Resumo
Introdução Estudos têm demonstrado o envolvimento progressivo de sintomas musculoesquelético nas sequelas pós-COVID-19, principalmente no que se refere à fadiga e à fraqueza muscular.
Objetivo identificar na literatura os sintomas musculoesqueléticos como sequelas pós-infecção por SARS-Cov-2, bem como investigar a relação dessas variáveis.
Metodologia Trata-se de uma revisão integrativa da literatura produzida nos últimos quatro anos, indexadas nas bases de dados PubMed, Web of Science, ScienceDirect e Scielo. A revisão foi baseada nas diretrizes do PRISMA.
Resultados Dos 528 registros encontrados, 11 foram incluídos. Os artigos concluíram que os sobreviventes da COVID-19 podem apresentar sintomas musculoesqueléticos após a recuperação, acarretando prejuízos ao longo do tempo. Os sintomas mais citados foram: fadiga, mialgia, fraqueza muscular, fragilidade, dor musculoesquelética geral, lombalgia, artralgia, perda muscular e diminuição da força. A persistência dos sintomas após a infecção pelo vírus da síndrome respiratória aguda grave – coronavírus 2 (SARS-CoV-2) pode estar relacionada a uma resposta imunológica desregulada, resultando na produção excessiva de citocinas pró-inflamatórias.
Conclusão As publicações ainda são incipientes, principalmente no contexto brasileiro, necessitando de mais estudos para relacionar e explicar o motivo do SARS-CoV-2 deixar sequelas a longo prazo no sistema musculoesquelético. É necessário um olhar holístico da equipe multiprofissional ao atender pacientes com COVID longa.
Palavras-chave:
Sistema Musculoesquelético; Coronavirus; SARS-CoV; Revisão
Abstract
Introduction Studies have demonstrated the progressive involvement of musculoskeletal symptoms in post-COVID-19 sequelae, especially with regard to fatigue and muscle weakness.
Objective To identify musculoskeletal symptoms in the literature as sequelae after SARS-Cov-2 infection, as well as to investigate the relationship between these variables.
Methodology This is an integrative review of the literature produced in the last four years, indexed in the PubMed, Web of Science, ScienceDirect and Scielo databases. The review was based on PRISMA guidelines.
Results Of the 528 records found, 11 were included. The articles concluded that COVID-19 survivors may experience musculoskeletal symptoms after recovery, causing losses over time. The most frequently cited symptoms were: fatigue, myalgia, muscle weakness, frailty, general musculoskeletal pain, low back pain, arthralgia, muscle loss and decreased strength. The persistence of symptoms after infection with the severe acute respiratory syndrome virus – coronavirus 2 (SARS-CoV-2) may be related to a dysregulated immune response, resulting in the excessive production of pro-inflammatory cytokines.
Conclusion Publications are still incipient, especially in the Brazilian context, requiring more studies to relate and explain why SARS-CoV-2 leaves long-term consequences on the musculoskeletal system. A holistic view from the multidisciplinary team is necessary when caring for patients with long COVID.
Keywords:
Musculoskeletal System; Coronavirus; SARS-CoV; Review
Introdução
Nos últimos anos, a COVID-19 tem representado uma ameaça global significativa, recebendo atenção importante de pesquisadores de saúde pública a nível mundial. Isso é fundamental, uma vez que a pandemia envolveu um novo agente patogênico (SARS-CoV-2), sobre o qual há conhecimento limitado em relação aos desfechos a longo prazo (Park et al., 2020).
Quatro anos após o primeiro caso de COVID-19 no Brasil, suas repercussões ainda estão presentes. Desde os primeiros sintomas até a fase mais grave da infecção, queixas musculoesqueléticas têm sido relatadas, como mialgia, artralgia, lombalgia e fadiga, de forma quase sempre frequente (Cipollaro et al., 2020). Ainda é incerto como os seguimentos da COVID-19 são mediados no sistema musculoesquelético.
Sabe-se que, em alguns indivíduos, os sintomas da COVID-19 persistem por um longo período após a fase aguda da doença, levando à criação do termo “COVID longa”, que abrange uma variedade de sintomas, sejam eles novos, recorrentes ou persistentes (Maccarone et al., 2024). A COVID longa impacta a saúde neurológica, cardiovascular, pulmonar, musculoesquelética e psicológica do indivíduo, afetando a capacidade de trabalhar e executar atividades cotidianas (Spatz et al., 2023).
Estudos têm demonstrado o envolvimento progressivo de sintomas musculoesqueléticos nas sequelas pós-COVID-19 (Aschman et al., 2023; Azadvari et al., 2022), principalmente no que se refere à fadiga e à fraqueza muscular (Maccarone et al., 2024). A COVID longa pode ser confundida com outras patologias, como fadiga crônica ou fibromialgia. Por isso, investigações são necessárias, inclusive para a criação de critérios de diagnóstico e protocolos de tratamento (Maccarone et al., 2024).
Poucos estudos nacionais e internacionais têm investigado sintomas musculares e ósseos nas sequelas pós-COVID-19, menos ainda com seguimentos de sobreviventes e a relação de causa e efeito. Investigar esses sintomas são cruciais para uma melhor gestão de tratamento precoce, haja vista a necessidade de reabilitação dos pacientes com COVID longa. Portanto, o objetivo desta revisão é identificar na literatura os sintomas musculoesqueléticos como sequelas Pós-Infecção por SARS-Cov-2, bem como investigar a relação dessas variáveis.
Metodologia
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, um método que sintetiza dados e analisa informações de estudos publicados sobre uma determinada temática, possibilitando um conhecimento amplo e abrangente do assunto. Esse tipo de estudo é muito utilizado na área da saúde, uma vez que embasa ações práticas do cotidiano clínico, reiterando a medicina baseada em evidências (Souza et al., 2010).
Esta revisão seguiu as seis fases propostas por Souza et al. (2010), que são as seguintes: 1ª Fase: elaboração da pergunta norteadora; 2ª Fase: busca ou amostragem na literatura; 3ª Fase: coleta de dados; 4ª Fase: análise crítica dos estudos incluídos; 5ª Fase: discussão dos resultados; 6ª Fase: apresentação da revisão integrativa.
Além disso, foi verificado o nível de evidência dos estudos selecionados para a revisão final, de acordo com os sistemas de classificação de evidências, como caracterizado de forma ordenada por Fineout-Overholt & Stillwell (2011). Esses níveis de evidência correspondem a: Nível 1: evidências baseadas em resultados de meta-análise de estudos clínicos randomizados; Nível 2: estudos com delineamento experimental (ensaio clínico randomizado); Nível 3: estudos quase-experimentais (ensaio clínico não randomizado); Nível 4: evidências de estudos descritivos, transversais ou com abordagem qualitativa; Nível 5: estudo de caso ou relato de experiência; Nível 6: evidências resultantes de opiniões de especialistas (Fineout-Overholt & Stillwell, 2011).
Visando nortear o estudo, foi formulada a seguinte questão de pesquisa: “Quais são as contribuições científicas sobre a relação do SARS-CoV-2 com os sintomas musculoesqueléticos em pessoas adultas e idosas que sobreviveram à COVID-19?”. Para atender à pergunta da pesquisa, foram conduzidas buscas nas bases de dados Web of Science, ScienceDirect e PubMed, bem como na biblioteca eletrônica Scientific Electronic Library Online (SciELO). Os termos do DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MesH (Medical Subject Headings) foram empregados para auxiliar na busca. Os conjuntos de descritores, bem como os operadores booleanos, estão descritos na Tabela 1.
Os critérios de inclusão durante as buscas foram os seguintes: artigos de pesquisas originais, realizados desde 2020 até 10 de fevereiro de 2024, com participação de seres humanos, pessoas adultas e idosas, cujo objetivo principal foi verificar a relação da COVID-19 com o sistema muscular e/ou ósseo. Após isso, foram objetos de exclusão os seguintes tipos: revisões, comentários de especialistas, livros, editoriais e artigos que incluíram sintomas somáticos/mentais, reações às medicações e/ou vacinas, estudos realizados com atletas, e problemas ósseos mandibulares relacionados à intubação.
As buscas foram conduzidas em 10 de fevereiro de 2024 por um pesquisador treinado, que adotou mais de uma estratégia de busca nas diferentes bases de dados, com o objetivo de abranger o maior acervo possível sobre a temática em questão. Após as buscas, a triagem dos artigos foi conduzida por meio do aplicativo da Web Rayyan. Esse aplicativo organiza os achados dentro da plataforma, agilizando o processo de triagem preliminar de títulos e resumos, utilizando um método semiautomático, ao mesmo tempo em que mantém um elevado padrão de usabilidade (Ouzzani et al., 2016).
Todas as etapas de triagem, seleção e inclusão no estudo passaram por diferentes fases: inclusão dos achados no Rayyan (n=528); detecção de duplicatas (n=127); resolução e exclusão das duplicatas (n=73); leitura de título e resumo (n=455); inclusão dos artigos para análise completa (n=14); exclusão após análise do texto completo (n=3); registros incluídos na análise qualitativa (n=11) (Figura 1).
A análise crítica dos 11 artigos restantes foi conduzida por dois especialistas em doenças do sistema musculoesquelético, com o objetivo de aprimorar a análise e discussão dos achados. Todas as etapas foram iterativamente tratadas para assegurar uma análise robusta. Após toda a seleção, os dados dos artigos incluídos para a análise foram sintetizados seguindo um formato padrão: título, metodologia, país em que foi realizada a pesquisa, ano de publicação do artigo, objetivo, principais resultados e conclusões.
Resultados
Dos 528 artigos encontrados, 11 foram incluídos para a leitura completa e análise e discussão dos dados. Desses, apenas dois são nacionais (Azevedo Vieira et al., 2023; Gil et al., 2023), os outros englobaram o Irã (Azadvari et al., 2022), a Holanda (Stoffels et al., 2022), a Turquia (Erden et al., 2023; Pasin et al., 2023), a Índia (Jeyaraman et al., 2022), a Itália (Greco et al., 2021), e a Alemanha (Aschman et al., 2023). Além disso, dois estudos foram multicêntricos; um rastreou os países nórdicos (Islândia, Suécia, Dinamarca e Noruega) (Shen et al., 2023), e outro englobou os países do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) (McAuley et al., 2023). Todos os artigos estavam disponíveis apenas na língua inglesa.
A maioria dos estudos foram publicados em 2023 (63,6%), seguido por 2022 (27,2%), e apenas um de 2021. Em relação ao tipo de estudo, observa-se que todos foram de natureza quantitativa, com abordagens transversais, observacionais, prospectivo, descritivo, longitudinais e caso-controle. O nível de evidência de todos os artigos foi classificado como IV.
Os objetivos variaram entre: avaliar a prevalência de sintomas físicos osteomusculares, fraqueza, dor, perda de massa muscular esquelética, função muscular, fadiga geral e mal-estar pós-esforço em sobreviventes da COVID-19, pós-infecção. É interessante notar que o número de participantes variou consideravelmente, de 11 indivíduos a 64.880. Essa variação ocorreu devido a vários fatores, como a população de interesse, a disponibilidade de recursos e a capacidade de recrutamento de participantes.
Todos os 11 artigos concluíram que os sobreviventes da COVID-19 podem apresentar sintomas musculoesqueléticos após a recuperação, acarretando prejuízos ao longo do tempo. O sintoma mais citado foi a fadiga (Aschman et al., 2023; Azadvari et al., 2022; Azevedo Vieira et al., 2023; Gil et al., 2023; Shen et al., 2023; Stoffels et al., 2022), seguido de mialgia (Azadvari et al., 2022; Stoffels et al., 2022; Gil et al., 2023; Aschman et al., 2023), fraqueza muscular e fragilidade (Stoffels et al., 2022; McAuley et al., 2023; Greco et al., 2021), dor musculoesquelética geral (Jeyaraman et al., 2022; Pasin et al., 2023), e/ou lombalgia (Azadvari et al., 2022; Shen et al., 2023), artralgia (Erden et al., 2023), perda muscular (Gil et al., 2023), diminuição da força (Greco et al., 2021) e da velocidade da marcha (Greco et al., 2021) (Tabela 2).
Discussão
Com base nos resultados desta revisão, observa-se que os efeitos da COVID-19 podem persistir por semanas a meses após a infecção, destacando-se os sintomas musculoesqueléticos. Embora poucos estudos tenham se concentrado especificamente nos sintomas musculares e ósseos, nota-se uma predominância de sintomas específicos, como fadiga, fraqueza muscular, fragilidade, lombalgia, artralgia, perda de massa muscular e diminuição da força.
Entre os dois estudos realizados no Brasil, o primeiro foi conduzido entre março de 2020 e agosto de 2021, em São Paulo. Os pesquisadores avaliaram a força de preensão manual e a área transversal do músculo em três momentos distintos: dois dias após internação por COVID-19 grave a moderada, na alta e seis meses após a alta. Os sintomas persistentes, incluindo a frequência de fadiga e mialgia, foram avaliados seis meses após a alta. A área transversal do músculo vasto lateral e a força de preensão manual foram verificadas para avaliar a perda de massa muscular, dividindo os participantes em dois grupos: grupo de baixa perda muscular e grupo de alta perda muscular. Aqueles que experimentaram uma maior perda de massa muscular durante a internação não se recuperaram totalmente após seis meses e apresentaram diminuição da força. O grupo com alta perda muscular apresentou maior prevalência de fadiga e mialgia. Quinze por cento dos pacientes no grupo de alta perda muscular foram readmitidos no hospital dentro de dois meses após a alta, sendo também o grupo que teve um maior gasto com cuidados de saúde (Gil et al., 2023).
O segundo estudo brasileiro foi realizado entre outubro de 2020 e julho de 2022, no Rio de Janeiro. Os participantes foram acompanhados durante 12 semanas após a alta hospitalar por COVID-19 para verificar sintomas persistentes. Aqueles que permaneceram sintomáticos foram avaliados por mais 9 meses. Após seis meses da alta hospitalar, 111 participantes ainda apresentavam sintomas, sendo que 26,1% deles relatavam cansaço geral. No nono e décimo mês, a queixa de fadiga geral persistiu. Foi observado também que a recuperação muscular dos sobreviventes de COVID-19 é lenta ao longo do tempo, o que afeta diretamente a qualidade de vida desses indivíduos (Azevedo Vieira et al., 2023).
Nota-se que a fadiga foi mencionada em vários estudos que avaliaram as sequelas pós-infecção por SARS-CoV-2 Aguda (Aschman et al., 2023; Azadvari et al., 2022; Azevedo Vieira et al., 2023; Gil et al., 2023; Shen et al., 2023; Stoffels et al., 2022). A fadiga é definida como uma exaustão física e/ou mental que pode variar de leve a grave e prejudicar as atividades rotineiras (Mota et al., 2005). A fadiga física é um sintoma comum da COVID-19, mas não está claro o motivo pelo qual ela persiste por meses após a recuperação. Considera-se que isso possa ser devido à desregulação nos sistemas nervoso autônomo, imunológico e metabólico pós-infecção, manifestando-se principalmente após exercícios (Castro et al., 2021).
Em paralelo a isso, vale destacar que uma das classes medicamentosas utilizadas no tratamento da COVID-19 aguda são os corticoides. A descontinuação abrupta da corticoterapia pode predispor à insuficiência adrenal, que tem a fadiga e a mialgia como um dos sintomas (Alves et al., 2008). Isto posto, são necessárias mais investigações sobre a relação entre corticoides e sintomas persistentes pós-COVID-19.
Um ponto importante a ser destacado é que a maioria dos estudos encontrados nesta revisão, assim como outros achados, revelaram que as mulheres são as mais afetadas pela fadiga e outros sintomas musculoesqueléticos na COVID longa. Uma possível explicação são os fatores hormonais e a maior produção de interleucina-6 (IL-6) em mulheres. Sabe-se que o aumento da IL-6 piora o prognóstico da COVID-19. Isso sugere uma desregulação persistente no sistema imunológico, predominantemente nas mulheres afetadas pela síndrome pós-COVID-19. Um estudo mostrou que a maioria dos sobreviventes de COVID-19 apresentou níveis elevados da citocina pró-inflamatória IL-6, pelo menos 3 meses após a infecção, sendo mais significativos nas mulheres (69% vs. 39% nos homens; P = 0,05) (Ganesh et al., 2022).
Por outro lado, o estudo de Jeyaraman et al. (2022) revelou que o sexo masculino é um dos fatores de risco para o desenvolvimento de manifestações musculoesqueléticas graves após a infecção por COVID-19. Outro levantamento demonstrou que as mulheres têm taxas menores de infecção por COVID-19 e menor probabilidade de hospitalização em comparação com os homens. O estudo sugere que o estrogênio é um fator protetor nas infecções por COVID-19, devido à sua contribuição no recrutamento de células de defesa do organismo (Raza et al., 2021). Nesse sentido, parece plausível dizer que esse fator protetor é válido apenas durante a infecção aguda. De maneira geral, as evidências sobre os fatores envolvidos na diferença por sexo nas queixas persistentes de sintomas musculoesqueléticos carecem de mais estudos.
A presente revisão também destacou que a mialgia foi uma das principais queixas no pós-COVID-19. Ainda é pouco esclarecido o motivo pelo qual o vírus continua afetando o sistema musculoesquelético, causando principalmente mialgia. A compreensão da fisiopatologia por trás da Síndrome Pós-COVID-19 ainda está em desenvolvimento. Algumas teorias sugerem que a persistência dos sintomas após a infecção pelo vírus da síndrome respiratória aguda grave – coronavírus 2 (SARS-CoV-2) pode estar relacionada a uma resposta imunológica desregulada, resultando na produção excessiva de citocinas pró-inflamatórias. Isso pode desencadear um estado crônico de baixo grau de inflamação, o que pode dificultar a completa eliminação do vírus ou de seus componentes moleculares. Essa hipótese tem sido discutida e explorada na literatura científica como uma possível explicação para a Síndrome Pós-COVID-19 (Buonsenso et al., 2022).
Com base nesses achados, acredita-se que possa haver uma base genética para o fato de alguns indivíduos possuírem uma menor resistência imunológica para a eliminação do coronavírus (Buonsenso et al., 2022). A reação hiper-inflamatória inata da síndrome de desregulação de citocinas na infecção por coronavírus é um achado importante que explica os desfechos adversos (Ganesh et al., 2022). Sabe-se que o SARS-CoV-2 explora o ACE2 (Angiotensin-converting enzyme 2) para entrar na célula hospedeira, que age como um receptor para a proteína Spike do SARS-CoV-2 (Hoffmann et al., 2020). Não está claro se o vírus infecta as células musculares esqueléticas através da ligação com a ACE2. Há uma hipótese de que uma grande carga de citocinas pró-inflamatórias no soro possa desencadear danos ao músculo esquelético (Mao et al., 2020; Muus et al., 2021).
Outro desafio imposto pelo vírus diz respeito à fragilidade, especialmente em idosos. Esta questão foi evidenciada no estudo caso-controle realizado por Greco et al. (2021). No estudo, os autores utilizaram uma escala validada para avaliar a fragilidade, que incluía fatores como fadiga, resistência, mobilidade, estado nutricional, incontinência, entre outros. Para avaliar o desempenho físico, foram conduzidos testes de força de preensão manual e de caminhada em ritmo tradicional. Observou-se um aumento de 21% nos escores de fragilidade entre os idosos que contraíram a COVID-19, além de uma redução na força de preensão manual e na velocidade da caminhada (Greco et al., 2021).
A COVID-19 pode ter um impacto significativo no agravamento da fragilidade e da condição física entre os sobreviventes. No entanto, ainda não está claro até que ponto os idosos, que já são mais suscetíveis à fragilidade, podem sofrer danos osteomusculares causados pelo SARS-Cov-2. Isso se deve ao fato de que outros fatores, como a situação pandêmica, a interrupção de programas de lazer e o isolamento social, podem estar associados à fragilidade desses idosos (Greco et al., 2021).
Os resultados desta revisão destacam, ainda, a prevalência significativa de fraqueza muscular entre os sobreviventes da COVID-19. Uma possível explicação é o aumento de citocinas pró-inflamatórias associadas à COVID-19, particularmente níveis elevados de IL-6, que podem favorecer a atrofia muscular, resultando no enfraquecimento dos músculos (Moresi et al., 2019). Além disso, um aumento da creatina quinase é um forte indicador de dano muscular esquelético em pacientes com COVID-19 (Silverthorn, 2017).
Por isso, é importante realizar exames rotineiros para medir os níveis dessa enzima no organismo, além de outros exames complementares. Complicações respiratórias graves, tempo de internação, entre outros fatores, também estão relacionados à fraqueza muscular (Paliwal et al., 2020). Um atendimento e acompanhamento multidisciplinar são necessários para estabelecer as relações e efeitos a longo prazo, bem como promover os melhores cuidados, baseados em evidências científicas.
Em consonância com os achados já mencionados, a dor musculoesquelética é um dos principais sintomas observados. As evidências indicam que essa dor é frequente em pacientes com Sequela Pós-Infecção por SARS-CoV-2, com estudos reportando uma prevalência variável de 0,3% a 65,2% (Khoja et al., 2022). Trata-se de uma dor decorrente de estruturas musculoesqueléticas, como ossos, músculos, articulações e tendões. O conceito de dor musculoesquelética é apresentado no atual Código Internacional de Doenças (CID-11), classificando-o como primário e secundário. A dor musculoesquelética crônica primária é uma condição isolada, não tendo relação com uma patologia específica. Já a secundária é originada por uma doença subjacente, inflamação, alterações na estrutura ou traumas no sistema nervoso central (Perrot et al., 2019).
Um dos desafios relacionados à dor é o aumento no uso de medicamentos anti-inflamatórios, sobretudo em idosos. Essas medicações, quando utilizadas de forma indiscriminada, podem causar efeitos negativos e degeneração no sistema renal, bem como alterações no sistema gastrointestinal. Isso ocorre porque os anti-inflamatórios inibem a produção de prostaglandinas, que são importantes para a perfusão renal (Lucas et al., 2018). Portanto, deve-se ter cautela no uso crônico, e os profissionais médicos devem sempre avaliar o risco-benefício específico para cada paciente (Lucas et al., 2018). Além disso, indivíduos com queixas musculoesqueléticas na COVID longa têm mais chances de receber doses altas de corticosteroides e imunossupressores (Molto et al., 2022). Este último, se usado por longos períodos e com dosagem alta, apresenta um risco de redução da densidade óssea (Bressan et al., 2010).
As evidências desta revisão contribuem para que profissionais de saúde possam identificar os sintomas e os mecanismos subjacentes à dor musculoesquelética na COVID longa, essencialmente para encontrar possíveis biomarcadores visando intervenções terapêuticas ocupacionais específicas (Khoja et al., 2022).
As limitações deste estudo incluem a baixa produção de pesquisas originais sobre os sintomas musculoesqueléticos persistentes no pós-COVID-19, principalmente no contexto nacional. Além disso, as evidências científicas encontradas foram apenas de nível IV (estudos observacionais e transversais). Constatou-se, ainda, apenas formulações de hipóteses na tentativa de explicar os mecanismos subjacentes e os motivos desses sintomas persistentes. Isso se dá, principalmente, por ser uma patologia relativamente nova, uma variação da família de coronavírus.
Com base nos dados apresentados, destaca-se a importância do acompanhamento de longo prazo dos sobreviventes da COVID-19 para melhor compreender o potencial do vírus em continuar afetando o sistema musculoesquelético. Isso se deve principalmente ao impacto na qualidade de vida da população, nos custos para os setores de saúde e no aumento da evasão ocupacional. O acompanhamento contínuo permitirá não apenas entender melhor os efeitos a longo prazo da COVID-19, mas também desenvolver estratégias de intervenção e tratamento mais eficazes para os pacientes afetados. Além disso, a implementação de programas de reabilitação e suporte multidisciplinares pode ser fundamental para ajudar os sobreviventes a recuperar a funcionalidade e melhorar sua qualidade de vida após a infecção por COVID-19.
Conclusão
Os resultados desta revisão apontam que os sobreviventes da COVID-19 podem apresentar sintomas musculoesqueléticos após a recuperação, acarretando prejuízos ao longo do tempo. Os sintomas mais citados foram: fadiga, mialgia, fraqueza muscular, dor musculoesquelética geral, fragilidade, perda muscular, lombalgia e diminuição da força.
As publicações ainda são incipientes, principalmente no contexto brasileiro, necessitando de mais estudos para relacionar e explicar o motivo do SARS-CoV-2 deixar sequelas a longo prazo no sistema musculoesquelético. É necessário um olhar holístico da equipe multiprofissional ao atender pacientes com COVID longa.
Cabe, por fim, ressaltar que novos estudos considerem monitorar os sobreviventes de COVID-19, com foco no sistema musculoesquelético, bem como investigar alternativas para o tratamento não farmacológico desses sintomas.
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Como citar:
Vilar, R. Q. S. (2024). Sintomas musculoesqueléticos persistentes na Síndrome Pós-COVID-19 Aguda: uma revisão integrativa. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 32, e3804. https://doi.org/10.1590/2526-8910.ctoAR392938041
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Editora de seção
Profa. Dra. Carolina Rebellato


