Open-access Artes e formação em terapia ocupacional: experiências e narrativas de universitárias em tempos de pandemia

Resumo

A presente pesquisa propõe uma análise da importância da arte na formação acadêmica, por meio da vivência das alunas do terceiro termo do curso de graduação em Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Paulo, no módulo de ART – Arte e Corpo, no primeiro semestre de 2020. Devido à pandemia de Covid-19, através de plataformas virtuais, foram mobilizadas práticas corporais e artísticas para o cuidado individual e coletivo do grupo, com foco em dinâmicas que envolviam a construção de presença dos corpos em situação de aulas tecno-mediadas. Para isto, foram utilizados jogos, dinâmicas corporais, propostas com diferentes linguagens artísticas que tinham como objetivo promover encontro, construção de confiança, afeto e acolhimento em resposta àquilo que cada uma vivia durante aquele período de distanciamento físico e seus inúmeros efeitos. O objetivo foi registrar e analisar a importância das artes no processo formativo no módulo ART – Arte Corpo através das plataformas virtuais, em tempos de pandemia. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, retrospectiva, que utiliza o método da cartografia e que buscou analisar os diários de campo dos encontros virtuais elaborados pela aluna-pesquisadora que foram compostos por suas experiências como participante do módulo e também por seu olhar focado na vivência do grupo das discentes. Também foram analisados registros fotográficos, escritas e gravações das aulas. Compreendemos que as práticas corporais e artísticas que fizeram parte do módulo puderam contribuir para a elaboração do momento da pandemia e possibilitaram a criação de um espaço de cuidado, expressividade, afeto e aprendizagem nas dimensões individual e coletiva.

Palavras-chave:
Terapia Ocupacional; Ensino Superior; Arte; Corpo Humano; Pandemias; Covid-19

Abstract

This research proposes an analysis of the importance of art in academic training, through the experience of students in the third term of the undergraduate course in Occupational Therapy at the Federal University of São Paulo, in the ART module – Art and Body, in the first semester of 2020. Due to the Covid-19 pandemic, through virtual platforms, bodily and artistic practices were mobilized for the individual and collective care of the group, focusing on dynamics that involved the construction of the presence of bodies in a situation of techno-mediated classes. For this, games, body dynamics, proposals with different artistic languages ​​were used that aimed to promote encounter, building trust, affection and acceptance in response to what each person experienced during that period of physical distancing and its countless effects. The objective was to record and analyze the importance of the arts in the training process in the ART – Body Art module through virtual platforms, in times of pandemic. This is a qualitative, retrospective research, which uses the cartography method, and which sought to analyze the field diaries of the virtual meetings prepared by the student-researcher, which were composed of her experiences as a participant in the module and also by her focus on the experience of the group of students. Photographic records, writings and recordings of classes were also analyzed. We understand that the bodily and artistic practices that were part of the module could contribute to the elaboration of the moment of the pandemic and enabled the creation of a space of care, expressiveness, affection and learning in the individual and collective dimensions.

Keywords:
Occupational Therapy; Higher Education; Art; Human Body; Pandemics; Covid-19

Introdução

Em março de 2020, as Instituições de Ensino Superior (IES) pausaram suas atividades acadêmicas presenciais em virtude da pandemia de Covid-19. As Instituições Federais de Ensino tiveram que repensar caminhos possíveis para a continuidade dos processos formativos, agora com foco no cuidado das discentes, considerando os diferentes efeitos nos corpos e nas vidas das discentes e as diferentes condições de acessibilidade digital naquele momento. Especificamente, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) pausou todas as atividades das graduações, representando a interrupção de diferentes projetos de ensino, pesquisa e extensão universitária.

O cenário pandêmico gerou diferentes questionamentos e novas formas de delinear o plano de ensino universitário, o que trouxe uma fase de discussões, reflexões e planejamento conjunto de ações efetivas que pudessem sustentar vínculos entre as estudantes1 , apostando e afirmando, mais uma vez, a importância e potência do coletivo para enfrentamento das diferentes situações complexas, sobretudo desta em questão, que permanece muito mobilizadora e disruptiva de problemas já existentes: desigualdades sociais, solidão, empobrecimento vincular, problemas de saúde mental, entre outros, a depender das particularidades de cada vida. Como salientado por Gil (2020, p. 6), o medo da pandemia “[…] encolhe o espaço, suspende o tempo, paralisa o corpo, limitando o universo a uma bolha minúscula que nos aprisiona e nos confunde”.

Em um processo de “sair dessa bolha” e não paralisar, os meios virtuais, associados às tecnologias e seus sistemas de integração e interação, mostraram-se, naquele momento, como ferramentas para suprir as necessidades do corpo de interação e comunicação (Gil, 2020).

O curso de Terapia Ocupacional da Unifesp, localizado no Campus Baixada Santista, é composto, em sua maioria, por estudantes que nasceram em cidades distintas da região onde o campus é localizado. Desta maneira, a partir da necessidade de distanciamento social e físico impostos pela pandemia, muitos estudantes retornaram para suas cidades natais. Portanto, o meio virtual se configurou, embora com muitos desafios, em um canal possível e importante de comunicação.

Iniciaram-se uma série de reuniões das docentes da terapia ocupacional e dos Eixos Comuns2 que compõem o projeto pedagógico do curso, com a participação de representantes discentes, para repensar a continuidade dos processos de formar e de ser formado como terapeuta ocupacional.

Entre muitas questões, perguntávamo-nos: como dar continuidade às atividades da graduação em meio à pandemia? Como sustentar o contato e o vínculo estudante-universidade no formato virtual, na “vida entre-telas”? Seria possível manter as relações e trabalhar no coletivo? Pensar as reconfigurações demanda reflexões sobre possibilidades e limites, considerando seus diversos níveis de ensino e diferenças institucionais e curriculares (Gatti, 2020). Mesmo com muitas incertezas, traçou-se rapidamente uma série de proposições e agendas que nos guiaram ao longo dos meses para seguir com a nossa tarefa de acolher, cuidar e dar continuidade aos processos formativos, e de fomentar a permanência das estudantes na universidade pública, gratuita e democrática (Liberman et al., 2022a).

A experiência grupal que favoreceu a elaboração da pesquisa foi vivenciada pelas alunas do curso de terapia ocupacional, no ano de 2020, que cursavam o módulo de Atividades e Recursos Terapêuticos (ART): Arte e Corpo. No módulo, usualmente, são discutidos os temas de arte, corpo e cultura por meio de diversas propostas, como: dança, teatro, massagem, música, artesanato, atividades plásticas, dinâmicas de grupo, jogos cooperativos etc., articulados à prática da terapia ocupacional e à problematização dos aspectos éticos, estéticos, técnicos e políticos destas ações. As estratégias pedagógicas visam sensibilizar e provocar os e as estudantes para o que Kastrup (2001, 2007, 2010) denominou de aprendizagem inventiva, que busca não “resolver” os problemas imediatamente, mas problematizar as situações, produzir algum estranhamento, ir ao encontro de algo que nos surpreenda, que nos force a pensar para desencadear em nós mesmos processos de criação.

Na proposta, considera-se que a professora não é o centro do processo ensino-aprendizagem. Situada do ponto de vista da arte, ela faz circular afetos e funciona como um atrator. Além de um emissor de signos, a professora é um atrator de afetos (Kastrup, 2001). O processo de aprendizagem também acontece por meio da experimentação e conhecimento de si no encontro com os outros, com foco prioritariamente nos dispositivos grupais. As discussões remetem a conteúdos estudados e práticas realizadas em outros módulos, tanto de eixos específicos quanto de eixos comuns.

As práticas de consciência corporal, na TO, apresentam-se como potente instrumento de transformação do cotidiano [...] à medida que se tornam experiências do próprio sujeito, propiciam a apropriação de si e instauram uma condição de trabalho que promove a consciência e a criação de um cotidiano e de uma saúde em constante cuidado e produção (Saito & Castro, 2011, p. 178).

Como em todo o processo da graduação em terapia ocupacional, este módulo ocorria de maneira integralmente presencial. Mas, devido ao avanço da pandemia de Covid-19, e com as atividades acadêmicas suspensas, o coletivo de docentes do curso, movidos pela sensibilização do momento incerto, das dificuldades de acesso e da situação econômica, social e emocional dos estudantes, iniciou um processo de cuidado e acolhimento com as estudantes. Como salientado por Teixeira & Dahl (2020), a desestruturação da rotina, insegurança e a preocupação em relação ao adoecimento de pessoas próximas afetavam as estudantes em um ciclo vicioso, no qual a ruptura da rotina e o sofrimento emocional impediam a reinvenção de um novo cotidiano que precisava se formar.

Nesse sentido, as artes se constituíram como um importante dispositivo de aproximação, reflexão e reinvenção da cotidianidade. Compreendemos as artes como expressão, mas também como processo de produção do humano, para compreensão da sua própria história, tendo em vista as diversas formas socioculturalmente instituídas (Burke, 2003). Portanto, as artes se mostraram uma possibilidade direta, por meio da sensibilidade, de não somente se relacionar com o mundo, mas também de poder estar nele (Xavier et al., 2021).

Para Almeida (2004), a arte é criação constante de si, por meio de novas formas de estar no mundo, recriando sua existência, possibilitando que as mudanças sejam significativas e nos levem a novas realidades, intensificando a vida. Segundo o autor, produzimos a vida como obra de arte, a existência como criação. Desta forma, pareceu-nos relevante a reflexão sobre a vivência, uma vez que traz a possibilidade de continuidade da tarefa formativa, dando visibilidade aos desafios impostos naquele momento.

Sendo assim,

[…] como parte dessa nova relação mediada, pela metade, partida, fragmentada, fomos instaurados a redobrar nossa atuação, como que para compensar a falta da performance do nosso corpo se movendo, materializado no espaço, e trocando sinais verbais e não verbais pela sala de aula na intencionalidade da comunicação com e para todos/todas (Xavier et al., 2021, p. 3).

Na contramão desta tendência a uma fragmentação, foi necessário instaurar processos adaptativos em relação às propostas, tomando como inspiração e possibilidade, a presença dos corpos nos ambientes com aquilo que havia à disposição, ou seja, celulares, computadores e qualquer dispositivo ou modo de nos conectarmos de maneira remota.

Assim, este texto se dedica ao relato e à análise da experiência vivenciada entre os meses de março e outubro de 2020. Entendemos que tiveram momentos distintos e, consequentemente, foram sentidos pelos discentes e docentes de formas diferentes. Por conta disso, objetivamos registrar e analisar o papel da arte no processo formativo no módulo ART – Arte Corpo, por meio das plataformas virtuais, em tempos de crise e pandemia, e sistematizar alguns procedimentos metodológicos utilizados na plataforma virtual.

Procedimentos metodológicos da pesquisa

A pesquisa foi desenhada com base no método da cartografia, que tem como característica não a representação, mas o acompanhamento de processos, possibilitando ao pesquisador implicação para captar o campo de forças presente nas experiências em curso (Martines et al., 2013). O pesquisador se mantém no campo em contato direto com as pessoas e seu território existencial (Alvarez & Passos, 2009).

Com base nessa metodologia, a aluna-pesquisadora participou ativamente de todos os encontros analisados. Por meio da identificação dada pela potência do vivido, instaurou um “estado de pesquisa”, a fim de poder analisar, pensar e, posteriormente, publicizar a intensidade de todo aquele processo.

Para a análise dos dados, optamos por dividir em três momentos, nomeados como “respiros”, tomando a linha do tempo como critério para discussão de alguns aspectos investigados. No primeiro, segundo e terceiro respiro foram analisadas as narrativas elaboradas nos diários de campo da aluna-pesquisadora. O diário contém notas descritivas, notas reflexivas e notas intensivas3 .

É importante salientar que os diários de campo foram feitos com base na instauração de um “estado de pesquisa”4 , quando a percepção da aluna-pesquisadora passou a ter uma nova dimensão acerca das experiências do grupo. Foram utilizados como recurso de análise os registros de dezoito encontros grupais feitos no diário de campo da aluna-pesquisadora, sendo dez feitos no primeiro respiro e oito no segundo respiro. Os registros foram elaborados com base nas memórias, vivências e relatos.

No momento de primeiro respiro, e em alguns encontros iniciais do segundo respiro, não foram realizadas gravações dos encontros por não ter sido iniciado o processo de instauração de uma pesquisa acadêmica. No terceiro e último “respiro”, foram analisadas as gravações das aulas on-line do módulo, além dos diários de campo.

Quanto à conduta ética dos procedimentos metodológicos necessários relacionadas aos discentes e docentes, foi elaborado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), de acordo com a Resolução n. 466/2012, para que fossem utilizados as fotografias, os relatos, os diários de campo e suas imagens. Devido à pandemia, o termo foi adaptado e disponibilizado de forma on-line, por meio da plataforma Google Docs, via link para os participantes da pesquisa. Os e as estudantes participantes consentiram e aprovaram a publicação do estudo.

Para além disso, foram consultadas as conversas nas plataformas on-line (WhatsApp e Google Meet) e as imagens do período para constituirmos outro modo de dar visibilidade à experiência; às produções feitas nos encontros grupais pelos participantes do grupo, discentes e docentes; e às produções anônimas das estudantes nas dinâmicas propostas nos encontros síncronos.

Em particular, daremos ênfase às propostas que envolviam uma escrita inventiva e criativa como parte das proposições artísticas para dar corpo e palavras às experiências vivenciadas e aqui relatadas.

A escrita sensível é, portanto, mais aberta e arriscada a todo estudante, na medida em que admite um fazer subjetivo da linguagem, tão próprio das anteriormente mencionadas culturas artísticas, corporais e humanísticas, com um grau de exposição e “intimidade” afetivo-intelectual ainda pouco experimentado no ambiente universitário (Guzzo et al., 2019, p. 3).

Os textos eram feitos de forma anônima, assumindo um modo próprio de escrita livre. Assim, para além de trazer o sentimento de segurança, também favoreceu a amplificação do compartilhamento e trocas com todos os participantes envolvidos (Fróis, 2005).

A Experiência em “Três Respiros”

Primeiro respiro

O primeiro respiro iniciou entre os meses de março a abril do ano de 2020, quando as responsáveis pelo módulo resolveram organizar rodas de conversa para o acolhimento dos estudantes, nesse momento inicial do distanciamento social. As docentes entraram em contato com os representantes da sala matriculados no módulo, que direcionaram um grupo na plataforma WhatsApp, unindo as docentes e as discentes.

Com o contato inicial por meio das mensagens, as docentes propuseram um encontro virtual, visando o acolhimento, escuta atenta e a sustentação dos vínculos com o grupo. O primeiro encontro aconteceu no dia 30 de março de 2020, com a participação de quinze discentes, partindo do intuito de compartilhamento e trocas de experiências nestes primeiros dias de distanciamento físico e social.

Após a adesão inicial dos estudantes, novas datas foram instituídas para os próximos encontros, que aconteceram nos dias 9 e 16 de abril, respectivamente, por meio da plataforma on-line Google Meet, com a participação de, em média, 15 alunas. Esses encontros funcionaram de maneira dinâmica e propositiva, de forma a acolher, sustentar, trocar sensibilidades e propor uma nova maneira de estar junto do coletivo. A primeira ação-movimento para a elaboração do que estava nos acontecendo foi o ato de verbalizar (Quarentei et al., 2020).

Na primeira proposta levada ao grupo, chamada de “Apreciação”, o intuito foi reconhecer e qualificar o pequeno, destacando como ele pode receber novas dimensões quando percebido no movimento do cotidiano. A atividade foi fundamental para a compreensão da realidade experimentada por cada participante, com base na exploração de atividades artísticas e/ou consideradas “banais”, realizadas no período de quarentena. O ato de apreciar e receber uma apreciação, além de ser uma forma de expressão artística pessoal, serviu para aquecer e despertar sensações e sentimentos que, por vezes, ficavam estagnados na rotina. O foco da atividade foi a contemplação de diferentes expressões artísticas, como fotografias, vídeos, desenhos, poemas, receitas, entre outros.

Os encontros se desenvolveram com foco no momento vivenciado e em suas novas descobertas. Desde o primeiro encontro virtual, foi incentivado o compartilhamento de experiências do/no cotidiano para trocas de saberes entre os participantes. Dentre essas atividades trazidas pelo grupo, diferentes formas de produção de arte foram descritas.

Algumas pessoas mostram coisas que estão fazendo, como desenhos, esculturas, músicas. Outras falam sobre o que estão sentindo, que varia muito entre o “estar bem” e o “estar mal”. Temos relatos nos quais as pessoas retomam a ideia de enxergar o positivo e tirar proveito da situação vivenciada, mas também aqueles que dizem que estão se sentindo improdutivos por não estarem fazendo “nada”, uma vez que tenha acontecido uma ruptura no cotidiano (Diário de campo, aluna pesquisadora).

Segundo respiro

O segundo respiro foi marcado, principalmente, pela formalização dos encontros síncronos. Os encontros passaram a compor o que foi chamado de Unidade Curricular (UC) Optativa Emergencial, reconhecendo o caráter formativo da experiência e formalizando-a. Um horário fixo semanal foi designado para os encontros, que se seguiram de abril a junho de 2020.

A UC Optativa Emergencial recebeu o nome de “Terapia ocupacional e cotidiano em contextos de Pandemia: Arte e Corpo em tempos de distanciamento social”, e teve 32 inscritos formalmente, mas manteve uma média de 20 estudantes participantes ativos. No total, neste segundo respiro foram realizados sete encontros, os quais tiveram como inspiração as ideias propostas nos textos “Roteiro Poético”, da autora Martha Medeiros5 , e do “Mapa de Visitação da sua Casa”, de André Gravatá e Serena Labate6 .

As atividades eram diversificadas e escolhidas previamente pelas docentes responsáveis pelo módulo, mas tinham em comum a capacidade de criação e de imaginação, ao trazer dinâmicas que exploravam a expressão artística por meio da produção de “pequenos textos poéticos”, que chamamos posteriormente de narrativas poéticas. Os encontros seguiram uma mesma proposta metodológica: 1) leitura da proposta em conjunto; 2) tempo para escrever os textos poéticos; 3) envio do texto para algum participante do encontro por mensagem privada; 4) leitura anônima para o coletivo do texto que recebeu. Como salientado por Fróis (2005), as motivações da existência do anonimato são mais do que segurança, são também uma necessidade, e possibilitam uma amplificação no compartilhamento e nas trocas entre todas as participantes envolvidas.

As narrativas poéticas se desenvolveram como atividades expressivas que traziam à tona o incentivo à capacidade de criação e exploração da ludicidade. Os textos abordaram temas como elaboração de cartas para si mesma, biografia de objetos, observação por meio da janela e novas formas de se autodescrever.

Para exemplificar e ilustrar a potencialidade das expressões artísticas, escolhemos duas narrativas poéticas apresentadas de forma anônima nas dinâmicas. A primeira tinha como intuito exercitar o olhar por meio da janela, com base em uma visão diferente da usual. Imaginar como seria observar pela janela e perceber coisas diferentes sendo outra pessoa ou experimentando ser um animal, um objeto ou um fenômeno natural, mobilizando a imaginação para aflorar ainda mais os sentimentos, percepções e sensações.

Vou olhar para esta janela como uma pintora. Olho para a janela e observo a quantidade de tons de verdes atrás da janela. A delicadeza da natureza me mostrando que tudo muda, que nada é do mesmo jeito. Vejo neste momento passar pela minha janela o frio chegando, a luz é menos forte, o céu está mais cinza. Há flores atrás da janela e eu com olhar de pintora tento observar e apreciar aquilo que vejo. Olhar para a janela me traz quietude. O tempo me dizendo para ter calma. O tempo e a janela (Texto retirado da dinâmica do dia 7 de maio).

A segunda narrativa, a seguir descrita, foi retirada da dinâmica do dia 4 de junho de 2020, no último encontro do segundo respiro. As estudantes foram convidadas a escreverem uma “carta” com base em alguns questionamentos: o que gostou? O que não gostou? O que expandiu neste processo? O que inventou? O que deixou de fazer?

Sabe, durante este período, eu fiquei muito atenta a cada pessoa presente no encontro. Algo que já fazia antes, então, acho que de fato eu continuei fazendo e atenta do mesmo jeito aqui nestes encontros. Tem coisas que não mudam, só trocam de roupa. Acho que o que aconteceu nestes encontros é que meu pensamento se renovou, comecei a fazer novas perguntas, meu pensamento ficou bem ativado nesta experiência. Por exemplo: como me relacionar com esta máquina de modo criativo e que não seja através de uma relação burocrática e protocolar, apesar de que eu acho que esta pergunta sempre está em mim em relação a todas as coisas e às atividades, mas agora direcionada a esta ferramenta. Aprendi muito rapidamente a me aproximar da ferramenta virtual, ao início um pouco insegura, mais valente e em companhia, o que fez toda a diferença no meu aprendizado. Ontem vi um filme do Almodóvar - Fale com ela. E havia a personagem de uma toureira. Está certo que é um absurdo as touradas, não tem nada a ver, mas as vezes esta máquina a minha frente parece um touro indomável, mas também uma caixa de segredos, um buraco negro infinito. Isto me desespera, mas aqui nestes encontros eu acho que vivemos o possível, o belo, o básico, o simples. Foram cartas e mais cartas de amor escritas nestes encontros. Houve uma produção sensível que atravessou os encontros. Me senti muitas vezes em meio a uma livraria, pura literatura. Da sala de aula para uma livraria. Imagine como foi bacana voar entre estes dois espaços! Eu gostaria de seguir escrevendo, pois acho que foi bom para todo mundo. Momentos de elaboração e de conexão comigo, com os outros, com os participantes desta experiência. Gostaria de expandir, experimentar ainda mais outros modos de comunicação. Isto tudo passa pelas artes. Sabe... aprendi um pouco mais sobre o tempo e a paciência. A valorizar os processos e suportar a incerteza. Mas não me senti só. Gostei de escrever pensando em alguém e sabendo que minhas palavras de algum jeito teriam algum lugar, seriam escutadas. Às vezes tenho sonhos onde eu falo e ninguém me escuta. É muito angustiante. Me perguntei, algumas vezes, se foi possível a compreensão de que estávamos embebidos de presença e muita arte. Sabe, percebi ainda que o meu tempo aqui [o virtual] é outro. O tempo presencial é muito diferente. O tempo em frente a tela me exige menos tempo de contato. Quando saio da tela tenho vontade de fazer uma atividade “bem presencial”. Cozinhar ou fazer uma ginástica ou simplesmente me deitar, ficar olhando para as coisas. Estar em frente a uma tela me cansa, mas o nosso tempo aqui foi bem gostoso e confortável para mim. Mesmo não acreditando no tal EAD, com a certeza de que a presença corpo a corpo e até a presença do professor na graduação seja fundamental, acho que podemos aprender muito por aqui, neste momento de Pandemia. Chegar longe, inventar, cuidar uns dos outros deste outro modo, então estou aproveitando este tempo para aprender e reconhecer a delicadeza e a beleza desta experiência (Texto retirado da dinâmica do dia 4 de junho).

Todas as estratégias provocaram diferentes sensações e sentimentos no grupo e maneiras de exploração da arte. A partilha dos textos próprios de formas anônimas ilustrava emoções e geravam identificação de sentimentos compartilhados. A fala das estudantes demonstrava que, mesmo de forma virtual, estava sendo possível ter a percepção dos afetos e das diferentes percepções corporais nos momentos de partilha.

Hoje sou alguém que não gosto. Talvez eu já esteja sendo a um tempo, mas hoje sou quem decide lidar com quem é. Hoje sou aquela flor do meu jardim que já foi muito cuidada e alvo de muitas fotos, mas quem o tempo resolveu colocar espinhos, e me diga você, quem gosta de espinhos? Sou quem não gosto ser, sou a bronca que a mãe dá no filho e acredita estar fazendo melhor, enquanto o que escuta leva pro coração e se machuca. Sou o quartinho da bagunça, colocam em mim, me jogam, e me veem como depósito para o que não é útil. E assim me torno útil guardando inutilidades. Sou a roupa esquecida na gaveta, suja e mofada. Mas aqui vejo uma luz, vejo alguém me tocando, olhando com carinho e resolvendo usar hoje à noite. Sou a máquina de lavar que recebe o sujo e entrega o limpo. Sou quem veste. Quem tira. Sou alguém confusa, e principalmente alguém. Não sei quem sou na verdade, que difícil... Sou alguém. A filha de alguém. Amiga de alguém. O amor de alguém. Tem dias que me sinto o travesseiro mais gostoso, tem dias que me sinto Tereza Cristina e tem dias que me sinto nada. Que no fim, é alguma coisa né? (Texto retirado da dinâmica realizada no dia 14 de maio).

Além disso, foi possível notar, por meio dos compartilhamentos de textos e relatos falados das estudantes, o sofrimento relacionado ao distanciamento físico e à necessidade de manutenção dos vínculos por meio da virtualização.

É como se a sensação de esvaziamento que me consome nesse período de distanciamento social fosse se preenchendo a cada momento proporcionado nessas aulas. Sem dúvidas me sinto melhor ao entrar e ao sair do encontro (Fala de discente no dia 14 de maio de 2020).

A experiência demonstrou que o uso de atividades artísticas e expressivas favoreceram o vínculo do grupo e a elaboração do novo cotidiano vivido. Além disso, também foram utilizadas atividades que tensionaram as vivências do grupo, o que trouxe novas maneiras de se reconhecer, verbalizar e lidar com as diversas sensações e sentimentos que permeavam aquele momento.

Terceiro respiro

Para o início do terceiro respiro, as alunas e docentes tiveram um momento de pausa das atividades, que aconteceu durante semanas consecutivas. Após isso, iniciou-se, de agosto a outubro de 2020, o último respiro analisado. Neste momento, foi pensado e formalizado o módulo como Unidade Curricular formal dentro do terceiro semestre da graduação do curso de Terapia Ocupacional da Unifesp, bem como os outros semestres dos cursos da Universidade. As atividades da graduação retomaram de forma cem por cento virtual, obrigatoriamente fazendo parte da grade curricular.

Os encontros síncronos do módulo passaram a acontecer quinzenalmente, com a possibilidade de gravação, autorizadas pelas discentes e docentes participantes. Entre os encontros síncronos, houve atividades assíncronas a serem realizadas pelas alunas, sendo leituras de textos, pesquisas, atividades manuais, experimentações corporais, exercícios de observação de si, do espaço, do próprio corpo e de seu entorno, entre tantas proposições que buscavam o afastamento do corpo dos computadores e a exploração de outras vivências possíveis a cada um naquele momento. Também foi proposta às alunas participantes a escrita de diários de campo sobre as aulas, a fim de conseguir expressar o momento vivido. O número de participantes neste respiro aumentou majoritariamente, sendo em média 37 participantes.

Neste respiro, foram indicados mais conteúdos teóricos, bibliografias para serem lidas, escutadas, assistidas e discutidas nos momentos em conjunto, explorando outros modos de conexão e aprendizado com os materiais sugeridos, levando sempre em consideração os estados manifestados pelas estudantes, suas dificuldades pessoais interferindo na realização das tarefas e ainda uma escuta permanente e exigente daquilo que poderia estar acontecendo “por detrás das telas”. É importante salientar a potência do grupo e do trabalho coletivo para a sustentação de vínculos e para o enfrentamento de questões individuais e sociais, portanto, comuns, provocadas pela pandemia.

A experiência, tal qual outras vivências artísticas e corporais (Liberman et al., 2018), promoveu um espaço de criação e interação grupal, expressando a singularidade dos processos de cada participante em meio à produção coletiva, transitando entre a poética e a clínica, as teorias e as práticas, entre a reflexão do ser-terapeuta e suas vivências pessoais, entre análises e sensibilizações.

As Artes e Suas Possibilidades de Expressão e Criação no Contexto Formativo Pandêmico

Durante o distanciamento social, foi perceptível que os meios de comunicação virtuais tiveram muita importância nos cotidianos. Inicialmente, a tecnologia se mostrava como limitadora da experiência, mas, aos poucos, pudemos perceber que foi possível se configurar como uma forma de impulsionar práticas pedagógicas e artísticas, a produção de presenças tecno-mediadas, instaurando acontecimentos que escapavam dos protocolos esperados no ambiente da aula (Liberman et al., 2022b).

Além disso, reconhecendo que o sentir-pensar-fazer atividades são elementos fundamentais para o processo formativo de profissionais, uma vez que contribui para a sensibilização e construção do repertório profissional (Oliveira et al., 2021), é possível afirmar que a experiência relatada facilitou a criação de um novo ambiente de aprendizado, expressão e sensibilização; a manutenção dos vínculos com colegas, docentes e universidade; e a elaboração do momento vivenciado.

Ainda que no espaço virtual e distantes um do outro, era evidente que havia corpos ali presentes, com suas histórias, desconfortos e inquietações, que buscavam um lugar de ancoragem, de troca e de pertencimento em uma situação que provocava medo, solidão e afastamentos. Para além do aprendizado de técnicas adaptadas ao espaço virtual, sensibilizar os corpos para o enfrentamento e cuidado dos efeitos da pandemia em cada uma de nós e no grupo pareceu, à época, ser um aprendizado fundamental para o exercício profissional.

Como indicamos anteriormente, não se tratava de uma adaptação compreendida como uma submissão dos corpos aos acontecimentos, mas uma busca desafiadora e ativa de compor e construir um outro corpo com capacidade de fazer acoplagens com as ferramentas virtuais, neste outro ambiente (agora virtual), a serviço da nossa comunicação, da criação, da manutenção dos vínculos e, portanto, a serviço da continuidade da vida.

Borges (2003) traz a reflexão sobre as metamorfoses do corpo, as quais, por vezes, apagam as experiências subjetivas do corpo vivido para se organizar aos códigos culturais que nos moldam. Com base nisso, é importante não reduzir nossa forma de estar no mundo por meio da condição do que está dado e, sim, se permitir criar, inventar e dar novos significados às multiplicidades do estado do ser.

A ideia explorada pela autora retrata a capacidade de acessar aquilo que nos acomete e permitir uma reverberação no outro, implicando a ativação do corpo vivo que pulsa, estica, encolhe e se organiza de modos diferentes. É preciso que possamos ativar esse estado de vitalidade de poder sofrer a vida dando significado ao “estar viva” (Borges, 2003). O aspecto da ativação da vitalidade foi algo que buscamos cultivar na experiência por meio das práticas corporais e artísticas.

Nos encontros, foram utilizadas técnicas que também se dirigiram à experimentação do cuidado de si, por meio das práticas artísticas e expressivas com relação ao próprio corpo, a outros corpos e à máquina que permitia o encontro virtual. As rodas telepresenciais e o compartilhamento das narrativas poéticas se mostraram relevantes para este entendimento de si, do outro e do novo contato com o ambiente virtual.

Os processos vivenciados pelas alunas eram demarcados pelas dificuldades de verbalizar oralmente o que era sentido. Desta forma, as dinâmicas tinham como intuito preparar e construir uma presença para a produção de narrativas baseadas na experiência, funcionavam como momentos para conexão com o próprio corpo, para a percepção e contato com aquilo que sentiam e percebiam – uma observação corporificada –, isto é, corpos presentes no presente. Entendíamos as proposições como modos para exercitar e promover a expressividade por meio de uma linguagem poética e subjetiva. A linguagem, que se aproximava muitas vezes de textos literários, parecia ser um meio de colocar em palavras alguns aspectos daquela experiência intensiva e bastante exigente para cada uma de nós.

Os espaços virtuais envolveram a oralidade e a escrita, e a virtualização de diversos modos de comunicação e interação humana, produzindo alterações profundas na maneira de pensar, de dar sentido ao mundo, de nos relacionar uns aos outros e de produzir conhecimento (Ferigato et al., 2019). Nesta perspectiva, a experiência vivenciada se configurou como um lócus de extrema importância e relevância para análise da potencialidade, reflexões e inquietações que foram provocadas pelas ações pedagógicas, expressivas e delicadas.

A escrita produz no mundo não escrito, e sim vivenciado, uma interferência na qual nos educamos a escrever sobre o outro e sobre nós, tornando-nos perceptíveis àquilo que o outro diz, faz e sobre como as outras formas de linguagem e expressões significam (Guzzo et al., 2019). Para que o corpo entenda e sinta de fato as mudanças e contribuições do momento, é muito importante ter a noção da experiência corporal, com base em como o corpo se posiciona no mundo, potencializa-se, fortalece-se e aprende a se posicionar em outros espaços (Medeiros, 2019).

Toda a experiência marcou um momento no qual os sentimentos confusos começaram a encontrar caminhos para novas reflexões e ensejo para a criação de formas de enfrentamento do vivido.

Desde o momento inicial, o processo foi marcado pelo incentivo ao diálogo e novas proposições, entendendo que o momento que era ali vivenciado acontecia de modo singular para cada uma das alunas. A nova configuração marcava também formas de avaliação decorrentes do sistema de graduação, o que também gerou diálogos, propostas e combinados. Algumas alunas, que haviam participado do primeiro e segundo respiro, comentaram sobre o desejo de continuar utilizando as narrativas poéticas como forma de aprendizado e criação de vínculos grupais, demarcando também a atribuição de manutenção e potência das escritas artísticas.

Como citado nas falas de Vitor e Claudio no documentário Jogo de cena, do diretor Coutinho (2007), as narrativas de si demonstram sentidos simbólicos e não simbólicos, nos quais o narrador faz um resgate dos caminhos percorridos para que, assim, consiga compartilhar. Neste compartilhamento, quando dizemos sobre a não simbologia das palavras, relacionamos a ideia de que o corpo, mesmo sem palavras, expressa e realiza uma forma de comunicação. Consideramos o ato de escrever uma atividade artística e expressiva, na qual podemos utilizar palavras para expressar as diversas subjetividades presentes no sujeito.

Para além de narrativas de si, ficou evidente que fazer narrativas do outro também foi essencial, pois conseguíamos refletir, indagar perguntas, observar e vivenciar experiências de reconhecimento de si no outro. A experiência de escuta e escrita remetiam à vida, às oportunidades e ao exercício de enxergar cada vez mais o outro, suas necessidades e suas dificuldades. Um dos poderes da narrativa, justamente, foi poder fazer da história contada uma forma de estar presente. As linguagens artísticas, por sua vez, foram um meio de potencialização, de participação, além de possibilitarem novas experiências sociais (Castro & Silva, 2002).

Para finalizar, em uma das discussões, por meio da questão norteadora “Quais são seus lugares de presença?”, uma das narrativas poéticas feitas e apresentadas ao grupo de forma anônima representa a potencialidade das experiências corporais e artísticas dos três momentos vividos pelo grupo.

Observando meus lugares de presença, noto que esses lugares na verdade são o mesmo lugar: meu quarto. Para mim, é o lugar mais aconchegante que tenho em casa, não apenas por ser meu espaço de sono, mas porque o construí pensando como se fosse um ateliê: aqui ao lado tenho minhas tintas, minhas ferramentas de biscuit, papéis de diferentes cores, texturas e finalidades, meus desenhos e minhas linhas de costura, à minha frente os pincéis, canetinhas, lápis de cor e fotos que me trazem lembranças boas. Além desses elementos, tenho meu altar de pedras e incensos e minhas prateleiras com livros. Tudo isso compondo meu espaço de presença, meu refúgio, feito inteiramente de tudo o que me faz bem. Aqui o tempo passa rápido, me perco em meu pequeno universo de cores e texturas, onde eu estudo, leio, pinto, danço, canto e me exploro. Aqui eu me permito, me sinto, me expresso, sou eu. Apesar de hoje ser também o meu local de estudos, não me importo de misturar as finalidades, até porque me encontro, me expresso e vivencio aulas intensas que modificam meu corpo a cada encontro. Meu universo ganhou mais uma finalidade, mais um carinho (Texto da dinâmica do dia 21 de agosto de 2020).

Quem diria que a gente fosse viver uma pandemia, não é? Passar meses sem sair de casa e não realizar nenhum dos nossos planos para o ano... Se tivessem me contato isso na virada de 2019 para 2020, eu certamente riria muito, acharia uma invenção muito criativa e impossível de acontecer. Mas, a vida nos surpreende e hoje temos passado por uma experiência única. Vivemos por encontros tele-presenciais. A tela virou nossa janela para o mundo. Ora ela nos traz sorrisos e gargalhadas, movimentação no corpo, acolhimento ao coração. Ora ela nos conta sobre notícias tristes, expressões de um mundo que sangra e dói. Hoje, para te alegrar, quero te contar de coisas boas. Em um mosaico de quadrados vivos, encontro pessoas queridas todas as semanas, quintas-feiras, às 16h. São duas horas em que brincamos de criar, expressar e inventar juntos. A cada semana, realizamos exercícios de sentir e imaginar. Já fui minha vó olhando pela janela e a flor de capim que um dia ganhei na rua (e nem me lembrava dela – logo ela que passava os dias na minha frente!). Vi meus colegas sendo esperanças, alegrias e princesas em castelos. Sempre gostei de ler e escrever, esses encontros me inspiram a semear e fazer florescer esses gostos ainda mais. São encontros que fazem a tela-janela se abrir ainda mais, algumas vezes até literalmente. Te escrevo isso também porque tive uma ideia: vamos continuar criando telas-janelas comigo em outros espaços da vida? Vem? Eu te conto como faz! (Texto da dinâmica do dia 21 de agosto de 2020).

Considerações Finais

Pode-se concluir que as estratégias artísticas no processo formativo do módulo ART – Arte e Corpo por meio das plataformas virtuais em tempos de pandemia, registradas e analisadas no estudo, foram essenciais para a sustentação dos vínculos grupais, elaboração do momento vivido e continuidade dos processos formativos em terapia ocupacional.

Com base na experiência, compreendemos que este estudo, além de um registro importante dos acontecimentos vivenciados, também é uma forma de contribuir com a temática corpo e arte em terapia ocupacional em tempos de necessidade de distanciamento físico e social e, portanto, em situações de crise que mobilizam, desequilibram e produzem efeitos complexos, singulares e coletivos nos corpos e na vida das pessoas.

As experiências por meio das telas virtuais trouxeram novas possibilidades de interações com os corpos, fizeram-nos (e ainda fazem) repensar e problematizar antigas e novas questões relacionadas aos processos pedagógicos de ensino-aprendizagem, a tomar o corpo como balizador das experiências, a repensar formas avaliativas contextualizadas, a pensar as artes como dispositivos potentes em terapia ocupacional para promover encontros, cuidados, afetos, sensibilização de si e dos mundos.

As aulas virtuais do módulo se mostraram um momento de potencialização de compartilhamento dessas intensificações, consequentemente criando um espaço de elaboração do contexto pandêmico e constituição de afetos. A experiência narrada registra e expressa a criação de uma nova perspectiva de formação baseada no ambiente virtual, no qual foi necessário aproximação, aceitação e ressignificação. Nessa perspectiva, as artes tiverem uma grande relevância enquanto dispositivos de um estado de criação de novos modos de ser, enxergar o mundo, transformar o cotidiano e repensar as relações interpessoais. Os três momentos, nomeados como respiros, demonstraram a evolução de todo o processo vivenciado pelas alunas e docentes.

Foi possível observar a criação de um espaço de criação, interação e expressividade, no qual reconhecemos os processos singulares e o impacto das expressões por meio das artes em cada participante, com base nos três diferentes momentos que iam se desdobrando ao longo do tempo. A linguagem poética se destacou entre as análises e sensibilizações grupais, por meio das narrativas anônimas. A possibilidade do anonimato fez com que fosse mais fácil externar sentimentos confusos que, por vezes, ficavam escondidos, e isso contribuiu para que as participantes ficassem à vontade para dividi-los e gerar uma força de contágio ainda maior.

O uso das artes e todas as suas possibilidades foram um convite a organizar a presença para o que não se esperava e, por meio disso, criar e inventar cenários possíveis de enfrentamento com todos os atravessamentos dessa situação. Assim, o campo das atividades dentro dos processos formativos em terapia ocupacional precisa ser pensado, levando em conta a potencialidade das forças de criar, inventar, expressar e enfrentar por meio das artes em todas as suas formas. Formam elementos que se compõem uns aos outros e que são essenciais para os processos formativos, tanto na atuação quanto em formatos de pesquisa.

O processo aqui relatado expressa diferentes fases e desafios vivenciados na pandemia, os quais provocaram as docentes e alunas a rever as metodologias utilizadas para o aspecto formativo. No entanto, tratou-se de um momento vivido por um grupo específico, com características singulares e, desta forma, não pode ser uma experiência facilmente replicada, mas um espaço importante para proposição de reflexões, produção de novas problematizações, e de olhar o vivido, apreciar aquilo que foi potente, ousado e desafiador.

Contextualizar-se, com base nesta experiência, permitiu repensar os aspectos metodológicos, reflexões permanentes acerca do que realmente faz sentido nos momentos vividos e ativar processos de expressão artística corporal nos ambientes de aprendizagem. A experiência demonstra que as artes facilitaram o processo de aprendizado, cuidado, reflexão no período da pandemia, uma vez que foram essenciais para a percepção do vivido, de como mudamos em meio a momentos de crise e de como podemos aprender a partir “daquilo que nos acontece”. Isso nos permitiu dar visibilidade ao que conseguíamos “cultivar nos nossos quintais”, com base nas possibilidades reais do momento.

Assim, este artigo marca um processo que aconteceu, mas que ainda não se finalizou, uma vez que seguimos captando e cuidando de muitas de suas sequelas: físicas, emocionais, relacionais, existenciais. Constitui-se como registro permanente da percepção de que a experiência, aqui posta, deu oportunidade e ensejo às alunas e docentes a atravessarem e elaborarem aquele momento em particular, coletivamente, dando visibilidade e permitindo vislumbrar caminhos possíveis, por meio das vivências do grupo em tempos desafiadores ressignificados pela potência das artes e dos corpos em conexão.

  • 1
    Optamos por privilegiar o uso de pronomes e adjetivos no gênero feminino, uma vez que as docentes e estudantes envolvidas na experiência eram, em sua maioria, mulheres.
  • 2
    O projeto pedagógico do campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo prevê um desenho curricular estruturado em quatro eixos de formação, sendo três deles comuns a todos os cursos, nos quais as turmas são mescladas, e um relacionado às práticas específicas de cada profissão. São eles: “O ser humano em sua dimensão biológica”, “O ser humano e sua inserção social”, “Trabalho em Saúde” e “Aproximação a uma prática específica em Saúde”.
  • 3
    As notas descritivas trazem o concreto, isto é, o que foi observado nos encontros; as notas reflexivas dizem respeito às conexões entre a experiência e as discussões teóricas; e, por fim, as notas intensivas expressam as sensações e os sentimentos vivenciados no decorrer dos encontros (Goulart et al., 2018).
  • 4
    Este artigo apresenta parte de uma pesquisa de iniciação científica intitulada “Delicadas experiências formativas: um estudo na interface corpo, arte e educação”, subprojeto de uma pesquisa temática coordenada pela Profª Drª Flávia Liberman, a qual tem como título “Delicadas Coreografias: práticas artísticas e corporais como produção de subjetividade”, submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFESP sob o número CAAE: 65961417.4.0000.5505.
  • 5
    Roteiro Poético ou Experimento para um gesto poético de presença coletiva virtual (Federici & Guzzo, 2020).
  • 6
    Mapa de visitação da sua casa. Criação artística/poética dos autores Gravatá & Labate (2023).
  • Como citar: Godoy, G. T., Liberman, F., & Bianchi, P. C. (2024). Artes e formação em terapia ocupacional: experiências e narrativas de universitárias em tempos de pandemia. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 32, e3648. https://doi.org/10.1590/2526-8910.ctoAO280536481
  • Fonte de Financiamento
    Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

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Editado por

  • Editora de seção
    Profa. Dra. Beatriz Prado Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    21 Set 2023
  • Revisado
    11 Jun 2024
  • Aceito
    31 Jul 2024
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