Resumo
Sabe-se que há declínio cognitivo no envelhecimento humano. A estimulação cognitiva (EC) é compreendida como uma ferramenta essencial para a potencialização das funções cognitivas. Este estudo teve como objetivo avaliar os benefícios da EC online e comparar o desempenho de idosos após sessões de intervenção cognitiva. Participaram 20 mulheres idosas, recrutadas por amostragem não probabilística e selecionadas por conveniência. As participantes foram divididas em dois grupos: Grupo Experimental (GE) e Grupo Controle (GC), cada um com 10 integrantes. As intervenções cognitivas ocorreram em seis encontros semanais, realizados em grupo e online por meio da plataforma virtual Google Meet. Os dados foram analisados no programa estatístico R (R Core Team, 2019). Utilizou-se a análise descritiva para as médias e o teste t para comparação entre o GE e o GC. Os resultados indicaram que o GE apresentou melhorias significativas na cognição, especialmente nos domínios da atenção e da adoção de estratégias, assim como discreta melhora na sintomatologia depressiva após as sessões de EC. Portanto, conclui-se que a EC tem efeitos significativos nos idosos.
Palavras-chave:
Cognição; Idoso; Envelhecimento Saudável
Abstract
It is known that cognitive decline occurs with human aging. Cognitive stimulation (CS) is understood as an essential tool for enhancing cognitive functions. This study aimed to evaluate the benefits of online CS and compare the performance of older adults after cognitive intervention sessions. Twenty older women were recruited through non-probability sampling and selected for convenience. The participants were divided into two groups: Experimental Group (EG) and Control Group (CG), with 10 members each. The cognitive interventions occurred in six weekly group sessions conducted online via the Google Meet platform. Data were analyzed using the R statistical software (R Core Team, 2019). Descriptive analysis was used for the means, and the t-test was applied for comparisons between the EG and CG. The results indicated that the EG showed significant improvements in cognition, particularly in the domains of attention and strategy adoption, as well as slight improvement in depressive symptoms after the CS sessions. Therefore, it is concluded that CS has significant effects on older adults.
Keywords:
Cognition; Aged; Healthy Aging
Introdução
O envelhecimento humano é um fenômeno complexo e multifacetado que, com o surgimento e o avanço de doenças relacionadas a esse processo da vida, exige maiores investimentos relacionados à saúde da pessoa idosa. O aumento dos transtornos neurocognitivos evidencia a importância de manter a saúde cognitiva em idosos, com foco na prevenção de possíveis quadros demenciais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta, em dados mais recentes, que 80% dos idosos viverão em países de baixa e média renda em 2050. Considerando o crescimento contínuo da população idosa no país e no mundo, torna-se necessária a promoção de estratégias para um envelhecimento melhor e com qualidade de vida (Organização Mundial da Saúde, 2018).
Um guia elaborado pela Organização Mundial da Saúde (2017) sugere intervenções para o manejo de habilidades em declínio e para a manutenção das capacidades da pessoa idosa. Dentre essas intervenções, destaca-se a estimulação cognitiva (EC) para todos os idosos, inclusive aqueles que não apresentam transtornos neurocognitivos ou demenciais instalados. Isso nos faz refletir sobre o potencial das intervenções cognitivas para a manutenção e o estímulo das funções cerebrais, incluindo a memória e outros domínios cognitivos.
A EC é apontada na literatura como a intervenção com maior respaldo e evidência científica, apesar das limitações existentes. Sugere-se que ela promove melhorias significativas nas funções cognitivas, na interação social e na qualidade de vida dos idosos (Yokomizo et al., 2020). McDermott et al. (2019) também enfatizam que intervenções em grupo proporcionam resultados ainda mais satisfatórios, o que pode estar relacionado ao fato de os idosos interagirem melhor e a compartilharem suas experiências, gerando sentimentos de pertencimento e rede de apoio social.
A EC pode ser entendida como uma abordagem ampla que envolve o engajamento em atividades voltadas à melhoria do desempenho cognitivo e social do indivíduo ou do grupo atendido. Evidências sobre a eficácia de programas de intervenção focados no desempenho cognitivo datam da década de 1980 no cenário internacional (Golino & Flores-Mendonça, 2016). Também se observam avanços no cenário brasileiro quanto aos modelos de intervenção cognitiva aplicados à população idosa. Estudos com abordagens individualizadas, grupais e intergeracionais têm mostrado eficácia na maximização das funções cognitivas, especialmente nas habilidades de atenção, memória recente, participação social e outros aspectos da cognição (Krug et al., 2019; Parola et al., 2019; Justo-Henriques, 2021).
O uso de tecnologias e de realidade virtual também é citado na literatura como uma ferramenta importante para a implementação de programas de EC, especialmente durante a pandemia de COVID-19, quando os atendimentos remotos ganharam destaque (Silva Neto et al., 2023; Lucena et al., 2020).
Pesquisadores que avaliaram idosos após cinco sessões de intervenção cognitiva baseadas em metamemória e criação de imagens mentais evidenciaram os efeitos positivos da estimulação e seus potenciais ganhos nos domínios cognitivos. Autores sugerem a importância do acompanhamento contínuo e longitudinal, assim como de intervenções com enfoque cognitivo (Aramaki & Yassuda, 2011). Um artigo de revisão bibliográfica sobre EC e seus benefícios no envelhecimento humano realizado por Oliveira et al. (2017) aponta os efeitos positivos da EC na manutenção do desempenho cognitivo e na funcionalidade para as atividades da vida diária (AVD).
Outro estudo, que avaliou as funções cognitivas de idosos antes e após oficinas de EC, identificou melhorias significativas no desempenho cognitivo, principalmente na memória de evocação. Assim como os estudos citados anteriormente, sugere intervenções contínuas para ampliar os ganhos cognitivos (Matos et al., 2020).
Uma revisão de estudos focados em intervenções com treino cognitivo em idosos saudáveis e com comprometimento cognitivo leve mostrou que a maioria das pesquisas apontou efeitos significativos e melhorias no desempenho cognitivo nos grupos experimentais. Além disso, destacou que intervenções em grupo proporcionaram resultados mais expressivos (Olchik et al., 2012).
Uma revisão sistemática de Souza et al. (2019), que buscou identificar delineamentos metodológicos, procedimentos e resultados dos estudos focados em práticas de EC em grupo, constatou uma diversidade de metodologias quanto ao número de participantes, sessões e temas. Corroborando os estudos citados anteriormente, destaca o caráter multimodal das intervenções e os benefícios para o desempenho cognitivo, a participação social e o humor dos idosos envolvidos. Assim, ao considerar a abordagem cognitiva e seu caráter multiprofissional, ressalta-se a importância dos terapeutas ocupacionais que utilizam esses recursos para potencializar o desempenho na vida diária.
A terapia ocupacional caracteriza-se por ser uma profissão dedicada às questões da vida cotidiana, levando em conta os aspectos biopsicossociais e espirituais. No campo da gerontologia, a terapia ocupacional se debruça sobre os efeitos desses aspectos no desempenho cotidiano da pessoa idosa, estimulando a participação e o engajamento nas AVD, Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) e outras ocupações significativas (Assis et al., 2017).
As intervenções da terapia ocupacional voltadas à estimulação do desempenho cognitivo e funcional dos idosos têm se destacado na pesquisa e na prática profissional em diversos contextos (Tobar et al., 2017; Raymundo et al., 2017; Cruz et al., 2022; Alcantara et al., 2019). Essas intervenções contribuem para a manutenção e a potencialização das funções cognitivas, reduzindo os declínios associados ao envelhecimento. A diversidade dessas práticas ressalta a relevância da profissão e de outras categorias atuantes nessa área.
Baseado no estado da arte sobre intervenções cognitivas, este estudo parte das seguintes questões: a EC possibilita um melhor desempenho cognitivo em pessoas idosas? Há melhorias nos testes após a fase quase experimental com intervenção cognitiva? As hipóteses indicam efeitos positivos da estimulação no desempenho cognitivo e na performance nos testes após a intervenção quase experimental?
Considerando o aumento da população idosa e a necessidade de atenção à cognição em seu cotidiano, este estudo justifica-se pela relevância da tema e pela necessidade de investimentos na saúde cognitiva dos idosos e na investigação dos benefícios da EC. Os termos Estimulação Cognitiva e Treino Cognitivo são usados como sinônimos ao longo deste estudo.
Portanto, este estudo teve como objetivo avaliar uma proposta de intervenção cognitiva online para idosos durante a pandemia de COVID-19 e comparar o desempenho nos testes após as sessões de EC. Para tanto, foram avaliados o desempenho das funções cognitivas, a funcionalidade nas AIVD, os sintomas depressivos e o uso de estratégias cognitivas.
Método
Tipo de estudo e aspectos éticos
Trata-se de um estudo de tipo quase-experimental, com avaliação pré- e pós-intervenção. Foi desenvolvido por um terapeuta ocupacional e demais da equipe da área da psicologia, ressaltando a importância do trabalho multiprofissional no campo do envelhecimento humano, com ênfase no desempenho cognitivo e social.
O presente estudo foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, obtendo parecer favorável (número 4.729.429 e CAAE 46761120.4.0000.5187). Foram respeitados todos os aspectos éticos e as recomendações da Resolução n.º 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. As participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), tendo ciência de todas as etapas da pesquisa e garantindo-se o sigilo das informações prestadas (Brasil, 2012).
Participantes
A amostra do estudo foi composta por 20 mulheres idosas. A seleção foi feita por amostragem não probabilística por conveniência, utilizando-se o método conhecido como “bola de neve” (Vinuto, 2014). Posteriormente, as participantes foram designadas aleatoriamente em dois grupos: Grupo Experimental (GE) e Grupo Controle (GC). Foi realizado um sorteio simples por meio de um programador virtual, com base em números de protocolo enumerados de 1 a 20. Os dez primeiros números sorteados formaram o GE, e os demais, o GC.
Os critérios de inclusão considerados foram ter idade igual ou superior a 60 anos; não apresentar comprometimento cognitivo evidenciado pela pontuação igual ou inferior a 24 no Mini Exame do Estado Mental, considerando o perfil de escolaridade da amostra segundo Brucki et al. (2003); não apresentar comprometimento funcional indicado pela pontuação inferior na Escala de Lawton e Brody para AIVD; não apresentar sintomas depressivos identificados pela Escala de Depressão Geriátrica (EGD); não ser institucionalizada.
Os critérios de exclusão foram: possuir diagnóstico prévio de Transtorno Neurocognitivo Maior de acordo com os critérios do DSM-V ou Transtornos Mentais Graves e Persistentes (TMGP); não ter frequentado a escola ou não ter concluído os anos iniciais do ensino básico; apresentar déficits sensoriais, funcionais ou comunicativos que interferissem na aplicação dos instrumentos e no decorrer da pesquisa; ter dificuldades para lidar com tecnologias no formato online.
Instrumentos e procedimentos
Os instrumentos utilizados no pré-teste (etapa inicial) foram:
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Questionário sociodemográfico: coleta de dados de sexo, escolaridade, exercício profissional, religiosidade, entre outros.
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Mini Exame do Estado Mental (MEEM) (Folstein et al., 1975): utilizado para avaliar as funções cognitivas, é composto por 18 itens com pontuação máxima de 30. Este instrumento foi traduzido e validado no Brasil por Bertolucci et al. (1994) e possui consistência interna positiva e confiabilidade teste-reteste, sendo amplamente utilizado em estudos. Os participantes que atingem a pontuação igual ou superior a 25 pontos são considerados cognitivamente saudáveis. Por causa do perfil dos participantes deste estudo, não foi necessário adotar pontos de corte para a escolaridade.
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A Escala de Funcionalidade de Lawton & Brody (1969): usada para avaliar as Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD), tem como objetivo identificar a capacidade funcional pata realizar atividades cotidianas consideradas complexas. O escore varia de 7 a 21, sendo que maiores pontuações indicam melhor desempenho funcional. Participantes com pontuação igual a 7 são considerados dependentes para atividades complexas, enquanto aqueles com pontuação mais alta são considerados independentes. Embora não seja validada no Brasil, a escala apresenta estudos de confiabilidade (Santos & Virtuoso Júnior, 2008) e é amplamente utilizada.
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A Escala de Depressão Geriátrica (EGD): composta por 15 itens, busca identificar a presença da sintomatologia depressiva maior. Escore superior a 5 pontos é considerado indicativo de sintomas depressivos (Almeida & Almeida, 1999). No estudo de validação brasileiro desenvolvido por Paradela et al. (2005), adotou-se a nota de corte 5 para sugerir depressão maior na amostra.
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Questionário Multifatorial de Memória (MMQ Estratégia):composto por 19 itens, avalia a frequência de uso de estratégias de memória nas duas últimas semanas, utilizando a seguinte escala: 4 - o tempo todo; 3 - frequentemente; 2 - às vezes; 1 - raramente; 0 – nunca. Quanto maior a pontuação, melhor a adoção das estratégias cognitivas na vida diária (Simon et al., 2016). Essa escala foi traduzida e validada para o Brasil e é de domínio público.
Esses instrumentos constituíram um único protocolo, que teve duração máxima de aplicação de 60 minutos no formato online. Esses instrumentos foram utilizados para uma avaliação ampla da amostra, com a intenção de alcançar os objetivos do estudo e prosseguir com suas etapas, e por serem considerados importantes na atenção integral à saúde cognitiva e funcional dos sujeitos.
A EC com os participantes ocorreu durante seis encontros com o objetivo orientar e estimular os idosos quanto às suas funções cognitivas, de forma multimodal, contemplando a atenção, a memória, as funções executivas, as estratégias cognitivas (medidas compensatórias) e outras habilidades que visem a manutenção e a melhoria da capacidade cognitiva. O primeiro e o último encontros foram dedicados ao processo de avaliação pré- e pós-intervenção. Durante os encontros semanais, as participantes do GE foram orientadas com relação às atividades a serem realizadas em casa, que focavam na continuidade da EC para os domínios trabalhados no dia. As participantes do GC tiveram a oportunidade de participar das atividades de EC em grupo após a realização do estudo experimental.
A Tabela 1 descreve a metodológica da intervenção. O protocolo e o plano de intervenção cognitiva foram elaborados pelos autores considerando as principais temáticas a serem abordadas, os domínios cognitivos a serem estimulados e o tempo para realização do estudo.
Descrição metodológica: sessões, objetivos e atividades desenvolvidas durante as intervenções cognitivas.
As sessões ocorreram em grupo, de forma virtual/remota, através da plataforma Google Meet, considerando a relevância das abordagens grupais para a interação social da pessoa idosa e a criação de novos vínculos no contexto atual da COVID-19; as intervenções prezaram pela segurança das participantes.
Cada sessão teve a duração de 60 minutos, e as participantes deveriam ter uma frequência mínima obrigatória de 80% nos encontros. Todas as participantes cumpriram a carga horária mínima exigida das sessões de EC, demonstrando assiduidade e participação ativa. Na etapa final do estudo (pós-teste), foi realizada a reaplicação dos instrumentos de avaliação utilizados na fase pré-teste, exceto o questionário sociodemográfico, com a finalidade de comparar o desempenho das idosas do GC e GE após a intervenção cognitiva.
Análise dos dados
Os dados de variáveis categóricas foram expressos como frequência absoluta (n) e relativa (%). Na análise exploratória por meio do R Core Team (2019), os dados de variáveis quantitativas apresentaram distribuição normal (teste de Shapiro-Wilk) e homoscedasticidade (teste de Levene) e foram reportados como média e erro padrão (EP). Os escores das variáveis foram analisados pelos testes t independente e pareado. A variação percentual entre os momentos foi calculada como Δ= [(pós – pré) ÷ pré]) × 100. Além disso, o tamanho do efeito (TE) foi expresso pelo d de Cohen (1988), conforme Morris (2008). O TE foi interpretado como: sem efeito (d ≤ 0,19), pequeno (d=0,20–0,40), moderado (d = 0,41-0,79) ou grande (d ≥ 0,80). As análises inferenciais foram conduzidas) utilizando o pacote estatístico Jamovi 2.4 (The Jamovi Project, 2020). O nível de significância estatística adotado foi de 5% (p<0,05).
Resultados e Discussão
O perfil social das participantes está apresentado na Tabela 2, que mostra características semelhantes entre os grupos.
Com base nas avaliações pré- e pós-intervenção, é possível identificar, na Tabela 3 apresentada a seguir, desempenho significativo e discretas melhorias por parte dos idosos durante a realização do estudo, com destaque para a significativa performance no estado mental (GC: Pré – 27,70 (0,63); Pós – 27,50 (0,56) / GE: Pré – 27,30 (0,72); Pós – 29.30 (0,40)*), que apresentou um efeito grande de 0,987.
Efeito da estimulação cognitiva no estado mental, capacidade funcional, sintomatologia depressiva e metamemória de idosas.
A tabela abaixo apresenta os efeitos da intervenção cognitiva e o desempenho das participantes em todos os momentos, assim como as pontuações dos respectivos grupos (CG e GE) durante a execução de cada etapa.
Para todas as variáveis, os grupos partiram da mesma condição (p > 0,05). A EC apresentou efeito grande para o estado mental (ΔGE = +7,3%), pequeno para a capacidade funcional (ΔGE = +2,0%) e moderado para a metamemória (ΔGE = +15,2%). A sintomatologia depressiva não se alterou em função do tempo ou da intervenção.
Em geral, os resultados apontam para uma melhoria no desempenho cognitivo, o que corrobora a literatura (García-Sevilla et al., 2014; Ordonez et al., 2017), que indica que os sujeitos, ao passarem por intervenção cognitiva, obtiveram melhores pontuações no desempenho das funções cognitivas. Trindade et al. (2013) investigaram o declínio cognitivo em idosos institucionalizados e não institucionalizados e observaram repercussões e influência do estado das funções cognitivas na funcionalidade e até mesmo na sintomatologia depressiva dos participantes.
A funcionalidade das participantes, em ambos os grupos, foi satisfatória para as AIVD, com discreta melhoria no GE após a intervenção cognitiva. Esse achados alinham-se com os dados encontrados por Gomes et al. (2020), que realizaram uma revisão bibliográfica sobre a EC em idosos sem comprometimento cognitivo e identificaram que seus efeitos podem melhorar significativamente o desempenho dos idosos em atividades instrumentais e/ou complexas do cotidiano, assim como em atividades básicas e avançadas da vida diária.
Quanto à sintomatologia depressiva, nota-se que outros estudos também não encontraram diferenças significativas (Firmino et al., 2019; Parola et al., 2019). Os resultados deste estudo também se articulam com os de Irigaray et al. (2012), em que, após a intervenção experimental com enfoque cognitivo, observaram-se melhorias na sintomatologia depressiva dos sujeitos. A depressão pode estar associada a déficits cognitivos e funcionais, independentemente do nível de comprometimento cognitivo dos idosos (Beaudreau & O’Hara, 2009). Considerar tais efeitos na cognição é primordial para pensar em estratégias de prevenção no combate aos quadros demenciais. A ausência de sintomas depressivos na amostra deste estudo pode estar associada ao perfil cognitivo e funcional dos participantes, cujas características indicam idosos cognitivamente saudáveis e com níveis de funcionalidade preservados.
O uso de estratégias cognitivas é compreendido como a capacidade da pessoa idosa de utilizar auxiliadores externos ou internos para compensar os déficits cognitivos, principalmente na memória episódica (Carvalho et al., 2010), ou possíveis falhas e esquecimentos no cotidiano. Um achado relevante desse estudo é o uso elevado de estratégias cognitivas pelos participantes, considerando que grande parte da literatura aponta idosos com reduzido uso de estratégias mnésicas ou dificuldades na sua implementação. Touron et al. (2010) sugerem que a implementação de estratégias internas diminui com o passar do tempo e o avançar da idade, o que pode ser explicado pelo declínio das funções cognitivas, exigindo um esforço maior para o uso de auxiliadores, principalmente internos, que demandam um esforço mental mais elevado.
Neste estudo, de modo geral, contou-se com uma amostra de nível de escolaridade elevado, o que pode estar associado diretamente a uma boa reserva cognitiva dos participantes e a um melhor desempenho na adoção de estratégias na vida diária. Esse resultado é semelhante ao encontrado por Teixeira-Fabrício et al. (2012), que, ao proporem intervenções cognitivas, verificaram no pós-teste um aumento no uso de medidas compensatórias e uma melhor velocidade no processamento das informações, influenciada pelo nível de escolaridade dos idosos.
Apóstolo et al. (2011) investigaram os efeitos da EC em idosos e verificaram que os participantes submetidos a sessões de estimulação apresentaram mudanças no desempenho cognitivo, o que se assemelha aos resultados deste estudo, no qual as participantes apresentaram uma melhora significativa na capacidade cognitiva.
Gil et al. (2015), conduziram um estudo com o objetivo de verificar e comparar o desempenho de adultos e idosos em testes cognitivos após participação em sessões de EC intergeracional e observaram que os participantes apresentaram melhorias no desempenho em testes de atenção e memória e uma redução dos sintomas de depressão.
Carvalhais et al. (2019), ao buscarem avaliar os efeitos da implementação de um programa de EC em idosos institucionalizados, observaram uma melhoria significativa nos participantes, constatando que 77,78% deles apresentaram melhor desempenho em teste cognitivo, corroborando os achados deste estudo, ao evidenciar melhorias na cognição após as sessões de EC.
Os resultados deste estudo indicam que programas de EC são potencialmente eficazes para melhorar o desempenho das funções cognitivas da pessoa idosa, assim como ressaltam a importância dos grupos de EC para a manutenção das funções sociais. Considerando o contexto da pandemia e do isolamento, esses grupos configuram-se como ferramentas eficazes para promoção da saúde cognitiva e para a prevenção de possíveis agravos e quadros demenciais no envelhecimento humano.
Conclusão
Este estudo teve como objetivo avaliar a proposta de intervenção cognitiva online e, a partir disso, comparar o desempenho dos grupos nos testes de avaliação pré- e pós-intervenção quase-experimental. A estimulação cognitiva (EC) promoveu efeitos no estado mental, na capacidade funcional e na metamemória, sugerindo que intervenções dessa natureza podem contribuir para a prevenção do declínio cognitivo e para o avanço do desempenho cognitivo global de idosos. Além dos benefícios nas funções cognitivas e mentais, a intervenção também possibilitou aos participantes manter e construir novos vínculos sociais, considerando as rupturas decorrentes da pandemia de COVID-19.
Apesar de ser um tema amplamente estudado, ainda há considerável escassez de pesquisas direcionadas à EC com idosos. Considerando o contexto da pandemia de COVID-19 e as modificações nos cenários dela decorrentes, ainda não há muitos estudos publicados que focalizem a intervenção cognitiva online com a população idosa, o que pode vir a tornar o presente estudo um dos pioneiros nesse período.
Por fim, sugerem-se maiores aprofundamentos na temática da EC nessa população, priorizando estudos experimentais e longitudinais com uma perspectiva multiprofissional, incluindo terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos e outros profissionais que atuam com EC. Recomenda-se também o recrutamento de um número maior de participantes, já que essa foi uma das limitações deste estudo, decorrente do cenário de saúde pública e da adaptação da intervenção cognitiva para o formato online.
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Como citar:
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Editado por
-
Editora de seção
Profa. Dra. Marcia Maria Pires Camargo Novelli
Histórico
-
Recebido
22 Jan 2023 -
Revisado
10 Ago 2023 -
Revisado
18 Dez 2023 -
Revisado
16 Abr 2024 -
Aceito
04 Nov 2024
