Open-access Operacionalização dos Inquéritos Soroepidemiológicos em Goiânia: relato de experiência na pandemia de covid-19, 2020

Resumo

Objetivo  Apresentar o relato da experiência da Vigilância em Saúde de Goiânia, Goiás, na condução de quatro inquéritos soroepidemiológicos para estimar a soroprevalência da infecção por SARS-CoV-2 em 2020, descrevendo as etapas operacionais, metodológicas e os desafios enfrentados.

Métodos  Trata-se de um relato de experiência sobre a organização e a execução de quatro inquéritos soroepidemiológicos de base domiciliar no cenário crescente da transmissão de covid-19 em 2020. As atividades foram conduzidas pela vigilância em saúde municipal, com aplicação de questionários padronizados e coleta de sangue venoso para realização de testes sorológicos.

Resultados  Em cada inquérito, cerca de 300 profissionais do serviço público de saúde visitaram aproximadamente 2.500 domicílios em um único dia. Ao todo, 10.147 indivíduos com 5 anos ou mais de idade foram recrutados. Os principais desafios foram: a organização de recursos e de equipe de campo, o desenho metodológico, o suporte laboratorial e a participação da população. Obstáculos superados por meio de parcerias externas, de padronização de métodos e de uma estrutura organizacional sistematizada.

Conclusão  A experiência revelou que, mesmo diante de limitações operacionais, é viável a condução de grandes inquéritos soroepidemiológicos pela vigilância municipal em curto espaço de tempo. A mobilização intersetorial e a sistematização dos processos favoreceram a superação dos desafios, resultando em uma estratégia replicável para outras doenças transmissíveis em contextos emergenciais.

Palavras-chave
Covid-19; Vigilância em Saúde Pública; Surtos de Doenças; Estudos Soroepidemiológicos; Inquéritos Epidemiológicos

Abstract

Objective  To present the experience report of the Health Surveillance Department of Goiânia, Goiás, in conducting four seroepidemiological surveys aimed at estimating the seroprevalence of SARS-CoV-2 infection in 2020, describing the operational and methodological stages as well as the challenges encountered.

Methods  This is an experience report on the organization and implementation of four household-based seroepidemiological surveys conducted amid the rising COVID-19 transmission in 2020. The municipal health surveillance team conducted the activities by administering standardized questionnaires and collecting venous blood samples for serological testing.

Results  In each survey, approximately 300 public health professionals visited around 2,500 households in a single day. In total, 10,147 individuals aged 5 years and older were recruited. The main challenges involved resource and field team organization, methodological design, laboratory support, and community participation. These obstacles were overcome through external partnerships, method standardization, and a systematized organizational structure.

Conclusion  The experience demonstrated that, despite operational constraints, municipal health surveillance can conduct large-scale seroepidemiological surveys within a short time frame. Intersectoral mobilization and process systematization facilitated the overcoming of challenges, resulting in a replicable strategy for other communicable diseases in emergency contexts.

Keywords
COVID-19; Public Health Surveillance; Disease Outbreaks; Seroepidemiological Studies; Health Surveys

Resumen

Objetivo  Presentar el informe de experiencia de la Vigilancia en Salud de Goiânia, Goiás, en la realización de cuatro encuestas seroepidemiológicas para estimar la seroprevalencia de la infección por SARS-CoV-2 en 2020, describiendo las etapas operativas, metodológicas y los desafíos enfrentados.

Métodos  Se trata de un informe de experiencia sobre la organización y ejecución de cuatro encuestas seroepidemiológicas de base domiciliaria en el contexto del aumento de la transmisión de COVID-19 en 2020. Las actividades fueron llevadas a cabo por la vigilancia municipal de salud, mediante la aplicación de cuestionarios estandarizados y la recolección de sangre venosa para la realización de pruebas serológicas.

Resultados  En cada encuesta, aproximadamente 300 profesionales del servicio público de salud visitaron alrededor de 2.500 domicilios en un solo día. En total, se reclutaron 10.147 individuos de 5 años o más. Los principales desafíos fueron: la organización de recursos y del equipo de campo, el diseño metodológico, el soporte de laboratorio y la participación de la población. Estos obstáculos se superaron mediante asociaciones externas, estandarización de métodos y una estructura organizativa sistematizada.

Conclusión  La experiencia demostró que, incluso frente a limitaciones operativas, es viable la realización de grandes encuestas seroepidemiológicas por parte de la vigilancia municipal en un corto período de tiempo. La movilización intersectorial y la sistematización de los procesos favorecieron la superación de los desafíos, resultando en una estrategia replicable para otras enfermedades transmisibles en contextos de emergencia.

Palabras clave
COVID-19; Vigilancia en Salud Pública; Brotes de Enfermedades; Estudios Seroepidemiológicos; Encuestas Epidemiológicas

Aspectos éticos

Esta pesquisa utilizou bancos de dados de domínio público e anonimizados.:

Introdução

A emergência de doenças infecciosas representa um desafio crescente para a saúde pública global, com a pandemia do Corona Virus Disease 2019 (covid-19) representando o evento de maior magnitude desse contexto (1). Epidemias causadas por doenças infecciosas emergentes aumentaram nas últimas décadas, devido a mudanças ambientais decorrentes da atividade humana, a mobilidade internacional e a deficiências nos sistemas de saúde, além de a rápida adaptação microbiana (2). Esse cenário ressalta a importância de sistemas de vigilância capazes de responder prontamente a essas emergências, visando limitar os impactos econômicos e de saúde pública (1).

Frente à ocorrência de epidemias, especialmente por novos agentes, os inquéritos soroepidemiológicos populacionais são uma ferramenta fundamental para a vigilância, potencializando a adoção de estratégias mais adequadas para o controle dessas doenças a partir: da compreensão da dinâmica de transmissão e dos seus fatores associados; da evolução do cenário epidemiológico em momentos distintos; do impacto social; e de subsídios para a calibração de modelos matemáticos (3,4). Com tal cenário em vista, a condução desses inquéritos foi uma estratégia recomendada pela Organização Mundial da Saúde, em 2020, durante a pandemia da covid-19, e amplamente utilizada em países como Suíça, Dinamarca e Brasil (5-7).

Na pandemia de covid-19, diante da necessidade de informações rápidas e precisas sobre imunidade e transmissão, os Centros de Operações de Emergência em Saúde Pública Estadual de Goiás, como o de Goiânia, sugeriram a rápida implementação de sondagens de soroprevalência no município (8,9). Entretanto, a condução de inquéritos soroepidemiológicos apresenta desafios, especialmente em contextos de emergência. Os sistemas de vigilância epidemiológica, operados por serviços de saúde locais, enfrentam limitações importantes, como a escassez de recursos humanos e tecnológicos, além de barreiras logísticas, o que dificulta a coleta de material biológico em amostras representativas da população (1).

Frente a esses desafios, este artigo tem por objetivo relatar a experiência da Vigilância em Saúde de Goiânia, Goiás, na organização e na condução de quatro inquéritos soroepidemiológicos realizados durante o cenário da transmissão de covid-19 em 2020. São descritas as etapas operacionais adotadas, os desafios enfrentados no contexto da emergência sanitária e as estratégias implementadas pelo serviço para viabilizar a execução dos inquéritos.

Métodos

Desenho do Estudo

Trata-se de um relato de experiência institucional da Vigilância em Saúde de Goiânia, Goiás, na organização e na execução de quatro inquéritos soroepidemiológicos, realizados no ano de 2020, para detecção de anticorpos contra o SARS-CoV-2. A proposta surgiu como recomendação do Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública do Estado de Goiás, sendo incorporada à rotina da vigilância local com apoio técnico da Universidade Federal de Goiás.

Local, Período e Amostragem do Estudo

Goiânia, capital de Goiás, possui uma população com 5 anos ou mais, estimada em 1.491.000 habitantes, sendo dividida administrativamente em sete distritos sanitários de saúde: Campinas Centro, Leste, Oeste, Norte, Noroeste, Sul e Sudoeste, como ilustra a Figura 1.

Figura 1
O município por Distritos Sanitários de Saúde. Goiânia, 2025

A estratégia metodológica deste estudo foi planejada para garantir representatividade em cada distrito sanitário do município, com amostra de 400 participantes por distrito. O tamanho amostral foi estimado considerando: (1) população mínima de 200 mil habitantes por distrito; (2) estimativa de prevalência de 15% de infecção pelo SARS-CoV-2; e (3) precisão de ±3,5% (7).

Os inquéritos foram conduzidos em momentos distintos do primeiro ciclo de transmissão da pandemia de covid-19: nos dias 30 de maio, 20 de junho, 11 de julho e 19 de setembro. As datas foram definidas estrategicamente, para contemplar diferentes fases da curva epidemiológica local, permitindo o monitoramento da disseminação do vírus ao longo do tempo (Figura 2).

Figura 2
Casos notificados de covid-19 em residentes do município, média móvel de 14 dias e datas de execução dos inquéritos soroepidemiológicos. Goiânia, 2020

Coleta de Dados

A coleta de dados foi realizada por duplas de campo, compostas por agentes de combate às endemias e por profissionais de saúde habilitados para coleta de sangue. Após consentimento, era aplicado um questionário padronizado, contendo variáveis sociodemográficas, presença de sintomas compatíveis com covid-19, comorbidades referidas, histórico de contato com casos suspeitos ou confirmados e adesão às medidas preventivas. Em seguida, era realizada a coleta de sangue venoso para testagem sorológica.

Os exames foram processados no mesmo dia nos três primeiros inquéritos, graças a parcerias com o Laboratório Clínico da Pontifícia Universidade Católica de Goiás e com o Laboratório de Análises Clínicas Rômulo Rocha da Universidade Federal de Goiás. No quarto inquérito, em razão de limitações técnicas, os exames foram processados uma semana após a coleta. Os testes utilizados foram do tipo imunocromatográfico para detecção de anticorpos totais (IgG e IgM), sendo os três primeiros fornecidos pelo Ministério da Saúde e o quarto viabilizado por parceria com o Instituto Todos pela Saúde.

Os resultados individuais eram disponibilizados via plataforma digital da Secretaria Municipal de Saúde, acessível com código entregue ao participante no momento da entrevista. Os casos reagentes foram informados por telefone e notificados aos sistemas de vigilância. As estimativas de prevalência por distrito e para o município foram divulgadas no mesmo dia ou no seguinte, conforme cronograma operacional.

As informações utilizadas neste relato foram extraídas de documentos institucionais, como atas operacionais, relatórios técnicos e registros produzidos pela vigilância municipal durante a execução dos inquéritos.

Resultados

Foram realizados quatro inquéritos sorológicos, em diferentes momentos epidemiológicos do primeiro ciclo de transmissão da pandemia de covid-19 no município (Figura 2). Cada inquérito foi realizado em um único dia (sábados), no ano de 2020, nas datas de 30 de maio, 20 de junho, 11 de julho e 19 de setembro.

No total, 10.147 indivíduos com 5 anos ou mais participaram dos quatro inquéritos, com 2.510, 2.663, 2.529 e 2.445 participantes em cada um deles, respectivamente. A idade média foi de 45 anos (variando de 5 a 103 anos). Entre os participantes, 43,4% tinham ensino médio completo, 55,1% eram do sexo feminino e, aproximadamente, 43,1% referiram ter comorbidade ou residirem com alguém que tivesse. A distribuição proporcional por distrito foi semelhante entre os inquéritos, mantendo representatividade amostral. Não houve relatos de recusa de participação. A Tabela 1 apresenta a caracterização sociodemográfica dos participantes dos quatro inquéritos realizados em Goiânia no ano de 2020.

Tabela 1
Distribuição da amostra total do município por variáveis sociodemográficas. Goiânia, 2020 (n=10.147)

A execução dos inquéritos soroepidemiológicos demandou a superação de diversos desafios operacionais, organizacionais e técnicos, próprios do contexto da vigilância municipal em emergência. Esses desafios podem ser agrupados em cinco eixos principais: (1) logística de campo, (2) estrutura laboratorial, (3) engajamento e aceitabilidade da população, (4) garantia da comunicação dos resultados e (5) gestão da informação e uso estratégico dos dados. A Tabela 2 apresenta essa categorização e as soluções desenvolvidas para cada um desses aspectos. Suas informações sistematizadas foram construídas com base em relatórios internos da Vigilância em Saúde, em atas operacionais e em registros produzidos, à época, pelos profissionais envolvidos.

Tabela 2
Principais desafios e estratégias adotadas na execução dos inquéritos soroepidemiológicos no município. Goiânia, 2020

Apesar dos sistemas locais de vigilância epidemiológica terem uma grande experiência nas investigações de campo, essas atividades são normalmente relacionadas a indivíduos ou pequenos grupos da população. Entretanto, a condução de grandes inquéritos populacionais pela vigilância não é rotineira e tem como um dos pontos críticos o componente operacional, de logística de campo e de recursos limitados.

Nessa perspectiva, a decisão de realizar cada inquérito em um único dia impôs a necessidade de uma equipe de campo suficiente para o alcance da amostra de 400 participantes por distritos sanitários de saúde. A partir de uma estimativa de 10 residências visitadas por equipe por período, um total de 20 equipes com duas pessoas (40 profissionais) foi alocado para cada distrito sanitário de saúde. A esse total de 280 profissionais, foram acrescidos 20 motoristas, totalizando 300 profissionais do serviço de saúde para a realização de cada inquérito.

Considerando questões de segurança, confiabilidade e aceitabilidade da população, cada equipe de campo foi composta por um agente de combate às endemias com atuação prioritária na área selecionada para essa equipe. Dessa forma, a abordagem em cada domicílio foi realizada por um membro da equipe potencialmente reconhecido pela população local. O outro membro foi um profissional de saúde habilitado para realizar coleta de amostras sanguíneas. Os veículos e os insumos utilizados foram fornecidos pela gestão municipal, com apoio de outras áreas para além da saúde.

Frente à inexistência de um laboratório público municipal para realização dos exames, uma parceria com instituições acadêmicas (o Laboratório Clínico da Pontifícia Universidade Católica de Goiás e o Laboratório de Análises Clínicas Rômulo Rocha da Universidade Federal de Goiás) foi estabelecida para o recebimento e o processamento das amostras. Os testes foram realizados tanto pelo corpo discente quanto por acadêmicos voluntários, permitindo a apresentação dos resultados ainda no mesmo dia de realização do inquérito.

Adicionalmente, a entrega oportuna dos resultados laboratoriais aos participantes foi uma etapa crítica. A solução foi disponibilizá-lo online, para consulta, utilizando um número de cadastro entregue a cada participante durante a entrevista. Em sequência, foi necessária a publicização dos resultados gerais dos inquéritos, realizada por meio de entrevistas à imprensa e de publicações em meios digitais.

Os inquéritos permitiram estimar, a cada inquérito, a prevalência de indivíduos infectados pelo SARS-CoV-2 para cada distrito e para Goiânia como um todo. Esses resultados foram apresentados e discutidos sistematicamente nas reuniões do Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública. Adicionalmente, os resultados também foram utilizados para subsidiar modelos matemáticos por um grupo técnico de análise da Universidade Federal de Goiás. As projeções da curva de casos e da dispersão da doença para o estado também foram adotadas pelo Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública como subsídio para a tomada de decisões.

A gestão do município utilizou essas informações para fundamentar políticas importantes, como direcionamento de locais de testagem para covid-19 e calendários para reaberturas de atividades, além de avaliar as respostas dos questionários como indicadores para adesão às normativas de isolamento social e práticas de prevenção.

Ademais, devido à regionalização dos inquéritos, também foi possível compreender características diferentes de disseminação do SARS-CoV-2 dentro de um mesmo município, comparando-se os distritos sanitários de saúde e subsidiando-se o direcionamento das ações de prevenção e de controle.

Com base na experiência vivenciada, sistematizou-se uma proposta de fluxo para elaboração e execução de inquéritos soroepidemiológicos no âmbito dos serviços públicos de saúde, conforme apresentado na Figura 3. Trata-se de uma proposta organizacional baseada na experiência vivenciada, com potencial de replicação em contextos similares.

Figura 3
Etapas propostas para elaboração e execução de inquéritos soroepidemiológicos pela vigilância em saúde. Goiânia, 2020

Discussão

Nesse relato, nós apresentamos como Goiânia viabilizou e realizou inquéritos populacionais com grande número de participantes em um único dia, frente às necessidades impostas pela pandemia de covid-19. Nesse período, muitos países desenvolveram inquéritos nacionais de prevalência com base populacional (5,10,11) Porém, a pandemia também desafiou e estimulou estados e municípios a desenvolverem seus próprios estudos, como os estados do Espírito Santo e do Rio Grande do Sul (6,12) Além das cidades de São Paulo e Ribeirão Preto (7,13).

Entretanto, a condução de grandes inquéritos populacionais implica em desafios para a vigilância epidemiológica, uma vez que sondagens desse tipo não fazem parte da rotina desses serviços. O primeiro desafio foi a tomada de decisão para operacionalizar esses estudos. Inicialmente, era preciso argumentar com o gestor e com os técnicos que os inquéritos soroepidemiológicos, combinados com outras informações, podem colaborar para: a compreensão da dinâmica de transmissão; a identificação de grupos populacionais de maior risco de infecção; o dimensionamento da subnotificação do evento; e a imunidade da doença na população estudada. Esse conhecimento é fundamental para definição de decisões técnicas mais direcionadas e oportunas em saúde pública (3).

Adicionalmente, o momento pandêmico levou a adoção de Centro de Operações de Emergência em estados e municípios, prática que tem se mantido para outros eventos, como arboviroses (14). A recomendação para condução de inquéritos pelo Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública representa mais um apoio para gestores na tomada de decisão (8) Na pandemia, a covid-19 representava uma nova emergência em saúde pública, ainda não elucidada e com uma escassez de conhecimentos que apoiassem a vigilância em saúde na mensuração da sua disseminação e na adoção de medidas de prevenção e de controle (8,15). Somados, esses foram fatores decisivos para a aprovação da gestão na realização dos inquéritos.

Nesse contexto, a compreensão de que é possível realizar inquéritos populacionais com o apoio institucional e com parcerias acena para potenciais investigações futuras frente às prioridades em saúde, como a prevalência de infecção por arboviroses, a imunidade contra o sarampo ou novas doenças emergenciais (16,17).

Em sequência, observamos a dificuldade operacional para executar um grande inquérito soroepidemiológico, uma vez que são onerosos, demandam utilização eficiente dos recursos humanos, possuem restrições de tempo para sua a realização e, muitas vezes, limitações financeiras, configurando um desafio para países em desenvolvimento, principalmente se guiados pelo serviço de saúde (3). Essa abordagem encontra respaldo em estudos internacionais sobre o desenho de inquéritos sorológicos que destacam ganhos de eficiência ao integrar múltiplos desfechos em uma única investigação populacional (18).

Verificamos que vários inquéritos internacionais realizaram a coleta de dados em um prazo médio de uma a duas semanas (10). Na Suíça, o inquérito envolveu 2.766 participantes em um período de 30 dias (19). No Brasil, um grande estudo multicêntrico, contemplando todos os estados e suas capitais, foi realizado com 89.362 indivíduos em três inquéritos, em que cada um durou quatro dias e contou com cerca de 250 participantes por cidade (20).

Na perspectiva estadual, no Espírito Santo, ocorreram quatro inquéritos de prevalência de SARS-CoV-2, cada um com duração de uma semana, tendo cerca de 4.500 participantes por inquérito (um total de 18.791 indivíduos) (6). No Rio Grande do Sul, houve oito inquéritos, cada um com duração de quatro dias, abarcando um total de 35.611 participantes, também com uma média de 4.500 participantes por inquérito (21) Em São Paulo, cada um dos 11 inquéritos foi realizado em quatro dias com aproximadamente 2.000 participantes, totalizando 23.397 indivíduos (7).

Neste relato, cada inquérito foi realizado em um único dia. Essa decisão foi estratégica, diante da necessidade de obter dados oportunos para orientar ações da gestão municipal em um cenário de emergência sanitária. A execução concentrada permitiu obter informações rápidas e territorializadas, essenciais ao enfrentamento da covid-19. Considerando-se, ainda, que a função desse tipo de estudo é avaliar a situação de saúde em um ponto no tempo, a realização das atividades de campo no menor intervalo possível mostrou-se a alternativa mais adequada (22).

No entanto, foi a sensibilização de todos os departamentos de saúde e, até mesmo, interinstitucionais, naquele momento pandêmico, que ativamente colaborou com a disponibilização de uma equipe de campo suficiente, bem como de materiais, equipamentos de proteção individual e veículos para a realização dos inquéritos. Essa colaboração intersetorial é estratégica, permite a integração de recursos técnicos, operacionais e logísticos, essenciais para a coleta e a análise de dados em larga escala (23).

Nesse contexto, diante da inexperiência prévia do serviço de vigilância na condução de estudos sorológicos de grande porte, identificou-se a necessidade de apoio técnico especializado. Para garantir a qualidade e a confiabilidade dos resultados, buscou-se parceria com instituições acadêmicas, que colaboraram na concepção metodológica, na elaboração do instrumento de coleta, na definição do plano amostral e nas estratégias de análise. Essa colaboração espelhou experiências internacionais, como da Espanha, em que o inquérito nacional foi conduzido por serviços públicos em parceria com institutos acadêmicos (11). No Brasil, a maioria dos inquéritos foi igualmente desenvolvida por universidades com financiamento público (6,7).

Dessa colaboração externa, foi concebido o questionário, com perguntas e respostas predefinidas, questões de escolha múltipla e uma sequência lógica que envolvia os entrevistados, simplificando a coleta de dados (24). Ademais, foi fundamentado cientificamente o cálculo amostral por distrito sanitário de saúde, o grupo populacional alvo, os critérios de elegibilidade dos participantes e a seleção dos domicílios, estabelecendo resultados por subgrupos por heterogeneidade demográfica e socioeconômica da amostra (25).

Outra colaboração externa de essencial importância foi a utilização de estruturas laboratoriais e de equipe técnica de instituições acadêmicas. Vários inquéritos de soroprevalência corroboram essa estratégia de apoio de laboratórios acadêmicos como necessária e, muitas vezes, fundamental, garantindo a confiabilidade dos dados obtidos (19,23,26).

Outro desafio foi garantir a adesão da população. Em inquérito realizado na Etiópia, foram sorteados 2.304 domicílios, dos quais 10,5% não eram acessíveis e outros 9% se negaram a participar (27). No inquérito nacional do Brasil, houve aproximadamente 10% de recusa (20) Em nosso estudo, não houve relatos de recusa de moradores. Isso pode estar relacionado ao fato de a condução do trabalho de campo ter sido realizado por profissionais do serviço público de saúde, devidamente identificados e, por vezes, conhecidos pela comunidade, no caso de agentes de combate a endemias. Além disso, devido à escassez de testes disponíveis, a população encontrou no inquérito uma oportunidade de conhecer seu status sorológico para covid-19.

Ainda nessa perspectiva, a implementação de estratégias de comunicação eficazes também garante a adesão da população e a confiabilidade dos resultados (23). Neste relato, igualmente, o sucesso operacional do inquérito teve o contributo do uso de meios de comunicação, que informaram previamente sobre a ocorrência do estudo no município. A sensibilização da comunidade é essencial para conquistar a confiança e obter a adesão dos participantes. E, ainda, quando os resultados são compartilhados, essa sensibilização pode prevenir questões relacionadas a um estigma desnecessário (28).

Apesar do êxito na execução dos inquéritos, é importante reconhecer algumas limitações desta experiência. A realização em um único dia por inquérito exigiu intensa mobilização logística, o que pode não ser viável em todos os contextos. A ausência de um laboratório municipal estruturado exigiu parcerias externas, o que pode gerar dependência institucional. Além disso, o uso de testes rápidos pode ter influenciado na acurácia dos resultados (29). Mesmo assim, a experiência permitiu consolidar competências técnicas, fortalecer parcerias interinstitucionais e desenvolver um modelo organizacional replicável, que pode ser utilizado pela vigilância em outras emergências em saúde pública.

A experiência relatada oferece subsídios relevantes para o aprimoramento da capacidade de resposta dos serviços de vigilância em saúde em contextos de emergência em saúde pública, evidenciando a viabilidade de implementação de inquéritos sorológicos com estratégias adaptadas à realidade local.

Por fim, constatou-se que a condução de grandes inquéritos soroepidemiológicos é passível de realização dentro das atividades de vigilância, mesmo em curto espaço de tempo. Embora existam desafios, eles podem ser superados através de parcerias, de padronização de métodos e de utilização de estrutura organizacional sistematizada, tendo potencial de replicação para várias doenças transmissíveis.

Agradecimentos

À Dra. Valéria Christina de Rezende Féres, pelo apoio e pela disponibilidade em guarda de toda a soroteca das amostras dos inquéritos, por meio do Laboratório de Biologia Molecular e Tecnologia, aplicada ao Diagnóstico Laboratorial (BioTec), da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Goiás.

  • Gestora de pareceristas
  • Disponibilidade de dados
    Os dados que fundamentam este relato de experiência derivam de registros administrativos institucionais, contendo informações sensíveis de saúde em nível individual, não podendo ser disponibilizados em repositório público. Tabelas agregadas e materiais complementares poderão ser obtidos junto ao autor correspondente, mediante solicitação justificada.
  • Uso de inteligência artificial generativa
    Não empregada.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    7 Fev 2025
  • Aceito
    20 Ago 2025
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