Open-access RISCO DE SUICÍDIO NA ENFERMAGEM E SUA RELAÇÃO COM AS ATITUDES DE ASSISTÊNCIA SEGURA*

RESUMO:

Objetivo:  analisar a associação das variáveis dos fatores de risco para o suicídio com as atitudes relacionadas à segurança do paciente de profissionais de Enfermagem da Atenção Primária em Saúde, e atitudes relacionadas à segurança do paciente de profissionais de Enfermagem.

Método:  estudo transversal de abordagem quantitativa, junto a 251 profissionais de Enfermagem atuantes em Uberlândia-Brasil, realizado entre julho e setembro de 2020, com os instrumentos: Mini International Neuropsychiatric Interview Plus e Safety Attitudes Questionnaire-Short Form. Análise com métodos estatísticos inferenciais e de regressão múltipla.

Resultados:  atitudes negativas aumentada em 2% junto aos participantes com condições ou histórico de saúde para suicídio; cerca de 3% em portadores de alguma dor ou doença crônica entre aqueles que apresentaram risco para pensar em uma maneira de suicidar; cerca de 7% para participantes com comportamentos suicidas.

Conclusão:  saúde mental, histórico familiar e condições de trabalho estão interligados com atitudes laborais.

DESCRITORES:
Enfermagem; Saúde Mental; Segurança do Paciente; Suicídio; Saúde Ocupacional.

HIGHLIGHTS

1. Variáveis psicossociais impactam as atitudes no ambiente de trabalho.

2. Os transtornos familiares, estresse e histórico de doenças influenciam as atitudes laborais.

3. A colaboração e apoio são essenciais para bem-estar profissional.

ABSTRACT

Objective:  to analyze the association between the variables of risk factors for suicide and attitudes related to patient safety among Primary Health Care Nursing professionals, and attitudes related to patient safety among Nursing professionals.

Method:  a cross-sectional study with a quantitative approach, with 251 nursing professionals working in Uberlândia-Brazil, carried out between July and September 2020, using the instruments: Mini International Neuropsychiatric Interview Plus and Safety Attitudes Questionnaire-Short Form. Analysis using inferential statistical methods and multiple regression.

Results:  negative attitudes increased by 2% among participants with health conditions or a history of suicide; around 3% among those with chronic pain or illness who were at risk of thinking of a way to commit suicide; around 7% for participants with suicidal behaviors.

Conclusion:  mental health, family history, and working conditions are interlinked with work attitudes.

DESCRIPTORS:
Nursing; Mental Health; Patient Safety; Suicide; Occupational Health.

HIGHLIGHTS

1. Psychosocial variables impact attitudes in the workplace.

2. Family problems, stress, and a history of illness influence work attitudes.

3. Collaboration and support are essential for professional well-being.

RESUMEN

Objetivo:  analizar la asociación de variables de factores de riesgo para el suicidio con actitudes relacionadas con la seguridad del paciente de los profesionales de Enfermería de Atención Primaria de Salud y actitudes relacionadas con la seguridad del paciente de los profesionales de Enfermería.

Método:  estudio transversal, con enfoque cuantitativo, con 251 profesionales de Enfermería que actúan en Uberlândia-Brasil, realizado entre julio y septiembre de 2020, con los instrumentos: Mini International Neuropsychiatric Interview Plus y Safety Attitudes Questionnaire-Short Form. Análisis con métodos estadísticos inferenciales y de regresión múltiple.

Resultados:  las actitudes negativas aumentaron un 2% entre los participantes con condiciones o antecedentes de salud para el suicidio; alrededor del 3% en aquellos con algún dolor o enfermedad crónica entre los que estaban en riesgo de pensar en una forma de suicidarse; alrededor del 7% para los participantes con conductas suicidas.

Conclusión:  la salud mental, los antecedentes familiares y las condiciones de trabajo están interconectados con las actitudes laborales.

DESCRIPTORES:
Enfermería; Salud mental; Seguridad del paciente; Suicidio; Salud Ocupacional.

ASPECTOS DESTACADOS

1. Las variables psicosociales impactan las actitudes en el lugar de trabajo.

2. Los trastornos familiares, el estrés y los antecedentes de enfermedades influyen en las actitudes laborales.

3. La colaboración y el apoyo son esenciales para el bienestar profesional.

INTRODUÇÃO

Os profissionais de Enfermagem desempenham um papel crucial na Atenção Primária à Saúde (APS), atuando como a primeira linha de contato entre os pacientes e os serviços de saúde. Entretanto, a APS é um campo dinâmico e desafiador, onde os profissionais de Enfermagem estão expostos às múltiplas demandas, como a triagem, prevenção e promoção da saúde. Essas demandas podem contribuir para os níveis elevados de estresse, o esgotamento e impactar na qualidade da assistência prestada1-2.

Muitos profissionais de Enfermagem relataram exaustão emocional e sobrecarga de trabalho2, o que pode impactar negativamente sua saúde mental, e frequentemente3 enfrentam altos níveis de estresse e fadiga devido às demandas da profissão, especialmente no contexto pandêmico da COVID-19. O estresse crônico pode levar ao esgotamento emocional, contribuindo para problemas de saúde mental, que apresentam o suicídio como um dos piores prognósticos caso não tratados2-3.

O aumento do risco de suicídio entre os profissionais de Enfermagem é preocupante e está frequentemente relacionado ao estigma na busca por ajuda e ao acesso limitado aos serviços de apoio. Essa demanda está presente em diversos cenários de atuação, incluindo os serviços de APS4, fato que aumenta ainda mais a vulnerabilidade desses profissionais para a gravidade dos transtornos mentais5.

A saúde mental dos profissionais de Enfermagem está intrinsecamente ligada à segurança do paciente3-5. Os profissionais de Enfermagem que enfrentam os problemas de saúde mental podem apresentar lapsos de atenção, tomada de decisões prejudicada e menor adesão aos protocolos de segurança, colocando os pacientes em risco de incidentes adversos6-7.

Contudo, o que se observa na literatura é uma escassez de estudos que abordem diretamente a associação entre os riscos de suicídio entre os profissionais de Enfermagem com a assistência segura; especialmente no que diz respeito aos trabalhadores da APS brasileira, tais dados são praticamente inexistentes.

Uma vez que a segurança do paciente é um aspecto central da prestação de cuidados de saúde, é crucial avaliar como a saúde mental dos profissionais de Enfermagem pode influenciar suas percepções e os comportamentos em relação à segurança do paciente. Ao identificar as possíveis correlações entre esses fatores, pode-se direcionar as intervenções que visem promover a saúde mental dos profissionais e, por consequência, aprimorar a segurança e a qualidade dos cuidados prestados à população.

O objetivo deste estudo foi analisar a associação das variáveis dos fatores de risco para o suicídio, com as atitudes relacionadas à segurança do paciente de profissionais de Enfermagem da APS, e atitudes relacionadas à segurança do paciente dos profissionais de Enfermagem.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal, de caráter descritivo-analítico e com abordagem quantitativa. A população foi composta por profissionais de Enfermagem (auxiliares, técnicos de Enfermagem e enfermeiros) atuantes na APS do município de Uberlândia (MG). Durante o período de coleta de dados, o quantitativo de profissionais de Enfermagem era de 450 profissionais (172 enfermeiros e 278 técnicos e auxiliares de Enfermagem).

Como critérios de inclusão foram considerados os profissionais que trabalhassem na APS do município de Uberlândia (MG) há mais de três meses (tempo de experiência profissional). Excluiu-se os profissionais que estavam afastados de suas atividades no período da coleta de dados. Utilizou-se uma seleção por conveniência, em que todos os profissionais de Enfermagem atuantes na APS foram convidados a participar do estudo.

Após a divulgação do trabalho e distribuição dos instrumentos a serem preenchidos pelos profissionais, o número de questionários respondidos foi de 251, correspondendo à população do estudo, sendo que os demais não devolveram os questionários respondidos. A coleta de dados ocorreu entre julho e setembro de 2020, utilizando um instrumento de coleta de dados dividido em quatro blocos:

a) roteiro com informações sociodemográficas e profissionais elaborado pelo pelos próprios pesquisadores;

b) roteiro de condições de saúde e histórico familiar de fatores de risco para o comportamento suicidário, tendo como referencial um material produzido pela Organização Mundial de Saúde8, foi realizado um checklist elaborado pelos pesquisadores, onde o participante assinalava “sim” ou “não” quanto à presença de cada fator. Foi realizado o teste piloto com cinco participantes desse roteiro.

c) o Mini International Neuropsychiatric Interview Plus (MINI Plus)9, que é um instrumento de entrevista estruturada usado para avaliar uma variedade de transtornos psiquiátricos, traduzido e validado no Brasil. As perguntas são projetadas para serem sim ou não, com uma seção dedicada à avaliação do risco de suicídio. As perguntas identificam os fatores de risco, pensamentos suicidas, planos de suicídio, acesso aos meios letais e outros indicadores de risco. Se as respostas positivas somarem ao final uma pontuação entre um e cinco pontos, o risco é considerado baixo, entre seis a nove pontos, risco moderado e maior ou igual a dez, risco alto.

d) Safety Attitudes Questionnaire-Short Form 2006 para o Brasil - Short Form 2006 (SAQ)10, validado no Brasil com o uso autorizado pela autora, composto por várias subescalas, sendo: Clima de Trabalho em Equipe, Clima de Segurança, Satisfação no Trabalho, Percepção do Estresse, Percepção da Gerência e Condições de Trabalho. Os participantes respondem a uma série de afirmações usando as escalas de concordância com pontuações. Quanto maiores as pontuações, as atitudes serão consideradas mais positivas; sendo consideradas satisfatórios os casos maiores de 75 pontos.

Um envelope contendo os instrumentos de coleta de dados foi entregue para o autopreenchimento, e, em data acordada, os envelopes foram recolhidos. As análises descritiva e inferencial foram obtidas por meio do software Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 26, os dados quantitativos foram gerenciados com as informações digitadas, tabuladas e consolidadas no programa Microsoft Excel por dupla entrada e digitadores independentes, visando minimizar as falhas na entrada do banco de dados. A discussão em relação aos resultados obtidos foi realizada considerando um nível de confiança de 95% (p<0,05). Inicialmente foi aplicado o teste de normalidade Kolmogorov-Smirnov (K-S) para a avaliação da distribuição das variáveis e o uso de testes paramétricos ou não paramétricos.

Os testes estatísticos para as análises inferenciais de associação e correlação foram o teste t de Student, teste de qui-quadrado (X2), Analysis Of Variance (ANOVA) com post-hoc de Tukey, e os teste de correlação de Pearson e Spearman

Ao final, utilizou-se a Regressão Linear Múltipla, inicialmente foram realizadas modelos de análise brutas (com todas as variáveis), e posteriormente, foram analisadas as associações ajustadas com p<0,05. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia (CEP/UFU), sob o parecer de nº 3.849.113, no ano de 2019.

RESULTADOS

Dos profissionais que participaram da pesquisa, a maioria eram casados (60,7%), se consideravam religiosos (91,3%), eram mulheres (91,9%) e eram técnicas de Enfermagem (58,9%). Quanto à idade, a média foi 38,1 anos, a jornada de trabalho semanal média foi de 61,49 horas e o tempo de atuação na área da Enfermagem foi de 10 anos.

De acordo com a tabela 1, as atitudes mais positivas relacionadas ao trabalho em equipe (p=0,04) e clima de segurança (p=0,04) estão associadas à categoria de enfermeiros. A percepção do estresse tem associações melhores com não religiosos (0,03) e enfermeiros (p=0,03). A melhor percepção da gerência tem associações com o sexo feminino (p=0,01), não religiosidade (p=0,01) e enfermeiros (p=0,00). As atitudes positivas quanto às condições de trabalho também estão associadas aos enfermeiros (p=0,04).

Tabela 1
Distribuição dos profissionais de Enfermagem segundo os domínios da SAQ e dos dados sociodemográficos categóricos. Uberlândia (MG), Brasil, 2023.

Na tabela 2, observa-se que para o clima de segurança está correlacionado à idade negativamente (p=0,00), assim, pessoas mais jovens tendem a perceber um clima de segurança melhor. Os participantes com uma jornada semanal maior percebem um clima de segurança pior (p=-0,04). A percepção do estresse tem correlações positivas com a idade e a percepção do estresse (p=0,01). A percepção da gerência tem uma correlação negativa com a idade (p=0,01), o que indica que pessoas mais jovens tendem a ter uma percepção melhor da gerência.

Tabela 2
Distribuição dos profissionais de Enfermagem segundo os domínios da SAQ e dos dados sociodemográficos contínuos. Uberlândia (MG), Brasil, 2023.

Quanto às condições de saúde e histórico familiar, a tabela 3 aponta que a maioria dos participantes que haviam passado por uma situação estressante (67,8%), perderam um familiar ou sofreram uma ruptura importante na família no último ano (31,9%), e possuíam pais ou irmãos com transtorno mental (10,8%) ou que já haviam tentado suicídio (8,4%).

Tabela 3
Distribuição dos profissionais de Enfermagem segundo as condições de saúde, histórico familiar e dos domínios da SAQ. Uberlândia (MG), Brasil, 2023.

Atitudes mais negativas quanto ao clima de trabalho em equipe podem estar relacionadas a ser ter alguma doença neoplásica (p=0,0). Valores menores no domínio de satisfação no trabalho estão associados à presença de doenças incapacitantes (p=0,056), e a ter alguma doença neoplásica (p=0,01). Quanto à percepção de estresse no trabalho, atitudes mais negativas estão associadas à presença de doenças incapacitantes (p=0,01) e passar por situações estressantes no último ano (p=0,02) (Tabela 3).

A tabela 4 aponta que 22 participantes (9,1%) pensavam que seria melhor estarem mortos, 13 (5,3%) já quiseram fazer mal a si mesmos, 15 (6,1%) já haviam pensado em suicídio, assim como já haviam pensado em uma maneira de se suicidar (15; 6,1%), quatro (1,6%) já haviam tentado suicídio, 13 (5,3%) já fizeram alguma tentativa de suicídio.

Tabela 4
Distribuição dos profissionais de Enfermagem segundo o risco de suicídio e dos domínios da SAQ. Uberlândia (MG), Brasil, 2023.

Quanto às associações, observa-se que os participantes que assinalaram “não” à afirmação “pensou que seria melhor estar morto (a) ou desejou estar morto (a)” tenderam a ter uma maior relação positiva aos domínios “satisfação no trabalho” (p=0,00), “percepção da gerência” (p=0,01) e “condições de trabalho” (p=0,04) (Tabela 4).

A negativa quanto ao item “pensou em suicídio” tende a ter um nível de concordância maior em relação ao domínio condições de trabalho” (p=0,04), e participantes que afirmaram não ter feito alguma tentativa de suicídio tendem a ter um nível de concordância maior em relação ao domínio “satisfação no trabalho” (p=0,037). Nos casos dos itens “quis fazer mal a si mesmo (a)” e a relação ao domínio “percepção do estresse” foi identificada uma correlação negativa (p=0,03). Esse mesmo resultado apareceu entre o item “pensou numa maneira de se suicidar” e o domínio “condições de trabalho”(p=0,04) (Tabela 4).

Os dados da tabela 5 mostram que a chance de ocorrerem atitudes negativas ao trabalho em equipe aumenta em cerca de 2% para aqueles que possuírem condições ou histórico de saúde, destacando-se a variável de ter pais ou irmãos com algum transtorno mental (valor-p = 0,02). Sobre as atitudes de clima de segurança a chance de ocorrerem atitudes negativas aumenta em 5% de chances para determinadas características sociodemográficas, em especial entre os participantes com menor idade (valor-p = 0,00), e, em cerca de 1% para aqueles que têm dor crônica (valor-p = 0,01).

Tabela 5
Distribuição dos profissionais de Enfermagem segundo os blocos de itens de variáveis e dos domínios da SAQ. Uberlândia (MG), Brasil, 2023.

Sobre a satisfação no trabalho (Tabela 5) a chance de ocorrerem atitudes negativas aumenta em cerca de 2% naqueles que possuem alguma dor ou doença crônica (valor-p = 0,02), e em cerca de 7% para os participantes que já pensaram em suicídio ou em alguma maneira de suicidar-se (valor-p = 0,00).

Na percepção da gerência, a chance de ocorrerem atitudes negativas aumenta em cerca de 7% em determinadas categorias sociodemográficas (religiosos, técnicos de Enfermagem e menor tempo de profissão (valor-p = 0,00), e no quadro dos comportamentos de ideação suicida, há um aumento em cerca de 4% para aqueles que apresentam o desejo de estar morto (valor-p = 0,00). Sobre as condições de trabalho a chance de ocorrerem atitudes negativas em cerca de 3% para aqueles que apresentam risco para pensar em suicídio (Tabela 5).

DISCUSSÃO

A população do estudo foi composta majoritariamente por profissionais casadas, religiosas, mulheres e técnicas de Enfermagem. A predominância de profissionais casados, mulheres e técnicas de Enfermagem é congruente com a demografia conhecida da profissão e reflete as tendências globais11-13.

O fato de os enfermeiros apresentarem atitudes mais positivas em relação ao trabalho em equipe e clima de segurança, corrobora com a literatura existente. Um estudo14 mostrou que equipes de saúde que promovem um ambiente de trabalho colaborativo e seguro tendem a melhorar a qualidade da assistência prestada aos pacientes. Isso sugere que as equipes de Enfermagem devem estar mais cientes da importância do trabalho em equipe e da segurança do paciente, o que se reflete em suas atitudes positivas nesses domínios.

As associações entre a percepção da gerência e as características como sexo feminino, não religiosidade e a categoria profissional de enfermeiros destacaram a influência de fatores individuais e profissionais nas percepções sobre a gestão. Isso está alinhado com as descobertas de uma pesquisa15 que indicou que a percepção da liderança pode variar com base nas características individuais e na experiência profissional dos colaboradores. Esse achado pode refletir o papel crucial dos enfermeiros na promoção da colaboração interdisciplinar e na manutenção de um ambiente seguro para os pacientes16.

Os resultados desta pesquisa estão em linha com os estudos que exploraram as diferenças de percepção entre os gêneros e indicaram que os fatores sociodemográficos e individuais podem influenciar a forma como os profissionais de Enfermagem avaliam a liderança16-17. Além disso, os resultados indicam que a percepção de estresse está associada às características como a religiosidade e a categoria profissional.

A correlação negativa entre a idade e a percepção do clima de segurança reforça os resultados de alguns estudos17-18 que evidenciaram que os profissionais mais jovens podem ser mais sensíveis às condições de trabalho e segurança, enquanto que os profissionais mais experientes podem ter desenvolvido estratégias de enfrentamento ao estresse, preferindo negar, consciente ou inconscientemente, o envolvimento com as demandas relacionadas a esse assunto.

Esse achado também é congruente em estudos que indicaram que a experiência e a adaptação ao ambiente de trabalho podem moldar as percepções dos profissionais de Enfermagem em relação a esses aspectos, sendo que o investimento para a criação de atitudes positivas relacionadas à assistência segura deve começar o mais cedo possível, preferencialmente no período de formação profissional; isso porque parece evidente que há mudanças nas percepções e nas atitudes dos profissionais ao longo do tempo16-18. Assim ressalta-se a importância de considerar a idade e a experiência profissional na análise das percepções dos trabalhadores17-18.

A correlação positiva entre a percepção do estresse, a idade e o tempo de atuação na Enfermagem podem ser respaldados por estudos17-19, que identificaram que os profissionais em geral com mais experiência, muitas vezes enfrentam demandas mais intensas no trabalho, levando a níveis mais elevados de estresse.

As descobertas em relação às condições de saúde e o histórico familiar alinham-se com uma pesquisa20 que destacou a influência de eventos estressantes e o histórico de transtornos mentais na percepção de estresse e saúde mental entre os profissionais de saúde; possibilitando uma alta prevalência de ideação suicida entre os profissionais de saúde, inclusive os trabalhadores da Enfermagem.

A associação entre a presença de doenças incapacitantes e as atitudes negativas quanto à satisfação no trabalho é respaldada por estudos recentes que evidenciaram a influência das condições de saúde na satisfação e no desempenho dos profissionais17-21, a exemplo de uma investigação que identificou uma relação entre a presença de condições de saúde crônicas e os níveis reduzidos de satisfação no trabalho entre os profissionais de saúde17-21. Esses achados indicam a necessidade de estratégias de apoio à saúde física dos profissionais como parte integrante das iniciativas de melhoria do ambiente de trabalho.

A análise dos dados relacionados ao Mini Plus oferece insights adicionais sobre a relação entre a saúde mental e as percepções no ambiente de trabalho. O resultado é apoiado por pesquisas,22-23 ou seja, estudos que identificaram uma associação entre a ideação suicida e a insatisfação no trabalho. A associação entre a ideação suicida e as percepções negativas no trabalho sugere uma relação complexa entre o bem-estar mental e o ambiente profissional, evidenciando a necessidade de suporte e intervenções adequadas, incluindo os estudos que destacam a importância da satisfação no trabalho e da percepção da gerência para o bem-estar mental dos profissionais de saúde23.

Um estudo24 que avaliou a associação entre as atitudes em relação ao trabalho e ao bem-estar psicológico dos profissionais de Enfermagem destacou em seus resultados uma correlação entre as atitudes negativas em relação ao trabalho e aos níveis mais baixos de bem-estar psicológico, corroborando as descobertas da atual pesquisa.

A análise das condições de saúde e histórico familiar demonstra a relevância desses fatores na avaliação do bem-estar dos profissionais de Enfermagem. A presença de doenças incapacitantes e a exposição às situações estressantes estão associadas às atitudes negativas em relação ao trabalho. Resultados semelhantes foram encontrados em estudos que investigaram os impactos da saúde física e emocional na produtividade e no engajamento no trabalho25-26.

Alguns estudos recentes corroboram com esses resultados, destacaram que a saúde mental dos profissionais de saúde está diretamente relacionada à qualidade da colaboração e à eficácia da equipe26-27. Além disso, a associação entre a dor crônica e as atitudes negativas sugere que o desconforto físico pode afetar a percepção das condições de segurança no trabalho27.

Evidências sugerem que a presença de doenças crônicas impacta não apenas o bem-estar físico, mas também a satisfação profissional e a qualidade do cuidado prestado28, fato extremamente relevante no contexto da Enfermagem. Assim, estudos recentes apontaram que os profissionais de saúde que enfrentam distúrbios emocionais têm maior probabilidade de apresentar insatisfação no trabalho e redução do comprometimento organizacional25-29.

A análise das atitudes em relação à gerência destaca a influência de características sociodemográficas e comportamentos de ideação suicida. Esses resultados estão alinhados à literatura que explora os fatores que afetam a percepção dos profissionais em relação à liderança e à gestão21,29.

O estudo apresenta como algumas limitações o fato de a coleta de dados ter se dado durante a pandemia, e o fato de o instrumento de coleta de dados ser autoaplicável, o que pode ter ocasionado vieses de interpretação das questões.

CONCLUSÃO

A associação entre as atitudes de assistência segura com as variáveis socioprofissionais destaca a necessidade de reforçar a colaboração interdisciplinar. A conexão entre a saúde, o histórico familiar e atitudes revela a importância de cuidados de saúde mental na Enfermagem. A presença de doenças incapacitantes e transtornos mentais na família correlacionou-se com as atitudes menos favoráveis. Além disso, a correlação entre a percepção de estresse, experiências recentes e as atitudes negativas sublinha a necessidade de abordar o estresse ocupacional incluindo a APS.

Quanto aos avanços da área de conhecimento da Enfermagem do estudo, aponta-se que especialmente na APS, a implementação de programas de apoio emocional e as estratégias de autocuidado se torna vital, sendo que essa abordagem pode refletir positivamente na saúde da população atendida, criando um ciclo virtuoso de cuidados e promoção da saúde.

  • *
    Artigo extraído da tese de doutorado: “Risco de suicídio na equipe de enfermagem da Atenção Primária à Saúde e sua relação com as atitudes de segurança do paciente”, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, 2022.
  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
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  • Editora associada: Dra. Luciana Kalinke

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Jun 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    05 Set 2023
  • Aceito
    22 Jan 2024
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