Open-access Terapia ocupacional e trabalho: categorização histórico-temporal de produções acadêmicas brasileiras

Resumo

Introdução  Em diferentes momentos históricos, os terapeutas ocupacionais brasileiros realizaram intervenções junto aos trabalhadores. Contudo, nem sempre as condições e processos de trabalho eram pautadas enquanto determinantes das problemáticas.

Objetivo  Analisar as produções acadêmicas brasileiras de terapia ocupacional no campo do trabalho, à luz de seus contextos histórico-temporais.

Método  Estudo exploratório, descritivo e de abordagem qualitativa, situado na modalidade de pesquisa bibliográfica ou revisão de literatura. Foi utilizado o descritor "Trabalho" nos três periódicos científicos específicos brasileiros que estão atualmente em funcionamento.

Resultados  Ao final da aplicação dos critérios de inclusão/exclusão em cada etapa de leitura, restaram 157 publicações. Foram elaborados e nomeados três períodos histórico-temporais para agrupar as produções e refletir sobre elas: período de institucionalização da terapia ocupacional (1950-1990); período de elaboração e implementação das políticas públicas e políticas sociais a favor dos trabalhadores e ampliação das práticas da terapia ocupacional (1991-2017); e período influenciado por revoluções tecnológicas, retrocessos nos direitos dos trabalhadores e reflexões teórico-práticas a partir/da terapia ocupacional (2018-2024).

Conclusão  As temáticas e debates realizados nas produções brasileiras do campo estão entrelaçados aos fatos históricos. Os terapeutas ocupacionais transformaram seus interesses teóricos e práticas no campo do trabalho ao longo do tempo e as produções atuais problematizam questões contemporâneas através de uma diversidade de temáticas. Recomenda-se que futuras pesquisas utilizem este banco de dados para produções mais aprofundadas sobre o tema, incluindo estudos sobre as epistemologias do campo.

Palavras-chave:
História; Terapia Ocupacional; Trabalho; Saúde do Trabalhador

Abstract

Introduction  Throughout history, Brazilian occupational therapists have intervened with workers. However, academic publications have not always focused on work as a determinant of problems.

Objective  To analyze Brazilian academic publications in occupational therapy in the field of work, in light of their historical and temporal contexts.

Method  This is an exploratory, descriptive study with a qualitative approach, situated within the modality of bibliographic research or literature review. The descriptor "Work" was used in the three specific Brazilian scientific journals currently in operation.

Results  After applying the inclusion/exclusion criteria at each stage of reading, 157 publications remained. Three historical and temporal periods were developed and named to group the publications and reflect upon them: the period of institutionalization of occupational therapy (1950-1990); the period of development and implementation of public and social policies in favor of workers and the expansion of occupational therapy practices (1991-2017); and period influenced by technological revolutions, setbacks in workers' rights, and theoretical-practical reflections from/on occupational therapy (2018-2024).

Conclusion  The themes and debates in Brazilian productions in the field are intertwined with historical events. Occupational therapists have transformed their theoretical and practical interests in the field of work over time, and current productions problematize contemporary issues through a diversity of themes. It is recommended that future research utilize this database for more in-depth productions on the subject, including studies on the epistemologies of the field.

Keywords:
History; Occupational Therapy; Work; Occupational Health

Introdução

Em diferentes momentos históricos, os terapeutas ocupacionais brasileiros elaboraram produções acadêmicas sobre trabalho, e refletiram sobre suas intervenções junto as pessoas que trabalham1. Pode-se citar, como exemplo, as publicações e atuações em reabilitação física que ocorreram no pós-guerra e que auxiliaram a consolidar a profissão nos Estados Unidos em 1917. Ainda, pode-se mencionar as produções e práticas de terapia ocupacional realizadas no Brasil de 1950, que tinham pessoas acidentados no trabalho como público-alvo. Neste raciocínio, cita-se também os estudos e atuações do Brasil de 1990, centralizadas no âmbito da saúde pública e da previdência social e guiadas a partir das diretrizes das políticas públicas daquele momento histórico (Monzeli et al., 2019; Lancman et al., 2003; Lancman, 2004).

De forma a dar continuidade a esta contextualização histórica, aponta-se que antes da existência do Sistema Único de Saúde no Brasil, os profissionais atuavam junto aos trabalhadores especialmente a partir das bases teóricas e abordagens da reabilitação física, com o foco no estímulo e recuperação de componentes motores, sem realizar reflexões sobre a atividade de trabalho que acidentou os sujeitos ou sobre as condições de seu retorno para a atividade de trabalho (Lancman, 2004).

Considerando isso, as influências teóricas e teórico-metodológicas de diferentes áreas do conhecimento foram sendo incorporadas no campo do trabalho, e, consequentemente, modificaram o escopo temático das produções acadêmicas bem como as formas de compreender teoricamente o trabalho e os desdobramentos para a profissão, como já mencionado por Rodrigues et al. (2020).

Neste sentido, pode-se citar a incorporação de saberes interdisciplinares relacionados à biomecânica e à reabilitação física; ao materialismo histórico enquanto possibilidade de reflexão, de análise e de produção de novas realidades; à Ergonomia; à psicopatologia do trabalho e à psicodinâmica do trabalho; ao Modelo Social de Incapacidade e das reflexões ontológicas sobre deficiência colocadas pela Filosofia da Diferença; à Economia Solidária e ao Modelo de Atenção Psicossocial (Rodrigues et al., 2020; Morato & Lussi, 2016; Lancman, 2004; Souza & Lussi, 2022).

Além disso, os desdobramentos sócio-históricos e políticos relacionados, por exemplo, às mudanças nas formas de trabalho, na legislação trabalhista e nas formas de intervenção junto aos trabalhadores no mundo e no Brasil, também influenciaram o campo do trabalho e as escolhas temáticas e epistemológicas das pesquisas (Monzeli et al., 2019).

Considerando isso, entendemos que para avançar neste debate é primordial mapear o escopo temático das produções acadêmicas (seus títulos, resumos, tema central, método e local de publicação), à luz dos acontecimentos históricos (ano de publicação das produções), para começar a traçar caminhos de fortalecimento e demarcar as transformações de um campo de atuação que estamos denominando aqui de campo do trabalho.

Sobre a utilização de “campo do trabalho”, Rodrigues et al. (2020) e Rodrigues & Souza (2023) identificam como pertencentes à terapia ocupacional no campo do trabalho aquelas produções acadêmicas que pautam a centralidade do elemento trabalho na vida dos sujeitos e na sociedade, e/ou que tratam sobre a necessidade de atenção/cuidado aos trabalhadores diante de suas diferentes demandas relacionadas ao trabalho.

Ao esclarecer isto, pretende-se neste momento adentrar na descrição de marcos histórico-temporais no campo do trabalho. Após um longo período de profissionais brasileiros publicando estudos em interface com a psiquiatria e embasando suas práticas a partir das influências do tratamento moral e também do paradigma mecanicista, foram sendo realizadas críticas no Brasil acerca de uma atuação restrita baseada na doença ou na prescrição de ocupações que serviam menos para incluir e mais para controlar (Shimoguiri & Costa-Rosa, 2017; Monzeli et al., 2019).

Considerando este movimento de crítica, as lutas sociais que ocorreram no Brasil na década de 1970 - as quais pautavam a democratização da saúde e a obtenção de direitos trabalhistas - culminaram no surgimento de Políticas Públicas (posteriormente leis) como o Sistema Único de Saúde (SUS) em 1990 e a Previdência Social em 1991. Estes movimentos ampliaram as bases teóricas e a produção das práticas em terapia ocupacional em todos os campos de atuação, incluindo o campo do trabalho (Lancman et al., 2016; Rodrigues et al., 2020).

Porém, as transformações tecnológicas que ocorreram, sobretudo a partir dos anos 2000, mudaram as formas de organizar, gerenciar e controlar o trabalho no mundo. Estas transformações incluem tanto o uso de plataformas digitais para ofertar e realizar diferentes tipos de trabalhos - processo também denominado uberização do trabalho ou como capitalismo de plataforma - quanto o uso de algoritmos para controlar e fiscalizar os trabalhadores da era digital (Antunes, 2020).

No Brasil, estas transformações, que são o desenvolvimento de novas ferramentas capitalistas, vieram acompanhadas de reformas trabalhistas contra o direito dos trabalhadores, de ataques às leis trabalhistas com o argumento de que não há verba estatal para providenciar direitos aos trabalhadores atuais, das reformas da previdência para diversas categorias e também de um discurso em defesa do trabalho autônomo e do profissional liberal (com o argumento da liberdade no trabalho) em detrimento do profissional contratado com direitos e proteção social (Krein & Colombi, 2019).

Assim, aponta-se que as mudanças nos processos de trabalho e de controle do trabalho colocam, até os tempos atuais, desafios para os trabalhadores brasileiros, uma vez que as consequências repercutem diretamente em suas vidas. Consequentemente, para debater o campo do trabalho e pensar na construção de práticas em terapia ocupacional na contemporaneidade alguns terapeutas ocupacionais - em seus estudos e atuações - retomaram a crítica ao modo de produção capitalista e aos trabalhos ofertados de acordo com este modelo, uma vez que estes processos impuseram novos desafios para a rede de cuidado integral às pessoas trabalhadoras (Souza & Lussi, 2022).

Percebe-se a existência de distintos períodos que influenciaram o desenvolvimento da produção acadêmica da terapia ocupacional no campo do trabalho, bem como as práticas profissionais junto aos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil. Neste estudo, denominamos estes períodos de processos histórico-temporais.

Dando continuidade a esta reflexão, é possível citar alguns períodos histórico-temporais, como: o período de institucionalização da profissão no âmbito do Brasil (1950-1990); o período da implementação de um sistema único de saúde e do instituto nacional de seguridade social, políticas públicas e sociais brasileiras que modificaram paradigmaticamente (e ampliaram) a construção dos saberes e práticas da terapia ocupacional (1991-2017); e o período do trabalho contemporâneo, influenciado por revoluções tecnológicas, reformas trabalhistas, reformas da previdência e retrocesso de direitos das pessoas que trabalham, conquistados anteriormente no Brasil, entendendo que estes também influenciam nas reflexões teórico-práticas feitas na (ou a partir da) terapia ocupacional no Brasil (2018-2024).

A identificação dos marcos históricos e temporais (acontecimentos históricos e o período que estes ocorreram) que influenciam um campo de atuação é importante para caracterizar, explicar e fortalecer a produção do conhecimento e de práticas no campo. Esse processo fornece uma espécie de linha do tempo sobre a produção e oferece pistas para o futuro dos estudos e das intervenções.

Todavia, ao considerar que os terapeutas ocupacionais no Brasil podem atuar nos setores da saúde, educação, assistência social e previdência social, e compreendendo que as problemáticas do trabalho e das pessoas que trabalham estão presentes em todos estes setores e nos seus equipamentos de cuidado, se configura como um desafio identificar as produções acadêmicas em terapia ocupacional no campo do trabalho. Entende-se que a produção acadêmica sobre trabalho no Brasil encontra-se diluída em diferentes áreas da terapia ocupacional porque realiza diálogos interdisciplinares com áreas como a saúde coletiva, psicologia, medicina e sociologia (Rodrigues & Souza, 2023).

Esta diversidade epistêmica do campo, bem como a complexidade e abrangência do tema, fazem com que alguns pesquisadores terapeutas ocupacionais que dialogam sobre o trabalho ou sobre pessoas que trabalham (com diferentes enfoques), vinculem suas produções acadêmicas de terapia ocupacional não necessariamente ao que estamos denominando aqui como campo do trabalho (ou não apenas ao campo do trabalho), mas aos campos da saúde mental, da saúde coletiva e atenção primária, hospitalar, da reabilitação física/saúde funcional ou do campo social.

Na terapia ocupacional, Cardinalli & Silva (2021) já propuseram uma pesquisa que realizou buscas de estudos de maneira não sistemática “com base na recuperação de referências chaves” com o objetivo de identificar e discutir sobre as produções acadêmicas de um determinado tema, tecendo reflexões sobre os saberes e práticas profissionais ao longo dos anos. Galheigo et al. (2018) já realizaram uma pesquisa com fontes primárias sobre um determinado tema, mapeando e analisando produções. Este mapeamento acarretou a identificação de “movimentos” ou “tendências” teóricas em terapia ocupacional ao longo do tempo.

Ao mencionar os estudos acima, constata-se que não há atualmente publicada nenhuma produção acadêmica que se debruçou sobre um mapeamento e agrupamento de produções acadêmicas em terapia ocupacional no campo do trabalho (entendendo este campo de maneira ampla) considerando marcos ou tendências histórico-temporais. Acredita-se que este estudo busca suprir esta lacuna acadêmica sobre o tema, no sentido de organizar, explicar e fortalecer a produção do conhecimento neste campo.

Dessa maneira, elaborou-se as seguintes perguntas de pesquisa neste estudo: i) Quais as produções acadêmicas da terapia ocupacional no campo do trabalho publicadas em periódicos científicos brasileiros e específicos da área? ii) Como estas produções podem ser categorizadas de forma histórico-temporal, considerando o ano das publicações e os acontecimentos históricos brasileiros? iii) Quais as possíveis relações e influências entre os acontecimentos históricos ao longo do tempo e a construção do conhecimento em terapia ocupacional no campo do trabalho no Brasil?

Assim, este estudo teve como objetivo geral analisar as produções acadêmicas brasileiras de terapia ocupacional no campo do trabalho, à luz de seus contextos histórico-temporais.

Método

Este trabalho se configura como um estudo exploratório, descritivo e de abordagem qualitativa no que concerne à caracterização da pesquisa. Com relação às fontes e coleta de dados, esta pesquisa está situada na modalidade de pesquisa bibliográfica ou revisão de literatura com utilização de fontes primárias, que neste caso é a produção acadêmica da área relacionada ao tema desta pesquisa.

De acordo com algumas compreensões teóricas, a pesquisa bibliográfica é sinônimo de revisão de literatura e, ainda que esta seja parte fundamental de qualquer pesquisa, há a possibilidade de se desenvolver estudos exclusivamente a partir de revisões bibliográficas, sobretudo quando o pesquisador precisa ter acesso ao conhecimento já produzido sobre determinado assunto para pensar em estudos mais aprofundados. Ainda, a pesquisa bibliográfica é um tipo legítimo de investigação, inclusive quando esta tem o objetivo de realizar uma análise crítica de obras relevantes sobre o tema (Gil, 1999, 2008; Brito et al., 2021).

De acordo com Cavalcante & Oliveira (2020), na pesquisa bibliográfica não são necessariamente utilizados métodos sistemáticos ou protocolos de referência sistematizados. É possível através de pesquisas bibliográficas, mapear, descrever e desenvolver reflexões acadêmicas não-sistemáticas sobre diferentes temas, de forma a produzir sentido através da crítica a produções que se entendem como relevantes para determinado debate.

Através de pesquisas bibliográficas, é possível, inclusive, demarcar a época e o lugar das produções, o que permite uma atualização histórica acerca de um debate. Todavia, há de se considerar que a pesquisa bibliográfica elaborada de maneira rigorosamente sistematizada faz com que ela seja facilmente reproduzível (Cavalcante & Oliveira, 2020).

Especificamente neste estudo, ao utilizar bases eletrônicas para acessar as fontes, seguiu-se os passos indicados por Brito et al. (2021) nesta modalidade de pesquisa, que aqui adotamos como referencial balizador desta questão metodológica, como: I. Definição do tema/assunto (mapeamento de produções acadêmicas em terapia ocupacional no campo do trabalho e sua organização em categorias histórico-temporais); II. Definição do período das publicações (mapeamento sem filtro de data); III. Delimitação de descritores (trabalho); IV. Definição de fontes de busca (periódicos nacionais específicos de terapia ocupacional atualmente ativos).

Antes de detalhar sobre a revisão, esclarece-se que tanto a hipótese (de que há no mínimo três movimentos histórico-temporais distintos no campo) quanto os resultados das coletas elaboradas neste trabalho foram parte preliminar de um projeto de iniciação científica sobre este tema. Em resumo, os resultados aqui expostos estão sendo utilizados para pensar a elaboração de uma pesquisa maior, atualmente em andamento, intitulada “As bases teóricas da terapia ocupacional no campo do trabalho no Brasil: a urgência de uma práxis contemporânea com aportes epistemológicos críticos” e sob coordenação de uma pesquisadora vinculada ao Departamento de Terapia Ocupacional de uma Universidade Pública da região Nordeste do Brasil.

Acerca dos procedimentos metodológicos, foi rastreado o descritor "Trabalho" nos três periódicos científicos específicos brasileiros que estão atualmente ativos: Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional e Revista Interinstitucional Brasileira de Terapia Ocupacional. Como critérios de inclusão foram estabelecidos: produções brasileiras que expressavam uma reflexão de/na/para a terapia ocupacional especificamente sobre as questões do mundo do trabalho e/ou do cuidado às pessoas que trabalham. Como critérios de exclusão, tem-se: os editoriais e as produções que apresentavam algum tipo de inacessibilidade (dos dados, do link etc.).

Primeiro foram lidos os títulos das produções acadêmicas, posteriormente foram lidos os resumos e, por último, o estudo completo. Para cada fase de leitura (de título, resumo e texto completo do estudo) foram aplicados os critérios de inclusão e exclusão mencionados.

O rastreamento foi feito de forma manual, sem nenhum tipo de filtro (como data ou idioma). A busca manual se deu porque os operadores booleanos no sistema de busca dos sites das revistas científicas não detêm o mesmo potencial de filtragem exata como em bases científicas e não proporcionam a elaboração de expressões de busca específicas.

As buscas se iniciaram em julho de 2024 e finalizaram em outubro de 2024. Ressalta-se que as buscas e aplicações dos critérios foram feitas por três pesquisadores. Os pesquisadores fizeram um processo de leitura às cegas das produções, e geraram tabelas com cores diferentes em cada etapa de busca, indicando quais os artigos seriam selecionados de acordo com a sua leitura e quais seriam excluídos em cada fase. Ao final, o consenso dos pesquisadores fez com que a produção fosse excluída ou incluída. Este consenso, após a leitura “às cegas”, contribui para maior robustez e confiança na pesquisa.

Como instrumento de coleta dos dados provenientes dos artigos que retornaram, foi elaborado um quadro no software excel para organização dos estudos, que teve como tópicos: a) Revista de terapia ocupacional; b) Título do artigo; c) Palavras-chave; d) Autores do artigo; e) Ano; f) Objetivo; g) Método; h) Referenciais teóricos e/ou teórico-metodológicos.

Para esta pesquisa não foram utilizados todos os tópicos para reflexão, por se tratar de parte de uma pesquisa maior. Foram utilizadas a revista de terapia ocupacional acessada, o título do artigo, os autores do artigo, o ano de publicação e o método do estudo. Os demais tópicos fazem parte da agenda de pesquisa dos autores que compõem um projeto de pesquisa maior sobre o tema. Estes tópicos possibilitaram a análise acerca do escopo temático das publicações (títulos, resumos, temáticas), dos métodos da pesquisa, e dos locais de publicação à luz de seus contextos histórico-temporais.

Resultados

Retornaram da busca a partir da utilização do descritor “trabalho”, nos três periódicos indicados, 1003 produções acadêmicas ao todo. Foi realizada a leitura dos títulos de todos os trabalhos e aplicados os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. Foram excluídas 823 produções nesta etapa. Das excluídas, 788 estavam fora do tema (não articulavam terapia ocupacional e trabalho), 30 eram editoriais e 5 estavam inacessíveis.

Restaram para a etapa de leitura e análise de resumos, 180 produções. Após isso, 178 produções foram selecionadas e 2 produções foram excluídas considerando a aplicação dos critérios, uma vez que estas não se relacionavam com o tema.

As 178 produções incluídas após este processo tiveram seu conteúdo lidos de forma integral (trabalho completo). Foram excluídas 21 produções nesta etapa após aplicação dos critérios. Das 21 produções excluídas, 18 estavam fora do tema quando lido o texto completo, e 3 estavam sem acesso para que fosse realizada a leitura completa. Assim, o total de 157 produções contemplou os critérios estabelecidos da fase da leitura completa (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma. Fonte: Elaboração própria dos autores da pesquisa, 2025.

A partir das 157 produções, foram elaboradas três categorias históricas e temporais a partir da literatura disponível sobre o assunto e das hipóteses explicitadas na introdução: 1 - Período da institucionalização da terapia ocupacional (1950-1990); 2 - Período de elaboração e implementação das políticas públicas e políticas sociais a favor dos trabalhadores e ampliação das práticas da terapia ocupacional (1991-2017); e 3 - Período influenciado por revoluções tecnológicas, retrocessos nos direitos dos trabalhadores e reflexões teórico-práticas a partir da terapia ocupacional (2018-2024).

Para agrupar uma produção em uma das categorias mencionadas, foi levado em consideração o ano de publicação de cada estudo, considerando os 157. Nenhum artigo foi incluído na categoria 1, 102 artigos foram incluídos na categoria 2 e 55 artigos se enquadram na categoria 3. Os resultados, a seguir, demonstram visualmente a distribuição das produções acadêmicas em cada categoria citada. Os resultados e a discussão deste trabalho foram elaborados para cada categoria teórica

Foram apresentados quadros resumidos nesta etapa de resultados, considerando o volume de produções acadêmicas. É possível acessar os quadros e as categorias mapeadas na íntegra por meio do link público para consulta em Google (2025).

Período da institucionalização da terapia ocupacional (1950-1990)

Sabe-se que as revistas de terapia ocupacional utilizadas no mapeamento iniciaram suas publicações no ano de 1990, e que alguns destes números estão disponíveis no formato digital e foram acessados nesta pesquisa. Porém, nenhuma produção publicada neste ano compôs os artigos contemplados ao final desta pesquisa, uma vez que a mais antiga produção que permaneceu no estudo após a aplicação dos critérios de inclusão e de exclusão foi publicada no ano de 1997. Sendo assim, não se realizou produção de um quadro nesta categoria.

Contudo, a ausência de produções neste período também se constituiu em dados para esta pesquisa, e por isso esta categoria permanecerá no tópico de discussão. Através dos achados, foi possível debater sobre a ausência das publicações de 1990 que compuseram a pesquisa, ainda que elas existam nos periódicos, e tecer relação entre o fato de terem sido excluídas durante o processo e o desenvolvimento da produção do conhecimento em terapia ocupacional e trabalho.

Período de elaboração e implementação das políticas públicas e políticas sociais a favor dos trabalhadores e ampliação das práticas da terapia ocupacional (1991-2017)

Com relação a categoria 2, referente ao quadro exposto, foram encontrados 102 artigos no total, destes estudos, 58 foram publicados no periódico Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional e 47 publicados na Revista de Terapia Ocupacional da USP. Neste período foi identificado que poucos autores se repetiram no quadro de resultados. Entre as que se repetiram estão as autoras Simonelli et al. (2013, 2016), Alencar (2011, 2015), Lancman (2004) e Lancman et al. (2003, 2016).

Sobre o método das pesquisas indicadas no quadro, a maioria dos estudos foi de abordagem qualitativa. Já em relação aos títulos dos artigos, percebe-se que os temas se referem, de forma geral, às questões e problemáticas em saúde física e mental dos trabalhadores, à atuação nas redes públicas de atenção ao trabalhador e à inclusão de pessoas com deficiência nos ambientes de trabalho. As informações resumidas podem ser conferidas na Tabela 1 a seguir. A ordem dos artigos na tabela segue a em que apareceram nas filtragens do periódico.

Tabela 1
Produções acadêmicas do período de elaboração e implementação das políticas públicas e políticas sociais a favor dos trabalhadores e ampliação das práticas da terapia ocupacional (1991-2017).

Período influenciado por revoluções tecnológicas, retrocessos nos direitos dos trabalhadores e reflexões teórico-práticas a partir/da terapia ocupacional (2018-2024)

Na terceira categoria, os artigos foram publicados entre os anos de 2017 e 2024, sendo contabilizados no total 55 publicações. Destas, 27 foram publicadas no periódico Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 21 na Revista Interinstitucional de Terapia Ocupacional e 6 na Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo. O ano com maior quantidade de publicações foi 2020, com 17 artigos. Com relação às autoras que se repetem neste quadro, destacam-se Souza et al. (2019, 2020), Rodrigues (2023) e Barros et al. (2022, 2023).

Sobre o método das pesquisas indicadas no quadro, a maioria dos estudos são de abordagem qualitativa. Com relação aos títulos dos artigos, percebe-se que as temáticas vão no sentido de abordar temas, como: as problemáticas do trabalho informal e da saúde mental dos trabalhadores, o envelhecimento da população trabalhadora, as teorias do estresse e do Burnout, reflexões sobre gênero e sobre populações socialmente vulneráveis. As informações resumidas podem ser conferidas na Tabela 2 a seguir. A ordem dos artigos na tabela segue a em que apareceram nas filtragens do periódico.

Tabela 2
Produções acadêmicas do período influenciado por revoluções tecnológicas, retrocessos nos direitos dos trabalhadores e reflexões teórico-práticas a partir/da terapia ocupacional (2018-2024).

Discussão

Período de institucionalização da terapia ocupacional (1950-1990)

Não foram encontradas publicações que poderiam constar na primeira categoria histórico-temporal (1950-1990) e isto se deve a alguns fatores, como por exemplo o ano de publicação da primeira edição dos periódicos utilizados para a busca e os critérios estabelecidos para a seleção de artigos, que incluem a temática das publicações.

As revistas mais antigas utilizadas para a busca nesta revisão tiveram sua inauguração no ano de 1990, sendo elas a Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo e os Cadernos de Terapia Ocupacional da UFSCar, sendo que esta última veio a ser renomeada no ano de 2017 como Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional. Ainda em 2017 foi publicada a primeira edição da Revista Interinstitucional de Terapia Ocupacional (Revisbrato), sendo ela a mais recente de todas as revistas científicas consultadas, com menos de uma década de existência. Todavia, poderiam ter sido incorporadas publicações do ano de 1990, já que dois destes períodos já apresentavam números e alguns estão disponíveis on-line, porém estes estudos não permaneceram após os critérios aplicados durante o processo, e isto será explicado nos parágrafos posteriores deste tópico

Para além do ano de fundação dos periódicos, na década de 1990, ao consultar os primeiros quadros de busca da pesquisa foi possível perceber que artigos de 1990 retornaram dos rastreios, mas foram excluídos durante as etapas da revisão. Estes artigos foram excluídos porque não se enquadravam na temática desta pesquisa. Considerando isto, cabe fazer reflexões sobre as publicações de 1990 que foram excluídas.

Ao resgatar as exclusões das buscas, tem-se que as produções publicadas em 1990 foram excluídas por não se relacionarem diretamente à temática do presente estudo, pois focalizaram temas como: reabilitação física; necessidade de desinstitucionalização dos usuários no campo da saúde mental; a formação acadêmica e a identidade da profissão; todas sem relação com a construção de conhecimentos e práticas focalizadas no trabalho ou nos trabalhadores (Barros, 1990a, 1990b; Castro & Silva, 1990; Silva, 1990; Ferrigno, 1990; Fridman, 1990; Kielhofner, 1990; Lopes, 1990; Mângia, 1990; Mângia et al., 1990; Marques, 1990; Nascimento, 1990; Oliver, 1990; Pinto & Ferrari, 1990; Souza, 1990).

Ao compreender isto, menciona-se que as questões abordadas nos estudos de 1990 estão intimamente relacionadas a fatos históricos que influenciaram o início da profissão no mundo e no Brasil e que podem justificar o interesse dos pesquisadores da época especificamente pelas temáticas supracitadas.

Considerando que em 1990 é publicada a Lei 8.080 que implementa o Sistema Único de Saúde (SUS), e entendendo que as publicações levam diferentes tempos para serem escritas e posteriormente publicadas nos periódicos, as produções acadêmicas que foram de fato publicizadas neste período (considerando os tempos deste processo) são referentes às questões e problemáticas que antecederam esta lei.

Sobre este primeiro momento histórico-temporal, é importante fazer algumas considerações. A chegada da terapia ocupacional no Brasil ocorreu por volta da década de 1950 e a epidemia de poliomielite foi um marco na história da profissão, já que esta epidemia acarretou o aumento da mortalidade infantil e da invalidez infantil. Isto consequentemente aumentou o quantitativo de hospitais infantis e centros de reabilitação física no país (Monzeli et al., 2019), influenciando em uma produção do conhecimento sobre reabilitação física e em uma prática que suprisse as necessidades desta demanda.

Ainda, entre as décadas de 1950 e 1960 o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo abrigou um dos primeiros serviços de terapia ocupacional, que tinha o objetivo de auxiliar os trabalhadores lesionados, utilizando técnicas de reabilitação física focadas em conhecimentos traumato-ortopédicos, que não objetivavam a reflexão sobre o trabalho, mas a reabilitação de lesões (Lancman, 2004). Nesse cenário, também surgiram os primeiros programas de formação profissional em terapia ocupacional. O primeiro curso do Brasil surgiu no ano de 1956 e estava vinculado à Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR) (Monzeli et al., 2019).

Em meados de 1970, o Brasil viveu a implantação da ditadura militar. O golpe de 1º de abril foi apoiado pelo imperialismo norte-americano, pelos setores conservadores da alta hierarquia da Igreja Católica, pela burguesia internacional e nacional (como industrial e financeira, e os grandes proprietários de terras). Este fato histórico conteve o avanço das forças populares que vinham num crescente nível de organização e mobilização em torno das lutas pelas reformas de base (Lara & Silva, 2015), como por exemplo pela democratização da saúde e pela renovação das práticas profissionais que estavam centradas no modelo biomédico de saúde e não atuavam sobre os determinantes das doenças.

No ano de 1977, surgia o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), que era responsável pela oferta de assistência em saúde de seus associados. A assistência à saúde desenvolvida pelo INAMPS beneficiava apenas os trabalhadores da economia formal, com “carteira assinada”, e seus dependentes, ou seja, não tinha o caráter universal (Brasil, 2002). Além disso, estava focada na reabilitação de adoecimentos relacionados ao trabalho, sobretudo questões da saúde física, demandas que posteriormente foram absorvidas pelo SUS.

Porém, apesar da repressão durante a ditadura militar brasileira que ocorreu entre 1964-1985, existiam neste momento histórico muitos movimentos intelectuais e populares anticapitalistas a favor da luta antimanicomial, do direito à saúde e a favor de melhores condições de trabalho. Estes movimentos e discussões culminaram tanto na elaboração de uma nova constituição do Brasil em 1988, quanto na elaboração e implementação de um sistema público de saúde, que ocorreria no segundo semestre de 1990.

Em 1988, com o fim do governo dos militares no Brasil ocorreu a promulgação da nova constituição, onde foram consolidados os direitos trabalhistas e afirmada a garantia do direito à saúde por parte de toda a população brasileira, independente de vínculo empregatício. Em 1990, por meio da Lei 8.080, foi realizada a implementação do Sistema Único de Saúde, resultado das discussões e movimentos intelectuais, sociais e populares ocorridos nas últimas décadas.

Os fatos citados oferecem indícios para o entendimento das temáticas dos artigos publicados até o ano de 1990, explicando porque estavam centrados não necessariamente nas questões do trabalho e nas práticas com trabalhadores, mas em discussões sobre a atuação profissional do terapeuta ocupacional na reabilitação física, sobre o tratamento ofertado à pessoas em sofrimento mental (e as questões entre o modelo psiquiátrico e a necessidade de um modo de atuação psicossocial), sobre a necessidade de rediscussão de práticas pautadas em uma compreensão holística em detrimento de uma compreensão centrada no adoecimento, sobre a formação acadêmica em terapia ocupacional (currículo, implementação acadêmica e legitimação da profissão no mundo e no país) e sobre a identidade profissional (atividade terapêutica enquanto mito e os debates sobre atividade e ocupação como possíveis conceitos centralizadores da profissão). Cita-se o que foi mencionado anteriormente: as publicações que datam de 1990 e que foram excluídas, apesar de terem sido publicadas em um momento histórico onde ocorreram significativas reformas nas práticas profissionais e novas reflexões sobre as questões dos trabalhadores, possivelmente se referem às questões de anos e décadas anteriores.

Período de elaboração e implementação das políticas públicas e políticas sociais a favor dos trabalhadores e ampliação das práticas da terapia ocupacional (1991-2017)

Na segunda categoria histórico-temporal (1991-2017), a maior parte dos artigos são provenientes do periódico Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional. Neste período, observou-se um grande quantitativo de artigos que foram selecionados por abordarem a atuação da terapia ocupacional junto a indivíduos que necessitavam ser (re)inseridos no trabalho devido às questões de saúde mental, e junto às políticas públicas de atenção à saúde do trabalhador que surgem a partir do SUS, tecendo reflexões sobre o trabalho e os trabalhadores. Acredita-se que estas publicações são fruto das reflexões iniciadas por movimentos sociais e populares do período anterior, e das primeiras vivências profissionais no início do período de redemocratização da saúde.

A década de 1990 iniciou após grandes debates sobre a necessidade da desinstitucionalização de pessoas com a manicomialização e da reinserção delas na sociedade. No tratamento denominado “manicomial”, que predominou no cenário assistencial até a década de 1980 do século XX, a proposta era de educar, corrigir e mudar a vontade do sujeito (Vechi et al., 2017).

Após a compreensão da necessidade de desinstitucionalização das pessoas, o trabalho passa a ser uma maneira de se reinserir os sujeitos na sociedade. A inclusão social pelo trabalho começa a ser apresentada enquanto estratégia para a emancipação social, promovendo o autoconhecimento, a autorrealização e favorecendo a independência. Os artigos sobre este assunto também defendem fortemente a necessidade de estabelecer-se uma nova sociedade do trabalho, mais inclusiva e ciente das questões sociais (Morato & Lussi, 2016; Vechi et al., 2017).

As discussões sobre o trabalho das pessoas manicomializadas na década de 1990 e sobre a necessidade de (re)inserção delas em atividades produtivas fora dos manicômios, teve o SUS e a Rede de Atenção Psicossocial (implementada em 2011) como fortes aliados no cuidado à esta população e no questionamento das formas de trabalho oferecidas na sociedade capitalista. Estas discussões estão presentes em muitos dos artigos, com temáticas relacionadas à desinstitucionalização, geração de renda, economia solidária e inclusão social pelo trabalho (Morato & Lussi, 2016).

Aponta-se o surgimento da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST), publicada como política pública em 2004 e reformulada em 2017 como fundamental para estabelecer um suporte e cuidado de trabalhadores dentro de serviços com perspectivas comunitárias, que objetivam promoção, educação, assistência e vigilância em saúde do trabalhador (Brasil, 2017).

Esta proposta de uma rede de saúde do trabalhador no SUS surgiu em decorrência de uma revisão crítica que se fazia aos centros de referência e programas de saúde do trabalhador que não estabeleciam vínculos mais sólidos com as estruturas orgânicas de saúde, mantendo-se isolados e marginalizados (Leão & Vasconcellos, 2011). Com o SUS surgem os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), que atendiam diretamente o trabalhador, atuando inicialmente de maneira assistencial e, posteriormente, passando a atuar como serviço de referência que contribui para análise das condições de trabalho e para as suas modificações com o objetivo de promover a saúde do trabalhador através da educação em saúde.

No ano de 2017 entra em vigor a nova reforma trabalhista, que modificou a CLT em mais de 100 pontos, afetando diretamente o número de trabalhadores informais no Brasil. As justificativas mencionadas pelos governantes são pautadas na ideia de que, para oferecer mais oportunidades de emprego, deveria haver uma diminuição dos encargos com direitos trabalhistas (Souza & Lussi, 2022).

Assim, esclarece-se que esta categoria apresentou estudos tanto provenientes das reflexões do final da década de 1980 (que foram publicadas a partir de 1991) quanto de produções que já refletiam sobre as novas práticas incorporadas a partir da implementação de um sistema público de saúde no Brasil, de uma nova Previdência Social e de uma transformação paradigmática nas práticas do campo do trabalho.

Período influenciado por revoluções tecnológicas, retrocessos nos direitos dos trabalhadores e reflexões teórico-práticas a partir/da terapia ocupacional (2018-2024)

A terceira categoria (2018-2024) foi a única na qual foi possível encontrar publicações nos três periódicos, sobretudo porque a Revisbrato publicou sua primeira edição em 2017. Esta categoria apresentou publicações que se referem a reflexões profissionais que pautam questões mais amplas relacionadas ao trabalho no Brasil, as quais se referem a existência de reformas que prejudicaram ainda mais as condições de trabalho e os direitos dos trabalhadores no país.

Acredita-se que o contexto histórico trouxe maior diversidade nos temas das publicações exatamente devido à necessidade de se problematizar o trabalho em um contexto em que o cuidado ao trabalhador e os seus direitos vinham retrocedendo.

A partir de 2017 o Brasil vivenciou as consequências da reforma trabalhista, como a precarização e fragilização dos vínculos de trabalho citada anteriormente. Em 2019 vivenciou-se uma nova reforma denominada como reforma da previdência, que alterou as leis acerca da seguridade social, como o tempo de contribuição e a idade mínima para a aposentadoria pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).

Neste sentido, aponta-se que entre 2018 e 2024 o mundo passou por intensas transformações provenientes do desenvolvimento tecnológico e da sua influência na sociedade do trabalho, com consequências para a vida dos trabalhadores. As plataformas digitais, o uso de algoritmos, assim como a permanência da inteligência artificial, por exemplo, modificaram as formas de organização e de gestão do trabalho (Antunes, 2020).

Com as reformas trabalhistas que tornaram permanente o enfraquecimento dos vínculos formais de trabalho e dos direitos trabalhistas no Brasil, e com a valorização de um discurso governamental neoliberal do “empreendedorismo” - que prega a “liberdade” e flexibilidade contratual em detrimento dos contratos formais de trabalho -, os trabalhos por plataforma e os controlados/geridos por algoritmos e por inteligência artificial passaram a ser cada vez mais uma realidade legalmente aceita no país, mas socialmente desprotegida em termos de direitos trabalhistas e de proteção social para os trabalhadores.

Ainda em 2020, com o início da pandemia da COVID-19, que chegou a durar o período de dois anos, ocorreu uma busca de um imunizante que fosse produzido, testado e assegurado para a população o mais rápido possível. Enquanto a indústria farmacêutica buscava por um imunizante, os hospitais estavam com leitos cheios e o nível de mortalidade preocupava a população. Também neste período, os trabalhadores foram colocados em risco e muito se discutiu sobre os impactos do trabalho neste contexto para a vida dos trabalhadores (Barroso et al., 2020).

Deve-se considerar também que diferentes populações vulneráveis (como mulheres, idosos, crianças, pessoas com deficiência, grupos dissidentes de gênero e sexualidade, pessoas pretas) articularam-se e colocaram em evidência suas problemáticas relacionadas ao mundo do trabalho, o que faz atualmente a profissão refletir sobre isto e pautar estas questões na produção do conhecimento (Santamaria & Almeida, 2023; Silva & Surjus, 2021; Almeida & Costa, 2019).

O estudo de Galheigo et al. (2018) identificou que a partir de 2018 há uma intensa movimentação no campo da pesquisa na área da terapia ocupacional, o que levou a uma diversificação teórico-conceitual e metodológica na produção do conhecimento. Os autores fizeram uma consulta em 2018 ao Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e constataram um expressivo aumento dos grupos coordenados por terapeutas ocupacionais. Em 2003, foram identificados 16 grupos.

Este estudo de Galheigo et al. (2018) informou também que a partir de 2018 a terapia ocupacional brasileira utiliza de uma diversidade de conceitos e referenciais teóricos e de práticas plurais com diferentes populações em contextos variados, incluindo serviços, equipamentos, projetos e ações de base domiciliar, comunitária, territorial, institucional e privada.

Na presente revisão, percebe-se que este movimento afeta a produção do conhecimento no campo do trabalho. Na terceira categoria histórico-temporal é possível identificar este movimento representado através de uma diversidade de temáticas presentes nos estudos que versam, por exemplo, sobre trabalho e feminismo, informalidade, população em situação de rua e juventudes trabalhadoras. Ainda, nesse período, pesquisadores e profissionais vem defendendo atuações junto à populações vulnerabilizadas por situações do trabalho contemporâneo, reafirmando um papel ético e político na defesa do trabalho digno e do enfrentamento das desigualdades provocadas pelo capitalismo atual (Barros & Raymundo, 2021; Ferreira-Marante & Veiga-Seijo, 2023; Prado et al., 2020; Pinho et al., 2019; Souza & Lussi, 2022).

Ainda que algumas produções estejam vinculadas às reflexões especificamente sobre as condições de adoecimento dos trabalhadores e suas possibilidades de reabilitação e de reinserção no trabalho - sem necessariamente trazer à tona a questão dos retrocessos trabalhistas e das precarizações provenientes dos movimentos citados anteriormente - cita-se mais uma vez que as produções, apesar de estarem inseridas em diferentes períodos históricos, passam por processos de transição teórico-prática e teórico-política. Entretanto, aponta-se que a ausência de reflexões que pontuam mais incisivamente sobre o retrocesso nos direitos dos trabalhadores e as formas de controle e gerenciamento do trabalho no capitalismo contemporâneo podem identificar uma adaptação gradual dos referenciais analíticos da área.

Alguns apontamentos sobre os periódicos e o método das produções analisadas

Os periódicos utilizados na pesquisa são específicos da terapia ocupacional principalmente no Brasil. A existência destes periódicos é de suma importância para o fortalecimento da identidade da profissão e da produção de um conhecimento específico. Ao final desta pesquisa, percebe-se que o periódico Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional possui maior quantidade de publicações. A Revista de Terapia Ocupacional da USP, possui uma quantidade menor de publicações, mas apresenta as publicações mais antigas.

A Revista de Terapia Ocupacional da USP está presente majoritariamente na terceira categoria histórico-temporal e publicava em média três edições por ano até o ano de 2019. Todavia, a partir do ano de 2020, apenas uma publicação foi realizada por ano. No ano de 2021 não houve edições publicadas nesta revista. Esta falta de publicações pode estar relacionada com a pandemia da COVID-19 que teve início no ano de 2020 e atingiu o seu ápice em 2021, o que também parece ter afetado a revista Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, onde só é possível encontrar uma única edição no ano de 2021, uma vez que a revista apresentava normalmente uma média de quatro publicações por ano, algo que não tornou a acontecer desde 2020.

Os periódicos citados aceitam artigos que tratam de questões interdisciplinares ou de outras profissões. Nesta pesquisa não se teve o objetivo de analisar os referenciais teóricos-metodológicos específicos da terapia ocupacional utilizados nas produções acadêmicas, e sim mapear as publicações que fazem uma interface entre a profissão e as questões do trabalho e dos trabalhadores.

Assim, acredita-se que é possível que os artigos apresentem discussões que não necessariamente contenham bases teóricas específicas de terapia ocupacional, embora apresentem discussões relevantes na/para a profissão. É necessário novos estudos que possam analisar especificamente os referenciais teóricos e/ou teórico-metodológicos dos artigos, de forma a proporcionar reflexões sobre a especificidade da terapia ocupacional no campo do trabalho no contexto do Brasil.

Ainda, a identificação do aumento da produção de conhecimento de terapia ocupacional indica que estes periódicos têm sido crescentemente considerados como importantes veículos de divulgação do conhecimento específico da profissão e que colaboram para o fortalecimento do conhecimento em terapia ocupacional (Folha et al., 2019).

No que se refere aos métodos de pesquisa nota-se que no período de 1990-2017 foram publicados uma quantidade significativa de produções de estudo de casos, de relatos de experiências e ensaios teóricos. Já no período de 2017-2024 destacou-se a produção de diferentes tipos de estudos de revisão e de ensaios teóricos. Nos dois quadros as pesquisas de caráter qualitativo predominam, e as pesquisas de caráter quantitativo aparecem esporadicamente entre as publicações. Embora a produção de pesquisas qualitativas seja importante para a compreensão aprofundada de determinadas realidades, cita-se que o desenvolvimento de estudos de abordagem quantitativa é importante para a construção do conhecimento de um campo, sobretudo para compreender realidades a partir de amostras maiores, generalização dos dados e mensurações precisas (Lamattina et al., 2021).

Conclusão

Nesta pesquisa foram mapeadas as produções acadêmicas de terapia ocupacional no campo do Trabalho as quais foram publicadas em periódicos nacionais ativos e específicos da área. Neste estudo foi possível identificar que a produção em terapia ocupacional, que faz reflexões e que pensa no direcionamento de práticas para as pessoas que trabalham e sobre o trabalho, se relaciona com o contexto histórico da profissão e com a conjuntura política e social que se apresentou no mundo do trabalho no Brasil ao longo das décadas. Ainda assim, foi colocado que em cada período de tempo identificado, pode existir uma adaptação gradual dos referenciais analíticos da área. Ao passo que já se percebe uma diferença na produção de um período para outro há também as produções que permanecem com debates de períodos anteriores, o que é comum neste processo de transição teórico-prática, teórico-política e reflexiva.

A partir deste mapeamento foi possível identificar que as temáticas das produções brasileiras estão entrelaçadas aos fatos históricos, políticos e sociais ocorridos em três períodos distintos, estabelecidos na etapa de organização dos resultados da pesquisa. Desta forma, foi possível compreender que os pesquisadores e profissionais transformaram suas práticas junto aos trabalhadores ao longo do tempo. Nos últimos anos as produções problematizam mais o trabalho e refletem sobre a necessidade de transformar essas realidades, incluindo a própria realidade social, e não apenas de tratar adoecimentos relacionados a elas.

Através de estudos preliminares como este, que olhou para a temática dos artigos, é possível realizar pesquisas futuras sobre quais os caminhos teóricos ou teórico-metodológicos e práticos (saberes e práticas) vêm sendo percorridos, construídos e valorizados no que estamos aqui denominando enquanto terapia ocupacional no campo do trabalho. Este rastreio das produções acadêmicas possibilitou o registro de caminhos acadêmicos neste campo.

Identifica-se, ainda que o presente momento enseja a elaboração de estudos e de práticas que possam refletir e suprir as lacunas de cuidado aos trabalhadores do mundo do trabalho atual, considerando suas contrarreformas, escassez de direitos e multiplicidade de contratos que afetam a vida dos trabalhadores e que trazem desafios às redes de cuidado previamente estabelecidas.

Como limitações da pesquisa tem-se: não ter sido realizada consulta em periódicos interdisciplinares ou em bases de dados mais amplas; não ter acessado números físicos dos periódicos mais antigos da área; e não ter considerado o acesso a livros publicados durante o período estabelecido. Compreende-se que nas três categorias citadas nos resultados importantes obras de terapia ocupacional e trabalho foram publicadas no formato de livro, e certamente se constituem como importantes fontes para a produção do conhecimento no campo e as influências históricas que tanto se relacionam quanto explicam as escolhas realizadas por autores destas produções.

Todavia, a recuperação e análise dos livros e outros materiais de relevância para o campo fazem parte de uma agenda de uma pesquisa maior sobre o tema. Por fim, considerando um mapeamento digital em todos os periódicos nacionais, específicos e com números atualmente ativos, totalizando um retorno de mais de mil produções e proporcionando a análise de 157 produções, tem-se mesmo assim um importante recorte de mapeamento e categorização histórico-temporal da produção do conhecimento em terapia ocupacional no campo do trabalho no âmbito do Brasil.

  • 1
    Neste texto, opta-se por utilizar expressões como “pessoas que trabalham”, “trabalhadores” ou “trabalhadores e trabalhadoras”. Esta variedade de expressões tem como objetivo empregar uma linguagem sem marcação de gênero, sem excluir uma linguagem contextualizada às legislações e realidades das políticas públicas sobre o tema. Assim, essa escolha, ao mesmo tempo que busca evitar a reprodução de formas que podem invisibilizar identidades não contempladas pelo binômio masculino/feminino (como quando empregado “pessoas trabalhadoras”), não exclui a categoria “trabalhadores”, que precisa ser preservada em alguns momentos por razões analíticas (especialmente quando se dialoga com autores, legislações ou estatísticas que adotam essa nomenclatura) bem como para garantir a fluidez textual.
  • Como citar:
    Silva, G. C., Rodrigues, D. S., Monzeli, G. A., & Souza, M. B. C. A. (2025). Terapia ocupacional e trabalho: categorização histórico-temporal de produções acadêmicas brasileiras. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 33, e4100. https://doi.org/10.1590/2526-8910.cto416341001
  • Disponibilidade de Dados
    Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis com o autor correspondente, mediante solicitação.

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Editado por

  • Editora de seção
    Profa. Dra. Roseli Esquerdo Lopes

Disponibilidade de dados

Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis com o autor correspondente, mediante solicitação.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Abr 2025
  • Revisado
    07 Jul 2025
  • Aceito
    20 Ago 2025
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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