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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.89 no.2 Porto Alegre Mar./Apr. 2013

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2013.03.006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Prevalência e características de vítimas e agressores de bullying

 

 

Ricardo R. RechI,*; Ricardo HalpernII; Andressa TedescoIII; Diego F. SantosIV

IMestre em Saúde Coletiva, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, RS, Brasil. Núcleo de Pesquisa Ciências e Artes do Movimento Humano, Universidade de Caxias do Sul (UCS), Caxias do Sul, RS, Brasil
IIDoutor em Pediatria, UFCSPA, Porto Alegre, RS, Brasil. Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Gravataí, RS, Brasil
IIIBacharel em Educação Física, UCS, Caxias do Sul, RS, Brasil
IVGraduando do Curso de Licenciatura em Educação Física, UCS, Caxias do Sul, RS, Brasil

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar a prevalência de bullying (vítimas e agressores) em uma amostra representativa de escolares do sexto ano da cidade de Caxias do Sul, RS, e verificar as possíveis associações do desfecho com escolaridade da mãe, nível socioeconômico, hábitos sedentários, estado nutricional, insatisfação com a imagem corporal, sexo e idade.
MÉTODOS: Estudo epidemiológico transversal de base escolar. A população-alvo foram os escolares do sexto ano (de 11 a 14 anos). Foi utilizado um questionário autoaplicável e medidas antropométricas de peso e altura para avaliação do estado nutricional. A prática de bullying foi avaliada com o questionário Kidscape e a imagem corporal com o Body Shape Questionnaire. Foi utilizada estatística descritiva e análises bivariada e multivariada.
RESULTADOS: No total, 1.230 escolares foram avaliados e as prevalências de vítimas e agressores de bullying foram de 10,2% e 7,1%, respectivamente. Os insatisfeitos com a imagem corporal apresentaram mais do que o triplo de chances de serem vítimas (RP = 3,24 - IC = 1,99-5,28) e quase o dobro de chances de serem agressores (RP = 1,98 - IC = 1,53-3,73) em relação aos satisfeitos. Os escolares com hábitos sedentários (mais de três horas por dia) apresentaram 55% mais chances de serem vítimas (RP = 1,55 - IC = 1,01-2,36) e mais do que o dobro (RP = 2,42 - IC = 1,47-3,97) de serem agressores. Os meninos apresentaram mais do que o dobro de chances (RP = 2,45 - IC=1,42-4,24) de serem agressores em relação às meninas.
CONCLUSÕES: Imagem corporal e hábitos sedentários apresentaram associação com vítimas e agressores, e pertencer ao sexo masculino foi mais presente entre os agressores de bullying.

Palavras-chave: Agressão; Imagem corporal; Estilo de vida sedentário


 

 

Introdução

A prática de violência verbal ou física no ambiente escolar acontece em nossa sociedade há bastante tempo, e nos últimos anos é discutida sua importância nas questões de saúde pública.1,2 O Departamento de Saúde Pública de Massachusetts relatou, entre os estudantes do ensino médio, 15,6% de vítimas e 8,4% de agressores.3

A exposição prolongada à mídia pode ser um fator associado à agressão física, visto que o retrato da violência nos meios de comunicação aumentou.4 Na fase da adolescência, os jovens sofrem com as diversas mudanças ocorridas em relação ao corpo e a insatisfação com a imagem corporal também pode aparecer como fator associado ao bullying.5

As consequências as para vítimas vão desde depressão, angústia, baixa autoestima, estresse e evasão escolar até atitudes de autoflagelação e suicídio. Já os agressores podem adotar comportamentos de risco, atitudes delinquentes ou tornarem-se ainda mais violentos.6 O interesse pelo estudo do bullying no Brasil é recente, requerendo esforços para que se possa compreendê-lo e propor intervenções mais articuladas com a realidade do país.7

O presente estudo teve como objetivo verificar a prevalência de bullying (vítimas e agressores) em uma amostra representativa de escolares do sexto ano da cidade de Caxias do Sul, RS, e verificar as possíveis associações do desfecho com escolaridade da mãe, nível socioeconômico, hábitos sedentários, estado nutricional, insatisfação com a imagem corporal, sexo e idade.

 

Métodos

Estudo epidemiológico transversal de base escolar, tratando-se da primeira fase de um projeto maior, denominado "Obesidade, insatisfação com a imagem corporal e sintomas para transtornos alimentares em uma coorte de escolares na Serra Gaúcha".

A população-alvo foram os escolares do sexto ano (de 11 a 14 anos) matriculados no turno diurno das escolas da rede municipal de ensino da cidade de Caxias do Sul, RS, no ano de 2011. A população de escolares era de 4.300 indivíduos (na faixa etária de 11 a 14 anos). Utilizou-se para o cálculo do tamanho de amostra uma prevalência de 10%, um intervalo de confiança de 95% e um erro de 2%, dessa forma, seria necessário avaliar um mínimo de 720 crianças. Antecipando-se a possíveis perdas e recusas e para controle dos fatores de confusão, foi utilizado um efeito de delineamento 1,7, e 1.224 escolares deveriam ser avaliados. Para o cálculo do tamanho da amostra foi utilizado o software estatístico Epi Info 6.0 (Atlanta-USA).

O critério de amostragem utilizado foi por conglomerados, onde cada escola foi considerada um conglomerado. Todas as escolas entraram no sorteio e tiveram as mesmas chances de participar do estudo de acordo com o número de alunos de sexto ano que a escola possuía na data do sorteio. Foram sorteadas 22 escolas para completar o número mínimo de alunos a serem avaliado (n total = 1.417).

Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: ter idade entre 11 e 14 anos; não ser portador de necessidades especiais; apresentar o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) assinado pelos pais ou responsáveis legais; e voluntariedade.

Foi utilizado um questionário autoaplicável para a avaliação das variáveis escolaridade da mãe, classe socioeconômica,8 sexo, idade, hábitos sedentários, insatisfação com a imagem corporal e bullying.

Para a avaliação da insatisfação com a imagem corporal, foi utilizado o Body Shape Questionnaire (BSQ), validado para adolescentes na sua versão brasileira,9 que mede o grau de preocupação com a forma física e a autodepreciação em virtude da aparência física e da sensação de estar fora de forma.

Para a avaliação do bullying, foi utilizado o questionário Kidscape, da instituição inglesa homônima, que foi utilizado em estudo na cidade de Pelotas, RS,10 e em pesquisa no estado de Minas Gerais.11 O questionário avalia vítimas e agressores de bullying, bem como suas características. As vítimas foram questionadas quanto a última ocasião em que sofreu bullying, quantas vezes o sofreu, onde aconteceu, quais foram os sentimentos e as consequências, o tipo de intimidação e de quem seria a culpa para a ocorrência. Os agressores foram questionados quanto ao sentimento pós-agressão e quantas vezes já havia praticado esse ato.

Além do questionário autoaplicável, foram medidos nos escolares a massa corporal total e a estatura. Para a medida de massa corporal, total foi utilizada balança portátil digital da marca Plenna, com precisão de 100 g. Para a medida da estatura foi utilizado estadiômetro fixado na parede e esquadro. O estado nutricional dos escolares foi definido através dos pontos de corte de índice de massa corporal (IMC) para sexo e idade desenvolvidos por Conde e Monteiro.12 As crianças foram classificadas como estando abaixo do peso, com peso adequado, sobrepeso e obesidade.

Toda equipe de avaliação (15 avaliadores) realizou um treinamento, quando foi confeccionado e distribuído um manual para as avaliações. Foi realizado um estudo piloto com 15 crianças de uma escola que não participou da amostra final do estudo, onde foram verificadas questões logísticas sobre a linguagem do questionário e a padronização das medidas antropométricas.

Após a coleta dos dados, os mesmos foram duplamente digitados em um banco formatado em EPIDATA versão 3.1. Após a verificação da consistência dos mesmos, estes foram exportados para o programa IBM-SPSS versão 19, onde foram analisados. Inicialmente, foi realizada uma análise descritiva e, após, uma análise bivariada (teste Qui-quadrado de Pearson) e multivariada (regressão logística) entre as variáveis independentes e o desfecho.

Em relação aos aspectos éticos, foram distribuídos TCLE para todas as crianças que fizeram parte da amostra. Além do consentimento dos pais, os escolares que fizeram parte da amostra concordaram em participar voluntariamente do estudo. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFCSPA, com número de parecer 1312/11 e cadastro 741/11.

 

Resultados

Das 1.417 crianças selecionadas para o estudo (entre 11 e 14 anos), 1.230 compuseram a amostra final. Uma criança foi excluída da amostra final por não estar de acordo com os critérios de inclusão, 16 se recusaram a participar do estudo e 170 não devolveram o TCLE.

A amostra ficou igualmente distribuída por sexo, com 606 meninas e 624 (50,7%) meninos. A média de idade dos estudantes avaliados foi igual a 11,85 anos (DP = 0,82). Em relação à escolaridade materna, 62% das mães ficaram na classificação de ensino fundamental completo ou incompleto, 28% de ensino médio e 9,3% de ensino superior.

Em relação aos hábitos sedentários, 64,6% dos escolares relataram permanecer até três horas por dia em frente à televisão, videogame ou computador, e 35,4% mais de três horas por dia. Foram encontrados 18% de escolares insatisfeitos com a imagem corporal. Quanto ao estado nutricional, 0,9% apresentaram baixo peso, 22,8% sobrepeso e 7,3% obesidade. Segundo o Indicador Econômico Nacional, 4,2%, 42,9% e 52,8% encontravam-se nas classes baixas, intermediária e alta, respectivamente.

As prevalências de vítimas e agressores de bullying foram de 10,2% e 7,1%, respectivamente. As Tabelas 1 e 2 apresentam as características das vítimas e agressores de bullying. Os dados são referentes às 126 vítimas e 87 agressores que se caracterizaram com os respectivos desfechos conforme o instrumento Kidscape.

 

 

 

 

Quando a variável "como se sentiu após ter sido vítima de bullying" foi dicotomizada, os meninos apresentaram melhores sensações (sentir-se mal, assustado ou não querer mais ir para a escola) em relação às meninas (RP = 0,40 - IC = 0,23-0,71), em análise bivariada. O mesmo aconteceu com os insatisfeitos com a imagem corporal que apresentaram quase o triplo de chances (RP = 2,91 - IC = 1,42-5,95) de apresentar sensações ruins após ter sofrido bullying. Em relação aos efeitos, os insatisfeitos com a imagem corporal apresentaram o dobro de chances para consequências ruins ou mudança de escola em relação aos satisfeitos (RP = 2,03 - IC = 1,14-3,62).

As Tabelas 3 e 4 apresentam as análises bivariada e multivariada das vítimas e agressores de bullying, respectivamente, com as variáveis independentes. Para as análises bivariada e multivariada, as variáveis do modelo teórico foram agrupadas em dicotômicas. Também foram utilizadas as variáveis de idade em dois grupos: aquelas dos primeiros dois anos da adolescência e os adolescentes de 13 e 14 anos. A razão para esse agrupamento se deve ao fato de que, no primeiro grupo, as alterações morfológicas e funcionais que acontecem e podem influenciar o desempenho são marcadamente diferentes daquelas em outros períodos posteriores à adolescência, caracterizadas pela puberdade. Nas idades em que esse processo já se encontra consolidado, a mudança corporal, a força física e o desenvolvimento de caracteres sexuais secundários podem influenciar o comportamento.13,14

Os insatisfeitos com a imagem corporal apresentaram mais do que o triplo de chances de serem vítimas (RP = 3,24 - IC = 1,99-5,28), e quase o dobro de chances de serem agressores (RP = 1,98 - IC = 1,53-3,73) em relação aos satisfeitos.

Os escolares que relataram hábitos sedentários por mais de três horas por dia apresentaram 55% mais chances de serem vítimas (RP = 1,55 - IC = 1,01-2,36) e mais do que o dobro de chances de serem agressores (RP = 2,42 - IC = 1,47-3,97) do que os escolares que dispensavam menos do que três horas por dia aos hábitos sedentários.

Os meninos também apresentaram mais do que o dobro de chances (RP = 2,45 - IC = 1,42-4,24) de serem agressores em relação às meninas, assim como os escolares mais velhos (13 e 14 anos) apresentaram 86% mais chances (RP = 1,86 - IC = 1,06-3,26) de serem agressores em relação aos escolares mais novos (11 e 12 anos).

 

Discussão

O presente estudo encontrou prevalências de 10,2% para vítimas, 7,1% para agressores de bullying e 31 crianças (2,52% da amostra total) apresentaram-se tanto como vítimas quanto como agressores. Um estudo feito em duas escolas na cidade de Pelotas, RS,10 apresentou prevalência de estudantes que sofreram bullying de 17,6%. Na cidade de Canoas, RS, Calbo et al. 15 encontraram 26,57% dos indivíduos envolvidos em situações de bullying, seja como vítimas ou como agressores. Estudo realizado no interior do Estado de São Paulo16 apontou que 100% dos participantes admitiram ter sido tanto vítimas quanto autores de bullying ao menos uma vez no último ano. As diferentes metodologias utilizadas nos estudos apresentados10,15,16 podem explicar, em parte, as diferenças nas prevalências. Apesar das diferenças encontradas, as prevalências apresentadas pelo presente estudo são consideráveis, visto que estudantes envolvidos em atos de bullying estão mais propensos a faltar aula, sentir insegurança e dificuldade em fazer novos amigos17 e apresentar humor deprimido.18

O presente estudo apresentou os meninos com mais do que o dobro de chances (RP = 2,45) de serem agressores em relação às meninas. Resultados semelhantes foram encontrados em Canoas, RS,15 em uma cidade do interior paulista16 e na cidade de Pelotas, RS.10 Uma possível explicação para as diferenças entre os sexos é que os meninos se encontram em uma fase na qual a competição por status e a busca por prestígio entre as meninas aumenta consideravelmente, fazendo com que eles assumam comportamentos de risco.15 Também pode ser citado o fato de os meninos apresentarem uma maior prevalência em alguns transtornos mentais, como o opositor-desafiante e o de conduta.19,20 A prevalência maior nos meninos também pode ser explicada em parte pelo fato de eles sofrerem mais com bullying de forma física direta (ficando mais em evidência), enquanto as meninas se envolvem mais em agressões verbais e de exclusão.10 O modelo de valorização dos atributos físicos do sexo masculino também pode estar sendo reproduzido no contexto escolar, onde os meninos vivenciam a expressão da agressividade de um modo mais acentuado e as meninas com formas mais sutis de humilhação ou intimidação.21 Também podemos mencionar que o atual estudo encontrou as agressões físicas (38,7%) e verbais (24,3%) como as mais prevalentes, assim como estudos realizados nos EUA22 (20,8% para agressão física e 53,6% para verbal) e no Canadá18 (35,8% de agressão física e 59,3% de agressão verbal). As violências física e verbal são as mais apresentadas pelos estudos, sendo as físicas mais praticadas pelos meninos, e as verbais pelas meninas.

Os escolares mais velhos (13 e 14 anos) apresentaram 86% mais chances (RP = 1,86) de serem agressores em relação aos escolares mais novos (11 e 12 anos). O estudo realizado em Massachusetts, EUA,3 também apontou maiores prevalências de agressores entre os escolares de 13 a 16 anos em comparação aos de 11 e 12 anos. Alikasifoglu et al.,17 em pesquisa realizada na Turquia, encontraram um número maior de agressores entre os escolares mais velhos. Magklara et al.2 encontraram prevalências maiores de agressores nos escolares mais velhos, porém sem diferença estatisticamente significante. Isto acontece, possivelmente, pelo fato de que, com o passar dos anos, os indivíduos mais novos tornam-se vítimas dos mais velhos, aumentando o número de agressores com o avanço da idade.15

Os escolares apontaram os professores como os maiores culpados pelos casos de bullying, e quanto aos locais de maior ocorrência, o pátio da escola e a sala de aula foram os mais prevalentes. Francisco e Libório7 também encontraram a sala de aula e o pátio como os locais de maior ocorrência. Lopes Neto6 afirma que a sala de aula é o local onde mais acontecem atos de bullying, porém, com uma tendência de decréscimo de acontecimentos no local. Nikoden e Piber,23 em estudo na cidade de Santo Ângelo, RS, encontraram os mesmos locais acima citados como os mais propícios para a sua ocorrência. Possivelmente, as agressões que acontecem no pátio aconteçam, na maioria das vezes, nas aulas de Educação Física ou em horário de recreio24 (onde, nas escolas municipais da cidade avaliada, sempre há a presença de um professor). Possivelmente, a culpa atribuída aos professores esteja relacionada com o local de acontecimento (sala e pátio), onde eles se encontram, e talvez os alunos não os enxerguem como agentes atuantes no sentido de prevenir ou reduzir as práticas de bullying.6,7

Em relação aos agressores, 32,6% relataram sentirem-se muito bem após as agressões, e 44,2% deles relataram sentirem-se muito mal, e 79,3% dos agressores relataram praticar os atos de agressão por várias vezes. O modelo de resolução de problemas através da violência tende a gerar comportamento de resposta similar, perpetuando o ciclo de problemas.25 Os estudantes deveriam expressar suas opiniões e revelar as razões pelas quais se envolvem em atos de bullying para que se possa avaliar corretamente a ocorrência dos fatos.26

O estudo em questão apresentou 18% de escolares insatisfeitos com a imagem corporal, e esta apresentou associação com os agressores de bullying (RP = 1,98) na análise bivariada, e com as vítimas na análise multivariada, onde os escolares insatisfeitos com a imagem corporal apresentaram o triplo de chances de serem vítimas (RP = 3,24). Também foram encontrados 30,1% dos escolares com sobrepeso + obesidade. O excesso de peso não apresentou associação estatística significante com o bullying. Brixval et al.5 encontraram associação entre imagem corporal, excesso de peso e bullying em escolares dinamarqueses. Outra pesquisa realizada no Canadá27 também apresentou associação entre bullying e estado nutricional. As diferentes metodologias utilizadas nos estudos apresentados,5,27 tanto para avaliação de bullying quanto para avaliação do estado nutricional, em relação ao presente estudo, talvez possam explicar em parte as diferenças de resultados. A imagem corporal pode também estar atuando como fator mediador entre a exposição ao bullying e o excesso de peso, visto que a aparência física também está associada às agressões e à preocupação com a forma física nesta fase da vida.5

O hábito de permanecer por mais de três horas por dia em frente à televisão, videogame e computador apresentou-se como fator associado ao desfecho tanto para vítimas (RP = 1,55), como para agressores (RP = 2,42). Estudo realizado em oito países4 (Canadá, Estônia, Israel, Letônia, Macedônia, Polônia, Portugal e EUA) também apontou associação com número de horas assistindo televisão e assédio moral em análise bivariada, e agressões verbais em análise multivariada. Um estudo longitudinal realizado em Illinois, EUA,28 demonstrou que a exposição de crianças à violência da mídia está relacionada com a agressividade na vida adulta. Talvez a permanência por várias horas em frente à televisão esteja criando uma tendência de reação nas crianças e adolescentes, fazendo-os adotar comportamentos agressivos, principalmente nos que concentram este número de horas como telespectadores nos finais de semana.4 Limitar o tempo em frente à televisão nos primeiros anos de vida pode reduzir o risco de as crianças e adolescentes de se tornarem agressores.29 No caso das vítimas, a busca por atividades sedentárias pode estar alicerçada na dificuldade de relacionamentos, na rejeição e na angústia que as crianças que sofrem humilhações apresentam e, ao invés de buscarem atividades que exijam o mínimo de relacionamento, dão preferência a atividades mais solitárias, como assistir televisão, jogar videogame ou permanecer por horas em frente ao computador.30,4

As variáveis escolaridade da mãe e nível socioeconômico não apresentaram associação estatística significante com os desfechos agressor e vítima (p > 0,05), assim como os resultados da pesquisa realizada no Canadá.18 Malta et al.,21 avaliando escolares de 26 capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, encontraram que não sofrer bullying é mais frequente entre adolescentes filhos de mães com nenhuma escolaridade ou ensino fundamental incompleto. Resultados inversos foram encontrados na Dinamarca5 e Grécia,2 onde o nível socioeconômico baixo foi associado a vítimas e agressores de bullying, respectivamente. Os resultados apresentados mostram que este problema afeta indistintamente as diferentes classes sociais, embora algumas vezes apresentem determinantes diferentes.2,18,21

O presente estudo, por ser transversal, pode apresentar a causalidade reversa como uma de suas limitações. Além disso, pode ter ocorrido o viés de memória em algumas das questões relacionadas aos questionários de bullying e imagem corporal.

Considerando as limitações do estudo, pode-se dizer que as prevalências de bullying (vítimas e agressores) são consideráveis e devem servir de alerta para a comunidade em geral. A insatisfação com a imagem corporal foi a variável mais fortemente associada às vítimas, e também apresentou associação significativa com os agressores. Os hábitos sedentários associaram-se com os agressores e vítimas de bullying. Os meninos mostraram-se como potenciais agressores em relação às meninas, assim como os escolares mais velhos em relação aos mais novos.

Aconselha-se, para uma conscientização dos agressores sobre a incorreção dos seus atos, que sejam dadas condições para que os mesmos desenvolvam comportamentos amigáveis, para, dessa forma, tornar o ambiente escolar seguro e sadio.

 

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

 

Agradecimentos

Este projeto foi financiado em parte pelo CNPq - edital nº 14/2011.

 

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Recebido em 17 de julho de 2012; aceito em 18 de setembro de 2012

 

 

* Autor para correspondência.
E-mail: ricardo.rech@gmail.com (R.R. Rech).

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