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Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia

On-line version ISSN 1677-9487

Arq Bras Endocrinol Metab vol.49 no.2 São Paulo Apr. 2005

https://doi.org/10.1590/S0004-27302005000200018 

MEMÓRIAS

 

Ciao, Doctor "B"!

 

 

Claudio E. Kater

Professor Adjunto de Medicina, UNIFESP, Editor-chefe, ABE&M

 

 

NO DIA 4 DE FEVEREIRO de 2005 a Endocrinologia perdeu Edward George Biglieri. Foi colaborador e colega de vários endocrinologistas brasileiros e um amigo muito especial.

Apesar da saúde algo debilitada, mantinha-se em boa forma até que o fatal acidente vascular cerebral o levou. Nascido em 17/01/1925, tinha acabado de completar 80 anos e ainda considerava novas visitas à Itália e ao Brasil. Presto uma homenagem pessoal a este grande homem voltando no tempo e enfocando este relato no início da nossa aproximação.

Era 1978. Enquanto terminava minha tese na Endocrinologia da EPM, ia vislumbrando um estágio no exterior. Com 31 anos, era – e me sentia – absolutamente jovem e disposto. E cheio de planos. Eu e Sonia tínhamos a Marina e o Guilherme, uma filha de um ano e pouco e um garoto recém-nascido. Apesar do pouco dinheiro, já tinha uma posição de Professor Assistente na EPM, o que me garantiria algum sustento lá fora. O entusiasmo era enorme e os eventuais problemas pareciam todos facilmente contornáveis.

Interessado desde cedo nas raras doenças da adrenal, buscava alguém nos EUA com quem pudesse aperfeiçoar meus conhecimentos sobre os misteriosos esteróides. Apreciador do famoso – e à época único – Textbook of Endocrinology de Robert Williams, em cujo índice todos os autores de capítulos tinham suas fotos estampadas, eu, tanto quanto o Rui Maciel, curtia muito apreciá-las. Desde meu incipiente interesse pela especialidade, Grant W. Liddle era um dos meus grandes ídolos na "adrenologia". Quem não o conhecia? Praticamente tudo o que se sabia à época sobre fisiologia e fisiopatologia adrenal tinha tido sua mãozinha, ou de gente do seu grupo da Vanderbilt University. Em paralelo aos meus interesses endócrinos, sempre fui um inveterado "curtidor" da música popular norte-americana, em especial do rock'n'roll, do soul and blues e da country music.

A universidade de Vanderbilt ficava, tanto quanto o Grand Ol' Opry House, em Nashville, Tenessee, berço do country, e próxima de Memphis, cidade de Elvis "The Pelvis" Presley e sua Graceland. Puxa! Parecia o máximo poder juntar interesses acadêmicos e hobbies musicais num mesmo lugar. Bastava o homem (que acabou virando nome de "teste de supressão com dexametasona") me aceitar. Mas meu inglês à época resumia-se praticamente às letras das canções norte-americanas que eu ouvia sem parar. Muito pouco para escrever uma carta oficial e muitíssimo pouco para me arrogar a entabular uma conversação telefônica com meu então ídolo.

Pedi orientação ao Chacra e ao Artur Ribeiro, colega da Nefrologia da EPM recém chegado de um estágio em New York com Larry Krakoff, e participante do recém iniciado Ambulatório de Hipertensão, que Manoel Saragoça, Maria Teresa Zanella e eu criamos, com a anuência dos Profs. Oswaldo Ramos e Horácio Ajzen, meu co-orientador da tese de Mestrado.

Para minha desilusão, Artur Ribeiro perguntou se eu conhecia Nashville, colocando em cheque meu pseudo-interesse:

– Não!, disse eu.

– Bem, não passa de uma cidadezinha de interior, bem caipira e sem graça nenhuma. Você vai morrer de tédio lá.

Além disso, como ele também era interessado nos mistérios da adrenal (parte do trabalho do Artur com Krakoff tratava da participação da adrenal na gênese e manutenção da hipertensão arterial, em especial daquela induzida por glicocorticóides), chegou a conhecer pessoalmente Grant Liddle. Disse-me, então:

– Ele é um indivíduo brilhante, mas não tem publicado muito. Está doente e sua carreira já caminha para o ocaso.

E cutucou, dizendo:

– Você conhece San Francisco, na Califórnia?

Retruquei:

– Já ouvi falar muito, em verso e prosa.

Cidade de população multirracial, conhecida como o melting pot da cultura norte-americana, famosa por suas originais bandas de rock (Santana, Grateful Dead, Jefferson Airplane, Creedence Clearwater Revival), seu movimento hippie e flower power, que deixava um cheiro estonteante de erva nos arredores da Height/Ashbury, sua Italian cuisine e sea food (king crabs, clam chowder) e iguarias exclusivas e especiais (sour dough, abalone), suas praias de areia dura e escura e água gelada, seus ghettos ítalo-nipo-sino-judaicos, sua riqueza de ofertas culturais e hábitos exóticos, seu pouco discreto charme gay da Castro Street e, principalmente, seu pujante desenvolvimento tecnológico e econômico.

– Pois é!, continuava Ribeiro, na Universidade da Califórnia, em San Francisco, trabalha um sujeito chamado Ed Biglieri, que é sensacional e está produzindo bastante. Não seria melhor se você fosse passar um tempo com ele?

All of a sudden (já estava até pensando em inglês!) Nashville esvaiu-se do meu mapa e eu só tinha olhos para a Califórnia. Rascunhei, com a ajuda de muitos, uma primeira carta para o Dr. Biglieri. A resposta foi absolutamente estimulante: "Estamos prontos para te receber, mas no momento com poucos grants para poder ajudá-lo a se sustentar". Bem, nem eu mesmo contava com isso, pois achava que a FAPESP ou o CNPq poderiam complementar meu salário, o que daria para viver dignamente. Enviei outra carta, mais elaborada e lida e relida mil vezes antes, e comecei a contar os dias para a chegada da resposta.

Neste meio tempo (1979), o Chacra foi participar de um Congresso em Quito, onde sabíamos que o Biglieri havia sido convidado para falar. Pedi ao Chacra que fizesse uma abordagem pessoal em meu nome e "sentisse" o clima e o interesse.

 

 

Ao retornar, Chacra convidou-me para uns chopps e me disse exatamente com essas palavras:

– Claudio, a situação com o Biglieri resume-se no seguinte: Se você não for, vou eu no seu lugar!!! O Biglieri é uma pessoa encantadora, que irradia simpatia. Disse, entretanto, que seria conveniente você esperar até que ele pudesse conseguir algum grant para ajudar nas suas coisas.

E quem disse que eu ia esperar? Tinha meu modesto salário, uma complementação que tinha conseguido junto ao CNPq e a promessa do bom e zeloso pai Elias de que estaria me enviando, sempre que pudesse, um dinheirinho extra. Naquela época não havia cartão de crédito internacional, nem permissão do governo para envio de dinheiro para fora do país, a não ser aqueles parcos US$ 300 mensais, com autorização prévia do Presidente da República, comprovação disso e daquilo etc. Então, por que não ir já?

Uma outra condição pressionava esta decisão: aguardávamos nosso terceiro filho, e uma espera mais demorada iria atrapalhar nossos planos de viagem e – na época até nisso pensamos – o nascimento de uma criança em solo americano, cidadã dos EUA, com as possíveis vantagens que isso poderia nos trazer na eventualidade de uma catástrofe econômica nacional.

Conhecíamos, por intermédio de parentes, alguns brasileiros residentes em San Francisco que poderiam nos ajudar na chegada e nas possíveis e esperadas confusões de início de jornada. Fizemos contatos e, em março de 1980, partimos, eu e Sonia com sua gravidez de 6-7 meses, deixando as crianças para que fossem trazidas mais tarde pela vó Therezinha. Chegamos, nos acomodamos num Motor Inn qualquer da Avenida Van Ess e, antes de começarmos a procura por moradia, carro, documentos etc., fomos consultar no mapa da cidade uma tal de Potrero Avenue, onde ficava o San Francisco General Hospital (SFGH) Medical Center.

Acomodamo-nos, posteriormente, no distrito de Sunset, bem ao lado do Golden Gate Park, e o SFGH ficava na Mission Dolores! Para quem não conhece, do outríssimo lado da cidade, numa região pobre e meio turbulenta, onde viviam latinos e descendentes (nicaraguenses, porto-riquenhos, salvadorenhos, mexicanos etc., todos pejorativamente chamados de "chicanos"). No 2º ou 3º dia atravessamos a geografia montanhosa da cidade de San Francisco de ônibus e fomos procurar no SFGH o hoje saudoso Building 100, sede da instalação do Clinical Study Center (CSC), o GCRC (General Clinical Research Center), onde reinava Edward Biglieri (meses depois eu soube que, entre seus "súditos", ele se referia ao CSC, que ele fundou e dirigiu por 27 anos, como "meu pequeno Casbah!").

Muitas voltas, e muitas perguntas depois, chegamos ao CSC e fomos recebidos por uma recém contratada secretária (nossa hoje querida amiga Debbie) e pela supervisora da unidade, Margarita Loinaz. Margarita foi, na verdade, minha interlocutora mais próxima com o Biglieri através das informações trocadas naqueles meses prévios. Parecia, ao telefone e nas correspondências trocadas na época (pensem em 1979-80: Fax era uma tremenda novidade e internet e e.mails, apenas um vislumbre de Aldous Huxley), uma senhora agradável, de voz doce e meiga e extremamente atenciosa. Era tudo isso, exceto "senhora". Era uma mulher alta e esbelta, nos seus 30 anos, nascida na República Dominicana, que migrou menina para estudar nos EUA. Na verdade, um pouco como eu, razão pela qual nos identificamos instantaneamente. Margarita, depois de alguns anos, prestou exames para a Universidade e foi aceita para fazer Medicina em San Francisco, tornando-se bem depois uma excelente e bem querida internista e residente em Medicina de Família.

Disse ela, naquele dia em que chegamos sem avisar (um verdadeiro despautério para os americanos, fomos aprendendo), que o Doctor B (foi a primeira vez que ouvimos seu "apelido") estava no hospital, pois era seu período como attending physician do serviço de Endocrinologia, do qual também era chefe. Deixou-nos à vontade, tomando um american coffee (mais parecia uma muddy water naquelas chávenas enormes), e esperando por ele em seu escritório.

Nem uma hora depois, próximo do horário do almoço, chega o esperado Doctor B, olhos azuis brilhantes e sorriso amplo nos lábios. Olha-nos sentados (Sonia com sua enorme barriga contendo Luciana, que viria a nascer no próprio SFGH, no início de junho daquele ano), pára subitamente, abre os braços, arregala os olhos, faz uma expressão estudada de susto (que vi depois inúmeras vezes, uma característica inesquecível sua) e vem nos receber. Nós, tímidos e inibidos, estendendo a mão para o cordial e tradicional nice to meet you e ele abraçando-nos e beijando-nos efusivamente (in both cheeks), numa fraterna acolhida nada, nada americana, mas genuinamente italiana. Aquela empatia instantânea nos deixou encantados. Teve o dom maravilhoso de sossegar-nos a alma e acolher-nos para sempre. Ao me apresentar, ainda um pouco formalmente, o chamei de Dóctor Bilieri (g mudo, così detto in Brasile e in'Italia) e, então, foi ele quem se mostrou surpreso e admirado. Disse que aqueles americanos ignorantes nunca conseguiam pronunciar seu nome corretamente, o mínimo perpetrado era "Big Lieri", o "grande qualquer coisa". Irritava-se genuinamente com isso e de tanto tentar corrigi-los achou melhor abreviar logo para "Dr. B". Sabe-se que B ("bi") é também bee (abelha) e, com isso, outras confusões surgiam, mas deixemos prá lá.

Quero com isso dizer que nossa paixão foi imediata e nosso amor duradouro. Tudo o que aconteceu daí por diante faz parte de uma história pessoal muito rica e marcante, da qual realço meu aprendizado com Dr. B em "esteroidologia", meus skills em escrever um scientific paper, em preparar uma palestra, e mesmo nas maneiras do dia-a-dia com seus pacientes e subalternos (secretárias, técnicas, enfermeiras), tratados sempre com muita cordialidade, como se fossem grandes amigos italianos (aliás, gostava de se referir aos seus fellows brasileiros e chilenos como a South-American Connection, numa alusão aos braços da Máfia italiana).

Nesses anos todos, eu aprendi a apreciar seu raciocínio intuitivo, sua análise crítica de publicações na área, suas idéias originais, suas brilhantes "sacadas" clínicas, seu amplo conhecimento em bioquímica de esteróides, resolvendo problemas from bench to bed. Por último, mas não menos importante, aprendi a cozinhar com ele. Não só isso, como também a ter enorme prazer em preparar um prato e escolher um bom vinho para acompanhá-lo. Orgulhava-se em dizer que na sua casa só ele cozinhava. Na verdade, nunca preparava apenas um prato, mas sim vários em cada refeição e seus jantares eram sempre do tipo five-course meal. Minha primeira lição foi uma pasta al pesto, uma receita dita fácil-difícil. Quem entende de Dry Martini sabe do que estou falando.

As minhas idas e vindas a San Francisco, durante os 10 anos que se seguiram ao meu primeiro estágio de 21/2 anos, foram sempre enriquecedoras, pela convivência com os Biglieri, Dr. B e Beverly, sua adorável esposa, e seus filhos Mark, Michael e Gregg, e pelo constante aprendizado e nossas mútuas colaborações científicas e culinárias.

Anos depois, Estela e eu estivemos juntos algumas vezes e nos divertimos muito com o Dr. B, tanto aqui no Brasil como em San Francisco, e neste ano de 2005 estávamos nos preparando para, logo após o encontro da Endocrine Society em San Diego, passar uns dias com ele em sua casa em San Rafael e apresentar nosso pequeno Kenzo a ele, além de programar sua próxima visita ao Brasil.

Quis o destino que isso não acontecesse. E que apenas as recordações agradáveis e as boas e inesquecíveis histórias desse homem único e especial ficassem marcadas em minha memória e em meu coração. Parte delas eu quis agora recordar e repartir com vocês. Tenho a certeza de que onde Dr. B estiver agora, aqueles que com certeza o cercam, todos segurando uma taça de vinho na mão, estarão se divertindo muito com sua verve e suas histórias engraçadas. Ciao, Doctor "B"!

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