Open-access Processo de trabalho dos terapeutas ocupacionais durante a pandemia de Covid-19 pelo teleatendimento e telemonitoramento

Resumo

Introdução  O surgimento da pandemia de COVID-19 intensificou desafios relacionados à atenção em saúde. A portaria do Ministério da Saúde n. 467, de 2 de março de 2020, dispõe, em caráter excepcional e temporário, sobre as ações de telemedicina, com o objetivo de regulamentar e operacionalizar as medidas de enfrentamento da emergência de saúde pública.

Objetivo  Conhecer como se deu o processo de trabalho dos terapeutas ocupacionais de Alagoas, Brasil, durante a pandemia de COVID-19.

Método  Trata-se de um estudo transversal, descritivo, realizado com terapeutas ocupacionais do estado de Alagoas (Brasil) que realizaram teleatendimento e telemonitoramento, durante a pandemia de COVID-19. A amostra foi por conveniência, os participantes da pesquisa foram convidados a participar deste estudo a partir de contato realizado em grupos de mensagens, e-mails e busca ativa. A coleta de dados aconteceu por meio de um questionário on-line que buscou compreender o processo de trabalho dos terapeutas ocupacionais.

Resultados  O estudo contou com 35 terapeutas ocupacionais que realizaram teleatendimento/telemonitoramento ao público de todas as idades, por meio de atendimentos semanais, com duração de dez a trinta minutos. A manutenção do vínculo, o engajamento familiar e a aproximação com o contexto do paciente foram pontos positivos, enquanto a dificuldade foi o acesso à internet de qualidade.

Conclusão  Este tipo de atendimento tem sido considerado no período pós-pandemia, destacando-se como uma estratégia complementar aos acompanhamentos presenciais. São necessários novos estudos sobre a temática e investigações com os pacientes/usuários, para compreender outros questionamentos que esta pesquisa não conseguiu responder.

Palavras-chave:
COVID-19; Telemedicina; Terapia Ocupacional

Abstract

Introduction  The emergence of the COVID-19 pandemic has intensified challenges related to health care. Ministry of Health Ordinance No. 467, of March 2, 2020, provides, on an exceptional and temporary basis, for telemedicine actions, with the aim of regulating and operationalizing measures to deal with the public health emergency.

Objective  To find out how occupational therapists in Alagoas, Brazil, worked during the COVID-19 pandemic.

Method  This is a cross-sectional, descriptive study carried out with occupational therapists from the state of Alagoas (Brazil) who carried out telecare and telemonitoring during the COVID-19 pandemic. The sample was based on convenience. Participants were invited to take part in this study through contact via messaging groups, emails and active search. Data collection took place through an online questionnaire that sought to understand the work process of occupational therapists.

Results  The study included 35 occupational therapists who carried out telecare/telemonitoring to the public of all ages, the consultations took place once a week, lasting between ten and thirty minutes and the maintenance of the bond, family engagement and closeness to the patient's context were positive points, while the difficulty was access to quality internet.

Conclusion  This type of care has been considered in the post-pandemic period, standing out as a complementary strategy to face-to-face follow-ups. Further studies on the subject and investigations with patients/users are needed to understand other questions that this research was unable to answer.

Keywords:
COVID-19; Telemedicine; Occupational Therapy

Introdução

Desde o início do surto do coronavírus (SARS-CoV-2), causador da COVID-19, houve uma grande preocupação diante de uma doença que se espalhou rapidamente em várias regiões do mundo, altamente contagiosa, com diferentes impactos (Freitas et al., 2020). Segundo Conejo et al. (2020), as pandemias são caracterizadas por surtos infecciosos em grande escala, que aumentam a morbidade e a mortalidade em uma ampla área geográfica, e causam graves consequências econômicas, sociais e políticas. A história da humanidade é marcada por grandes epidemias e pandemias, as quais, inclusive, dizimaram diferentes povos.

Os casos de uma nova gripe logo foram noticiados para todo o mundo, em razão do alcance da televisão e internet. De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (Pan American Health Organization, 2020a, 2020b), o surgimento de vários casos graves de pneumonia na província de Hubei, na China, motivou um alerta na Organização Mundial da Saúde (OMS), em 31 de dezembro de 2019. Um novo tipo de coronavírus, antes não presente em seres humanos, foi identificado (2019-nCoV). O crescimento exponencial de casos e óbitos, inicialmente em território chinês, e sua expansão posterior a outros países, levou a OMS a declarar, no dia 30 de janeiro de 2020, que o surto do novo vírus constituía uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), que corresponde ao mais alto nível de alerta previsto no Regulamento Sanitário Internacional.

Aquino et al. (2020) afirmam que muitos países iniciaram imediatamente a implementação de uma série de intervenções para reduzir a transmissão do vírus e frear a rápida evolução da pandemia. Tais medidas incluíram o isolamento de casos; o incentivo à higienização das mãos, a adoção de etiqueta respiratória e o uso de máscaras faciais caseiras; e medidas progressivas de distanciamento social, com o fechamento de escolas e universidades, a proibição de eventos e de aglomerações, a restrição de viagens e transportes públicos, a conscientização da população para que permanecessem em casa, até a completa proibição da circulação nas ruas, exceto para compra de alimentos e medicamentos ou a busca de assistência à saúde.

De acordo com Reichenberger et al. (2020), as pessoas com deficiência apresentaram situações de vulnerabilidade específicas, especialmente no contexto da crise sanitária, social e política que o Brasil atravessava, e enfrentaram desafios maiores diante das medidas de contenção da pandemia de COVID-19. Para Saldanha et al. (2021), a pandemia de COVID-19 intensificou desafios relacionados à atenção em saúde e proteção social das pessoas com deficiência.

O Ministério da Saúde (Brasil, 2020a) emitiu a Portaria MS/G nº 467, de 2 de março de 2020, que dispõe, em caráter excepcional e temporário, sobre as ações de Telemedicina, com o objetivo de regulamentar e operacionalizar as medidas de enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional previstas no art. 3º da Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, decorrente da pandemia de COVID-19.

Segundo Caetano et al. (2020), a Telessaúde permite garantir o atendimento a pacientes portadores de doenças e comorbidades preexistentes que, embora não infectados, não podem comparecer pessoalmente a consultas médicas em vista das orientações de redução de convívio social. De acordo com Santos et al. (2014), a Telessaúde tem potencial para facilitar o acesso aos serviços do sistema de saúde, aumentar a qualidade e contribuir para a formação profissional. No entanto, até a ocorrência da pandemia, o seu potencial ainda não havia sido bem compreendido e a sua incorporação tinha sido lenta.

Dessa forma, alguns conselhos profissionais da área da saúde publicaram portarias para assegurar o cuidado em saúde, mesmo com o protocolo de distanciamento social. O Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO), em atenção às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), e visando levar atendimento de Fisioterapia e Terapia Ocupacional à população e, ao mesmo tempo, assegurar o bem-estar profissional, autorizou, por meio da Resolução nº 516, publicada no Diário Oficial da União, no dia 20 de março de 2020, os serviços de Teleatendimento1 , Teleconsultoria2 e Telemonitoramento3 .

Diante da experiência vivenciada durante o período de isolamento social, ocasionado pela pandemia de COVID-19, novas formas de ofertar atendimento terapêutico ocupacional foram desenvolvidas, sendo assim, o objetivo deste estudo foi conhecer o processo de trabalho adotado por terapeutas ocupacionais de Alagoas, que realizaram teleatendimento e/ou telemonitoramento durante a pandemia de COVID-19.

Métodos

Trata-se de um estudo transversal, descritivo, de análise quantitativa, com terapeutas ocupacionais do estado de Alagoas que realizam ou realizaram teleatendimento e telemonitoramento durante a pandemia de COVID-19. Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), por meio do CAAE 60577222.1.0000.5011.

A amostra foi do tipo censitária não probabilística, na qual os autores buscaram convidar todos os terapeutas ocupacionais que realizaram teleatendimento e telemonitoramento no estado de Alagoas. Puderam participar do estudo terapeutas ocupacionais atuantes no estado de Alagoas que utilizaram este modelo de assistência durante a pandemia. Os participantes foram convidados a colaborar com este estudo a partir de contato realizado em grupos de mensagens, e-mails e busca ativa, com base em uma lista de inscritos fornecida pelo conselho regional.

As pesquisadoras construíram um instrumento de investigação, buscando identificar questões relacionadas ao processo de trabalho, como tempo de atendimento, frequência das sessões, meios de comunicação utilizados, recursos terapêuticos e formato de oferta das orientações e intervenção.

Foi utilizado um questionário elaborado pelos pesquisadores (que teve o seu conteúdo validado por três juízes4 ), com o objetivo de identificar como se deu o trabalho dos terapeutas ocupacionais por meio do teleatendimento e do telemonitoramento no Estado de Alagoas. Os juízes participantes da validação do instrumento foram convidados por terem vivenciado essas práticas durante a pandemia de COVID-19. Três juízes foram selecionados e contactados por contato telefônico. Todos aceitaram e confirmaram ter disponibilidade para participar do processo de validação do instrumento.

Tal processo ocorreu em três etapas. A primeira, ocorreu por meio do envio de uma carta convite aos juízes, onde cada juiz foi convidado a fazer análise das questões. As análises estiveram relacionadas à clareza da linguagem na escrita da questão proposta ao participante, à pertinência da questão de pesquisa em relação ao objeto da pesquisa, à viabilidade de realização da questão, à inserção, à retirada ou à modificação da questão, além de outras considerações sobre o instrumento que os juízes puderam fazer.

A segunda etapa consistiu na construção de uma planilha para consolidar as análises realizadas pelos juízes. Todas as análises foram incorporadas ao instrumento. O instrumento final conteve vinte e seis questões. Na terceira etapa, o instrumento finalizado foi reenviado aos juízes para nova análise, com validação ou necessidade de novos ajustes. Todos os juízes retornaram os e-mails validando o instrumento e tornando-o apto para utilização na pesquisa. A versão final do questionário contou com 26 perguntas, divididas em duas partes, que abordaram, inicialmente, questões relacionada aos participantes, com perguntas sobre local de trabalho, média salarial e tipo de público atendido; em seguida, foram feitas perguntas relacionadas ao teleatendimento e/ou telemonitoramento.

As informações foram armazenadas em banco de dados computadorizado, e foram analisadas de forma descritiva em software do programa BioEstat versão 5.3.

Resultados

A coleta de dados aconteceu entre os meses de setembro de 2022 e janeiro de 2023 e contou com um total de 41 participantes voluntários. Entretanto, desses, somente 35 estavam de acordo com os critérios de inclusão. Dessa forma, os seis participantes que responderam ao questionário, mas não haviam realizado atendimentos na modalidade pesquisada, foram excluídos do banco de dados.

A maioria dos participantes da pesquisa foi graduada pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL) (n=33, 80,5%). Quanto ao município de atuação, 25 (61%) dos terapeutas ocupacionais disseram atuar no município de Maceió ou na capital e outros municípios do interior do estado de Alagoas; 8 (19,50%) atuavam em outros municípios do estado e 8 (19,50%) não responderam.

Quanto à natureza do vínculo empregatício, os serviços públicos e o terceiro setor, vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS), foram os mais prevalentes, com 20 (57,14%) das respostas, 9 (25,71%) realizaram os atendimentos por meio do setor privado e 6 (17,1%) vinculados ao serviço público e privado, conforme descrito na Tabela 1.

Tabela 1
Caracterização dos participantes da pesquisa.

A segunda parte do questionário correspondeu ao processo de trabalho dos participantes da pesquisa no modelo investigado. Quando os participantes foram indagados por quanto tempo atuaram no formato, 11 (31,42%) participantes da pesquisa informaram ter utilizado o teleatendimento e/ou o telemonitoramento durante um período de 1 a 6 meses. O celular foi o recurso tecnológico mais utilizado para esse tipo de atendimento, com 26 (74,3%) das respostas.

Ao serem questionados se os recursos tecnológicos utilizados nos atendimentos remotos foram disponibilizados pelo estabelecimento de trabalho, 23 (65,7%) afirmaram que utilizaram recursos próprios e 12 (34,3%) receberam do serviço ao qual estavam inseridos o recurso necessário para o atendimento. Quando indagados sobre acreditar se o teleatendimento/telemonitoramento continuará fazendo parte da sua rotina de trabalho, a maior parte dos participantes da pesquisa 19 (54,3%) afirma que sim. Esses dados estão descritos na Tabela 2.

Tabela 2
Caracterização do processo de trabalho.

Sobre o formato de teleatendimento ou telemonitoramento, 21 (60%) responderam que realizaram teleatendimento e 12 (34,3%) realizaram telemonitoramento. Em relação à forma como aconteceu a assistência, 25 (71,4%) afirmaram que foi de forma síncrona e 9 (25,7%) utilizaram o formato assíncrono. Quanto à frequência dos atendimentos, 28 (80%) realizaram contato semanal com o paciente, entretanto, outras frequências foram citadas e estão descritas na Tabela 3. Sobre a experiência com esse tipo de atendimento, 26 (74,3%) afirmaram que foi uma experiência positiva, enquanto 7 (20%) não consideraram uma boa experiência.

Tabela 3
Caracterização das sessões.

No que se refere à percepção do terapeuta ocupacional quanto à evolução do paciente contemplado pelo teleatendimento/telemonitoramento, 21 (60%) afirmaram ter percebido evolução dos seus pacientes, e 7 (20%) relataram não ter percebido evolução. As informações sobre a caracterização das sessões estão descritas na Tabela 3.

Ao questionar sobre a dificuldade que o profissional teve em realizar o teleatendimento/telemonitoramento, 29 (82,9%) responderam que tiveram dificuldade e 6 (17,1%) disseram não ter tido dificuldade alguma. Quando questionados sobre a duração do contato, 22 (62,8%) realizavam sessões com duração de 10 a 30 minutos.

Os voluntários da pesquisa puderam listar até três pontos positivos e três pontos negativos observados no processo de trabalho no formato investigado. Entre os pontos positivos, a continuidade do vínculo terapêutico, ampliação do acesso, participação e engajamento familiar, comodidade e o fato de ter a possibilidade de conhecer melhor o contexto onde o paciente está inserido foram citados, sendo a frequência descrita na Figura 1. Vale ressaltar que um participante informou que não observou nenhum ponto positivo.

Figura 1
Pontos positivos observados. Fonte: elaborado pelas autoras.

A dificuldade de acesso à internet de qualidade, assim como a inabilidade em utilizar os equipamentos digitais foram as mais citadas, considerando as famílias e os pacientes, quando considerados os pontos negativos. Além disso, a não adesão ao tratamento, ausência de contato físico, dificuldade na disponibilidade de recursos terapêuticos, para auxiliar o trabalho do terapeuta, foram os mais citados, como apresentado na Figura 2.

Figura 2
Pontos negativos observados. Fonte: elaborado pelas autoras.

Discussão

O objetivo desta pesquisa foi de conhecer o processo de trabalho adotado por terapeutas ocupacionais de Alagoas, que realizaram teleatendimento e/ou telemonitoramento durante a pandemia de COVID-19, tendo em vista as mudanças que foram necessárias para se adaptar ao momento singular. De acordo com Ferrari et al. (2022), a pandemia de COVID-19 exigiu distanciamento social para enfrentá-la, impondo ameaças às ocupações.

Bem como afirmam Hermes et al. (2022), a pandemia ocasionada pelo coronavírus (SARS-CoV-2) exigiu flexibilizações nas prestações de serviço, como a maior adesão de profissionais da área da saúde ao sistema de Telessaúde, por exemplo. As intervenções de terapeutas ocupacionais foram respaldadas por posicionamentos da World Federation of Occupational Therapists e na Resolução de nº 516, com caráter emergencial, do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Brasil, 2020b), que até então não recomendava atendimentos não presenciais. De Carlo et al. (2020) apontam a Telessaúde como uma das possibilidades de prestação de serviços de terapia ocupacional durante a pandemia, desde que seja contextualizada.

A maioria dos participantes da pesquisa (n=34, 97,2%) é egressa da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). Criada em 1968, na época, era intitulada de Escola de Ciências Médicas de Alagoas (ECMAL), sendo a única universidade a ofertar o curso de Terapia Ocupacional no estado de Alagoas, o que justifica o quantitativo de participantes da pesquisa sendo graduados nesta instituição de ensino. Quando investigados sobre o local de atuação, 25 (61%) exercem a profissão no município de Maceió, onde está situada a universidade, capital do estado e com maiores oportunidades de emprego. Em pesquisa realizada por Bezerra et al. (2009), pôde-se observar que a maioria das instituições empregadoras dos terapeutas ocupacionais na realidade de Maceió está localizada no âmbito público estatal (60%, somando-se as esferas municipal e estadual), seguida pelo terceiro setor (33%) e pela esfera privada (12%).

A maior parte dos participantes da pesquisa (n=33, 94,3%) afirmou ter cursado pós-graduação. Sabe-se que a educação continuada se faz necessária para a formação do profissional em terapia ocupacional, atendendo às demandas do mercado de trabalho, e a pós-graduação tem sido um dos recursos buscados por esses profissionais. Cury (2004) afirma que a pós-graduação tem sido um esteio indispensável à formação de recursos humanos de alta qualificação e à produção de conhecimentos necessários para o desenvolvimento científico e tecnológico do país.

A área de atuação que mais foi apontada como alvo das intervenções pelos profissionais de terapia ocupacional que participaram da pesquisa foi a infantil 14 (40%) e 10 (28,6%) em todos os ciclos de vida, incluindo a infância. Folha & Della Barba (2020) afirmam que a atenção à infância é uma das áreas de atuação mais estruturadas e desenvolvidas na terapia ocupacional.

Almeida & Neves (2020) relatam que houve aumento dos diagnósticos dos casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), conforme pesquisas realizadas, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Dessa forma, o profissional de terapia ocupacional que faz parte da equipe multiprofissional para esse público tem observado oportunidades do mercado de trabalho para essa área. Segundo Gomes & Oliver (2010), a terapia ocupacional desenvolve um importante trabalho com essa população e procura contribuir para seu desenvolvimento, autonomia e participação na vida social. Assim, os autores deste estudo levantam a hipótese de que estas afirmações podem justificar a maior concentração de profissionais atuando com o público infantil.

A oferta de vagas de empregos aos profissionais atuantes no estado de Alagoas foi, em maioria, no serviço público e no terceiro setor, sendo os mais pontuados neste estudo (n=20, 57,14%), entretanto, o setor privado vem apresentando crescimento para a categoria. Assim como afirmam Lancman & Ghirardi (2002), as mudanças no mercado de trabalho provocam um impacto nas relações trabalho-emprego, e essa inserção tende a assumir formas variadas, por meio da terceirização de serviços e da oferta de trabalho autônomo. Frente a isso, emprego, estabilidade, aposentadoria ou uma carreira profissional linear e progressiva, bem como direitos trabalhistas e proteção à saúde do trabalhador começam a ceder espaço a novas relações no mercado de trabalho.

Bezerra et al. (2009) realizaram um estudo entre os anos de 2007 e 2008, e puderam observar que, apesar do poder público ainda ser o maior empregador, o chamado terceiro setor ocupava um espaço representativo no mercado de trabalho da categoria, na ocasião. Costa (2012) fala que, entre as ações especializadas, a participação do setor privado é a mais significativa, atingindo 90,9% dos estabelecimentos que realizam Serviços de Apoio Terapêutico e Diagnóstico (SADT). Logo, essa expansão do setor privado permite que os profissionais de terapia ocupacional tenham acesso a emprego nesse formato de assistência.

Com a chegada da pandemia, em 2020, a sociedade precisou se reorganizar diante do novo cenário, principalmente os prestadores de serviços da área da saúde. Castillo-Allendes et al. (2021) afirmam que o teleatendimento veio como uma nova oportunidade de preencher espaços de alguns serviços, tornando-se uma grande alternativa para a realização dos atendimentos terapêuticos de pessoas que estavam em tratamento ou buscaram-no durante a pandemia, surgindo uma forma de continuarem ou serem atendidos.

Para Heinzen & Possolli (2022), do ponto de vista de abordagens tradicionais de atendimento, pode-se pensar que o teleatendimento, ou até mesmo a telerreabilitação, não sejam eficientes, no entanto, com a atual realidade causada pela pandemia, esses métodos se tornaram indispensáveis para a continuidade aos atendimentos que eram realizados presencialmente.

Com o anúncio da pandemia, em 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) autorizou, por meio da Resolução nº 516, publicada no Diário Oficial da União, no dia 20 de março de 2020, os serviços de Teleconsulta, Teleconsultoria e Telemonitoramento. Desse modo, quando os participantes da pesquisa foram questionados sobre há quanto tempo utilizavam este modelo de atendimento, onze participantes da pesquisa (31,2%) afirmaram que utilizaram por cerca de um ano e seis meses.

Com a necessidade da reorganização dos serviços e a permanência da assistência aos pacientes, os profissionais precisaram aderir ao modelo de atendimento a distância de forma rápida e eficaz, fazendo do uso do aparelho celular uma ponte de informações com seus pacientes. De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), existem 268.266.822 milhões de linhas ativas na telefonia móvel no Brasil. Este dado é do mês de setembro de 2023, o que mostra que essa é uma das mais acessíveis entre a população brasileira.

No estudo de Giovanella et al. (2022), intitulado “Desafios da atenção básica no enfrentamento da pandemia de COVID-19 no SUS”, a autora afirmou que, em sua pesquisa, 72% dos profissionais usavam seu próprio celular para contato com o usuário durante a pandemia de COVID-19, com maior frequência nas regiões Norte e Nordeste, o que atesta sua responsabilização pelo cuidado dos usuários. Souza-Junior (2014) afirma que o uso do telefone móvel possibilita, ainda, a troca de informações via mensagem de texto, sendo que alguns, ainda, contam com a possibilidade de acesso a diversos recursos pela conexão à internet. Essa informação corrobora os resultados encontrados neste estudo, nos quais o recurso tecnológico mais utilizado pelos terapeutas ocupacionais foi o celular pessoal.

Conforme os resultados deste estudo, os profissionais investigados têm mais de um vínculo de trabalho, sendo autônomo e vínculo trabalhista por meio de carteira assinada, pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), ou servidor público com mais um vínculo de trabalho. Em estudo realizado entre 2007 e 2008, por Bezerra et al. (2009), em Alagoas, os autores encontraram outra realidade em relação à situação trabalhista, em que 53% da amostra tinha vínculo estatutário, seguido pelo serviço prestado com 23%.

Há uma cultura de acúmulo de empregos entre os trabalhadores de saúde e essa prática já antecipava uma característica atual da forma de organização do trabalho contemporâneo, que é a “flexibilidade”. Bernardo et al. (2013) descrevem que essa noção abrange um conjunto de características, dentre as quais pode-se destacar a necessidade de os trabalhadores serem capazes de exercer uma variedade maior de tarefas; a desregulamentação das jornadas de trabalho, com banco de horas. Bernardo et al. (2013) afirmam que, com a grave crise enfrentada pelo capitalismo, a partir da década de 1970, que levou à reorganização dos trabalhadores com vistas à retomada do patamar de acumulação de empregos, houve, como consequência, a intensificação dos processos de trabalho existentes e a criação de novas formas de relações do trabalho.

Sobre a caracterização das sessões de teleatendimento, os terapeutas ocupacionais que participaram deste estudo afirmaram que o modelo de atendimento à distância menos utilizado foi o formato assíncrono (n=9, 25,7%). Valverde et al. (2022) observaram que, nos atendimentos assíncronos, a principal barreira evidenciada foi o engajamento de alguns familiares no estudo e utilização dos materiais fornecidos para capacitação e posterior aplicação com as crianças. Apesar de as cartilhas e áudios terem sido adaptados à linguagem adequada para facilitar a compreensão e dos estagiários terem se disponibilizado para discussão dos materiais, esses momentos ocorreram menos que o esperado pelos terapeutas.

De acordo com Heinzen & Possolli (2022), do ponto de vista de abordagens tradicionais de atendimento, pode-se pensar que o teleatendimento não seja eficiente, no entanto, no contexto da pandemia, esse método se tornou indispensável para a continuidade dos atendimentos, que eram, antes, realizados presencialmente. Medeiros (2023) afirma que existem múltiplas aplicabilidades da telemedicina, como as interações entre pacientes e profissionais de saúde, interações entre profissionais de saúde e atividades gerenciais, por exemplo. Apesar da diversidade de ações em telessaúde, todas elas contribuem, de forma interligada, para as necessidades dos sistemas de saúde, ainda que de forma distinta. Desta forma, nesta pesquisa, 21 (60%) dos pesquisados utilizaram esse método durante a pandemia de COVID-19 para manter o contato com seus pacientes.

Sobre o registro dos atendimentos, somente um (2,8%) participante da pesquisa afirmou que não registrou o teleatendimento. É necessário destacar existência da Resolução 415, sancionada em maio de 2012, pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional – COFFITO, que trata exclusivamente da obrigatoriedade dos registros clínicos dos terapeutas ocupacionais e dispõe sobre a obrigatoriedade do registro em prontuário pelo terapeuta ocupacional, da guarda e do seu descarte e dá outras providências.

Rodrigues (2021) afirma que as sessões de terapia por telefone foram significativamente mais curtas do que as realizadas pessoalmente, corroborando o resultado encontrado nesta pesquisa, onde a duração era, em média, entre 10 e 30 minutos, de acordo com 22 (62,8%) dos participantes. A frequência das sessões também foi reduzida, ocorrendo semanalmente, conforme a maioria das respostas (n=28, 80%). Souza-Junior (2014) afirma que os profissionais responsáveis pelas intervenções devem ter conhecimento e habilidades necessárias para conduzir o teleatendimento, além de se mostrar receptivos e valorizarem o respeito e a conduta ética.

Segundo Magalhães et al. (2021), como medida para manter a assistência e reduzir os impactos causados pela restrição social, o teleatendimento pelas plataformas on-line serviu para garantir uma manutenção dos aspectos físicos e psíquicos pelas orientações sobre os cuidados com a saúde e com a higiene e realização de atividades, inserindo a família no contexto terapêutico.

Dessa forma, as residências foram transformadas em locais que possibilitaram os encontros a distância com profissionais, a fim de garantir a promoção da saúde. Logo, 26 (74,3%) dos terapeutas ocupacionais que responderam a esta pesquisa afirmaram que a experiência relacionada ao teleatendimento foi positiva e destacaram pontos como a manutenção do vínculo com a família e paciente e a ampliação do acesso, como foi encontrado na pesquisa realizada com terapeutas ocupacionais de Alagoas.

Enquanto a ausência do contato físico foi um ponto negativo desse formato de atendimento, corroborando as reflexões de Noal (2020). Em uma entrevista, a autora do livro “O Humano do Mundo: Diário De Uma Psicóloga Sem Fronteiras” fala sobre as dificuldades do cuidado em tempos de COVID-19, apontando que um dos desafios está diretamente relacionado à nossa cultura, tendo em vista a valorização da proximidade e do toque, em detrimento da necessidade de isolamento social, imposta pela pandemia. Ela ressalta a capacidade humana de se reinventar diante de situações extremas e a criatividade que pode ser empregada neste contexto atípico.

Considerando a experiência com essa nova forma de trabalho, Morais & Azoni (2023) consideram que a satisfação dos profissionais com o modelo de trabalho é descrita mesmo antes da pandemia de COVID-19, visto que a maioria dos profissionais de diferentes categorias concorda que a assistência por meio do teleatendimento é efetiva. Medeiros (2023) cita que as evidências científicas mostram que as intervenções de telemedicina são efetivas e facilitam o acesso e a prestação de serviços, melhorando a eficácia e promovendo a responsabilização dos cuidados em saúde. Isso justifica o resultado acerca de quando indagados se houve evolução dos pacientes com esta modalidade de atendimento.

Os resultados encontrados podem proporcionar uma reflexão acerca da modalidade de atendimento à distância, que já era um modelo utilizado por alguns profissionais de saúde em situações distintas. Como afirma Haddad (2012), o Ministério da Saúde do Brasil identificou, a partir de 2006, diferentes experiências existentes no país envolvendo a Telemedicina e a Telessaúde. Com a união das experiências, desenvolveu um projeto-piloto de Telessaúde e o implementou, com o objetivo de promover a qualificação em serviço das Equipes de Saúde da Família, aumentando a resolubilidade da Atenção à Saúde prestada à população e fortalecendo o modelo de atenção baseada na Atenção Primária como porta de entrada e ordenadora do Sistema de Saúde.

Com o passar dos anos e a facilidade no acesso à internet, o atendimento a distância ganhou mais visibilidade e, com a chegada da pandemia de COVID-19, outros profissionais fizeram uso do teleatendimento/telemonitoramento como meio de assegurar atendimento a seus pacientes. Oliveira et al. (2015) afirmam que a popularização da internet acelerou ainda mais o ritmo dos avanços no domínio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), expandindo o alcance da telemedicina para abranger aplicativos baseados na web, como e-mail, teleconsultas e teleconferências, e as abordagens multimídias (imagens digitais e de vídeo), aumentando a disponibilidade e a utilização dessas tecnologias nos países em desenvolvimento e áreas carentes dos industrializados.

Estudar sobre novos modelos de atendimento e de acesso ao paciente se faz necessário para planejar e executar atendimentos com maior qualidade e produtividade. Os resultados mostram que os profissionais terapeutas ocupacionais apresentaram dificuldade neste planejamento e que, apesar de apresentarem pontos positivos e afirmarem que observaram boa evolução de seus pacientes, ainda assim, necessitam de orientações mais palpáveis de execução desses atendimentos.

Conclusão

Este estudo identificou que os terapeutas ocupacionais que realizaram teleatendimento/telemonitoramento em Alagoas são profissionais pós-graduados, com mais de cinco anos de formados; eles prestaram assistência ao público de todas as idades e estão inseridos principalmente no serviço público. Os atendimentos permaneceram por volta de um ano e seis meses e o celular pessoal foi o principal recurso tecnológico utilizado.

Os profissionais realizaram teleatendimento, uma vez por semana, com duração de dez a trinta minutos. Os terapeutas ocupacionais tiveram dificuldade em iniciar essa prática, mas perceberam evolução no tratamento e consideraram a experiência positiva. Além disso, destacaram que a manutenção do vínculo, o engajamento familiar e a aproximação com o contexto do paciente foram pontos positivos, enquanto a dificuldade do acesso à internet de qualidade foi o principal fator negativo.

Este tipo de atendimento tem sido considerado no período pós-pandemia, destacando-se como uma estratégia complementar aos acompanhamentos presenciais. Salienta-se a importância de estudos nesta área, visto que é uma prática que já existia, mas que nos últimos anos se tornou mais popular e está sendo usada por parte dos profissionais da saúde, sobretudo o profissional de terapia ocupacional.

Destaca-se a necessidade de novos estudos sobre a temática e o seu uso por terapeutas ocupacionais, assim como investigações com os pacientes/usuários, para compreender outros questionamentos que esta pesquisa não conseguiu responder.

Durante a realização deste estudo, algumas barreiras foram encontradas, como a dificuldade de adesão por parte dos sujeitos da pesquisa, bem como a quantidade de literatura disponível sobre o tema.

  • 1
    É o atendimento com interação a distância (sufixo “tele”) por tecnologia, na qual o profissional de saúde e o usuário estão em locais diferentes.
  • 2
    É registrada e realizada entre trabalhadores, profissionais e gestores da área de saúde, por meio de instrumentos de telecomunicação bidirecional.
  • 3
    É o monitoramento a distância de parâmetros de saúde e/ou doença de usuários por meio das TIC. O monitoramento pode incluir a coleta de dados clínicos, a transmissão, o processamento e o manejo por um profissional de saúde utilizando sistema eletrônico (Simões, 2020).
  • 4
    Dois mestres e uma doutora com expertise na área.
  • Como citar: Silva, S. D. S., Amorim, N. C. R. S., Assis, V. L. B., Reis Neto, J. A., & Reis, M. C. S. (2024). Processo de trabalho dos terapeutas ocupacionais durante a pandemia de Covid-19 pelo teleatendimento e telemonitoramento. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 32, e3840. https://doi.org/10.1590/2526-8910.ctoAO395738401

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Editado por

  • Editora de seção
    Profa. Dra. Patrícia Leme de Oliveira Borba

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    27 Abr 2024
  • Revisado
    06 Maio 2024
  • Aceito
    22 Ago 2024
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