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Arquivos Brasileiros de Oftalmologia

Print version ISSN 0004-2749On-line version ISSN 1678-2925

Arq. Bras. Oftalmol. vol.66 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2003

https://doi.org/10.1590/S0004-27492003000700024 

Y

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Perfil do administrador de clínica oftalmológica na Grande São Paulo

 

The profile of the ophthalmic clinic manager in São Paulo city and neighboring towns

 

 

Jorge Wilson Nogueira NevesI; Marcio Boaventura MaiaII

IMestrando do Mestrado Profissionalizante da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
IIDoutor em Oftalmologia pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Determinar o perfil do administrador de clínica oftalmológica na Grande São Paulo.
MÉTODOS: Foram encaminhados questionários para clínicas oftalmológicas sorteadas aleatoriamente. Variáveis analisadas: sexo, idade, escolaridade, cursos de graduação e pós-graduação, participação na sociedade, carga horária efetiva, visão de carreira, e sistemática de remuneração e número de consultas/mês da clínica.
RESULTADOS: Cinqüenta e cinco por cento eram homens, 60% tinham de 30 a 59 anos, para 60% era sua primeira experiência na área e 56% administravam clínicas com mais de 1000 consultas/mês. Entre os que tinham formação universitária (70%), 56% concluíram curso de Administração de Empresas. Metade dos entrevistados tinham pós-graduação, sendo os cursos preferidos: Administração Hospitalar (40%) e MBA (30%). Somente 10% eram sócios da clínica. Trabalham acima de 40 horas/semana 75% dos profissionais. Atualmente 60% não fazem curso na área e 56% acham que o incentivo à carreira deve vir da clínica. Benefícios: 75% dos profissionais têm planos de saúde e/ou carteira assinada. Remuneração: salário com participação no faturamento (48%) e o salário fixo (42%).
CONCLUSÕES: Neste estudo, encontramos a profissão de administrador de clínicas estruturando-se com profissionais de ambos os sexos, formação em Administração de Empresas, alguns com pós-graduação na área, carga horária acima de 40 h semanais, acreditando que a clínica deve investir em seu aperfeiçoamento. Fazem-se necessários outros estudos que contribuam para melhor conhecimento deste profissional.

Descritores: Administração da prática médica/tendências; Administração de consultório/tendências; Estudo de casos organizacionais; Diretores médicos; Gerenciamento da prática profissional/tendências; Prática profissional; Otimização


ABSTRACT

PURPOSE: To check the profile of the ophthalmology clinic administrator in Great São Paulo.
METHODS: Several questionnaires were sent to clinics at random. Sex, age, schooling, graduate and postgraduate courses, partnership in the clinic, working hours, career plan, payment system and the amount of appointments per month in the clinic.
RESULTS: 55% of them were men, and 60% of them were 30 to 59 years old. For 60% of them, this was their first experience in the area. 56% were in charge of clinics with more than 1,000 appointments per month. Among those with college degrees (70%), 56% had a degree in Business Administration. Half of the researched people had post-graduate courses, and the most frequent were Hospital Administration (40%) and MBA (30%). Only 10% were partners in the clinic. 75% work more than 40 hours per week. At present 60% are not attending specific courses and 56% think that it is the clinic's responsibility to incentive their careers. Benefits: 75% have private health insurance and/or are registered workers. Earning: salary with participation in the clinic's income (48%) and a fixed salary (42%).
CONCLUSIONS: In this study we found the profession of administrator of clinics being structured, with the participation of male and female professionals, graduated in Business Administration, some with post-graduate courses on a related subject, working over 40 hours per week, thinking that the clinic should invest in their professional growth. Further research is required for a better understanding of this professional.

Keywords: Practice management, medical/trends; Office management/trends; Organizational case studies; Physician executives; Practice management/trends; Professional practice; Optimization


 

 

INTRODUÇÃO

Recentemente, médicos têm se voltado para adquirir conhecimentos administrativos, ou então consegui-los através de alguém que os ajude profissionalmente nessa área. Essa ajuda vem da necessidade de alguém, médico ou não, se dedicar aos aspectos logísticos da atividade médica, cada vez mais complexa. E o que faz um administrador? Segundo Fayol, (1968) revisando neoclássicos como: Drucker, Koontz & O'Donnell, Newman etc., cumpre ao administrador planejar, organizar, dirigir e controlar as organizações(1).

No desempenho de suas funções, o administrador representa os seguintes papéis: relação (como líder, contato e representante oficial), comunicador (porta-voz, disseminador e monitorizador de informações) e executivo (como empreendedor, alocador de recursos, gerenciador de problemas e negociador)(2).

Além dessas funções, acrescente-se a essas diferentes visões das funções administrativas a de educador, tendo em vista o compromisso desse profissional com projetos de transformação social, para os quais necessitará favorecer o desenvolvimento integral das pessoas com quem trabalha(3).

Ao administrador cabe planejar, organizar, supervisionar os serviços técnico-administrativos, utilizando recursos financeiros e materiais, estabelecendo rotinas para assegurar a eficácia e qualidade dos serviços prestados(4). O contínuo crescimento e a complexidade dos procedimentos médicos oftalmológicos têm levado os médicos oftalmologistas a se agruparem em sociedades ou cooperativas. Por outro lado, a disputa de novos mercados e o surgimento de novos conceitos e valores levaram à reestruturação da cultura organizacional vigente. Antes, erros administrativos, falhas e ineficiência permaneciam escondidos nos seios organizacionais e eram transferidas para os preços de produtos e serviços. O consumidor (paciente ou serviço de saúde) absorvia esses custos sem grande resistência. Hoje, a busca pela qualidade exige de todos, inclusive dos oftalmologistas, profunda revisão desses conceitos e valores, para sobreviver e crescer no meio dessas mudanças.

Com tudo isto, surge o interesse pela pessoa do administrador da organização de saúde.

 

OBJETIVOS

Esse trabalho tem como objetivo estudar e determinar o perfil do administrador de clínica oftalmológica na Grande São Paulo. Tentaremos descobrir se os oftalmologistas, em suas clínicas, administram pessoalmente sua clínica ou se preferem trazer um profissional de outra área para atender essa exigência, enquanto se dedicam integralmente aos seus pacientes. Tentaremos também abordar alguns aspectos das necessidades dos profissionais que atualmente trabalham como administradores de clínicas oftalmológicas e sua visão de carreira profissional.

 

MÉTODOS

Clínicas oftalmológicas da Grande São Paulo foram selecionadas no segundo semestre de 2002 a partir de levantamento feito em listas de divulgação telefônica e de convênios. Foram enviados questionários (Anexo 1) após contato com sua administração.

 

 

Foram analisadas sexo, idade, escolaridade, realização de cursos de graduação e pós-graduação, a visão do administrador em relação à sua própria carreira e se participa ou pretende participar de algum curso na área. Analisamos também o número efetivo de horas semanais dedicadas à função, a participação na sociedade ou qual era sua sistemática de remuneração e o porte da clínica (usando o número médio de consultas/mês).

As informações recebidas foram tabuladas e analisadas no programa Epi-Info6, que forneceu a estatística descritiva dos dados.

 

RESULTADOS

Na tabela 1 encontramos o resultado da resposta dada aos questionários enviados.

 

 

Analisados os 20 questionários devolvidos, foram estudados o sexo e as faixas etárias dos administradores, conforme a tabela 2 e gráfico 1.

 

 

 

 

No estudo específico da profissão, foram avaliados: a experiência anterior na área, a existência de curso superior e os tipos de cursos realizados. Estas distribuições aparecem nas tabelas 3, 4, 5 e 6.

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre os profissionais sem formação superior, os homens aparecem com freqüência superior às mulheres (Tabela 7).

 

 

A pós-graduação faz parte da formação de vários administradores. As tabelas 8, 9 e 10 apresentam o estudo desta variável quanto à sua realização, sexo e área escolhida.

 

 

 

 

 

 

Os profissionais, independente de seu nível de formação atual, demonstraram interesse em diversas áreas de aperfeiçoamento que viriam suprir suas necessidades. A tabela 11 mostra esta distribuição.

 

 

As tabelas 12 e 13 avaliam a participação do administrador como sócio da clínica, sendo médico ou não.

 

 

 

 

Para caracterizar o porte da clínica, levantamos o número de consultas/mês, apresentados na tabela 14.

 

 

No relacionamento da clínica com o profissional foram avaliados a carga horária trabalhada, a política de benefícios, o sistema de remuneração adotado e a freqüência de reuniões com os sócios. Tais distribuições aparecem nas tabelas de 15 a 19.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No estudo do desenvolvimento profissional do administrador, foram avaliadas suas expectativas, segundo sua visão de responsabilidade de investimento na carreira, áreas de estudo necessárias e participação atual em algum curso relacionado. As tabelas 20 e 21 mostram estas distribuições.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Dos 34 questionários enviados, 2 clínicas recusaram-se a fornecer qualquer informação e 12 clínicas não retornaram no prazo estipulado para a pesquisa. Desse modo, nosso índice de retorno foi de 59 %. Acreditamos que pesquisa deste tipo é um fato novo e que, com o tempo, haverá adesão mais consistente a esse tipo de pesquisa, o que talvez explique os questionários não retornados e os recusados. O conhecimento dos resultados deste trabalho e o aperfeiçoamento deste instrumento serão elementos essenciais para diminuir o número de não-respostas.

Houve equilíbrio na freqüência de ambos os sexos (55% homens e 45% mulheres). Os administradores têm predominantemente (60%) entre 30 e 59 anos de idade. A década de maior freqüência foi a de 30 a 39 anos. Em pesquisa com administradores hospitalares no Brasil encontrou-se 62,5% dos mesmos abaixo dos 50 anos de idade(5). Em pesquisa com executivos médicos, nos Estados Unidos (EUA), detectou-se média de idade de 54 anos(6).

A maioria (60%) destes profissionais está em sua primeira experiência na área, independente de ter ou não experiências administrativas em outras áreas.

Por ser uma especialidade nova, toda a bagagem administrativa do profissional tem de ser desenvolvida ou adaptada no próprio exercício da função.

Os administradores têm predominantemente entre profissionais de formação universitária (70%) e os administradores de empresa correspondem a 56% da amostra, seguido dos médicos (12%). Dois administradores possuíam mais de um curso em nível de graduação.

É relativamente baixo o número de profissionais médicos que respondem diretamente pela administração; apenas 2 (10%) na amostra. Encontrou-se 14 médicos que administravam hospitais (25% da amostra) e, desses, 3 não tinham especialização em administração hospitalar(5).

Apenas 6 administradores (30%) não possuem curso de graduação. Mezomo em 1987, em pesquisas com administradores de instituições de saúde encontrou um percentual de 5% de profissionais sem curso superior(5).

O número de homens sem graduação é o dobro do de mulheres.

Entre os profissionais da amostra, 50% têm curso de pós-graduação. Há ligeiro predomínio de pós-graduação entre os administradores de sexo masculino (60%).

A área administrativa representa 70% dos cursos de pós-graduação, com títulos específicos em Administração e Masters'in Business Administration (MBA). Avaliando-se médicos em funções gerenciais verificou-se que 20,7% tinham MBA ou equivalente(6). Mezomo encontrou 60% de administradores hospitalares com pós-graduação em Administração(5).

As áreas apontadas como lacunas na formação profissional foram as de Finanças e Auditoria, seguidas pelas áreas de Informática e Jurídica. Foi encontrado maior interesse futuro nas áreas de Qualidade, Informática, Benchmarking e Planejamento Estratégico(6).

Somente dois administradores eram sócios da clínica e apenas um era médico. Uma justificativa seria formação deficiente para administrar, mesmo na área de saúde. Mezano detectou interesse em cursos na área administrativa em 78,6% dos médicos que exerciam administração hospitalar(5).

Recentemente nota-se um aumento progressivo de mercado e salários, nos EUA, para os profissionais executivos na área de saúde(7). Provavelmente o médico oftalmologista ainda não se interesse em ser administrador, mas não levantamos qual seria a razão.

Recomenda-se que estudantes de medicina, residentes e médicos devem receber cursos sobre Administração em Medicina(8). Por outro lado, registra-se progressivo aumento no número de cursos, na área de administração em medicina, surgindo nos EUA(8).

Clínicas de portes variados, com menos de 1.000 consultas/mês (46%) até uma clínica que tem mais de 8.000 consultas /mês utiliza-se de serviços profissionais específicos para sua administração. Isso mostra a grande necessidade de profissionais na área. Nas duas clínicas administradas por médicos, uma tinha o porte de 300 consultas /mês e a outra 6.000 consultas/mês, esta administrada por um dos sócios, após experiência não bem sucedida com outros administradores, não médicos.

O número de horas dedicadas efetivamente à administração foi alto, demonstrando que a atividade consome muitas horas semanais; 75% dos administradores trabalham mais de 40 horas/semana. Mezomo (1987) encontrou 52% de administradores trabalhando uma média de 9-15 h/dia(5). Foi demonstrado que médicos em funções executivas trabalham uma média de 50 horas semanais(6).

Os benefícios foram freqüentes para 75% dos administradores. Alguns administradores receberam mais de um benefício. Predominou o plano de saúde com 44%, seguido de carteira assinada com 38%.

Houve ligeiro predomínio do salário com participação no faturamento da clínica (48%), seguido de salário fixo para 42% dos administradores.

Em relação à freqüência de reuniões com os sócios, tivemos pouco retorno nos questionários. Alguns administradores comentaram que era muito "variável". Em geral tentavam resolver diretamente com os sócios, à medida que os problemas surgissem.

A maioria dos administradores (56%) atribui à clínica a responsabilidade pelos investimentos e direcionamento na carreira. Atualmente 60% dos administradores não participam de cursos na área.

A dificuldade para discussão maior encontra-se no fato de não encontrarmos na literatura trabalhos com o mesmo foco (administração de clínicas oftalmológicas), a fim de estabelecermos comparações.

 

CONCLUSÕES

Neste estudo, realizado entre administradores de clínicas oftalmológicas da Grande São Paulo, em 2002, não houve predominância de sexo, a idade mais encontrada na faixa de 30 a 39 anos e geralmente, não é sócio do grupo. Sua profissão: geralmente não é médico e tem formação (graduação) em Administração de Empresas. Metade desses profissionais fez pós-graduação, principalmente em Administração e MBA. A administração de clínica oftalmológica foi a primeira experiência do tipo para 60% dos administradores. Os benefícios principais do cargo são carteira assinada e plano de saúde. A carga horária de trabalho é superior a 40 horas semanais. Na sua visão de carreira, sente-se dependente de iniciativa maior da empresa (clínica oftalmológica) para seu aprimoramento profissional. A sistemática de remuneração predominante é o salário com participação nos resultados.

É uma profissão nova, que está se estruturando, e há necessidade de que outros estudos sejam feitos para se fazer comparações e termos uma visão melhor do quadro profissional na área.

 

REFERÊNCIAS

1. Fayol H. Administração industrial e geral. 7a ed. São Paulo: Atlas; 1968.        [ Links ]

2. Mintzberg H.The manager's job: folklore and fact. Harvard Business Rev 1975;53:46-61.        [ Links ]

3. Martins PEM. O desafio de formar administradores para o Brasil do terceiro milênio. In: Martins PEM. Recursos humanos: foco na modernidade. Rio de Janeiro: Qualitymark; 1992. p.237.        [ Links ]

4. Andrade N. Suporte administrativo de clínica oftalmológica. In: Centurion V. As bases da administração em oftalmologia. Rio de Janeiro: Cultura Médica; 2001. p.60.        [ Links ]

5. Mezomo JC. O administrador hospitalar dos hospitais de São Paulo em 1986. Hosp Adm Saúde 1987;11:112-6.        [ Links ]

6. Williams SJ. Training needs for physician leaders. J Health Adm Educ 2001;19:195-202.        [ Links ]

7. Kirchheimer B. Reaping the rewards. Hospitals show their appreciation for top execs by boosting compensation. Mod Healthc 2001;31:27-30,32-3,38.        [ Links ]

8. Backer LA. Back to school: options for learning the business of medicine. Fam Pract Manag 2001;8:27-33.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Rua Dr.Alcides Ricardini Neves, 12/318
São Paulo (SP)
CEP 04575-050
E-mail: jwilson@uol.com.br

Recebido para análise em 01.02.2002
Versão revisada recebida em 14.05.2003
Aprovação em 02.06.2003

 

 

Nota Editorial: Pela análise deste trabalho e por sua anuência na divulgação desta nota, agradecemos aos Drs. Wilmar Roberto Silvino e Paulo Gilberto Jorge Fadel.

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