RESUMO
Objetivo: Analisar a percepção dos enfermeiros obstétricos formados na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, sobre a necessidade de formação para a prevenção do risco de lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho na sua prática clínica e identificar as estratégias de formação e propostas.
Método: Estudo de abordagem qualitativa com recurso a técnica de grupo focal, realizado online em novembro de 2022 com a participação de cinco enfermeiros obstétricos. Organizou-se os dados com base na análise de conteúdo e com software WebQDA®.
Resultados: Emergiram cinco categorias que consubstanciam as áreas emergentes para a mudança: Ambiente de cuidados; Conscientização para a prática; Ferramentas para a Gestão de Risco; Conforto da parturiente; Desenvolvimento Profissional e Papel da Organização.
Conclusão: É fundamental que as organizações promovam o equilíbrio entre o cuidado ao utente e a ergonomia do profissional para mitigar o risco de lesões.
DESCRITORES:
Enfermagem Obstétrica; Riscos Ocupacionais; Saúde Ocupacional; Transtornos Traumáticos Cumulativos; Capacitação Profissional
HIGHLIGHTS
Os riscos ocupacionais condicionam a saúde e a qualidade de vida dos profissionais.
Profissionais priorizam os cuidados prestados aos utentes, colocando-se em risco.
Existe a necessidade premente de equilibrar o cuidar da díade utente-profissional.
É preciso investir na formação e investigação em biomecânica.
ABSTRACT
Objective: To analyze the perception of obstetric nurses trained at the Lisbon School of Nursing regarding the need for training to prevent work-related musculoskeletal injuries in their clinical practice and to identify training strategies and proposals.
Method: Qualitative study using focus group technique, conducted online in November 2022 with the participation of five obstetric nurses. The data was organized based on content analysis and WebQDA® software.
Results: Five categories emerged that embody the emerging areas for change: Care environment; Awareness for practice; Risk management tools; Comfort of the parturient; Professional development and role of the organization.
Conclusion: It is essential that organizations promote a balance between patient care and professional ergonomics to mitigate the risk of injury.
DESCRIPTORS:
Obstetric Nursing; Occupational Risks; Occupational Health; Cumulative Trauma Disorders; Professional Training
HIGHLIGHTS
Occupational risks affect the health and quality of life of professionals.
Professionals prioritize the care provided to users, putting themselves at risk.
There is an urgent need to balance the care provided by the patient-professional dyad.
Investment in training and research in biomechanics is needed.
RESUMEN
Objetivo: Analizar la percepción de los enfermeros obstétricos formados en la Escuela Superior de Enfermería de Lisboa sobre la necesidad de formación para la prevención del riesgo de lesiones musculoesqueléticas relacionadas con el trabajo en su práctica clínica e identificar estrategias de formación y propuestas.
Método: Estudio de enfoque cualitativo con recurso a la técnica de grupo focal, realizado online en noviembre de 2022 con la participación de cinco enfermeros obstétricos. Los datos se organizaron basándose en el análisis de contenido y con el software WebQDA®.
Resultados: Surgieron cinco categorías que conforman las áreas emergentes para el cambio: Entorno asistencial; Concientización para la práctica; Herramientas para la gestión del riesgo; Confort de la parturienta; Desarrollo profesional y papel de la organización.
Conclusión: Es fundamental que las organizaciones promuevan el equilibrio entre la atención al usuario y la ergonomía del profesional para mitigar el riesgo de lesiones.
DESCRIPTORES:
Enfermería Obstétrica; Riesgos Laborales; Salud Laboral; Trastornos de Traumas Acumulados; Capacitación Profesional
HIGHLIGHTS
Los riesgos laborales condicionan la salud y la calidad de vida de los profesionales.
Los profesionales dan prioridad a la atención prestada a los usuarios, poniendo en riesgo su propia seguridad.
Existe una necesidad apremiante de equilibrar el cuidado de la díada usuario-profesional.
Es necesario invertir en formación e investigación en biomecánica.
INTRODUÇÃO
As lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho (LMELT), são transtornos traumáticos cumulativos como resultado de distúrbios isolados ou combinados, intensificados pelo desenvolvimento das atividades e efeitos do ambiente no local de trabalho1-2. A taxa de prevalência está diretamente relacionada com as atividades desenvolvidas no local de trabalho que requerem grande esforço físico, sendo a maior percentagem de LMELT nos hospitais públicos, pela escassez de funcionários e/ou equipamentos.
Nos enfermeiros, verificam-se elevadas taxas de prevalência que podem oscilar entre 25-98% 3 impulsionando o interesse nas LMELT como objeto de investigação4-5. Vários são os fatores de risco para as LMELT, dado que os enfermeiros estão expostos na sua prática clínica ao manuseamento e movimentação de cargas, mobilização de utentes, aplicação de força em sobrecarga, adoção de posturas inadequadas, posições estáticas ou repetidas no limite articular, bem como movimentos e gestos repetitivos que contribuem para o aparecimento e/ou agravamento das LMELT1,5-7.
De entre os enfermeiros, os Enfermeiros Obstétricos (EO), pela especificidade da sua atividade profissional, estão sujeitos a riscos adicionais associados, relacionados com: equipamentos e materiais (características ergonômicas, manutenção do equipamento funcional e ausência de equipamentos e materiais); parturiente (o comportamento da parturiente e o seu posicionamento em função do tipo de parto) e a especificidade da tarefa (mobilizações; cuidados à mãe; cuidados ao recém-nascido e o trabalho em equipe)1,7-10.
No Bloco de Partos, a prática dos EO na assistência ao parto em posições horizontal ou verticais, é de grande complexidade pelos diversos focos de atenção em simultâneo, que acarretam posturas inadequadas e instabilidade postural. Os movimentos rápidos forçam a mudança de posição estática para posição dinâmica com a aplicação de força, muitas vezes em sobrecarga, além das suas capacidades individuais1,7,10. Assim, o desconforto músculo-esquelético está associado à adoção de posturas incorretas e movimentos inadequados, aumentando o estresse nos músculos, ligamentos e articulações, o estado de fadiga, os erros, os acidentes e o risco de LMELT, com repercussões na saúde e qualidade de vida1,7,11-12.
A idade, os anos de exercício laboral, o índice de massa corporal, as horas de trabalho, a satisfação e o estresse laboral, são fatores que contribuem para o agravamento destas lesões8,11-12. Embora o estresse, a ansiedade e a depressão possam ser vistos como reações emocionais normais, como, por exemplo, perante uma pandemia (COVID-19),13 estas agravam-se e podem agravar as LMELT1,7. Ainda neste contexto, os enfermeiros estão sujeitos à tensão e exaustão física da prestação de cuidados, com dinâmicas de trabalho alteradas, resultantes do número crescente de utentes, com possível exposição à doença e à morte.
Apesar de os riscos das LMELT terem sido identificados no século XVIII, os profissionais e os gestores valorizam a qualidade dos cuidados prestados e desvalorizam a importância da saúde dos profissionais, havendo mesmo a possibilidade de ocorrer estresse pós-traumático14. As desvalorizações destes fatores em prol das necessidades dos utentes, da resiliência dos profissionais e das necessidades econômicas e sociais, potenciam o agravamento das LMELT contribuindo para o exercício de funções em condições de saúde precárias. Tais situações resultam na diminuição da produtividade e na qualidade dos cuidados, bem como aumentando o impacto econômico no tratamento das lesões e no incremento do absenteísmo laboral6, com consequências para a sustentabilidade e eficiência das organizações6,15.
A análise dos riscos na prática dos EO, que promovam o conhecimento destes profissionais, aliada a uma gestão promotora do bem-estar do colaborador, à segurança dos utentes, bem como ao dimensionamento adequado da equipe nos contextos de prática clínica, contribuem para a redução da sintomatologia músculo-esquelética9.
Ainda são parcos os estudos sobre as lesões músculo-esqueléticas nos EO10. A preocupação com a saúde e a segurança do EO faz com que as LMELT sejam um problema de saúde pública que necessita ser estudado, investigado e analisado. Consideramos que só podemos prevenir se tivermos conhecimentos sobre a Biomecânica no cuidar do EO bem como estratégias preventivas que minimizem o risco de LMELT. Esta investigação tem como objetivos analisar a percepção dos EO formados na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa (ESEL), sobre a necessidade de formação para a prevenção do risco de LMELT na sua prática clínica e identificar as estratégias de formação e propostas.
MÉTODO
Trata-se de um estudo exploratório, descritivo e qualitativo, sendo a coleta de dados através de um Focus Group (FG). Partiu-se da seguinte questão de investigação: Qual a percepção dos EO formados na ESEL, sobre a necessidade de formação para a prevenção do risco de LMELT na sua prática clínica? Neste sentido, foi solicitado aos alumni do Curso de Mestrado em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica (CMESMO) que refletissem sobre a realidade vivenciada na sua prática clínica no Bloco de Partos, relativamente à necessidade de formação sobre prevenção do risco de LMELT.
A contribuição das percepções, significados e opiniões individuais, ancorada nos contextos profissionais de cada participante, tornou-se um forte motivo para a escolha da metodologia16-17. A utilização de FG como estratégia metodológica de investigação assenta essencialmente na possibilidade de gerar novas ideias e de avaliar ideias potenciais, bem como obter uma visão das diferentes opiniões dos participantes, podendo gerar uma grande quantidade de dados num curto período18-20. Simultaneamente, e durante a última década, a coleta online de dados qualitativos emergiu fortemente, permitindo aos investigadores a possibilidade de efetuarem investigações de forma mais rápida e fácil21. Consequentemente, a realização dos FG virtuais, em que os debates utilizam a comunicação através da internet, tem tido uma crescente popularidade nos estudos de investigação20. O FG virtual envolve a inclusão efetiva de participantes, cuja participação poderia de outra forma ser limitada pela distância, tempo ou barreiras sociais20-21.
Neste estudo, a variação geográfica dos participantes e a disponibilidade para a sua participação foi a razão pela escolha da modalidade virtual, procurando maximizar a riqueza dos contributos22. Para a efetivação do FG estão envolvidos diversos métodos, sendo que os FG podem ser conduzidos de forma assíncrona, síncrona ou utilizando uma abordagem de métodos mistos. Nos métodos assíncronos não é obrigatória que a interação dos participantes ocorra em tempo real, enquanto no método síncrono, os participantes interagem em tempo real, possibilitando uma discussão mais livre e uma aproximação aos FG presenciais, com interação face-a-face20. O FG foi realizado de forma síncrona proporcionando a interação em tempo real, bem como a avaliação da linguagem corporal, os tons de voz e as expressões faciais contribuindo para uma avaliação mais rica dos dados21.
Relativamente ao software utilizado na concretização do FG, a opção recaiu sobre o que permitisse uma comunicação audiovisual fiável, apresentasse segurança adequada para a realização do FG, fosse seguro em tempo real e sem encargos financeiros para os participantes19,22, tendo sido escolhido o software Microsoft® Teams, por ser uma plataforma disponível na ESEL. O FG decorreu em novembro de 2022, com uma amostra de conveniência constituída inicialmente por 12 alumni do CMESMO da ESEL e que aceitaram participar depois de lhes ser explicada a investigação em curso.
Os critérios de seleção dos participantes foram: a) terem concluído o CMESMO na ESEL e, b) exercerem funções como Enfermeira(o) Especialista em Bloco de Partos. Destes, cinco alumni participaram no FG online, em novembro de 2022, em que a indisponibilidade de tempo foi a principal razão de recusa dos restantes participantes. O número considerado padrão de participantes no FG varia entre seis e doze pessoas18, no entanto estudos apontam números mais reduzidos para todos os tipos de estudos de FG virtuais20. Nesta investigação, este fato permitiu compreender profundamente as experiências das EO sobre a prevenção das LMELT18,23.
Dois investigadores participaram na coleta de dados, um a moderar e o outro a coadjuvar, tendo ambos redigido notas de campo. A sessão teve uma duração de cinquenta minutos e foi gravada em áudio e vídeo, através da plataforma Microsoft® Teams. Foi também usada outra gravação de áudio como garantia de coleta de todas as informações produzidas24.
Após a realização do FG, procedeu-se à transcrição literal e integral das gravações. O conjunto de dados constituído pelas transcrições e pelas notas produzidas durante a moderação do FG foi submetido à análise de conteúdo dividida em três fases: organização da análise, codificação e categorização25. Iniciou-se pela constituição de um corpus de análise através de uma leitura flutuante, quando foram criados indicadores que suportavam a interpretação. Em seguida, realizou-se a codificação separando em unidade temáticas, sem categorias prévias, o que foi dito pelos participantes e que expressavam a ideia subjacente em cada uma, como Unidades de Registo (UR). Por fim, procedeu-se à categorização em que os elementos foram classificados com base em características comuns, com a contagem das frequências, incidindo no tipo de UR25, operacionalizada através do software webQDA®26.
Considerando o caráter colaborativo que este software permite, destaca-se também a possibilidade de redução da subjetividade dos investigadores envolvidos, o que resulta em maior precisão e sistematização27. Como tal, dois investigadores garantiram a atribuição dos códigos aos discursos, tendo sido validada pelos restantes quatro investigadores.
Este estudo está incluído numa investigação sobre as lesões músculo-esqueléticas nos enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstetrícia, da ESEL estando aprovado pela Comissão de Ética da ESEL (Parecer nº 2/2017/CE de 24/06/2017). A formalização da participação dos participantes efetuou-se por meio do preenchimento de uma declaração em que expressavam o seu consentimento informado acerca da participação no FG. A confidencialidade foi assegurada, tendo sido garantido o anonimato dos participantes em que os nomes dos participantes foram codificados e identificados com um código (A). Apenas a equipe de investigadores teve acesso aos dados.
RESULTADOS
Todos os participantes eram do sexo feminino e a idade variou entre os 35 anos e 47 anos, com uma média de 39,6 anos. O tempo profissional como EO variou entre seis e dezoito meses. Os participantes pertenciam a instituições de saúde públicas ou privadas das regiões de Lisboa, Cascais e Açores. Dos textos produzidos pelos participantes com base nos registros do FG, foi realizada a análise qualitativa recorrendo ao software webQDA®. Numa metodologia de análise de conteúdo, congregou-se as categorias conforme o Quadro 1.
Os participantes começaram por compartilhar as suas idades, tempo de experiência como especialistas e os seus locais de trabalho, contextualizando as suas experiências práticas e desafios específicos. A discussão abordou a importância de aplicar princípios biomecânicos em situações práticas, assim como os desafios encontrados, como falta de espaço e material adequado, e a necessidade de dar prioridade à própria segurança durante procedimentos clínicos.
Os resultados permitiram a definição de seis categorias fundamentais: o ambiente de cuidados, conscientização para a prática, ferramentas para a gestão do risco, conforto da parturiente, oportunidades de formação e o papel da organização. Abaixo discriminam-se cada uma das categorias, exemplificando textualmente a relevância da análise. Na categoria ambiente de cuidados (n=8), ficaram patentes as preocupações dos participantes relativamente às condições nas quais exercem a sua atividade clínica, que em muitos momentos, e pese embora haver uma conscientização para as boas práticas, os recursos não permitem esta aplicabilidade tal como referido pelos participantes:
A sala de fato tem uma limitação de espaço, na minha opinião, até para a própria grávida. Nós queremos cada vez mais movimento no parto. A verdade é que a sala fica muito limitada pelo tamanho da cama e isso ficou depois do nosso posicionamento. (A1)
(...) limitação do material de ser um material mais antigo, pouco versátil, também condiciona depois a noção de posicionamento (...) (A2)
Nestas questões levantadas pelos participantes, a obsolescência de recursos pode redundar em procedimentos mais adaptados, mas com maior risco para a parturiente e para o EESMO sob o qual um dos participantes referiu que:
(...) já tive grávidas a porem o pé em cima do meu ombro (...)” (A4).
Ainda no contexto do ambiente de cuidados, a pressão do momento do parto é também um fator de condicionamento para a aplicação de boas práticas na gestão da biomecânica, tal como referido em que:
(...) depende do momento. Se for uma coisa muito rápida, é quase impossível pensar muito bem em qual será a melhor forma de gerir e de atuar naquele momento. Se for uma coisa mais tranquila, poderá eventualmente dar para mais, mas nem sempre. Confesso que tenho essa preocupação. (A1) e confesso que como ainda estou preocupada com tanta coisa a gerir (...) não é uma prioridade. (A3)
Na dimensão relativa à conscientização para a prática (n=15), da qual emergiram mais unidades de enumeração, é elencado pelos participantes em que uma das variantes é a existência do conhecimento, mas a não priorização no momento conforme evidenciado:
(...) ou seja, tenho consciência da forma como posso proteger, mas também tenho consciência que ainda não é algo que coloco como prioridade. (A2)
(...) confesso que eu também reconheço a importância do posicionamento, mas não. Não me preocupo muito, principalmente na assistência ao parto. (A3).
O foco é efetivamente o sucesso do trabalho de parto, sendo este foco relatado por um dos participantes que considera que, perante este momento:
(...) acaba por se distrair um bocadinho da situação e pronto, não dar essa atenção (...)”. (A4)
No entanto existem também situações em que as experiências prévias providenciaram essa maior consciência para a biomecânica, tendo uma das participantes reforçado que:
(...) já estava desperta para essa realidade porque trabalhava como enfermeira generalista no bloco de partos e via as colegas especialistas, por isso já estava desperta para os princípios da biomecânica e da postura corporal. (A1).
Simultaneamente, e com o risco presente, a conscientização para a prática acontece quando já se instalou um quadro de dor, ou seja, num momento agravado de desenvolver uma LMELT, tal como evidenciado por um dos participantes reforçando que:
(...) há alturas em que saio do serviço com dores na coluna, no pescoço, mas só posteriormente é que me lembro disso.” (A3)
Ligada à dimensão anterior, importa analisar a razão pela qual esta conscientização é tardia ou não prioritária, e a razão primordial elencada pelos participantes e é o conforto da parturiente (n=7) em detrimento do conforto do EESMO, pois:
(...) nós acabamos sempre por dar um bocadinho mais de ênfase ao posicionamento e ao conforto da grávida do que propriamente ao conforto e ao posicionamento do profissional. (A4)
(...) acho que o principal motivo para que eu não me preocupo tanto com a minha, com minha postura ou com a biomecânica é exatamente dar mais atenção à gravidez naquela altura. (A2)
Esta priorização acontece mesmo nos momentos em que existe alguma consciência, pese embora seja acompanhado por um fenômeno de altruísmo, conforme descrito por um dos participantes, em que:
“(...) é claro que a mim vai doer no dia a seguir, mas na altura eu preocupo-me com elas e não comigo. Para o bem-estar delas e com aquilo que elas pretendem para o seu parto”. (A1)
Confrontados com estas questões, abordou-se os participantes sobre que ferramentas para a gestão do risco (n=3) poderiam ser utilizadas para mitigar o risco de LMELT, em que, existindo a conscientização para o processo:
(...) durante o momento de fazer a correção do períneo ou colocar um banco para me sentar para poder deitar um bocadinho mais ao nível, para me proteger em vez de ficar em pé, mal, mal posicionada. (A2).
Acrescem estratégias recorrendo à utilização de instrumentos no bloco de partos como:
(...) a utilização do espelho que nos permite ver a progressão do bebé e não estarmos tão, tão dobradas. (A4)
Ou adaptando, conforme outro participante, estes mesmos recursos à necessidade do EESMO:
(...) costumo fazer a elevação da cama sempre ao meu nível, quando estou no período expulsivo e não estou sempre como quero por estar numa posição totalmente modificada. Ou seja, quando eu estiver na cama é fazer só mesmo a elevação. (A3)
Assim, questionou-se os participantes sobre que medidas poderiam ser importantes tendo em conta o seu desenvolvimento profissional (n=14) para esta conscientização, para a redução do risco das LMELT e, em última instância, para a segurança da parturiente e do bebê, e as opiniões divergiram, quando uma das participantes reforçou que se:
(...) tivéssemos um pouco mais de formação, conseguimos também adotar medidas mais corretas e mais eficazes na prevenção deste tipo de lesões. (A3)
Especialmente esta formação em contexto de prática clínica, ou seja, garantir a transferência do conhecimento dos contextos acadêmicos para os contextos profissionais, tal como sublinhado por uma participante:
(...) era bom realmente era fortalecer esta esta formação num sentido mais prático, porque realmente há coisas que quando nós estamos a fazer no curso da especialidade, depois quando chegamos à prática, nós ganhamos uma noção diferente das coisas. (A4)
No entanto, uma das participantes reforça a necessidade de refletir acerca da prática, consciencializando para a importância da mesma no decorrer da ação:
(...) não falta a formação. Falta é aplicar os conhecimentos. Ou seja, tomar consciência. Ou quando estou a assistir um parto, a pensar na minha postura e não tanto na gravidez que vem que eu consigo fazer isto. Mas o que eu quero dizer é que no meu caso não falta formação, falta mesmo é pôr em prática. (A2)
É também nesta dimensão que é reforçada a importância de aliar a academia aos contextos de saúde, de forma a alinhar a formação com a evidência, sendo referido pelos participantes a necessidade de criar sinergias para a melhoria das práticas:
(...) era uma boa ideia fazermos este intercâmbio com a escola e pedir a divulgação deste destes projetos de investigação e de algum suporte também na formação prática. (A3)
(...) ir buscar estes contributos à escola para depois podermos partilhar em contexto profissional. (A1).
Finalmente, a última dimensão reporta a achados que responsabilizam não só o EESMO no processo de segurança e os conteúdos formativos lecionados pela academia, mas também elenca a importância da organização (n=5) em promover as melhores condições para o desempenho das funções:
(...) haver esse espaço nas empresas, ser promovido e possibilitado aos colaboradores. (A3)
(...) o local onde nós trabalhamos, nos poder proporcionar, para além do material correto, nos conseguir também o equipamento conseguir e proporcionar momentos em que nós consigamos fortalecer o nosso corpo para este tipo de situações e até mesmo depois. (A1)
(...) formações direcionadas para as diferentes áreas do cuidado de enfermagem, dentro daquilo que é a mecânica corporal e a proteção dos profissionais. (A2)
Estas melhores condições, aliadas aos processos formativos das organizações em que deveriam promover esta segurança pois é reconhecido que os resultados terão uma mais-valia alargada em toda a organização:
(...) faz todo o sentido e alertar também as colegas para estas situações e até depois trabalharmos juntamente com a equipa, com os nossos superiores, para conseguir termos condições melhores que facilitem o nosso, o nosso correto posicionamento e que diminuam estes riscos. (A4)
Propõem-se, assim, ideias para melhorar as formações e discussões sobre práticas preventivas que possam ser introduzidas em planos de formação profissional, como simulações práticas e treinos focados na atividade.
DISCUSSÃO
Neste FG, focado na prevenção de lesões musculoesqueléticas, os participantes discutiram as suas experiências e a falta de formação adequada em biomecânica associada à sua prática, principalmente no contexto de assistência ao parto, reconhecendo que este é um problema presente nas organizações e com tradução na saúde ocupacional dos profissionais. Alguns autores28 advertem que o desconforto associado, por exemplo, à utilização de camas de parto não ajustáveis no acompanhamento do trabalho de parto e parto de grávidas é uma ameaça à vida tanto das clientes como das parteiras assistentes, pois um profissional que não está bem tem um risco acrescido de erro na sua prestação e cuidados.
Estes dados apontam para a necessidade de as instituições de saúde terem em conta não só a ergonomia, mas também a melhoria dos aspectos organizacionais do ambiente de trabalho29. Esta preocupação estende-se à organização de espaços de trabalho que permitam a permanência de equipamentos, materiais, da parturiente e do acompanhante, e que possibilitem a mobilidade dos vários elementos da equipa sem obstáculos e sem afetar o equilíbrio, o alinhamento corporal e a adoção de posturas.
Os participantes destacaram que, devido a outras prioridades e urgências no atendimento, a preocupação com a própria postura e mecânica corporal muitas vezes fica em segundo plano. Foi mencionado que atividades como a assistência ao parto em posições verticalizadas e o apoio de pernas das parturientes nos ombros dos profissionais são situações de risco para lesões.
Pela especificidade da atividade profissional, os EO estão sujeitos a riscos específicos de LMELT8-10. Face a esta especificidade, foi encontrada evidência30 que advoga que o ambiente físico da sala de parto tem impacto nas experiências de parto das mulheres e também afeta o pessoal de saúde. Os autores defendem que o design dos ambientes de cuidados de saúde pode ter efeitos na qualidade dos cuidados de saúde, na segurança e na satisfação do pessoal, tanto no que diz respeito aos aspetos físicos, psicológicos como sociais.
Esta questão torna-se ainda mais complexa dado que os resultados deste estudo apontam para que a prática dos EO na assistência ao parto em posições horizontal ou verticais, têm em simultâneo vários focos de atenção, envolvendo posturas inadequadas e com instabilidade postural, com movimentos rápidos que forçam a mudança de posição estática para posição dinâmica, a aplicar força muitas vezes em sobrecarga, além das suas capacidades individuais10.
Quanto ao controle do risco, para além dos aspetos arquitetônicos e equipamentos, é necessária a implementação de programas sistêmicos e multifatoriais, incluindo processos de workflow, formação contínua, monitorização de competências e comunicação entre profissionais sobre o risco29 tal como referem os participantes deste estudo.
A reflexão sobre a tomada de decisão na avaliação do risco e na implementação de medidas preventivas está presente em algumas falas. Estudos futuros devem explorar se as suas decisões foram moldadas não só pela sua experiência, intuição e circunstâncias pessoais, mas também pelas suas atitudes sobre fisiologia, centralidade na mulher, tomada de decisão partilhada e colaboração com outros profissionais.
Sugere-se que a formação prática durante o curso de mestrado possa ajudar a reforçar a importância da biomecânica na prevenção de lesões, com recurso a simulações de alta-fidelidade. Os profissionais reconheceram a necessidade de estratégias e formações práticas que abordem esses riscos não apenas no período expulsivo, mas em diversas atividades, como a amamentação e o banho no bebê.
Alguns profissionais partilharam a experiência de terem as suas posturas corrigidas por colegas durante procedimentos, exemplificando que o apoio entre a equipe pode fomentar a atenção à biomecânica. Foi considerado que a preocupação com a biomecânica torna-se mais relevante com o tempo, especialmente após o surgimento de lesões ou com o aumento da experiência profissional, sugerindo a necessidade de consciência e prevenção desde o início da carreira. As enfermeiras especialistas expressaram interesse em que a escola ofereça formação contínua nessa área, possibilitando a aplicação de conhecimentos sobre biomecânica de maneira prática no contexto laboral.
Discutiu-se o potencial de formação oferecida pelos próprios centros de formação dos profissionais, mencionando que alguns já promovem formações sobre mecânica corporal, mas não focadas no âmbito específico da assistência ao parto.
Este estudo apresenta limitações associadas à sua natureza, método e técnica de coleta de dados. A escolha intencional dos participantes limita os resultados ao contexto sendo que apenas participaram elementos do gênero feminino, o que não nos permitiu determinar se existem diferenças na avaliação do risco, na implementação de medidas, na sintomatologia músculo-esquelética e na tomada de decisão, em função do gênero. A interpretação dos dados pode ter sido influenciada pela experiência dos investigadores nesta área de investigação.
Todavia os resultados apontam direções para pesquisas qualitativas futuras para a compreensão da tomada de decisão na gestão do risco e introdução de medidas preventivas. Outra sugestão é compreender a vivência destes profissionais com o desconforto e outra sintomatologia músculo-esquelética e como ela interfere com a sua qualidade de vida e com a qualidade dos cuidados que prestam. A recomendação de mais estudos qualitativos sobre o tema justifica-se por este ser um campo inter e transdisciplinar que possibilita o diálogo entre a teoria e a práxis, a ciência - métodos e técnicas, e o desenvolvimento humano multidimensional.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Da análise de conteúdo aos achados deste FG emergem as categorias: Ambiente de Cuidados, Conscientização para a Prática, Ferramentas para a Gestão do Risco, Conforto da Parturiente, Desenvolvimento Profissional e Papel da Organização. A discussão revela que, embora as enfermeiras reconheçam a importância de uma boa mecânica corporal, muitas vezes a urgência das tarefas e o foco na utente levam a uma negligência da ergonomia pessoal.
A simulação prática emerge como um tema recorrente, indicado como um método eficaz de aprendizagem e conscientização sobre a prevenção de lesões. Identifica-se uma evolução temporal na forma como as enfermeiras começam a dar prioridade à sua própria saúde e bem-estar, muitas vezes desencadeada por experiências de dor ou lesão pessoal, destacando uma oportunidade para intervenções formativas mais precoces. A conversa gravita em torno da necessidade de encontrar um equilíbrio melhor entre cuidar dos utentes e cuidar da saúde dos profissionais, apontando para uma mudança de cultura necessária nas instituições de saúde.
No futuro devem ter-se em conta estratégias de formação, tendo por base a introdução, o mais precoce possível, de conteúdos relacionados com a biomecânica, numa perspectiva transversal de análise ao longo das unidades curriculares teóricas e com reflexo nas práticas clínicas ainda no âmbito acadêmico. Estes conteúdos devem também ser renovados em contexto profissional, sendo muito importante o envolvimento e responsabilização das instituições de saúde e respectivas unidades orgânicas de formação.
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COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
do Nascimento TFR, Presado MHCV, Marques MFM, Baixinho CRSL, Mineiro ALS, Cardoso MME. Prevenção das lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho dos enfermeiros obstétricos: um focus group. Cogitare Enferm [Internet]. 2025 [cited “insert year, month and day”];30:e97343pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v30i0.97343pt
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