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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.24  Ribeirão Preto  2016  Epub 08-Ago-2016

https://doi.org/10.1590/1518-8345.0815.2701 

Artigo Original

Diabetes mellitus e uso de drogas durante a gravidez e o risco de fissuras orofaciais e anomalias relacionadas1

Ivy Kiemle Trindade-Suedam2 

Lília Maria von Kostrisch3 

Luiz André Freire Pimenta4 

Carlos Antônio Negrato5 

Solange Braga Franzolin6 

Alceu Sergio Trindade Junior7 

2PhD, Professor Associado, Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo, Bauru, SP, Brasil

3Enfermeira, Hospital de Messejana Dr. José Alberto Studart Gomes, Secretaria de Municipal de Saúde de Fortaleza, Fortaleza, CE, Brasil. Doutorando, Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, Universidade de São Paulo, Bauru, SP, Brasil

4Professor Clínico, School of Dentistry, University of North Carolina, Chapel Hill, NC, Estados Unidos

5PhD.

6PhD, Professor Assistente, Universidade Sagrado Coração, Bauru, SP, Brasil

7PhD, Professor Titular, Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo, Bauru, SP, Brasil


Resumo

Objetivos:

avaliar a prevalência de diabetes mellitus (DM) e o uso de drogas em mães de crianças com fissuras orofaciais (FOF).

Método:

325 mulheres que tiveram filhos (0-3 anos) com fissuras foram entrevistadas. Os dados referentes tipo de diabetes, uso de drogas lícitas / ilícitas durante a gravidez, circunferência abdominal e glicemia em jejum na primeira consulta pré-natal foram coletados.

Resultados:

vinte e sete por cento das mulheres tinham DM. Destes, 89% tinham DM gestacional, 5,5% DM tipo 1 e 5,5% DM tipo 2. A prevalência de DM em mães de crianças com FOF foi de 27%, significativamente mais elevado que a média da população brasileira que é de 7,6% (p <0,01) (OR = 4,5, IC de 95% = 3,5-5,8). Com relação ao uso de drogas, 32% das mães eram usuárias drogas durante a gravidez e uma correlação positiva foi observada entre o uso de drogas e a ocorrência de FOF e anomalias relacionadas (p = 0,028) (OR = 2,87; IC95% = 1,1-7,4).

Conclusões:

DM e uso de drogas durante a gravidez aumentam o risco de FOF e anomalias relacionadas e o diagnóstico precoce de DM e a prevenção do uso de drogas, especialmente em mulheres grávidas, devem ser enfatizados.

Descritores: Fissura Palatina; Diabetes Mellitus; Epidemiologia; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias

Abstract

Objective:

to assessed the prevalence of diabetes mellitus (DM) and drug abuse in mothers of children with orofacial clefts (OFC).

Methods:

325 women who had children (0-3y) with clefts were interviewed. Data regarding type of diabetes, use of legal/illegal drugs during pregnancy, waist girth and fasting blood sugar at the first prenatal consult were collected.

Results:

twenty seven percent of the women had DM, out of these, 89% had gestational DM, 5,5% type 1 DM and 5,5% type 2 DM. The prevalence of DM in mothers of children with OFC was 27%, it is significantly higher than the average Brazilian population which is 7.6% (p<0.01) (OR=4.5, 95%CI=3.5-5.8). Regarding drug abuse during pregnancy, 32% of the mothers used drugs and a significant positive correlation was observed between drug abuse and the occurrence of clefts and other craniofacial anomalies (p=0.028) (OR=2.87; 95%CI=1.1-7.4).

Conclusions:

DM and drug abuse during pregnancy increases the risk for OFC and related anomalies and early diagnosis of DM and prevention of drug abuse, especially in pregnant women, should be emphasized.

Descriptors: Cleft Palate; Diabetes Mellitus, Epidemiology; Substance-Related Disorders

Resumen

Objetivos:

esta investigación estableció la prevalencia de diabetes mellitus (DM) y el abuso de drogas en madres de niños con malformaciones creaneofaciales (MCF).

Métodos:

325 mujeres que tuvieron hijos (0-3 años) con malformaciones fueron entrevistadas. Se obtuvieron datos referentes a: tipo de diabetes; uso de drogas lícitas o ilícitas durante el embarazo; circunferencia de la cintura; y, glucemia en ayunas en la primera consulta prenatal.

Resultados:

el veintisiete por ciento de las mujeres tenían DM. Entre estas, el 89% tuvieron DM gestacional, el 5,5% DM tipo 1 y el 5,5% DM tipo 2. La prevalencia de DM en madres de hijos con MCF fue de 27%. Esto es significativamente más alto que el promedio de la población brasileña afectada por esa enfermedad, que es de 7,6% (p<0.01) (OR=4,5, 95%IC=3,5-5,8). Observando el abuso de drogas durante el embarazo, el 32% de las madres había utilizado drogas y una correlación positiva significativa fue observada entre el abuso de drogas y la ocurrencia de hendiduras y otras malformaciones craneofaciales (p=0,028) (OR=2,87; 95%IC=1,1-7,4).

Conclusiones:

la DM y el abuso de drogas durante el embarazo aumentan el riesgo de MCF y de anomalías relacionadas; se enfatiza la importancia del diagnóstico precoz de DM y la prevención del abuso de drogas, especialmente entre las mujeres embarazadas.

Descriptores: Fisura del Paladar; Diabetes Mellitus, Epidemiología; Trastornos Relacionados con Sustancias

Introdução

A diabetes mellitus (DM) é uma doença metabólica que resulta em hiperglicemia, em decorrência dos baixos níveis de insulina, ou devido à resistência insulínica. De acordo com a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), a síndrome metabólica está significantemente associada com a idade, atividade física, dislipidemia, hipertensão, tratamento com hipoglicemiantes orais, e com os níveis de HbA1c> 7% 1.

A prevalência global de DM para todas as idades foi estimada em 8,3% e está estima-se que dobre em 2035 2, mesmo em países de baixa e média renda, como o Brasil 3. Os dados obtidos pelo governo brasileiro mostram que a prevalência de DM na população adulta é de 6,3% 4.

Diabetes mellitus gestacional (DMG) é definida como a intolerância aos carboidratos, inicialmente diagnosticada durante a gravidez. Moore et al 5 afirmaram que as gestações de mulheres concomitantemente obesas e diabéticas possuíam um risco 3 vezes maior de resultar em filhos com anomalias craniofaciais do que as gestações de mulheres não diabéticas e não obesas, sugerindo que a obesidade e DM contribuem para patogênese de anomalias congênitas.

A suposição de que DMG está associada ao aumento da ocorrência de síndromes e malformações, pode ser atribuída ao efeito deletério da hiperglicemia na fase inicial da gravidez. Isto indica que o controle glicêmico inadequado durante a gravidez aumenta o risco de defeitos congênitos 6. No entanto, ainda há controvérsias quanto ao fato de níveis elevados de hiperglicemia estarem associados a um maior risco de efeitos adversos durante a gravidez.

Da mesma forma que a hiperglicemia, o uso de drogas (UD) durante a gravidez representa um comportamento de alto risco para a ocorrência de várias malformações congênitas, incluindo as fissuras orofaciais 7 e constitui um dos problemas sociais mais importantes em todo o mundo 8.

Diversos são os tipos e os fatores etiológicos relacionados às anomalias congênitas. As fissuras orofaciais (FOF) são malformações anatomofuncionais, resultantes de um desenvolvimento anormal do complexo maxilar durante a embriogênese e podem ser caracterizadas pela falta de continuidade dos lábios superior, do rebordo alveolar superior e do palato e podem afetar essas estruturas parcialmente ou completamente 9.

A etiologia da FOF é complexa e multifatorial. Fatores genéticos, fatores ambientais e a interação de ambos podem interferir com o mecanismo intrínseco da gravidez, causando anormalidades embrionárias. Mutações nos genes IRF6, MSX1, FOXE1, MTHFR C677T, FAF1 e TGFB representam os fatores genéticos 10-12. Entre os fatores ambientais estão o estado nutricional materno (hipo e hipervitaminoses), o tabagismo e o consumo de álcool durante a gravidez, exposições ocupacionais a substâncias químicas (solventes e pesticidas), exposição aos raios X e outras doenças maternas durante a gravidez, tais como diabetes mellitus, epilepsia e infecções virais, além do uso inadvertido de alguns medicamentos, como benzodiazepínicos e corticosteróides 13-16.

A DM representa um fator etiológico em potencial para várias anomalias, indicando que as mulheres com diabetes possuem chances mais elevadas de ter filhos com anomalias congênitas, incluindo as FOF14. No entanto, dados sobre a população brasileira não foram encontrados na literatura.

O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC-USP) é um hospital público brasileiro localizado no centro do Estado de São Paulo e é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como um centro de excelência mundial para o tratamento das fissuras labiopalatinas e anomalias relacionadas. O HRAC é um hospital terciário e os financiamentos para o tratamento dos 100.000 pacientes registrados vêm da Universidade de São Paulo e do Sistema Único de Saúde. Pessoas de todo o Brasil podem ser registadas no HRAC, independentemente do sua condição social. Assim, este estudo avaliou a prevalência de DM e UD em mães de crianças nascidas com FOF no HRAC / USP, Brasil, e comparou-o com os dados da população geral brasileira.

Método

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em pesquisa do HRAC / USP. O cálculo formal da amostra para este estudo foi realizado com base nos dados que demonstram que a prevalência de diabetes no Brasil está entre 6% e 8% 3-4 e um número de 324 indivíduos foi estimado.

Estudo observacional transversal com dados coletados durante um intervalo de tempo de 12 meses, até que um número de 325 mulheres e seus filhos nascidos fissura de lábio e palato (CLP) fosse alcançado. Os participantes foram recrutados da seguinte forma: o entrevistador foi apresentado para as mães pelo médico responsável pela primeira consulta ou por um dos enfermeiros que compunham a equipe multidisciplinar do HRAC / USP. Os objetivos do estudo foram explicados e somente as mães que concordaram em participar e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido foram incluídas no estudo. Considerando que o HRAC / USP é um hospital para o tratamento exclusivo de indivíduos com FOF, todas as mulheres avaliadas no presente estudo tiveram crianças com esta anomalia.

Os dados foram coletados em uma sala privativa por um dos autores do presente estudo, uma enfermeira treinada para a aplicação do questionário. Todas as crianças foram acompanhadas no HRAC / USP. As mães foram examinadas e os resultados do teste de glicose em jejum (nível de glicose durante a gravidez, expressa em mg / dL) foram colhidos com base nos dados do primeiro exame pré-natal. A circunferência abdominal foi avaliada e medidas > 80cm foram consideradas como um indicativo de obesidade 17. Além dos dados clínicos, um questionário com 24 perguntas foi aplicado às mães sobre o tipo de diabetes (tipo 1, tipo 2 ou gestacional) e quaisquer outras co-morbidades associadas com a doença. As mulheres também foram convidadas a responder a perguntas sobre histórico de hipertensão, obesidade, uso de drogas lícitas e ilícitas durante a gravidez, bem como uso de medicamentos. A categorização das drogas, em lícita ou ilícita, seguiu a classificação do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime - classificação UNODC (2015), que afirma que o termo drogas ilícitas descreve substâncias que estão sob controle internacional (e que podem ou não ter fins medicinais lícitos), mas que são produzida, traficada e / ou consumidas ilicitamente. Entre as drogas de uso lícitas mais consumidas no mundo são o álcool e o tabaco, enquanto cannabis, cocaína e crack representam as drogas ilícitas mais comumente utilizadas 18.

Os dados referentes à idade, raça, nível educacional e sintomas relacionados ao DM também foram coletadas. O nível de escolaridade foi classificado de acordo com a Classificação Internacional Normalizada da Educação, ISCED - 2011, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO 19, como segue: 1) o ensino primário (habilidades fundamentais de leitura, escrita e matemática), 2) ensino secundário inferior (com base na educação primária, com um currículo mais orientado para o assunto), 3) o ensino secundário (fase final do ensino secundário e preparação para o ensino superior e / ou o fornecimento de competências relevantes para o emprego), 4) Ensino pós-secundário não superior (preparação para a entrada no mercado de trabalho e / ou ensino superior), e, 5) bacharelado / ensino superior (programas concebidos para proporcionar conhecimento profissional ou acadêmico, habilidades e competências que levem à graduação ou qualificação equivalente).

As proporções foram comparadas por meio do cálculo do intervalo de confiança (IC 95%). A análise de variância e o teste t de Student foram utilizados para avaliar os possíveis efeitos do nível de glicose e da idade materna na determinação de diferentes tipos de FOF e anomalias relacionadas, respectivamente. O teste do qui-quadrado e teste exato de Fisher foram usados para determinar a significância da associação entre o uso de drogas lícitas e ilícitas e o tipo de anomalia, respectivamente. Os resultados foram analisados pelo Statistica Software. Valores de p <0,05 foram considerados estatisticamente significantes.

Resultados

A idade das mães variou entre 15 a 50 anos, com uma idade média de 29 anos, enquanto a idade das crianças variou entre 0 a 3 anos. A maioria das mulheres tinha completado o ensino médio 155 (48%). Em relação à raça, 177 (55%) mulheres se autodeclararam brancas e 141 (43%) negras / afro-descendentes. Em relação aos sintomas clínicos de DM, 165 (51%) das mães relataram sentir cansado e letargia no início da manhã, 143 (44%) relataram perda de peso pós-parto e 140 (43%) relataram astenia, como visto na Tabela 1.

Tabela 1   Distribuição das mulheres de acordo com a idade, raça, nível educacional e sintomas relacionados ao diabetes mellitus (DM). Bauru-SP, Brasil, 2012. 

Variáveis N %
Idade
15 - 20 36 11.1
21 - 30 157 48.3
31 - 40 117 36.0
41 - 50 15 4.6
Raça*
Branca 177 54.5
Afro-descendente 111 34.2
Negra 30 9.2
Asiática 04 1.2
Indígena 03 0.9
Nível educacional
Analfabeto 02 0.6
Ensino primário 114 35.1
Ensino secundário inferior 155 47.7
Ensino secundário 52 16.0
Ensino terciário 02 0.6
Sintomas de DM
Perda de peso 143 12.5
Astenia 140 12.2
Polifagia 124 10.8
Polidipsia 123 10.7
Poliúria 95 8.3
Total (N) 325 100

*Critério adotado pelo IBGE para raça (Governo brasileiro);

† Classificação Internacional Normalizada da Educação (ISCED) - 2011, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO); ‡DM: diabetes mellitus

Das 325 mulheres que responderam ao questionário, 28 chegaram ao HRAC já com o diagnóstico de DM. Das 297 mulheres restantes, 60 apresentavam níveis glicêmicos pré-natais ≥ 92 mg / dL na primeira consulta com o obstetra. Portanto, seguindo os critérios da Associação Americana de Diabetes e da Federação Internacional de Diabetes, elas foram adicionadas às 28 mulheres iniciais com um diagnóstico prévio de DM, resultando em 88 mulheres com DM (27%). Dentre as 88 mulheres, 78 foram diagnosticados com GDM (89%), 5 com tipo 1 (5,5%) e 5 com DM tipo 2 (5,5%) (Tabela 2). Este achado é significativamente maior do que a média da população brasileira, que é de cerca de 7%(3-4) (p <0,01).

Tabela 2   Distribuição das mulheres que deram à luz crianças com OFC no estudo. Bauru-SP, Brasil, 2012. 

Diagnóstico n % 95% Intervalo de Confiança com correção de continuidade
DM* 88† 27 22.39 32.07
DMG‡ 78 24 19.50 28.81
DM1§ 5 1.5 0.29 3.09
DM2|| 5 1.5 0.29 3.09

* DM: diabetes mellitus; †(p <0,01) em relação à população geral (prevalência de mulheres brasileiras com DM), ‡ GDM: diabetes mellitus gestacional, §DM1: diabetes mellitus tipo 1; || DM2: diabetes mellitus tipo 2

Do total de 88 mulheres com diagnóstico de DM, foram excluídos todos os fatores que poderiam contribuir para o desenvolvimento de anomalias congênitas, tais como consumo de álcool, tabagismo, uso de drogas ilícitas ou medicamentos teratogênicos potenciais, obesidade, pressão arterial elevada ou dislipidemia. Isto resultou em 52 mulheres (16%) diagnosticadas com hiperglicemia materna como o fator causal isolado para a ocorrência das anomalias congênitas, incluindo as FOF (Figura 1).

*FOF: fissuras orofaciais; †DM: diabetes mellitus; ‡FC: fatores confundidores (consume de álcool, tabagismo ou uso de medicamentos ou drogas lícitas ou ilícitas durante a gravidez, obesidade e hipertensão); §DMG: diabetes mellitus gestacional, ||DM1: diabetes mellitus tipo 1; ¶DM2: diabetes mellitus tipo 2.

Figura 1   Processo de identificação das mães com Diabetes Mellitus 

O odds ratio de mães hiperglicêmicas incluindo fatores confundidores / prevalência global de DM foi de 4,5 CI (3,5-5,8) (n = 88) e o odds ratio de mães hiperglicêmicas excluindo fatores confundidores / prevalência global de DM foi de 2,3 CI (1,7-3,1) (n = 52).

O nível de glicose e idade materna durante a gravidez e as suas relações com o tipo de fissura e anomalias relacionadas são apresentadas na Tabela 3. Observa-se que quanto maior o nível de glicose, mais grave é tipo de fissura. Por exemplo, as mães de crianças com fissura de lábio + palato apresentaram um nível médio de glicose de 169 mg/dL, enquanto mães que deram à luz crianças apenas com o lábio fissurado tiveram um nível médio de glicose de 117 mg/dL. Contudo, estas diferenças não foram consideradas significativas. Observou-se também que o aumento da idade está associado à gravidade da fissura e com a presença de outras anomalias. Em outras palavras, mães de maior idade deram à luz, crianças com fissuras mais graves / anomalias relacionadas, como a sequência de Pierre Robin, malformações de mãos e pés, hidrocefalia e síndrome de Down, entre outros. Mais uma vez, não foram observadas diferenças significativas.

Tabela 3   Nível de glicose durante a gravidez, idade materna e suas relações com o tipo de fissura e anomalias relacionadas. Bauru-SP, Brasil, 2012. 

Nível de glicose durante gravidez (mg/dL) N Idade materna durante gravidez
x±sd
Tipo de fissura FL* 117.44±20.34 9 30.11±7.25
FPi 143.33±64.63 33 21.18±6.42
FLP 169.27±126.79 45 30.33±6.32
Anomalias relacionadas Presença 160.39±119.95 44 31.00±6.38
Ausência 147.61±76.88 43 30,26±6.45

*FL: fissura de lábio; †FPi: fissura de palato isolada; ‡FLP: fissura de lábio e palato / sem diferenças estatisticamente significantes

Os resultados mostraram que 28 mulheres (32%) da presente amostra usaram drogas durante a gravidez. Destas, 64% de seus filhos tiveram fissura labiopalatina completa, ou seja, o tipo mais grave de fissura. Este número diminuiu para 46% em mães que não usaram drogas durante a gravidez, no entanto, as diferenças não foram estatisticamente significantes. Além disso, um dado em particular se destaca, 69% dos filhos de mães que usaram drogas durante a gravidez nasceram com fissura labiopalatina associada a outras anomalias craniofaciais, enquanto apenas 42% das crianças nascidas de mães que não usaram drogas durante a gravidez possuíam as mesmas características (Tabela 4). Esta diferença foi estatisticamente significante (p = 0,028). Observou-se, adicionalmente, um aumento da probabilidade de ter um filho com fissura labiopalatina e anomalias relacionadas entre as mulheres que usaram drogas durante a gravidez (OR = 2,87; IC95% = 1,1-7,4).

Tabela 4   Uso de drogas lícitas e ilícitas durante a gravidez e sua relação com o tipo de fissura e anomalias relacionadas. Bauru-SP, Brasil, 2012. 

Uso de drogas durante a gravidez Uso de drogas lícitas durante a gravidez Uso de drogas ilícitas durante a gravidez
sim não sim não sim não
n(%) n(%) n(%)
Tipo de fissura FL* 2(7%) 7(12%)
FPi† 8(29%) 25(42%)
FLP‡ 18(64%) 27(46%)
Anomalias relacionadas Presença 20(69%)§ 25(42%) 19(68%) 26(43%) 3(75%) 41(49%)
Ausência 9(31%) 34(58%) 9(32%) 34(57%) 1(25%) 42(51%)

*FL: fissura de lábio; †FPi: fissura de palato isolada; ‡FLP: fissura de lábio e palato §p=0.028; ||p=0.030

Considerando este importante dado sobre o uso de drogas e a ocorrência de outras anomalias craniofaciais associadas à fissura labiopalatina, uma tentativa de diferenciar os efeitos de drogas lícitas e ilícitas no feto foi feita (Tabela 4). Os resultados mostraram que há uma correlação positiva entre o uso de drogas lícitas no período periconceptional e a ocorrência de anomalias craniofaciais associadas (p = 0,03). Esta correlação não foi observada para as drogas ilícitas

Discussão

O presente estudo mostra que mulheres com DM são mais propensas a terem filhos com FOF quando comparadas às mulheres sem DM. A prevalência de DM na amostra analisada foi de 27%, enquanto nas populações global e brasileira esse percentual é significativamente menor, de cerca de 7%3-4. O estudo também mostra que o uso de drogas durante a gravidez aumenta em quase 3 vezes o risco para a ocorrência de FOF associadas a outras anomalias craniofaciais.

Devido à elevada prevalência de DM nesta população, as comorbidades associadas às anomalias congênitas foram excluídas para se avaliar exclusivamente a hiperglicemia materna como um possível fator causal da FOF. Assim, fatores como o consumo de drogas lícitas ou ilícitas durante o período gestacional foram excluídos (20-21. Mulheres com circunferência abdominal > 80 centímetros foram consideradas obesas e não foram incluídos na segunda análise (17. Hipertensão e dislipidemia foram fatores também excluídos, porque estas condições clínicas são comumente associadas ao DM e representam fatores de risco para o desenvolvimento da síndrome metabólica 22-23. As mulheres que utilizaram antibióticos, anti-hipertensivos, anti-eméticos, anti-inflamatórios não-esteróidais, corticosteroides e anticonvulsivantes ou analgésicos também foram excluídas da análise uma vez que o uso desses medicamentos durante a gravidez provavelmente constituem fator de risco para o desenvolvimento de FOF (15-16). É importante mencionar que a maioria das mulheres relatou uso de ácido fólico (58%), ferro (59%), e multi-vitamínicos (23%) durante o período gestacional para a prevenção de anomalias congênitas.

Portanto, quando as comorbidades anteriormente mencionadas foram excluídas, a prevalência de DM caiu para 16%, no entanto, esta porcentagem ainda representa mais do que duas vezes a porcentagem de DM na população mundial. Em outras palavras, é possível inferir que a hiperglicemia durante a gravidez aumenta o risco para a ocorrência de FOF. Estes resultados estão em conformidade com as conclusões de outro estudo24 o qual afirma que o DMG pode induzir malformações congênitas em animais de laboratório e em seres humanos, incluindo deformidades faciais e defeitos de fechamento do tubo neural. Observaram também que a incidência de defeitos congênitos em recém-nascidos de mães com diabetes é de aproximadamente 3-5 vezes maior do que entre as sem diabetes.

Os resultados apresentados neste estudo reforçam a necessidade de controle rigoroso da DM durante o período gestacional. Dentre as mulheres com DM do presente estudo (n = 88), 60 (68%) não tinham qualquer controle da glicemia durante a gestação, sugerindo que esses fetos foram expostos a hiperglicemia materna durante a embriogênese. Esta falta de controle glicêmico é provavelmente devido ao baixo status social dessa população. Evidenciou-se que a maioria das mães concluíu o ensino médio e, em alguns casos, elas relataram que o nascimento de uma criança com anomalia congênita as obrigou a parar de estudar para cuidar da criança. Há também relatos de ansiedade e depressão quando foram surpreendidas com a informação de que seus filhos foram diagnosticados com algum tipo de anomalia congênita (25).

Para os autores acreditam25 o número de mulheres com diabetes poderia ser ainda mais elevado, uma vez que a informação sobre o teste de glicemia não foi realizado prospectivamente como parte do estudo e que não há qualquer informação sobre as condições em que foi realizado o teste de glicemia. Muitas das mulheres neste estudo viviam longe dos centros onde a coleta do sangue ocorreu e, idealmente, o teste glicêmico deve ser realizada após um período de jejum de pelo menos 8 horas e não mais do que 14 horas.

O objetivo primordial deste estudo foi investigar a prevalência de DM em mães de crianças com FLP, no entanto, durante a coleta de dados, uma importante descoberta surgiu. Entre o grupo de mães que referiu uso de drogas durante a gravidez, 69% das crianças nasceram com FOF e com outra anomalia congênita, enquanto no grupo de mães que não usaram drogas, o percentual de crianças com FOF associadas a outras anomalias era significativamente menor (42%). Isto significa que as mães que usam drogas durante a gravidez têm quase 3 vezes mais probabilidade de ter um filho com fissura associada a outras anomalias congênitas do que mães que não usam drogas durante a gravidez. A sequência de Pierre Robin (9%) foi a malformação congênita mais comumente observada, seguida de cardiopatias (5%), malformações de pé e mão (3%), problemas de audição (1%) e outras síndromes.

Em relação ao tipo de drogas, tem sido demonstrado que o uso de drogas lícitas como o álcool, o tabaco, benzodiazepínicos, anticonvulsivantes e outros antidepressivos aumentam o risco de ocorrência de outras anomalias congênitas em conjunto com as FLP. Esta correlação positiva não pôde ser observada para as drogas ilícitas, como a cocaína e maconha, provavelmente por causa do pequeno tamanho da amostra. É importante mencionar que a preocupação de assumir um comportamento ilegal pode ter subestimado o número de mães que usaram drogas durante a gravidez.

Os resultados deste estudo sugerem que campanhas de prevenção ao uso de drogas também devem se concentrar na população de gestantes cuja condição, infelizmente, não as mantêm distantes do uso de substâncias químicas lícitas ou ilícitas durante a gravidez. O estudo também destaca a importância do controle glicêmico para a detecção precoce da hiperglicemia, mesmo antes da concepção e especialmente em mulheres grávidas. Se não for detectada e tratada, a hiperglicemia pode levar a anomalias congênitas. DM e UD também podem resultar em problemas físicos, psicossociais e econômicos às famílias e à sociedade, bem como no aumento dos custos para o sistema de saúde.

Mais estudos prospectivos devem ser realizados para avaliar a prevalência de DM e UD em mães de crianças nascidas com FOF. Assim, a associação entre a gravidade da DM, a sua relação com o período gestacional, e o tipo de fissura observada poderiam ser estudadas. Idealmente, o foco deve ser na prevenção dessas anomalias congênitas através de diagnóstico precoce de DM e da prevenção do UD. Além disso, uma abordagem multidisciplinar deve ser desenvolvida, o que poderia levar a um cuidado populacional mais abrangente, podendo minimizar o desenvolvimento de diferentes anomalias congênitas.

Conclusão

Conclui-se que a hiperglicemia e uso de drogas durante a gravidez aumentam o risco de ocorrência de fissuras orofaciais e anomalias relacionadas e, consequentemente, o diagnóstico precoce de diabetes mellitus e a prevenção do uso de drogas, especialmente em mulheres grávidas, devem ser enfatizados.

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1Artigo extraído da dissertação de mestrado "Prevalência de diabetes mellitus em mães de crianças com fissuras labiopalatinas", apresentada ao Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, Universidade de São Paulo, Bauru, SP, Brasil

Recebido: 29 de Abril de 2015; Aceito: 18 de Agosto de 2015

Correspondencia: Ivy Kiemle Trindade Suedam Universidade de São Paulo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais Rua Silvio Marchione 3-20 Vila Universitária CEP: 17012-900, Bauru, SP, Brasil E-mail: ivysuedam@fob.usp.br

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