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Open-access Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional: análise de série temporal da cobertura dos dados, consumo de alimentos ultraprocessados e obesidade entre gestantes adultas e adolescentes, Brasil, 2008-2022

Resumo

Objetivo  Avaliar a tendência temporal da cobertura e prevalência do consumo de alimentos ultraprocessados e estado nutricional em gestantes cadastradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, no âmbito nacional e por macrorregião.

Métodos  Tratou-se de análise de série temporal, utilizando dados de gestantes adultas e adolescentes provenientes dos relatórios públicos de produção e relatórios consolidados do sistema, no âmbito nacional e por macrorregião, de 2008 a 2022. Estimou-se a taxa de variação anual de indicadores da cobertura, consumo alimentar e antropometria por meio da regressão de Prais-Winsten, com nível de significância de 5%.

Resultados  Identificaram-se 319.568 registros de consumo alimentar e 6.585.600 de dados antropométricos. A cobertura anual mostrou tendência crescente de 14,3% para o consumo alimentar (intervalo de confiança de 95% [IC95%] 4,3; 24,7) e de 15,2% para os dados antropométricos (IC95% 10,2; 20,4). O consumo de ultraprocessados apresentou prevalência média de 90,0%, mantendo-se estável e elevada, com maior frequência na região Nordeste. A obesidade evoluiu de 13,3% para 29,9% em gestantes adultas e de 4,5% para 10,4% em gestantes adolescentes, com variação anual de 5,2% e 5,9% (p-valor<0,001).

Conclusão  Houve aumento da cobertura anual do consumo de alimentos ultraprocessados e dos dados antropométricos de gestantes cadastradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. A prevalência do consumo de ultraprocessados se manteve estável e elevada, com maior frequência desse grupo alimentar no Nordeste. O percentual de obesidade aumentou na população estudada sem, no entanto, evidenciar associação direta entre estes fatores.

Palavras-chave
Vigilância Alimentar e Nutricional; Saúde Materna; Ingestão de Alimentos; Obesidade; Estudos de Séries Temporais

Abstract

Objective  To assess the temporal trend of coverage and prevalence of ultra-processed food consumption and nutritional status among pregnant women registered on the Food and Nutrition Surveillance System, at the national level and by macro-region.

Methods  This was a time series analysis study, using data on adult and adolescent pregnant women from public production reports and consolidated reports from the system, at the national level and by macro-region, from 2008 to 2022. The annual variation rate of coverage, food consumption and anthropometry indicators was estimated using Prais-Winsten regression, with a 5% significance level.

Results  A total of 319,568 food consumption records and 6,585,600 anthropometric data records were identified. Annual coverage showed an increasing trend of 14.3% for food consumption (95% confidence interval [95%CI] 4.3; 24.7) and 15.2% for anthropometric data (95%CI 10.2; 20.4). Average prevalence of ultra-processed food consumption was 90.0%, remaining stable and high, with greater frequency in the Northeast region. Obesity increased from 13.3% to 29.9% in adult pregnant women and from 4.5% to 10.4% in pregnant adolescents, with an annual variation of 5.2% and 5.9% (p-value <0.001).

Conclusion  There was an increase in the annual coverage of ultra-processed food consumption and anthropometric data of pregnant women registered on the Food and Nutrition Surveillance System. Ultra-processed food consumption prevalence remained stable and high, with a higher frequency of this food group in the Northeast. Percentage obesity increased in the population studied, without, however, showing a direct association between these factors.

Keywords
Food and Nutritional Surveillance; Maternal Health; Eating; Obesity; Time Series Studies

Resumen

Objetivo  Evaluar la tendencia temporal de la cobertura y la prevalencia del consumo de alimentos ultraprocesados, así como el estado nutricional, en mujeres embarazadas registradas en el Sistema de Vigilancia Alimentaria y Nutricional, a nivel nacional y por macrorregión.

Métodos  Se realizó un análisis de series de tiempo, utilizando datos de mujeres embarazadas adultas y adolescentes provenientes de informes públicos de producción e informes consolidados del sistema, a nivel nacional y por macrorregión, de 2008 a 2022. La tasa de variación anual de los indicadores de cobertura, consumo de alimentos y antropometría se estimó mediante la regresión de Prais-Winsten, con un nivel de significancia del 5%.

Resultados  Se identificaron 319.568 registros de consumo de alimentos y 6.585.600 registros de datos antropométricos. La cobertura anual mostró una tendencia creciente del 14,3% para el consumo de alimentos (intervalo de confianza del 95% [IC95%] 4,3; 24,7) y del 15,2% para los datos antropométricos (IC95% 10,2; 20,4). El consumo de alimentos ultraprocesados ​​mostró una prevalencia media del 90,0%, manteniéndose estable y alta, con mayor frecuencia en la región Nordeste. La obesidad aumentó del 13,3% al 29,9% en embarazadas adultas y del 4,5% al ​​10,4% en embarazadas adolescentes, con una variación anual del 5,2% y 5,9% (p-valor <0,001).

Conclusión  Hubo un aumento en la cobertura anual del consumo de alimentos ultraprocesados ​​y de los datos antropométricos de las embarazadas registradas en el Sistema de Vigilancia Alimentaria y Nutricional. La prevalencia del consumo de alimentos ultraprocesados ​​se mantuvo estable y alta, con una mayor frecuencia de este grupo de alimentos en el Nordeste. El porcentaje de obesidad aumentó en la población estudiada, sin que, sin embargo, se observara una asociación directa entre estos factores.

Palabras clave
Vigilancia Alimentaria y Nutricional; Salud Materna; Ingestión de Alimentos; Obesidad; Estudios de Series Temporales

Aspectos éticos

A presente pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprovação:

Comitê de ética em pesquisa: Universidade de Fortaleza

Número do parecer: 4348452

Data de aprovação: 16/4/2020

Certificado de apresentação de apreciação ética: 31540320.9.1001.5052

Registro do consentimento livre e esclarecido: Não se aplica.

Introdução

A gestação produz alterações fisiológicas para adaptar o corpo às suas necessidades e ao desenvolvimento fetal (1). Nesse cenário, o consumo de alimentos ultraprocessados pode repercutir na diminuição da qualidade nutricional, bem como no desenvolvimento de obesidade, diabetes gestacional e pré-eclâmpsia em gestantes, no baixo peso ao nascer e nas alterações no neurodesenvolvimento em crianças (2-5). A inclusão desses alimentos é influenciada por fatores sociodemográficos, entre menor idade materna, baixa escolaridade e multiparidade (6).

A Vigilância Alimentar e Nutricional, terceira diretriz da Política Nacional de Alimentação e Nutrição, faz-se essencial por possibilitar o monitoramento da alimentação e nutrição e os seus determinantes através do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (7). Esse sistema foi lançado em 2008 e realiza o registro e a divulgação de informações sobre o consumo alimentar e o estado nutricional da população acompanhada na Atenção Primária do Sistema Único de Saúde (8).

As refeições devem priorizar a inclusão de alimentos in natura ou minimamente processados, com o consumo diário de frutas, legumes e verduras, feijão e leguminosas, e a restrição de ultraprocessados e bebidas com adição de açúcares na rotina alimentar (9).

Na dieta habitual de gestantes brasileiras, constatou-se a participação de 21,0% de alimentos ultraprocessados (10). Observa-se que, à medida que aumenta a contribuição desses alimentos, há redução da ingestão de alimentos in natura ou minimamente processados. A maior participação de alimentos ultraprocessados se associa à maior ingestão de calorias, carboidratos simples, sódio e gorduras. No entanto, há diminuição do consumo de proteínas, carboidratos complexos, ferro, folato, selênio, zinco e potássio, comprometendo a qualidade alimentar nesse período (11).

Entre grávidas adolescentes, averiguou-se elevada prevalência de excesso de peso no Brasil e nas macrorregiões entre 2008 e 2018. Assim, evidencia-se a modificação no perfil nutricional ao longo dos anos, associando-se ao aumento de intercorrências na gestação e no nascimento (12,13).

A crescente prevalência de doenças relacionadas ao consumo excessivo de alimentos ultraprocessados ​​e à inadequação do estado nutricional, especialmente entre gestantes, ressalta a necessidade do monitoramento contínuo da ingestão alimentar e do estado nutricional. Nesse sentido, tem-se como intuito orientar políticas públicas voltadas à alimentação e à nutrição e aprimorar intervenções nutricionais, contribuindo para a prevenção de condições adversas para mães e filhos.

Este estudo objetivou avaliar a tendência temporal da cobertura e a prevalência do consumo de alimentos ultraprocessados e estado nutricional e a correlação entre a ingestão de alimentos ultraprocessados e obesidade em gestantes adultas e adolescentes cadastradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, no âmbito nacional e por macrorregião.

Métodos

Delineamento do estudo

Tratou-se de análise de série temporal, utilizando dados secundários disponibilizados pela plataforma do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional versão Web, referentes ao período 2008-2022. As unidades de análise incluíram o Brasil, as cinco macrorregiões (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), os 26 estados e o Distrito Federal. Os dados foram coletados do sistema em 23 de abril de 2023.

Contexto

O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional foi disponibilizado, em sua primeira versão, em 2004 pelo Ministério da Saúde. Em 2008, uma versão para acesso pela internet foi lançada com o objetivo de aprimorar o sistema, abrangendo o registro e a divulgação de informações sobre ingestão alimentar e avaliação nutricional da população acompanhada na Atenção Primária à Saúde. Em 2017, considerando o seu significativo papel, foi lançada a versão 3.0 do sistema, objetivando melhorar a junção do sistema e e-SUS Atenção Básica (8).

O sítio eletrônico compila informações oriundas de ações de vigilância alimentar e nutricional, obtidas a partir dos índices de antropometria e indicadores da ingestão alimentar coletados e registrados por profissionais da saúde, Sistema de Gestão do Programa Bolsa Família, Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional versão Web e e-SUS Atenção Básica (14). O acesso público acontece através de filtros, incluindo mês e ano, região e fase da vida. A partir disso, são gerados dados em planilha eletrônica.

Participantes

Foram analisados dados da cobertura no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional de gestantes adultas e adolescentes cadastradas. Para a realização deste estudo, foi considerada a fase da vida da gestante, a qual é caracterizada como qualquer mulher grávida segundo a classificação do sistema (15).

Variáveis

A taxa de cobertura total de gestantes foi calculada através da divisão do número de registros de consumo alimentar de 2015 a 2022 e estado nutricional de 2008 a 2022 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional versão Web pelo número de nascidos vivos desse período e multiplicado por 100, baseando-se em estudo prévio (16). Para o cálculo da estimativa de gestantes, foi utilizado o número de nascidos vivos, coletado do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos por meio de filtros, incluindo ano e região.

A ingestão de alimentos foi avaliada por meio dos indicadores de consumo alimentar. Estes foram analisados através de formulários para obter informações sobre os alimentos consumidos no dia anterior, as quais foram coletadas por profissionais que compõem equipes de Atenção Primária à Saúde. Foram disponibilizados três formulários, sendo um para crianças menores de 6 meses, um para crianças de 6-23 meses e outro para crianças com 2 anos ou mais, adolescentes, gestantes, adultos e idosos. Neste estudo, foi utilizado o formulário para gestantes. O indicador de consumo de alimentos ultraprocessados correspondeu ao de, pelo menos, um marcador de consumo alimentar não saudável no dia anterior, tendo como opções: bebidas adoçadas; macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote ou biscoitos salgados; hambúrguer e/ou embutidos; e biscoito recheado, doces ou guloseimas (17).

O estado nutricional foi mensurado pelo índice de massa corporal (IMC) pela semana gestacional e avaliado segundo a classificação proposta por Atalah, parâmetro adotado pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional no Brasil e reconhecido em publicações técnicas do Ministério da Saúde. Essa classificação possibilitou avaliar a evolução nutricional na gestação (18) e compreendeu:

  • I – baixo peso (IMC menor ou igual aos valores presentes na coluna do estado nutricional de baixo peso);

  • II – adequado (IMC entre os valores presentes na coluna do estado nutricional de baixo peso e adequado); e

  • III – sobrepeso ou obesidade (IMC entre os valores presentes na coluna do estado nutricional de sobrepeso ou obesidade.

Os pontos de corte numéricos para a classificação do estado nutricional variaram conforme a semana gestacional, inviabilizando a adoção de valores fixos para cada categoria. Esse índice foi resultante do peso corporal em quilogramas dividido pela estatura em metros ao quadrado. A semana gestacional foi determinada através da data da última menstruação, informação presente e obrigatória no questionário. Esta é de conhecimento da gestante comumente, mas também pode ser coletada por meio de exames realizados na gestação, ou, na ausência de informações confiáveis, a data deve ser estimada com base no último mês de menstruação (15).

Fonte de dados

Os dados de cobertura foram avaliados por meio dos relatórios públicos de produção. As informações sobre ingestão de alimentos e estado nutricional foram analisadas por meio dos relatórios consolidados por ano no sítio eletrônico do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional versão Web (https://sisaps.saude.gov.br/sisvan/relatoriopublico/index), com os códigos de análise definidos de acordo com o dado (consumo alimentar ou estado nutricional), ano de referência, mês de referência, região, faixa etária e fase da vida.

Viés

Com o objetivo de minimizar o risco de vieses, os protocolos do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional foram aplicados para a exclusão de valores implausíveis. Além disso, há protocolos de padronização dos dados.

Tamanho do estudo

Foram analisados dados agregados por macrorregiões e Brasil, com 6.585.600 registros para antropometria e 319.568 registros para consumo alimentar de gestantes. O percentual de cobertura do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional foi calculado pelo número anual de registros dividido pelo número de nascidos vivos desse período e multiplicado por 100. Essa população foi estimada a partir do número de nascidos vivos, coletado do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos, de cada ano, entre 2008 e 2022.

Métodos estatísticos

Os dados coletados da plataforma do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional versão Web, para cada macrorregião e ano de referência, foram apresentados em valores relativos (%). A cobertura e a prevalência do consumo de alimentos ultraprocessados e obesidade (variável dependente) foram calculadas segundo a macrorregião e o Brasil para o ano de referência (variáveis independentes).

Para determinar a variação temporal dos indicadores, calcularam-se as prevalências de cada estrato, por ano. Em seguida, foram utilizados modelos de regressão de Prais-Winsten, gerando coeficiente beta (β) e os seus intervalos de confiança de 95%, assumindo o nível de significância de 5%. Esse método é recomendado para estudos ecológicos a fim de minimizar a autocorreção dos resíduos da regressão entre os anos de análise (19). Para a variação anual média da cobertura do consumo de alimentos ultraprocessados e obesidade, foi utilizada a fórmula da taxa de incremento anual (TIA):

TIA=[-1 + (10β)] x 100,

na qual β é resultado da regressão de Prais-Winsten e logaritmo de base 10. Tendência de estabilidade foi indicada a partir de p-valor não significante (p-valor≥0,05) e tendência crescente ou decrescente quando p-valor significante (p-valor<0,05), conforme variação anual positiva ou negativa. Essas informações por unidades federativas foram utilizadas para a correlação de Pearson entre as taxas de incremento anual da ingestão de alimentos ultraprocessados e obesidade entre 2015 e 2022. Utilizou-se o programa Stata versão 11.2 (Stata Corp, College Station, Texas, Estados Unidos) para a realização de todas as análises estatísticas.

Resultados

Entre 2008 e 2022, foram identificados 6.585.600 registros de antropometria e 319.568 de consumo alimentar de grávidas com cadastro no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. De 2015 a 2022, houve aumento da cobertura dos dados de indicadores do consumo de alimentos ultraprocessados de 0,7% a 2,3% (TIA 14,3%; IC95% 4,3; 24,7). Do total de registros dos dados de indicadores do consumo alimentar, 49,4% eram do Sudeste, 19,5% do Nordeste e 12,3% do Sul. A cobertura dos dados antropométricos passou de 3,9% em 2008 para 34,1% em 2022, com variação anual significante de 15,2% (IC95% 10,2; 20,4) (Tabela 1). A maioria dos registros de dados antropométricos foi apresentada pelo Nordeste (35,0%), seguida pelas regiões Sudeste (32,3%) e Norte (11,6%).

Tabela 1
Taxa de incremento anual (TIA) e intervalo de confiança de 95% (IC95%) da cobertura do indicador de consumo de alimentos ultraprocessados (%) e dados antropométricos (%) de gestantes cadastradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. Brasil, 2015-2022 (n=8.872.011)

A variação percentual anual do consumo de ultraprocessados se manteve estável. No entanto, houve a participação média de 90,0% destes na dieta de gestantes brasileiras. No Sul, o percentual de grávidas adultas registradas que consumiram hambúrgueres e/ou embutidos cresceu, em média, 7,9% ao ano (p-valor 0,005), sendo observados o aumento de 3,6% por ano do consumo de macarrão instantâneo, salgadinho de pacote ou biscoito salgado (p-valor 0,006) e a elevação de 3,3% do consumo de biscoito recheado, doces ou guloseimas (p-valor 0,003). O consumo de bebidas adoçadas aumentou 1,5% por ano no Nordeste, com redução de 1,9% no Norte (p-valor 0,020) (Tabelas 2 e 3).

No Nordeste, o percentual de gestantes adultas que consumiram macarrão instantâneo, salgadinho de pacote ou biscoito salgado no dia anterior cresceu, em média, 1,8% ao ano (p-valor<0,001). Da mesma forma, foi observado o aumento de 1,6% por ano do consumo de biscoito recheado, doces ou guloseimas (p-valor 0,002). No Norte, ocorreu a diminuição de 3,8% ao ano do consumo de macarrão instantâneo, salgadinho de pacote ou biscoito salgado (p-valor 0,037) e de 2,6% do consumo de biscoito recheado, doces ou guloseimas (p-valor 0,034) (Tabela 2).

Tabela 2
Taxa de incremento anual (TIA) e p-valor do indicador de consumo de alimentos ultraprocessados (%) em gestantes adultas cadastradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. Brasil e macrorregiões, 2015-2022 (n=319.715)

No grupo de gestantes adolescentes, a variação percentual do consumo de bebidas adoçadas no dia anterior diminuiu 1,0% entre 2015 e 2022 no Brasil (p-valor 0,034) e 1,6% no Norte (p-valor 0,027). Contudo, nesses sete anos, o número de grávidas adolescentes que consumiram hambúrgueres e/ou embutidos cresceu 4,6% ao ano no Nordeste (p-valor 0,005). No Sul, verificou-se o aumento de 3,5% por ano do consumo de hambúrgueres e/ou embutidos (p-valor 0,003) e de 1,5% do consumo de biscoito recheado, doces ou guloseimas (p-valor 0,002) (Tabela 3).

Tabela 3
Taxa de incremento anual (TIA) e p-valor do indicador de consumo de alimentos ultraprocessados (%) em gestantes adolescentes cadastradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. Brasil e macrorregiões, 2015-2022 (n=42.911)

Entre 2008 e 2022, a prevalência de obesidade em gestantes adultas passou de 13,3% para 29,9%, com o aumento de 5,2% ao ano em todas as macrorregiões e no Brasil (p-valor<0,001) (Tabela 4). No grupo de gestantes adolescentes, houve o aumento anual de 5,9% de obesidade, evoluindo de 4,5% em 2008 para 10,4% em 2022 (p-valor<0,001) (Tabela 5).

Tabela 4
Taxa de incremento anual (TIA) e p-valor da prevalência (%) da obesidade em gestantes adultas cadastradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. Brasil e macrorregiões, 2008-2022 (n=1.566.144)
Tabela 5
Taxa de incremento anual (TIA) e p-valor da prevalência (%) da obesidade em gestantes adolescentes cadastradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. Brasil e macrorregiões, 2008-2022 (n=139.144)

As taxas de incremento anuais das unidades federativas referentes ao consumo de ultraprocessados e obesidade de gestantes adultas não apresentaram correlação significativa (r=0,19; p-valor 0,382). Concomitante, não foi observada correlação significante entre tais variáveis em gestantes adolescentes (r=-0,07; p-valor 0,763).

Discussão

Este estudo observou aumento da cobertura dos indicadores de consumo alimentar, com a maioria dos registros apresentados pelo Sudeste, e dos dados antropométricos, com a maior frequência de dados pelo Nordeste. Verificou-se estabilidade da ingestão de alimentos ultraprocessados pelas gestantes no Brasil, porém foi observada maior frequência desse grupo alimentar no Nordeste, maior inclusão de hambúrgueres e/ou embutidos na alimentação de gestantes adultas no Sul e diminuição do consumo de bebidas adoçadas por gestantes no Brasil e no Norte. Entre 2008 e 2022, houve aumento da prevalência de obesidade na população estudada, podendo refletir a ingestão contínua de ultraprocessados no Brasil, alimentos constituídos pelo excesso de calorias e baixa qualidade nutricional. Estes achados reforçaram a importância da Vigilância Alimentar e Nutricional como estratégia fundamental para monitorar os determinantes da saúde materno-infantil e orientar ações no âmbito do sistema de saúde.

Os resultados apresentados possuem limitações que devem ser consideradas ao serem interpretados. Por se tratar de análise de série temporal, não é possível extrapolar as suas conclusões agregadas no nível individual. A utilização de dados secundários está inerente à incompletude e inconsistência das informações. No entanto, o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional corresponde à significativa fonte de dados para a realização de vigilância alimentar e nutricional, pois tem sido aprimorado como ferramenta de cobertura e garantia da qualidade das informações, tornando-se essencial para a gestão e a criação de políticas públicas. Este estudo contou com a utilização de formulários que avaliaram o consumo alimentar do dia anterior através de questões objetivas, minimizando os vieses de memória.

O aumento da cobertura dos indicadores de consumo de ultraprocessados e dados antropométricos em gestantes analisados sugeriu melhor monitoramento nutricional. Apesar da tendência crescente de cobertura, esses percentuais estavam abaixo do esperado ao serem considerados representativos dessa população no nível nacional. No entanto, a literatura indicou evolução na cobertura após a inclusão dos dados pelo e-SUS Atenção Básica ao sistema (8,13).

Entre os usuários cadastrados no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional em 2008 e 2017, houve maior variação anual no aumento da cobertura do grupo de mulheres grávidas (19). Tais resultados podem ser explicados pelo maior acompanhamento dos dados coletados desse público durante a assistência pré-natal pela Estratégia Saúde da Família. A avaliação do estado nutricional está entre os condicionantes de saúde consolidados para acesso ao Programa Bolsa Família (13), responsável pela transferência de renda, a fim de amenizar as desigualdades sociais.

A maioria dos registros dos indicadores de consumo alimentar foi proveniente do Sudeste, enquanto os dados antropométricos foram mais frequentemente registrados no Nordeste. Esse padrão também foi identificado em estudo ecológico sobre a cobertura do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional e o estado nutricional da população idosa no Brasil, que mostrou as maiores variações na disponibilidade dos dados nessas duas regiões (20). Tais resultados podem estar relacionados às diferenças socioeconômicas entre essas regiões: o Sudeste, por contar com maior infraestrutura e recursos, pode absorver melhor os avanços do sistema; e o Nordeste, por concentrar maior número de beneficiários do Programa Bolsa Família, pode apresentar priorização na coleta dos dados antropométricos para o monitoramento do estado nutricional da população.

Embora tenha sido averiguada estabilidade do consumo de alimentos ultraprocessados por gestantes no Brasil, a prevalência de 90,0% indicou ingestão elevada desse grupo alimentar, estando acima do consumo médio de 18,0% da população brasileira (21). Ao comparar as regiões brasileiras de 2015 a 2022, identificou-se a maior frequência do consumo de ultraprocessados pelo Nordeste. Nas regiões Sul e Nordeste, observou-se a maior participação de hambúrgueres e/ou embutidos e, no Norte, a menor ingestão de macarrão instantâneo, salgadinho de pacote ou biscoito salgado por gestantes adultas. Consistente com esses resultados, observou-se que mulheres italianas em gestação gemelar apresentaram consumo excessivo de carnes e peixes processados (22). O elevado consumo de ultraprocessados e a sua manutenção ao longo do tempo são característicos do sistema alimentar hegemônico, no qual há domínio na estrutura de produção, distribuição e consumo de alimentos mundialmente como resultado da industrialização e globalização (23).

Somando-se a isso, a pandemia de covid-19 modificou os hábitos alimentares, estimulando a maior inclusão de ultraprocessados em detrimento dos alimentos in natura e minimamente processados, sendo constatado pelo aumento dos percentuais em 2020, ano em que iniciou o período pandêmico. Nessa época, foi constatado aumento do armazenamento de alimentos em adultos com obesidade, apontando-se como resultado das dificuldades econômicas e do isolamento social vivenciados. Nessa categoria, destacaram-se os alimentos com maior densidade energética, menor qualidade nutricional e maior prazo de validade, como os ultraprocessados (24).

A redução no consumo de bebidas adoçadas por gestantes no Brasil e na região Norte coincide com o encontrado pela Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017 e 2018 (25) e nos dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico de 2013 e 2023 (21,25), que constataram o decréscimo da participação de refrigerantes nos domicílios brasileiros nos últimos anos. Sugere-se que o planejamento e o aperfeiçoamento de políticas públicas, como a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira em sua segunda edição em 2014 e de seus fascículos, são essenciais para essas mudanças.

Constatou-se tendência crescente de obesidade em gestantes adultas e adolescentes no Brasil e por todas as macrorregiões, reforçando os achados do estudo ecológico com gestantes adolescentes participantes do Programa Bolsa Família, que constatou elevação das prevalências de sobrepeso e obesidade entre 2008 e 2018, com variação anual de 8,0% (12). O aumento da prevalência de obesidade para gestantes no país é característico da chamada transição nutricional, já observada na população adulta e intensificada pela pandemia de covid-19 (27). A evolução do ganho de peso gestacional é influenciada pelo estado nutricional prévio à gravidez, como foi observado na evolução ponderal de gestantes portuguesas (28).

Condições socioeconômicas, a exemplo de escolaridade e renda, são apontadas como os principais fatores que exercem efeitos progressivos do ambiente pré-gestacional sobre o ganho de peso na gestação (29). Somando-se a isso, está o atual cenário de sindemia global, que é definida como um conjunto de pandemias que acometem a população em um mesmo local e período, entre obesidade, desnutrição, alterações climáticas e insegurança alimentar e nutricional (caracterizada pelo consumo de alimentos calóricos e escassos em nutrientes essenciais) (30).

Nesse contexto, confirma-se a relevância de aprimorar o acesso ao cuidado adequado na Atenção Primária à Saúde através de ações de prevenção e tratamento de enfermidades, sobretudo nas consultas de pré-natal. A Rede Alyne está inserida entre as iniciativas de ampliação do cuidado ao binômio materno-infantil, correspondendo a uma rede com ações voltadas a gestação, parto, puerpério e nascimento. Entre as suas recomendações, orienta que o pré-natal seja iniciado precocemente, com estratificação de risco e encaminhamento a outros níveis de atenção desde a primeira consulta.

Conclui-se que houve aumento da cobertura anual do consumo de alimentos ultraprocessados e dados antropométricos de gestantes no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. A prevalência do consumo de ultraprocessados se manteve estável e elevada, com maior frequência desse grupo alimentar no Nordeste. O percentual de obesidade aumentou na população estudada sem, no entanto, evidenciar associação direta entre estes fatores. Diante disso, tornam-se essenciais o aprimoramento da coleta de dados do sistema para o diagnóstico alimentar e nutricional e a incorporação de intervenções que promovam práticas alimentares adequadas nessa e em todas as fases da vida.

  • Gestora de pareceristas
  • Parecerista
  • Disponibilidade de dados
    O banco de dados utilizado na pesquisa está disponível em: https://sisaps.saude.gov.br/sisvan/relatoriopublico/index. O acesso aos códigos de análise pode ser solicitado diretamente com o autor correspondente.
  • Uso de inteligência artificial generativa
    Não empregada.
  • Financiamento
    Esta pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (CNPq/MCTI) e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde (Decit/SCTIE/MS), por meio do Edital MS-SCTIE-Decit/CNPq nº 26/2019, além da Coordenação-Geral de Alimentação e Nutrição do Departamento de Promoção da Saúde da Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde (CGAN/DEPROS/SAPS/MS): Processo nº 442852/2019-3.

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Disponibilidade de dados

O banco de dados utilizado na pesquisa está disponível em: https://sisaps.saude.gov.br/sisvan/relatoriopublico/index. O acesso aos códigos de análise pode ser solicitado diretamente com o autor correspondente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    2 Dez 2024
  • Aceito
    5 Jun 2025
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