempo se mostrou um vilão no momento da interpretação, pois no contexto da conferência há uma grande quantidade de informações que devem ser ditas dentro de um tempo determinado, o que se torna muito mais trabalhoso. A pesquisa mostrou que quando a fala do palestrante contém listas de nomes próprios, por exemplo, o intérprete se vê em uma situação que demanda datilologia de palavras que ele não tem certeza da grafia, entre outros problemas. São necessárias estratégias que otimizem o uso do tempo, sem deixar que o uso excessivo de datilologia prejudique seu desempenho.

Em relação à Exposição, na conferência acadêmica, diferente dos intérpretes de línguas orais, os ILS ficam frequentemente expostos, pois pela modalidade da língua é possível ficar de frente para a plateia (sem o uso de cabines), o que os coloca em uma situação desconfortável, uma vez que a sensação de constante avaliação aumenta, já que os olhares podem se voltar para o intérprete. Esse desconforto é característico dos intérpretes de línguas de sinais, que trabalham com sua imagem exposta. Para minimizar essa dificuldade, deve-se considerar a preparação dos futuros ILS para enfrentar essa situação, dando ferramentas para que aprendam a lidar com as emoções que emergem da exposição ou ainda a ampliação de experiências de interpretação em cabine. Todavia, cabe ressaltar que a interpretação usando os recursos de cabine tem um custo elevado, o que impactaria em muitas ações de interpretação em conferências acadêmicas disponibilizadas até o momento com baixo custo.

No que tange a Posição que o profissional ocupa para atuar, destaca-se que esta se refere à necessidade de o profissional ficar posicionado ao lado do palestrante, ou até mesmo um pouco à frente dele, o que dificulta a percepção do que acontece no palco. O intérprete tem a necessidade de virar-se para ver informações projetadas em slides ou para visualizar o palestrante. Esse aspecto indica a necessidade de soluções para que o intérprete não precise movimentar-se para enxergar o que é projetado. Uma cópia da tela de projeção situada à frente do intérprete, ou outros arranjos possíveis, poderiam minimizar essa dificuldade encontrada em função do local de atuação do profissional.

O Preparo prévio para atuar em um contexto tão complexo e dinâmico como o das conferências acadêmicas é fundamental, pois dá mais condições aos intérpretes de fazer as melhores escolhas, haja vista que o tema a ser trabalhado será estudado previamente. Porém, muitas vezes, os intérpretes não têm acesso prévio aos conteúdos, restando ao profissional apenas contar com a experiência e com o improviso.

A técnica da autoconfrontação como metodologia mostrou-se muito eficaz e possibilitou, além de alcançar o objetivo da pesquisa, ampliar conhecimento sobre essa atividade, indicando um caminho formativo a ser explorado em investigações futuras.

O estudo apresentado se configura como passos iniciais na compreensão deste tema instigante por sua complexidade e singularidade, indicando a pertinência do aprofundamento das pesquisas, já que envolve atuação de um profissional fundamental para a garantia do direito e acessibilidade linguística da comunidade surda.

1Utilizaremos a sigla ILS para nos referirmos aos intérpretes de libras-português que são o foco desta pesquisa.

2Recentemente, nas interpretações de língua de sinais também se iniciou o uso de equipamentos em alguns espaços, ver: NASCIMENTO, V. e NOGUEIRA, T. Interpretação de conferências: diferenças e semelhanças na atuação de intérpretes de línguas de sinais de línguas orais na cabine. VIII Congresso Internacional da ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes), 2017. [Apresentação de Trabalho].

3Ver recentes pesquisas de Barbosa (2014) e Nogueira (2016).

4Associação Paulista de Intérpretes de Conferência

REFERÊNCIAS

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Recebido: 02 de Dezembro de 2017; Aceito: 20 de Agosto de 2018

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