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Revista do Instituto de Estudos Brasileiros

Print version ISSN 0020-3874On-line version ISSN 2316-901X

Rev. Inst. Estud. Bras.  no.72 São Paulo Jan./Apr. 2019  Epub June 10, 2019

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-901x.v0i72p63-82 

Artigos

Regionalismo e variação linguística: uma reflexão sobre a linguagem caipira nos causos de Geraldinho

Regionalism and linguistic variation: a reflection about hick language in Geraldinho’ stories

Julienni Lopes de Sousa1 
http://orcid.org/0000-0002-4330-5854

Luana Nunes Martins de Lima2 
http://orcid.org/0000-0003-0374-0488

1Universidade Estadual de Goiás (UEG, Jussara, GO, Brasil).

2 Universidade Estadual de Goiás (UEG, Itapuranga, GO, Brasil).


RESUMO

O artigo tem por objetivo refletir sobre fenômenos linguísticos que cercam a linguagem caipira, através dos causos de Geraldo Policiano Nogueira, típico sertanejo do interior de Goiás. Realizamos um levantamento bibliográfico para analisar a linguagem, a cultura e a sociedade, numa abordagem sociolinguística, apontando para o preconceito em relação ao modo de falar de muitas variantes culturais: o falar caipira, que - analisado por meio da escuta, com transcrição de análise de alguns dos causos de Geraldinho - reflete um contexto de vida de inúmeros sujeitos da região. A discussão ainda se dá em torno da imagem do caipira que se projetou em Goiás, procurando correlacioná-la à história regional. Consideramos necessário uma mudança de perspectiva em relação às variedades presentes na língua portuguesa para contribuir com a compreensão histórica, social e cultural das diferenças entre os falares urbanos e rurais.

PALAVRAS-CHAVE: Regionalismo; variação linguística; caipira; Geraldinho

ABSTRACT

The article aims to reflect about linguistic phenomena that surround the hick language, by the stories of Geraldo Policiano Nogueira, typical countryside person from the interior of Goiás. We carried out a bibliographical survey to analyze the language, the culture and the society by the sociolinguistic approach, pointing to the prejudice in relation to the way of speaking of many cultural variants: the hick language that - analyzed by listening, transcription and analysis of some Geraldinho’stories - reflects a life context of countless subjects of the region. The discussion also involves the image of the hick that was projected in Goiás, trying to correlate it to the regional history. We consider necessary to change the perspective regarding the varieties present in the Portuguese Language to contribute to the historical, social and cultural understanding of the differences between urban and rural languages.

KEYWORDS: Regionalism; linguistic variation; hick; Geraldinho

A língua portuguesa apresenta uma rica diversidade e complexos sistemas linguísticos que vão se adequando às necessidades daqueles que deles se utilizam. Mesmo assim, as variantes linguísticas, por vezes, são alvo de avaliações valorativas ou depreciativas. O conflito causado por tais avaliações pode contribuir para a manutenção ou para o desaparecimento de traços linguísticos, o que torna tais questões sempre atuais e significativas para aqueles que se dedicam aos estudos sociolinguísticos. O foco de nossa investigação está no falar caipira, uma variante comumente rotulada como inadequada e associada a indivíduos ditos “sem cultura”, distantes dos padrões estabelecidos pela norma culta.

As variações linguísticas, de acordo com os estudos linguísticos, estão longe de ser casuais, mas são fenômenos fortemente condicionados por fatores sociais, estilísticos e avaliativos. A partir dessa proposição, procuramos analisar, através de causos contados pelo goiano Geraldo Policiano Nogueira, mais conhecido como Geraldinho, a típica linguagem caipira goiana e as atitudes relacionadas à variável linguística em questão. Entendemos que essa variedade é fruto de um construto regional, contextualizado pela própria história de Goiás e pela totalidade do mundo representado sobre o sertão.

Trata-se de um um dialeto3 que em si mesmo já apresenta vasta variedade, embora características como a prosódia caipira (abrangendo o ritmo vagaroso e musicalidade da linguagem) e um estiramento mais ou menos excessivo das vogais sejam comuns ao caipirismo das diversas regiões (AMARAL, 1976). Apresentaremos, portanto, uma perspectiva individualizada do falar caipira goiano, tipificado na figura de Geraldinho.

O artigo subdivide-se em três partes: a primeira apresenta uma abordagem acerca da sociolinguística e considerações sobre o preconceito existente em relação às variações da língua portuguesa; a segunda parte enfoca, de forma sintetizada e entrelaçada, o regionalismo, a linguagem caipira e a imagem do sertanejo/caipira projetada em/sobre Goiás. Na terceira e última parte, o que está proposto é uma análise do falar caipira nos causos de Geraldinho, evidenciando fenômenos, expressões e tendências que tornam a linguagem um instrumento identitário regional.

Linguagem, cultura e sociedade

Segundo Martellota (2008), a sociolinguística é o estudo da língua em seu uso real e do local onde ele se dá, pois compreende a língua não como algo autônomo, mas dependente do contexto situacional, levando em conta as variações sociais que a envolvem, como a cultura e a própria história das pessoas.

O estudo da língua parte da comunidade linguística, que é um conjunto de pessoas que se relacionam verbalmente, respeitando as mesmas regras em relação aos usos linguísticos. Dessa forma, uma comunidade de fala não se caracteriza por ter pessoas que falam do mesmo modo, mas sim pelo fato de essas pessoas se relacionarem por meio de redes comunicativas diversas, seguindo as mesmas normas.

A padronização de língua é sempre historicamente definida. Claro que a escrita é um sistema rígido, organizado por um conjunto de regras comum a todos os falantes de uma mesma comunidade linguística para evitar o caos na comunicação. Entretanto, há um dinamismo inerente em todas as línguas, tornando-as heterogêneas; “encontram-se assim, formas distintas que, em princípio, se equivalem semanticamente no nível do vocabulário, da sintaxe e morfossintaxe, do subsistema fonético-fonológico e no domínio pragmático-discursivo. O português falado no Brasil está repleto de exemplos” (MOLLICA; BRAGA, 2008, p. 9).

A diversidade linguística dá-se em razão de diferenças geográficas, de classes sociais, de níveis de escolaridade, de categorias como profissão, idade, sexo, entre outras. Além disso, a diversidade da língua expressa-se na própria continuação histórica, de forma que as mudanças temporais sejam parte da história das línguas.

Assim, nas comunidades de fala há a coexistência de um conjunto de variedades linguísticas, que não ocorrem no vazio, mas sim no contexto das relações sociais que são estabelecidas pela estrutura histórica e sociopolítica de cada comunidade. Nessas relações há sempre uma ordenação valorativa que classifica as variantes como superiores ou inferiores.

As sociedades de tradições ocidentais oferecem um caso particular de variedade prestigiada: a variedade padrão. A variedade padrão é a variedade linguística socialmente mais valorizada, de reconhecido prestígio dentro de uma comunidade, cujo uso é, normalmente, requerido em situações de interação determinadas, definidas pela comunidade como próprias, em função da formalidade da situação, do assunto tratado, da relação entre os interlocutores. (BENTES; MUSSALIM, 2008, p. 40).

Essa variedade padrão, ou norma culta, não é a língua por excelência, que é colocada em circulação, para que os falantes se apropriem dela como podem e são capazes, mas ela é o resultado de uma atitude social ante a língua, que tanto se estabelece pela seleção de um dos modos de falar entre os vários existentes, como elege um conjunto de normas que definem o modo “correto” de falar.

A norma padrão é preestabelecida para a escrita, sendo impossível alguém utilizar somente ela numa conversação, principalmente quando se compreende que essa norma não está apenas ligada à sintaxe, como demonstram estudos dialetológicos. Mesmo assim, existem variações de prestígio na língua falada.

Segundo Faraco (2008), a classificação do modo de falar como sendo superior ou inferior a outro está presente nas sociedades desde o Império Romano, o qual, envolvido em um contexto de centralização de poder, recebeu os estudos alexandrinos, fixou e cultivou um latim modelar. A partir daí, os romanos passaram a adotar como ponto de referência a linguagem dos poetas e prosadores consagrados, valorizando um ideal de língua, um modelo a ser seguido e mais valorizado que o outro, via de regra, que partia da alta classe social.

Nesse processo todo, agregou-se à concepção de pessoa culta no mundo romano o pressuposto de bem falar e bem escrever, isto é, de cultivar certos modelos de língua, aproximando seu modo de falar em público e de escrever aos usos dos autores consagrados. Em outras palavras, imitar a língua dos autores clássicos era o ideal linguístico das pessoas cultas. (FARACO, 2008, p. 137).

A visão normativista, presente sobretudo nas instituições de ensino, ao não reconhecer a língua padrão apenas como uma das variedades existentes, esvazia o próprio sentido da sociolinguística, que é estudar a língua a partir de seu lócus cultural e histórico, com todas as suas variações e diferenças. É necessário “livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma de falar - a que se parece com a escrita - e o de que a escrita é o espelho da fala” (BAGNO, 2007, p. 27) -, sendo preciso “consertar” a fala para que não se escreva errado.

O português do Brasil insere-se em uma ampla variação relacionada à dimensão territorial e processos migratórios que marcaram a história da nação. Elementos da linguagem que escapam à norma padrão são classificados como regionalismos. Biderman (2001, p. 136) os define como

[...] qualquer fato linguístico (palavra, expressão, ou seu sentido) peculiar a uma ou outra variedade regional do português falado no Brasil, excetuando a variedade empregada no eixo linguístico Rio/São Paulo, considerada a variedade de referência, ou seja, o português brasileiro padrão, e excluindo também as variedades usadas em outros territórios lusófonos.

Contudo, regionalismos são fatos linguísticos que não apenas divergem da norma padrão, mas também são peculiares a cada estado/região do país. Não há fronteiras explícitas, embora se reconheça que essas variantes se expressam com maior especificidade à medida que se adentra no interior do sertão brasileiro.

Nessa perspectiva, o tópico seguinte tem por finalidade mostrar como se consolidou a representação da imagem do caipira projetada sobre Goiás, bem como a visão depreciativa, que por vezes circulou e ainda circula pela sociedade, em relação a esse sujeito e sua variante linguística.

Regionalismo e variação linguística: Goiás projetado na imagem do caipira

O regionalismo pode ser entendido como formas de apreensão do conjunto de particularidades de determinada região geográfica, decorrentes dacultura existente ali e de fatores históricos que a originaram, sendo o dialeto uma de suas principais formas de expressão.

No âmbito da literatura, o regionalismo é uma fase do romance brasileiro que, na busca por conhecer e exaltar o Brasil, contemplou um conjunto de costumes, expressões linguísticas e outros valores que enfatizaram a realidade nacional, evocando, sobretudo, a variação entre uma região e outra, a natureza e o exotismo nativista.

Para Candido, criava-se, assim o equilíbrio entre a forma literária e a busca pela construção da identidade nacional. “Ambas [natureza e pátria] conduziam a uma literatura que compensava o atraso material e a debilidade das instruções por meio da supervalorização dos aspectos regionais, fazendo do exotismo razão de otimismo social” (CANDIDO, 2007, p. 170).

Do ponto de vista da geografia clássica, tendo Richard Hartshorne como expoente da categoria “região”, esse é um conceito abstrato, pois não existe sem uma direta construção intelectual humana que atribui as diferenças entre os lugares (culturais, paisagísticas, econômicas, e tantas quantas forem possíveis identificar) (HARTSHORNE, 1978).

Já o geógrafo Roberto Lobato Corrêa, recorrendo à abordagem da escola vidaliana4, enfatiza o conceito de “região cultural” para definir áreas “identificadas com base na combinação de traços culturais, materiais e não materiais que tendem a originar uma paisagem cultural”. E ainda ressalta que “as regiões culturais são áreas apropriadas, vivenciadas e por vezes disputadas”, “nomeadas, sendo designadas como diferentes entre si”. Para o autor, entretanto, “sua importância não reside na identificação e descrição de diferenças regionais como um fim em si mesmo, mas como um meio para a compreensão da diferenciada e desigual ação humana no espaço e no tempo” (CORRÊA, 2008, p. 12). Não à toa, o vínculo entre a literatura e a ciência geográfica tem se tornado cada vez mais forte, criando um subcampo de estudo para ambas as áreas. Este é um viés que oferece possibilidades analíticas para a abordagem que empreendemos neste artigo.

Em se tratando de regionalismo goiano, Lena Castello Branco Ferreira de Freitas faz uma discussão sobre a “goianidade” e afirma que se trata de um modus vivendi cujo principal vínculo é com o ambiente rural - uma mentalidade emoldurada desde o dia a dia da Fazenda Goiana até os tempos recentes (FREITAS, 2011). A fazenda goiana, por sua vez, pode ser entendida como

[...] a organização espacial que particulariza a estrutura socioeconômica de Goiás entre o final do século XVIII e início do XX, num ordenamento estrutural marcado pela autossustentabilidade e diversidade produtiva, pelo patriarcalismo, pelo tempo lento, pela troca simples, pelo coronelismo, pelo cristianismo, pelo latifúndio, pela subordinação dos núcleos urbanos ao rural, dentre outros. (BORGES, 2011, s. p.).

Tanto para Estevam (2008), quanto para Teixeira Neto, essa condição revela uma dinâmica na qual a pecuária é a essência da civilização caipira e do mundo sertanejo: “por aqui a roça e o boi são mais que símbolos emblemáticos, porque, mais que em outras regiões do Brasil, foi no campo que as coisas funcionaram” (TEIXEIRA NETO, 2008, p. 3).

O regionalismo, nesses termos, deve ser entendido como algo que singulariza sujeitos pertencentes a determinada região. Envolve as lutas, os costumes, a cultura, as comidas e modos de falar específicos dos habitantes do lugar em particular, que, acoplados, formam um conjunto de modos de ser, de se expressar, diferenciando os sujeitos de um lugar dos outros, ainda que pertençam ao mesmo país.

Para a compreensão da cultura regional goiana é preciso conhecer seu passado, pois o que foi construído nele se reflete na história contemporânea. A princípio, cabe ressaltar que, até o final do século XVIII, a economia dessa região estava voltada para o ouro, o que provocou um primeiro surto migratório.

Goiás nasceu com a miragem do ouro. Bandeirantes, aventureiros, mineiros com seus escravos, em grupos ou isoladamente, deslocaram-se de lugares os mais diversos, do Reino ou da Colônia, para a atividade febricitante das minas. A movê-los, a cobiça, o sonho da riqueza fácil, o mito de veios inesgotáveis. Venceram-se distâncias continentais, sofreram-se doenças, fome, privações de toda sorte. (FREITAS, 2011, p. 56).

Devido à exploração do ouro, grupos de diversas procedências migraram para a região das Minas Goyazes. Nesse processo, houve o contato de diferentes formas de falar e costumes oriundos de várias regiões do país. O processo vivido durante o período da mineração e de seu arrefecimento foi tido como conflituoso e muitas vezes passou a ideia de isolamento.

Distâncias continentais separavam Goiás da civilização - ou seja, dos núcleos urbanos do litoral - e contribuíam para o isolamento dos habitantes. A assistência religiosa era difícil e rara, comprometendo os fundamentos da colonização cristã. Viajantes que percorreram a Província, durante a primeira metade do século XIX, registram que, naqueles ermos aonde não chegavam o sal e o ferro, os moradores tendiam a esquecer as orações e a língua portuguesa. (FREITAS, 2011, p. 59).

Todos esses percalços influenciavam a maneira de ser dos habitantes dessa região, principalmente na maneira de falar. Na literatura histórica, é notório o vínculo indissociável entre a tipologia da população encontrada nas cidades da mineração e a imagem de atraso, decadência e isolamento. De acordo com Chaul (2010), tal ideia foi largamente apregoada pela historiografia de Goiás, construída sobre as bases de relatos de viajantes, sobretudo no período pós-mineratório. Um olhar, de certa forma, embotado pela realidade europeia.

Durante o período de ascensão da mineração, todo o território goiano foi percorrido e explorado. Em meio a essas grandes explorações foram erguidos arraiais, capelas e igrejas, o que consolidou a Capitania de Goiás e erigiu Vila Boa como o centro administrativo.

O arrefecimento da mineração a partir do final do século XVIII promoveu a consolidação da agricultura e da pecuária, que deram às regiões mineradoras um crescimento econômico e demográfico considerável. Darcy Ribeiro, na busca pela descrição detalhada da formação dos diversos grupos sociais no Brasil, dedica especial atenção a esse período, no qual o caipirismo se estabelece como uma variante da cultura brasileira nas diversas áreas do Centro-Sul do país.

A população se dispersa e se sedentariza, esforçando-se por atingir níveis mínimos de satisfação de suas necessidades. O equilíbrio é alcançado numa variante da cultura brasileira rústica, que se cristaliza como área cultural caipira. É um novo modo de vida que se difunde paulatinamente a partir das antigas áreas de mineração dos núcleos ancilares de produção artesanal e de mantimentos que a supriam de manufaturas, de animais de serviço e outros bens. Acaba por esparramar-se, falando afinal a língua portuguesa, por toda a área florestal e campos naturais do Centro-Sul do país [...]. Desse modo, a antiga área de correrias dos paulistas velhos na preia de índios e na busca de ouro se transforma numa vasta região de cultura caipira, ocupada por uma população extremamente dispersa e desarticulada. (RIBEIRO, 1995, p. 382).

Em Goiás, após duas décadas de decadência populacional, em meados de 1820, tem início um constante fluxo migratório, originário de diversas regiões do país, demandando suas fartas e promissoras terras. Entre esses, estão, principalmente, os mineiros, que se deslocaram com suas famílias e rebanhos, apoderando-se do território e constituindo fazendas e arraiais. No norte e nordeste da província instalaram-se baianos, pernambucanos, piauienses e maranhenses. Paulistas e gaúchos preferiram as regiões do Sul e Sudeste. Assim, a sociedade goiana era tipicamente agrária, as atividades desenvolvidas eram voltadas para o campo, assim como os valores e costumes. Isso perdurou por tempo significativo durante o século XX, se comparado ao eixo Rio/São Paulo, cuja urbanização ocorrera mais rapidamente (CHAUL, 2010). Essa dinâmica justifica tanto a diversidade de culturas que influenciaram a sociedade goiana, transformando seus costumes e modos de falar, quanto a associação dos aspectos sociolinguísticos ao construto regional de base agrária.

As cidades existentes apresentavam-se de pequeno porte. Nos centros urbanos de Goiás, privilegiava-se o relacionamento informal entre pessoas e instituições, prevalecendo o sentimento de afetividade e pessoalidade nas relações sociais entre as pessoas.

Tais relações eram limitadas. Vizinhos frequentavam-se raramente, mesmo mantendo formas de solidariedade e de ajuda mútua. As comemorações religiosas - rezas, novenas e procissões - geravam uma aproximação entre as pessoas do campo e das cidades, cujos modos de vida não diferenciavam muito entre si, conforme descreve Freitas.

Os valores da família, o apego à sua terra e à sua maneira de ser somavam-se e somam-se a outros traços marcantes da goianidade: simplicidade como opção de vida, senso de humor e cordialidade simples ao lado de certa altivez e ufanismo em relação aos vastos horizontes, à imensidão dos céus, à abundância de águas e matas. (FREITAS, 2011, p. 61).

Um dos pontos de partida para o desenvolvimento de Goiás e sua integração com as demais regiões do país foi a construção de Brasília, a partir da década de 1950. Com a implantação de novas tecnologias no campo, o estado era convocado a exportar. Essas mudanças fizeram com que um novo contingente populacional migrasse para essa região, e o contato entre diferentes culturas gerou novas alterações na estrutura dessa sociedade. Nisso destacamos a fala das pessoas, que receberam influências de outros falares.

O caipira ou sertanejo dessa região sempre foi estereotipado e tido como atrasado, fora de seu tempo, por aqueles que se concentravam nos grandes centros urbanos, onde o progresso e a modernidade se instalavam com mais facilidade. Castro (2010, p. 36) assim o define:

O caipira goiano, assim como o paulista, suporta a depreciação geopolítica de subcolonizado, de mestiço e de grupo de pouca cultura, portador de uma língua impura que herdou o paganismo do índio e do negro. Como revela Santos (2004), o caipira goiano é, segundo a voz do dominador, uma camada social corrompida pela impureza da mistura pluriétnica.

Se, por um lado, o goiano se habituava a adotar uma posição estigmatizada de sua própria região, a construção da nova capital e o desenvolvimento do estado forçaram seus habitantes a reverem e atribuírem novas inquietações sobre a própria cultura e sua dinâmica. O caipira também é apresentado como um sujeito forte, pois, estando à margem da sociedade, enfrenta todas as dificuldades e consegue sobreviver. Na literatura de Hugo de Carvalho Ramos5, há uma tentativa de esclarecimento do ser caipira e sertanejo.

[...] o lavrador, o “caipira”, o “queijeiro”, etc., como é geralmente conhecido, apresenta de facto, muitas vezes, os estigmas physionomicos de depressão organica, oriundos da papeira, malária e outras. [Porém] a par do typo isolado do “caipira” existem as fazendas de plantação, largas culturas, na vizinhança das vilas e cidades, trabalhadas pelos proprios fazendeiros, filhos, camaradas ou aggregados. A todos esses, são nas cidades do interior designados genericamente pelo nome de “roceiros”. Os primeiros constituem o elemento sedentario, preso ao sólo, cujo horizonte visual não vae além do alqueire de terra que lavram; os últimos, se não viajados, têm ao menos, pelo accidentado da vida, um campo de atividade a abranger largas extensões, desde o pastoreio das manadas num ambito de varias leguas ao redor das fazendas [...] e mais além. É esse o elemento que se póde chamar genuinamente sertanejo. (RAMOS apud PIMENTEL, 1997, p. 24-25).

Aqui há uma tentativa de mostrar não só o caipira, mas também o sertão. Este, como grandes espaços de terras onde o que se concebia como “progresso” ainda não havia chegado; local tido por aqueles detentores do poder e da palavra como um lugar sem hábitos civis. Tais ideias disseminavam-se ideologicamente em nome dos pretendidos progresso e modernidade no período republicano.

O caipira goiano era sujeito cheio de histórias para contar, porém calado por sua condição marginal. A ele cabia ocupar a terra, derrubar o mato e plantar o roçado. Em seguida, os “donos das terras” o baniam e apropriavam-se da terra pronta para o plantio, de tal modo que o caipira, então, se dirigia para terras mais afastadas e reiniciava o ciclo, o que o mantinha ainda mais em relativo isolamento, ainda que esse não fosse seu desejo.

O modo de vida restrito em seus afazeres propicia uma economia fechada e de subsistência, com vários agrupamentos familiares que têm por vínculo a ligação sentimental ao lugar, o que possibilita práticas de auxílio mútuo, como o mutirão, [...] uma manifestação talvez herdada dos indígenas. (CASTRO, 2010, p. 39).

O caipira é visto como um interiorano acanhado e sem preparo para a vida em sociedade, pois não mora em cidades, não tem instrução ou trato social, não sabe se vestir adequadamente, nem tampouco se apresentar em público. É um habitante do interior, tímido e desajeitado. A etimologia do termo dá margem, ainda, para pensar em outros sentidos construídos sobre o “caipira”, explorados por Sousa (2005, p. 21):

É certo que, por designar caboclo, a palavra tem uma raiz indígena. Outros termos correlatos são apontados como originadores da palavra “caipira”: caapora ou curupira, ambos usados para designar demônio ou duende do mato, caipora (infelicidade, má sorte); ou caa-pira (arrancador de mato) [...]. A raiz dessa palavra, caí, significa o gesto do macaco escondendo o rosto. Ele aparece em capipiara, “o que é do mato”, e em capiã, “dentro do mato”. Enfim, aparece em caapi, “trabalhar na terra” e em caapiára, “lavrador”. Donde, enfim, redundaria em caipira.

Existem muitos sinais evidentes da ausência de uma pedagogia da variação linguística em uma sociedade que ainda não discute de maneira suficiente a questão da heterogeneidade da língua. Muitos livros trazem representações de variedades da língua falada, que, porém, são abordadas de forma caricata, bem distante do que realmente seja uma variedade do “português rural”. Segundo Faraco (2008, p. 178):

Parece que não há livro didático hoje que não tenha uma tira do Chico Bento - que, diga-se de passagem - está muito longe de representar, de fato, uma variedade do português rural. É antes uma elaboração estereotipada de um falar rural. Cabe, então, perguntar quanto uma representação estereotipada de um certo falar contribui para a compreensão da variação linguística.

Entretanto, um movimento mais recente, conduzido principalmente pela mídia, tem colocado foco em representações do falar caipira, de maneira a incentivar o uso de suas expressões e vocábulos. Como elemento de análise desta pesquisa, procuramos retratar um típico representante da cultura caipira goiana: Geraldinho - um goiano contador de causos, que traz consigo um humor tipicamente caipira, voltado ao homem do campo e à terra que habita. Em seus causos podem ser investigados uma série de elementos relacionados à linguagem usada pelo caipira/sertanejo.

Sua dicção, seu vocabulário, sua postura e até mesmo seu próprio riso mostram um homem caipira que, conduzido à cidade, à urbanização, à mídia, permanece fiel à sua origem, negando-se a mudar suas tradições do campo para costumes citadinos. Aliás, a autenticidade de seu personagem consiste justamente em rir dos hábitos do homem urbano e reafirmar, também com o seu humor típico, o caipirismo, demonstrando uma resistência cultural do próprio dialeto.

A linguagem caipira nos causos de Geraldinho

Geraldo Policiano Nogueira, mais conhecido como Geraldinho, um ilustre morador da cidade de Bela Vista de Goiás, ficou famoso por ser um homem simples da vida interiorana, mas cheio de histórias para contar. Nasceu em 18 de dezembro de 1918, na Fazenda Aborrecido, distante aproximadamente 23 quilômetros de Bela Vista de Goiás, onde viveu até os 16 anos. Seus pais eram Benedito Policiano Nogueira e Bárbara Baptista de Carvalho. Casou-se primeiramente com dona Nica, com quem teve sete filhos, e logo depois com Joana Bonifácio e com ela teve oito filhos. Apesar de analfabeto e da linguagem tipicamente caipira, a fala de Geraldinho era repleta de palavras originais e inventadas por ele mesmo. Não frequentou escola, pois as dificuldades financeiras não o permitiram e o levaram a dedicar-se ao cotidiano árduo da roça (CASTRO, 2010). Contudo, tem-se, como principal característica dos contadores de causos em Goiás, o fato de serem “pessoas de origem humilde que, com pouca instrução escolar, lançam mão da sabedoria adquirida na lida diária e nas dificuldades da vida para expressarem com arte e musicalidade os seus sentimentos, seus conceitos e suas experiências em versos sonoros” (RODRIGUES, 2004, p. 62).

No ano de 1984, o contador de causos foi descoberto artisticamente por Hamilton Carneiro, apresentador do programa de televisão Frutos da Terra, da TV Anhanguera. Após sua aparição na televisão, os brasileiros passaram a ouvir seus famosos e divertidos contos. Toda essa exposição fez dele uma figura goiana de destaque. Não era apenas nos programas de televisão que ele contava suas histórias, mas também na roça, principalmente na fazenda onde morava, em festas, botecos, folias e quermesses (CASTRO, 2010).

Com o sucesso de Geraldinho como personagem caipira e seu destaque na mídia, Hamilton, entendendo dos costumes e tradições do interior goiano, não permitiu que o humorista perdesse sua naturalidade e originalidade, porém, tratou de fazer uma adaptação na linguagem usada por ele para os meios de comunicação. Mesmo sem um conhecimento formal de literatura, ele era constantemente requisitado a contar seus causos amorosos, fortuitos ou ocasionais. Na maioria, ele próprio era o personagem central, uma espécie de anti-herói que quase nunca se saía bem nas peripécias da trama narrada (CASTRO, 2010).

No ano de 1993, Geraldinho faleceu, mas sua história e sua contribuição cultural permaneceram na memória daqueles que o conheceram e principalmente dos moradores de Bela Vista de Goiás - cidade cujos habitantes já eram muito habituados aos costumes religiosos e à contação de histórias e causos.

Os processos linguísticos que envolvem o falar caipira são amplos, pois abordam conceitos fonético-fonológicos, morfossintáticos e, sobretudo, lexicais. Aqui, justificamos que não faremos uma análise pontual ou exclusiva de cada um desses processos, tendo em vista que, por ora, nos interessa refletir sobre a dimensão da linguagem caipira no contexto da cultura regional. Essa dimensão engloba, inclusive, a própria visão de mundo do falante, com interpretações peculiares marcadas pelo lugar de vivência e suas contingências.

Importante referência para esta reflexão é a obra O dialeto caipira, de Amadeu Amaral, que se aprofundou no caipirismo do falar paulista, pontuando elementos como fonética, lexicologia, morfologia, sintaxe e vocabulário (AMARAL, 1976). Seus apontamentos foram apreciados de forma comparativa com o esquema de estudo proposto por Bortoni-Ricardo (2004), na análise de alguns causos de Geraldinho.

Muitos fenômenos observados no dialeto caipira dos causos de Geraldinho não são específicos da atualidade e nem característica apenas do falar rural, mas resultaram do encontro multilíngue dos nossos antecedentes. Para Amaral (1976), os elementos do português do século XVI no dialeto caipira não se limitam ao léxico.

Todo o dialeto está impregnado deles, desde a fonética até a sintaxe. A sua discriminação através dos vários departamentos do dialeto constituiria sem dúvida um dos mais curiosos estudos a que se pode prestar a nossa linguagem rústica, e não só pelo interesse puramente linguístico, senão também pelo clarão que lançaria sobre questões atinentes à formação do espírito do nosso povo. (AMARAL, 1976, p. 11).

Ainda sobre a influência dos antecedentes históricos no dialeto caipira, Mattos e Silva, que incluiu em sua pauta de pesquisa a história do português culto e vernacular brasileiro, chama a atenção para o fato de que “o português europeu seria o antecedente histórico do português brasileiro culto, que esse português chegou aqui no século XVI e continuou chegando ao longo do período colonial e pós-colonial, nesse último momento, pela vinda de numerosos emigrantes portugueses” (MATTOS E SILVA, 2008, p. 16). A autora explicita que esse português europeu aqui chegado nesses séculos seria não só sociolinguística como dialetalmente diversificado, uma vez que vieram letrados e iletrados de regiões diversas, mas também diacronicamente distinto. Já o português popular brasileiro, expresso principalmente na oralidade, tem como o seu antecedente histórico o que a autora designa de português geral brasileiro, o qual tem como atores fundamentais o português dos africanos e seus descendentes, as línguas gerais indígenas e o português europeu. Dessa forma, a designação e o conceito de português brasileiro nunca recobririam uma realidade homogênea, ou homogeneizável do Brasil.

Enquanto o método filológico histórico-comparativo parte de fatos comprovados em textos ou observados nas línguas estudadas, existem teorias espaciais que se ocupam com a situação em que a língua se encontra num determinado momento, em localidades ou em regiões específicas, conforme esclarece Bassetto (2005). Esse é um fenômeno passível de análise pelo método da geografia linguística. Assim,

[...] com a geografia linguística realizou-se o ideal neogramático de estudar a língua viva. Mostra como as palavras se chocam entre si, migram, arcaízam-se, renascem ou desaparecem, tornando claro que, em última análise, o fator determinante de todo esse processo é o aspecto semântico, cuja busca fez nascer outros métodos de pesquisa. (BASSETTO, 2005, p. 74).

Para entender melhor a variação caipira no português brasileiro, tomaremos como exemplo o esquema proposto por Bortoni-Ricardo (2004, p. 52), denominado como “o contínuo da urbanização”, representado em três polos:

Figura 1 Esquema do contínuo da urbanização proposto por Bortoni-Ricardo (2004, p. 52) 

No primeiro polo, estão as variedades rurais geograficamente mais isoladas. No polo oposto estão as variedades urbanas padronizadas, que são aqueles que receberam maior influência em relação à padronização da língua. No meio desses dois polos está a área rurbana, que são caracterizadas pelos indivíduos que migraram das regiões rurais e acabaram por preservar a cultura dessa região. Uma das características preservadas por essas pessoas é o repertório linguístico das zonas rurais, mas que, por estarem agora em regiões semirrurais, receberam as influências da zona urbana (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 52).

Dessa forma, observa-se que, partindo das variedades rurais isoladas, até chegar às variedades urbanas padronizadas, há um processo no qual, quanto mais o indivíduo se aproxima desta última, os falares característicos da zona rural e rurbana vão desaparecendo. Esses traços descontínuos são os que sofrem uma maior carga de avaliação negativa nos centros urbanos, exatamente por não estarem dentro dessa padronização estabelecida nas áreas urbanas. Em meio a esse processo existem os traços graduais, que se apresentam de maneira distinta em diferentes níveis nos falares de todos os brasileiros, em todos os polos apresentados anteriormente.

A linguagem caipira falada por Geraldinho é tida como diatópica6, ou seja, resultante das características regionais, representadas pelos distintos sotaques. Além dessas, as variações diatópicas também se evidenciam em outros níveis, como o lexical, por exemplo, havendo diferentes nomes para um mesmo objeto, como a palavra “mandioca”, assim conhecida em algumas regiões, e “macaxeira” em outras; ou, por exemplo, o nível morfossintático, como a distribuição regional do emprego do pronome “tu/você”, e também encontrado nos causos de Geraldinho, “você/ocê”.

Não só a variação diatópica é empregada em seus causos, mas também a variação diastrática7, pois é característica de pessoas não escolarizadas e residentes da zona rural. Isso se dá nos níveis fonéticos, lexicais e sintáticos. Para a sociolinguística, as variações existentes, e que estejam relacionadas ao contexto, são chamadas de variações estilísticas ou registros, nas quais os falantes diversificam sua fala, ou seja, usam de formas distintas as palavras em função das circunstâncias em que ocorrem suas interações verbais (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 52). Como exemplo, tem-se um causo famoso de Geraldinho - “O causo da bicicleta”.

Uai minino, nesta época, sô!, que pegô a saí essas bicicleta, esses recursu, nunha ocasião a muié rumô lá uma perrenguice, uma clamura, uma gemura isquisita, aquilo não miorava; eu rancava uma saroba ali no terreiro memo, fazia uma xaropada, dava pra ela bebê... foi ficanu pió; aí eu manei: danô!. Aí eu tentei levá ela pra cidade prum doutô dá uma reforma nela pra mim. Aí fui lá, rumei um agasaio, e levei ela... falei pro doutô: “óia, eu troxe a muié, o sinhô espia o que tá fartanu nela e arruma ela pra mim. Eu num posso ficá aí não”. - Eu tinha serviço e era longe. (GERALDINHO, 2003)8.

Nesse trecho, Geraldinho manifesta uma visão irônica e zombeteira do médico. A ironia se expressa na confiança nos poderes da medicina, equiparando o médico a um mecânico e o paciente a uma máquina que pode ser consertada, reformada e adicionada de peças, diferente das práticas curativas populares, que não se mostraram eficazes, refletindo uma modernidade e um novo modo de vida que o caipira passa a viver, em oposição à tradição em que era acostumado. Contudo, o exagero usado por Geraldinho, que para Castro (2010) consiste num falso elogio, revela uma crítica ao fato de o médico não ser um agente com poderes sobrenaturais, mas sim um simples sujeito, como um mecânico, dotado de conhecimentos técnicos, bem como uma atitude sarcástica frente ao difundido egocentrismo da classe médica no período.

Apesar da distinta e particular visão de mundo, Geraldinho demonstra em seus causos algo inerente à sabedoria popular: a confiança depositada no médico e, ao mesmo tempo, a confiança na medicina natural - pois ele mesmo prepara seus chás para que sua esposa possa vir a melhorar.

Nesse causo são diversas as expressões e palavras que caracterizam o falar caipira como variedade rural isolada, entre elas: “muié” (mulher); “doutô” (doutor); “sinhô” (senhor), palavras que mostram uma redução feita por Geraldinho ao pronunciá-las, e também a troca de uma vogal pela outra. Tal fenômeno é chamado de monotongação, tendência fonética em que a semivogal deixa de ser pronunciada nos ditongos. Aparecem ainda arcaísmos de formas e de sentido (AMARAL, 1976), como “clamura” (clamor) e “gemura” (gemido), vocábulos que foram aquisições de outras línguas, como “perrenguice”, que vem de “perrengue” do castelhano (AMARAL, 1976, p. 147), acrescido do sufixo “ice”, indicando ação. Verifica-se também a alteração fonética de vogais em sílabas pretônicas e postônicas, em palavras como “minino” (menino) e “recursu”, respectivamente, um fenômeno recorrente também em áreas rurbanas e urbanas.

Em outra parte de “O causo da bicicleta”, podem ser percebidos outros elementos.

Acho que ela [a bicicleta] nem tava incostano no chão... quando eu senti o calorzim do fogo do pito no beiço, e eu num puxei fumaça, não; o vento memo veio trazenu aquilo. Eu não podia largá do chifre dela pá acudi purque si não levava. Aí eu pensei: “hora que eu vê que queima, eu guspo ele fora [...]. Mas aí, quando o fogo apertô, que eu fui guspi fora, ele tinha pregado nos beiço. Rapáiz! Ocê precisa de vê que maçaroca. Rapáiz! Eu bufava que nem um jumento pá vê se aquilo desapregava e o trem [...] e quando eu abria a boca pá bufá, o vento fazia “ZROOON”, ainda levava o fogo pra dentro, minino. (GERALDINHO, 2003).

Podem ser notadas expressões como “largá” (largar), “acudí” (acudir), “bufá” (bufar), “vê” (ver), em que o /r/ tende a ser suprimido. Para explicação desse fenômeno, também notório em áreas rurbanas:

Além da variação no modo e no ponto de articulação do /r/ pós-vocálico, que é de natureza regional, esse fonema apresenta uma peculiaridade para a qual nós, professores, devemos ficar muito atentos. Em todas as regiões do Brasil, o /r/ pós-vocálico, independentemente da forma como é pronunciado, tende a ser suprimido, especialmente nos infinitivos verbais (correr> corrê; almoçar>almoçá; desenvolver>desenvolvê; sorrir> sorri). Quando o suprimimos, alongamos a vogal final e damos mais intensidade a ela. (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 85).

Nesse mesmo trecho de “O causo da bicicleta”, podem-se destacar expressões como: “trazenu” (trazendo) e “incostano” (encostando). Trata-se do fenômeno da assimilação, ou seja, quando, numa sequência de sons homo-orgânicos ou parecidos, um deles assimila o outro, que desparece (BORTONI-RICARDO, 2004). Exemplos disso: falando>falanu; vindo>vinu; comendo>comenu; exemplos esses que ocorrem no falar caipira de Geraldinho.

Observa-se ainda um processo comum no falar caipira registrado por Amaral (1976, p. 26) como reduplicação verbal. “Para exprimir ação muito repetida, usa-se uma perífrase formada com o auxiliar vir, ir, estar, andar, seguido de infinitivo e gerúndio de outro verbo”: estava encostando>tava incostano>; veio trazedo>veio trazenu.

Aparecem também modificações isoladas, como nas palavras “guspi” (cuspi) e “guspo” (cuspo) e vocábulos que não estão presentes na linguagem das pessoas da cidade, como “maçaroca” e “pito” - sendo alguns desses também citados no glossário apresentado por Amaral (1976). Além de palavras inventadas, como “desapregava”, uma variação para “despregava”.

Outra história marcada por expressões caipiras e carregada de humor é o “O causo do porquinho”. Geraldinho, em seu diálogo com Hamilton Carneiro, narra a sua desventura ao tentar capturar um porquinho quando ainda era criança para justificar seu temperamento forte e uma cicatriz que tem no nariz.

Um dia de tardizinha, o sol já lá ia amoitano por trais da cacunda da serra, eu saí na porta, oiêi... rapáiz!, um porquim deu de vazá na vara do chiquêro e desceu pru lado duma horta. E aí eu pensei: “tem que pegá, si não ele vai dá prejuízo”. Eu sipiei em cima desse caboquim. I é aqui, i é aculá, eu fui coieno ele, fui cheganu pra perto. E ele era um animarzim bem arisco [risada], quando ele viu que eu tava pra chegá, ele tampô a bufá e a pulá. E quando eu já tava pra tarracá nas cadêrinha dele, ele tafuiô dibaxo duma cerca de arame, rapáiz! E naquele imbalo qui eu invinha, eu morguei pra passá no vão do arame, eu gachei dimais, uma ferpa veio e pregô, rapáiz! Aí eu fiquei marrado ali, quereno puxá, mas tava pregado. Eu levava a mão lá pra tirá, estrepava o dedo. E eu fiquei ali naquele trem, e lá ia cheganu um caboquim assim perto, quando viu eu naquela maçaroca ali, ele resorveu me dá uma mão, mais eu já tava infezado demais. Quando ele falô: “Para aí, sô!”. Eu falei: “Não!”. I foi BUM! [risadas]. (GERALDINHO, 2003b).

No campo lexical, podem ser destacados, nesse causo e nos outros que seguem, vocábulos como: “amoitano” (amoitando/escondendo); “cacunda” (carcunda/costas) - “Orig. afric., como querem alguns, ou simples corrupt. de corcunda, passando por carcunda, como querem outros” (AMARAL, 1976, p. 65); “tafuiô” (entrou); “maçaroca” (embaraçado/enrolado); quissassinha (trouxas); engarupô (subiu) entre outras, que identificam o falar caipira. São verbos e substantivos (ações e objetos) relacionadas à essência das pessoas do lugar, de forma que, numa perspectiva fenomenológica, podemos considerá-los como elementos que identificam o lugar, parte do mundo e do imaginário sertanejo.

Observamos também inúmeros outros fenômenos fonético-fonológicos, já elencados por Amaral (1976), tais como:

  • nas vogais tônicas, quando seguidas de ciciante (s ou z), no final dos vocábulos, se ditongam pela geração de um i: rapaz>rapáiz, nós>nóis;

  • e/em/em inicial muda para i/in: embalo>imbalo, enfezado>infezado, escutar>iscutá, embora>imbora;

  • grupos vocálicos, acentuados ou não, sofrem redução: ei (ditongo) - reduz-se uma vogal quando seguido de r, x ou j: cadeirinha>cadêrinha, chiqueiro>chiquêro; ou e oi (ditongos) - contrai-se o primeiro em ô: pregou>pregô, louco>loco;

  • vogal a no início de verbos pode ser suprimida: agachei>gachei, ajoelhar>jueiá, arrumar>rumá, atarracar>tarracá, amarrado>marrado;

  • a consonância palatal lh não existe no dialeto, como na maioria dos dialetos da África e Ásia, e, como em vários dialetos castelhanos da América, vocaliza-se em i: olhei>oiêi, joelho>juêio, trabalhar>trabaiá.

Destarte, as narrativas criam e fortalecem a imagem do caipira e as relações sociais que estabelece em seu lugar de vivência. Como em “O causo do rádio”, em que a curiosidade pela chegada de um instrumento exótico ao meio rural gera estranhamento e reações cômicas entre aqueles moradores rurais que desejavam conhecer o desconhecido. Tal estranhamento frente a um objeto que simbolizava a modernidade bem como as reações diversas recontadas no causo são também elementos de carga simbólica e identitária que, frente à diferença em relação ao homem urbano, gera risos e gargalhadas.

[...] Uma ocasião nessa época que apareceu esse ricurso, e eu fui trabaiá prum cumpanheirim meu lá [...] quando foi sábado, eu juntano minhas quissassinha pra ir’imbora, aí ele falô pra mim: “Não, Geraldim! Posa aí q’amanhã cedo nóis vai iscutá uns caipira”. Aí eu danei cum ele: “Cê tá ficano lôco, rapáiz? Onde cê vai arrumá caipira aqui amanhã cedo?”. Aí ele falô: “Não, ali num veím nosso tem um rádio”. Aí falei: “Uai, já tem?”, “Tem! Tá c’uns oito dia que chegô”. Aí falei: “Uai, intão vô posá q’eu fico conheceno essa ferramenta”. Aí cedim [...], era perto, nóis chegô logo, quando nóis chegô já tinha umas quinze pessoa lá, rapáiz. O povo num cunhicia, aquilo frivia lá pra iscutá. Aí o véi viu que o povo tava bobo c’aquilo, pegô a cobrar, era quinhentos réis procê iscutá. [...] Aí nóis chegô e o cumpanhêro falô: “Ó seu Enoque, nóis vêi iscutá uns caipira”. Aí ele levantô, ispriguiçô e falô [...] “Vô lá dentro chamá a Maria, eu num sei mexê cum isso não”. Aí eu oiei, rapáiz, tinha um caixotim em riba de uma mesinha, tava pertim, pra mim era um caixotim deles pô alguma imundície . [...] Quando ela chegô naquele caixotim lá em riba da mesa, [...] quando ela pegô no imbigo dele que torceu, eu vi que tinha um palitim lá dentro... rolô! Ele tava campiano uns caipira... Rapáiz, e ele [o botão de rolagem das estações de rádio], e ele dislizô dos caipira e engarupô numa missa, rapáiz. E o véi era daqueles devoto antigo, quando o padre raiou lá dentro daquele caixote, ele barreu o joêio no chão lá diante, e aí nóis foi obrigado a jogá o chapéu de costa e jueiá tamém. E eu não sei o que foi q’esse enfezado desse padre esse dia, e ele tirava uma meia hora pra rezá, uma meia hora pra daná cum nóis, rapáiz! E eu fui infezano c’aquilo: “eu nunca vi esse hômi, e ele daná cum nóis desse jeito sô! Esse hômi tá é lôco” [risos]. E aí o pau quebrô e ele num parava e os juêio num guentô [...]. Levantá num podia! [...] Eu manei: “Agora num tem ricurso, vô deitá purque num pode levantá”. Quando eu já tava caçano um jeito de deitá, o padre liberô nóis e eu mão no chapéu e avoei pra banda de fora. Aí o cumpanhêro: “Vamo dá mais um prazo, às vêiz os caipira vem!”. Eu falei: “Ó rapáiz, o dia q’eu rumá um ricurso pra vedá meu juêio, eu posso vortá” [risos]. (GERALDINHO, 2003c).

Em trechos como “amanhã cedo nóis vai iscutá”; “nóis chegô logo”; “nóis vêi iscutá uns caipira”, nota-se a falta de concordância verbal ou nominal dos pronomes, verbos e substantivos. No português oral, mais precisamente nos estilos não monitorados, existe uma tendência a evitar a redundância, flexionando-se só o primeiro elemento do sintagma. Esse traço é descontínuo em relação ao esquema do “contínuo da urbanização”, pois recebe maior carga de avaliação negativa nas comunidades urbanas (BORTONI-RICARDO, p. 2004), embora, por influência, ocorra nos polos rurais, rurbanos e urbanos em Goiás.

O pronome de tratamento “cê” (você) é derivado de uma forma de tratamento antigo - Vossa Mercê, que foi se transformando no decorrer do tempo: vosmecê - você - (o)cê, formas usadas em estilos não monitorados, não sendo exclusivas apenas do falar caipira, mas de todas as regiões brasileiras.

Na expressão “prum” (para um), tem-se a junção da preposição “para” com o artigo indefinido “um”, uma característica das falas não monitoradas, que ocorre de maneira gradual em todos os polos do contínuo da urbanização, muitas vezes de forma imperceptível por quem as faz. Na palavra “frivia” (fervia), observa-se que o fonema /r/ alterou sua posição no interior da sílaba: frivia - fervia. Esse fenômeno, conhecido como metátese, é bastante comum nos falares rurais.

São inúmeros os exemplos do falar caipira, que serviriam à nossa análise. Obviamente não seria possível aqui tratar todas as variações encontradas, mesmo nesses pequenos trechos dos causos selecionados. Mas já foi possível observar, tanto na comparação com o levantamento de Amadeu Amaral, quanto pela análise do esquema de Bortoni-Ricardo, que há elementos fonético-fonológicos, morfossintáticos e lexicais que marcam a estrutura linguística regional, profundamente influenciada pela cultura e pelo falar caipira. Coube-nos demonstrar esses exemplos para destacar a riqueza dialetal da linguagem empregada nos causos de Geraldinho, representando uma cultura regional, e também para desmitificar a ideia do “falar errado”, uma vez que esta é apenas mais uma entre tantas variantes encontradas na língua portuguesa.

A carga de avaliação negativa dada a regiões que envolvem áreas rurais e rurbanas cria estigmas socialmente impostos por aqueles que detêm o poder da fala. “Essas crenças sobre a superioridade de uma variedade ou falar sobre os demais é um dos mitos que se arraigaram na cultura brasileira. Toda variedade regional ou falar é, antes de tudo, um instrumento identitário, isto é, um recurso que confere identidade a um grupo social” (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 33).

Apesar desse estigma de desprestígio existente em relação às variantes regionais, cada região é única, com seus costumes, crenças e linguagem, elementos que marcam os traços específicos do lugar onde se vive. Nesse caso, todos esses fatores mencionados deveriam se sobressair como algo particular, que marca a riqueza do lugar e dos sujeitos, e não como algo inadequado.

Considerações finais

A análise dos causos de Geraldinho permite-nos entender aspectos estilísticos do dialeto caipira goiano, classificando-o como pertencente a polos rurais/rurbanos do contínuo da urbanização (BORTONI-RICARDO, 2004), com uma notória variação da língua em relação à usada no polo urbano em estilos monitorados.

Entretanto, todo o falante, independentemente do lugar que ele possa ocupar no contínuo da urbanização, ou do monitoramento estilístico que ele possa ter ao se expressar, é capaz de produzir sentenças bem elaboradas, valendo-se das regras do sistema da língua que esse falante internalizou. Regionalmente, essas variações podem ocorrer sob outras formas, destacando elementos da cultura e do modo de vida.

Novos elementos necessitam ser incorporados dentro do que se entende como normativismo a fim de que a pluralidade linguística e cultural seja levada em consideração e para que todo indivíduo possa se sentir valorizado e valorizar a cultura que traz consigo.

Outro aspecto importante a concluir é em relação à riqueza e à sabedoria presentes na cultura caipira. Geraldinho priorizou sua autenticidade, guardando consigo os conhecimentos sobrevindos da vida na roça, de seus pastos, do plantio da terra, do trato de seu pequeno rebanho de gado, e transportando tais elementos para o objeto de suas narrativas. Associados ao regionalismo goiano, seus causos, para além do entretenimento, nos permitem pensar o contexto de vida de inúmeros sujeitos que viveram/vivem na região: a ruralidade como uma produção cultural sertaneja, consolidada em uma conjuntura particular no processo de formação do território nacional, que sedimentou práticas, valores, códigos, símbolos e significados, ainda hoje permanentes em muitos lugares.

O termo “caipira” deve ser entendido como um modo de ser, um “gênero de vida”, expressão cunhada por Paul Vidal de La Blache (1954) em seus estudos regionais, e nunca uma classe a ser discriminada por seu falar. Geraldinho é a manifestação personificada da representação de uma importante cultura regional brasileira. Diante da modernização, ele se volta para o seu lugar de raiz, no qual ele foi criado, e transforma aquele mundo, cenário de suas peripécias, não apenas em objeto de afirmação, mas também em marca de sua própria identidade. Seu exemplo contribui para o entendimento de que a urbanização regional não desmantelou a essência da ruralidade que marca o contexto histórico e cultural de Goiás, o que também se constata pela forte aceitação de sua performance artística pelo público, ainda hoje, inclusive entre os mais jovens, que buscam imitar seu dialeto nas conversações diárias.

Em cada um de seus causos, inclusive outros que não foram explorados aqui, como o “Causo do carro de boi”, “O causo do peãozinho novo” , o “Causo da namoradinha”, entre outros, podem ser evidenciadas vivências singulares de uma região. O humor empregado neles é característica marcante e particular de sua personalidade, mas também expressa muitas riquezas da cultura caipira.

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3 Dialeto é um conjunto de marcas linguísticas de natureza semântico-lexical, morfossintática e fonético-morfológica de um grupo específico, caracterizado regionalmente. No Brasil, os dialetos são variações regionais que não impedem a intercomunicabilidade entre eles.

4 Paul Vidal de La Blache foi um influente geógrafo francês fundador da École Française de Géographie, que desenvolveu o método de estudos regionais, promovendo o conceito de geografia humana como o estudo do homem e sua relação com o meio ambiente.

5 Contista e poeta goiano, natural de Vila Boa de Goiás, autor de Tropas e boiadas (1917), coletânea de contos que até hoje permanece como uma das obras que mais expressam o universo sertanejo goiano a partir de uma narrativa regionalista.

6 Variações diatópicas representam as variações que ocorrem pelas diferenças regionais. As variações regionais, denominadas dialetos, são as variações referentes a diferentes regiões geográficas, de acordo com a cultura local (BAGNO, 2007).

7 Variações diastrásticas são as variações ocorridas em razão da convivência entre os grupos sociais. É uma variação social e pertence a um grupo específico de pessoas (BAGNO, 2007).

8 As marcas de oralidade do falar típico registrado no CD foram mantidas na transcrição dos causos.

Recebido: 20 de Fevereiro de 2018; Aceito: 13 de Fevereiro de 2019

JULIENNI LOPES DE SOUSA

é pós-graduada em Cultura, Identidade e Região pela Universidade Estadual de Goiás (UEG - campus Jussara. Email: juliennilopes@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4330-5854

LUANA NUNES MARTINS DE LIMA

é doutora em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB) e professora do curso de Geografia da Universidade Estadual de Goiás (UEG - campus Itapuranga). Email: prof.luanunes@gmail.com https://orcid.org/0000-0003-0374-0488

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