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versão impressa ISSN 0011-5258versão On-line ISSN 1678-4588

Dados v.43 n.3 Rio de Janeiro  2000

https://doi.org/10.1590/S0011-52582000000300006 

Ensaio Bibliográfico

Sertões Desvendados

 

 

Robert Wegner

 

ABREU, Regina. (1998), O Enigma de "Os Sertões". Rio de Janeiro, Funarte/Rocco.        [ Links ]

LIMA, Nísia Trindade. (1999), Um Sertão Chamado Brasil: Intelectuais e Representação Geográfica da Identidade Nacional. Rio de Janeiro, Revan/IUPERJ-UCAM.

STARLING, Heloisa. (1999), Lembranças do Brasil: Teoria Política, História e Ficção em "Grande Sertão: Veredas". Rio de Janeiro, Revan/IUPERJ-UCAM.

 

 

Desde algumas décadas se tem criticado seja aquelas interpretações que no debate sobre a escravidão colonial enxergam uma sociedade que era escravista da porteira para dentro dos latifúndios e capitalista para fora, seja a tese dos dois brasis. Especialmente nos anos 70, formou-se um olhar desconfiado de toda visão dual do país. Geralmente essas posições são rejeitadas por abrirem mão de procurar o princípio que unifica e explica os pólos. Talvez seja possível afirmar que um ponto alto da crítica ao dualismo foi o estudo de Maria Sylvia de Carvalho Franco, Homens Livres na Ordem Escravocrata, publicado originalmente em 1969, que, censurando a tese dualista de Inácio Rangel, procurava representar a economia colonial como uma "unidade contraditória", e não como uma "dualidade integrada". Este debate se mostrou, e prossegue sendo, bastante produtivo e importante, sempre entrelaçado com questões prementes da política nacional. Contudo, como naqueles casos em que se costuma usar a imagem do bebê jogado com a água suja do banho, também teve o efeito de inibir qualquer referência a dualidades como interior e litoral, tornando perigoso falar, por exemplo, em sertões. É como se, para evitar as interpretações que impliquem uma dualidade integrada, em vez de se buscar o elemento unificador dos pólos simplesmente se deixe de falar dele. Na década de 1990, no entanto, houve uma revitalização de estudos que se reportam ao interior do país, seja por meio de pesquisas históricas, seja por meio de releituras de obras marcantes sobre o assunto. O trabalho de Victor Leonardi, os estudos de Francisco Foot Hardman e de Roberto Ventura estão nesses casos e os últimos anos da década viram surgir, quase simultaneamente, três livros que giram em torno do tema dos sertões e são surpreendentemente complementares.

Publicado em 1998, O Enigma de "Os Sertões" originou-se da tese de doutorado em antropologia defendida por Regina Abreu, em fevereiro de 1997, no Museu Nacional/UFRJ. Consiste em uma tentativa de compreender o contexto intelectual e social do país que possibilitou a escrita de Os Sertões por Euclides da Cunha e as demandas sociais que, em um longo e duradouro processo de consagração literária, fizeram do livro um clássico. Os dois outros trabalhos resultaram de teses de doutorado defendidas no IUPERJ, também em 1997, uma em sociologia e outra em ciência política, ambas ganhadoras, no ano seguinte, do Prêmio de Publicação, concedido pela mesma instituição.

Um Sertão Chamado Brasil e Lembranças do Brasil podem ser localizados no que se tem chamado pensamento social no Brasil. Mais que coincidência é lícito pensar que a complementaridade das duas teses premiadas se relaciona ao fato de o IUPERJ ter investido fortemente, desde fins da década de 1980, nos estudos de pensamento social, consolidando-se na década seguinte como uma instituição de referência na área e, na verdade, prolongando uma tradição que remete aos estudos pioneiros de um professor seu, o pesquisador Wanderley Guilherme dos Santos, que já nos anos 60 iniciou seus estudos sobre autores brasileiros que, lhe parecia, haviam equivocadamente sido deixados de lado pelas ciências sociais universitárias. Os livros de Nísia Trindade Lima e de Heloisa Starling vêm, por assim dizer, prolongar essa tradição, recompensando os esforços de professores como Ricardo Benzaquen de Araújo, Luiz Werneck Vianna, Marcelo Jasmin, Maria Alice Rezende de Carvalho e José Murilo de Carvalho ¾ os dois últimos orientadores das teses que deram origem aos livros ¾ no Laboratório de Pensamento Social no Brasil que, até 1998, funcionou no IUPERJ e contou com participantes de outras instituições.

O fato é que a partir da década de 1980 as ciências sociais reconheceram a importância de voltar os olhos para sua própria história, o que no Brasil significou também um resgate de autores que até então pareciam sem importância. Esse processo veio a constituir uma nova área de estudo e, nesse sentido, o testemunho de Nísia Trindade Lima parece valer para as duas outras autoras também: "Foi precisamente a abertura das ciências sociais para o diálogo com a história, a literatura e as diferentes representações sobre o país, especialmente com a constituição da área de pensamento social brasileiro, que deram alento a este livro" (:14).

 

CONSAGRAÇÃO

Em certa nota de pé de página do seu estudo sobre Mozart, Norbert Elias afirma não partilhar da visão de que a sociologia seja uma disciplina destrutiva e redutora. Ao contrário, no caso da análise da vida e obra de um "gênio", ela poderia ajudar a tornar "sua situação humana mais fácil de entender" (Elias, 1995:19). Com essa lembrança, acredito que não ficamos longe do intento de Regina Abreu ao escrever O Enigma de "Os Sertões". Com o objetivo de compreender o contexto social e intelectual que permitiu que Euclides da Cunha, fazendo determinadas escolhas, escrevesse o livro que viria a ser considerado um clássico nacional, a autora escreve quatro capítulos que tratam da "gênese" de Os Sertões. E, seguindo as observações de Bourdieu, é a "consagração" da obra o objeto dos três capítulos seguintes do livro.

Após ter mostrado a escassa possibilidade de ascensão social para um jovem proveniente de família sem grandes posses em um contexto que a autora, baseada na obra de Norbert Elias, considera como sociedade de corte ¾ uma vez que a maioria dos cargos era distribuída por indicação e não mérito ¾ , Regina Abreu (:51) demonstra a boa opção que se constituíra para Euclides da Cunha o ingresso na Escola Militar, a qual era caracterizada por uma forte formação técnica e se vinha tornando desde 1850, com o Positivismo, em um pólo de formação de elite que fazia frente à civil. O Positivismo dava aos alunos militares um sentimento de superioridade intelectual e um sentimento de que já eram integrantes de um estágio mais avançado da humanidade e, de todo modo, com a profissionalização do Exército a Escola Militar já era, efetivamente, uma alternativa moderna à sociedade de corte, estabelecendo padrões universais de ascensão na carreira.

Nascido em 1865, Euclides da Cunha ingressa na Escola Militar da Praia Vermelha no início da década de 1880 e, após uma trajetória exemplar, por um gesto impulsivo de insubordinação é expulso pouco mais de um ano antes da proclamação da República. É a partir desse episódio que, mudando-se para São Paulo, passa a dedicar-se ao jornalismo no Província de São Paulo, que a partir de 1885 passara a ser dirigido pela família Mesquita (:77). Sendo o jornal uma espécie de porta-voz dos empresários do café do Oeste paulista, a autora considera que, como na Escola Militar, Euclides se alinhara a expressões "de um movimento mais amplo de modernização da sociedade brasileira". Assim, escrevendo sua coluna com um viés cientificista e amparado em certo darwinismo social que pensava uma ordem social ancorada na seleção natural, Euclides se punha em luta contra a sociedade de corte e pregava a ascensão por mérito (:83).

Em janeiro de 1889, Euclides retorna ao Rio para ingressar na Escola Politécnica e assim prosseguir seus estudos na área de engenharia, interrompidos com sua expulsão da Escola Militar (:84). Contudo, com as mudanças geradas no período de agitação republicana, é anistiado, podendo retornar a esta última. Ingressa agora na recém-criada Escola Superior de Guerra e, assim, portanto, pode tornar-se engenheiro militar, o que nesse contexto era, por assim dizer, duplamente moderno, uma vez que, como disse, a Escola Militar se havia profissionalizado e instaurado um sistema de méritos, ao lado do fato de que a engenharia representava a vanguarda da modernidade no país.

Mais do que isso, as duas qualidades aliadas, naquele momento, levavam à descoberta do interior do país, pois começam a ser promovidas as missões militares no interior. Desse modo, assim que se forma, Euclides estagia "na Estrada de Ferro Central do Brasil, iniciando longa e duradoura carreira de construtor de pontes, diretor de obras de fortificações, chefe de comissões de obras de saneamento, chefe de expedição para demarcação de fronteiras" (:90). Nesse sentido, a trajetória de Euclides da Cunha acaba se aproximando da de seu contemporâneo Cândido Rondon (1865-1958), e, como este, Euclides valorizou muito mais o trabalho das comissões pelo interior do país do que as reformas urbanas tão em voga na virada do século. No seu entender, estas eram tão-somente "reformas pelas cimalhas", quando o país precisava de trabalho mais amplo, que interligasse todo o território e incorporasse as populações nele dispersas (:92).Regina Abreu chama a atenção para o fato de que

"[...] eram os engenheiros militares que se deparavam com o povo em carne e osso, no estado bruto de ‘selvageria’ ou de ‘barbárie’, de acordo com as categorias da época. Ao participarem das comissões de saneamento, de construção de pontes, estradas, de instalação do telégrafo, o encontro era fatal. Não havia só matas e vegetação; havia índios, sertanejos, caboclos, antigos escravos" (:95-96).

Nessa linha, a autora sublinha uma idéia cara à Nísia Trindade Lima, que, em seu livro, explora detalhadamente a importância que as viagens pelo interior do Brasil tiveram para o conhecimento e transformação da idéia de sertão.

Com sua experiência militar e jornalística, Euclides da Cunha reunia as condições ideais para ser o correspondente de O Estado de São Paulo no combate ao arraial de Canudos, e, de fato, Euclides é convocado por Júlio Mesquita para cobrir o confronto no qual três expedições do Exército já haviam sido derrotadas. Regina Abreu vai relatar a experiência intensa de Euclides ao acompanhar a quarta expedição de combate a Canudos em 1897; experiência fundamental que o fará rever suas crenças sobre civilização e barbárie no Brasil.

Nesse ponto vale abrir um parêntese e lembrar que, em artigo publicado originalmente em 1991, Luiz Werneck Vianna apontou para a presença mais marcante da dualidade barbárie e civilização no pensamento social dos países americanos de língua espanhola, enquanto no Brasil esta dicotomia apareceria, geralmente, mais abrandada, quase como se os dois termos pudessem negociar (Werneck Vianna, 1997:137-138). Nessa linha, a trajetória de Euclides da Cunha deparando-se com os sertões em guerra é quase arquetípica. Vê-se aí que pela sua formação marcada pelo cientificismo e mesmo também por seu temperamento, que até admiradores seus vão apontar, após sua morte, como o de um neurastênico (Abreu:287), Euclides da Cunha por assim dizer tinha tudo para levar até as últimas conseqüências esta dualidade. E é isto que parece acontecer nas primeiras páginas do seu Diário de uma Expedição: os soldados do Exército da República nada mais estariam fazendo que combater bárbaros do sertão.

Nos seus primeiros artigos de jornal sobre Canudos, publicados em março e julho de 1897, ainda apenas como colunista, Euclides da Cunha manifesta uma imagem positiva do Exército e de sua missão ¾ embora, a partir de seus conhecimentos militares, teça críticas às suas estratégias ¾ e uma visão negativa do sertanejo ¾ inclusive usando a palavra jagunço, a qual possuía, prova a autora, conotação negativa entre os intelectuais da época (:120). Por sua vez, seu diário redigido quando acompanhava a quarta expedição começa a indicar um abrandamento e uma problematização daquela dualidade. Cobrindo o período do dia 7 de agosto até o dia 3 de outubro, perto dos últimos dias registra uma verdadeira reviravolta na mente de seu autor:

"Sejamos justos ¾ há alguma coisa de grande e solene nessa coragem estóica e incoercível, no heroísmo soberano e forte dos nossos rudes patrícios transviados, e cada vez mais acredito que a mais bela vitória, a conquista real consistirá no incorporá-los, amanhã, em breve, definitivamente, à nossa existência política" (apud:131).

Esse duro aprendizado de Euclides ao "ver com os próprios olhos" os últimos dias do ataque a Canudos ganha contornos dramáticos quando lembramos que, provavelmente, é na guerra que a civilização mais se aproxima da barbárie e, por isso, seja o momento de terrível clareza no qual os envolvidos, ao verem desmoronar suas crenças, mudam de lado. Francis Ford Coppola foi alguém que captou essa situação-limite ao transpor para as telas o drama da Guerra do Vietnã lido com as lentes do romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Ao defrontar-se com a barbárie portando a crença de que vai levar até ela a civilização, Kurtz, seja o comerciante do romance, seja o coronel do filme, passa por uma série de transformações e, a despeito de sua mente permanecer "perfeitamente lúcida", sua alma acaba por enlouquecer (Conrad, 1984:84). E é isso mesmo que Euclides vê ocorrendo e registra em seu diário: soldados que no compasso de espera do combate quase enlouquecem. Em Os Sertões também narra casos desse tipo, como o do médico que, após o ataque surpresa dos conselheiristas, no primeiro combate contra as forças do Exército, enlouquece: "Desvairara-o o aspecto da peleja. Quedava-se, inútil, ante os feridos, alguns graves" (Cunha, 1946:235). É de se pensar que, se Euclides passa a ver a barbárie com outros olhos, poderia também ter perdido qualquer esperança na civilização ocidental. No entanto não é isto o que ocorre.

Como reforça Regina Abreu, a grande marca da trajetória do escritor é a tentativa de dosar uma postura romântica com uma iluminista, pois adotou uma postura conciliatória, assinalando a inevitabilidade do progresso: "ou progredimos ou desaparecemos". Nas palavras da autora,

"[...] a saída original era buscar as bases para uma civilização autenticamente nacional. E não apenas passou a pregar a incorporação dos habitantes do interior, dos sertões ao projeto nacional, como adotou a perspectiva romântica ao propor que os sertanejos fossem considerados ‘o cerne da nacionalidade’, ou seja, a população autenticamente nacional. Desse modo, Euclides da Cunha tornou-se um dos exemplos mais contundentes de conciliação das vertentes de pensamento até então tidas como inconciliáveis" (:284).

Em outras palavras, Euclides da Cunha alinha-se àquela característica de recusa da polarização barbárie/civilização como oposição dura, apontada por Werneck Vianna como algo recorrente no pensamento social brasileiro. Nesse sentido, argumenta a autora, Euclides passa a se ver como um novo bandeirante capaz de refundar seu gesto mas de modo mais completo, o que significava prosseguir a virada desses desbravadores para o interior, configurando o alargamento do território por eles proporcionado ao completar sua demarcação. E, informado pela ciência, dar um passo adiante, promovendo a integração da população com a incorporação dos excluídos, dos sertanejos, pois, para Euclides, há o "dever de incorporar à civilização" aqueles "rudes patrícios" (apud:141). Ao lado disso, o escritor passa a encontrar no sertanejo "o cerne da nacionalidade". Comenta Regina Abreu que essa visão era paradoxal "se levarmos em conta que, paralelamente, Euclides estava imbuído das teorias racistas que encontravam na mestiçagem um obstáculo para o acesso da sociedade brasileira à civilização" (:142).

Como lembra a autora, Lilia Schwarcz já demonstrou que este era um dilema comum entre os intelectuais brasileiros de fins do século XIX e início do XX. É nesse emaranhado que se encontrava Euclides e sua solução foi eleger o mameluco como depositário da esperança em uma civilização autêntica. Fruto sim de uma miscigenação, mas uma miscigenação particular que envolvia o branco e o índio, além de ocorrer em um ambiente isolado do litoral. Voltaremos a este ponto ao comentar Um Sertão Chamado Brasil.

Após ter acompanhado a trajetória de Euclides da Cunha, para completar a reconstituição da "gênese" de Os Sertões, Regina Abreu demonstra que, com a voga dos "escritores sertanejos" na última década do século XIX, a idéia de sertão já se tornara corrente nos meios intelectuais da capital federal. Inclusive a inversão de sinais dos pólos litoral e interior já vinha ocorrendo, como na obra do escritor maranhense Coelho Neto, na qual o litoral comporta a cidade, lugar da civilização e do progresso que começam a ser relativizados graças à progressiva valorização dos sertões, que passam a se tornar o lugar da pureza e da autenticidade (:175). Desse modo, aquele primeiro pólo adquire cada vez mais o significado de ilusão e engano.

Mas enquanto os escritores sertanejos haviam abandonado sua terra natal, no interior, para buscar consagração na capital federal, e passavam a ter o sertão como seu elemento de diferenciação artística e intelectual, pois sabiam suas histórias e lendas, e, ao mesmo tempo, narram-no como o lugar idealizado da espontaneidade e do vigor juvenil, Euclides da Cunha desloca-se para este, fazendo o caminho inverso para ver com os próprios olhos.

A partir de então a autora trata da "consagração" de Os Sertões, a começar pela aclamação imediata por parte dos críticos profissionais que vinham buscando também se estabelecer. O extenso e consagrador artigo de Araripe Júnior em março de 1903 está relacionado, ao lado da crítica favorável de José Veríssimo, ao processo de afirmação de uma crítica profissionalizada que, nesse sentido, segue o mesmo compasso euclidiano de defesa de critérios científicos e valores modernos relacionados ao mérito. Contudo, por assim dizer, o preço da consagração é o da apropriação. Segundo a tese de Regina Abreu, a leitura de Araripe Júnior, com uma ênfase maior no meio físico como o elemento estável da nacionalidade, teria operado a afirmação da perspectiva romântica do livro de Euclides da Cunha e conduzido ao enfraquecimento do pólo da civilização presente na obra. Nesse sentido, para a autora, a leitura de Araripe teria abrandado a tensão presente em Os Sertões.

O ingresso de Euclides no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro ¾ IHGB e sua eleição para a Academia Brasileira de Letras ¾ ABL vinham completar sua glória. Regina Abreu demonstra que mesmo com a imensa consagração pelos críticos e instituições mais qualificadas para realizá-la, tudo portanto que um escritor poderia desejar, Euclides da Cunha não renuncia sua vocação de um novo bandeirante, continuando a arriscar-se sertão afora e chegando a adiar sua posse na ABL por conta de sua viagem ao Alto Purus.

Após 1909, com sua surpreendente morte em tiroteio com o amante de sua mulher, o processo de consagração da obra de Euclides da Cunha prossegue, agora passando sua própria vida, com aqueles seus gestos de desprendimento, a fazer parte desta obra, se tornando uma "vida exemplar", em um processo que a autora chega a chamar de santificação do escritor. O argumento central de Regina Abreu ao cobrir diversos momentos dos quase cem anos de consagração do escritor é que, neste processo, aquele superdimensionamento da vertente romântica da obra de Euclides em detrimento da relacionada à civilização prosseguiu. Tanto o discurso de Coelho Neto, um escritor sertanejo, na Câmara Federal, logo após a morte de Euclides da Cunha, quanto a santificação do escritor por associações euclidianas, bem como sua apropriação durante o Estado Novo como arauto da "marcha para Oeste" propagada por Cassiano Ricardo, vinham reforçar aquele desequilíbrio na recepção de Os Sertões.

Em suma, além de procurar mostrar que nem a gênese da obra de Euclides da Cunha, nem sua consagração tenham sido um relâmpago que surgiu do céu azul ¾ "o momento de consagração de Os Sertões pode ser considerado o coroamento de uma invenção que já vinha se processando há alguns anos: a invenção do sertão" (:370) ¾ , a autora defende a idéia de que na "batalha de símbolos e alegorias" uma determinada leitura de Os Sertões foi vencedora ¾ "foi a partir de uma leitura romântica que Euclides se tornou um escritor consagrado, embora seja possível perceber outras leituras, com idéias da vertente iluminista" (:372).

Para Regina Abreu não é gratuito que a frase que mais se consagrou nesses quase cem anos de leitura de Os Sertões foi "o sertanejo é antes de tudo um forte", que, descontextualizada, parece ser fruto da supervalorização do pólo romântico. A autora considera necessária a afirmação, ao mesmo tempo, da outra frase famosa de Euclides segundo a qual

"[...] estamos condenados à civilização. [O ponto é que] à leitura ‘dura’ de Cassiano Ricardo, da qual o herói sertanejo e bandeirante sai enaltecido, podemos, por exemplo, contrapor a leitura ‘macia’ de Gilberto Freyre, que lastima o fato de Euclides não ter incorporado em suas interpretações de Brasil a conciliação dos antagonismos, reabilitando o litoral culturalmente rico e plural que só poderia sair renovado com a descoberta dos sertões" (:392).

Um reparo que, penso, deve ser feito é que a aplicação do termo "antagonismo em equilíbrio" à leitura que Gilberto Freyre faz de Os Sertões, um termo apropriado à própria obra de Freyre conforme demonstrou Ricardo Benzaquen de Araújo em Guerra e Paz (1994), parece ser temerária. Por mais que Gilberto Freyre tenha valorizado a ambigüidade do livro de Euclides, a tentativa deste autor conciliar a vertente romântica e a iluminista não chega a ser um antagonismo em equilíbrio, posto que neste caso, diferentemente do sociólogo pernambucano que pensa em uma sociedade que não chega a uma síntese, se pensa em um projeto nacional onde é possível a conciliação entre sertão e litoral.

Mas o que interessa mesmo ressaltar, e é algo que fica claro no estudo de Regina Abreu, é que, com a consagração da obra de Euclides da Cunha, se acabou por se consagrar também o tema do sertão na reflexão sobre a sociedade brasileira. Não é outro o assunto abordado por Nísia Trindade Lima em Um Sertão Chamado Brasil.

 

OS DESTERRADOS

Embora Euclides não seja extensivamente analisado em Um Sertão Chamado Brasil, ele é um personagem sempre presente, uma vez que é uma referência para diversos dos pensadores tratados por Nísia Trindade Lima, como também inspira o esforço da própria autora. O livro explora o que poderíamos chamar de uma dialética entre a obra de um "grande escritor" e de intelectuais menores. Desse modo, esse complexo jogo de recepção de uma obra clássica ajuda a perceber, por exemplo, que ao enunciar os "fazedores de ruínas", Euclides da Cunha ajudou a desencadear, nesse mesmo movimento, uma mobilização de atores que tentam estancar o arruinamento de pessoas e paisagens. Mais importante até do que a percepção dessa conexão em si mesma, é o fato de que, com isso, se pode abrandar a visão unívoca que apresenta a elite intelectual brasileira pré-universitária como exclusivamente bovarista.

Aproveitando a observação feita em outros contextos sobre a relação entre o surgimento das ciências sociais e o processo de nation-building, Nísia Trindade Lima procura mapear o tópico sertão/litoral no curso dos debates dos intelectuais sobre a modernização do país e sobre seu próprio papel nesse processo. A escolha de um fio condutor específico não é casual. O objetivo central de Nísia é justamente mostrar que em torno da idéia de sertão, das percepções sobre a dualidade interior/litoral, se costura uma surpreendente continuidade do pensamento social brasileiro desde os etnógrafos da geração pré-1870 até as gerações que frutificaram com a institucionalização das ciências sociais, principalmente em São Paulo, a partir do decorrer da década de 1930. Uma crítica que o livro pode eventualmente receber é a de não sublinhar as diferenças entre os distintos momentos. Esta crítica logo se dilui quando se percebe que o livro quer questionar exatamente aquelas leituras que enfatizam cortes ¾ como aquele que teria ocorrido entre uma sociologia pré-científica e a institucionalizada ¾ , desse modo, como quem quisesse descurvar um arco que se encontra demasiadamente tenso para um lado, a autora procura grifar as continuidades.

Mas, ressalte-se, a ênfase nas continuidades não perde de vista as nuanças do processo, pois é exatamente pelo fato de portar uma miríade de significados, ora sendo valorizado um pólo, ora outro, que a dualidade sertão versus litoral pôde ter tamanha longevidade. É interessante como os significados de sertão e litoral se vão modificando, ora sendo ligados a determinados valores, ora a outros, mas também se colando, às vezes, a regiões específicas, recuperando nesses casos o caráter espacial mais corrente daqueles termos. Mesmo assim, nesses momentos a delimitação do espaço também é variável. A análise dessas variações é uma espécie de porto seguro do estudo de Nísia, o qual, sendo de grande amplitude, abordando textos de diferentes naturezas e de diferentes épocas, é alinhavado sempre pela resposta à pergunta sobre qual o significado e/ou à qual lugar aqueles termos se referem. Ao final de cada tópico a autora lembra de deixar nítida a resposta elaborada naquele momento específico.

No seu mapeamento, a autora demonstra que o dito de Riobaldo Tatarana, "o sertão está em toda parte", era correto, uma vez que o sertão pode dizer respeito a uma região específica da Bahia ou até mesmo à imagem utilizada pelo movimento sanitarista de que o sertão começa para além da Avenida Central. Este sertão que está em toda parte é então tanto aquele pólo associado à barbárie em contraposição à civilização, como também pode ser aquele de outra dualidade, a da cultura autêntica oposta à civilização de copistas. Nas palavras da autora, "a idéia de um país moderno no litoral, em contraposição a um país refratário à modernização, no interior, quase sempre conviveu com a concepção oposta, que acentuava a autenticidade do sertão em contraste com o parasitismo e a superficialidade litorâneos" (:17).

Este segundo tipo de ênfase ganha força na Primeira República com autores que, como Euclides da Cunha e Lima Barreto, começam a exigir de si próprios e de seus pares, "um meio giro sobre seus pés", para utilizar a expressão de Nicolau Sevcenko em passagem citada por Nísia Trindade Lima. Se, como demonstra a autora, a terceira geração de românticos que incluía entre outros José de Alencar e Alfredo Taunay já havia realizado esse giro de modo, digamos, mais espiritual ¾ e, de forma mais ou menos semelhante, também os escritores sertanejos, como demonstrou Regina Abreu ¾ , seu estudo lançará luzes sobre aqueles que fazem com que seu giro sobre os pés signifique uma marcha para o sertão: é a campanha sertanista de Rondon; são as viagens do astrônomo Louis Cruls em 1892 para o Planalto Central; são as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz. Por um ato heróico de extrema devoção pessoal e imbuídos do espírito que levou Euclides, como afirma Regina, a ver o sertão com os próprios olhos, os personagens envolvidos nas expedições da Primeira República procuraram resolver com telégrafos, estradas de ferro e pesquisa aquela profunda ambigüidade da dicotomia sertão versus litoral, na qual ora um pólo aparece como negativo, ora outro. Assim, estes personagens procuravam aliar o seu embrenhar-se no sertão como descoberta de autenticidade à sua ânsia de incorporar estes sertões ao processo civilizatório.

Essa descoberta dos sertões veio a contribuir para que muitos defensores dos valores republicanos não se reconheçam na República real implantada em 1889. Analisando mais especialmente os artigos reunidos em À Margem da História da República, livro publicado em 1924, a autora mostra como esses pensadores irão exatamente perceber a complexidade de díades como barbárie e civilização, vendo que a implantação da radicalização do moderno que acreditavam ver na instauração da República tinha muitas vezes conseqüências inversas das pretendidas, juntando na verdade, como indicam as palavras de José Murilo de Carvalho em texto mobilizado pela autora, o pior da tradição com o pior da modernidade. Indo ao encontro da percepção de Werneck Vianna sobre a complexidade do debate entre americanistas e iberistas, no qual estes não têm uma posição antagônica à matriz anglo-saxã, apenas temem o paradoxo de o Brasil legal perder o contato com o país real, tornando-o mais perverso (Werneck Vianna, 1997:152-153), a análise de Nísia demonstra como a percepção da complexidade do republicanismo no Brasil exige dos autores de À Margem da História da República, como de Euclides, um olhar mais cuidadoso sobre a díade sertão versus litoral, como se este fosse a condição para se evitar o bovarismo.

Vicente Licínio Cardoso, autor falecido em 1931 e mais conhecido por ter organizado o volume À Margem da História da República, tem seus textos resgatados por Lima que os utiliza para demonstrar como na Primeira República aquela díade chegou a tornar comum pensar a América sem qualquer especificação, no sentido de que se poderia pensar a experiência no Continente como modificadora dos valores europeus, uma concepção que, diga-se de passagem, mais tarde, na década de 1940, será chave para Sérgio Buarque de Holanda. Nesse sentido, em artigo publicado em Pensamentos Americanos, Licínio Cardoso observa que Brasil e Estados Unidos teriam passado por experiências afins que os aproximavam:

"[...] a lição admirável deixada em terras americanas por aqueles vultos grandíloquos, tanto católicos na América Latina como protestantes na América anglo-saxônica que, ao trazerem para as terras virgens de um continente novo as suas crenças, souberam honrá-las com um pragmatismo esplendidamente heróico" (apud:52).

A essa idéia estava articulada a diferenciação entre o intelectual do litoral, voltado para a Europa, e o intelectual americano, voltado para o interior do país. Uma vez que recorramos à problemática sobre consagração trabalhada no livro de Regina Abreu, e lembrarmos que nesse período o centro de reconhecimento intelectual estava no Distrito Federal, no litoral portanto, ganha ainda mais clareza a idéia de Lima segundo a qual o intelectual que fizera a virada sobre os pés era duplamente desterrado, uma vez que era estrangeiro em relação aos habitantes rústicos do interior, mesmo que os valorizasse, e também aos outros intelectuais, aqueles mais preocupados com sua "faina cega de copistas", para usar a expressão de Euclides da Cunha.

Como demonstrou Regina Abreu, o desterrado Euclides da Cunha já havia elegido o mameluco como o sertanejo nato do interior e Um Sertão Chamado Brasil demonstra que não será diferente com Rondon, companheiro de geração do escritor. Na mistura que resulta do português com o índio recai toda a ambigüidade dos traços positivos e negativos do sertão, e nele estará toda a esperança de criação de uma civilização brasileira, ou seja, uma civilização que resolva aquele dilema de ficar entre uma mera cópia e um sertão que corresponda à barbárie.

Ao lado das viagens de Cândido Rondon com vistas à construção de linhas telegráficas especialmente na última década do século XIX e nos primeiros anos do XX, Nísia destaca as viagens ao interior do Brasil promovidas pelo Instituto Oswaldo Cruz na década de 1910, quando, após dez anos de fundação, o Instituto já se encontrava consolidado (:79). Mas nessas expedições, percorrendo o Vale do São Francisco, de Pirapora, em Minas Gerais, a Juazeiro, na Bahia, não são os mamelucos ansiados por Euclides que são encontrados, mas sim os mulatos, e os primeiros relatórios não depositam muita esperança nessa gente.

No mesmo ano em que o médico Miguel Pereira pronunciava na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a frase célebre de que "o Brasil é um imenso hospital", fora realizada a viagem que pode ser considerada uma virada nas expedições do Instituto e um marco, em 1916, do movimento sanitarista no Brasil. No relatório da expedição chefiada pelos médicos Belisário Penna e Arthur Neiva o clima ou a raça deixam de ser o centro das observações e o nó do problema é depositado em um novo elemento: a doença (:84). Essa virada terá conseqüências drásticas nas discussões sobre identidade nacional e nos projetos de Brasil.

Este ponto remete ao capítulo 4º do livro, que trata da importância do movimento sanitarista e constitui, a meu ver, o seu capítulo estratégico. Ao deslocar o eixo da discussão da raça para a doença, o movimento sanitarista desatou um nó que era marcante nas discussões sobre projeto nacional, o qual até então alguns autores, como o próprio Euclides da Cunha, haviam tentado resolver apostando suas fichas em uma mistura peculiar que resultara no mameluco. Essa saída, que continuará tendo vida na historiografia regional paulista das décadas de 20 e 30, como ilustra a obra de Alfredo Ellis Júnior, possuía limitações claras em termos nacionais. O outro nó desatado se relacionava ao clima. Se a natureza continua sendo um tema recorrente no discurso dos sanitaristas, não é mais para afirmar a impossibilidade de uma civilização nos trópicos, mas sim para afirmar o poder da ciência, por meio da higiene, sobre as condições ambientais. Em 1917, Rui Barbosa afirmava exultante: "Deus nos havia dado os benefícios do sol tropical. Com Oswaldo Cruz nos deu os da ciência que o corrige" (apud:112).

Em suma, de condenado pela raça e pelo clima, o país pôde ser absolvido pela medicina e pelo sanitarismo, adiantando de modo particular o modernismo no combate à forma pessimista de representar o Brasil (:161-162). O ponto fundamental, portanto, é que ao deslocar a problemática para a questão da doença, o movimento sanitarista pôde limpar o terreno para a efetivação de um projeto nacional no qual a ação humana ganhava mais espaço (:108). E com isso, portanto, o estabelecimento de políticas públicas de saneamento que já ganhara força no início do século com as reformas urbanas, passa a ser enfatizado para o interior do país, promovendo mais uma vez o deslocamento do foco do litoral para o sertão.

O fato é que o discurso sanitarista se disseminou de tal modo que se tornou efetivamente um movimento de amplitude nacional que envolveu, além dos cientistas e médicos, literatos, publicistas e políticos, podendo tomar o caráter, como apontou Luis Antônio de Castro Santos, de "ideologia de construção da nacionalidade" (:108). O movimento sanitarista constituiu-se em uma possibilidade de finalmente promover uma conciliação entre o litoral e o sertão.

O exemplo mais eloqüente da amplitude social das idéias higienistas é a conversão de Monteiro Lobato que, aderindo àquelas, transforma seu personagem Jeca Tatu: de um irremediável indolente, passa a ser um preguiçoso porque doente. Na epígrafe de seu Problema Vital, de 1918, o escritor resumia seu novo ponto de vista dizendo: "O Jeca não é assim: está assim". A partir daí, discutindo a constituição de projetos nacionais, Nísia Trindade Lima elabora a tese segundo a qual é possível "identificar, no discurso de Monteiro Lobato, a ênfase na higiene como espécie de evangelho, algo aproximável ao ethos protestante que valoriza o trabalho como um fim em si mesmo, a servir de base para o projeto educacional destinado à ressurreição do Jeca Tatu" (:148).

À luz de suas discussões anteriores, Nísia Trindade Lima aborda a sociologia que se costuma considerar no âmbito da institucionalização, analisando trabalhos de Florestan Fernandes, Emílio Willems, Antonio Candido e Maria Isaura Pereira de Queiroz. O ponto caro à autora nessa altura é abrandar a idéia de que, a partir das ciências sociais institucionalizadas, se dá o fim de uma fase pré-científica e começa a era do estudioso que prudentemente separa ciência e política.

Um dos pontos cruciais nessa discussão é que a boa consciência das ciências sociais institucionalizadas costuma entender que, junto com sua maturidade, veio o fim da era do dualismo sertão versus litoral, que foi deslocado para ter sobrevida apenas na literatura e no cinema. Por meio da análise de textos desses intelectuais, desterrados que vinham tentando inaugurar um lugar, a autora procura demonstrar que também aí não houve um corte absoluto com os debates anteriores. Interpretando textos de Florestan Fernandes da década de 50, ela considera possível perceber uma linha de continuidade entre a sociologia institucionalizada e a de pesquisadores-viajantes da segunda década do século, no sentido de que nos dois casos há a percepção de uma nação cindida, o atraso e o moderno, na qual a missão do intelectual é, em uma palavra, de atualização. No entanto, se antes havia uma "utopia higienista" agora há uma "utopia sociológica", que visa promover uma "mudança dirigida" (:172).

Contudo, ao enfatizar a presença do dualismo sertão versus litoral na sociologia institucionalizada, a autora não pretende fazer sua delação, como se trouxesse à tona uma falsa e má consciência sua. Ao contrário, tenta encontrar aí sua vitalidade, pois parece possível dizer que, na concepção de Nísia, esta presença, em suas diferentes configurações, ao mesmo tempo que demonstra os dilemas das ciências sociais no Brasil, é também o sinal da riqueza do nosso pensamento social, da sua vitalidade no ato de conhecer o país e na tentativa de nele intervir. Nesse ponto vale a pena retomar um argumento inicial do livro que compara exatamente o par sertão versus litoral entre os intelectuais brasileiros a outras dualidades que estão nas raízes da sociologia no século XIX, conforme demonstrou Robert Nisbet ao relacionar o nascimento desta disciplina ao conservantismo. Sertão e litoral teria e tem cumprido um papel semelhante a oposições como aristocracia e democracia, feudalismo e capitalismo, comunidade e sociedade, rural e urbano, na medida em que esses contrastes eram também, para os intelectuais europeus, uma tentativa de compreender e intervir em um mundo em vertiginosa mudança, fazendo-os atentos quando estas mudanças promoviam desigualdades ou traziam os efeitos opostos aos prometidos.

Nesse sentido, os livros de Nísia Trindade Lima e Regina Abreu se encontram na sua conclusão, pois aqui ganha todo o sentido o reclame desta última quanto a muitas das leituras correntes de Os Sertões, que perdem justamente sua riqueza ao enfatizarem apenas o que qualifica como vertente romântica de Euclides da Cunha. A vitalidade, para as duas autoras, estaria justamente nas ambigüidades quanto à valoração atribuída ao sertão e ao litoral, ambigüidades estas que servem como um motor para a reflexão sobre o país.

Um Sertão Chamado Brasil analisa essa tradição de reflexão e quer também nela se inserir, não deixando aquela vitalidade esvaecer. Não quer que se rompa o fio condutor de sua análise ¾ que é também o daquela tradição ¾ representada pela obra de Euclides da Cunha. Por isso mesmo, a autora encerra o último capítulo do seu livro indicando que

"[...] talvez seja o caso de lembrar a crítica euclidiana a uma sociedade que simplesmente ‘copiava’ e, de maneira superficial, os ditames da sociedade moderna, mantendo uma estrutura fundiária retrógrada e a ausência de políticas em áreas tão sensíveis como a saúde e a educação, como tantos intelectuais denunciaram desde fins do século XIX. Sociedade que historicamente veio retendo o pior da tradição e o pior da modernidade" (:206).

 

FUNDAÇÃO

Tradição e modernidade, projetos de país, sertão são temas que vamos encontrar em Lembranças do Brasil, que trata de um livro posterior de mais de cinqüenta anos à obra de Euclides da Cunha. Um tanto inusitadamente, Heloisa Starling convence-nos de que Guimarães Rosa, este outro conhecedor dos sertões, também se envolve, na sua pura literatura, com os temas da incorporação e da fundação de uma comunidade política. Assim, como a ousadia do subtítulo do seu livro indica, Heloisa Starling procura realizar uma leitura de Grande Sertão: Veredas que congregue teoria política, história e ficção e, como anota José Murilo de Carvalho na orelha do livro, demonstra que é possível um diálogo entre estas áreas. E, como chama a atenção novamente José Murilo, Heloisa demonstra essa possibilidade com uma "tática nova". E conclui na orelha: "Aí o fascínio". Pode-se mesmo complementar dizendo que o fascínio é de uma complexa engenharia do texto que consegue fazer com que dialoguem, sem nenhuma violência, o chefe Medeiro Vaz e Maquiavel, o jagunço Riobaldo Tatarana e Hannah Arendt, apresentados e intermediados, é claro, pela própria autora, que em certas passagens chega a comentar as afirmações dos personagens de Guimarães Rosa: "Provavelmente, ele estava certo ..." (:29). A impressão é que se está a conversar com personagens e autores.

O fundamental desse efeito de diálogo, dessa conversa com autores clássicos da teoria política, é que, mais do que a leveza que proporciona ao texto, vem reafirmar uma constatação corrente segundo a qual o regionalismo de Guimarães Rosa é universal. A trilha seguida por Starling faz crer que os dilemas da fundação do espaço público e de sua manutenção, os dilemas entre a lei e sua aplicação, se nos são de fato extremamente dificultosos, e um ato inconcluso, são na verdade comuns a qualquer comunidade política, ainda mais porque Tocqueville, Walter Benjamin e Hannah Arendt estão a nos lembrar que a esfera pública deve estar sendo sempre cultivada e a rotinização é um perigo, capaz de enormes tragédias, que costuma rondá-la.

Heloisa Starling aproveita uma sugestão de Willi Bole de que é possível enxergar um "mapa alegórico" do país em Grande Sertão e, então, procura reproduzi-lo pacientemente nas páginas de Lembranças do Brasil. Mas este mapa é como a linguagem de Guimarães Rosa, sui generis, não se assemelhando à tentativa de encontrar uma origem do país, como em José de Alencar, ou sondar uma confortante peculiaridade brasileira, como em Jorge Amado. Como se possuísse uma falha gráfica que alertasse para uma ausência no que ele próprio reproduz, indica o que o país é mas também o que ele deixou de completar. Se é lícito afirmar que no livro é possível vislumbrar aspectos e costumes do viver sertanejo, se está a mostrar que falta algo nesse mundo.

A afirmação de individualidades quase anárquicas, que se submetem apenas ao chefe, o estado de guerra entre facções entremeado de breves períodos de paz, demonstram a não-presença da política. Esse é o mundo em que alguns dos personagens do livro procuram criar, por meio de um ato que, mesmo vindo deste mesmo mundo, dele escape e funde, de algum modo, com crenças e gestos compartilhados, um espaço no qual as diferenças pessoais sejam suspensas em prol de um plano de exercício da igualdade.

Desse modo, Heloisa Starling faz uma leitura procurando sondar as tentativas de fundação política passíveis de serem encontradas no livro. Dessa maneira nos defrontamos com os temas da superação dos impulsos individuais e afirmação de valores que permitam a vida política, da ação política, da passagem do privado ao público como o momento político por excelência, assuntos que impulsionam a obra de Maquiavel, que será, neste livro, um interlocutor constante de Guimarães Rosa, ao lado de Hannah Arendt e Walter Benjamin.

Em Grande Sertão: Veredas, Medeiro Vaz teria sido o primeiro a realizar esse gesto heróico de fundação. Desfazendo-se de tudo que é seu, até mesmo de todos os resquícios de seu passado pessoal, quis inaugurar uma ordem, um princípio que transcendesse as individualidades e arrancasse o sertão da desordem das meras paixões e interesses. Nas palavras de Heloisa intermeadas pelas de Guimarães,

"[...] era, como dizia o velho Riobaldo, uma massa de gente ‘que dá susto se saber ¾ e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons’. Por conta dessa gente, para reconhecer publicamente a legitimidade de seus interesses e razões privadas, Medeiro Vaz ‘montou um ginete, com cachos d’armas, reuniu chusma de gente corajada, rapaziagem dos campos, e saiu por esse rumo em roda, para impor a justiça’, inscrevendo no Sertão um princípio de discernimento entre o legítimo e o ilegítimo, o permitido e o proibido" (:58).

Contudo, como que a mostrar a centralidade da ágora em um espaço público onde se exerça a igualdade, a constante ausência de Medeiro Vaz e sua incapacidade de pôr em palavras seu ato, o torna inconcluso. Sua capacidade de reunir jagunços de diferentes grupos gera um novo momento de sociabilidade no sertão mas, ao mesmo tempo, os que o seguem estão a esperar mais alguma coisa do seu líder. Assim, mesmo com os homens agindo coletivamente, parece que, para eles, nada acontece. Um princípio que está acima de todos se impôs com o ato desprendido do chefe mas, ao mesmo tempo, ninguém parece ter acesso a ele. Não seria possível aos autores buscar seus interesses particulares com ações regidas pelo critério da justiça. Um princípio mais alto está presente, mas, como Medeiro Vaz, sabe-se dele sem poder com ele conviver.

Todos parecem pressentir que algo falta, inclusive Medeiro Vaz, e é sobre Joca Ramiro que suas esperanças serão depositadas para que, de alguma maneira, complete seu ato fundador. Desse modo, escreve Heloisa, ao falecer, Medeiro Vaz "deixou para Joca Ramiro o dilema de um mundo, rigorosamente moderno, onde a adesão à lei liberta os homens da opressão e os torna iguais, mas sacrifica suas possibilidade de transcendência, isto é, as condições para o exercício da liberdade política" (:73).

A começar por sua presença entre os jagunços, Joca Ramiro, o ator que prolonga o ato fundador de Medeiro Vaz, parece criar uma ponte entre a justiça, o princípio que a todos transcende, e os interesses de cada um. No entanto, como a representar sua incapacidade de encontrar a boa medida entre o ato fundador de seu antecessor e o que dele era exigido para prolongá-lo, sua presença era dúbia. Heloisa Starling indica-nos:

"Diferente de Medeiro Vaz, que se afastou dos homens porque não confiava neles, Joca Ramiro sempre esteve marcado por um traço espectral que o mantinha em perpétua distância de tudo e de todos, ‘tão diverso e reinante, que, mesmo em quando ainda parava vivo, era como se já estivesse constando de falecido’" (:83).

Em uma luta constante entre a tradição e a ação no presente, Joca Ramiro parece transitar entre o moderno e o arcaico. Seu dilema entre o vínculo com Medeiro Vaz e o novo ganha corpo na guerra que trava, durante anos a fio, contra Zé Bebelo, este para quem "o velho valeu enquanto foi novo" (Rosa, 1986:227). No entanto, por uma série de circunstâncias ¾ inclusive por uma atitude insana e casual de Riobaldo ¾ Joca Ramiro consegue não apenas derrotar Zé Bebelo, como tê-lo prisioneiro diante de si. Eis uma oportunidade ¾ e Maquiavel ensinou que política também é feita com golpes de sorte ¾ para completar seu ato fundador: realizar um julgamento, "um debate sobre o justo e o injusto, o legítimo e o ilegítimo, travado por homens que a um só tempo falavam uns com os outros, compareciam uns frente aos outros e, assim procedendo, ‘erigiam-se em testemunhas, em juízes uns dos outros’ (Leffort)" (:97).

Os riscos eram grandes, pois nem todos estavam dispostos a seguir esse caminho, como era o caso de Hermógenes e Ricardão que, em uma associação entre volúpia de violência e interesse (:111), propunham dar cabo da vida de Zé Bebelo, pondo fim a qualquer possibilidade de constituição de espaço público e de rompimento do círculo vicioso da vingança pessoal. Apesar de todos os riscos e das diferenças que transparecem entre os dois líderes, Joca Ramiro e Zé Bebelo, o defensor da tradição e aquele para quem só vale o que é novo, o julgamento chega a bom termo, com o réu prometendo não mais guerrear. A aceitação de sua palavra nesse ponto específico, a despeito de todas suas particularidades, leva a bom termo o julgamento. De certo modo, nele parece estar simbolizado uma complementação do ato de fundação iniciado por Medeiro Vaz, uma vez que Joca Ramiro completa, com a criação de um espaço para a palavra, o julgamento, o ato daquele que não a usava.

Mas a ordem que parecia se efetivar é repentinamente rompida com o assassinato de Joca Ramiro por um daqueles contrários ao julgamento e seu resultado. Escreve a autora,

"[...] na realidade, percebeu, agudo, Riobaldo, com um único gesto o Hermógenes renunciou a todas as leis de uma só vez, ao costume ancestral que o submeteria a qualquer homem, desde que capaz de amedrontá-lo, e ao ato de Medeiro Vaz, voltado para garantir a todos proteção contra o assassínio. Por causa disso, concluiu assustado, não sobrava muita coisa fora o medo: ‘[...] não havia mais chão, nem razão, o mundo nas juntas se desgovernava’" (:132).

O crime abre espaço para o retorno de Zé Bebelo com sua "concepção redentora da política, suscetível, acreditava convicto, se posta em ação, de ‘transformar aquele Sertão inteiro do interior, com benfeitorias, para um bom Governo, para esse ô-Brasil’" (:134). Supunha que um projeto de redenção poderia estar resumido em uma aceleração temporal rumo à civilização, ao moderno.

Nada mais poderoso para mostrar os limites do projeto de Zé Bebelo do que seu encontro com os catrumanos. Quando a certa altura de Grande Sertão: Veredas Riobaldo e seus companheiros, tendo se enganado quanto ao rumo previsto, andavam "desconhecidos no errado" do sertão, encontraram um grupo de miseráveis que pareciam ter sido retirados de outro tempo histórico. Zé Bebelo saúda-os em "alta graça": "¾ Ei, do Brasil, amigo! [...] Vim departir alçada e foro: outra lei ¾ em cada esconso, nas toesas deste sertão [...]" (Rosa, 1986:340).

Zé Bebelo acredita que seu grande projeto modernizador pode fazer tábula rasa de toda a miséria e exclusão social. Um projeto nacional é um fiat que a tudo recria e que, por isso mesmo, não necessita conhecer o que e quem já existe. Cabe-lhe apenas apregoar o seu projeto. Antes, com Medeiro Vaz, a ausência da palavra, com Joca Ramiro, a palavra que sai a muito custo. Zé Bebelo é a palavra em excesso, ou, como disse Riobaldo, "falava, horas, horas" (apud:148). Fala e não ouve. Não precisa ouvir. Desse modo, quando um dos miseráveis "ia remenicar alguma outra coisa [...] Zé Bebelo, completo de escutar e ver, deu não com a mão, e abriu a marcha. Tocamos" (Rosa, 1986:340).

Para Zé Bebelo, seu grande projeto de modernização do Brasil iria transformar inercialmente toda aquela realidade com que se defrontava, superando toda aquela miséria que aparece de forma tão clara quando encontra os catrumanos. Mas ele, que fala demais, não dá voz aos miseráveis pois, conforme acredita, o moderno os transformará. Sua ânsia pelo moderno o cega e o faz perambular pelo sertão sempre com novíssimos e grandiosos projetos que exterminariam a barbárie. Como diz Riobaldo, "Zé Bebelo não desistia de palavrear, a realeza de projeto, como faz-de-conta" (apud:150).

No entanto, como escreve Starling, paradoxalmente, "em meio a perambulação sem fim, Zé Bebelo foi semeando ruínas", por onde passava, profundamente empenhado no esforço de construção do moderno, os olhos já cegos, se pode dizer lembrando Euclides, na sua faina de copista, acaba trazendo o inverso do pretendido. Combatendo a barbárie em um mundo de "fazedores de ruínas" acaba elevando-a a uma potência maior. A civilização resulta na barbárie. Mas afinal, perguntou Euclides da Cunha certa vez, "onde está o centro e onde está a periferia da barbárie?" (apud:172).

Para além de uma interpretação instigante de uma obra literária, Lembranças do Brasil alinha-se aos livros de Regina Abreu e de Nísia Trindade Lima ao mostrar também a importância do sertão e do litoral na reflexão sobre o Brasil, acabando por ecoar o argumento de Um Sertão Chamado Brasil de que nessa dualidade e nas suas ambigüidades repousam muitas das reflexões sobre tradição e modernidade, modernização e exclusão e, enfim, barbárie e civilização. Assim como o semear ruínas promovido por Zé Bebelo alerta para a importância de nossos autores que, ao menos desde Visconde de Uruguai, têm insistido na crítica ao idealismo que perde contato com o país real e, a custa disso, acaba por promover a barbárie em nome da civilização.

Por isso mesmo, vale dizer que a reflexão empreendida por Heloisa Starling tende a impulsionar os cientistas sociais que tentam entender o Brasil a ler por mais uma vez seus clássicos, como, por exemplo, Oliveira Vianna, Vitor Nunes Leal e Maria Sylvia Carvalho Franco. É bom lembrar também que a narrativa de Guimarães Rosa se passa no período da República Velha e todos seus dilemas ecoam nas preocupações de Oliveira Vianna com a federalização operada naquele contexto, que substitui o Estado centralizado pelo fortalecimento das autoridades locais. E também nas percepções de Vicente Licínio Cardoso, autor resgatado por Nísia, que vê a proclamação da República exatamente como um ato inconcluso.

 

CONCLUSÃO

Além das contribuições específicas de cada autora, os três trabalhos no seu conjunto são uma confirmação da premência da questão dos sertões, do interior na sociedade brasileira, e, em todos os casos, seja por meio da voz das próprias intérpretes, seja por meio dos textos dos autores estudados, como Euclides da Cunha, se está a chamar a atenção que neste tema está imbricada a ansiedade quase constitutiva do pensamento social brasileiro e da ciência política no país que é a da inclusão social. E aqui o tema dos projetos nacionais e intelectuais, aquela "campanha formidável contra o deserto", de Euclides, o saneamento do Brasil proposto nas décadas de 1910 e 1920, a construção ¾ aparentemente despretensiosa politicamente ¾ do imenso mapa alegórico levada a cabo por Guimarães Rosa, a utopia sociológica de Florestan Fernandes, ganham seu sentido maior.

Mas estes projetos mesmos ganham avaliações diferentes, olhares diferentes. Nesse sentido há também, como que para melhor completar este mapa sobre a idéia de sertões no pensamento e na literatura brasileira, diferenças nas incursões das três autoras. Regina Abreu tem um olhar cuidadoso mas sempre desconfiado da recepção da obra de Euclides e, talvez por isso mesmo, tem uma redação solta e, em uma inspiração livre no estudo de Hayden White, diria possuir um tom irônico que faz com que, mesmo ao tratar das surpresas de Euclides no acampamento ao lado de Canudos, nunca deixe de ter um olhar distanciado. Isto porque, como alerta aquele autor a partir dos estudos de Northrop Frye, a ironia é anti-heróica, "sublinha o aspecto ‘humano, demasiado humano’ do que era visto anteriormente como heróico" (White, 1992:243).

Na mesma linha, pode-se dizer que Um Sertão Chamado Brasil é cômico. Claro que não no sentido de engraçado, mas por constituir um encadeamento que cria a expectativa de que tudo pode acabar bem e, para que de fato isto ocorra, como em um teatro experimental, às vezes parece conclamar o leitor a participar do enredo. Nesse sentido, Nísia Trindade Lima figura fazer parte da tradição intelectual que analisa e, ao salientar o vínculo desta tradição com a ciência e a política, também parece chamar para si a idéia de missão e intervenção.

Por sua vez, dá a impressão de que Heloisa Starling compartilha da sensação de Guimarães Rosa diante de uma nação que poderia ter sido e nunca foi, esse brado de Riobaldo, que ressoa no Brasil, o de que "eu queria ser mais do que eu. Ah, eu queria, eu podia". Desse modo, Lembranças do Brasil, dos três, é o livro que mais se aproxima de um tom trágico, não no sentido de grandioso, mas naquele de que a todo momento parece se saber que dificilmente as coisas podem acabar bem. Seu intento de colocar em diálogo constante a obra maior de Rosa com Hannah Arendt ou Tocqueville exige que cada frase seja cuidadosamente construída, o que ajuda a aumentar este tom trágico e, por vezes, melancólico.

Gostaria de concluir sugerindo que comparações com os Estados Unidos podem ser instigantes, posto que o West tem sido um tema constante da reflexão norte-americana, tendo inclusive recebido tanto valorações positivas, quanto negativas, e tendo sido associado, muitas vezes, à autenticidade ¾ como na conferência clássica de Frederick Jackson Turner, The Significance of the Frontier in American History (1893). Nessa linha, os dilemas e ambigüidades nas oposições não foram exclusividade brasileira. As leituras calcadas na polaridade Leste e Oeste, segundo alguns autores, como Henry Nash Smith, portavam contradições insolúveis como aquela ligada ao par primitivismo versus industrialismo. Outros autores, como George Williams, consideram que a tradição de pensamento norte-americano fez com que esses termos, Leste/Oeste, primitivismo/industrialismo, negociassem. Dilemas, contradições, ambigüidades e vitalidade do pensamento. Regina Abreu, Nísia Trindade Lima e Heloisa Starling mostram que no Brasil tem sido assim.

(Recebido para publicação em outubro de 2000)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ABSTRACT
The Backlands Unveile
d
This essay presents readers with the central argument from three books, ranging from Euclides da Cunha to Guimarães Rosa and the hygienist movement of the 1920s, focusing on the theme of the sertão (backlands) in Brazilian literature and social thought. Based on this presentation, the essay emphasizes that linked to the topic under review, Brazilian intellectual tradition has nearly always encompassed classical themes from sociology and political science, like incorporation and nation-building. After digressing to the three authors’ styles, the essay concludes by suggesting the validity of performing comparative studies on approaches to the Brazilian backlands and those conducted by North American scholars.
Keywords: coast and inland; barbarism and civilization; authenticity; incorporation

 

RÉSUMÉ
Sertões Dévoilés

Dans cet essai on présente le thème central de trois livres qui, depuis Euclides da Cunha jusqu’à Guimarães Rosa en passant par le mouvement sanitarista des années 20, abordent le sertão dans la littérature et la pensée sociale au Brésil. Sur cette base, on voit qu’il est fréquent, dans la tradition intelectuelle brésilienne, d’associer l’idée de sertão à des sujets de la sociologie et de la science politique, tels que celui de l’incorporation et de construction de la nation. Finalement, après des considérations sur le style des auteurs, on propose d’effectuer des études comparatives entre les approches concernant le Brésil profond et celles utilisées par les chercheurs nord-américains.
Mots-clé: littoral et arrière-pays; barbarie et civilisation; authenticité; incorporation

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