Open-access O pós-abolição como problema histórico: balanços e perspectivas

Resumo

O artigo discute as variáveis mais importantes nos processos de pós-abolição nas Américas, dando destaque as expectativas alimentadas pela última geração de escravos e suas atitudes nas primeiras décadas após o fim da escravidão. Procura inserir o caso brasileiro e sua especificidade e se detém na análise das atitudes dos libertos do sudeste no sentido de proteger a família, estabelecer uma "boa reputação", exercer o pátrio poder e valorizar aspectos importantes da cidadania. Utiliza diversas fontes, principalmente o registro civil, jornais e depoimentos de netos de escravos.

pós-abolição; família; cidadania


Abstract

The article discuss important variables on post-abolition literature, stressing the expectations and attitudes of the slaves´ last generation in the first decades after the end of slavery. It also focuses the Brazilian specific features, analyzing freed people willingness to protect family, to establish a "good reputation", to exercise rights of fatherhood and to enhance important aspects of citizenship. It uses several primary sources, specially birth records, newspapers and testimonies of slaves grandchildren.

post emancipation; family; citzenship


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1

Neste sentido, cf., entre outros, COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia. Rio de Janeiro: DIFEL, 1966; KOWARICK, op. cit.; AZEVEDO, Célia Marinho. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987 e LAMOUNIER, Maria Lúcia. Da escravidão ao trabalho livre. Petrópolis: Vozes, 1988.

2

Diversos textos foram consultados para traçar esta visão geral dos rumos da discussão do pós-emancipação, especialmente no Caribe, mas também nos EUA. Dentre eles, destacamos principalmente os que apresentam, em parte ou no todo, uma abordagem comparativa: FONER, Eric. Nada além da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988; FRAGINALS, Manuel M, ENGERMAN, Stanley & PONS, Frank. Between slavery and free labour: the Spanish Caribbean in the Nineteenth Century. Baltimore: John Hopkins University Press, 1985; SCOTT, Rebecca. Slave emancipation in Cuba: the transition to free labour, 1680-1899. Princeton: Princeton University Press, 1985; HIGMAN, B. W. ed. Trade, Government, and society in Caribbean history, 1700-1920. Kingston: WI/ Heinemann Educational Books, 1983; CROSS, Malcom & HEUMAN, Gad (ed.). Labour in the Carebbean: from emancipation to independence. London: Macmillan, 1988. Em 1992, Michael CRATON publicou um ensaio no qual discute a historiografia sobre a transição para o trabalho livre no Caribe, com ênfase nos resultados dos debates da tese de Eric Williams, intitulado "The transition from slavery to free wage labour in the Caribbean, 1780-1890: a survey with particular reference to recent scholarship", 1992. Desde então, outras obras de referência foram publicadas, entre elas: BUTTLER, Karthleen Mary. The Economics of emancipation: Jamaica and Barbados, 1823-1843. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1995; BECKLES, Hilary e Verene Shepherd (ed.). Caribbean Freedom: society and economy from emancipation to the present. Kingston, Jamaica: Randle, London, 1993; McGLYN, Frank e DRESHER, Seymour (ed.). The Meaning of freedom: economics, politics, and culture after slavery. Pittsburg: University of Pittsburg Press, 1992; HOLT, Thomas. The problem of freedom: race, labour and politics in Jamaica and Britain, 1832-1938. Baltimore: The Jihn Hopkins University Press, 1992 e, em especial, COOPER, F., HOLT, Thomas & SCOTT, Rebecca. Beyond Slavery: explorations of race, labor and citizenship in postemancipation societies. Chapel Hill e Londres: The University of North Carolina Press, 2000, cuja introdução levanta questões importantes para a conclusão deste artigo.

3

Cf., especialmente, EISEMBERG, Peter. Modernização sem mudança: a indústria açucareira em Pernambuco, 1840-1910. Rio de Janeiro: Paz e Terra, Campinas, Unicamp, 1977 e MATTOS de Castro, Hebe Maria. Ao sul da história: lavradores pobres na crise do trabalho escravo. São Paulo: Brasiliense, 1987.

4

Cf. neste sentido, principalmente, HOLT, Thomas, op. cit.

5

Cf. ANDREWS, George Reid. Blacks and whites in São Paulo, Brazil - 1888-1988.Madison: The University of Wisconsin Press, 1991; MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico. Os movimentos sociais na década da abolição. Rio de Janeiro: UFRJ/EDUSP, 1994 e FRAGOSO, João & RIOS, Ana M. L. Um empresário brasileiro nos oitocentos. In: MATTOS, Hebe M. & SCHNOOR, Eduardo. Resgate, uma janela para os oitocentos. Rio de Janeiro: Top Books, 1995.

6

BLACKBURN, Robin. The Overthrow of Colonial Slavery, 1776-1848. Londres: Verso, 1988 (trad. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2002).

7

Sobre estas semelhanças, cf: HOLT, Thomas, op. cit.; MACHADO, Maria Helena, op. cit. e FONER, Eric, op. cit. Ver também MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio. Significados da liberdade no sudeste escravista. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995/ Nova fronteira, 1998 e RIOS, Ana Maria Lugão. My mother was a slave, not me! Black peasantry and regional politics in Southeast Brazil. Tese de doutorado. História, University of Minnesota, nov. 2001.

8

FERNANDES, FLorestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1978; ANDREWS, George Reid, op. cit. e MACHADO, Maria Helena, op. cit.

9

Por exemplo, SOUZA, Sônia Maria de. Terra, família, solidariedade... estratégias de sobrevivência camponesa no período de transição - Juiz de Fora (1870-1920). Tese de doutorado. História. Niterói, Universidade Federal Fluminense, 2003 e ALMEIDA, Fernanda Mouttinho. E depois do Treze de Maio? Conflitos e expectativas dos últimos libertos de Juiz de Fora (1888-1900). Dissertação de mestrado: História, Niterói, Universidade Federal Fluminense, 2003.

10

Cf. MATTOS, Hebe Maria, op. cit., capítulo 5, 1998.

11

Cf. SCHWARCZ, Lilia M. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

12

Cf. AZEVEDO, Aloysio Villela. Os recenseamentos no Brasil. Rio de Janeiro, 1990.

13

Destacamos o projeto Memória da escravidão em famílias negras de São Paulo, coordenado por Maria de Lourdes Janotti e Sueli Robles de Queirós, Centro de Apoio a Pesquisa Sérgio Buarque de Holanda, USP (caixas 1 a 16). Entre os trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores do projeto ver CALLARI, Cláudia Regina. Identidade e cultura popular: histórias de vida de famílias negras. Dissertação de mestrado: História, Universidade de São Paulo, 1993 e JANOTTI, Maria de Lourdes & ROSA, Zita de Paula. Memory of Slaves in Black Family in São Paulo, Brazil. In: BERTAUX, Daniel & THOMPSON, Paul (ed.). Between generation: family models, myths, and memories. Oxford University Press, 1993.

14

Laboratório de História Oral e Imagem do programa de pós-graduação em história -UFF (doravante LABHOI). Todas as entrevistas aqui mencionadas estão arquivadas neste laboratório. Parte delas estão transcritas no site do LABHOI: www.historia.uff.br/labhoi, fazendo parte do acervo do projeto Memórias do Cativeiro (MC). Muitas das análises deste ensaio são retomadas de livro recém concluído a quatro mãos pelos autores deste artigo, com base no trabalho conjunto no projeto Memórias do Cativeiro, com título provisório Memórias do Cativeiro: identidade, trabalho e cidadania no pós-abolição [Civilização Brasileira, no prelo].

15

Cf. RIOS, Ana Maria Lugão op. cit. 2001; MATTOS, Hebe Maria. Os combates da memória. Escravidão e liberdade nos arquivos orais de descendentes de escravos brasileiros. Tempo, v. III, n. 6, pp. 119-138, 1998.

16

FARIA, Sheila Castro. A colônia em movimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998; AZEVEDO, Célia Marinho. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites. Século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987 e MATTOS. Hebe Maria, op. cit., capítulo 1, 1998.

17

MATTOS, Hebe Maria, op. cit., capítulos 1 e 12, 1998.

18

Sobre a superação de rivalidades étnicas e o parentesco ver FLORENTINO, Manolo &GÓES, José R. A paz nas senzalas. Famílias escravas e tráfico atlântico, Rio de Janeiro, c. 1790-c. 1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. Sobre as características demográficas de fazendas antigas ver Rios, Ana M. L. Família e transição: famílias negras em Paraíba do Sul, 1870-1920. Dissertação de mestrado. História. Niterói, Universidade Federal Fluminense, 1990.

19

Carta do Barão de Paty do Alferes em 20 de Janeiro de 1858. Apud SILVA, Eduardo, Barões e escravidão, p. 144, 1984.

20

Entrevistas arquivadas no MC/LABHOI (Memória do Cativeiro/Laboratório de História Oral e Imagem, vide nota 12) sob os mesmos nomes referidos no texto.

21

MATTOS, Hebe Maria, op. cit., parte 4, 1998 e MATTOS de Castro, Hebe Maria, op. cit., 1987.

22

FERREIRA, Marieta de Moraes. Em busca da Idade do Ouro: as elites políticas fluminenses na Primeira República, 1889-1930. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994.

23

MATTOS, Hebe Maria, op. cit., cap. 19, 1998.

24

Depoimento de Claudina (Nininha), MC/ LABHOI.

25

CRATON, Michael, op. cit., 13:2.

26

A discussão sobre estabilidade/mobilidade e contratos no pós-abolição está em RIOS, Ana Maria Lugão, op. cit; 2001.

27

Entrevistas dos irmãos Aurora, Valdomiro e Helena, de Izaquiel Inácio e de Cornélio, MC/LABHOI.

28

Cartório de Inconfidência, (segundo distrito de Paraíba do Sul, Rio de Janeiro), registrode óbitos, Livro 1, Termo 44.

29

Cartório de Inconfidência, registro de nascimentos, Livro 1, Termo 23.

30

SOUZA, Sônia Maria de, op. cit., p. 259, 2003.

31

Entrevista de Izaquiel Inácio, MC/LABHOI.

32

SOUZA, Sônia Maria de, op. cit., p. 276 e seguintes, 2003.

33

Cf. os processos de lesões corporais apresentados por ALMEIDA, Fernanda Mouttinho, op. cit., 2003 e os processos criminais em SOUZA, Sônia Maria de, op. cit., 2003.

34

Entrevista de Paulo Vicente Machado, MC/LABHOI. Esta análise retoma com pequenas modificações a abordagem desta entrevista em MATTOS, Hebe Maria, op. cit., capítulo 19, 1998.

35

Entrevista de Nininha (Claudina de Souza), MC/LABHOI.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jun 2004
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