Open-access ENSINO DAS INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS PARA ESTUDANTES DE GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM DO BRASIL*

RESUMO:

Objetivo:  identificar a abordagem das Infecções Sexualmente Transmissíveis dentro dos Cursos de Graduação em Enfermagem de Universidades Federais do Brasil no período de 1972 a 2023.

Método:  estudo qualitativo, histórico e social, com uso de fontes orais e documentais. Realizadas entrevistas com 23 docentes de cinco cursos de graduação em enfermagem do Brasil. Para análise dos dados utilizou-se o software Atlas.ti versão 9.0 e também Análise de Conteúdo.

Resultados:  elencaram-se três categorias: “Estratégias e ações realizadas no ensino das Infecções Sexualmente Transmissíveis”, “Articulação do ensino com as políticas públicas” e “Atuação enquanto docente frente ao tema”.

Conclusão:  o ensino envolve educação em saúde, consulta de enfermagem, diagnóstico e tratamento, em aulas práticas e teóricas, com ênfase nas disciplinas de saúde da mulher e do adulto. Os docentes possuem autonomia na maneira como o ensino é ofertado para os estudantes em termos de conteúdo, estratégias e utilização das políticas públicas.

DESCRITORES:
Docentes; Programas de Graduação em Enfermagem; Ensino; Infecções Sexualmente Transmissíveis; Educação em Enfermagem.

HIGHLIGHTS

O ensino das infecções sexualmente transmissíveis ocorre programaticamente.

Ocorre maioritariamente com foco no HIV/aids e sífilis.

Há associações entre o ensino e as políticas públicas.

Docentes possuem autonomia em como o ensino é ofertado.

ABSTRACT

Objective:  To identify the approach to Sexually Transmitted Infections within Undergraduate Nursing Courses at Federal Universities in Brazil from 1972 to 2023.

Method:  Qualitative, historical, and social study, using oral and documentary sources. Interviews were conducted with 23 professors from five undergraduate nursing courses in Brazil. For data analysis, the software Atlas.ti version 9.0 and also Content Analysis were used.

Results:  Three categories were listed: “Strategies and actions carried out in the teaching of Sexually Transmitted Infections”, “Articulation of teaching with public policies” and “Acting as a teacher on the subject”.

Conclusion:  Teaching involves health education, nursing consultation, diagnosis, and treatment in practical and theoretical classes, emphasizing women’s and adult health subjects. Teachers have autonomy in how teaching is offered to students in terms of content, strategies, and the use of public policies.

KEYWORDS:
Teachers; Undergraduate Nursing Programs; Teaching; Sexually Transmitted Infections; Nursing Education.

HIGHLIGHTS

The teaching of sexually transmitted infections occurs programmatically.

It occurs mainly focusing on HIV/AIDS and syphilis.

There are associations between education and public policies.

Teachers have autonomy in how teaching is offered.

RESUMEN

Objetivo:  identificar el enfoque de las Infecciones de Transmisión Sexual dentro de las Carreras de Grado en Enfermería de Universidades Federales de Brasil en el período de 1972 a 2023.

Método:  estudio cualitativo, histórico y social, con uso de fuentes orales y documentales. Se realizaron entrevistas con 23 docentes de cinco carreras de grado en enfermería de Brasil. Para el análisis de los datos se utilizó el software Atlas.ti versión 9.0 y también Análisis de Contenido.

Resultados:  se enumeraron tres categorías: “Estrategias y acciones realizadas en la enseñanza de las Infecciones de Transmisión Sexual”, “Articulación de la enseñanza con las políticas públicas” y “Actuación como docente frente al tema”.

Conclusión:  la enseñanza involucra educación en salud, consulta de enfermería, diagnóstico y tratamiento, en clases prácticas y teóricas, con énfasis en las disciplinas de salud de la mujer y del adulto. Los docentes tienen autonomía en la forma en que se ofrece la enseñanza a los estudiantes en términos de contenido, estrategias y uso de políticas públicas.

DESCRIPTORES:
Docentes; Programas de Grado en Enfermería; Enseñanza; Infecciones de Transmisión Sexual; Educación en Enfermería.

HIGHLIGHTS

La enseñanza de las infecciones de transmisión sexual ocurre programáticamente.

Ocurre mayoritariamente con foco en el VIH/sida y sífilis.

Hay asociaciones entre la enseñanza y las políticas públicas.

Los docentes tienen autonomía en cómo se ofrece la enseñanza.

INTRODUÇÃO

Os currículos dos cursos de graduação em enfermagem variam de acordo com o país, a instituição de ensino e o nível de formação. Atualmente, o ensino no Brasil é guiado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Enfermagem (DCN-ENF), que por si só não apontam conteúdos programáticos que devam ser abordados nas disciplinas de um currículo, porém evidenciam a necessidade de formar um profissional capaz de intervir sobre o processo de saúde-doença, epidemiologicamente significativo na região de atuação e de âmbito nacional1.

Acerca do conteúdo e do ensino das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), é possível evidenciar forte ligação com a disciplina chamada “Enfermagem em Doenças Transmissíveis”, que fazia parte do Currículo Mínimo do Curso de Graduação em Enfermagem conforme Resolução n° 04/72 do Conselho Federal de Educação2. Como recorte histórico deste estudo, optamos pelo ano de 1972, devido à resolução acima, introduzindo a referida disciplina e sua trajetória nos currículos até a atualidade.

Com a evolução do ensino em enfermagem nas questões de reformulações dos currículos, a disciplina acabou sendo incorporada em outras disciplinas dos cursos ou, em algumas instituições, continuou a constar como disciplina específica3-4. Embora o conceito de saúde sexual tenha sido definido em 1975 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), existem inconsistências no conteúdo educacional acerca da saúde sexual para estudantes da área da saúde no mundo, com lacunas no ensino que podem afetar as habilidades clínicas5. Na Espanha, esse conteúdo dentro dos currículos de enfermagem é básico e limitado, com foco em saúde reprodutiva e pouco desenvolvido em saúde sexual6. E com exceção da África do Sul, não há currículos que visem a formação de estudantes de saúde na área de saúde sexual em toda a África Subsaariana7.

Um currículo de saúde adaptado para um país ou região precisa de duas coisas necessariamente: conhecer seu perfil epidemiológico e saber as incidências e prevalências dos agravos referentes à saúde sexual, e realizar uma investigação para identificar as preocupações mais comuns acerca da saúde sexual dos indivíduos8. A temática é de interesse da saúde pública mundial, podendo acometer todas as identidades de gênero, independentemente da idade, e refletir em sérios problemas na saúde sexual e reprodutiva. Para além disso, o surgimento de novas infecções que podem ser adquiridas por contato sexual e o ressurgimento de IST negligenciadas emergem como um desafio crescente na prestação de serviços adequados de prevenção e controle9.

Para o enfrentamento às IST, faz-se necessário a realização de ações de enfermagem que visem a interrupção da cadeia de transmissão, com a detecção precoce dos casos, tratamento das pessoas infectadas e seus parceiros, e prevenção de outras IST e complicações. O papel da enfermagem é essencial no que se refere à educação em saúde, identificação dos casos, notificação, consultas de enfermagem em IST nas diversas clientelas, aconselhamento, tratamento, adesão, entre outros10-12. Diante da magnitude de atividades e ações que a enfermagem deve e pode desenvolver nesta área, surge como questão norteadora “como é realizado o ensino das Infecções Sexualmente Transmissíveis nos Cursos de Graduação em Enfermagem de Universidades Federais do Brasil?” E, como objetivo, identificar a abordagem das Infecções Sexualmente Transmissíveis dentro dos Cursos de Graduação em Enfermagem de Universidades Federais do Brasil no período de 1972 a 2023.

MÉTODO

Estudo qualitativo, histórico e social, com a utilização de fontes orais e documentais. Realizado em cinco cursos de Graduação em Enfermagem de Universidades Federais do Brasil. Foi realizada busca no Portal e-MEC e selecionado o curso de maior tempo de funcionamento de cada região brasileira: Sul - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) (1950); Sudeste - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (1923); Centro-oeste - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) (1975); Nordeste - Universidade Federal da Bahia (UFBA) (1947); e Norte - Universidade Federal do Amazonas (UFAM) (1951).

Para compor as fontes orais, foi realizada identificação do quadro docente nas páginas institucionais dos cursos de graduação, e, posteriormente, uma busca nos currículos Lattes. Inicialmente, foram encaminhados convites via correio eletrônico (e-mail) para docentes com linhas de pesquisa e produções na área das doenças infecciosas, IST, sexualidade, e saúde sexual. Posteriormente, devido à pouca adesão, optou-se por encaminhar convite para todo o quadro docente das instituições, e solicitar indicações conforme as entrevistas ocorriam. A amostragem da pesquisa caracterizou-se primeiramente como intencional, seguida por snowball13. A etapa de coleta de dados foi finalizada assim que atingida a saturação teórica acerca do fenômeno, ou seja, não houve mais insights significativos sobre o fenômeno estudado.

Foram adotados como critérios de inclusão participantes em cargo de direção/coordenação dos cursos de graduação em enfermagem, bem como docentes envolvidos no ensino das IST. Como critério de exclusão, docentes envolvidos no ensino da saúde sexual e sexualidade sem realizar a abordagem das IST em seus conteúdos, e docentes de disciplinas do ciclo básico. De modo a garantir o rigor metodológico do estudo, adotaram-se os critérios do Consolidated criteria for Reporting Qualitative research (COREQ)14.

As entrevistas ocorreram conforme disponibilidade dos participantes, guiadas por roteiro semiestruturado, no período de março a outubro de 2022, em meio/ambiente virtual (Google Meet), com duração média de 52 minutos. Participaram quatro docentes em cargo de coordenação/direção e 19 docentes envolvidos no ensino da temática dentro de disciplinas. As entrevistas foram transcritas pela autora principal, e enviadas em seu teor completo para validação dos participantes.

A etapa de análise dos dados foi composta por codificação e organização no software Atlas.ti versão 9.0, e fundamentada na Análise de Conteúdo15. Por meio da utilização do software, foi possível realizar a inserção de códigos, agrupamento de códigos, e elaborar memorandos que auxiliaram no processo de análise. Os grupos de códigos possibilitaram elencar três categorias de análise: “Estratégias e ações realizadas no ensino das Infecções Sexualmente Transmissíveis”, “Articulação do ensino com as políticas públicas” e “Atuação enquanto docente frente ao tema”. As fontes documentais do estudo foram os Projetos Pedagógicos vigentes dos cursos, grades curriculares, planos de ensino e de aula das disciplinas disponíveis na íntegra nas páginas institucionais, de maneira online, e também disponibilizados pelos docentes.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob parecer n° 5.121.940. Para identificação dos participantes, optou-se pelo anonimato por meio do uso de códigos (E1, E2, E3, respectivamente), inseridos conforme ordem cronológica em que ocorreram as entrevistas, seguidos da sigla da instituição do docente. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi encaminhado virtualmente aos participantes, preenchido e autorizado por meio do Google Forms®, sendo uma via arquivada com a pesquisadora.

RESULTADOS

Dos 23 docentes, 18 (78,26%) eram do gênero feminino e cinco (21,74%) do masculino. A idade variou de 31 a 68 anos, com média de 50,91 anos. O tempo médio de atuação nas instituições foi de 20,96 anos, variando de três a 44 anos de docência. Sete (30,43%) não realizaram a graduação em enfermagem na instituição em que atuavam como docentes. A participação segundo instituição foi de seis (26,09%) docentes da UFRJ, cinco (21,74%) da UFBA, cinco (21,74%) da UFRGS, quatro (17,39%) da UFMT e três (13,04%) da UFAM. Foi possível identificar nove especialidades/área de atuação e conhecimento dos docentes atuantes nas disciplinas com ênfase na saúde da mulher (n=8) e saúde do adulto (n=6).

Estratégias e ações realizadas no ensino das Infecções Sexualmente Transmissíveis

Com o decorrer do avanço da ciência e das políticas públicas de saúde, os aspectos abordados com relação às IST e as ações desenvolvidas no ensino foram se modificando. São percebidas, pelas falas dos docentes, as mudanças que ocorreram em termos de ambientes de assistência às pessoas e conteúdos abordados.

No pré-natal a gente precisava trabalhar questões relacionadas a todas as IST, inclusive ao HIV/aids. Era o momento de fazer os testes, de dar resultado, e aí nessa época a gente fazia atividades educativas com as mulheres em campo. A gente tinha outra área que era de ginecologia, um outro campo de prática que era quando se fazia o preventivo, todas essas coisas. A gente estava sempre também reportando isso às mulheres no ciclo gravídico puerperal associando ao risco de uma transmissão vertical da aids, da sífilis e das outras IST. (E2UFBA)

Eu chamei uma ex-aluna que já estava no HIV/aids há mais de 20 anos e a gente trabalhava de forma separada duas coisas: as IST através da abordagem sindrômica e o HIV/Aids a gente trazia não só a visão do profissional, mas a gente sempre trazia as pessoas vivendo com HIV para trazer o seu contexto de experiência, de adoecimento. (E15UFMT)

Percebeu-se a articulação da enfermagem em todos os aspectos inerentes ao ensino das IST, abordando questões importantes de educação em saúde, aconselhamento e consulta de enfermagem, diagnóstico e tratamento nos diversos campos de estágio, e aulas teóricas. A participação é evidenciada pelos docentes com a consulta de enfermagem e os procedimentos como algo intrínseco no aprendizado dos estudantes. Os docentes utilizam diversas abordagens, não estando restritos ao ensino tradicional em sala de aula, tornando o processo de ensino e aprendizagem mais dinâmico.

A gente tem a prática no laboratório, que a gente aproveita para poder demonstrar as técnicas, para poder orientar como é que vai ser essa prática no serviço, inclusive as atividades educativas que eles já chegam no serviço realizando, porque já tiveram o conteúdo teórico. (E6UFBA)

A gente trabalha em forma expositiva, a gente trabalha em forma de estudos de caso, a gente trabalha muito a questão de eles treinarem os fluxogramas, de como se aplica os fluxogramas, deles reconhecerem as síndromes. [...] Quando eu vou para os campos, para as consultas, a gente trabalha muito ligado ao que a gente vê nas consultas, as detecções, por exemplo, das condilomatosas, dos condilomatosos, das próprias leucorreias patológicas típicas, sempre com esse enfoque da abordagem sindrômica. (E7UFRJ)

A gente disponibiliza materiais para os alunos sempre ler previamente antes das aulas, e trabalha com estudo de casos e oficinas. Em que a gente estimula os acadêmicos a se colocarem como profissionais no serviço de saúde da atenção primária e pensarem na atuação deles, qual é a tomada de decisão do ponto de vista clínico, epidemiológico, social, ético, da formação e das competências dos enfermeiros. E depois a gente vai para campo de estágio na atenção primária, a gente assume a assistência, eu assumo uma agenda de consultas de enfermagem. (E11UFRGS)

[...] eu trabalho com a questão de mapa conceitual, onde eles trabalham as hepatites, aí depois eu passo a teorização, depois a gente faz um jogo de tabuleiro para poder ver a apreensão do conteúdo, para ver o que eles assimilaram para o momento de síntese do conteúdo. (E16UFMT)

Por meio da disponibilização dos planos de ensino e plano de aula de alguns dos docentes entrevistados, foi possível, para além dos apontamentos, evidenciar a atividade educativa voltada para IST de maneira programática nas disciplinas, de acordo com Quadro 1.

Quadro 1
Infecções Sexualmente Transmissíveis nos planos de ensino. Florianópolis, SC, Brasil, 2023

As estratégias e ações de ensino voltadas para o tema percorrem diversas áreas de conhecimento e espaços inerentes ao exercer a enfermagem. É ofertado o ensino de IST com maiores expressões epidemiológicas, e o papel da profissão na promoção, prevenção e controle. Segundo levantamento da frequência em que cada IST foi citada nas entrevistas com os docentes, o foco nas abordagens de ensino são HIV/aids (n=21), Sífilis (n=19), HPV (n=10), Hepatites (n=08), Gonorreia (n=7), Candidíase (n=4), Clamídia (n=3) e HTLV, Herpes, Cancro, Condiloma (n=2).

Articulação do ensino com as políticas públicas

É possível verificar que os docentes envolvidos no ensino da temática recorrem e utilizam as políticas públicas vigentes referentes ao tema. Para além do que se preconiza no âmbito nacional, também há a associação do quadro epidemiológico local e as condutas e orientações de cada região.

Uma das preocupações que a escola tem é, de fato, manter um marcador político em defesa do SUS muito forte no currículo. E eu sinto que nós temos, no nosso currículo aqui, um viés muito político, político para o SUS, político de política pública e nos nossos estudos o que eu sinto e vejo de algumas investigações também, é que o tempo inteiro a gente tem remetido a esse lugar. Mas onde estão as políticas públicas? Qual o papel delas? Por que elas não estão presentes aqui? E eu tenho tentado fazer resgates. (E12UFBA)

As políticas de saúde é o primeiro, começa com as políticas, com a epidemiologia e daí a patologia e a SAE. A gente tinha todos os manuais do Ministério da Saúde, as políticas e os protocolos. A gente trabalhava epidemiologia local e mundial, em nível de Brasil e mais local que a gente tinha, e depois a gente trabalha a patologia e finalizava com a SAE, com protocolo. (E13UFAM)

Eu nem trabalho em cima de livro, de nada, eu falo que as minhas referências são as políticas, os protocolos, tudo que o Ministério da Saúde preconiza. Mas assim, não é algo que vem do curso, é um movimento nosso mesmo. (E14UFMT)

As políticas públicas aparecem enquanto material norteador do ensino em todas as instituições, partindo da articulação do curso em disponibilizá-las nas disciplinas em seus planos de ensino e dos próprios docentes nos planos de aula. Há, ainda, importante articulação com os materiais atuais sobre a temática, fortalecimento do SUS, e as práticas assistenciais da enfermagem frente a esta problemática.

Atuação enquanto docente frente ao tema

A identificação das unidades curriculares e atividades educativas sobre as IST dentro dos currículos de enfermagem é importante para se obter um panorama geral de como o ensino da temática é introduzido aos estudantes. Para além da estruturação dos cursos e seus currículos, faz-se importante apontar o protagonismo dos docentes envolvidos nessa articulação do ensino e sua autonomia em desenvolver suas estratégias no processo de ensino e aprendizagem.

Em 1992 pelo menos até 1993/1994, por aí, essa temática que era foco das minhas atividades. Voltado mais para o público feminino, para a população feminina. Mas como eu também tive atuação em outras disciplinas, por exemplo, eu atuei em educação em saúde. Aí a gente de alguma forma trazia essa temática para educação em saúde. Eu atuei em saúde coletiva, aí também trazíamos isso durante algum tempo, para a saúde coletiva. (E2UFBA)

Eu me envolvia muito mais com atividades de educação e prevenção, atividades educativas para a prevenção das IST, trabalhei bastante com escolas, oficinas de educação sexual na escola, as possibilidades e tecnologias de prevenção, trabalhava bastante com isso no início. Mas atualmente, com o avanço das políticas públicas e com todo o atendimento tecnológico na atenção primária, hoje a gente tem então a possibilidade de realizar o diagnóstico, por exemplo, de HIV, através dos testes rápidos. (E11UFRGS)

Em 2005 na distribuição de encargos, foram distribuídos os conteúdos. E aí ficou para eu falar sobre renal agudo e crônico, as IST e hanseníase, essas três. (E15UFMT)

A trajetória de participação dos docentes e sua articulação com o ensino é diversa, havendo aproximações com a temática devido à necessidade de adaptação para promover o ensino em determinada área de abrangência ou disciplina. Outros se apresentam referência devido à expertise que desenvolveram ao longo do tempo na execução de suas atividades de ensino, existindo ainda a busca pelo aprimoramento do conhecimento.

DISCUSSÃO

O envolvimento ativo dos estudantes em atividades de aprendizagem é um fator importante para o sucesso na profissão. Identificar as melhores estratégias de ensino para promover o engajamento dos estudantes nos ambientes teórico-prático sempre foi um desafio para os educadores de enfermagem. Deste modo, é essencial subsidiar o ensino com um conjunto de estratégias para favorecer e aumentar o engajamento destes estudantes16.

Diante das narrativas docentes, percebe-se que os cenários do processo de ensino são diversos, perpassam a sala de aula, e abrangem campos teórico-práticos (Unidades Básicas de Saúde, Centro de Testagem e Aconselhamento, Serviço de Atendimento Especializado, ambulatórios, escolas, laboratórios, dentre outros espaços). Estudo aponta que os cenários e estratégias utilizados no desenvolvimento das atividades educativas para estudantes de graduação em enfermagem no mundo são diversos, dentre eles os ambientes de estágio, atividades de extensão, aulas expositivas, uso de tecnologias, laboratórios, eventos, participação de experts, e pessoas vivendo com HIV, entre outros17.

Também são evidenciadas metodologias variadas quando se pensa na promoção do ensino, como oficinas, mapas conceituais, estudos de caso, participação de profissionais, e PVHIV. Estudos desenvolvidos com relação ao uso das metodologias ativas no ensino de estudantes de enfermagem identificaram que tiveram destaque a problematização, grupos focais, simulação, casos clínicos, aulas práticas em estágio, laboratório, dentre outros18-19. O uso dessas diferentes estratégias na formação da enfermagem torna os profissionais mais independentes e preparados para trabalhar em equipe e envolvidos com a realidade social18.

Em termos de expressão da temática no currículo, é possível identificar que a maioria das atividades educativas está relacionada ao HIV/aids, sífilis, hepatites e HPV, fato que está em concordância com achados sobre o ensino dessa temática para estudantes de graduação no mundo17, bem como os índices epidemiológicos que possuem forte expressão de casos nessas infecções. Temáticas como condiloma, gonorreia, clamídia, HTLV, herpes e candidíase aparecem discretamente e/ou pontualmente nas abordagens.

Por meio dos relatos, percebe-se a utilização das políticas atuais e vigentes para manejo dessa temática, como por exemplo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (PCDT-IST). Faz-se necessária a contínua qualificação das informações epidemiológicas para que haja melhor compreensão da magnitude e tendência das IST no país, de modo que ocorram ações de vigilância, prevenção, e controle adequados20.

Acredita-se que os profissionais de enfermagem possuem conhecimento sobre o HIV, pois frequentemente estão em contato com temas relacionados. Estudo aponta que a maioria dos estudantes de enfermagem sentiam-se aptos para atuar em questões acerca da saúde sexual. Entretanto, havia algumas barreiras acerca da avaliação da sexualidade das pessoas, como religião, cultura, e atendimento ao sexo oposto21. Outra evidência aponta para as atitudes, percepções, e medos dos estudantes relacionados à falta de conhecimento, e que a educação acerca do HIV/aids pode contribuir para o desenvolvimento de atitudes positivas na prestação de cuidados22.

Os docentes têm papel importante no desenvolver de estratégias que visem diminuir essas barreiras e disseminar a educação preventiva para reduzir riscos individuais e sociais da comunidade em geral. A educação acerca do cuidado de enfermagem nessa temática é de grande relevância nos currículos de enfermagem, para que ocorra reflexão sobre as necessidades e vulnerabilidades das diferentes clientelas. É possível identificar populações específicas de abordagem nas atividades educativas, com grande enfoque na saúde da mulher e do adulto.

Muito embora os índices epidemiológicos demonstrem a concentração de casos nas faixas etárias dos 15 a 49 anos23, há diversos aspectos que valem a pena serem debatidos no tocante às IST, por exemplo: atuação em consultório de rua para redução de danos e vulnerabilidade às IST, uso de álcool e drogas24; assistência de pessoas afro-americanas, negras e latino-americanas convivendo com HIV e a violência25; fatores associados ao ambiente de trabalho de profissionais do sexo e sua influência diante da exposição do HIV e outras infecções26; para a população idosa, a idade, por si só, não é uma condição identificada pelas estratégias prioritárias das políticas públicas de saúde voltadas para IST, entretanto, a década de 2020-2030 foi estabelecida como década do envelhecimento saudável27.

Tais situações colocadas evidenciam a abrangência da vulnerabilidade e suas dimensões (individual, social e programática), e, como estas, estão fortemente associadas aos determinantes sociais da saúde e seus impactos nas iniquidades28-29. Os Determinantes Sociais da Saúde (DSS), tais como nível socioeconômico, educação, e acesso à saúde e cuidados estão inextricavelmente ligados às disparidades de saúde. A vulnerabilidade apresenta-se e é pautada pelo grau de exposição a determinada situação que possa ocasionar maior suscetibilidade em adoecer de uma pessoa ou grupo frente a um agravo de saúde.

A OMS coloca como populações-chave ao HIV homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis, e pessoas em prisões. Destaca que, particularmente nessas populações, fatores sociais, estruturais e contextuais tendem a aumentar a vulnerabilidade ao HIV, hepatites virais e IST23. O foco das atividades educativas precisa ir além dos ciclos de vida do ser humano, devendo abranger os diversos fatores e vulnerabilidades frente à possibilidade de adquirir alguma IST. A educação em saúde para os estudantes de graduação em enfermagem deve oportunizar reflexões afora de diagnóstico e tratamento: precisam, conforme as DCN-ENF preconizam, propiciar o desenvolvimento da capacidade dos futuros enfermeiros de atuar diante do cenário epidemiológico.

As limitações do estudo podem estar relacionadas à execução das entrevistas de maneira online com instabilidades e dificuldades de agendamentos, baixa aceitação em participar do estudo decorrente de questões pessoais, ou não recebimento/leitura dos convites enviados via correio eletrônico. O acesso às páginas institucionais de documentos completos é outro fator limitante.

O estudo evidencia um panorama geral acerca do ensino das IST para estudantes de graduação em enfermagem do Brasil. Por meio dos achados, os cursos de graduação podem identificar lacunas no processo de ensino e/ou potencializar as atividades programáticas em seus currículos, visando uma formação abrangente sobre o tema.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As IST são um tópico importante para a educação em saúde de estudantes de graduação em enfermagem, justificando-se por meio dos índices epidemiológicos e seu impacto na saúde pública. A abordagem do tema dentro dos currículos é evidenciada em aulas teóricas e práticas dentro dos ambientes de estágio e campos de atuação da enfermagem. O ensino é pautado em conscientizar os estudantes sobre a promoção, prevenção, diagnóstico, e o tratamento dessas infecções.

Os docentes desempenham papel fundamental na efetivação do ensino, pois, ao abordarem o tema de maneira programática em suas disciplinas, estão promovendo o conhecimento especializado com informações atualizadas e baseadas em evidências, o que irá permitir que os estudantes sejam preparados para lidar com os desafios da prática assistencial relacionada às IST. O ensino apresenta-se em todas as instituições fortemente associado ao ciclo de vida do ser humano, necessitando reflexões acerca dos diversos fatores que tornam um indivíduo vulnerável.

AGRADECIMENTOS

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - Código de Financiamento 001.

  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
    Petry S, Padilha MI. Teaching Sexually Transmitted Infections to undergraduate nursing students in Brazil. Cogitare Enferm. [Internet]. 2024 [cited “insert year, month and day”]; 29. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v29i0.96747.
  • *
    Artigo extraído da tese de doutorado: “ENSINO DAS INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS NOS CURSOS DE GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM DO BRASIL: UM ESTUDO HISTÓRICO”, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil, 2023.

REFERÊNCIAS

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  • Editor associado:
    Dr. Gilberto Tadeu Reis da Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    27 Jun 2024
  • Aceito
    20 Ago 2024
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