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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.88 no.6 Porto Alegre Nov./Dec. 2012

https://doi.org/10.1590/S0021-75572012000600008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Prevalência de anormalidades genitais em recém-nascidos

 

 

Isabella L. MonlleóI; Susane V. ZanottiII; Bárbara Priscila B. de AraújoIII; Erisvaldo F. Cavalcante JúniorIII; Paula D. PereiraIV; Paulo M. de BarrosIV; Maria Deysiane P. AraújoV; Ana Thaysa V. S. de MendonçaIV; Catarina R. S. SantosIV; Ylana R. dos SantosIV; Débora de Paula MichelattoVI; Maricilda P. de MelloVII; Andrea T. Maciel-GuerraVIII; Gil Guerra-JúniorIX

IDoutorado, Genética Médica. Professora adjunta, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Maceió, AL
IIDoutorado, Psicologia. Professora adjunta, Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes, UFAL, Maceió, AL
IIIMédica(o). UFAL, Maceió, AL
IVGraduanda(o), Curso de Medicina, Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), Maceió, AL
VGraduanda, Curso de Medicina, UFAL, Maceió, AL
VIAluna de mestrado, Genética e Biologia Molecular, Laboratório de Genética Molecular Humana, Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP
VIIPós-Doutorado, Biologia Molecular. Livre docente, Laboratório de Genética Molecular Humana, Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética, UNICAMP, Campinas, SP
VIIIDoutorado, Genética e Biologia Molecular. Livre docente, Departamento de Genética Médica, Faculdade de Ciências Médicas, UNICAMP, Campinas, SP
IXDoutorado, Saúde da Criança e do Adolescente. Professor titular, Departamento de Pediatria, Faculdade de Ciências Médicas, UNICAMP, Campinas, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Avaliar a prevalência e descrever alterações da morfologia genital em recém-nascidos em duas maternidades-escola de gestão pública.
MÉTODOS: Estudo caso/controle, descritivo, transversal. Utilizou-se protocolo clínico para avaliação da morfologia genital de 2.916 recém-nascidos entre 19/04/2010 e 18/04/2011. O grupo controle foi formado pelos nascimentos sem anormalidades morfológicas ocorridos no dia e na maternidade em que o caso foi detectado. Teste exato de Fisher foi utilizado para análises de variáveis categóricas, e de Kruskal-Wallis, para igualdade de médias.
RESULTADOS: Foram detectados 29 recém-nascidos com anormalidade genital (1:100). A maioria (93,2%) foi examinada nos três primeiros dias de vida e apresentava apenas uma anormalidade. Os defeitos morfológicos compreenderam: ambiguidade genital evidente (1/29), fusão posterior de grandes lábios (1/29), micropênis (2/29), clitoromegalia (6/29), criptorquidia bilateral (6/29), hipospádia (9/29) e defeitos combinados (4/29) casos. Em apenas um caso os campos da Declaração de Nascido Vivo foram preenchidos corretamente. Prematuridade foi observada em 13/29, sendo esta a única variável estatisticamente associada à presença de anormalidade genital. Oito casos aderiram à proposta de investigação complementar, entre os quais três tiveram diagnóstico clínico de distúrbio da diferenciação do sexo.
CONCLUSÕES: Evidenciou-se alta prevalência, subdiagnóstico e sub-registro de defeitos genitais nas maternidades estudadas. Os resultados reforçam a importância do exame cuidadoso de recém-nascidos com o objetivo de identificar anormalidades genitais sutis que podem compor o quadro clínico de distúrbio da diferenciação do sexo.

Palavras-chave: Anormalidade genital, triagem de recém-nascido, distúrbios da diferenciação do sexo.


 

 

Introdução

O desenvolvimento do sexo na espécie humana é um processo complexo, que envolve fenômenos biológicos, psicológicos e sociais. O primeiro estágio ocorre no momento da fertilização, por meio da junção entre os complementos cromossômicos materno e paterno1,2.

A partir da oitava semana de gestação, tecidos indiferenciados são transformados em gônadas e em estruturas anatômicas internas e externas típicas da genitália masculina ou feminina. Esse processo, regulado por uma teia de mecanismos genéticos e hormonais, corresponde à etapa pré-natal do desenvolvimento biológico do sexo, que se completará na puberdade1-4.

Sobre o arcabouço biológico, fenômenos psicológicos e sociais irão conferir singularidade aos sujeitos no que se refere à sua identidade e comportamento de gênero, bem como à sua orientação sexual2-4.

Defeitos anatômicos da genitália externa podem ter etiologia genética, não genética ou multifatorial, resultante da interação gene/ambiente. Esses defeitos podem ser restritos ao aparelho genital ou envolver diversos sítios anatômicos, configurando quadros dismórficos complexos2,5. Em ambas as situações, a anormalidade genital pode ser a expressão clínica de distúrbios da diferenciação do sexo (DDS).

Os DDS são condições congênitas heterogêneas nas quais o desenvolvimento dos componentes cromossômico, gonadal ou anatômico do sexo é atípico. O espectro clínico pode variar desde anormalidades morfológicas leves em genitálias de aparência masculina ou feminina até situações classificadas como ambiguidade genital, em que não é possível reconhecer o sexo biológico do recém-nascido pelo exame físico4,6,7. A prática clínica revela, todavia, que a delimitação da fronteira da normalidade morfológica não é uniforme. Desse modo, a literatura fornece alguns parâmetros para reconhecimento de anormalidades cuja presença impõe a investigação de DDS. São eles2-4:

1) Em recém-nascidos com genitália de aspecto masculino:

a) Criptorquidia bilateral;

b) Micropênis (comprimento menor que -2,5 desvios padrão para a idade);

c) Hipospádia perineal isolada ou hipospádia leve com criptorquidia bilateral ou micropênis.

2) Em recém-nascidos com genitália de aspecto feminino:

a) Hipertrofia do clitóris (diâmetro maior que 6 mm);

b) Qualquer grau de fusão labial, de posterior a completa;

c) Massa na região inguinal ou em saliências labioescrotais.

Em face da amplitude de apresentações clínicas e da utilização de diferentes critérios de inclusão e de métodos para coleta de dados, estudos de prevalência de anormalidades genitais apresentam resultados variáveis desde 1:20.0008 até 1:4.5003 recém-nascidos.

O exame cuidadoso da genitália externa do recém-nascido é importante não só para o diagnóstico precoce e manejo das anormalidades genitais, mas também para o registro e obtenção de informações epidemiológicas necessárias ao planejamento de ações preventivas no âmbito da saúde pública.

No Brasil, o registro populacional de defeitos congênitos foi inaugurado em 1999 pela introdução de um campo na Declaração de Nascido Vivo (DNV), documento de preenchimento obrigatório. Registros dessa magnitude têm o potencial de fornecer informações sobre prevalência e fatores de risco para defeitos congênitos. A partir dessas informações, é possível não só planejar políticas de prevenção e atenção à saúde, mas também avaliar a efetividade das ações implantadas. Estudos sobre a qualidade desse registro têm revelado, entretanto, alta taxa de subnotificação no país como um todo9-12.

Os objetivos deste estudo foram realizar busca ativa de recém-nascidos com anormalidades genitais, verificar a prevalência e avaliar o registro desses defeitos em DNV de duas maternidades-escola da cidade de Maceió (AL).

 

Métodos

Trata-se de estudo caso/controle, transversal, descritivo. A busca ativa de anormalidades genitais foi realizada por exame direto da genitália externa dos recém-nascidos, nas duas maternidades alvo, entre 19/04/2010 e 18/04/2011. Essa busca foi suspensa durante 31 dias não consecutivos, devido a feriados prolongados e ao fechamento das maternidades para reforma ou controle de infecção.

O exame dos recém-nascidos foi realizado diariamente por um grupo, devidamente treinado, de oito acadêmicos de medicina. O treinamento abarcou tanto o conhecimento médico quanto a abordagem de aspectos subjetivos inerentes ao diagnóstico de DDS e à informação dada aos pais a respeito das anormalidades detectadas. Atitudes frente aos profissionais das maternidades e aos pais foram discutidas e pactuadas antes do início da coleta de dados. Por questões éticas, os termos "ambiguidade genital" e "DDS" não foram utilizados durante a etapa de triagem, apenas após a confirmação das anormalidades em consulta ambulatorial de genética.

Para coleta de dados, foi utilizado protocolo próprio com campos para registro das seguintes anormalidades:

-  Genitálias com aspecto masculino: gônadas não palpáveis ou com qualquer grau de criptorquidia bilateral; tamanho peniano esticado abaixo de -2,5 desvios padrão para a idade; gônadas com maior diâmetro inferior a 8 mm; massa inguinal; qualquer grau de hipospádia. Para prematuros, a avaliação do tamanho peniano tomou como referência a distribuição normal de medidas para crianças nascidas entre 24 e 36 semanas de gestação13.

- Genitálias com aspecto feminino: diâmetro clitoriano superior a 6 mm (inclusive prematuros); gônada palpável em saliência labioescrotal; qualquer grau de fusão de grandes lábios; massa inguinal.

-  Genitálias inclassificáveis com base no exame físico, definidas como ambíguas.

A variável desfecho dependente foi a presença de uma ou mais anormalidades genitais. As variáveis independentes e suas respectivas categorias de análise foram:

-  Residência materna: capital e interior de Alagoas;

-  Idade gestacional: < 37 semanas (pré-termo) e > 37 semanas (termo);

-  Peso ao nascer: < 2.500 g (baixo) e > 2.500 g (adequado);

-  Idade do recém-nascido no momento do exame: < 3 dias e > 3 dias;

-  Sexo registrado na DNV: masculino, feminino, ignorado e em branco;

-  Registro de defeito congênito na DNV: sim, não, ignorado e em branco;

-  Comparecimento à consulta de reavaliação clínica: sim e não;

-  Manutenção da anormalidade genital na consulta de reavaliação clínica: sim e não.

Os dados foram tabulados e analisados por meio do programa Epi-Info™ versão 3.5.2. Inicialmente, foi realizada análise descritiva dos 2.916 recém-nascidos. Para testar associações entre variáveis categóricas, foi constituído um grupo controle formado pelos nascimentos sem anormalidades morfológicas, ocorridos no mesmo dia e na mesma maternidade em que o caso foi detectado. Aplicados os critérios de pareamento, o grupo controle foi constituído por 87 recém-nascidos. Teste exato de Fisher foi utilizado para análise de variáveis categóricas, e de Kruskal-Wallis, para igualdade de médias. Adotou-se nível de significância de 5% (p < 0,005).

Casos com suspeita de DDS foram enviados para estudo molecular realizado pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos dos Distúrbios da Diferenciação do Sexo e Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Universidade Estadual de Campinas.

Esta pesquisa foi aprovada pelos comitês de ética das duas instituições envolvidas conforme processos #010367/2009-29 e #1433/2010.

 

Resultados

No período entre 19/04/2010 e 18/04/2011, ocorreram 3.271 nascimentos nas maternidades estudadas. Desse total, 3.009 (92%) recém-nascidos foram examinados, e 93 foram excluídos a posteriori, com base nos critérios estabelecidos nos métodos da pesquisa (33 por defeitos múltiplos congênitos, 14 por óbito anterior ao exame e 46 por nascimento em outro local).

Entre os 2.916 recém-nascidos que compuseram a amostra, 1.633 (56%) nascimentos ocorreram na maternidade 1, e 1.283 (44%), na maternidade 2. A idade no momento do exame variou em 0-38 dias com média de 1 dia e desvio padrão de 2 dias, tendo sido 2.718 (93,2%) sujeitos examinados antes de completar 72 horas de vida.

Foram encontrados 29/2.916 (prevalência de 1:100) casos com alguma anormalidade genital detectada ao exame físico. Entre os casos positivos, predominaram nascimentos ocorridos na maternidade 1 e de mães residentes no interior de Alagoas. A maioria foi examinada antes de completar 72 horas de vida, apresentava peso igual ou superior a 2.500 g e idade gestacional igual ou superior a 37 semanas (Tabela 1). Não houve diferenças estatisticamente significativas entre casos e controles em relação ao local de nascimento, residência materna, idade no momento do primeiro exame e ocorrência de baixo peso. A taxa de prematuridade, contudo, foi significantemente maior no grupo caso (p = 0,02). A despeito disso, casos e controles prematuros apresentaram idades gestacionais comparáveis (p = 0,12), com média de 34 (desvio padrão de 1,6) e 34,7 (desvio padrão de 1,8) semanas, respectivamente.

A distribuição dos casos quanto ao tipo de anormalidade genital, preenchimento da DNV, comparecimento à consulta de reavaliação clínica e situação da anormalidade genital é apresentada na Tabela 2. A anormalidade genital mais frequente foi hipospádia, com prevalência de 1:324, seguida de criptorquidia bilateral e hipertrofia de clitóris. Ambiguidade genital óbvia ocorreu em um caso. A análise da DNV mostrou que apenas um recém-nascido teve o campo sexo assinalado como "ignorado" e que cinco tiveram o campo de defeitos congênitos preenchido com resposta "sim" (Tabela 2).

Aos 29 casos positivos foi oferecida consulta de reavaliação clínica no ambulatório de genética. Desse total, quatro (13,8%) foram a óbito antes da data agendada, e 11 (38%) não compareceram. Os casos positivos que foram a óbito apresentaram complicações relacionadas com baixo peso (630 g), prematuridade, septicemia e síndrome hemorrágica. Um destes recém-nascidos apresentava malformações major de linha média incluindo holoprosencefalia. Não houve diferenças estatisticamente significativas entre os casos que compareceram e os que não compareceram à consulta em relação à procedência da mãe (p = 0,55).

A idade das crianças no momento da reavaliação clínica variou de 2 a 31 dias, com média de 15 dias e desvio padrão de 9 dias. O quadro estava mantido em oito (57%) e havia regredido em seis (43%) casos. Nesse último grupo, as anormalidades eram criptorquidia (4) e clitoromegalia (2). Não houve diferenças estatisticamente significativas entre esses grupos quanto à idade no primeiro exame (p = 0,88), idade na consulta de reavaliação clínica (p = 0,43), ocorrência de baixo peso ao nascer (p = 0,15) e prematuridade (p = 0,47).

No grupo de oito recém-nascidos com manutenção da anormalidade genital, quatro não aderiram à proposta de investigação e acompanhamento no ambulatório integrado de genética e psicologia. Entre esses, três apresentavam hipospádia, e um, criptorquidia bilateral.

A Tabela 3 apresenta o sumário das características genético-clínicas dos quatro casos que ingressaram no ambulatório e se mantiveram em acompanhamento.

Entre estes, um foi definido como hipospádia isolada, um com hiperplasia adrenal congênita por deficiência de 21-hidroxilase, e dois apresentavam quadro clínico-laboratorial sugestivo de síndrome da insensibilidade parcial aos andrógenos. A despeito da perda de casos ao longo do processo de investigação diagnóstica, a prevalência de DDS na amostra foi de, ao menos, 1,03:1000.

 

Discussão

As maternidades-alvo deste estudo são referência em alto risco na área materno-infantil no estado de Alagoas. Localizadas na capital (Maceió), estão ligadas a duas universidades públicas e são totalmente financiadas com recursos do Sistema Único de Saúde. Ambas contam com alojamento conjunto, unidade neonatal de terapia intensiva e de cuidados intermediários, perfazendo um total de 127 leitos.

Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió, em conjunto, essas maternidades respondem por 20% dos nascimentos ocorridos na capital e 9% dos ocorridos no estado de Alagoas. A média anual de nascimentos vivos em ambas, no período 2004-2009, foi de 5.284, sendo 53% destes na maternidade 1, e 47%, na maternidade 2.

Ainda de acordo com a mesma fonte, no período de coleta de dados do presente estudo, ocorreram apenas 3.271 nascimentos nas duas maternidades, devido a problemas estruturais que levaram ao fechamento temporário. A despeito disso, a proporção de nascimentos em cada maternidade foi mantida ao longo do ano e se repetiu na amostra que compõe este estudo. A ausência de diferenças estatisticamente significativas entre casos e controles em relação ao local de nascimento e à idade no momento do primeiro exame indicam que a amostra foi homogênea.

De modo geral, espera-se que 2 a 5% dos nascidos vivos em todo o mundo apresentem algum defeito congênito morfológico ou funcional14. A diversidade de critérios utilizados em estudos epidemiológicos para definir anormalidades genitais, ambiguidade genital e DDS dificulta a análise comparativa da prevalência desses defeitos em diferentes populações5. Com base nos critérios adotados na presente investigação, obteve-se prevalência global de uma anormalidade em cada 100 nascidos vivos.

Esse resultado, bastante elevado considerando o grupo dos defeitos congênitos estruturais, pode refletir a abrangência dos critérios adotados neste estudo. A idade em que os recém-nascidos foram examinados é outro aspecto a considerar, uma vez que algumas anormalidades genitais, como aumento do clitóris e criptorquidia, podem ser transitórias. Nessas situações, deve-se considerar a prematuridade como fator interveniente, uma vez que em que cerca de 30% dos prematuros o testículo torna-se tópico no período entre 6 e 12 meses de idade15-17. Especificamente quanto à hipertrofia de clitóris, a escassez de tecido adiposo na vulva da criança prematura pode dar a impressão de hipertrofia de clitóris. Por outro lado, um recente estudo mostrou que a medida do clitóris apresenta relação negativa com o peso e comprimento do recém-nascido e, portanto, com a idade gestacional18.

No presente estudo, mais de 90% dos recém-nascidos tinham até 72 horas de vida no momento do exame. Criptorquidia bilateral (6/29) e hipertrofia de clitóris (6/29) corresponderam, em conjunto, a 40% dos diagnósticos. A prematuridade foi a única característica estatisticamente associada à presença de anormalidade genital, mesmo quando excluídos os casos de criptorquidia (p = 0,04).

Analisando-se em separado o defeito genital mais frequente na amostra, hipospádia, verificou-se prevalência de 1:324. Esse dado está de acordo com as publicações dedicadas especificamente a essa anormalidade, segundo as quais a prevalência varia de 1:300 a 1:1.000 nascimentos, podendo chegar a 1:100-80 quando há história familial positiva19.

Nos anos mais recentes, tem se verificado tendência global de elevação da prevalência desse defeito, provavelmente relacionada com exposição ambiental a drogas com ação estrogênica ou antiandrogênica, com capacidade de desbalancear a relação andrógeno/estrógeno ou de interferir na biossíntese de esteroides sexuais4,19-21. Embora esses fatores não tenham sido investigados no presente estudo, a ausência de diferenças estatisticamente significativas entre casos e controles em relação à procedência materna sugere a inexistência de exposição preferencial a fatores de risco para hipospádia na população residente na capital comparada à residente no interior de Alagoas.

Analisando-se, por outro lado, a anormalidade genital mais grave, ou seja, o caso de ambiguidade genital evidente, a prevalência verificada foi 1:2.916. Apesar da considerável diferença em relação à prevalência global de anormalidades genitais (1:100) e de hipospádia (1:324), o resultado se mantém bastante alto se comparado à prevalência global de 1:4.500 nascimentos3 e de 1:6.900 nascimentos na América do Sul8. A despeito da perda de acompanhamento de alguns casos e da pequena casuística, a incidência de DDS nesta amostra foi de no mínimo 1,03:1.000, maior que a descrita em outros estudos, que varia de 1:4.5003 a 1:20.0008. Diante desses resultados, a ocorrência de subdiagnóstico e sub-registro de defeitos genitais em estudos epidemiológicos retrospectivos é uma possibilidade a ser considerada.

Em apenas um recém-nascido o campo sexo da DNV foi preenchido como "ignorado", e o defeito, corretamente descrito na área destinada ao registro dos defeitos congênitos. Surpreendentemente, a anormalidade detectada nesse caso foi criptorquidia bilateral. Entre os cinco recém-nascidos que tiveram o campo de defeitos congênitos da DNV preenchido com resposta "sim", as anormalidades registradas foram criptorquidia bilateral, micropênis e hipospádia. Chamou a atenção o fato de que o único recém-nascido com ambiguidade genital óbvia tenha tido sua DNV preenchida como sexo feminino e a alternativa "não" assinalada no campo destinado ao registro de defeitos congênitos.

Os dados sugerem que o reconhecido subdiagnóstico e sub-registro de anomalias congênitas no Brasil9-12 é um problema que, em Alagoas, engloba as anormalidades genitais. Esse resultado é preocupante por se tratar de um grupo de defeitos congênitos cujo reconhecimento no recém-nascido dispensa o uso de exames complementares, ao contrário do que ocorre, por exemplo, em casos de malformações cardíacas, do trato gastrointestinal ou do sistema nervoso central, para os quais é necessário realizar exames de imagem.

Todos os 29 recém-nascidos com anormalidade genital foram encaminhados para reavaliação clínica no ambulatório de genética. Excluindo-se os casos que foram a óbito antes da data da consulta, a taxa de comparecimento foi de 56%. A ausência de diferenças estatisticamente significativas entre os casos que compareceram e os que não compareceram à consulta em relação à procedência materna (se capital ou interior) sugere que não houve dificuldades de acesso ao atendimento oferecido.

Aparentemente, a baixa adesão está relacionada à não percepção da anormalidade genital como um problema de saúde relevante. Essa atitude pode refletir a pouca importância dada à anormalidade ou mesmo o seu não reconhecimento por parte do pediatra/neonatologista, o que reforça o já mencionado problema de subdiagnóstico e sub-registro e o importante papel desempenhado pelo "primeiro médico"22.

No grupo de recém-nascidos que compareceram à consulta de reavaliação clínica, o quadro estava mantido em oito e havia regredido em seis. Idade, ocorrência de baixo peso e prematuridade não se comportaram de modo diferente nesses dois grupos. Desse modo, possíveis explicações para a regressão das anormalidades são:

a) resolução espontânea, como, por exemplo, descida dos testículos;

b) erro de mensuração do tamanho do pênis e do clitóris.

Aos genitores dos oito recém-nascidos com manutenção da anormalidade genital, foram oferecidos avaliação diagnóstica de DDS e atendimento integrado de genética e psicologia no ambulatório ao qual este estudo se vincula. Metade dos casos abandonou o acompanhamento sem realizar os exames complementares, o que, mais uma vez, sugere não valorização do defeito genital como problema de saúde por parte da família ou dificuldade em lidar com esse tipo de anormalidade. O impacto e a percepção dos pais a respeito do diagnóstico é objeto de um estudo qualitativo realizado por este grupo de pesquisa e, dada sua especificidade, serão reportados separadamente.

Evidenciou-se alta prevalência, subdiagnóstico e sub-registro de defeitos genitais nas maternidades estudadas. DDS foi definido em três casos entre os que se mantiveram em acompanhamento. Em dois destes, a anormalidade genital que conduziu à investigação diagnóstica específica era sutil.

Os resultados desta pesquisa reforçam a importância do exame cuidadoso da genitália externa de recém-nascidos, com o objetivo de identificar anormalidades morfológicas sutis que podem compor o quadro clínico de DDS.

A precocidade do diagnóstico e do tratamento e o envolvimento da família são essenciais na atenção integral à saúde desses sujeitos. Em face da complexidade e impacto biopsicossocial dos DDS, recomenda-se maior ênfase dos programas de residência e educação continuada de pediatras e neonatologistas no sentido de ampliar a consciência a respeito do adequado rastreio e registro de defeitos genitais.

 

Agradecimentos

Ao professor Jairo Calado Cavalcante, professor de bioestatística da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas e coordenador do setor de análise epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió.

 

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Correspondência:
Isabella L. Monlleó
Serviço de Genética Clínica, Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes
Universidade Federal de Alagoas
Av. Lourival Melo Mota, s/n
CEP 57072-970 - Maceió, AL
Tel.: (82) 3202.3774
Fax: (82) 3202.1742
E-mail: isabella.monlleo@gmail.com

Artigo submetido em 17.05.12, aceito em 16.07.12.

 

 

Apoio financeiro: Fundação de Amparo à pesquisa do estado de Alagoas (FAPEAL), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Programa Interinstitucional de Bolsas de Iniciação Científica (CNPq/PIBIC).
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Como citar este artigo: Monlleó IL, Zanotti SV, de Araújo BP, Cavalcante Júnior EF, Pereira PD, de Barros PM, et al. Prevalence of genital abnormalities in neonates. J Pediatr (Rio J). 2012;88(6):489-95.

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