SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.41 número2A Criança entre o Estado, o Mercado e a Família: O Sistema Sueco de Creches em uma Perspectiva ComparadaA Teoria e a Tipologia de Classe Neomarxista de Erik Olin Wright índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Dados

versão impressa ISSN 0011-5258versão On-line ISSN 1678-4588

Dados v. 41 n. 2 Rio de Janeiro  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52581998000200003 

Mapeando Estratos: Critérios para Escolha de uma Classificação

Maria Celi Scalon

 

 

Definir uma classificação de estratos, apesar de ser um trabalho delicado, é, em geral, inevitável para grande parte dos cientistas sociais que lida com temas como classes, mobilidade social, trajetórias ocupacionais, estrutura de emprego etc. Essa tarefa requer opções teóricas e metodológicas para que a categorização resultante sirva aos objetivos da pesquisa, no sentido não só de capturar os elementos relevantes para o objeto de análise, como também de torná-la operacionalizável, isto é, passível de um tratamento metodológico apropriado. Muitos pesquisadores tomam a construção das categorias de análise como um primeiro passo necessário na direção de empreender a pesquisa empírica, outros vêem nesse processo um fim em si mesmo, ou seja, a meta é desenvolver um esquema que dê conta de mapear as divisões sociais de classe.

A elaboração de uma classificação de estratos pressupõe a delimitação do campo teórico-conceitual dentro do qual se processam as escolhas dos elementos considerados essenciais para a definição dos estratos. Nesse caso, impõe a adesão a algumas correntes da teoria de classes, uma vez que requer a determinação, a priori, dos eixos que estabelecem as diferenças e igualdades entre categorias e, portanto, demarcam as fronteiras entre elas. É possível afirmar que toda a produção teórica nas áreas de estratificação, classes e mobilidade foi, e é, informada pelas teorias de Marx e Weber. O título dado a um capítulo do livro de Breen e Rottman (1995) é expressivo da importância desses dois sociólogos: "On the Shoulders of Giants: Class Theory after Marx and Weber". É assim que os estudos de classes realizados no século XX podem ser entendidos, especialmente na Europa, como teorias formadas basicamente a partir do debate iniciado por Marx e Weber.

Similaridades entre neomarxistas e neoweberianos podem ser identificadas, especialmente por construírem esquemas de classes relacionais em oposição aos esquemas de classes hierárquicos. Na realidade, desde a Segunda Guerra, marxistas e weberianos usam a teoria de classes para explicar teoricamente como as ocupações podem estar localizadas dentro de uma estrutura de posições de classes e, através dessa estrutura, observar empiricamente a estratificação social. Contudo, são as diferenças entre essas duas "escolas" que movimentam o debate sobre classes.

Analisarei aqui, de forma sumarizada, os trabalhos de Erik Olin Wright e John H. Goldthorpe, apontados como exemplos de teóricos neomarxista e neoweberiano, respectivamente. A escolha de ambos deve-se ao fato de eles estarem voltados para uma orientação empírica dos estudos de estratificação social. Tal decisão, porém, implicou a exclusão nesta introdução de alguns sociólogos importantes, que tiveram papel relevante para o desenvolvimento teórico das análises de classes, mas não as direcionaram para estudos empíricos; é o caso de Giddens, Parkin e Poulantzas1, entre outros. Assim, a opção por Wright e Goldthorpe é um recorte na discussão da teoria de classes, estabelecido dada a natureza deste artigo, cujo objetivo é a construção de um esquema classificatório de estratos sociais voltados para a aplicação empírica.

A obra de Marx não fornece uma definição precisa de seu conceito de classe, embora esteja muito presente nela. Assim, na tentativa de dar continuidade à sua teoria de classes, autores neomarxistas buscam não só completar essa lacuna, mas, também, lidar com a crescente complexidade da estrutura de classes das sociedades atuais, mantendo a base de sua teoria, que é a perspectiva do conflito e do antagonismo de interesses intrínsecos às relações de classes no modelo capitalista. Recorde-se que a teoria marxista identificava duas classes polarizadas, capitalista e proletária, ou ainda, proprietária e não proprietária dos meios de produção.

No entanto, diante da realidade da sociedade capitalista contemporânea, na qual é possível reconhecer empiricamente a fragmentação da estrutura de classes e a expansão da classe média, a maior dificuldade a ser enfrentada pelos teóricos neomarxistas é manter fidelidade aos conceitos de conflito, polarização e antagonismo das classes sociais, bem como à idéia de um movimento inexorável no sentido da proletarização das classes sociais não capitalistas que teria como conseqüência necessária a revolução. A perspectiva dual das relações de classes estabelece o problema de como tratar essas relações como polarizadas quando existem posições de classe não polarizadas.

Surge então uma questão: se as relações de classes são polarizadas e, portanto, a estrutura de classes está cindida em classes antagônicas, qual o lugar da classe média? A perspectiva de polarização das classes é desafiada pela complexificação da estrutura de classes capitalista, com a expansão de postos diversificados na classe média, ou ainda, como se convencionou chamar, no white-collar. Além disso, o conceito de proletarização é desafiado pelo fato de as classes médias não estarem sendo substituídas, como ocorre com a classe operária, por novos métodos de produção que tornem seu trabalho mecânico e despersonalizado, o que é uma condição essencial para a definição de proletarização de uma classe. Das várias formas encontradas para lidar com essa restrição, pode-se indicar como principal corrente teórica neomarxista aquela que não reconhece a classe média como uma classe, em lugar disso, percebe-a situada simultaneamente em mais de uma classe, da qual Wright tornou-se a maior expressão2. Nesse sentido, as posições assumidas por essa classe, ou classes, são entendidas como posições contraditórias nas relações de classe.

Um exemplo são os administradores, que estão localizados, ao mesmo tempo, na classe trabalhadora e na classe capitalista. Isto porque são assalariados, mas também por controlarem a operação de produção e o trabalho de outros empregados. Além do mais, deve-se considerar os trabalhadores com recursos credenciais que, se, por um lado, são explorados pelos proprietários do capital, por outro, são exploradores dos trabalhadores não qualificados, beneficiando-se da escassez de profissionais qualificados, criada pela limitação do acesso à educação e ao treinamento.

É essa a maior contribuição de Erik Olin Wright à teoria marxista de classes, defendida em sua tese de doutorado, publicada em 1976, quando propõe seu primeiro mapa de classes. Contudo, em 1985, ele faz uma revisão crítica de sua teoria no livro Classes, reconhecendo que seu conceito de posições contraditórias de classes não é fiel ao eixo conceitual da teoria marxista, por basear-se, quase que exclusivamente, na idéia de dominação em lugar da de exploração, que é o conceito-chave para explicar as relações entre posições e interesses de classes, e o conseqüente conflito aí gerado. Segundo Wright, o conceito de dominação não implica conflito de interesses dos atores como membros de classes, mas refere-se a qualquer situação de opressão.

Assim, ao resgatar, apoiado no trabalho de Roemer (1982), o conceito de exploração, ele recupera a idéia central da teoria marxista de que as classes possuem interesses objetivos, restabelecendo, portanto, a vocação da teoria de classes como teoria do conflito. 

"Exploração, ao contrário de dominação, implica intrinsecamente um conjunto de interesses materiais. Se nós queremos reter algum sentido no qual os interesses dos indivíduos como membros de classes não são simplesmente quaisquer interesses que esses indivíduos têm subjetivamente, então a mudança para um conceito domination-centered torna isto mais difícil" (Wright, 1989:5).  

A nova classificação proposta por Wright (idem) está representada a seguir: 

 

Proprietários dos Meios de Produção

Não Proprietários (Trabalhadores Assalariados)

Tem capital suficiente para empregar e não trabalhar 1. Burguesia 4. Administradores e gerentes credenciados 7. Administradores semicredenciados 10. Gerentes não credenciados
Tem capital suficiente para empregar mas deve trabalhar 2. Pequenos empregadores 5. Supervisores credenciados 8. Supervisores semicredenciados 11. Supervisores não credenciados
Tem capital suficiente para trabalhar por conta própria mas não tem empregados 3. Pequena burguesia 6. Não-gerentes credenciados 9. Trabalhadores semicredenciados 12. Proletários

 

Este segundo mapa de classes de Wright deve ser lido considerando-se duas clivagens básicas: a primeira entre proprietários e não proprietários dos meios de produção; a segunda supõe divisões internas ¾ dos proprietários entre os que possuem e os que não possuem empregados; e os não proprietários segundo os tipos de credenciais e a posição na organização. Os proprietários compõem três estratos definidos de acordo com o emprego ou não de trabalhadores e também com o número de trabalhadores empregados. Os não proprietários estão dispostos em nove estratos: três deles referem-se aos administradores ¾ especialistas, semicredenciados e não credenciados ¾ , supervisores ¾ também divididos em especialistas, semicredenciados e não credenciados ¾ e, por fim, especialistas não administradores, trabalhadores não credenciados e proletários.

Como se pode observar, há três eixos que definem seu" mapa": recursos nos meios de produção, recursos organizacionais e recursos credenciais/qualificações; calcados na idéia de propriedade, posição na organização, no que concerne ao controle sobre o próprio trabalho e ao controle sobre o trabalho de outros; e credenciamento/treinamento. Deve-se considerar que essas dimensões estão intimamente associadas às de posição de mercado e posição de emprego introduzidas e defendidas por neoweberianos3, e até mesmo ao próprio conceito weberiano de skills.

A aplicação do esquema de classes de Wright pode ser encontrada no trabalho em que ele utiliza a análise de mobilidade para examinar as diferenças nos graus de permeabilidade intergeracional em três fronteiras de classes: propriedade, autoridade e qualificação (Western e Wright, 1994), que corresponde aos três eixos sobre os quais construiu seu segundo mapa de classes. Para tanto, os autores aplicam modelos log-lineares topológicos4 aos dados de mobilidade intergeracional de quatro países (EUA, Canadá, Noruega e Suécia), usando uma classificação composta de setes classes: empregadores, pequena burguesia, administradores-especialistas, administradores, profissionais, semiprofissionais e trabalhadores.

Western e Wright (1994) concluem que a fronteira de autoridade é a mais permeável de todas. Nos EUA e Canadá a fronteira de propriedade é a menos permeável, enquanto nos países europeus não há diferença significativa no grau de permeabilidade das fronteiras de propriedade e qualificação. Segundo eles, essas conclusões corroboram a teoria marxista, uma vez que a propriedade assume o papel de principal definidora das diferenças de classes. Essa perspectiva é ainda reforçada pelo fato de as fronteiras de classes entre trabalhadores e proprietários serem menos permeáveis do que seria de se esperar, utilizando um modelo que engloba a adição da permeabilidade das três dimensões em questão.

Contudo, não está longe de críticas a teoria de posições contraditórias de classe apresentada por Wright como solução para o impasse criado pela existência de classes intermediárias não polarizadas que surgiram na esteira do capitalismo do século XX. Essa perspectiva é questionada especialmente por estar centrada na idéia de exploração, que é tomada por ele como a base para a definição da estrutura das relações de classes. Isto porque, a exploração capitalista implica a noção de apropriação da força de trabalho de uma classe por outra, o que não corresponde ao tipo de relação entre especialistas e não especialistas. Mesmo considerando o argumento de Wright, de que indivíduos com qualificações e credenciais têm uma remuneração superior aos custos da produção dessas qualificações, torna-se difícil derivar daí a idéia de que existe exploração nas relações de produção entre especialistas e não especialistas.

Wright defende que os recursos organizacionais e as qualificações/credenciais são formas de exploração, embora secundárias, e também bases do antagonismo das relações de classes. No entanto, essa perspectiva pode ser questionada, uma vez que recursos organizacionais e credenciais estão vinculados a distinções no nível técnico e aos aspectos de autoridade e controle do trabalho." Assim, a desigualdade nos recursos organizacionais e de qualificações/credenciais não é a base das relações de exploração, mas está relacionada a diferenças na divisão técnica do trabalho ou nas relações de autoridade entre a(s) classe(s) não proprietária(s)" (Edgell, 1993:26).

Uma das críticas mais comuns à teoria de classes de Wright é que, apesar de seu intento de manter-se fiel ao marxismo, suas soluções para inserir as questões trazidas pelo capitalismo moderno no contexto teórico de Marx acabam por aproximar-se da conceituação de Weber e das teses defendidas por sociólogos neoweberianos. A inclusão do credencialismo e dos recursos organizacionais como base para a definição e diferenciação entre os estratos não proprietários pode ser diretamente associada ao que os neoweberianos definem como situação de mercado e situação de trabalho. Wright incorpora, assim, a idéia de Weber de que a posição de classe dos que não possuem propriedade é definida de acordo com o tipo de serviço que eles podem oferecer no mercado. Weber já destacava a crescente demanda por qualificação e credenciamento criada pelo processo de burocratização no capitalismo.

Giddens (1985) e Carter (1986) apresentam uma avaliação crítica dos conceitos desenvolvidos por Wright, dado que seu mapa de classes representa um afastamento da teoria de Marx em direção à de Weber. Enquanto Rose e Marshall (1989:4) são especialmente duros ao escrever

"Marxistas agora sabem o que não marxistas há muito já sabiam, isto é, formação de classes não é dada pela estrutura, mas que há uma ‘complexa e contingente [...] relação entre estrutura de classes e formação de classes’. É interessante que marxistas assim como Wright tenham chegado a essas conclusões, usando suas próprias versões do tipo de teorias de middle-range há muito usadas por neoweberianos"

Wright, ao tentar operacionalizar um esquema de classes que trouxesse a teoria de Marx para o plano empírico, teve que lidar com as dificuldades enfrentadas pela teoria marxista para explicar a complexa estrutura de classes das sociedades capitalistas atuais. Como solução, apresentou um esquema de classes que muito se aproximava da conceituação weberiana, reforçando o argumento de que a teoria do conflito de Marx não dá conta da adaptação do capitalismo às novas formas de divisão do trabalho e estratificação.

John H. Goldthorpe tem recusado constantemente o rótulo de sociólogo neoweberiano, ou ainda de left-weberian. Contudo, a teoria que informa a construção de seus esquemas de classes tem raízes evidentes na obra de Weber, confirmadas por suas referências às já clássicas definições de "posição de mercado" e "posição de trabalho" elaboradas por Lockwood, um weberiano confesso com quem trabalhou na década de 60.

Em The Blackcoated Worker, Lockwood define três conceitos que ganharam dimensões expressivas nos estudos de classes: (a) situação de mercado, que indica a posição econômica em termos de probabilidade de ser inserido no mercado de trabalho; treinamento, qualificações e experiências oferecidas no mercado; grau de segurança (estabilidade); oportunidade de mobilidade ascendente e recompensas materiais tais como salário, renda ou outras; (b) situação de trabalho, que inclui o conjunto de relações nas quais o indivíduo está envolvido em seu emprego em virtude da posição que ocupa na divisão do trabalho; e (c) situação de status, que corresponde à posição na hierarquia de prestígio da sociedade como um todo.

Para definir sua classificação, Goldthorpe utiliza como elementos básicos para a agregação de categorias ocupacionais a posição de mercado, ou seja, a posição na estrutura econômica, e a posição de trabalho, entendida como a posição nas relações de produção.

"Assim, nós combinamos categorias ocupacionais cujos membros poderiam parecer, à luz de evidências disponíveis, tipicamente comparáveis, por um lado, em termos de seus recursos e níveis salariais, seu grau de seguridade econômica e chances de melhoria econômica (i.e., situação de mercado); e, por outro, em suas posições dentro do sistema de autoridade e controle que governa o processo de produção no qual eles estão engajados (i.e., situação de trabalho)" (Goldthorpe, 1987:40). 

Em 1987, Goldthorpe desenvolveu a primeira versão de seu esquema de sete classes; a ela sucederam-se outras, mas sempre mantendo um alto grau de similaridade com esse primeiro esquema:

Classe I - Profissionais, administradores e officials de alto nível; gerentes de grandes indústrias e grandes proprietários.

Classe II - Profissionais de baixo nível, técnicos de alto nível, administradores de baixo nível, gerentes em grandes estabelecimentos industriais e de serviços; e supervisores de trabalhadores não manuais.

Classe III - Empregados no setor não manual de rotina.

Classe IV - Pequenos proprietários, artesãos por conta própria e outros trabalhadores por conta própria.

Classe V - Técnicos de baixo nível e supervisores de trabalhadores manuais.

Classe VI - Trabalhadores manuais qualificados na indústria.

Classe VII - Trabalhadores manuais semiqualificados ou sem qualificação e trabalhadores na agricultura.

Uma das preocupações de Goldthorpe é enfatizar que seu esquema de classes tem uma dimensão relacional, não hierárquica: "Nosso esquema de classes não deve ser visto como tendo ¾ ou não deve ser esperado que tenha ¾ uma forma hierárquica consistente" (idem:43). Contudo, sua meta principal não é desenvolver um esquema de classes, ao contrário, este é apenas um ponto de partida, embora essencial, para desenvolver seu objeto de estudo que é a mobilidade, uma vez que sua análise de classes se baseia na idéia de identidade demográfica de classe.

Segundo a idéia de identidade demográfica, classes são vistas como:" coletividades que são identificadas através do grau de continuidade com que seus membros, em conseqüência dos padrões de mobilidade e imobilidade de classe, estão associados com grupos particulares de posições no tempo" (Goldthorpe, 1983:467). E é o grau de identidade demográfica, isto é, de persistência e estabilidade na composição de uma classe que possibilita um grau de identificação e similaridade de interesses capaz de mobilizar a ação de classes nos planos político e social.

Como havia sido observado anteriormente, há muitas similaridades entre as teorias de classes marxista e weberiana e, mais especificamente, entre os esquemas de classes de neomarxistas e neoweberianos. As críticas feitas a Goldthorpe são, em grande medida, iguais àquelas feitas a Wright. A primeira delas é a de que o esquema de classes de Goldthorpe não pode ser exatamente considerado relacional, como ele define. Por relacional entende-se o esquema que inclui classes diametralmente opostas, supondo que uma classe obtém benefícios em detrimento da outra; já um esquema gradacional baseia-se em uma estrutura de hierarquias em que as posições são classificadas comparativamente umas às outras entre baixas e altas. Deve-se reconhecer que o esquema de classes proposto por Goldthorpe inclui ambas as dimensões, relacional e gradacional, e essa mesma crítica se aplica a Wright.

Outra crítica a Goldthorpe é que a distinção manual/não manual que aparece como dimensão dominante na sua definição das classes é confusa, isto porque ele posiciona ocupações não manuais de rotina no nível intermediário de seu esquema de classes. Essa crítica é dirigida, particularmente, por sociólogos envolvidos nas análises de gênero, que vêem no crescimento do número de mulheres no setor não manual de rotina uma correspondente proletarização dessas ocupações. Nesse sentido, a argumentação gira em torno da especificidade da estrutura de empregos das mulheres, na qual ocupações feminilizadas na classe não manual de rotina têm características de blue-collar. Contudo, é interessante destacar que a tese de proletarização do trabalho não manual feminino tem sido amplamente contestada, uma vez que sua validade empírica não é plenamente aceita (ver Marshall et alii, 1987; Goldthorpe, 1983; 1984).

Deve-se considerar que a divisão manual/não manual é de extrema importância, e as ocupações não manuais, mesmo consideradas de rotina e baixa qualificação, têm, em geral, um componente de estabilidade e prestígio não encontrado nas ocupações manuais. Como enfatiza Lockwood (1958), trabalhadores não manuais de rotina têm, no que se refere às chances de vida, situação de mercado e de trabalho superior à dos trabalhadores manuais.

Pode-se, ainda, apontar um grave problema no esquema de classes de Goldthorpe, o de não levar em conta a dimensão de propriedade na sua classificação das classes: service e intermediate. Nesse sentido, ele ignora uma dimensão básica na divisão de classes, tanto na teoria weberiana como na marxista, que é a propriedade, reunindo, assim, em uma mesma classe, proprietários e não proprietários. Mesmo considerando que as posições na service class privam de certo grau de autonomia e controle, não se pode confundir aqueles que administram o capital e, portanto, servem ao capital ou à burocracia, com os capitalistas. A classe denominada" service", serve ao capital, mas não é capitalista. Essa mesma limitação aparece na agregação das ocupações não manuais de rotina com a pequena burguesia.

O debate entre neoweberianos e neomarxistas expõe as divergências entre essas duas teorias, mas obscurece suas similaridades. Concretamente, os conceitos marxista e weberiano de classe sobrepõem-se, principalmente, à ênfase dada à propriedade como fator central e primário na divisão de classes. Essas semelhanças estão explícitas nas classificações de Goldthorpe e Wright, cujas divergências não excluem o fato de ambas estarem construídas sobre elementos básicos como propriedade, qualificações e força de trabalho.

A constatação de que o mapa de classes de Wright aproxima-se da teoria weberiana, apesar de seus esforços em manter fidelidade à teoria marxista de conflito e exploração, baseia-se no fato de o autor reconhecer o papel relevante que credenciais, qualificações e recursos organizacionais exercem na estruturação das categorias. Na mesma medida, é possível reconhecer que o esquema de Goldthorpe engloba princípios da teoria marxista no que diz respeito às relações de emprego, que levam à diferenciação dos empregadores, autônomos e empregados. "Os princípios de diferenciação que nós adotamos têm sido principalmente derivados de fontes clássicas, em particular, de Marx e Max Weber" (Erikson e Goldthorpe, 1993:37).

A influência das teorias marxista e weberiana na classificação de Goldthorpe é também reconhecida por Evans (1996:230, nota 3): "Embora o esquema tenha sido às vezes caracterizado como ‘neoweberiano’, ele parece mais corretamente considerado uma amálgama de, principalmente ¾ embora não exclusivamente ¾ , princípios marxistas e weberianos".

Muito sumariamente é possível apontar três tradições nas análises de classes: a marxista, que está calcada basicamente na idéia de relações de produção e divide a estrutura em duas grandes classes em oposição; a weberiana, na qual classe é definida segundo recursos diferenciados que no mercado obtêm também recompensas diferenciadas; e a tradição funcionalista ou teoria de status, a qual não reconhece fronteiras de classes e, portanto, as recompensas se dão de acordo com a idéia de realização (achievement) e não de propriedade. Esta tradição, fundamento para o importante trabalho de Blau e Duncan (1967) ¾ já um clássico nas análises de mobilidade ¾ , é amplamente adotada nos Estados Unidos. Contudo, desde que se dissocie os conceitos de classe e status, é possível questionar a validade de se considerar essa perspectiva como teoria de classes.

A sociologia norte-americana privilegiou o status ocupacional, as possibilidades de aquisição e realização de status (status achievement) e a hierarquização das ocupações segundo seu grau de institucionalização e manutenção de valores da sociedade, sobre as teorias de classe, sejam marxistas ou weberianas5. De forma simplificada, pode-se distinguir classe e status reconhecendo que classe está vinculada ao acesso a recompensas materiais que se refletem nas oportunidades de vida, enquanto status está relacionado ao acesso a recompensas simbólicas que se concretizam em diferenciais de estilos de vida. Cabe ressaltar que esses conceitos estão intrinsecamente relacionados na empiria, apesar dos esforços de alguns sociólogos em propagar a superioridade de um sobre o outro. Bens simbólicos e materiais operam na realidade dentro de uma correlação direta e significativa.

O principal objetivo dessa discussão que precede a definição de estratos é apresentar alguns aspectos das teorias marxista e weberiana, suas divergências e, principalmente, suas similaridades, no sentido de avaliar os elementos que serão a base para a classificação aqui proposta. Ao buscar traduzir essas teorias em classificações direcionadas à aplicação empírica, Wright e Goldthorpe acabam por destacar certas características ocupacionais que estruturam seus esquemas de classes: propriedade, qualificação, treinamento, recursos organizacionais, autonomia e controle sobre o próprio trabalho e o trabalho de outros, rendimento e status de emprego. A classificação introduzida neste trabalho propõe a inclusão dessas características, sempre que os dados permitirem tais distinções.

A classificação que será definida aqui pode ser incluída entre o que se convencionou chamar "classes ocupacionais", uma vez que está baseada nas ocupações listadas na PNAD-1988. Deve-se considerar que a ocupação é, hoje, um dos principais indicadores da posição social dos indivíduos, e tem sido amplamente utilizada para definir esquemas de classes, tanto entre neomarxistas como entre neoweberianos.

Neste ponto, é relevante esclarecer a definição de classe adotada neste estudo. Classe aqui é definida segundo o conceito weberiano de grupos de pessoas que partilham a mesma posição de classe. Dessa forma, a idéia de situação de classe está inscrita em um contexto de oportunidades de vida baseadas nos meios disponíveis para se obter ganhos no âmbito de uma determinada ordem econômica, seja através de bens ou de qualificações. Ao tratar esse conceito de classe segundo a ótica da mobilidade social, tem-se que grupos de indivíduos estão posicionados na mesma situação de classe e, portanto, compartilham oportunidades de vida que são determinadas, em última instância, pelos atributos negociáveis dentro da esfera econômica, sejam eles propriedades ou qualificações.

Essa correlação entre os atributos oferecidos no mercado de trabalho e a posição de classe leva à conclusão de que são as oportunidades no mercado que definem as oportunidades de vida dos indivíduos, entendidas no sentido de condições externas. O que faz Weber (1977:182) afirmar que "Situação de classe é, nesse sentido, em última instância, situação de mercado".

A relação entre as análises de mobilidade e a definição weberiana de classe pode ser deduzida, diretamente, da relação estabelecida por Weber entre classes e posições de classe, que coloca a mobilidade, ou o movimento entre posições de classe, no centro da definição das classes sociais. "Classe social é a totalidade de situações de classe, entre as quais a mudança pessoal, e na sucessão das gerações é facilmente possível e costuma ocorrer tipicamente" (Weber, 1991:198).

Assim, classes sociais são formadas por aquelas posições de classe entre as quais o fluxo de troca é freqüente. A mobilidade social lida com as oportunidades de movimento no contexto do mercado de trabalho e, portanto, com a mudança nas posições de classe. Uma vez esclarecida a conceituação de classe, é possível retomar a discussão em torno dos contextos conceituais de mobilidade social.

A definição de uma classificação de estratos está fortemente relacionada aos objetivos da pesquisa ¾ que neste caso seria a análise da mobilidade social ¾ e ao contexto conceitual em que se inscreve. Dessa forma, é possível apontar duas perspectivas, tradicionais e divergentes, que partem de contextos conceituais distintos e informam não só a própria definição de mobilidade, como também a forma como ela é medida e observada: o contexto classe estrutural e o contexto hierárquico. No primeiro, a mobilidade é concebida como movimento entre posições de classe dentro de uma estrutura social; já no contexto hierárquico, a mobilidade é entendida como o movimento dentro de uma hierarquia social.

"Para aqueles que seguem a primeira tradição, mobilidade se refere ao movimento entre posições sociais que são identificadas em termos de relações nos mercados de trabalho e unidades de produção; para os que seguem a segunda, mobilidade se refere ao movimento de indivíduos entre grupos sociais ou agregados que são ranqueados de acordo com critérios tais como o prestígio de seus membros, status, recursos econômicos etc." (Erikson e Goldthorpe, 1993:31).

Karl Marx e John Stuart Mill podem ser apontados como exemplos dessas duas correntes divergentes, sendo a idéia de Marx claramente relacionada à classe estrutural e a de Mill à de hierarquia social. Embora Marx reconheça um fluxo constante de mudanças nas posições dos trabalhadores americanos, ele não identifica aí nenhuma forma de mobilidade vertical, ou seja, de significativa ascensão social. Já Mill caracteriza como mobilidade o fluxo entre níveis nas posições de emprego, uma vez que fundamenta sua análise nas mudanças experimentadas pelos trabalhadores nas tarefas executadas e na estima social vinculada a elas. Nesse sentido, antecipa as teorias liberais6

Neste ponto, é importante delimitar a opção teórica assumida neste artigo para a construção da mencionada classificação e suas implicações metodológicas. A opção foi por não utilizar escalas de prestígio ocupacional, relacionadas a uma perspectiva hierárquica na construção de um esquema de classes, mas sim buscar estabelecer uma classificação das ocupações, considerando a situação de mercado e a situação de trabalho dessas categorias. Assim, busca-se captar a posição das categorias na estrutura de classes sem a preocupação de posicioná-las em um ranking de prestígio.

O objetivo é definir uma classificação baseada no aspecto relacional dessas categorias dentro da estrutura do mercado de trabalho. Como Goldthorpe e Hope (1974) observaram, nas pesquisas cujo objetivo é construir escalas de prestígio ocupacional, os indivíduos entrevistados usam, para ordenar ocupações segundo seu prestígio, um marco de referência baseado nos atributos que eles percebem como relevantes para as posições das ocupações na estrutura do mercado de trabalho. Para estabelecer esses marcos de referência pesam mais os atributos ocupacionais objetivos, relativos aos requerimentos para o emprego ou suas recompensas, do que as indicações simbólicas de status social.

O fato de ter optado pelo contexto classe estrutural, e não pelo contexto hierárquico, não exclui a ordenação dos estratos segundo algum critério de hierarquização. No entanto, vale deixar claro que a taxonomia aqui utilizada não pode ser vista como uma hierarquia de prestígio, mas sim como uma classificação na qual são reunidos, na mesma categoria, trabalhadores que compartilham situações de mercado e de trabalho semelhantes; assim, a classificação dos estratos está inscrita em um contexto relacional, uma vez que se encontram posicionados uns em relação aos outros. Essa diferenciação resume as divergências e similaridades existentes na estrutura do mercado de trabalho.

"Na realidade, estudos específicos de mobilidade nem sempre podem se encaixar exatamente em uma ou outra dessas duas tradições. Alguns pesquisadores parecem oscilar entre um contexto classe estrutural e um contexto hierárquico mais ou menos inconscientemente, enquanto outros têm procurado deliberadamente trabalhar nos dois. Porém, podemos dizer que em qualquer estudo individual uma das duas perspectivas conceituais tende a ser dominante; e isto é, na nossa opinião, esperado, já que as duas perspectivas estão dirigidas ao tratamento de conjuntos de problemas diferentes, mesmo que coincidentes." (Erikson e Goldthorpe, 1993:29)

A opção por um contexto conceitual está longe de ser inequívoca, uma vez que se deve reconhecer a natureza controvertida do próprio conceito de classe e as inúmeras possibilidades de arranjos das ocupações em um esquema de categorias. Assim, não há uma fórmula incontestável para se definir um esquema de classes, pois sua definição está vinculada aos objetivos da pesquisa, isto é, deve se ajustar aos propósitos de sua aplicação. Dessa forma, o esquema de classes deve possuir uma base teórica que, em última instância, sirva aos objetivos da pesquisa e a proveja de uma medida de consistência interna. A definição desses estratos se baseia, fundamentalmente, em elementos que aparecem como relevantes para, ao mesmo tempo, exprimir e capturar as características da mobilidade e da estrutura social brasileira.

Dessa forma, a definição das classes sociais segue um modelo que é, em última instância, determinado pela própria razão teórica do estudo de mobilidade e deve, portanto, conter os elementos relevantes para essas análises, incluindo distinções entre as características básicas da estrutura de posições, tais como: propriedade/não-propriedade, urbano/rural, qualificação/não-qualificação, controle/não-controle, autonomia/não-autonomia, manual/não manual etc. Por outro lado, deve-se considerar que a classificação também está exposta às limitações dos dados disponíveis.

Para a definição das categorias, neste artigo foram realizadas análises de dados em duas etapas. A primeira, com o uso de técnicas de análises de conglomerados (cluster analysis), tem como meta realizar estudos de caráter exploratório ou descritivo, no sentido de reunir categorias segundo semelhanças nos níveis de rendimentos e de educação e, assim, definir os estratos em concordância com critérios empíricos objetivos. Em uma segunda fase, as análises log-lineares da tabela de mobilidade total permitirão o ajuste de um modelo que melhor represente a estrutura de classes no Brasil, seguindo-se a redução do número de categorias até um nível mínimo significativo e representativo dos padrões de inserção e exclusão que caracterizam as relações entre os estratos e estão explicitadas no processo de mobilidade social. Aqui, critérios teóricos de reconhecimento da divisão da estrutura social serão utilizados, recorrendo-se aos elementos que caracterizam essas polaridades e já foram citados7.

Deve-se enfatizar, ainda, a importância de se contemplar as especificidades da estrutura da sociedade que está sendo estudada. Por isso, optou-se por estabelecer uma classificação de estratos a partir da discussão de classificações já utilizadas na literatura brasileira sobre estratificação. Considerando as classificações desenhadas para estudos de mobilidade no Brasil, pode-se apontar aquela adotada por Pastore (Pastore, 1979; Pastore e Zylberstajn, 1991; Pastore e Haller, 1993) e uma outra proposta por Valle Silva (1992); ambas são interessantes, especialmente por terem sido baseadas em um conjunto de dados que é amplamente utilizado nas análises da estrutura social e de emprego no Brasil que são os dados produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ¾ IBGE. Considerando que as categorias são construídas através dos códigos ocupacionais adotados em pesquisas como Censo e PNAD, estaríamos lidando com o mesmo conjunto de informações.

Pastore utiliza um esquema hierárquico, no qual as categorias podem ser perfeitamente qualificadas como grupos de status socioeconômicos. Além disso, ou mesmo por essa razão, seu esquema não contempla dimensões relevantes para o estudo de classes, tais como propriedade, credenciais, autonomia e outros fatores relacionados ao conceito de situação de trabalho. Nesse sentido, a perspectiva classe estrutural estaria melhor representada pelo esquema classificatório elaborado por Valle Silva (idem), que agrupa as 342 ocupações da PNAD-1988 em dezoito categorias ocupacionais, e que se baseia no critério de diferenciação das posições de mercado das de ocupação, sendo essa uma dimensão importante no âmbito da posição teórica aqui assumida.

Os critérios teóricos adotados por Valle Silva (idem) para o agrupamento das ocupações foram reforçados pela homogeneidade das posições de mercado e de trabalho entre elas. Para tanto, ele incorporou eixos significativos para a identificação de semelhanças e diferenças entre as categorias, como a dicotomia entre os setores rural e urbano e manual e não manual. Suas categorias ocupacionais são:

1 - Profissionais liberais
2 - Dirigentes e administradores de alto nível
3 - Profissionais
4 - Funções administrativas (execução)
5 - Não manual de rotina e funções de escritório
6 - Proprietários (Empregadores) na indústria, comércio e serviços
7 - Empresários por conta própria (sem empregados)
8 - Técnicos, artistas e supervisores do trabalho manual
9 - Trabalhadores manuais em indústrias modernas
10 - Trabalhadores manuais em indústrias tradicionais
11 - Trabalhadores manuais em serviços em geral
12 - Trabalhadores no serviço doméstico
13 - Vendedores ambulantes
14 - Artesãos
15 - Proprietários (Empregadores) no setor primário
16 - Técnicos e administradores no setor primário
17 - Produtores agrícolas autônomos
18 - Trabalhadores rurais

No entanto, a utilização direta destas para o estudo da mobilidade social torna-se extremamente complexa, já que com dezoito estratos ocupacionais a tabela cruzada redundaria em 324 células, o que implica dificuldades de operacionalização e de análise, aumentando a freqüência de células contendo zero amostral8. Embora a redução do número de categorias resulte em perda de informação, uma vez que a classificação mais refinada é também mais estratificada e inclusiva, englobando uma extensão maior de posições na estrutura de emprego, esse custo é superado pelo benefício de uma nova classificação mais concisa. Assim, a redefinição de categorias ocupacionais impõe não somente a questão de quais categorias agregar, como também até que ponto a opção por uma classificação mais" econômica" acarreta perda de informação relevante.

Por isso, antes de aplicar metodologias que auxiliem na redução do número de estratos, é imprescindível dar especial atenção aos elementos teóricos que informam os estudos de classes e de mercado de trabalho, considerando os aspectos básicos da diferenciação nas posições de classe e situações de emprego; em especial as divisões entre proprietários e não proprietários, setores manual e não manual, setores rural e urbano, estes incluindo também uma especificidade de distribuição no espaço geográfico, além de divisões mais refinadas que têm se constituído como características cada vez mais importantes na estrutura de estratificação, que é o caso da diferenciação entre trabalho qualificado e não-qualificado, e também das dimensões nas posições de trabalho como a autonomia, a autoridade e o controle sobre o próprio trabalho e/ou o trabalho de outros.

O processo aqui adotado se baseia na redução do número de categorias propostas por Valle Silva, buscando, contudo, estabelecer parâmetros que não acarretem perda de informação relevante. O objetivo é manter o mesmo poder explicativo mas com um esquema mais econômico. Para tanto, foram aplicadas técnicas de análise de conglomerados e também um critério para a combinação de categorias via modelos log-lineares.

Neste artigo foram utilizados dados da PNAD-1988 para o Brasil relativos aos homens entre 20 e 64 anos de idade, que registraram sua ocupação atual e a ocupação de seus pais no momento em que ingressaram no mercado de trabalho, ou seja, quando obtiveram seu primeiro emprego. Isso porque o critério de combinação de categorias mediante a aplicação dos modelos log-lineares supõe que estas estejam dispostas em uma tabela cruzada. Nesse sentido, nada melhor do que uma tabela de mobilidade já que é para estudos dessa natureza que a classificação de estratos aqui definida está direcionada. Os dados incluem somente pessoas que estavam no mercado de trabalho em 1988, excluindo a população de aposentados, donas de casa, jovens não empregados, enfim, todo o contingente não diretamente inserido no mercado de trabalho.

Em um primeiro momento foram feitas análises de conglomerados que serviram como ponto de partida e estudo exploratório para estabelecer as similaridades nos níveis de renda e educação dos estratos. Através dessa técnica busca-se distinguir os grupos (ou clusters) de ocupações que têm características semelhantes de educação e renda. Essas duas variáveis foram escolhidas por expressarem elementos determinantes das chances no mercado de trabalho, e conseqüentemente da condição de vida dos indivíduos, uma vez que se referem tanto às qualidades oferecidas no mercado quanto às recompensas nele obtidas. Renda e educação são fatores causais dos quais derivam, em grande medida, a situação de mercado e a situação de trabalho inscritas em cada grupo ocupacional.

A análise de conglomerados permite elaborar grupos de elementos em categorias, de forma que os elementos compartilhem características semelhantes com os outros da mesma categoria e difiram dos das outras categorias. Como Kaufman e Rouseeuw (1990) definiram, "a análise de conglomerados é a arte de encontrar grupos nos dados". O agrupamento de elementos é realizado levando em conta, simultaneamente, várias dimensões. A informação das diferentes variáveis é integrada em uma única função de distância ou similaridade que determina até que ponto os elementos são parecidos ou diferentes entre si. Para cada par de elementos existe um número que reflete a proximidade dos dois. O segundo passo é determinar os critérios que dirigem o processo de agrupamento dos elementos em categorias.

Existem basicamente dois tipos de análise de conglomerados: hierárquica e não hierárquica. No primeiro caso, os elementos vão se agrupando uns aos outros, desde o estágio inicial em que cada um sozinho constitui uma categoria até o ponto final em que se chega a uma única categoria que contém todos os elementos. A característica que define esse tipo de análise é que, depois que dois elementos foram agrupados em uma mesma categoria, eles permanecem juntos até o final durante o processo de agrupamento sucessivo. Em outras palavras, a união de vários elementos em um certo nível do processo fica inalterada nos níveis superiores de agregação. Esse processo de agrupamento sucessivo é representado graficamente em uma estrutura arborescente chamada de dendograma.

A análise não hierárquica, por outra parte, é caracterizada justamente por não obrigar que os elementos que estavam juntos em um nível de agregação permaneçam juntos nos seguintes. Por exemplo, dois elementos que são parte de uma mesma categoria quando o conjunto é dividido em dez categorias, podem pertencer a categorias diferentes quando a divisão é feita em nove categorias. Donde se segue que: 1) o analista deve determinar ex-ante quantas categorias deseja que a sua análise produza; 2) a análise é refeita de modo independente cada vez que o analista demanda um número diferente de categorias. Em outras palavras, os cálculos são repetidos para cada nível de agregação e os diferentes níveis não possuem necessariamente continuidade entre si.

A análise hierárquica tem justamente a vantagem de dar maior estabilidade aos resultados e total integração aos distintos níveis de agregação, cujo processo pode ser seguido através do dendograma. Este mostra não apenas quais os casos que se integram entre si, mas também o grau de similaridade com que isto acontece. Por isso, o dendograma constitui uma ajuda inigualável para determinar o número de categorias que melhor se ajusta aos dados. Porém, essa mesma estabilidade da análise constitui sua fraqueza, uma vez que pode congelar grupos que faziam sentido em certo nível de agregação, mas vão perdendo tal característica nas agregações sucessivas. Por exemplo, dois casos podem ser relativamente similares em um estágio inicial e por isso ficariam integrados em uma mesma categoria, mas a integração de outros elementos podem fazê-la evoluir em uma direção determinada, que torne um dos dois casos originais bastante heterogêneo no conjunto final de casos. Pode até acontecer que nesse estágio exista outra categoria cujo conteúdo geral se aproxime mais desse nosso elemento, mas a saída dele da categoria original está vedada pela análise hierárquica. Nesse contexto, a análise não hierárquica possui a grande vantagem de recalcular as atribuições de casos, independentemente, para cada nível de agregação, acabando assim com o risco de obter elementos dentro de uma categoria que encaixariam melhor em outra.

Em geral, pode-se dizer que o ponto forte da análise hierárquica é a determinação do número ideal de categorias e da estrutura do conjunto, enquanto o ponto forte da análise não hierárquica é a atribuição dos elementos individuais aos grupos. Neste estudo, como não está determinado o número de categorias final e um dos objetivos é precisamente a exploração dos possíveis reagrupamentos de categorias, é indicada a análise hierárquica.

Dois elementos têm de ser escolhidos antes de se proceder à análise: a medida de distância ou similaridade e o critério de agrupamento. Como enfatiza Lorr:

"[...] são três os problemas da análise de conglomerados: escolher uma medida de similaridade entre os objetos, selecionar um método para formar subgrupos depois de ter obtido as medidas de similaridade/dissimilaridade e decidir então sobre o número de subgrupos presentes nos dados ou construir uma estrutura hierárquica" (1983:49).

A medida de distância determinará o modo como se calculará a matriz de proximidade entre todos os elementos. Neste caso, optou-se pela distância euclidiana ao quadrado, uma das mais usadas na literatura. Essa distância é calculada do seguinte modo: subtraindo-se o valor dos dois elementos para cada dimensão e elevando-o ao quadrado. A soma de todos esses quadrados, tantos quantas dimensões sejam usadas na classificação, é igual à distância entre os dois elementos. Essa medida penaliza fortemente as distâncias mais longas em relação às mais próximas. Sua fórmula é a seguinte:

Distance (X,Y) = S (Xi - Yi)2

Assim, a distância entre dois casos é medida pela soma das diferenças entre os valores de cada variável elevada ao quadrado.

Aqui serão usados métodos aglomerativos, que representam um processo de fusão dos elementos em novos grupos. Seu procedimento básico é seqüencial, aglomerativo, hierárquico e não sobreposto (nonoverlaping), e se dá conforme descrito abaixo.

"O processo começa com a computação de uma distância ou uma matriz de similaridade entre os 1/2 (N) (N-1) pares possíveis de elementos. Uma vez que os índices estão disponíveis, a matriz é examinada com a finalidade de encontrar o par i e j mais próximo (ou mais similar). Assim, i e j são fundidos para forma o cluster k e a matriz de entrada de valores é modificada para refletir a mudança. A matriz é examinada novamente na busca de par mais próximo e os dois são fundidos em um novo cluster. O processo segue até todos os elementos estarem em um mesmo cluster" (idem:57).

Há vários métodos hierárquicos aglomerativos e, portanto, várias estratégias de classificação, isto é, formas de definir similaridade/dissimilaridade entre clusters. Os métodos mais conhecidos são: distância entre grupos, distância dentro de grupos, vizinho mais próximo (nearest neighbour), vizinho mais distante (furthest neighbour), centróide, distância média entre grupos e método de Ward. Para a escolha de um desses métodos, devem ser consideradas as características dos dados assim como o objetivo da análise.

O critério de agrupamento selecionado foi o de distâncias médias entre grupos (average linkage between groups), segundo o qual a distância entre dois grupos (ou clusters) é igual à distância média entre todos os pares possíveis de elementos dos dois grupos, sendo que, em cada par, um elemento pertence a uma categoria e o outro a outra. Esse é também um dos procedimentos mais utilizados e conta com a vantagem de usar a informação sobre todos os elementos disponíveis na hora de decidir o agrupamento, ou seja, sobre todos os pares de distâncias. As categorias mais próximas segundo esse critério serão aquelas integradas em uma só no passo seguinte. Esse procedimento procura maximizar as diferenças entre grupos, enquanto outros tentam diminuir as diferenças dentro de cada grupo.

A escolha das dimensões que serão consideradas para a classificação e o peso relativo de cada uma são tão importantes ou mais do que a das medidas de similaridade e os critérios de agrupamento. Duas variáveis são consideradas neste caso: anos de estudo e renda produzida pelo trabalho principal9. Ambas estão incluídas na pesquisa PNAD-1988, e aqui são utilizados dados sobre todos os indivíduos entrevistados, homens e mulheres, com idade entre 20 e 64 anos.

As duas variáveis não estão medidas exatamente em unidades diretas (anos ou salários), já que alguns valores realmente são intervalos que incluem vários outros, porém, a aproximação a uma variável de intervalo é suficientemente boa para poder ser tratada como tal. Para os entrevistados em cada uma das dezoito categorias de Valle Silva (1992) foi calculada a média das duas variáveis. Desse modo, obteve-se um valor para cada categoria em cada uma das duas dimensões. Esses valores são os dados utilizados na análise.

A geração da medida única de distância euclidiana quadrática depende, entre outras coisas, da escala em que estejam mensuradas as variáveis. Se em lugar de medir a escolaridade em anos ela fosse quantificada em meses, uma diferença de um ano (ao quadrado seria igual a um) cresceria enormemente (12 meses ao quadrado seria igual a 144). Se, ao mesmo tempo, a renda continuasse sendo mensurada em salários, a nova medida resultante dependeria muito mais das diferenças de escolaridade entre as categorias do que das diferenças de renda. Adicionalmente, a escolaridade está medida em uma escala de onze pontos (intervalo igual a dez) e a renda em uma de oito pontos (intervalo igual a sete). Em conseqüência, a primeira terá provavelmente maior variância do que a segunda e influirá mais na medida final.

Para evitar essa incidência das unidades de medida das variáveis e das variâncias das mesmas no cálculo da distância, ambas as variáveis foram padronizadas antes de serem submetidas à análise de conglomerados. Tal padronização é obtida subtraindo-se a média de cada valor e dividindo-o pelo desvio padrão da mesma variável. O resultado é uma variável com uma distribuição análoga à anterior, mas com média igual a 0 e desvio padrão igual a 1. Como isso é aplicado às duas variáveis, ambas acabam com média igual e o mesmo desvio padrão e, portanto, as duas terão peso igual na análise. O resultado final da análise de conglomerados é representado no dendograma:

celipg359.GIF (3946 bytes)

Observando o dendograma é possível apontar a existência de dois grandes grupos, que se caracterizam justamente pela diferença entre trabalho manual e não manual ¾ trata-se de uma primeira grande divisão entre as categorias. Olhando mais minuciosamente para o bloco dos trabalhadores manuais, percebe-se que as categorias 10, 13 e 16, assim como 12 e 14, aparecem juntas. Já as categorias 7, 9 e 11 formam um outro bloco. Um outro conjunto é constituído pelas duas categorias rurais, 17 e 18, enquanto a categoria de proprietários rurais, 15, aparece mais isolada. Entre os não manuais, há três grupos claramente distintos de categorias: 1 e 3; 2, 4 e 6; 5 e 8. O primeiro é formado por profissionais nas categorias 1 e 3, que compartilham situações de trabalho muito próximas, que englobam controle e autonomia no trabalho, conjugadas à situação de mercado determinada pelo alto grau de qualificação e credenciamento. Também as categorias 5 e 8 compartilham não somente sua posição no setor não manual, como também se assemelham pelo caráter rotineiro de suas tarefas. Já as categorias 2, 4 e 6 apresentam diferenças que envolvem a dimensão da propriedade, presente na categoria 6 e ausente nas demais.

Um estrato pode ser semelhante a outro no nível de renda e educação, mas suas posições na estrutura das relações de emprego podem não ter similaridades significativas; este é o caso das categorias 7 e 9, proprietários sem empregados e operários qualificados, que envolvem uma dimensão de propriedade e autonomia que não é similar para as duas ocupações; ou, ainda, das categorias 10 e 16, que são operários não qualificados e técnicos e administradores no setor primário que ignoram a divisão urbano/rural. 

Em fase posterior, será possível agrupar algumas dessas categorias, contudo, o objetivo aqui é montar um esquema de estratos que retrate a estrutura social brasileira, com suas divisões e coesões; portanto, deve-se tentar preservar essas clivagens teóricas. Em um futuro agrupamento, em, possivelmente, cinco ou, ainda, em três estratos, outras dimensões serão consideradas, sem a rigidez dessa classificação inicial. Isto, por exemplo, é o que faz Goldthorpe ao estabelecer um esquema com três classes: service, intermediate e working, nas quais várias dimensões teóricas presentes em seu esquema de sete classes foram desconsideradas.

Embora seja a propriedade teórica que irá determinar, em última instância, o critério de agrupamento das categorias, o resultado do cluster indica algumas possibilidades de combinação destas. Por exemplo, as categorias 17 e 18, do setor rural, aparecem muito próximas; a categoria 16, também do setor de empregados rurais, faz parte do mesmo bloco de trabalhadores manuais, o que representa uma possibilidade de tratamento dessas ocupações como pertencendo ao estrato de trabalhadores manuais rurais. Assim, as possibilidades mais expressivas de agrupamento referem-se aos profissionais, categorias 1 e 3 (uma expressão da service class, em um sentido mais específico do que aquele usado por Goldthorpe, que também inclui proprietários); às categorias 5 e 8, que comporiam o setor manual de rotina; e às categorias de empregados rurais (16, 17 e 18).

O Gráfico I sugere algumas clivagens e similaridades na estrutura de ocupações. Ele é composto das dezoito categorias mencionadas dispostas em dois eixos determinados pelos valores médios das variáveis" renda no trabalho principal" e "anos de estudo".

 

Gráfico I
Categorias Ocupacionais segundo Renda e Educação

celig1.GIF (2955 bytes)

Fonte: PNAD-1988, IBGE.

 

Aqui, novamente, dois grandes grupos se destacam ¾ as categorias não manuais e manuais. A linha manual/não manual pode ser claramente visualizada na dicotomia do eixo referente aos anos de estudo. À esquerda estão as ocupações manuais, com salários e níveis educacionais mais baixos. Se uma reta horizontal for traçada no valor 4 do eixo de Y, que indica a renda, distinguem-se claramente dois grupos. O primeiro coloca-se acima da linha horizontal e, portanto, representa os grupos ocupacionais com melhores salários, formados pelas categorias profissionais liberais (1); dirigentes e administradores (2); profissionais (3); trabalhadores em funções administrativas de execução (4); não manual de rotina (5); proprietários na indústria, comércio e serviços (6); empresários por conta própria (7); técnicos, artistas e supervisores do trabalho manual (8); trabalhadores manuais em indústrias modernas (9); e proprietários rurais (15). O segundo é composto pelas demais categorias constituídas exclusivamente pelos trabalhadores caracterizados como manuais, incluindo a categoria 16 de técnicos e administradores no setor primário.

Se a linha for traçada no sentido vertical, dividindo exatamente na metade o eixo de X, que corresponde à educação, obtém-se à direita as categorias 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 8, todas não manuais. Já as demais categorias, inclusive a de proprietários rurais, situam-se na metade à esquerda, correspondente ao setor manual. Novamente, as categorias 1 e 3; 2 e 4; 5 e 8; 7 e 11; 17 e 18 formam grupos. As categorias 1 e 3 destacam-se por seus altos níveis educacional e salarial, o que reforça a idéia de uma elite baseada em credenciais que a tornam apta à obtenção de chances de vida especialmente favoráveis em comparação com os demais estratos. No canto inferior esquerdo do gráfico e, portanto, no extremo oposto às categorias 1 e 3, estão as categorias de trabalhadores rurais (17 e 18). Entre os trabalhadores urbanos destaca-se o baixo nível salarial e educacional dos artesãos (14) e empregados domésticos (12), embora seja possível afirmar que a variação de renda e educação não é grande entre ambas as categorias e aqueles empregados na indústria tradicional (10) e como ambulante (13). Note-se que artesanato (14) e indústria tradicional (10) compartilham similaridades no sentido da produção e o emprego doméstico (12) e o comércio ambulante (13) podem ser agregados no que se convencionou chamar "setor de sobrevivência", devido ao seu caráter de informalidade e insegurança.

À análise de conglomerados segue-se os modelos log-lineares, que testarão a possibilidade de combinação de pares de categorias que aqui se apresentaram como "agrupáveis", considerando, entretanto, as dimensões teóricas que não devem ser perdidas no curso desse processo de combinação de categorias.

No entanto, a principal preocupação do pesquisador, ao fim de um processo de redução do número de categorias de análise, é sempre quanto de informação estatisticamente significante foi perdida; em síntese, busca-se avaliar quanto de poder explicativo um modelo mais econômico permite manter. A solução para esse dilema metodológico foi proposta por Goodman (1981), quando ele sugeriu, baseado na aplicação do modelo log-linear de quase-independência, o "critério de homogeneidade interna" para determinar as categorias que poderiam ser combinadas em uma tabela de contingência. Nesse método, o que está sendo testado é se o agrupamento de duas categorias altera significativamente os parâmetros do modelo de associação, ou seja, o que está sendo testado, em última instância, é a hipótese nula de não diferença estatisticamente significante na distribuição de linha e coluna das duas categorias que serão combinadas. Nesse caso, a decisão de agregar duas categorias em uma só é tomada quando a diferença nas distribuições destas pelas demais células da tabela não é significativamente diferente de zero.

O critério de homogeneidade interna pode ser utilizado em qualquer tabela de contingência, mas aqui será aplicado à tabela de mobilidade. Ao selecionar duas categorias a serem combinadas, transforma-se a tabela com N x N categorias de origem e destino, em uma tabela 2 X N, selecionando as linhas correspondentes às duas categorias de origem em questão, e as N colunas originais referentes às categorias de destino da tabela de mobilidade. Aplica-se, então, o teste de quase-independência à tabela 2 X N. Goodman (idem) propõe que se aplique esse método não só às linhas, mas também às colunas. Para colunas, o procedimento é o mesmo, aplicando-se o modelo de quase-independência à tabela de mobilidade N X 2, formada pelas linhas de todas as categorias definidas na classificação e as colunas das duas categorias a serem combinadas.

Assim, é possível testar a homogeneidade das origens em sua distribuição pelas diversas categorias de destino, e a homogeneidade de cada categoria de destino em relação à origem dos indivíduos que a compõem. No caso dos estudos de mobilidade, este parece ser um método suficiente e consistente, pois o que está em questão é se os grupos que partem de categorias de origem distintas se distribuem de forma idêntica nas categorias de destino. A hipótese a ser avaliada é se as duas categorias de origem, ou linhas da tabela, são similares na sua distribuição pelas categorias de destino, ou seja, seu fluxo de saída das categorias; examinando-se, portanto, se a dimensão de mobilidade nas duas categorias é idêntica. Essa mesma técnica pode ser aplicada às colunas, na hipótese de similaridade na composição das categorias de destino.

O modelo de quase-independência supõe o bloqueio das diagonais da tabela, ou seja, que as diagonais da tabela possam variar livremente e, portanto, distingue mobilidade de imobilidade. Dessa forma, pressupõe independência entre origem e destino para aqueles que são "móveis", mas mantém a idéia de que origem e destino não são independentes para aqueles que estão alocados na diagonal da tabela e, portanto, podem ser considerados "imóveis", por permanecerem na mesma posição de origem. 

Partindo da fórmula para o modelo saturado, pode-se deduzir a fórmula para o modelo de quase-independência. O modelo saturado escreve-se: 

hij = m +l i + l j + l ij,

onde m é a média e representa a freqüência geral, constituindo-se meramente em um ponto de referência a partir do qual os efeitos, ou demais parâmetros, são calculados, não tendo, portanto, uma interpretação substantiva em si. Os l representam os efeitos que cada variável opera sobre as freqüências da célula. Assim, li é o efeito de pertencer a cada categoria "i" da variável que está na linha da tabela de contingência (no caso das tabelas de mobilidade refere-se ao efeito da origem). lj é o efeito de pertencer a cada categoria "j" da variável que está na coluna da tabela de contingência (no caso das tabelas de mobilidade refere-se ao destino). lij é o parâmetro de interação correspondente ao efeito de pertencer simultaneamente às categorias" i" da linha e às categorias "j" da coluna da tabela de contingência. O modelo de quase-independência escreve-se:

hij = m +l i + l j + l ij

No entanto, possui a seguinte restrição:

fo1pg364.GIF (1069 bytes)

Para i = j: hij = m +l i + l j + lD

Para i ¹ j: hij = m +l i + l j,

onde lD corresponde ao efeito da imobilidade, que é o único parâmetro de interação no modelo que força os valores da diagonal a permanecerem os mesmos. Para as células fora da diagonal vale o modelo de mobilidade perfeita, ou modelo de independência, exceto pela condição de "i" não ser igual a "j". Nesse sentido, o modelo de mobilidade quase-perfeita bloqueia as células da diagonal e ajusta o modelo de independência estatística para as demais células (Hout, 1983).

"De acordo com esse modelo, o padrão observado de mobilidade é o resultado de dois processos separados. O primeiro processo ¾ a parte da imobilidade ¾ aloca uma certa porção de pessoas [stayers] em destinos que são os mesmos de suas origens. O segundo processo ¾ a parte da mobilidade ¾ assemelha-se à mobilidade perfeita porque aloca o resto da população sem considerar suas origens" (idem:19).

A aplicação dessa técnica pressupõe critérios teóricos que informem quais categorias podem ser combinadas. Nesse sentido, a teoria precede o método. Partindo das dezoito categorias propostas por Valle Silva e, considerando, especialmente, os resultados da análise de conglomerados, foram testados pares de categorias, mantendo sempre o sentido teórico de combinar aquelas que possuem situações de mercado e situações de trabalho similares.

O critério de "homogeneidade interna" foi aplicado às distribuições de origem e de destino referentes aos seguintes pares de ocupações da classificação de Valle Silva: 1-3; 2-4; 5-8; 9-11; e 10-12-13. A definição desses pares baseou-se na observação de similaridades entre renda e educação, avaliadas a partir da análise dos resultados dos clusters e do Gráfico I, no suposto de que os níveis de escolaridade e renda são indicadores, respectivamente, das chances de alocação em posições diferenciadas no mercado de trabalho e das recompensas obtidas a partir dessa posição de mercado.

Algumas combinações foram realizadas por critérios a priori, caso das categorias 10 e 14, cuja agregação havia sido proposta por Valle Silva (1992) em sua classificação original. Isto se justifica, particularmente, pelo tamanho reduzido da categoria 14 (artesãos), que representa 0,7% do total de respondentes (88% dos quais são mulheres). Também as categorias 16, 17 e 18 foram agregadas, uma vez que diversas classificações reconhecem seu caráter homogêneo na composição do setor de trabalhadores rurais. Dessa forma, parte-se de uma tabela com quinze categorias, em lugar de dezoito.

Os agrupamentos devem respeitar as divisões teóricas já estabelecidas, tais como setores urbano/rural, manual/não manual, proprietários/não proprietários, trabalhadores qualificados/ não qualificados, entre outras, que se distinguem como características importantes na diferenciação de estratos.

Os resultados das análises log-lineares de associação estão condensados no Quadro I, que inclui as categorias agrupadas, os graus de liberdade do modelo e os valores da razão de máxima verossimilhança:

 

Quadro I
Resultado do Modelo de Homogeneidade Interna para Grupos de Categorias

Categorias

G.L.

L2 para linhas

L2 para colunas

1 e 3

15

21,4

44,9

2 e 4

15

28,4

30,3

5 e 8

15

39,1

47,7

9 e 11

15

30,6

70,0

10, 12 e 13

31

70,5

71,3

 

O modelo de homogeneidade interna ajustou perfeitamente para linha e coluna apenas no modelo que combina as categorias 2 e 4, que formam o estrato de ocupações na administração. Ajustou somente para linha nos pares de categorias 1 e 3 e 9 e 11. Para as demais categorias o valor calculado de L2 demonstra ser superior ao valor crítico relativo aos graus de liberdade em questão. Contudo, o ajustamento torna-se precário para um volume grande de dados, como é o caso da PNAD; nesse sentido, qualquer modelo torna-se significante. Uma solução para esse problema foi apresentada por Raftery (1986) ao introduzir o método baysiano, cuja função é testar a plausibilidade de um modelo comparativamente a outro. Também utilizado por Hout (1989), o teste denominado bic segue a expressão:

B = probabilidade de o modelo m ser verdadeiro dado as freqüências observadas_______
       probabilidade de o modelo saturado ser verdadeiro dado as freqüências observadas

O modelo m é qualquer modelo desenvolvido para o ajustamento dos dados, enquanto o modelo saturado é aquele em que as freqüências observadas e as freqüências esperadas são iguais, já que o modelo saturado inclui todos os parâmetros existentes. Assim, o que está sendo testada é a hipótese de o modelo proposto (m) ter maior probabilidade de ser verdadeiro, dado as freqüências observadas, em face da hipótese alternativa de um outro modelo qualquer (m') ser verdadeiro, com os mesmos dados. Nesse caso, o modelo m' é o modelo saturado. 

Essa expressão se traduz na fórmula:

-2 log B = L2m - [(dfm) log N],

onde: L2m é a razão de máxima verossimilhança para o modelo m; dfm corresponde aos graus de liberdade do modelo, e N é o número de observações (N = Si Sj fij).

Se o valor de bic é menor que zero (bic< 0), então o modelo proposto é bom o suficiente para torná-lo mais provável que o modelo saturado.

Os resultados do teste bic para os agrupamentos de categorias são apresentados no Quadro II, distinguindo-se os modelos aplicados à linha e à coluna:

 

Quadro II
Resultados do Teste Bic para Grupos de Categorias

Categorias

BIC (linha)

BIC (coluna)

1 e 3

*

- 1,7

5 e 8

- 9,6

- 7,2

9 e 11

*

13,0

10, 12 e 13

- 42,5

- 49,5

*Os modelos de homogeneidade interna aplicados às linhas correspondentes às combinações das categorias 1-3 e 9-11 já haviam sido ajustados de acordo com o valor crítico da tabela do c 2.

 

Os valores negativos de bic indicam a aceitação dos modelos que combinam as categorias 1 e 3, ou estrato de profissionais; 5 e 8, estrato não manual de rotina (routine white-collar); e 10, 12 e 13, estrato manual não qualificado. O valor positivo de bic para o par 9 e 11 demonstra que há diferenças na alocação dos indivíduos para a composição interna desses estratos, registrando um certo grau de heterogeneidade na origem dos indivíduos alocados nessas posições. Contudo, o modelo ajusta-se perfeitamente às correspondentes a essas categorias, indicando a homogeneidade na distribuição das categorias de origem 9 e 11 entre os estratos de destino. Este é um ponto relevante a ser considerado, uma vez que a similaridade nos padrões de fluxo de saída dessas ocupações remete à homogeneidade de trajetórias.

Analisando os resíduos do modelo em questão, verifica-se que são as categorias 10 e 17 que contradizem a hipótese de não-diferença nos padrões de fluxo de entrada para os estratos 9 e 11. Note-se que o valor do resíduo para o estrato de origem 10 e destino 9 é de 4, 5, ou seja, há um número maior de indivíduos em posições na indústria moderna, cujos pais trabalhavam na indústria tradicional quando ingressaram no mercado de trabalho, do que seria suposto no caso da hipótese de independência, ou melhor, no caso de probabilidades idênticas de indivíduos oriundos do setor de indústria tradicional estarem na indústria moderna comparativamente às chances de integrarem o setor de serviços. Por oposição, os resíduos são negativos para os filhos de trabalhadores na indústria tradicional que estão empregados no setor de serviços.

Inversamente, os resíduos de indivíduos com origem no estrato de pequenos proprietários rurais e destino nas ocupações da indústria moderna são negativos, indicando que a freqüência observada é inferior àquela esperada no caso de não-diferença no pertencimento a ocupações da indústria tradicional ou do setor de serviços para os filhos de trabalhadores rurais por conta própria. Essa relação permite deduzir que os trabalhadores oriundos do setor rural por conta própria (categoria 17) estão mais presentes no setor de serviços que na indústria tradicional, introduzindo uma nova diversidade nas chances de compor as categorias 9 e 11. Assim, há um certo grau de dissimilaridade na composição desses dois setores: a indústria moderna conta com um maior número de trabalhadores originários da indústria tradicional, enquanto o setor de serviços é integrado por um maior contingente de trabalhadores com origem no setor rural por conta própria.

Apesar dessas diferenças, o ajustamento do modelo para linhas ¾ portanto, a semelhança na transmissão intergeracional propriamente dita ¾ sobrepõe-se às diversidades observadas na composição desses dois setores, restritas apenas a duas categorias que já foram agregadas: a da indústria tradicional e a de trabalhadores rurais por conta própria. Dessa forma, acredita-se que a combinação das categorias de operários na indústria moderna e de empregados no setor de serviços é possível, decisão reforçada pelos resultados dos clusters e do gráfico introduzidos na análise exploratória dos dados. Portanto, a redução das dezoito categorias resulta em uma classificação com nove estratos:

 

Quadro III
Estratos Resultantes do Processo de Agregação

Categorias Originais

Categorias Resultantes

Títulos

1 e 3

1

Profissionais

2 e 4

2

Administradores e Gerentes

6

3

Proprietários empregadores

5 e 8

4

Não manual de rotina

7

5

Proprietários conta própria 

9 e 11

6

Manual qualificado

10, 12, 13 e 14

7

Manual não qualificado

15

8

Empregadores rurais

16, 17 e 18

9

Empregados rurais

 

Embora torne mais clara a análise e evite a presença de células com zero amostral, todo processo de agrupamento de dados em um número mais reduzido de classes implica um certo grau de perda de informação, isto é, de poder explicativo. Para calcular a extensão dessa perda com o agrupamento dos dados e medir o grau de variação que foi preservado nesse processo de combinação de categorias, propõe-se a aplicação do modelo log-linear de independência para as tabelas de mobilidade com dezoito e nove categorias, respectivamente.

O modelo de independência, que para tabelas de mobilidade é chamado de modelo de mobilidade perfeita, supõe a distribuição aleatória das categorias na tabela e, assim, baseia-se na hipótese de independência entre as células de origem e destino. Dessa forma, as chances de ocupar posições na estrutura social não estariam relacionadas ao ponto de partida, ou seja, à origem dos indivíduos. Esse modelo não se ajusta, contudo o valor da razão de máxima verossimilhança (L2) pode ser comparado nas tabelas de mobilidade com nove e dezoito categorias. Os resultados são:

Para nove categorias, L2 = 12.285 d.f. = 64

Para dezoito categorias, L2 = 15.952 d.f. = 289

O objetivo é medir quanto de variação é preservado depois da agregação das dezoito categorias em nove. Considerando o modelo de mobilidade perfeita, observa-se que, após a combinação, o modelo aplicado às nove categorias mantém 77% da variação que era explicada pelas dezoito categorias. Assim, o processo de agregação não implica perda substancial do poder explicativo dessas categorias para a análise da mobilidade social, contando com a vantagem de uma classificação mais" econômica", no sentido que é dado pela estatística, isto é, com menos parâmetros.

Deve-se, ainda, testar o modelo de quase-independência, ou modelo de mobilidade quase-perfeita, que bloqueia a diagonal principal da tabela na suposição de mobilidade perfeita para as caselas que não correspondem à herança; dessa forma, prevê imobilidade nas associações das células em que os estratos de destino e origem são os mesmos, e mobilidade perfeita, ou independência, nas demais. Os resultados são: 

Para nove categorias, L2 = 7.950 d.f. = 55

Para dezoito categorias, L2 = 8.191,9 d.f. = 271

Aqui, a proporção de variação mantida após a agregação das dezoito categorias em nove é de 97%, maior ainda do que no caso do modelo de mobilidade perfeita. Isso indica que a nova classificação mantém, basicamente, toda a proporção de mobilidade observada no modelo de dezoito categorias, uma vez que os casos de imobilidade, presentes na diagonal principal, foram bloqueados.

Na busca da definição de uma classificação de estratos foram combinados critérios teóricos e metodológicos. Nesse sentido, a classificação aqui apresentada, embora submetida a técnicas de análise estatística, contempla a relevância das distinções e características de cada estrato e sua contribuição para o entendimento da estrutura social.

É importante ressaltar que, nesse processo de construção da classificação por estratos, algumas características da estrutura social brasileira podem ser antevistas. Entre elas, observa-se a homogeneidade do estrato de administradores, estejam eles em cargos de direção ou execução; e também a do de profissionais, independentemente de serem liberais ou não. É, ainda, expressiva a identidade dos trabalhadores rurais, sejam eles empregados ou produtores autônomos, especialmente em sua situação de mercado. A análise dos clusters revela igualdade nas condições de trabalho no campo para aqueles que não são proprietários empregadores; a dimensão de autonomia, no caso do setor rural, não se impõe como fator determinante nas chances de obtenção de recompensas no mercado, uma vez que ser ou não empregado não gera diferenças significativas na renda desses trabalhadores, cujo perfil educacional também é o mesmo.

Mais reveladora, ainda, é a similaridade entre os trabalhadores da indústria tradicional e os empregados no setor de sobrevivência (serviço doméstico e ambulantes), em oposição aos operários da indústria moderna que demonstraram grande similaridade com os trabalhadores do setor de serviços na situação de mercado. O setor manual parece estar cindido entre trabalhadores qualificados e não qualificados, submetendo a essa dualidade características que pudessem indicar homogeneidade entre as posições dos trabalhadores na indústria. Os dois setores industriais ¾ moderno e tradicional ¾ demonstraram vínculos com outras categorias não industriais, vínculos estes impostos por semelhanças tanto nas características de renda e educação, como nos padrões de mobilidade.

Este artigo teve como objetivo discutir alguns aspectos teóricos, além de apresentar possibilidades metodológicas, envolvidos no processo de definição de uma classificação de estratos sociais. Para tanto, buscou-se fazer uma breve introdução ao debate sobre esquemas de classe a fim de trazer à luz os elementos considerados relevantes para a delimitação das fronteiras que criam, dividem e associam ocupações segundo critérios conceituais. Além disso, foi proposta uma metodologia que reúne técnicas de combinação de categorias, através de cluster e de modelos log-lineares, passíveis de aplicação a diversos tipos de dados.

Como conclusão, pode-se afirmar que a determinação de uma classificação de estratos está vinculada, em última instância, ao modelo teórico-conceitual e aos objetivos da pesquisa. Todavia, o instrumental metodológico consiste em um importante recurso para a obtenção de um maior grau de confiabilidade na seleção das categorias, já que permite não só proceder a aglutinações com menor perda de informação, como também testar seu alcance explicativo.

 

(Recebido para publicação em julho de 1998)

 

NOTAS:

1. A obra de Poulantzas, Parkin e Giddens é extensa, contudo uma revisão dos textos incluídos na publicação de Giddens e Held (1992) pode ser esclarecedora do pensamento desses autores.

2. Erik Olin Wright é um sociólogo neomarxista cuja obra tem como principal objetivo a sistematização e conceituação de uma tipologia de classes para ser utilizada em estudos empíricos. Assim, ele busca dar ao marxismo, que vem sendo extensivamente tratado teoricamente, também um estatuto empírico.

3. Lockwood, Goldthorpe, Blackburn, dentre outros.

4. Para uma análise de modelos log-lineares topológicos, ver Hout (1983); para uma outra de modelos lineares em geral, ver Fienberg (1994), Finglenton (1984) e Agresti (1990).

5. Waters (1991) enfatiza os pontos de convergência e divergência das análises de classe.

6. Para aprofundar essa discussão, ver Erikson e Goldthorpe (1993).

7. Os elementos aqui referidos, e que serão citados com freqüência neste capítulo, são as divisões entre proprietários/não proprietários, urbano/rural, manual/não manual, trabalho qualificado/não qualificado, além das distinções entre posições de emprego que envolvem autonomia e controle sobre outros. 

8. O conceito de zero amostral é utilizado na estatística para definir as células que não registram nenhuma informação, mantendo a idéia de que essa ausência deve-se ao próprio processo amostral, uma vez que sua ausência na amostra não significa que ela não exista na população.

9. A variável anos de estudo apresenta os seguintes valores: sem estudo ou menos de um ano, um ano, dois anos, três anos, quatro anos, cinco anos, seis anos, sete anos, oito anos, nove a onze anos, doze anos ou mais. A variável renda tem os seguintes valores (em salário mínimo): até meio salário mínimo; mais de meio a um; mais de um a dois; mais de dois a três; mais de três a cinco; mais de cinco a dez; mais de dez a vinte; mais de vinte.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGRESTI, Alan. (1990), Categorical Data Analysis. New York: John Wiley & Sons.

BLAU, P. e DUNCAN, O. D. (1967), The American Occupational Structure. New York: John Wiley.         [ Links ]

BREEN, Richard e ROTTMAN, David B. (1995), Class Stratification: A Comparative Perspective. London: Harvester Wheatsheaf.         [ Links ]

CARTER, R. (1986), "Review of Classes". Sociological Review, vol. 34, pp. 686-688.         [ Links ]

EDGELL, Stephen. (1995), Class. London: Routledge.         [ Links ]

ERIKSON, Robert e GOLDTHORPE, John H. (1993), The Constant Flux: A Study of Class Mobility in Industrial Societies. Oxford: Oxford University Press.         [ Links ]

EVANS, Geoffrey. (1996), "Putting Men and Women into Class: An Assessment of the Cross-Sex Validity of the Goldthorpe Schema". Sociology, vol. 30, nº 2, pp. 209-234.         [ Links ]

FIENBERG, Stephen E. (1994), The Analysis of Cross-Classified Categorical Data. Cambridge, Mass.: The MIT Press.         [ Links ]

FINGLENTON, B. (1984), Models of Category Counts. Cambridge: Cambridge University Press.         [ Links ]

GIDDENS, Anthony. (1985), "In Place of Emptiness". New Society, nº 74.         [ Links ]

___ e HELD, David. (1992), Classes, Power and Conflict: Classical and Contemporary Debates. London: Macmillan.         [ Links ]

GOLDTHORPE, J. H. (1983), "Women and Class Analysis: In Defence of the Conventional View". Sociology, vol. 17, nº 4, pp. 465-488.         [ Links ] 

___. (1984), "Women and Class Analysis: A Reply to the Replies". Sociology, nº 18, pp. 491-499.         [ Links ]

___. (1987), Social Mobility and Class Structure in Modern Britain. Oxford: Clarendon Press.         [ Links ]

___ e HOPE, K. (1974), The Social Grading of Occupations: A New Approach and Scale. Oxford: Clarendon Press.         [ Links ]

GOODMAN, L. (1981), "Criteria for Determining Whether Certain Categories in a Cross-Classification Table should Be Combined, with Special Reference to Occupational Categories in an Occupational Mobility Table". American Journal of Sociology, vol. 87, nº 3, pp. 612-650.         [ Links ]

HOUT, Michael. (1983), Mobility Tables. Beverly Hills: Sage Publications.         [ Links ]

___. (1989), Following in Father's Footsteps. Cambridge: Harvard University Press.         [ Links ]

KAUFMAN, L. e ROUSEEUW, P. (1990), Finding Groups in Data. New York: A Wiley-Interscience Publication.         [ Links ]

LOCKWOOD, David. (1958), The Blackcoated Worker. London: Allen e Unwin.         [ Links ]

LORR, M. (1983), Cluster Analysis for Social Scientists. s/l: Jossey-Bass Publishers.         [ Links ]

MARSHALL, Gordon et alii. (1987), "Goodbye to Supervisors?". Work, Employment and Society, vol. 1, nº 1, pp. 7-24.         [ Links ]

PASTORE, José. (1979), Desigualdade e Mobilidade Social no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.         [ Links ]

___ e ZYLBERSTAJN, H. (1991), Tendências da Mobilidade Social no Brasil e em São Paulo. IV Fórum Nacional. Mimeo.         [ Links ]

PASTORE, J. e HALLER, A. (1993), "O que Está Acontecendo com a Mobilidade Social no Brasil?", in J. Velloso e R. Albuquerque (orgs.), Pobreza e Mobilidade Social. São Paulo: Nobel.         [ Links ]

RAFTERY, Adrian. (1986), "Choosing Models for Cross-Classifications". American Sociological Review, vol. 51, nº 1, pp. 145-146.         [ Links ]

ROEMER, John. (1982), A General Theory of Exploitation and Class. Cambridge: Harvard University Press.         [ Links ]

ROSE, D. e MARSHALL, G. (1989), "Constructing the (W)right Classes", in E. O. Wright (ed.), The Debate on Classes. London: Verso.         [ Links ]

VALLE SILVA, N. do. (1992), Uma Classificação Ocupacional para o Estudo da Mobilidade e da Situação do Mercado de Trabalho no Brasil. Mimeo.         [ Links ]

WATERS, Malcom. (1991), "Collapse and Convergency in Class Theory: The Return of the Social in the Analysis of Stratification Arrangements". Theory and Society, vol. 20, nº 2, pp. 141-172.         [ Links ]

WEBER, M. (1977), "Class, Status, Party", in H. H. Gerth e C. W. Mills, From Max Weber: Essays in Sociology. New York: Oxford University Press.         [ Links ]

___. (1991), Economia e Sociedade (vol. 1). Brasília: Editora da UnB.         [ Links ]

WESTERN, M. e WRIGHT, E. O. (1994), "Class Boundaries and Intergenerational Mobility among Men". American Sociological Review, vol. 59, nº 4.         [ Links ]

WRIGHT, Erik Olin. (1985), Classes. London: Verso.         [ Links ]

___. (1989), "A General Framework for the Analysis of Class Structure", in E. O. Wright (ed.), The Debate on Classes. London: Verso.         [ Links ]

 

 

ABSTRACT
Mapping Out Strata: Criteria for Selecting a Classification

The article discusses conceptual and methodological criteria applicable to the selection of social stratum classifications. With this in mind and based on the work of Erik Olin Wright and John Goldthorpe, the text presents the debate between neomarxists and neoweberians which has influenced studies of class and stratification. Defining a classification entails delimiting the theoretical-conceptual context adopted in research and a suitable methodological treatment in order to determine, based on occupations, a social strata scheme which will allow us to study the structure of class positions. The theoretical approach adopted here lies within the class-structural framework of social mobility analyses, while the chosen methodology involves application of conglomerate analyses and log-linear models.
Keywords: stratification; class; social mobility

 

RÉSUMÉ
Baliser des Strates Sociales: Critères pour Établir un Classement

Cet article analyse des critères conceptuels et méthodologiques en vue d’établir des classements des strates sociales. Pour cela, il reprend le débat entre néomarxistes et néoweberiens au sujet des études de classe et stratification, surtout à partir des travaux d’Erik Olin Wright et John Goldthorpe. Pour aboutir à cette classification, il faut d’abord délimiter le contexte théorique choisi dans la recherche, ainsi que la démarche méthodologique appropriée afin de, à partir de l’ensemble des professions, établir une grille des strates sociales permettant d’étudier la hiérarchie des classes. L’option théorique de ce travail s’inscrit dans le contexte de classe structurelle des analyses de mobilité sociale, et sa démarche méthodologique, elle, adopte les analyses des conglomérats et modèles log-linéaires.
Mots-clé: stratification sociale; classe; mobilité sociale

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons