Open-access Liderança e inovação na construção de conhecimento na terapia ocupacional brasileira: um estudo biográfico-documental da trajetória profissional de Jô Benetton 1

Resumo

Introdução  Nos últimos dez anos, ampliou-se o número de publicações que buscam dar visibilidade à trajetória de personagens relevantes para a construção da profissão terapia ocupacional no Brasil. Jô Benetton, com uma carreira de mais de 50 anos, foi uma das personagens que se dedicou à formação especializada de terapeutas ocupacionais. Ela é autora de mais de 50 artigos, livros e capítulos de livros, e sua obra vem ganhando destaque nas produções acadêmicas e de pesquisa.

Objetivo  Este artigo busca descrever a trajetória dessa personagem enquanto terapeuta ocupacional, professora e pesquisadora.

Método  Por meio de uma pesquisa documental, currículos, materiais biográficos presentes em suas obras e de narrativas provenientes de outras pesquisas foram organizados temporalmente a partir de seis eixos de análise: prática clínico-profissional, ensino, investigação, pesquisa formal, autoria e atividades internacionais.

Resultados  Foram identificados seis períodos histórico-temporais: 1). De 1971 a 1975 – a escolha por estudar e investigar terapia ocupacional; 2). De 1975 a 1983 – a ditadura militar, A Casa e o início do mestrado; 3). De 1983 a 1996 – Escola Paulista de Medicina, mestrado, doutorado e a experiência na África, 4). De 1994 a 2000 – Universidade de São Paulo e pós-doutorado; 5). De 2001 a 2012 – a consolidação do Método Terapia Ocupacional Dinâmica (MTOD); 6). De 2015 à atualidade – o reconhecimento no campo da pesquisa acadêmica.

Conclusão  Além de visibilizar o próprio protagonismo da autora em relação à profissão, este estudo argumenta que a memória social de Jô Benetton pode contribuir para reflexões mais amplas sobre a constituição do campo no Brasil.

Palavras-chave:
Terapia Ocupacional; História; Liderança; Brasil

Abstract

Introduction  Over the past ten years, there has been a growth in the number of publications aimed at highlighting the trajectories of key figures in the development of the occupational therapy profession in Brazil. Jô Benetton, with a career spanning more than 50 years, was one of the individuals who had contributed to the specialized education of occupational therapists. She is the author of more than fifty articles, books, and book chapters, and her work has gained increasing prominence in academic and research productions.

Objective  This article aims to describe the professional journey of this figure as an occupational therapist, professor, and researcher.

Method  Through documentary research, curricula, biographical materials contained in her publications, and narratives from other studies were chronologically organized based on six axes of analysis: clinical-professional practice, teaching, investigation, formal research, authorship, and international activities.

Results  Six historical-chronological periods were identified: (1) 1971–1975: the decision to study and investigate occupational therapy; (2) 1975–1983: the military dictatorship, A Casa, and the beginning of the master’s program; (3) 1983–1996: Escola Paulista de Medicina, master’s and doctoral degrees, and experience in Africa; (4) 1994–2000: University of São Paulo and postdoctoral studies; (5) 2001–2012: consolidation of the Dynamic Occupational Therapy Method (DOTM); (6) 2015 to the present: recognition in the field of academic research.

Conclusion  In addition to highlighting the author’s leadership role within the profession, this study argues that Jô Benetton’s social memory can foster broader reflections on the constitution of the field in Brazil.

Keywords:
Occupational Therapy; History; Leadership; Brazil

Introdução

Nos últimos dez anos, vimos ampliar-se o número de publicações, decorrentes de pesquisas (Battistel & Isaia, 2017; Cardinalli, 2016; Melo, 2015; Mariotti et al., 2023; Mello; 2023) ou de relatos memoriais (Assis; 2013; Lancman, 2012; Magalhães, 2012; Mancini, 2012; Pfeifer, 2017), que buscam dar visibilidade à trajetória de personagens que participaram da construção da terapia ocupacional como campo de prática e de saber no Brasil. Nesse contexto, destaca-se Jô Benetton, terapeuta ocupacional do Estado de São Paulo que, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, dedicou-se inteira e apaixonadamente à terapia ocupacional.

Jô Benetton (Maria José Benetton) é brasileira, nascida em 10 de junho de 1946, em Laranjal Paulista, cidade do interior do Estado de São Paulo. Ingressou em Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo (USP) em 1968 – período em que o curso era de nível técnico –, formando-se em 1970 (Mello, 2023), na segunda turma de nível superior. Além da dedicação à formação de terapeutas ocupacionais, sua principal contribuição à terapia ocupacional é o desenvolvimento do Método Terapia Ocupacional Dinâmica (MTOD) (Mello, 2023). Jô é autora de mais de 50 artigos, livros e capítulos de livros. Sua obra, além de referência para a prática de terapeutas ocupacionais brasileiras, vem ganhando destaque nas produções acadêmicas e de pesquisa, sendo referência para mais de 20 dissertações e teses concluídas e em andamento (Benetton et al., 2021a).

Cardinalli (2016), em sua dissertação “Conhecimentos da terapia ocupacional no Brasil: um estudo sobre trajetórias e produções”, entrevistou cinco terapeutas ocupacionais que contribuíram para a construção de conhecimento no campo no Brasil, sendo Jô Benetton uma delas. Três das entrevistadas por Cardinalli (2016) ressaltaram a liderança de Jô Benetton. Roseli Esquerdo Lopes relata seu “encontro motivador com Jô Benetton [...] e sua defesa pela terapia ocupacional” (Cardinalli, 2016, p. 41), Maria de Lourdes Feriotti, que no início da carreira “buscou o grupo de estudos em terapia ocupacional psicodinâmica (como era chamada na época) da Jô Benetton” (Cardinalli, 2016, p. 42) e Mariângela Quarentei recorda que, na graduação, “entrevistou Jô Benetton e se encantou com sua defesa pela terapia ocupacional, pela ideia de que a profissão teria um conhecimento próprio e condições de construir conhecimentos” (Cardinalli, 2016, p. 49).

Revisões da literatura que se debruçam sobre as construções epistemológicas na terapia ocupacional (Galheigo et al., 2018) ou que realizaram um mapeamento temático de produções brasileiras ao longo da história (Cardinalli & Silva, 2019), ao utilizarem os mecanismos de indexação de revistas a partir da década de 1990, citam a obra de Jô Benetton, embora não elucidem por completo suas contribuições para o campo e para o processo de construção de conhecimento empreendido pela autora.

Assim, compreende-se que, no contexto dos tensionamentos de um campo científico cuja autonomia pode ainda ser considerada recente (Folha, 2019), há espaço para o trabalho de reconstituição da memória (Pimentel, 2001). Explorar e investigar mais aprofundadamente o saber e o fazer de personagens que participaram da construção do conhecimento na terapia ocupacional brasileira, como Jô Benetton, é investir na complexificação e no adensamento da compreensão da disciplina e de seus fundamentos (Morrison, 2014).

Jô Benetton costuma contar a história de quando, no dia de sua formatura, seu pai lhe deu a chave de uma bonita casa localizada na cidade em que moravam, no interior do Estado de São Paulo, para que montasse sua clínica. Apavorada, contou à sua mãe que não sabia o que fazer com os pacientes, “que sua profissão não existia”. Sua mãe, museóloga e historiadora, então disse-lhe uma frase que viria a ser um oráculo na trajetória de Jô: Toda profissão tem uma história com personagens, se essa história não existe, faça você a história, seja sua personagem! Muitos anos mais tarde, mais precisamente em junho de 2023, Jô Benetton revelou que essa afirmação era, na verdade, de sua autoria e não de sua mãe (Mello, 2023).

Assim, o presente estudo propõe apresentar a trajetória dessa personagem enquanto terapeuta ocupacional, professora e pesquisadora, no entendimento de que a memória social de Jô Benetton pode contribuir como alimento para reflexões mais amplas sobre a constituição do campo no Brasil.

Método

Trata-se de uma pesquisa documental (Sá-Silva et al., 2009), que buscou sistematizar a trajetória profissional de Jô Benetton. A pesquisa documental utiliza fontes primárias, materiais que não sofreram tratamento analítico prévio. A perspectiva adotada neste estudo privilegia uma abordagem ampla das fontes de informação, buscando situá-las no contexto histórico em que foram produzidas e no que for possível apreender sobre a intencionalidade de sua produção (Sá-Silva et al., 2009).

Dados utilizados

Os dados foram provenientes de documentos públicos, como o Currículo Lattes (Brasil, 2024), o sítio eletrônico do Centro de Especialidades em Terapia Ocupacional (CETO) (Centro de Especialidades em Terapia Ocupacional, 2024; Benetton, 1991a), o livro Trilhas Associativas de 1991 (Benetton, 1991a) e a tese de doutorado de Jô Benetton – materiais bibliográficos que possuem informações biográficas. A pesquisa também utilizou uma cópia do currículo profissional de Jô Benetton, cedida pela autora, com informações relativas ao período de 1970 a 2003 (Benetton, mimeo). Além dessas fontes primárias, foram considerados estudos nos quais Jô Benetton participou, a saber: a dissertação de mestrado de Isadora Cardinalli, intitulada “Conhecimentos da terapia ocupacional no Brasil: um estudo sobre trajetórias e produções” (Cardinalli, 2016) e a tese de doutorado de Ana Carolina Carreira de Mello, intitulada “O Método Terapia Ocupacional Dinâmica e o Modello Vivaio: histórias orais de construções inventivas para a prática de terapia ocupacional” (Mello, 2023), ambas defendidas no Programa de Pós-Graduação em Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

A conferência dos documentos, especificamente dos artigos publicados, foi realizada por dois pesquisadores. Entretanto, não foi possível identificar todas as informações presentes no currículo da autora, especialmente materiais da década de 1970. Esses materiais serão marcados com um asterisco, como neste exemplo: Benetton (1975a*).

Aspectos éticos

Este estudo integra-se a um projeto maior intitulado: O Método Terapia Ocupacional Dinâmica e O Modello Vivaio: histórias orais de construções inventivas para a prática de terapia ocupacional, aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos sob parecer no 4.473.156. Jô Benetton assinou uma declaração de consentimento para colaborar na pesquisa, indicando não ser necessário manter sigilo sobre sua identidade.

Análise dos dados

A análise de dados na pesquisa documental busca novas formas de organizar e compreender os documentos, considerando que eles não existem de modo isolado e que a estrutura teórica utilizada pode ampliar a compreensão de seu conteúdo (Sá-Silva et al., 2009). Como o objetivo deste estudo voltou-se a dar visibilidade à trajetória profissional de Jô Benetton, elegeu-se uma grade de análise pautada nos critérios de reconhecimento profissional internacional estabelecidos pela World Federation of Occupational Therapists (WFOT), a saber: liderança, compromisso e serviço com a WFOT, desenvolvimento e promoção da profissão internacionalmente, educação de terapeutas ocupacionais, publicações, pesquisa e inovação, voluntariado para a profissão e serviço excepcional (World Federation of Occupational Therapists, 2020).

Esses critérios foram adaptados à realidade das atividades profissionais e de liderança da personagem, constituindo-se em seis diferentes categorias interconectadas, buscando-se seu detalhamento nos diferentes períodos históricos, como seguem:

Prática clínico-profissional: atuação como terapeuta ocupacional em diferentes serviços, com destaque para ações de liderança.

Ensino: atividades de ensino, tanto em nível de graduação como de formação pós-graduada, incluindo atividades de mentoria e supervisão.

Investigação: processo constante de investigação para construções teóricas e metodológicas. Nessa categoria, também serão incluídos os estudos realizados (alguns mais relevantes) para alcançar o objetivo de construir um método de terapia ocupacional. A análise dos dados deste eixo utilizou o estudo de Marcolino & Fantinatti (2014), na medida em que demandou uma análise prévia de materiais bibliográficos que permitissem a interpretação histórica do processo de construção de conhecimento.

Pesquisa: atividades institucionalizadas de formação, realização e orientação em pesquisa, vinculadas a universidades e centros de pesquisa no Brasil e no exterior.

Autoria: principais publicações (artigos, livros e capítulos de livros), conferências e atividades relacionadas à divulgação científica, como editoria.

Atividades internacionais: projetos de âmbito internacional nos quais ela esteve envolvida e por meio dos quais foi responsável pela divulgação e transformação de práticas e políticas públicas.

A análise da trajetória profissional buscou valorizar o conjunto de atividades realizadas em determinado período. Houve, entretanto, sobreposição de algumas datas, pois procurou-se valorizar o conjunto de atividades de cada período. Por exemplo, em 1983, Jô Benetton foi a Cuba e, em decorrência dessa experiência, publicou um artigo em 1984. Também em 1983, ingressou como terapeuta ocupacional na Escola Paulista de Medicina (EPM). Mantiveram-se os dois primeiros eventos em um período (1974-1983) e o ingresso na EPM em um período posterior (1983-1996), pois novas atividades profissionais foram inauguradas.

Reflexividade

Todos os autores possuem formação no MTOD e têm interesse que a trajetória de Jô Benetton e suas realizações ganhem maior visibilidade. Para evitar possíveis vieses, a equipe de pesquisa buscou manter uma postura contínua de reflexividade, analisando principalmente as lacunas e as limitadas possibilidades de interpretação do material sob análise (Nayar & Stanley, 2023). Além disso, com o intuito de aumentar a confiabilidade do estudo, todos os resultados foram submetidos à análise da participante e aprovados por ela.

Resultados

Os resultados foram organizados em seis períodos histórico-temporais: 1. De 1971 a 1975 – A escolha por estudar e investigar terapia ocupacional; 2. De 1975 a 1983 – A ditadura militar, A Casa e o início do mestrado; 3. De 1983 a 1996 – Escola Paulista de Medicina, mestrado, doutorado e a experiência na África; 4. De 1994 a 2000 – A Universidade de São Paulo e o pós-doutorado; 5. De 2001 a 2012 – A consolidação do Método Terapia Ocupacional Dinâmica (MTOD); 6. De 2015 à atualidade – O reconhecimento no campo da pesquisa acadêmica.

  1. De 1971 a 1975: A escolha por estudar e investigar terapia ocupacional

A dificuldade de exercer a profissão que me fez produzir… A terapia ocupacional é o núcleo central na minha vida (Benetton citado por Cardinalli, 2016 , p. 125).

Prática clínico-profissional: Assim que se graduou, Jô Benetton foi a primeira colocada no primeiro concurso para terapeutas ocupacionais do Estado de São Paulo, assumindo uma vaga no Hospital do Servidor Público, onde trabalhou de 1971 a 1973. Entre 1973 e 1975, participou da equipe que estruturou um dos primeiros hospitais-dia de saúde mental do Estado de São Paulo, na Santa Casa de Misericórdia, sob orientação de Luiz Cerqueira, coordenador estadual de saúde mental à época (Benetton, 1991a). Em 1973, representou a Associação Paulista de Terapeutas Ocupacionais no “I Encontro de Técnicos de Saúde Mental de São Paulo”, participando das mesas-redondas “Avaliação e Perspectivas da Política Nacional de Saúde Mental no Plano Estadual” e “Ações Programáticas para a Implantação de uma Psiquiatria de Comunidade”. Em 1974, iniciou atividades em consultório privado.

Ensino: Em 1972, passou a oferecer estágio no Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica do Hospital do Servidor Público Estadual para estudantes de terapia ocupacional da USP. De 1973 a 1975, o estágio passou a ser realizado no Setor de Terapia Ocupacional do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Durante todo esse período, atuou como supervisora de setores de terapia ocupacional em várias instituições de saúde mental de São Paulo (Casa de Saúde Nossa Senhora do Caminho, Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima, Instituto de Psiquiatria Américo Bairral). A partir de 1973, coordenou grupos de estudos para terapeutas ocupacionais.

Investigação: Em Benetton (1991a), a autora relatava a escassez de bibliografia em terapia ocupacional disponível, baseada no “modelo funcional” (p. 26), no qual se buscava encontrar a atividade certa para tratar o sintoma. Ainda no final da graduação, Jô Benetton realizou um estágio com a Dra. Annelise Strauss, em uma escola com crianças nomeadas de “borderline”, e observou que “na educação, mais especificamente nas atividades livres utilizadas usadas para aprendizagem, e um certo jeito pessoal, abriam campo para bons resultados, maior do que o restrito ‘enfrentar sintomas’” (Benetton, 1991a, p. 26). Estudava teoricamente tudo o que lhe chegava às mãos (Benetton, 1991a). Nesse período, conheceu psiquiatras brasileiros que valorizavam o tratamento pelas ocupações e atividades artísticas, como Luiz Cerqueira, Ulisses Pernambucano e Nise da Silveira. Realizou viagens frequentes ao exterior, principalmente aos Estados Unidos e França (Cardinalli, 2016), em busca de material de estudo. Trouxe para o Brasil obras como o livro de Fidler e Fidler, artigos de autores psicodinâmicos canadenses (Wittkower, Azima e Azima) e de autores europeus como Herman Simon, Barahona Fernandes, François Tosquelles, Gisela Pankow e Paul Sivadon (Benetton, 1991a; Marcolino & Fantinatti, 2014). Começou a estudar Psicanálise em grupos e a receber supervisão da psicanalista Amina Maggi (Benetton, 1991a). Entre 1973 e 1976, frequentou seminários e recebeu supervisão clínica em psiquiatria com o Dr. Oswaldo Dante Milton Di Loreto. Participou de seminários de psicanálise lacaniana no Brasil e na França, inclusive com Jacques Lacan no Hospital Sainte-Anne.

Consciente de que as atividades prescritas para “esquizofrênicos” ou “amputados” eram limitantes na prática da terapia ocupacional, experimentava novas propostas e avaliava os resultados com os pacientes (Benetton, 1991a). Com o grupo de estudos, ampliou seu “laboratório” experimental, envolvendo colegas na aplicação prática e discussão dos resultados (Benetton & Ferrari, 1989).

Autoria: Em 1971, publicou seu primeiro artigo em coautoria com duas colegas, apresentando a terapia ocupacional em uma publicação do Grupo de Estudos Psiquiátricos do Serviço de Psiquiatria Médica do Estado de São Paulo (Nakagawa et al., 1971). Em 1975, publicou dois artigos sobre organização de setores de terapia ocupacional em serviços de psiquiatria, um no Boletim da Associação Paulista de Terapeutas Ocupacionais (Benetton, 1975a) e outro, sua primeira publicação internacional, na revista Informaciones Psiquiátricas, de Barcelona, Espanha (Benetton, 1975b).

  1. De 1975 a 1983: A ditadura militar, A Casa e o início do mestrado

Quem são as colegas? Quem são as revolucionárias? A terapeuta ocupacional, a enfermeira e a assistente social. [...] Todo mundo que foi brigar foi demitido (Benetton citado por Mello, 2023 , p. 73).

É uma pessoa que fez os terapeutas ocupacionais estudarem terapia ocupacional, ela criou formação fora da universidade (Mariângela Quarentei sobre Jô Benetton citado por Cardinalli, 2016 , p. 56).

Prática clínico-profissional: Entre 1975 e 1983, ficou impedida de assumir cargos públicos por perseguição política durante a ditadura militar brasileira. Em 1979, fundou o Hospital Dia A Casa (existente até hoje), em conjunto com colegas psicanalistas e com Sonia Ferrari, terapeuta ocupacional que a acompanha profissionalmente até os dias atuais (Cardinalli, 2016; Mello, 2023). Nesse período, seu foco de estudo foi direcionado às psicoses e suas terapêuticas (Benetton, 1991a).

Ensino: O grupo de estudos permaneceu ativo até que, em 1981, em parceria com Sonia Ferrari, fundou o Centro de Estudos de Terapia Ocupacional (CETO), instituição de ensino, pesquisa e assistência que permanece em funcionamento. No CETO, passou a oferecer cursos de formação clínica especializada (Benetton & Ferrari, 1989; Mello, 2023). A partir da experiência com Di Loreto e do grupo de estudos, o coletivo sintetizou pressupostos para orientar o ensino e a prática em terapia ocupacional:

  • 1 - Qualquer tipo de atividade deveria ser utilizada para o atendimento de pacientes, e a escolha deveria vir preferencialmente deles. Caso contrário, deveríamos fazê-lo, principalmente por meio do diálogo, no qual procurávamos identificar o “gosto” do paciente. Algo era intuído durante a entrevista inicial que a história do paciente também era considerada importante; porém, como todos os dados geralmente se encontravam nas mãos do psiquiatra, não a utilizávamos.

  • 2 - Ensinar e aprender nos grupos de atividades fazia parte de um jogo no qual “o bom humor” e o “entusiasmo” do terapeuta eram aspectos fundamentais.

  • 3 - Era necessário manter o ambiente de trabalho agradável para o paciente; não apenas quanto à estética das salas, mas também no esforço de contemporizar em brigas e discussões.

  • 4 - Entendíamos que os múltiplos aspectos do tratamento do doente mental deveriam encontrar uma linguagem comum na equipe terapêutica. A partir disso, criamos uma espécie de liga em prol das reuniões de equipe.

  • 5 - Não gostávamos nem queríamos que o médico fizesse, à distância, a prescrição das atividades. Por um lado, achávamos que deveriam dar-nos liberdade para decidir com o paciente decidir sobre a atividade e, por outro, que sua presença em nossas salas e reuniões fosse promotora de uma autoridade partilhada.

  • 6 - Mantenhamos que o objetivo último da terapia ocupacional era a reinserção social. Participávamos, portanto, com a assistente social, das reuniões de família e de sua orientação.

  • 7 - Com a enfermagem, partilhávamos da manutenção do ambiente terapêutico, promovendo grupos de orientação à saúde e à higiene (Benetton, 1991a, p. 28).

Esse grupo era formado por Ana Ambrósio, Edmara Barbosa, Eliana Lucatto, Elisabeth Mângia, Fátima Óliver, Gilda Braga, Jussara Pinto, Mariângela Quarentei, Maria Cristina Budeu, Michelle Hahn, Neusa Gonzaga, Reinaldo Silva, Selma Lancman, Sonia Maximino, Suzete Guardiano e Sonia Ferrari (Benetton, 1991a, p. 28).

Pesquisa e investigação: Em 1976, ingressou no curso de mestrado em Psicologia Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), defendendo sua dissertação apenas em 1989 – 13 anos depois –, devido à ausência de orientadores que aceitassem orientar pesquisas em terapia ocupacional (Cardinalli, 2016; Mello, 2023). Sempre obstinada em encontrar formas de ensinar e fazer terapia ocupacional (Mello, 2023), Jô construiu a “Teoria da Técnica, uma reflexão que coloca a prática como objeto de estudo (Benetton, 1991a; Marcolino & Fantinatti, 2014).

Atividades internacionais: Em 1982, realizou estágio no Dynamic Psychiatric Clinic Menterschwaige (Dynamisch Psychiatrischen Klinik Menterschwaige) em Munique, Alemanha (Benetton, 1991a). Em 1983, estagiou em Cuba, no Programa de Terapia Ocupacional no Hospital La Habana e na Clínica Psiquiátrica de Adolescentes, coordenados pela Dra. Elza Gutierrez.

Autoria: Em 1983, publicou artigo nos Arquivos da Coordenadoria de Saúde Mental do Estado de São Paulo (CSM-SP) (Benetton, 1983). Em 1984, publicou “A psiquiatria em Cuba” no Boletim de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria (Benetton, 1984a).

  1. De 1983 a 1996: Escola Paulista de Medicina, mestrado, doutorado e a experiência na África

Eu levei treze anos para defender minha dissertação de mestrado, todo ano eu ia na PUC querendo fazer matrícula e não tinha quem me orientasse, porque eu não abria mão de fazer mestrado em terapia ocupacional (Jô Benetton citado por Cardinalli, 2016 , p. 61).

Prática clínico-profissional: Entre 1983 e 1996, atuou como terapeuta ocupacional na Escola Paulista de Medicina, incorporada pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Jô Benetton integrou equipes interprofissionais em vários serviços de saúde mental, como o Ambulatório de Doenças Afetivas e o Ambulatório de Crise da UNIFESP.

Ensino: Continuou suas atividades no curso de formação do CETO. Coordenou o Curso de Aprimoramento em Terapia Ocupacional em Saúde Mental na UNIFESP, entre 1985 e 1990, que posteriormente passou a ser um Curso de Especialização, no qual integrou o corpo docente de 1990 a 1996 (Benetton et al., 1998). Nos serviços do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da UNIFESP, atuou como professora e supervisora em diversas atividades formativas: estágios de graduação em Terapia Ocupacional (1983 a 1985), supervisão de profissionais em especialização (terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais) e médicos residentes em psiquiatria. Nesse período, também colaborou com a CSM-SP em várias atividades de ensino e consultoria. Em 1985, foi professora do curso “O Hospital Psiquiátrico – Seu Papel na Política de Saúde Mental do Estado”, e, em 1986, do curso “Terapia Ocupacional Psiquiátrica”, ambos promovidos pela Divisão de Estudos e Programas da CSM-SP.

Pesquisa: Defendeu o mestrado em 1989, com a dissertação intitulada “Terapia Ocupacional – Uma Abordagem Metodológica em Saúde Mental” (Benetton, 1989). Sua pesquisa apresentou as Trilhas Associativas, uma técnica de análise de atividades realizada de forma dialógica entre terapeuta ocupacional e paciente, operacionalizada a partir de agrupamentos de atividades e conversas sobre as experiências vividas, favorecendo a construção de novos sentidos e de consciência (Benetton, 1991a; Marcolino & Fantinatti, 2014). Inicialmente pensada para pessoas com transtorno psicótico, essa técnica revelou-se útil ao longo do tempo para diversas populações atendidas em terapia ocupacional (Benetton, 1999, 2006). Em 1990, ingressou no curso de Doutorado em Saúde Mental na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Atividades internacionais: Entre 1986 e 1988, realizou várias visitas internacionais a instituições de saúde mental: Maudsley and Bethlem Hospital, em Londres, Inglaterra (1986); Hospital Marmottan, em Paris, França (1986), sob influência de Claude Olievenstein, que inspirou suas contribuições para a construção do Ambulatório de Crise e do Programa de Álcool e Drogas, PROAD/UNIFESP; Larimer County Mental Health Center, Colorado, Estados Unidos, focado em programas para pacientes psiquiátricos crônicos (1988); Casa de Saúde Idanha, em Lisboa, Portugal (1988); Centro de Saúde Mental Nanterre, em Paris, na França, com focado no tratamento individual de pacientes psicóticos jovens (1988); e Centre Hospitalier Henri Ey, em Bonneval, França (1988).

Em 1991, a convite do então Ministro da Saúde de Cabo Verde, Jô Benetton visitou o país para construir um projeto de assistência em saúde mental, voltado para a prevenção, tratamento e reabilitação, integrando ambulatórios, enfermarias de curta duração e um Centro de Terapia Ocupacional. Em 1993, trabalhou na elaboração do Projeto de Instalação do Centro de Terapia Ocupacional (CTO) de Ribeira da Vinha, que se tornou referência em Cabo Verde e em outros países de língua portuguesa na África (Coppini, 1995).

Autoria: Esse foi um período de intensa produção acadêmica. Em 1983, integrou o Grupo de Trabalho para Elaboração de um Manual de Ações de Saúde Mental em nível primário e secundário, implantado nos Ambulatórios e Centros de Saúde ligados à Divisão de Saúde Mental e Rede Básica da CSM-SP. Em 1985, participou da mesa redonda “A Contribuição Multiprofissional para Implementação de uma Nova Política de Saúde Mental – O Papel do terapeuta ocupacional”, no I Congresso de Trabalhadores de Saúde Mental da Rede Pública do Estado de São Paulo (Benetton, 1985).

Em 1984, publicou seu primeiro artigo conceitual, Alguns aspectos do uso de atividades artísticas em terapia ocupacional” (Benetton, 1984b), no qual discutiu o uso livre das atividades e a constituição da relação triádica (terapeuta ocupacional, paciente e atividades) (Marcolino & Fantinatti, 2014), utilizando aportes da psicanálise para pensar uma atuação mais ativa da terapeuta ocupacional (Benetton, 1984b). Ainda em 1984, publicou o artigo “Terapia ocupacional e Saúde Mental” (Benetton, 1984c), no qual discutiu especificidades teórico-práticas e apresentou as possibilidades da terapia ocupacional na rede básica de saúde.

Em 1989, publicou, em parceria com Sonia Ferrari, um artigo sistematizando a formação especializada em terapia ocupacional em abordagem psicodinâmica no periódico francês Journal D’Ergothérapie, sob o título Pour la Spécialisation d’Ergothérapeutes en Psychiatrie: Une Approche Psychodynamique (Benetton & Ferrari, 1989).

Em 1991, publicou sua dissertação de mestrado no livro Trilhas Associativas: ampliando recursos na clínica da psicose (Benetton, 1991a).

Em 1990, surgiram as primeiras revistas acadêmicas brasileiras de terapia ocupacional: a Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo e os Cadernos de Terapia Ocupacional da UFSCar (atualmente Brazilian Journal of Occupational Therapy). Jô Benetton intensificou sua produção conceitual baseada no empirismo da prática, publicando na Revista da USP os artigos “Uma Abordagem Psicodinâmica em Terapia Ocupacional” (Benetton, 1991b) e “Na Articulação entre o ‘Falar’ e o ‘Fazer’ – A Construção da Historicidade na Psicose” (Benetton, 1992).

Nos Cadernos da UFSCar, publicou, em 1995, “O Silêncio”, seu único artigo abordando a prática de terapia ocupacional com crianças (Benetton, 1995a).

Fruto do trabalho teórico-prático na UNIFESP, publicou o artigo “A crise na terapia ocupacional ou a Terapia ocupacional na crise?” (Benetton, 1995a), posteriormente publicado no World Federation of Occupational Therapy Bulletin (Benetton, 1996).

Também publicou o capítulo de livro “A Questão da Independência e Dependência sob o Vértice da terapia ocupacional”, em parceria com Solange Tedesco (Benetton & Tedesco, 1996).

A experiência em Cabo Verde foi apresentada no World Association of Psychosocial Rehabilitation Congress, em Dublin, Irlanda, em 1993, e descrita no artigo République du Cap Vert: Un Centre d’Ergothérapie, publicado no World Federation of Occupational Therapists Bulletin (Benetton, 1995b).

  1. De 1994 a 2000: A Universidade de São Paulo e o pós-doutorado

[...] a passagem pela USP acabou me desviando muito do meu caminho, pois nesse período eu não conseguia produzir [...] A mudança para a USP fez um corte, mas também um feliz encontro com a história da saúde. Essas ocorrências me fizeram caminhar (Benetton citado por Mello, 2023 , p. 77).

Prática clínico-profissional: Nesse período, Jô interrompeu suas atividades no consultório privado, dedicando-se a atividades de ensino e pesquisa na universidade. Em relação à participação em atividades culturais, destaca-se sua participação como jurada no I Concurso Nacional de Arte “Arte de Viver”, realizado em 1998, evento com grande impacto na reforma psiquiátrica brasileira.

Ensino: Em 1996, Jô foi aprovada no concurso para professora do Curso de Terapia Ocupacional do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, permanecendo até 2002. Esse foi o único período em que se dedicou exclusivamente à formação de graduação em terapia ocupacional. Embora ainda ministrasse algumas aulas na formação oferecida pelo CETO, a instituição passou a ser dirigida por Sonia Ferrari e Solange Tedesco.

Pesquisa: Jô Benetton defendeu sua tese de doutorado, “A terapia ocupacional como Instrumento nas Ações de Saúde Mental”, em 1994 (Benetton, 1994). Nessa tese, buscou delineamentos iniciais para a proposição de um método de terapia ocupacional. Sua proposta, por meio do processo de Teoria da Técnica, sempre foi encontrar conceitos oriundos da prática, capazes de compor uma estrutura para terapeutas ocupacionais organizarem as diferentes informações da prática e pudessem refletir e tomar decisões de ação, considerando o dinamismo e a complexidade das situações (Benetton, 1994; Marcolino & Fantinatti, 2014). Há uma defesa epistemológica da terapia ocupacional como ciência empírica, valorizando o empirismo da prática para quaisquer construções teóricas e/ou metodológicas (Benetton, 1995d).

Como professora e pesquisadora da USP, entre 1997 e 1998, obteve financiamentos para pesquisas em parceria com a Profa. Dra. Selma Lancman, com foco no estudo de confiabilidade e validação do instrumento “Entrevista da História do Desempenho Ocupacional”, desenvolvido por Gary Kielhofner (Benetton & Lancman, 1998). Entre 2000 e 2001, Jô realizou seu pós-doutorado no Centre de Recherches Historiques – École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), com o projeto intitulado “Ergothérapie et Terapia Ocupacional en France et au Brésil - Un Projet d'Histoire Comparée (vers 1960 - vers 2000)”, sob supervisão do Prof. Jean-Pierre Goubert (Benetton, 2001).

Na USP, orientou cinco projetos de iniciação científica e integrou um Programa de Pós-Graduação. Contudo, em decorrência de problemas e incompatibilidades com o trabalho universitário, que acarretaram questões de saúde, Jô solicitou seu desligamento da USP, interrompendo assim uma atividade profissional de grande relevância para sua trajetória acadêmica (Mello, 2023). Chegou a coorientar duas dissertações de mestrado em programas brasileiros e duas outras na EHESS, em Paris, após concluir o pós-doutorado.

Autoria: Em 1995, Jô publicou o artigo “A Case Study Applying a Psychodynamic Approach to Occupational Therapy” na revista Occupational Therapy International (Benetton, 1995c). Esse artigo foi referenciado por Ivarsson et al., (1998), indicando Jô Benetton como responsável pelo estabelecimento de novos conceitos em terapia ocupacional.

Em 1995, fundou uma revista teórico-clínica, Revista CETO, motivada pela necessidade de publicação de artigos clínicos na área. Em 1998, publicou, em coautoria, as atualizações do curso de formação no Journal d’Ergothérapie, com no artigo “De la Spécialisation d’Ergothérapeutes en Santé Mentale” (Benetton et al., 1998).

Do trabalho de pesquisa com Selma Lancman, decorreu o artigo com os resultados do estudo de confiabilidade e validação do instrumento “Entrevista da História do Desempenho Ocupacional” (Benetton & Lancman, 1998).

Publicou resultados de seu doutorado no artigo “Sentiers Associatifs - Pour Élargir les Ressources dans la Clinique de l’Ergothérapie” no Journal d’Ergothérapie (Benetton & Shirakawa, 2000), E apresentou o trabalho “Théorie de la Technique en Ergothérapie” no VI Congresso Europeu de Terapia Ocupacional, realizado em Paris. Os frutos da pesquisa histórica de pós-doutorado geraram seminários proferidos na EHESS e foram organizados em artigos publicados na França e traduzidos para o Brasil na Revista CETO (Benetton & Goubert, 2000a; Benetton & Goubert, 2000b; Benetton, 2002).

Os resultados das pesquisas de iniciação científica ligadas ao pós-doutorado também foram publicados na Revista CETO (Benetton & Varella, 2001; Ducros et al., 2002; Vogel et al., 2002). Além disso, outros dois artigos foram publicados em coautoria com seu supervisor de pós-doutorado, Jean-Pierre Goubert, em revistas brasileiras (Benetton et al., 2000; Goubert et al., 2002).

Durante esse período, Jô traduziu para o português diversos artigos de terapeutas ocupacionais europeias, francesas e italianas, como J. C. Legros, J. C. Piergrossi, C. Gibertoni, J. G. Jobin, I. Pibarot e J. P. Guihard.

Destacam-se ainda o artigo “Terapia Ocupacional e Reabilitação Psicossocial: Uma Relação Possível?” (Benetton, 1993/(1996), incorporado como capítulo no livro Reabilitação Psicossocial no Brasil, organizado por Ana Pitta em 1996 (Benetton, 1993/(1996); e a segunda edição, revista e ampliada, do livro “Trilhas Associativas: ampliando subsídios na clínica da terapia ocupacional” (Benetton, 1999).

Atividades internacionais: Em 1997, consta em seu currículo, embora sem maiores detalhes, sua atuação como avaliadora de Programas de Saúde Mental da Division of Mental Health and Substance Abuse da Organização Mundial de Saúde.

  1. De 2001 a 2012: A consolidação do Método Terapia Ocupacional Dinâmica

[...] o único jeito de saber terapia ocupacional é fazer terapia ocupacional [...] (Benetton citado por Cardinalli, 2016 , p. 67).

O Método da Terapia Ocupacional Dinâmica é a coisa mais importante que eu vou deixar de herança (Benetton citado por Cardinalli, 2016 , p. 127).

Prática clínico-profissional: Com sua saída da USP, Jô retomou suas atividades em consultório privado e no CETO.

Ensino: Jô continuou suas atividades de ensino no CETO. A partir de 2000, o curso de formação da instituição passou a se chamar “Terapia Ocupacional Dinâmica”, indicando o abandono das teorias psicodinâmicas para sustentar a prática de terapia ocupacional, em razão de sua limitação para compreender as evidências concretas da vida cotidiana (Benetton, 2010). A partir de 2005, o curso passou a denominar-se “Formação no Método Terapia Ocupacional Dinâmica” (Benetton et al., 2021a). Nesse período, o CETO passou a se chamar Centro de Especialidades em Terapia Ocupacional, sob a direção e coordenação somente de Sonia Ferrari e Jô Benetton.

Investigação: Jô Benetton passou a se dedicar ao refinamento do que hoje se constitui como o Método Terapia Ocupacional Dinâmica (MTOD). Em seus estudos iniciais e contínuos, organizou a assistência partindo do diagnóstico situacional, instaurando o processo terapêutico pelo manejo da relação triádica e analisando dialogicamente o processo vivido por meio da técnica Trilhas Associativas (Marcolino & Fantinatti, 2014).

Ao retornar do pós-doutorado, com estudos sobre a história da terapia ocupacional, Jô Benetton voltou-se para a produção de Eleanor Clarke Slagle, identificando inúmeras similaridades entre seu modo de fazer e pensar a terapia ocupacional e a técnica Treinamento de Hábitos, voltada para a promoção da saúde e de hábitos (Benetton, 2005). Assim, partindo da compreensão de que com Slagle inaugurou-se um novo paradigma – o paradigma da terapia ocupacional, distinto do paradigma médico voltado ao cuidado de sintomas e doenças – Jô Benetton passou a fundamentar sua prática nesse novo referencial (Benetton, 2005).

Nessa fase final de delineamento do MTOD, houve um refinamento conceitual, sempre com o entendimento de que tais conceitos deveriam ser instrumentais, permitindo uma representação mental que favorecesse a reflexão e a consequente ação prática (Marcolino et al., 2021). Alguns dos principais conceitos elaborados foram o de cotidiano, compreendido como uma atualização do termo hábitos, conceituado a partir do filósofo brasileiro Gilberto Kujawski como “a gramática irrecusável que precisamos preencher com nossa criatividade”; e o de saúde, fundamentado em George Canguilhem, como um conceito a ser particularizado para cada pessoa, regulador de suas ações na vida (Marcolino & Fantinatti, 2014).

Autoria: Em 2005, publicou o artigo “Além da opinião: uma questão de investigação para a historicização em terapia ocupacional” na Revista CETO, apresentando reflexões sobre a necessidade de revisão da história cronológica e proposição de três paradigmas para o desenvolvimento da profissão: o paradigma médico, o paradigma da reabilitação e o paradigma da terapia ocupacional (Benetton, 2005).

Em 2006, lançou a terceira edição atualizada do livro “Trilhas Associativas: Ampliando Subsídios Metodológicos à Clínica da Terapia Ocupacional” (Benetton, 2006).

Proferiu várias conferências em Congressos Brasileiros de Terapia Ocupacional e Congressos de Psiquiatria, entre outros eventos. Destacam-se a conferência de abertura do XI Congresso Brasileiro de Terapia Ocupacional, em 2009 (Benetton, 2010), e a participação no I Simpósio Internacional de Pesquisa em Terapia Ocupacional, em 2010 (Benetton, 2012).

Em 2015, Jô Benetton registrou oficialmente o MTOD na Biblioteca Nacional do Brasil, sob número 702.221 BN.

  1. De 2015 à atualidade: O reconhecimento no campo da pesquisa acadêmica

O que quero dizer é que, realmente, o que está pré-estabelecido numa relação da ciência, do conhecimento e da vida, pra mim, não serve (Benetton citado por Mello, 2023 , p. 88).

A ciência [...] não é mais a teoria que leva à observação, mas a observação que leva à teoria (Benetton citado por Mello, 2023 , p. 91).

Prática clínico-profissional: Em 2018, Jô Benetton realizou sua última atividade assistencial na ONG Despertar, em um projeto social de contraturno escolar com adolescentes, na região da Cidade Ademar, periferia da cidade de São Paulo. Aposentou-se em 2017.

Ensino: Jô continua ministrando algumas aulas na formação clínica em MTOD no CETO.

Pesquisa: Jô Benetton passou a ser convidada para participar de pesquisas acadêmicas e a ter seu referencial teórico mais explorado (Cardinalli, 2016; Mello, 2023). Em 2020, passou a coordenar, em parceria com a Profa. Dra. Tais Marcolino, um grupo de pesquisa em Terapia Ocupacional Dinâmica, que reúne pesquisadores e pesquisadoras de várias universidades brasileiras interessadas em avançar o conhecimento tendo o MTOD como referência.

Em levantamento recente, foram defendidas no Brasil cerca de 20 dissertações e teses que utilizaram o referencial proposto por Jô Benetton (Benetton et al., 2021a). Especificamente no PPGTO/UFSCar, duas teses de doutorado foram defendidas (Araújo, 2022; Mello, 2023), estando em andamento outras duas pesquisas de doutorado e duas de mestrado.

Também em parceria com a Profa. Dra. Taís Marcolino, Jô passou a aprimorar a definição de alguns conceitos integrantes do MTOD, como o de inserção social, publicando, em 2020, o artigo “Diálogos entre Benetton e Latour: possibilidades de compreensão da inserção social” (Marcolino et al., 2020).

Em 2021, publicou dois capítulos no livro “Terapia Ocupacional em Neuropsiquiatria e Saúde Mental” (Benetton et al., 2021a, 2021b), acompanhada das profissionais hoje reconhecidas por ela como sua rede: Sonia Ferrari, Renata Bertolozzi, Ana Paula Mastropietro e Taís Marcolino, que também são docentes na formação em MTOD (Mello, 2023).

Discussão

A análise da trajetória profissional de Jô Benetton, considerando os eixos analíticos propostos sob a óptica da inovação e da liderança, permite discutir as repercussões de suas diversas atividades na terapia ocupacional brasileira. No que tange à sua prática profissional, especialmente no campo da Saúde Mental, é possível identificar o enfoque de suas iniciativas nas contribuições e especificidades da profissão para esse campo, sempre conectado ao interesse em investigar a prática e “discutir uma lógica interna para os procedimentos da terapia ocupacional” (Benetton, 2006, p. 23).

As inovações clínicas parecem caminhar em uma via de mão dupla: com ênfase na construção de um referencial próprio em terapia ocupacional e, simultaneamente, com repercussões em programas de saúde mental, como o hospital-dia na Santa Casa (em parceria com Luiz Cerqueira), o Ambulatório de Crise ou o projeto executado em Ribeira da Vinha, em Cabo Verde. Essas e outras ações em colaboração com a Coordenadoria de Saúde Mental também oferecem uma dimensão concreta na direção de uma política de cuidado em saúde mental, como ilustrado suas palavras: “não houve briga que eu não comprasse em nome de ‘abrir as portas’ dos hospitais e depois fechá-los por desuso” (Benetton, 1991a, p. 27).

Assim, é possível identificá-la como personagem ativa que participou do desenvolvimento de iniciativas inovadoras, integrando o processo de reforma psiquiátrica, em pleno avanço no contexto brasileiro da época (Amarante, 1998). Mesmo em experiências fora dos serviços de saúde mental, como no consultório particular ou em projetos com adolescentes no campo socioeducacional, a saúde mental permaneceu como objetivo central da terapia ocupacional (Benetton, 1994, 2012), sem necessariamente restringir-se a um campo de atuação específico.

De qualquer modo, no CETO, Jô sempre formou terapeutas ocupacionais para atuar em serviços comunitários da rede de saúde mental, com crianças, adultos e idosos, como demonstram muitos artigos de suas estudantes publicados na Revista CETO (Quintino, 1998; Pinto, 1998; Cunha, 2005; Colato, 2010; Sousa, 2010; Maximino, 2008; Ceccato et al., 2007; Melo, 2007, 2010).

No final da década de 1980 e no período de 1994 a 2000, as atividades ligadas ao campo da saúde mental diminuíram em quantidade. Entretanto, nesse período, Jô publicou o provocativo artigo “Terapia Ocupacional e Reabilitação Psicossocial: Uma Relação Possível?” (Benetton, 1993/1996), incorporado ao livro organizado por Ana Pitta – importante figura da reforma psiquiátrica brasileira. Nesse texto, Jô Benetton questiona as relações de poder que poderiam estar implícitas nas propostas da reabilitação psicossocial, ao mesmo tempo em que discorre sobre as potenciais contribuições da terapia ocupacional para o campo, afirmando que “em todos os lugares em que a terapia ocupacional é respeitada, ela poderá, em cordial interdisciplinaridade, cumprir propósitos da reabilitação psicossocial” (Benetton, 1993/1996).

Seria esse posicionamento um enfrentamento ao rumo tomado pela reforma psiquiátrica, principalmente nas dimensões político-ideológicas da Reabilitação Psicossocial? (Saraceno, 2001). Nascida da psiquiatria democrática italiana, com sua força de transformação das problemáticas psiquiátricas em problemáticas sociais e políticas (Amarante, 1998), a Reabilitação Psicossocial constitui um referencial que busca atrelar de modo inequívoco a reabilitação à conquista de cidadania e ao aumento do poder contratual no trabalho, na habitação e nas relações sociais (Saraceno, 2001). A prática para implementação dessas propostas baseia-se na força político-técnica da não fragmentação e/ou especialização do cuidado, buscando superar a clínica tradicional para uma clínica ampliada, fundamentada na construção de práticas transdisciplinares (Onocko-Campos, 2001). Uma possível resposta à pergunta inicial pode ser encontrada no próprio artigo de 1996, quando Jô Benetton afirma seu projeto de buscar a especificidade da terapia ocupacional, ao invés de adaptá-la a programas e projetos de saúde (Benetton, 1993/1996).

Considerando a soberania da prática no projeto de construção de conhecimento (Benetton et al., 2021a), pode-se vislumbrar em sua trajetória a indissociabilidade entre ações assistenciais, de ensino e de investigação-pesquisa. Em relação ao ensino, ainda na década de 1970, o grupo de estudos agenciado por ela congregou personagens de grande relevância para o desenvolvimento do campo profissional e do saber no Brasil (Benetton, 1991a). Nesse grupo, foram elaborados sete pressupostos para o ensino e a prática da terapia ocupacional, que versavam sobre o uso de atividades escolhidas pelo paciente, a autonomia profissional, a reinserção social e o cuidado em equipe. Esse grupo de estudos, iniciado em 1973 e transformado em curso de formação especializada vigente até os dias atuais, suscita reflexões: qual a importância desses pressupostos e quais suas repercussões para a constituição da terapia ocupacional no Brasil?

Formar terapeutas ocupacionais para diferentes projetos clínico-institucionais sempre esteve presente na trajetória profissional de Jô Benetton. Não se encontram estudos que forneçam informações sobre o número de profissionais formados no CETO desde sua criação em 1981. Entretanto, pesquisas de campo indicam a existência de um grupo consistente de profissionais oriundas dessa formação (Lopes, 1999; Galheigo, 2008). Atualmente, esse grupo também pode ser investigado a partir de suas práticas acadêmicas e de pesquisa à luz dos pressupostos do MTOD (Araújo, 2022) e da sistematização das produções bibliográficas inspiradas nesse referencial (Cestari et al., 2024).

Quanto às publicações, o livro Trilhas Associativas foi atualizado a cada nova edição (Benetton, 1991a, 1999, 2006), evidenciando seus avanços teóricos. Entretanto, esse processo só foi compreendido por aqueles que acompanharam a evolução de suas ideias. O nome Trilhas Associativas, por exemplo, corresponde apenas uma parte do referencial teórico-metodológico – especificamente, à avaliação da intervenção pela narrativa dialogada do vivido na relação triádica, voltada à construção de novos sentidos (Mello et al., 2020).

Além disso, a criação da Revista CETO – contemporânea ao surgimento de outras revistas acadêmicas da área – proporcionou identidade a um grupo, servindo como material de formação, estudo e publicação de seus esforços intelectuais. No entanto, cabe questionar: teria essa escolha feito com que suas produções circulassem de forma mais restrita?

Atualmente, com as transformações no sistema de análise e avaliação da produção de conhecimento, uma revista não acadêmica não participa do sistema de indexação, tornando suas produções menos visíveis, como demonstrado em Galheigo et al. (2018). Essas autoras afirmam ter ciência das limitações de produzir estudos de revisão apenas com material indexado e realizam um trabalho relevante ao mostrar a consolidação institucional acadêmica da terapia ocupacional como campo de saber. Nessa direção, nossos resultados também são chamados a contribuir para desvelar outros universos que figuravam nesse mesmo tempo-espaço da terapia ocupacional brasileira.

As atividades de investigação e pesquisa foram apresentadas separadamente e, em Mello et al. (2024) e Mello (2023), vamos ganhando clareza de que se tratou de um projeto ousado e não dicotômico entre prática assistencial e produção de conhecimento. Como teria sido a invenção do MTOD caso Jô Benetton tivesse tido uma carreira universitária de longa duração? Sabe-se que, no Brasil, a maior parte das atividades de pesquisa ocorre nas universidades públicas (Folha, 2019). Assim, diferentemente de outras importantes pesquisadoras brasileiras da terapia ocupacional, os seis anos em que Jô permaneceu como docente na USP foram os únicos em ambiente universitário – o que torna sua trajetória bastante diferenciada. Jô manteve-se ativa na pesquisa, no ensino e na assistência em terapia ocupacional mesmo fora do ambiente universitário, ao longo de seus 50 anos de carreira profissional, sempre dedicada à formação de terapeutas ocupacionais atuantes nos mais diversos contextos de prática.

Entretanto, em relação à visibilidade, ainda há desafios a serem superados para que a informação sobre a existência do MTOD e suas possibilidades ultrapasse a localidade do que se produz no CETO. Embora haja muitas produções bibliográficas que apresentam o MTOD e discutem aspectos específicos de sua utilização, Jô Benetton não escreveu um livro dedicado ao MTOD. Da mesma forma, coletâneas que buscam sistematizar o conhecimento no campo no Brasil também não apresentam o MTOD em sua dimensão atualizada (Cavalcanti & Galvão, 2007, 2023).

Assim, ao articular o presente e o passado nesta análise da trajetória de Jô Benetton, buscamos evitar o risco do historicismo e das possíveis fragmentações que podem surgir ao interpretar tempos históricos de modo equivocado e distorcido (Pimentel, 2001). A análise dos documentos pode ser compreendida como uma das ferramentas de reconstituição da memória, sendo necessário entendê-los como elementos presentes, não confinados ao passado e ao esquecimento, pois, tanto na nossa atuação quanto na produção de conhecimento, “estamos envolvidos e partimos exatamente do que foi anteriormente elaborado” (Pimentel, 2001, p. 192).

Considerando que a produção de ideias e saberes científicos possui caráter eminentemente social (Pimentel, 2001), buscamos tecer reflexões e questionamentos que, enquanto campo de saber, precisamos enfrentar para que as relações da profissão com suas fundações possam ser devidamente consideradas para a compreensão da disciplina, bem como para a formação profissional e a pesquisa (Morrison, 2014). Esperamos que esta análise possa nos ajudar na construção de boas perguntas e questionamentos sobre a história da terapia ocupacional no Brasil. Nosso esforço em dar visibilidade à trajetória de uma das personagens mais importantes na constituição da terapia ocupacional brasileira vem acompanhado também das reflexões da própria Jô Benetton, como personagem, às quais seguiremos com um convite:

“O personagem não tem tanta importância. O que interessa é a obra. Essa é a diferença entre mim e minha mãe. Eu fui procurar a obra. O que fica é a obra. Então, o que eu quero dizer é que o que eu gostaria que ficasse da minha vida, ficar na terapia ocupacional, é a obra, não eu.” (Benetton citado por Mello, 2023, p. 92)

O convite, assim, caro leitor e cara leitora, é o de estudar Jô Benetton e conhecer, para além de sua trajetória profissional aqui apresentada, sua obra!

Considerações Finais

Este estudo buscou apresentar a trajetória profissional de Jô Benetton, destacando suas atividades de liderança no cenário da terapia ocupacional brasileira. Suas práticas clínico-profissionais, de ensino, investigação, pesquisa, autoria e atividades internacionais foram analisadas em seis períodos históricos, ao longo de uma carreira de pouco mais de 50 anos. Destaca-se sua dedicação a um projeto ousado e inovador de investigação, que culminou na construção de um referencial próprio de terapia ocupacional: o Método Terapia Ocupacional Dinâmica.

As limitações do estudo incluem a não exploração e checagem exaustiva do material documental do ponto de vista historiográfico, bem como a ausência de uma discussão sócio-histórica aprofundada desse material. Além disso, consideramos limitadas as possibilidades de interpretação do estudo: por isso, buscamos deslocar o foco do registro histórico como verdade sobre o passado para refletir com ele sobre seus potenciais desdobramentos no presente.

Ao nos questionarmos sobre o que poderíamos saber sobre Jô Benetton a partir deste estudo, buscamos construir uma reflexão que, mais do que oferecer respostas, nos auxilie a formular perguntas sobre a história da terapia ocupacional no Brasil – para além do conhecimento mais aprofundado a história de uma de suas personagens centrais.

  • 1
    Embora Jô Benetton tenha falecido no dia 01/11/24, este trabalho foi produzido enquanto ainda estava viva. Desejamos que a presente publicação possa honrá-la, iluminando sua trajetória, sua memória e vida.
  • Disponibilidade de Dados
    Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis com o autor correspondente, mediante solicitação.
  • Como citar:
    Albino, J. P. C., Mello, A. C. C., & Marcolino, T. Q. (2025). Liderança e inovação na construção de conhecimento na terapia ocupacional brasileira: um estudo biográfico-documental da trajetória profissional de Jô Benetton. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 33(spe1), e3879. https://doi.org/10.1590/2526-8910.ctoAO399338791

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Editado por

  • Editor de seção
    Prof. Dr. Daniel Marinho Cezar da Cruz

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    21 Jun 2024
  • Revisado
    28 Jun 2024
  • Revisado
    24 Set 2024
  • Aceito
    08 Out 2024
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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