Resumo
Objetivos: Descrever a prevalência de infecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas tipos I e II (HTLV I/II) entre doadores de sangue do Hemocentro de Mato Grosso entre janeiro de 2018 e agosto de 2021, bem como relatar as características demográficas e as coinfecções identificadas nos doadores infectados.
Métodos: Tratou-se de estudo observacional descritivo e retrospectivo com dados dos doadores que compareceram no período analisado. Utilizou-se a técnica de quimiluminescência automatizada para detecção de anticorpos anti-HTLV I/II.
Resultados: Analisaram-se 60.568 amostras de doadores, das quais 63 resultaram positivas, com prevalência de 0,10% (intervalo de confiança de 95% - IC95% 0,08; 0,13) de infecção por HTLV I/II. Maior frequência (0,16%; IC95% 0,10; 0,25) de infecção foi detectada em 2020. Entre os doadores com infecção por HTLV I/II, predominaram: sexo feminino, faixa etária de 31-45 anos, raça/cor da pele parda, escolaridade de ensino médio completo e vinculação profissional com a iniciativa privada A pesquisa de coinfecção HTLV I/II com outros patógenos potencialmente associados à transfusão foi positiva para hepatite B (n=5), sífilis (n=5), HIV (n=2) e hepatite C (n=2). Pela análise do IC95%, não se observou diferença entre os fenótipos ABO dos doadores com sorologia positiva para HTLV I/II nos dados analisados
Conclusão: A prevalência de HTLV I/II observada na amostra estudada é semelhante à reportada por hemocentros brasileiros do Sudeste, porém superior à reportada por hemocentros do Sul. Esse resultado ressalta a necessidade estudos epidemiológicos populacionais para a identificação da prevalência e distribuição da infecção pelo HTLV I/II em Mato Grosso.
Palavras-chave:
Deltaretrovirus; Prevalência; Demografia; Banco de Sangue; Estudos Soroepidemiológicos
Abstract
Objectives: To describe the prevalence of human T-lymphotropic virus types 1 and 2 (HTLV-1/2) infection among blood donors at the Mato Grosso Blood Center between January 2018 and August 2021, as well as to report the demographic characteristics and coinfections identified in infected donors.
Methods : This was a descriptive, retrospective observational study using data from donors who attended during the period analyzed. The automated chemiluminescence technique was used to detect anti-HTLV-1/2 antibodies.
Results: A total of 60,568 donor samples were analyzed, of which 63 were positive, with a prevalence of 0.10% (95% confidence interval - 95%CI 0.08; 0.13) of HTLV-1/2 infection. The highest frequency (0.16%; 95%CI 0.10; 0.25) of infection was detected in 2020. Among donors with HTLV-1/2 infection, the following predominated: female, age group 31-45 years, brown skin color, high school education, and employment relationship in the private sector. The screening for HTLV-1/2 coinfection with other pathogens potentially associated with transfusion was positive for hepatitis B (n=5), syphilis (n=5), HIV (n=2), and hepatitis C (n=2). Based on the 95%CI analysis, no difference was observed between the ABO phenotypes of donors with positive HTLV-1/2 serology in the analyzed data.
Conclusion: The prevalence of HTLV-1/2 observed in the study sample is similar to that reported by blood centers in southeastern Brazil, but higher than that reported by blood centers in the south. This result highlights the need for population-based epidemiological studies to identify the prevalence and distribution of HTLV-1/2 infection in Mato Grosso.
Keywords:
Deltaretrovirus; Prevalence; Demography; Blood Banks; Seroepidemiologic Studies.
Resumen
Objetivos: Describir la prevalencia de la infección por el virus linfotrópico T humano tipos I y 2 (HTLV-1/2) entre los donantes de sangre del Centro de Sangre de Mato Grosso entre enero de 2018 y agosto de 2021, así como informar sobre las características demográficas y las coinfecciones identificadas en los donantes infectados.
Métodos : Se trata de un estudio observacional descriptivo y retrospectivo que utiliza datos de los donantes que acudieron durante el periodo analizado. Se utilizó la técnica automatizada de quimioluminiscencia para detectar anticuerpos anti-HTLV-1/2.
Resultados: Se analizaron un total de 60 568 muestras de donantes, de las cuales 63 fueron positivas, con una prevalencia del 0,10 % (intervalo de confianza del 95 %: 0,08; 0,13) de infección por HTLV-1/2. La frecuencia más alta (0,16 %; IC del 95 %: 0,10; 0,25) de infección se detectó en 2020. Entre los donantes con infección por HTLV-1/2, predominaron los siguientes: mujeres, grupo de edad de 31 a 45 años, color de piel morena, educación secundaria y relación laboral en el sector privado. El cribado de la coinfección por HTLV-1/2 con otros patógenos potencialmente asociados a la transfusión dio positivo para hepatitis B (n = 5), sífilis (n = 5), VIH (n = 2) y hepatitis C (n = 2). Según el análisis del IC del 95 %, no se observaron diferencias entre los fenotipos ABO de los donantes con serología positiva para HTLV-1/2 en los datos analizados.
Conclusión: La prevalencia de HTLV-1/2 observada en la muestra del estudio es similar a la reportada por los centros de transfusión sanguínea del sureste de Brasil, pero superior a la reportada por los centros de transfusión sanguínea del sur. Este resultado destaca la necesidad de realizar estudios epidemiológicos basados en la población para identificar la prevalencia y la distribución de la infección por HTLV-1/2 en Mato Grosso.
Palabras clave:
Deltaretrovirus; Prevalencia; Demografía; Bancos de Sangre; Estudios Seroepidemiológicos.
Esta pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprovação:
Comitê de ética em pesquisa: Hospital Universitário Júlio Müller
Número do parecer: 2.891.623
Data de aprovação: 13/9/2018
Certificado de apresentação de apreciação ética: 97198118.8.0000.5541
Comitê de ética em pesquisa: Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso
Número do parecer: 3.393.190
Data de aprovação: 14/6/2019
Certificado de apresentação de apreciação ética: 97198118.8.3001.5164
Registro do consentimento livre e esclarecido: Obtido de todos os participantes antes da coleta.
Introdução
O vírus linfotrópico de células T humanas tipos I e II (HTLV I/II), família Retroviridae, gênero Deltaretrovirus, foi o primeiro retrovírus isolado em humanos 1. Em 2023, estimou-se que 5 a 10 milhões de pessoas estivessem infectadas com HTLV I no mundo 2, com regiões endêmicas de infecção no Japão, na África Central, na Melanésia, no Caribe e na América do Sul 3. O Brasil é o país com maior número de portadores de HTLV I na América Latina, apresentando aproximadamente 2 milhões de pessoas infectadas em 2021, distribuídos principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país 4.
Em 2023, as prevalências de infecção por HTLV entre doadores de sangue variaram entre 0,03% e 0,48% em Santa Catarina e na Bahia, respectivamente 2. Em Mato Grosso, foi identificada a prevalência de 0,2% de infecção por HTLV I/II em puérperas em 2009 5. Também no Centro-Oeste, houve prevalências de HTLV de 0,017% entre os doadores de sangue de Mato Grosso do Sul em 2023 6 e de 0,09% de Goiás em 2024 7. No país, tem sido observado aumento da prevalência de HTLV-I/II em grupos de pacientes com os vírus das hepatites B e C e da imunodeficiência humana (HIV), e com tuberculose 8,9,10,11,12,13,14.
O HTLV I é detectado principalmente em linfócitos T CD4+, e o HTLV II, em linfócitos T CD8+ (6. Apesar de o HTLV II não estar associado diretamente a patologias, o HTLV I é o agente etiológico da leucemia de células T do adulto e da mielopatia/paraparesia espástica tropical, resultando em alta morbidade e mortalidade, além de condições de hipersensibilidade imunológica como artrite, fibromialgia e uveíte. Não existe terapia eficaz disponível para o tratamento de casos graves associados ao HTLV I 7,8,9,10,11,12. A infecção por HTLV I/II é uma doença de notificação compulsória desde 2024 no Brasil, e está associada, principalmente, à prática de relações sexuais não protegidas e ao uso de drogas endovenosas ilícitas 9.
A prevenção da transmissão transfusional de HTLV I/II é realizada por técnicas imunoenzimáticas e de aglutinação baseadas na presença de anticorpos anti-HTLV I/II em triagens de amostras de sangue dos doadores em hemocentros do Brasil 14,15. No entanto, a confirmação diagnóstica do HTLV I/II requer técnicas mais sensíveis e que detectem a viremia, tornando necessária a complementação com testes moleculares 16,17.
O Hemocentro de Mato Grosso é uma unidade estadual de saúde pública que auxilia diretamente no planejamento e na implementação de políticas de saúde pública do estado, além de ser responsável pela oferta e pelo armazenamento do sangue em escala estadual 17. Este estudo teve como objetivos descrever a prevalência de infecção de HTLV I/II entre doadores de sangue do Hemocentro de Mato Grosso entre janeiro de 2018 e agosto de 2021, bem como relatar as características demográficas e as coinfecções identificadas nos doadores infectados.
Métodos
Delineamento
Tratou-se de estudo observacional descritivo retrospectivo com dados de doadores de sangue do Hemocentro de Mato Grosso, coletados de janeiro de 2018 a agosto de 2021.
Amostras e local do estudo
Todas as amostras de sangue dos doadores analisados neste estudo foram coletadas e processadas simultaneamente ao processo de doação no Hemocentro de Mato Grosso situado em Cuiabá. Após a triagem laboratorial, todas as amostras foram armazenadas a -86ºC. Aquelas com sorologia positiva para HTLV I/II foram retidas no laboratório de sorologias do hemocentro, para retestagem confirmatória.
Participantes
Os participantes foram todos os doadores de sangue do Hemocentro de Mato Grosso, com sede em Cuiabá, e de todas as unidades de coleta e transfusão localizadas nos municípios mais populosos de Mato Grosso, que fizeram suas doações entre janeiro de 2018 e agosto de 2021.
Variáveis
Para esta análise, foram obtidas informações sobre o ano da doação, a idade, o sexo, a raça/cor da pele, o estado civil, a escolaridade, o vínculo profissional, o fenótipo ABO/fator Rh e as infecções detectadas nos doadores.
Fontes de dados e mensuração
Os dados foram obtidos do sistema Hemovida do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde, respeitando a confidencialidade de acordo com regulamentações específicas da área. O sistema Hemovida está disponível em: http://siab.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=060503.
O soro dos pacientes foi submetido à detecção de anticorpos anti-HTLV por quimiluminescência utilizando o kit Alinitys HTLV I/II (Abbott, GMBH), anti-HBc, Syphilis Tp, HIV Ag/Ab combo e anti-HCV, de acordo com as orientações do fabricante. O anti-HBc é o anticorpo contra o antígeno do core viral do vírus da hepatite B. O imunoensaio qualitativo, de leitura visual, in vitro, foi usado para detectar anticorpos contra Treponema pallidum. O imunoensaio de micropartículas por quimioluminescência foi utilizado para a detecção qualitativa simultânea do antígeno HIV p24 e de anticorpos contra o vírus da imunodeficiência humana tipo 1 e/ou tipo 2 (HIV 1/HIV 2). Foi utilizado exame sorológico para detecção de anticorpos contra o vírus da hepatite C (anti-HCV) no sangue dos doadores de sangue. Os testes de triagem foram realizados em simplicata, considerando-se reagente amostras com valores de densidade óptica até 20,0% menor que o valor de limite de detecção=1. Amostras reagentes seguiram para repetição e confirmação pela mesma metodologia.
Métodos estatísticos
Variáveis quantitativas foram categorizadas e, juntamente com as qualitativas, foram descritas em suas distribuições de frequências absoluta e relativa. A prevalência de infecção pelo HTLV I/II foi calculada pela divisão do número de doadores com resultado reagente na pesquisa anti-HTLV I/II pelo total de doadores triados no período analisado.
Todas as proporções relevantes foram apresentadas com respectivo intervalo de confiança 95% (IC95%). Os dados foram organizados em planilha Microsoft Excel e analisados pelo pacote estatístico Stata 12.0 (Stata Corp, Califórnia, Estados Unidos). Utilizou-se o software Quantum Geographic Information System na versão 2.18.26 para a descrição espacial dos doadores com infecção pelo HTLV I/II em Mato Grosso.
Resultados
Foram analisados os dados de 60.568 de doadores de sangue, dos quais 63 resultaram positivos, resultando em prevalência de 0,10% (IC95% 0,08; 0,13) de infecção por HTLV I/II. Maior frequência (0,16%; IC95% 0,10; 0,25) de infecção foi detectada em 2020. Em contraste, o ano de 2019 apresentou a menor prevalência do período analisado, com 0,05% dos doadores. Observou-se incremento de 44,4% na prevalência em 2021 quando esta foi comparada a 2018 (Tabela 1). Esses doadores foram predominantemente captados em Cuiabá, Várzea Grande, Pontes e Lacerda, Chapada dos Guimarães, Nortelândia e Nobres, localizados no centro-sul e oeste de Mato Grosso (Figura 1).
Descrição espacial dos doadores de sangue analisados no processo de triagem laboratorial com sorologia positiva para vírus linfotrópico de células T humanas tipos I e II com relação a Cuiabá (n=43), Várzea Grande (n=16), Nobres (n=1), Nortelândia (n=1), Chapada dos Guimarães (n=1) e Pontes e Lacerda (n=1). Mato Grosso, 2018-2021 (n=63)
Distribuição de amostras e intervalos de confiança de 95% (IC95%) de doadores de sangue gerais e dos reagentes para o vírus linfotrópico de células T humanas. Mato Grosso, 2018-2021 (n=60.568)
Durante o processo de triagem dos doadores com HTLV I/II positivo, 36 deles retornaram para retestagem, dos quais 26 confirmaram o resultado anterior (Tabela 2). Entre os 63 doadores com sorologia reativa para HTLV I/II durante o processo de triagem, predominaram doadores do sexo feminino, da raça/cor da pele parda, de ensino médio de escolaridade e com vínculo profissional na iniciativa privada (Tabela 3).
Confirmação de amostras de doadores de sangue com resultados reagentes, zona cinza e não confirmadas, próximo ao limite de detecção, para o vírus linfotrópico de células T humanas. Mato Grosso, 2018-2021 (n=36)
Descrição das características demográficas dos doadores de sangue com infecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas. Mato Grosso, 2018-2021 (n=63)
Constatou-se que 34 doadores pertenciam ao fenótipo sanguíneo O+; 19, ao grupo A+; 2, ao grupo A-; 4, ao grupo B+; 3, ao grupo O-; e 1, ao grupo B-. Pela análise do IC95%, não se observou diferença entre os fenótipos ABO dos doadores com sorologia positiva para HTLV I/II nos dados analisados (Tabela 4).
A pesquisa de coinfecção HTLV I/II com outros patógenos potencialmente associados à transfusão foi positiva para o vírus da hepatite B (n=5), a sífilis (n=5), o HIV (n=2) e o vírus da hepatite C (n=2) (Tabela 5).
Distribuiçãoa da frequência e intervalos de confiança de 95% (IC95%) de doadores de sangue (n=60.568) com infecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV I/II), segundo o fenótipo ABO/Rh. Mato Grosso, 2018-2021 (n=63)
Marcadores de coinfecção que apresentaram soropositividade com a infecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas nos testes de triagens positivas para anti-Hbc, Syphilis TP, HIV Ag/Ab combo e anti-HCV. Mato Grosso, 2018-2021 (n=14)
aAnticorpo contra o antígeno do core do vírus da hepatite B; bImunoensaio qualitativo in vitro, de leitura visual, usado para detectar anticorpos do Treponema pallidum no soro humano; cDetecção qualitativa automática in vitro do antígeno p24 do HIV e anticorpos para o vírus da imunodeficiência humana tipo 1 e/ou tipo 2 (HIV-1/HIV-2); dAnti-HCV é um exame sorológico que detecta a presença de anticorpos contra o vírus da hepatite C (HCV) no sangue.
Discussão
Neste estudo descritivo, foram avaliados os dados de 60.568 doadores de sangue do Hemocentro de Mato Grosso entre janeiro de 2018 e agosto de 2021. A prevalência estimada de infecção pelo HTLV I/II foi 0,10%, semelhante às reportadas para Mato Grosso Sul 6 e Goiás 7, ambos pertencentes à região Centro-Oeste e que também avaliaram população de doadores de sangue.
Este é o primeiro estudo que avaliou a prevalência e as características dos doadores inaptos por HTLV I/II positivo durante o processo de triagem laboratorial no Hemocentro de Mato Grosso. O Ministério da Saúde preconiza a realização obrigatória de triagem sorológica para HTLV I/II entre doadores de sangue desde 1993. A pesquisa do anti-HTLV I/II na triagem do doador de sangue é estratégia fundamental para garantir a segurança transfusional, promover saúde pública de qualidade e auxiliar na determinação de índices epidemiológicos da infecção 4.
A investigação da infecção de HTLV I/II em doadores de sangue tem sido abordada em diversos estudos, com proporções variando de 0,08% na França, 0,20% nos Estados Unidos e 0,29% no Canadá 19,20,21,22,23. No Brasil, estudos realizados com doadores de sangue de diferentes regiões mostram prevalências também baixas, que variaram de 0,02% em Mato Grosso do Sul 6, 0,03% em Santa Catarina 21, 0,04% no Paraná 23, 0,08% em Minas Gerais, 0,10% em São Paulo e 0,13% no Amazonas 7. Contudo, prevalências mais altas foram descritas na população geral no Nordeste e no Norte, com 0,48% na Bahia e 0,46% no Acre 7. A grande variação da prevalência de HTLV I/II entre diferentes localidades pode estar relacionada às características demográficas e comportamentais das populações estudadas, bem como às variações nas políticas implementadas e nos testes de triagem entre esses doadores de sangue 6,16.
O Hemocentro de Mato Grosso está localizado em Cuiabá, a capital. Esta concentra a maior população desse estado de 142 municípios. Mato Grosso é caracterizado por sua grande extensão, baixa densidade populacional e regiões de fronteira internacional. Os municípios da baixada cuiabana foram prevalentes entre os doadores positivos de HTLV I/II, que podem estar relacionado com maior risco de transmissão, com padrão de comportamento social semelhantes aos demais grandes centros das cidades brasileiras. A maior probabilidade de muitas pessoas vivendo em pequenas áreas influenciadas pela composição sociocultural e demográfica da população confere comportamento de risco para as infecções sexualmente transmissíveis 24. Apenas uma infecção pelo HLTV I/II foi identificada em Pontes e Lacerda, região do Vale do Guaporé, na divisa com a Bolívia, que pode estar relacionada ao baixo índice de desenvolvimento humano e ao alto índice de pobreza dessa região 25.
Os achados demonstraram que houve predomínio de infecção para HTLV-I/II em 2020 e 2021, período da pandemia de covid-19, em relação ao período pré-pandêmico. Em contrapartida, uma pesquisa realizada na América do Sul demonstrou a redução da infecção de HTLV I/II no período 2020-2022, quando comparado ao período 2018-2019 26.
Embora ocorra variação entre a infecção de HTLV I/II entre os anos analisados, os resultados são semelhantes aos de outros estudos na mesma população 18,19,20,21,22,23,24,25,26,27. Esses resultados indicam diferenças de metodologias utilizadas com realização de testes confirmatórios moleculares ou técnicas diferentes dos testes realizados na triagem sorológica.
Ensaios de quimiluminescência são confiáveis para a detecção de anticorpos com alta sensibilidade e especificidade, na triagem sorológica do HTLV I/II 24. Uma pequena parcela de doadores não teve a infecção de HTLV I/II confirmada na segunda testagem. Em populações de baixo risco como doadores de sangue, triagens sorológicas podem ter valor preditivo baixo 25,26,27,28,29. Resultados inconclusivos podem ser relacionados a diferentes fatores, como período de soroconversão, cepas de HTLV diferentes das utilizadas pelos kits e presença de baixa titulação de anticorpos no momento da análise 30.
Um único estudo descreve 0,2% de soropositividade para o HTLV-I/II entre as mulheres puérperas em Mato Grosso 5. Estes dados corroboram estudos anteriores que indicaram maior prevalência de infecção por HTLV I/II entre as mulheres, bem como maior risco de transmissão pela via sexual, acentuado e relacionado ao aumento da idade 2,3,31.
Entre as coinfecções virais de maior relevância clínica para o HTLV I/II, destacam-se aquelas relacionadas ao HIV 1, hepatites causadas pelos vírus das hepatites B e C, além de outras infecções sexualmente transmissíveis como a sífilis 3. Infecção do HTLV I/II e outros marcadores sorológicos de infecções virais também foi investigada, fornecendo percepções importantes para o diagnóstico de manejo clínico dos doadores de sangue. Os resultados demonstraram que, entre os doadores infectados por HTLV I/II, alguns apresentaram anticorpos para a detecção da sífilis e dos vírus das hepatites B e C, possivelmente pelo fato de este estudo abordar apenas doadores de sangue, que são pessoas com poucas exposições e com esperado menor risco para infecção sexualmente transmissível 2,13,14,19,29,30,31,32,33.
A falta de associação entre infecção por HTLV I/II e fenótipo ABO/Rh entre os doadores de sangue estão de acordo com outros relatos, embora estudos anteriores tenham relatado taxas de prevalência mais altas entre indivíduos com tipo sanguíneo AB, com proteção à infecção aos doadores do tipo A 32,33,34,35.
Uma limitação deste estudo foi a necessidade de atualização do sistema do Hemocentro de Mato Grosso, o que dificultou a emissão de relatórios e a coleta de dados. Além disso, as ausências de doadores para a coleta da segunda amostra limitaram o fornecimento de dados mais abrangentes.
Em síntese, a prevalência de infecção pelo HTLV I/II entre os doadores de sangue do Hemocentro de Mato Grosso foi baixa e com distribuição das características demográficas e clínicas semelhantes às já relatadas na literatura 34,35. A importância de estudos colaborativos e a troca de informações futuras entre diferentes regiões do país serão úteis para o entendimento da epidemiologia do HTLV I/II em Mato Grosso
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Disponibilidade dos dados do artigo
O banco de dados e os códigos de análise do sistema Hemovida utilizados na pesquisa estão disponíveis em: http://siab.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=060503.
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Uso de inteligência artificial generativa
Não empregada.
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Gestora de pareceristas:
Izabela Fulone - https://orcid.org/0000-0002-3211-6951
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Parecerista:
Ilka Afonso Reis - https://orcid.org/0000-0001-7199-8590
- Parecer:
Editado por
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Editor-chefe:
Jorge Otávio Maia Barreto - https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
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Editor científico:
Everton Nunes da Silva - https://orcid.org/0000-0001-8747-4185
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Editor associado:
Renato Azeredo Teixeira - https://orcid.org/0000-0002-8682-3176
O banco de dados e os códigos de análise do sistema Hemovida utilizados na pesquisa estão disponíveis em: http://siab.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=060503.


