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Bragantia

Print version ISSN 0006-8705On-line version ISSN 1678-4499

Bragantia vol. 56 n. 1 Campinas  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0006-87051997000100010 

IV. TECNOLOGIA DE FIBRAS E DE SEMENTES

 

QUALIDADE DA FIBRA E DA SEMENTE EM PLANTAS DE ALGODOEIRO AFETADAS PELO "MURCHAMENTO AVERMELHADO"(1)

 

MILTON GERALDO FUZATTO(2), EDERALDO JOSÉ CHIAVEGATO(2), EDIVALDO CIA (2,6), ANTONIO AUGUSTO LAGO(3), JULIO ISAO KONDO(4), ROSE MARRY ARAÚJO GONDIM-TOMAZ(4), NELSON PAULIERI SABINO(4) e ARMANDO PETTINELLI JÚNIOR(5)

 

 

RESUMO

Avaliaram-se as perdas na qualidade das fibras e sementes produzidas por algodoeiros afetados pelo "murchamento avermelhado", em Tatuí (SP), no ano agrícola 1993/94. Nos dois casos, a qualidade do produto foi reduzida proporcionalmente à severidade dos sintomas apresentados pelas plantas. Todas as propriedades tecnológicas da fibra foram comprometidas, sobretudo o comprimento e a maturidade. Também as sementes tiveram todas suas características físicas e fisiológicas substancialmente prejudicadas.

Termos de indexação: algodoeiro, "murchamento avermelhado", perdas na qualidade da fibra e da semente.

 

ABSTRACT

FIBER AND SEED QUALITY OF COTTON PLANTS AFFECTED BY THE "REDDISH WILTING" ABNORMALITY

Losses in quality of fiber and seed were evaluated in cotton plants affected by the abnormality of yet unknown cause (December, 1996) "reddish wilting", at State of São Paulo, Brazil. In both cotton products, quality was reduced in proportion to the degree of symptom severity exhibited by affected plants. All the fiber properties were strongly affected, mainly length and maturity. Likewise, physical and physiological properties of the seeds were highly injured too.

Index terms: cotton, "reddish wilting", losses in fiber and seed quality.

 

 

1. INTRODUÇÃO

Em trabalho anterior (Chiavegato et al., 1994), relataram-se a ocorrência, o quadro sintomatológico e as perdas na produção devidas à anormalidade "murchamento avermelhado" do algodoeiro. De causa ainda desconhecida (dezembro de 1996), essa anomalia já foi constatada em praticamente toda a região meridional de cultivo dessa planta no Brasil, ocasionando perdas consideráveis, conforme a variedade comercial utilizada e a eficiência conseguida no controle de pragas.

Naquele trabalho, constataram-se quedas lineares na produção de algodão em caroço, estimadas em aproximadamente 16, 33 e 49%, na medida em que crescia, em escala de notas de 1 a 4, a severidade dos sintomas apresentados pelas plantas. Para verificar se havia perdas também na qualidade do produto, efetuaram-se análises das fibras e das sementes, no algodão colhido, cujos resultados são aqui apresentados.

 

2. MATERIAL E MÉTODO

Realizou-se a pesquisa em campo de aumento de sementes da variedade comercial IAC 20, instalado na Estação Experimental de Tatuí, do Instituto Agronômico (IAC), no ano agrícola 1993/94. Marcaram-se as plantas de acordo com a intensidade dos sinto mas do "murchamento avermelhado", de forma a constituir as seguintes categorias: nota 1 - sem sintomas; nota 2 - com, pelo menos, uma e, no máximo, duas folhas com início de epinastia e de coloração amarelada, bronzeada ou avermelhada; nota 3 - duas a três folhas revelando epinastia acentuada, murchamento e coloração característica, mas sem redução aparente do porte das plantas; nota 4 - plantas com todas ou com a maioria das folhas mostrando sintomas, desenvolvimento comprometido e queda pronunciada ou seca de órgãos reprodutivos, porém sem apresentar caule e folhas secas, o que caracteriza, nessa anormalidade, morte ou situação irrecuperável, do ponto de vista da produção de algodão. Na ocasião, as plantas contavam com aproximadamente cem dias de idade. Como os sintomas foliares praticamente desaparecem, cerca de 20 dias após o surgimento (Almeida, 1995), é possível que a anormalidade não se tenha manifestado antes de 80 dias de idade da cultura.

Segundo o critério exposto, foram marcadas ao acaso, em área de aproximadamente 3.000 m2, 15 plantas de cada categoria, cuidando para que não estivessem isoladas ou beneficiadas por falhas contíguas, bem como comprometidas por outras anormalidades. Realizou-se a colheita quando todas as plantas marcadas apresentavam a totalidade dos frutos abertos. Cada planta constituiu uma repetição, para fins das determinações e análises estatísticas dos resultados.

Após a pesagem e o beneficiamento do algodão, determinaram-se, na colheita total de cada planta, o peso(7) de cem sementes e a porcentagem de fibra. Para explicar resultados desta última característica, calculou-se o índice de fibra, ou seja, o peso da fibra contida em cem sementes, conforme exposto por Christidis & Harrison (1955).

A análise tecnológica da fibra, proveniente, também, da colheita total de cada planta, foi realizada em aparelho HVI, da Zellweger Uster/Spinlab, da série 900. Das determinações realizadas, são apresentados os resultados de comprimento, fibras curtas, uniformidade, tenacidade, índice Micronaire, maturidade e finura.

Agruparam-se as sementes oriundas de plantas com a mesma nota, submetendo-as à análise usual (Brasil, 1992), com algumas adaptações, em função da natureza do trabalho e da pequena quantidade de sementes disponíveis. Para as diversas características, efetuaram-se os testes com quatro repetições, adotando-se os procedimentos seguintes:

a) germinação: 40 sementes por repetição, cada repetição formada por dois rolos de 20 sementes cada um. Temperatura de 20-30oC (20oC por 16 horas e 30oC por 8 horas). A contagem foi realizada aos quatro, sete e doze dias após a germinação;

b) vigor: germinação nas condições descritas, após as sementes - também 40 por repetição - serem submetidas a estresse (envelhecimento acelerado) de 42oC/100% de umidade relativa (U.R.), por 96 horas (International Seed Testing Association, 1987);

c) umidade: determinação em 25 sementes por repetição, mantidas em estufa a 105oC por 24 horas. O peso fresco de mil sementes foi calculado para a umidade padrão de 10%;

d) condição de granação: avaliação visual feita em 25 sementes por repetição, cortadas longitudinalmente ao meio, considerando-as granadas, mal granadas ou chochas, conforme a cavidade embrionária estivesse preenchida em mais de 75%, acima de 25% até 75%, e até 25% ou vazia respectivamente;

e) comprimento e espessura: determinados com auxílio de paquímetro, em 40 sementes por repetição.

Os dados referentes a todas as características foram submetidos à análise da variância, considerando o modelo fixo e o delineamento inteiramente casualizado. Diante da tendência de efeito prejudicial progressivo, à medida da gravidade dos sintomas, a análise foi complementada com estudos de regressão linear.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

No quadro 1, encontram-se os dados referentes ao peso das sementes, porcentagem e índice de fibra. Verifica-se queda progressiva no peso das sementes, conforme se agravam os sintomas, situando-se a perda, no caso mais drástico, em cerca de 19%. Em determinação mais precisa, o peso seco das sementes foi reduzido em quase 21%, no caso mais grave (Quadro 3).

 

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Os dados referentes à porcentagem de fibra não se mostram tão coerentes, pois além do inesperado aumento nas plantas de nota 4, quando a tendência era de queda, os resultados não se enquadram no que seria previsível. De fato, tratando-se de uma proporção relativa entre peso de fibras e de sementes, se o peso destas últimas cai, como aconteceu, a porcentagem de fibra deveria aumentar. Uma possível explicação seria a queda pronunciada da maturidade (Quadro 2), da qual resultaria fibra também mais leve. Ou, ainda, na diminuição do comprimento - além do aumento da proporção de fibras curtas - que ocasionaria volume menor de fibra nas sementes. Essa hipótese parece confirmar-se pela análise dos números referentes ao índice de fibra, que representa o peso da fibra existente em cem sementes: a queda é linear, atingindo, na situação mais danosa, quase 19%.

Os dados do quadro 2 revelam que todas as características tecnológicas da fibra foram prejudicadas pela incidência da anormalidade em questão, principalmente nas plantas com notas 3 e 4. Mesmo no caso da tenacidade, em que a regressão linear foi significativa apenas ao nível de 14% de probabilidade, a tendência de queda é evidente. Ressalte-se, a esse respeito, que a determinação dessa característica é muito influenciada pela maturidade da fibra, uma vez que se baseia na força necessária para a ruptura de uma mecha de fibras, corrigida para um peso padrão da mecha. Dessa forma, fibras imaturas - por serem mais leves - tendem a apresentar valores superavaliados da tenacidade (Gridi-Papp et al., 1985). Como a maturidade da fibra foi bastante prejudicada nas plantas afetadas, pode ter ocorrido a distorção mencionada, nas determinações da tenacidade, levando a resultados menos flagrantes com respeito aos prejuízos nessa característica.

 

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Os danos de maior significado prático foram provocados no comprimento e na maturidade da fibra, com reflexos, evidentemente, nas outras características. No caso do comprimento, a classificação caiu de fibra média para curta e no da maturidade, de média para muito baixa. É conveniente alertar para o significado da queda no índice Micronaire e na finura, porque há preferência, atualmente, por valores baixos dessas características, por parte da indústria têxtil. No caso presente, está claro que os valores mais baixos observados se devem à queda na maturidade e, em função dos inconvenientes que isso acarreta, deixam de representar fatores vantajosos no processamento industrial. Além da mudança na classificação comercial, com desvalorização do produto, a matéria-prima com as características mostradas pelas plantas com notas 3 e 4, principalmente, pode ser rejeitada pela indústria têxtil, por não se adaptar aos equipamentos e aos produtos finais objetivados.

Os resultados da análise das sementes constam do quadro 3. A exemplo do que ocorreu com a fibra - e de modo até mais pronunciado e visível - todas as características físicas e fisiológicas foram substancialmente prejudicadas. Além de provocar a queda na produção de algodão em caroço, da qual é importante elemento, a semente com tais características assim comprometidas pode, eventualmente, ocasionar problemas no processamento industrial e revelar-se inadequada para plantio. A exemplo do que foi ressaltado no caso da produção (Chiavegato et al., 1994), os resultados não permitem estimar as perdas no nível de cultura, pois para isso seria necessário determinar a proporção de plantas atacadas, principalmente daquelas com notas 3 e 4. O que se pode afirmar é que variedades suscetíveis apresentam até 93% de plantas com sintomas, sendo 63% com nota igual ou maior do que 3(8). Numa lavoura em tal situação, é de esperar, com base nos resultados deste trabalho, não apenas grande quantidade de fibra e sementes com baixa qualidade, mas também desuniformidade do produto colhido.

 

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4. CONCLUSÕES

1. Plantas de algodoeiro afetadas pelo "murchamento avermelhado" produziram fibras e sementes de qualidade inferior às obtidas com plantas aparentemente normais, cultivadas nas mesmas condições.

2. O prejuízo, nos dois casos, foi proporcional à severidade dos sintomas apresentados pelas plantas. Coeficientes de determinação (r2) variando de 0,77 a 0,99, no caso das propriedades da fibra, e de 0,61 a 0,87, no das características da semente, demonstram que a variação observada nos dados foi altamente dependente do grau de incidência dessa anormalidade.

3. Nos casos mais extremos, a fibra pode ser bastante desvalorizada comercialmente e até mostrar-se imprópria para as utilizações industriais a que normalmente se destina. Da mesma forma, no caso das sementes, o produto pode apresentar baixa qualidade industrial e ser inadequado para plantio.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, W.P. Dinâmica de ocorrência e efeitos do "murchamento avermelhado" sobre o ciclo e a produção do algodoeiro. In: REUNIÃO NACIONAL DO ALGODÃO, 8., Londrina, 1995. Resumos. Londrina, IAPAR, 1995. p.108.         [ Links ]

BRASIL. Ministério da Agricultura. Divisão de Sementes e Mudas. Regras para análise de sementes. Brasília, SNDA/DNPV/CLV, 1992. 365p.         [ Links ]

CHIAVEGATO, E.J.; FUZATTO, M.G.; CIA, E. & PETTINELLI JÚNIOR, A. Avaliação preliminar de perdas na produção devidas a nova anormalidade do algodoeiro no Brasil. Bragantia, Campinas, 53(2):255-258, 1994.         [ Links ]

CHRISTIDIS, B. G. & HARRISON, G. J. Cotton Growing Problems. New York, McGraw-Hill, 1955. 633p.         [ Links ]

GRIDI-PAPP, I.L.; KONDO, J.I.; SABINO, N.P. & FUZATTO, M.G. Resistência intrínseca da fibra de algodão determinada através de correção do índice Pressley. Bragantia, Campinas, 44(2):587-598, 1985.         [ Links ]

INTERNATIONAL SEED TESTING ASSOCIATION (ISTA). Handbook of vigour test methods. 2.ed. Zürich, ISTA, 1987. 72p.         [ Links ]

 

(1) Recebido para publicação em 3 de julho de 1996 e aceito em 8 de janeiro de 1997.

(2) Seção de Algodão, Instituto Agronômico (IAC), Caixa Postal 28, 13001-970 Campinas (SP).

(3) Seção de Sementes, IAC.

(4) Seção de Tecnologia de Fibras, IAC.

(5) Estação Experimental de Tatuí, IAC, Caixa Postal 33, 18270-000 Tatuí (SP).

(6) Com bolsa de produtividade científica do CNPq.

(7) Refere-se à massa em grama, de acordo com o Sistema Internacional de Unidades.

(8) Seção de Algodão, Instituto Agronômico, dados experimentais não publicados.

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