SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.57 issue1O DIÂMETRO DOS TUBOS CRIVADOS E A PRODUÇÃO DE BORRACHA EM CLONES DE SERINGUEIRAEFEITOS GÊNICOS, HETEROSE E DEPRESSÃO ENDOGÂMICA EM CARACTERES DE SORGO FORRAGEIRO author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

  • Article in xml format
  • How to cite this article
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Automatic translation

Indicators

Related links

Share


Bragantia

Print version ISSN 0006-8705On-line version ISSN 1678-4499

Bragantia vol. 57 n. 1 Campinas  1998

https://doi.org/10.1590/S0006-87051998000100009 

II. GENÉTICA DE MELHORAMENTO DE PLANTAS

 

MELHORAMENTO GENÉTICO DO TRIGO:
XXXII. AVALIAÇÃO DE NOVOS GENÓTIPOS DERIVADOS DO 'IAC 24' QUANTO ÀS CARACTERÍSTICAS AGRONÔMICAS E À QUALIDADE TECNOLÓGICA(1)

 

JOÃO CARLOS FELÍCIO (2), CARLOS EDUARDO DE OLIVEIRA CAMARGO (2,7), ROGÉRIO GERMANI (3), PAULO BOLLER GALLO (4), JAIRO LOPES DECASTRO (5,7) e RICARDO AUGUSTO DIAS KANTHACK (6)

 

 

RESUMO

Avaliaram-se 29 genótipos de trigo provenientes de cruzamentos entre o cultivar IAC 24 e fontes comprovadas de resistência a Puccinia recondita e características específicas para panificação, mais o cultivar IAC 24 (controle), mediante experimentos semeados em diferentes regiões tritícolas paulistas no período 1993-95. Analisaram-se as características seguintes: produtividade de grãos, resistência à ferrugem-da-folha, à tolerância ao alumínio tóxico e às qualidades industriais para pão. Considerando a produtividade, destacou-se, no Vale do Paranapanema, o genótipo no 24 (CM H. 74A-630/SX//CNO79/3/IAC 24); na região de Capão Bonito, o no 26 (Yaco "S"/IAC -24) e, em Mococa, com irrigação por aspersão, o no 23 (CM 6530/IAC-24). A resistência ao agente causal da ferrugem-da-folha foi transferida para os genótipos por meio dos cruzamentos envolvendo Yaco "S" e Agent/6*SKA//AGA/4/TI71. Seis genótipos entre os avaliados revelaram-se muito sensíveis ao Al3+ Os trigos duros apresentaram maior rendimento de extração de farinha, comparados aos moles. Considerando os diferentes parâmetros avaliados para qualidade tecnológica, destacaram-se os genótipos no 16 (IAS58/IAS55//ALD/3/IAC5/4/ALD/IAS58/8.1034.A//ALD/5/CNR/6/BUC"S"/7/IAC24) e no 12 (MRNG/4/NAD/FOR//PCN/3/BLT/MES/5/PAT2195*2/ZP"S"/6/ALD/EMU//CHAT/7/VEE/8/IAC24), com base no estudo da divergência genética por componentes principais.

Termos de indexação: Triticum aestivum L., rendimento de grãos, características agronômicas, resistência à ferrugem da folha, características tecnológicas da farinha.

 

ABSTRACT

WHEAT BREEDING:
XXXII. EVALUATION OF NEW GENOTYPES IN RELATION TO AGRONOMIC CHARACTERISTICS AND TECHNOLOGICAL QUALITY

Twenty nine wheat genotypes originated from crosses between the cultivar IAC-24 and proved sources of resistance to Puccinia recondita and specific bread production traits, plus the cultivar IAC-24 (control) were evaluated in comparison to cultivar IAC-24 (control). The experiments were carried out at different wheat regions of the State of São Paulo, Brazil, in the period 1993-95. Considering grain yield, the genotype 24 (CM H. 74 A-630/SX//CNO 79/3/IAC-24) showed good performance in the Paranapanema Valley; the genotype 26 (YACO "S"/IAC-24), at Capão Bonito Experiment Station; and, the genotype 23 (CM 6530/IAC-24), under sprinkler  irrigation, at Mococa Experiment Station. Resistance to the causal agent of leaf rust were noticed in the genotypes originated from the crosses where Yaco "S" and Agent/6*SKA//AGA/4/TI71 were involved. Six out of the 29 evaluated genotypes presented high sensitivety to the Al toxicity. The hard wheats showed high yield of flour extraction compared to the soft wheats. Considering the different parameters under evaluation for technological quality the genotypes 16   (IAS58/IAS55//ALD/3/IAC5/4/ALD/IAS58/8.1034.A//ALD/5/CNR/6/BUC"S"/7/IAC24 ) and 12 (MRNG/4/NAD/FOR//PCN/3/BLT/MES/5/PAT2195*2/ZP"S"/6/ALD/EMU//CHAT/7/VEE/8/IAC24) were the best, based in the study of genetic diversity by principal component analysis.

Index terms: Triticum aestivum L., grain yield, agronomic characteristics, leaf rust resistance, flour technological quality.

 

1. INTRODUÇÃO

No início da década dos 80s, foram recomendados para semeadura, no Estado de São Paulo, os cultivares IAC 21 e IAC 22. Em comparação com as testemunhas, 'BH 1146' e 'IAC 5', o 'IAC 21' mostrou produção de grãos 8 e 12% superior, e 'IAC 22', 5 e 14% respectivamente. Esses cultivares apresentaram, ao longo de cinco anos de estudo, menores índices de infecção de ferrugem-do-colmo, sobressaindo o 'IAC 22', com baixos índices de infecção do patógeno (P. graminis tritici). Ambos mostraram reação de tolerância à toxicidade de alumínio, mas apresentaram porte alto (Felicio et al., 1985).

A planta tradicional de trigo tem altura de 125 a 150 cm, sendo considerada alta com colmo e palha fraca, e durante o seu desenvolvimento fabrica hidrato de carbono, depositando uma grande quantidade de matéria seca no colmo e nas folhas, em relação ao que deposita nos grãos (Hanson, 1982).

O IAC 24 foi o primeiro cultivar de trigo de porte semi-anão, a partir da fonte de nanismo Norin-10/Brevor14, portador de alto rendimento de grãos, tolerância à toxicidade de alumínio (Al3+) e excelentes qualidades tecnológicas para a panificação, obtido pelo programa de melhoramento genético do Instituto Agronômico, por meio de cruzamento artificial (Felicio et al., 1988). Esse cultivar é recomendado para a semeadura de sequeiro e também com irrigação por aspersão, permitindo alto potencial de rendimento com adubação nitrogenada, em vista da acentuada resistência ao acamamento.

De acordo com Poehlman (1974), os cultivares que constituem tipos de excelência para a panificação, com o decorrer dos anos, são os mais solicitados pela indústria moageira. Avaliam-se as qualidades dos demais em comparação a esses, tidos como padrão. O trigo Marquis, um dos primeiros cultivares do tipo vermelho, duro de primavera (Hard Red Spring), foi considerado como excelente por suas qualidades para panificação; posteriormente, outros cultivares foram considerados por suas qualidades em regiões nas quais se adaptaram.

A qualidade de determinado cultivar de trigo é o resultado de uma série de fatores, tais como: características genéticas, condições edafoclimáticas e as técnicas de cultivo, que irão influenciar a planta e a composição do grão (Mandarino,1993).

O objetivo deste trabalho foi avaliar o 'IAC 24' em comparação com novos genótipos obtidos a partir de cruzamentos artificias entre esse cultivar e genótipos do programa de melhoramento do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (CIMMYT - México), portadores também de genes de nanismo, resistentes às ferrugens e de boa qualidade industrial, mas suscetíveis ao alumínio tóxico encontrado em nossos solos.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

O cultivar de trigo IAC 24 Tucuruí (Felicio et al., 1988), originário do cruzamento IAS 51/IRN 597/70, com bom rendimento de grãos, ciclo médio (130 dias da germinação à maturação), porte semi-anão, tolerante ao Al3+ e com boas qualidades tecnológicas para a panificação foi cruzado artificialmente com genótipos introduzidos do CIMMYT.

Efetuaram-se oito ciclos de seleção nas populações híbridas segregantes, obtendo-se 29 novos genótipos que, juntamente com o 'IAC 24', foram estudados durante o período 1993-95, em experimentos semeados em condição de sequeiro nas localidades de Capão Bonito (Zona B), em Maracaí e Florínea (Zona A) e com irrigação por aspersão em Mococa (Zona H). Essas regiões tritícolas são distintas quanto às condições climáticas e de fertilidade do solo, de acordo com as recomendações da Comissão Técnica de Trigo da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (CATI, 1994) para o Estado de São Paulo.

Os dados relativos à genealogia dos genótipos avaliados, à altura média das plantas em cada zona tritícola medida no campo na época de maturação a distância, em centímetros, do nível do solo ao ápice da espiga, excluindo as aristas, e o ciclo da planta, da emergência à maturação, encontram-se no Quadro 1.

 

57n1a2t1.GIF (55761 bytes)

 

Os experimentos foram delineados em blocos completos ao acaso, com três repetições por local. Cada parcela foi constituída por seis linhas de 3 m de comprimento, com espaçamentos de 0,20 m entre si, e separação lateral de 0,60 m entre as parcelas. Procedeu-se à semeadura com 80 sementes viáveis por metro linear de sulco, realizando-se à colheita na área total das parcelas, ou seja, 3,6 m2.

A adubação mineral foi feita a lanço antes da semeadura e depois incorporada ao solo. A quantidade de fertilizantes aplicada nos diferentes locais baseou-se nas tabelas de recomendação de adubação e calagem do Instituto Agronômico (Raij et al., 1985).

Nos experimentos irrigados, adotou-se o método proposto por Silva et al. (1984): consiste em uma irrigação inicial após a semeadura, de 40-60 mm, a fim de umedecer o perfil do solo, bem como a instalação de tensiômetros em diferentes pontos, à profundidade de 12 cm. As irrigações complementares foram realizadas quando a média das leituras dos tensiômetros indicava 0,6 atm; determinou-se a lâmina líquida aplicada pela evaporação acumulada, medida no tanque classe A, entre os intervalos de irrigação.

Para o estudo do comportamento dos cultivares em relação à ferrugem-da-folha (Puccinia recondita Rob.ex-Desm. f. sp. tritici), em condições naturais de infecção em campo, avaliaram-se as plantas após o florescimento, adotando-se a escala modificada de Cobb, empregada no "International Spring Wheat Rust Nursery" e utilizada por Schramm et al. (1974), a qual é composta por um número estimado em porcentagem de infestação do agente causal na folha, complementada pelo tipo de reação.

Avaliou-se o rendimento de grãos medindo, em gramas, a produção total de cada parcela, a qual foi transformada para quilograma/hectare.

Os genótipos estudados foram também testados em soluções nutritivas contendo 0, 3 e 6 mg/litro de Al3+, conforme método já publicado por Moore et al. (1976); Camargo & Oliveira (1981) e Camargo et al. (1987).

Para avaliação da qualidade tecnológica dos genótipos estudados, utilizaram-se só os experi-mentos da Estação Experimental de Mococa. As produções de grãos das três parcelas de cada experimento (local) foram juntadas para se obter quantidade suficiente de grãos para as determinações a seguir relacionadas.

Umidade dos grãos: determinada pelo método no 44-15A da American Association of Cereal Chemists (AACC) (1983).

Peso hectolítrico(8): utilizando-se a balança "Dalle Molle", considerando-se a massa, em quilograma, de 1 L de grãos, obtida após fazer fluir livremente uma amostra, contida em cone de alimentação, em um recipiente de coleta de volume de 1 L.

Massa de mil sementes: massa, em gramas, de mil sementes tomadas ao acaso da produção total de cada parcela.

Rendimento de extração de farinha (moagem): empregando-se o moinho experimental "Brabender Quadrumar Senior", trabalhando com 2 kg de grãos, com base no método da AACC no 26-20 (1983) . Os grãos tiveram sua umidade ajustada para 15%, 16-20 h antes da moagem.

Dureza do grão: determinada mediante o tempo de moagem de 4 g de amostra, utilizando-se o "Brabender Micro-hardness Test" (Brabender OHG, Dvisburg). Quanto maior o tempo de moagem, menor a dureza do grão.

Microssedimentação: em SDS (dodecil sulfato de sódio) pelo método modificado por Peña & Amaya (1985).

Falling number: determinado pelo método no 56-81B da AACC (1983).

Propriedades de mistura da massa: determinadas no farinógrafo "Brabender", pelo sistema farinha-água, de acordo com o método no 54-21 da AACC (1983). Os parâmetros usados para interpretar o farinógrafo foram absorção de água, tempo de desenvolvimento da massa (TDM), estabilidade (EST), índice de tolerância à mistura (ITM) e valor volumétrico (VV) em unidades farinográficas.

Propriedades de extensão da massa: determinadas nos dados do equipamento denominado alveógrafo "Chopin", de acordo com o método no 54-30 da AACC (1983). Os parâmetros básicos das curvas alveográficas estudados foram os seguintes: pressão máxima (P); abscissa média de ruptura (L); índice de configuração da curva (P/L) e energia de deformação da massa (W).

Os rendimentos de grãos de cada genótipo dos experimentos foram submetidos à análise estatística segundo o modelo para grupos de experimentos (Pimentel-Gomes, 1970). Os dados médios anuais de peso hectolítrico, massa de mil sementes, extração de farinha, sedimentação, "falling number", e os parâmetros farinográficos e alveográficos médios obtidos, foram submetidos à análise da variância, correlação simples, estudo de divergência genética por componentes principais e método de agrupamento de Tocher (Cruz & Regazzi, 1994). Utilizou-se para a comparação das médias o teste de Duncan.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os fatores limitantes do rendimento de um genótipo não são gerais, posto que um deles que limita o rendimento em uma região pode não ser significativo em outra. Fatores climáticos, como excesso ou deficiência hídrica e geadas, podem afetar o rendimento de um genótipo, independentemente de sua base genética.

De acordo com a análise da variância (Quadro 2) dos experimentos das localidades de Maracaí e Florínea, em conjunto, do Vale do Paranapanema, no período de 1993-95, excetuando-se o ano de 1994, cujos experimentos foram considerados perdidos pelas fortes geadas ocorridas em junho-julho, mostrou efeitos significativos para ano, local, genótipos, para as interações ano x genótipo e ano x local x genótipo, e não significativa para local x genótipo, provavelmente em vista de as condições climáticas e edáficas terem sido semelhantes para a região do Vale do Paranapanema, no período estudado.

 

57n1a2t2.GIF (71321 bytes)

 

Destacou-se quanto ao rendimento médio de grãos, transformados em quilograma por hectare, o genótipo (tratamento) 24, com maior produtividade em relação ao IAC 24 (genótipo recorrente), não diferindo, porém, estatisticamente, dos nos 2, 9, 29, 3, 5, 7, 20, 10, 8, 15, 21, 23, 14, 1, 4, 11, 17, 13 e 30.

Os rendimentos médios de grãos, transformados em quilograma por hectare, bem como o resumo da análise estatística dos 29 genótipos e do IAC 24, avaliados na Estação Experimental de Capão Bonito, em 1993-95, encontram-se no Quadro 3. Na análise conjunta, detectaram-se efeitos significativos para ano, genótipo e para as interações ano x genótipo. Entre os anos, 1993 apresentou o maior rendimento, sendo 1994 o de menor rendimento, devido às geadas ocorridas na fase do enchimento de grãos. Destacou-se, quanto à produtividade de grãos no período, o genótipo no 26, não diferindo, porém, dos nos 28, 20 e 23. Estes não diferiram dos genótipos nos 17, 15, 5, 2 e 8, que mostraram rendimentos médios superiores ao IAC 24.

 

57n1a2t3.GIF (45442 bytes)

 

Nos experimentos instalados no período de 1993-95 em Mococa, com irrigação por aspersão (Quadro 4) , a análise da variância conjunta mostrou efeito não significativo para ano e significativo para genótipo e para a interação ano x genótipo, provavelmente beneficiados com a irrigação. O genótipo no 23 mostrou se como o mais produtivo, não diferindo, porém, dos nos 30, 5, 20, 8, 6, 11, 4, 12, 24, 14, 29, 21, 10, 15, 1, 19 e 28, com rendimento de grãos superiores ao do IAC 24.

 

57n1a2t4.GIF (47700 bytes)

 

A porcentagem de área foliar infectada pelo agente causal da ferrugem-da-folha, em condições de campo no estádio de planta adulta, levando-se em consideração somente o ano de 1993, quando houve manifestação mais acentuada da doença (Quadro 5), mostrou que os genótipos provenientes dos cruzamentos Yaco "S" / IAC 24 ( nos 1, 2, 3, 5, 6, 7, 8, 10 e 26) com exceção do no 4, e o Agent/6*SKA//AGA/4/TI71/5/IAC 24 (no 25) foram considerados como resistentes ao agente causal da doença. O CM H.74.A-630/SX//CNO79/3/ IAC 24 (no 24) foi o mais suscetível.

 

57n1a2t5.GIF (28776 bytes)

 

As médias de comprimento das raízes de cinco plantas de cada genótipo, medidas após 72 horas de crescimento nas soluções nutritivas completas, que se seguiram a 48 horas de crescimento nas soluções de tratamento contendo diferentes concentrações de alumínio (3 e 6 mg/litro) são representadas na Figura 1.

 

57n1a2f1.GIF (27391 bytes)

 

Todos os genótipos avaliados revelaram redução no crescimento radicular nas soluções de tratamento contendo Al3+ em relação ao da solução de tratamento com 0 mg/litro do elemento. Os genótipos nos 5, 6, 7, 8, 10, 11 e 30 revelaram-se muito sensíveis ao alumínio tóxico, pois suas raízes primárias não mostraram desenvolvimento depois do tratamento em solução com 3 mg/litro de Al3+. Excetuando-se os genótipos nos 3, 4, 13 e 27, os demais exibiram crescimento das raízes primárias até a concentração de 6 mg/litro de Al3+, sendo, portanto, considerados tolerantes a essa concentração.

Os resultados das determinações do peso hectolítrico, da massa de mil sementes e o rendimento de extração de farinha das amostras dos genótipos avaliados obtidos nos experimentos de Mococa, em 1993-95, encontram-se no Quadro 6.

 

57n1a2t6.GIF (54159 bytes)

57n1a2t6c.GIF (44350 bytes)

 

Os genótipos mostraram, em geral, altos valores do peso hectolítrico, principalmentes em 1994 e 1995, revelando o no 19 os maiores valores na média geral: 81,96 kg; os menores foram obtidos pelos genótipos 26 e 2: 79,16 e 79,33 kg respectivamente. A análise da variância conjunta demonstrou efeito significativo para ano e genótipos.

Para o estudo da massa de mil sementes, a análise da variância dos dados obtidos no período apresentou-se significativa também para anos e genótipos, valores esses que podem ser considerados altos devido ao emprego da irrigação por aspersão. O genótipo 24 exibiu o maior valor médio (46,75 g) e o 8, o menor (34,52 g).

O rendimento de extração de farinha não apresentou, na análise estatística, diferença entre os anos em estudo: entretanto, o rendimento entre os genótipos foi significativo, variando na faixa de 63,5 a 75,82% para os genótipos 10 e 11 respectivamente.

A análise da variância dos resultados da dureza dos grãos - Quadro 7 - apresentou efeito significativo para anos e genótipos. Os dados de 1993 revelaram maior índice de dureza, comparados aos outros dois anos em estudo, provavelmente devido à maior variação nas condições climáticas (umidade), principalmente no período de pré-colheita. Os genótipos 1, 7, 8,10, 26 e 30 foram considerados como de textura mole ("soft"), pois apresentaram índices maiores que 64 segundos, sendo os demais considerados como de textura dura ("hard").

 

57n1a2t7.GIF (46540 bytes)

57n1a2t7c.GIF (39566 bytes)

 

Associando-se o rendimento de extração de farinha e a dureza dos grãos, de acordo com os Quadros 6 e 7, verificou-se que os genótipos de grão duro mostraram maior índice de extração de farinha comparados aos de grão mole. Os trigos moles apresentam baixa extração de farinha, além de não moerem bem (Greenaway, 1969).

O teste de sedimentação com SDS, indicador da força do glúten dos trigos, revelou efeito significativo entre genótipos e não significativo para anos. Valores <12,0 mL são considerados fracos e os >18,0 mL, fortes. Segundo o Quadro 7, pode-se destacar o genótipo 7 e, próximo a este, o 6.

O índice de queda ("falling number"), que caracteriza as farinhas de trigo quanto à atividade das amílases, permitindo prever seu comportamento durante a etapa de fermentação (Quadro 7), revelou na analise da variância conjunta efeito significativo entre os anos avaliados com o melhor índice para 1995 e seus genótipos. O menor índice médio foi o do 30: 294 segundos. Altas atividades de amílases só se verificaram na safra de 1993, na qual os nos 2, 14, 25 e 30 mostraram níveis acima do desejável, ou seja, índices >200 segundos (Mandarino, 1993).

A alveografia, que simula, graficamente, o comportamento da massa durante a etapa de fermentação do processo de panificação - Quadro 8 - apresentou, na análise da variância conjunta dos parâmetros alveográficos P/L e W, efeitos significativos para anos e genótipos. Considerando os dados médios em conjunto dos dois parâmetros, o no 16 teve o melhor comportamento, não diferindo, entretanto, estatisticamente, dos genótipos 6, 17 e 11 . Considerando W com índice superior a 200 um bom indicativo da força do glúten, só os genótipos 26 e 25 tiveram índices inferiores a esse na média geral: portanto, pode-se considerá-los como de glúten fraco em comparação aos demais.

 

57n1a2t8.GIF (70562 bytes)

 

As características farinográficas dos genótipos de trigo, obtidas no farinógrafo - Quadro 9 - como absorção de água (ABS), estabilidade (EST) e valor volumétrico (VV), apresentaram, na análise da variância conjunta, efeitos significativos para genótipos e para anos, e não significativo para EST em anos. Comparando-se os Quadros 7 e 9, observa-se que os genótipos de textura dura apresentaram maiores índices de absorção de água, confirmando Stenvert (1974).

 

57n1a2t9.GIF (49008 bytes)

 

A qualidade física de uma massa para panificação depende da força da farinha e do seu índice de estabilidade, que indica o quanto uma massa pode receber ação mecânica sem perder suas propriedades viscoelásticas - fator importante para a caracterização da qualidade da farinha. O genótipo 16 apresentou o maior índice médio de EST, 27,2 minutos, não diferindo estatisticamente dos genótipos 15, 11 e 30 e, estes, dos genótipos 6, 17, 12, 7, 13, 23, 9,10, 28, 4, 27, 8 e 5, que apresentaram, na avaliação geral, médias superiores a 10 minutos, índice mínimo indicativo de farinha de glúten forte, sendo superiores, portanto, ao cultivar IAC 24, utilizado como pai recorrente. Os genótipos 24, 14 e 25, com valores inferiores a 5 minutos, mostraram ser de qualidade de glúten fraca.

A avaliação do VV demonstrou, na análise da variância conjunta, efeito significativo para anos e genótipos. O no 15 (86,6) apresentou o maior valor, não diferindo estatisticamente, porém, dos genótipos 16 (85,6) e 17 (81,0) e estes, conseqüentemente, do 30 (79,6). Para panificação, valores de VV inferiores a 60 são considerados indesejáveis, estando os genótipos 3, 14, 19, 24, 25 e 26 abaixo do índice mínimo.

As correlações calculadas entre todos os parâmetros avaliados nos experimentos de Mococa mostraram valores positivos e significativos ao nível de 5% para PMS x DZ, PMS x ABS, extração x ABS, DZ x SED, W x P/L, W x EST, W x VV e EST x VV e negativos e significativos para extração x SED, DZ x W e DZ x ABS. Não se observaram correlações significativas entre a produção de grãos e os demais parâmetros.

O estudo da divergência genética por componentes principais descritos por Pearson em 1901 (in Cruz & Regazzi, 1994) foi empregado para a avaliação da importância de cada parâmetro (excluindo produção de grãos) sobre a variação total entre os genótipos. Os resultados mostraram, em ordem de importância, que PMS, SED, VV, EST, ABS, FN, W, extração e PH contribuíram efetivamente para a seleção dos melhores genótipos, enquanto P/L e DZ seriam parâmetros considerados pouco expressivos.

O agrupamento dos genótipos similares com base no método Tocher (citado por Cruz & Regazzi, 1994), considerando a ordem de importância de cada parâmetro, permitiu o estabelecimento de sete grupos assim constituídos: Grupo I: 6, 26, 24, 4, 28, 8, 15, 17, 19, 13, 1, 21, 20, 27, 10, 30, 2, 3, 25, 5, 22, 11 e 14; Grupo II: 9 e 29; Grupo III: 18; Grupo IV: 7; Grupo V: 12; Grupo VI: 16, e Grupo VII: 23. Os genótipos 16 (Grupo VI) e 12 (Grupo V) apresentaram as melhores características de qualidade de panificação.

Esses genótipos seriam fontes genéticas importantes em cruzamentos visando à obtenção de cultivares apresentando, ao mesmo tempo, alto potencial produtivo e qualidade para panificação.

 

4. CONCLUSÕES

1. Os genótipos avaliados não apresentaram ampla adaptação regional quanto ao rendimento de grãos. Destacou-se, no Vale do Paranapanema, o no 24 (CM H.74A-630/SX//CNO79/3/IAC24); na região sul (Capão Bonito) o genótipo 26 ( Yaco"S"/IAC 24) e com irrigação por aspersão, o no 23 (CM6530/IAC 24).

2. Os genótipos 1, 2, 3, 5, 6, 7, 8, 10 e 26 apresentaram resistência ao agente causal da ferrugem-da- folha em condições naturais de campo em estádio de planta adulta.

3. Os genótipos 5, 6, 7, 8, 10, 11 e 30 revelaram-se muito sensíveis ao alumínio tóxico, pois suas raízes primarias não mostraram crescimento após tratamento em solução de 3 mg/litro de Al3+ .

4. Os genótipos de trigo de textura dura ("hard") apresentaram maior rendimento de extração de farinha comparados ao de textura mole ("soft").

5. Considerando os diferentes parâmetros analisados para qualidade do trigo relacionados com o destino industrial da farinha, destacaram-se os genótipos 16 e 12 com glúten muito forte (que podem ser utilizados em mistura com trigos mais fracos) e os nos 25, 26 e 24, glúten fraco, demonstrando os demais genótipos avaliados parâmetros ideais para panificação.

6. Em ordem de importância, PMS, SED, VV, EST, ABS, FN, W, extração e PH contribuíram efetivamente para a seleção dos melhores genótipos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMERICAN ASSOCIATION OF CEREAL CHEMISTS (AACC). Approved methods of the American Association of Cereal Chemists. 8.ed. St. Paul, AACC, 1983. v.1, n.p.         [ Links ]

CAMARGO, C.E.O.; FELICIO, J.C. & ROCHA JUNIOR, L.S. Trigo: tolerância ao alumínio em solução nutritiva. Bragantia, Campinas, 46(2):183-190, 1987.         [ Links ]

CAMARGO, C.E.O. & OLIVEIRA, O.F. Tolerância de cultivares de trigo a diferentes níveis de alumínio em solução nutritiva e no solo. Bragantia, Campinas, 40:21-31, 1981.         [ Links ]

COORDENADORIA de ASSISTÊNCIA TÉCNICA INTEGRAL (CATI). Recomendações da Comissão Técnica de Trigo para 1994. 2.ed. Campinas, 1994. 74p. (Boletim técnico, 216)         [ Links ]

CRUZ, C.D. & REGAZZI, A.J. Modelos biométricos aplicados ao melhoramento genético. Viçosa, UFV, Imprensa Universitária, 1994. 390p.         [ Links ]

FELICIO, J.C.; CAMARGO, C.E.O.; BARROS, B.C. & VITTI, P. Iguaçu (IAC 21) e Tocantins (IAC 22) : cultivares de trigo de sequeiro para o Estado de São Paulo. Bragantia, Campinas, 44 (1): 115-128, 1985.         [ Links ]

FELICIO, J.C.; CAMARGO, C.E.O.; FERREIRA FILHO, A.W.P.; FREITAS, J.G.; BARROS, B.C. & VITTI, P. Tocantins (IAC 23) e Tucuruí (IAC 24): novos cultivares de trigo. Bragantia, Campinas, 47(1): 93-97, 1988.         [ Links ]

GREENAWAY, W.T. A wheat hardness index. Cereal Science Today, St. Paul, 14(2):4-6, 1969.         [ Links ]

MOORE, D.P.; KRONSTAD, W.E. & METZGER, R.J. Screening wheat for aluminum tolerance. In: WORKSHOP ON PLANT ADAPTATIONS TO MINERAL STRESS IN PROBLEM SOILS. Beltsville, Maryland, 1976. Proceedings. Ithaca, Cornell University, 1976. p.287-295.         [ Links ]

HANSON, H.; BORLAUG, N.E. & ANDERSON, R.G. Trigo en el tercer mundo. México, Centro Internacional de Mejoramiento de Maiz y Trigo, 1982. 166p.         [ Links ]

MANDARINO, J.M.G. Aspectos importantes para a qualidade do trigo. Londrina, EMBRAPA-CNPSo, 1993. 32p. (EMBRAPA-CNPSo, Documento, 60)         [ Links ]

PEÑA, R.J. & AMAYA, A. Evaluación rápida de la fuerza de gluten en trigos harineros, trigos cristalinos y triticales com la prueba de sedimentación con dodecil sulfato de sodio. México, Centro Internacional de Mejoramiento de Maiz y Trigo (CIMMYT), 1985. 6p. (Mimeografado)         [ Links ]

PIMENTEL-GOMES, F. Curso de estatística experimental. 4.ed. rev. ampl. Piracicaba, Nobel, 1970. 430p.         [ Links ]

POEHLMAN, J.M. Mejoramiento genético del trigo. In: ________. Mejoramiento genético de las cosechas. México, Limusa, 1974. p.123-150.         [ Links ]

RAIJ, B.van; SILVA, N.M.; BATAGLIA, O.C.; QUAGGIO, J.A.; HIROCE, R.; CANTARELLA, H.; BELINAZZI JUNIOR, R.; DECHEN, A.R. & TRANI, P.E. Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. Campinas, Instituto Agronômico, 1985. 107p. (Boletim técnico, 100)         [ Links ]

SCHRAMM, W.; FULCO, W.S.; SOARES, M.H.C. & ALMEIDA, A.M.P. Resistência de cultivares de trigo em experimentação ou cultivo no Rio Grande do Sul às principais doenças fúngicas. Agronomia Sul-riograndense, Porto Alegre, 10(1): 31-39, 1974.         [ Links ]

SILVA, E.M.; LUCHIARI JUNIOR, A.; GUERRA, A.F. & GOMIDE, R.L. Recomendações sobre o manejo de irrigação em trigo para a região dos cerrados. In: REUNIÃO DA COMISSÃO NORTE-BRASILEIRA DE PESQUISA DE TRIGO, 10., Campinas, 1984. Anais. Brasília, EMBRAPA-CPAC, 1984. 60p.         [ Links ]

STENVERT, N.L. Grinding resistance: a simple measure of wheat hardness. In: Journal of Flour & Animal Feed Milling, London, 1974. p.24-27.         [ Links ]

 

(1) Recebido para publicação em 26 de maio e aceito em 11 de novembro de 1997.

(2) Centro de Plantas Graníferas, Instituto Agronômico (IAC), Caixa Postal 28, 13001-970 Campinas (SP).

(3) EMBRAPA, Centro Nacional de Pesquisa de Tecnologia Agroindustrial de Alimentos - CTAA, 23020-470 Rio de Janeiro (RJ).

(4) Estação Experimental de Agronomia de Mococa, IAC, Caixa Postal 58, 13730-970 Mococa (SP).

(5) Núcleo de Agronomia do Sudoeste, IAC, Caixa Postal 62, 18300-000 Capão Bonito (SP).

(6) Núcleo de Agronomia do Vale do Paranapanema, IAC, Caixa Postal 263, 19800-000 Assis (SP).

(7) Com bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq.

(8) O peso hectolítrico corresponde à massa de 100 L de grãos.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License