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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.66 no.spe Brasília Sept. 2013

https://doi.org/10.1590/S0034-71672013000700009 

AUTORES CONVIDADOS

 

Discussões sobre linhas de pesquisa nos Seminários Nacionais de Pesquisa em Enfermagem, 1979-2011

 

Discussions on research lines in the National Nursing Research Seminars, 1979-2011

 

Discusiones sobre líneas de investigación en los Seminarios Nacionales de Investigación en Enfermería, 1979-2011

 

 

Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca; Rebeca Nunes Guedes Oliveira

Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva. São Paulo-SP, Brasil

Autor correspondente

 

 


RESUMO

O artigo teve o objetivo de proceder à recuperação histórica das discussões havidas no âmbito do Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem (SENPE) acerca de linhas de pesquisa, materializando, neste âmbito, a construção do conhecimento em enfermagem. Trata-se de pesquisa documental, cujas fontes dos dados foram os Anais dos dezesseis SENPE, realizados de 1979 a 2011. Observou-se que a discussão em torno das linhas de pesquisa constituiu preocupação constante nos SENPE, embora com diferentes gradações, desde a sua gênese até a atualidade. O cenário se configura incluindo as consequências adversas da produção e difusão quantitativa de estudos sem que necessariamente estejam articulados a uma finalidade práxica. As preocupações exteriorizadas na trajetória analisada reforçam a busca pela práxis na enfermagem de modo a contribuir para a discussão das linhas de pesquisa na perspectiva da politicidade da construção, difusão e avaliação do conhecimento, a partir do entendimento das contradições inerentes a este processo.

Descritores: Enfermagem; Pesquisa em Enfermagem; Congressos; Conhecimento; Metodologia.


ABSTRACT

The article aimed to recover historical and synthesis of discussions within the National Seminar on Nursing Research (SENPE) about research lines, materializing in this context, the construction of nursing knowledge. This is a documentary research, whose sources were the Annals of sixteen SENPE, conducted from 1979 to 2011. It was observed that the discussion on the research lines was a constant concern in those Seminars, although with different gradations, from its genesis to the present time. The scenario configures itself with the inclusion of adverse consequences of the quantitative production and dissemination of studies without necessarily articulated them with a praxis purpose. The concerns externalized in the trajectory analyzed inaugurate the search for praxis in nursing to contribute to the discussion of the research from the perspective of the political nature of the construction, dissemination and evaluation of knowledge, from the understanding of the contradictions inherent in this process.

Key words: Nursing; Nursing Research; Congresses; Knowledge; Methodology.


RESUMÉN

El artículo tiene como objetivo recuperar la historia y la síntesis de los debates ocurridos en el Seminario Nacional de Investigación en Enfermería sobre líneas de investigación, materializándose en este contexto, la construcción del conocimiento en enfermería. Se trata de una investigación documental, cuyas fuentes fueron los Anales de 16 SENPE, llevada a cabo desde 1979 hasta 2011. Fue observado que la discusión sobre líneas de investigación ha sido una preocupación constante en los SENPE, aunque con diferentes matices, desde su génesis hasta la actualidad. El escenario se configura estableciendo las consecuencias adversas de la producción y difusión cuantitativa de estudios, no necesariamente articulados con un propósito práxico. Las preocupaciones externalizados en la trayectoria inauguran la búsqueda de la práxis en enfermería con el fin de contribuir a la discusión de las líneas de investigación teniendo en cuenta el carácter político de la construcción, la difusión y la evaluación de los conocimientos, entendiendo las contradicciones inherentes a este proceso.

Palabras clave: Enfermería; Investigación en Enfermería; Congresos; Conocimiento; Metodología.


 

 

INTRODUÇÃO

A pertinência da discussão sobre Linhas de Pesquisa coloca-se na perspectiva da importância dada atualmente para o estabelecimento de uma certa direcionalidade para a busca do conhecimento através da pesquisa científica nos espaços tradicionalmente privilegiados para tanto, quais sejam os programas de pós-graduação, as agências reguladoras e financiadoras e os institutos de pesquisa, entre outros.

Acresce-se a isto o apelo atual para o aumento da produção de conhecimento nos países emergentes, para torná-los competentes e competitivos em termos de ciência e tecnologia no cenário global, o que tem colocado para as instituições e pesquisadores o desafio de estabelecer os rumos desta produção, por sua vez, determinada pelo estágio de desenvolvimento do próprio conhecimento, das epistemologias norteadoras, do estágio de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção em ciência e tecnologia, e da própria lógica de mercado, se pensarmos na relação dialética que existe entre produção, difusão e consumo deste conhecimento.

No campo da Enfermagem, o que se tem constatado empiricamente é uma variedade enorme de linhas e áreas de pesquisa, bem como a indefinição clara dos seus conteúdos, muitas vezes conflitantes com as próprias pesquisas que contêm. Se diversos são os espaços de produção, mais diversificado ainda se mostra este cenário quando se trata de incluir o que foi produzido nas demandas classificatórias das agências reguladoras e de fomento, tais como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), as Fundações de Apoio à Pesquisa Estaduais (FAPEs), etc.

Tudo isto leva à necessidade de se discutir a possibilidade de articulação entre as linhas de pesquisa e o que foi pactuado a respeito, no âmbito da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), enquanto entidade que

pautada em princípios éticos e de conformidade com suas finalidades, articula-se com as demais organizações da Enfermagem brasileira com vista ao desenvolvimento político, social e científico das profissões que a compõem. Tem como eixo a defesa e a consolidação do trabalho da enfermagem como prática social, essencial à assistência de saúde e à organização e ao funcionamento dos serviços de saúde e como compromisso propor e defender políticas e programas que visem a melhoria da qualidade de vida da população e acesso universal e equânime aos Serviços de Saúde(1).

A Política para a Enfermagem Brasileira em Ciência, Tecnologia e Inovação formulada pela ABEn, Coordenação de Representantes da Enfermagem no Comitê Assessor do CNPq e CAPES, com o apoio da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (ABENFO), do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e Federação Nacional dos Enfermeiros (FNE), pontua que

o cuidado ao ser humano é um valor, um bem social inalienável para promover e manter a vida e o morrer com dignidade. A competência técnico-científica de cuidar do cidadão, no seu processo saúde e doença e no contexto ambiental e social do viver humano, requer a produção de conhecimentos avançados, de natureza biológica, sócio-humanista e sócio-crítica(2).

Com base no exposto, a pesquisa que fundamenta o presente artigo, teve por finalidade construída na mesa temática "O quê e para quê pesquisar: repensando as linhas de pesquisa em enfermagem" desenvolvida durante 17º Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem (SENPE), teve como finalidade trazer a público o que foi construído até o presente momento histórico em termos de linhas de pesquisa por parte do CNPq, CAPES e ABEn visando à articulação entre elas. Entende-se que este constituiu o início de uma discussão, o lançamento da idéia da necessidade de rediscussão das linhas e áreas de pesquisa da enfermagem brasileira, com a participação dos seus produtores. Através da CAPES valoriza-se a participação dos Programas de Pós-graduação e através do CNPq a produção dos grupos de pesquisa. Com isto espera-se atingir a maior parte dos pesquisadores em enfermagem do país.

 

OBJETIVOS

A partir da finalidade apresentada, foi estabelecida a seguinte questão-problema: Que as discussões, reflexões, considerações e construções a ABEn realizou a respeito de Linhas de Pesquisa no âmbito dos Seminários Nacionais de Pesquisa em Enfermagem, desde o início da sua constituição como foro privilegiado de discussão do conhecimento em enfermagem?

Para responder tal questão, realizou-se uma pesquisa com os seguintes objetivos:

Proceder à recuperação histórica e síntese das discussões havidas no âmbito dos SENPE acerca de linhas de pesquisa, materializando, neste âmbito, a construção do conhecimento em Enfermagem.

Vislumbrar caminhos para a construção do conhecimento em Enfermagem articulando CAPES, CNPq e ABEn/CEPEN.

 

METODOLOGIA

Marco conceitual

Segundo Borges Andrade, a linha é um traço contínuo de uma só dimensão, que separa duas coisas contíguas, ou um conjunto de pontos que dependem continuamente de um parâmetro. Mas também é um traço imaginário em determinada direção ou rumo. Esse traço, visível ou imaginário, limita um objeto e estabelece um contorno ou uma fronteira. Define tendência e estabelece regra de conduta ou norma baseada em convenções sociais. E provê orientação teórica adotada por grupo ou indivíduo. Uma linha também pode ser definida como prática de alguma atividade. Por outro lado, pesquisa é a busca minuciosa e diligente para averiguação ou indagação da realidade. Refere-se à investigação e aos estudos por meio do recolhimento sistemático de dados ou elementos, com o fim de descobrir ou estabelecer fatos ou princípios relativos a um campo qualquer do conhecimento. Desse modo, para definir uma linha de pesquisa, poderíamos adotar o conceito de um traço imaginário que: determina o rumo, ou o que será investigado num dado contexto ou realidade; limita as fronteiras do campo específico do conhecimento em que deverá ser inserido o estudo; oferece orientação teórica aos que farão a busca; estabelece os procedimentos que serão considerados adequados nesse processo(3).

Nesta definição, o autor chama a atenção para os quatro elementos essenciais do conceito de linha de pesquisa: objetivo, delimitação de escopo, orientação teórica e atividades de trabalho.

Para Barreira(4),

a importância de se definir linhas de pesquisa em enfermagem prende-se às exigências atuais do processo de produção do conhecimento, que se tornou um empreendimento coletivo, realizado de modo progressivo e contínuo ao longo do tempo. No entanto uma linha de pesquisa passa a ter existência como resultado da produção de investigações que deve atender a certas condições. Por isso, pode não ser tarefa fácil identificar o nascimento de uma linha de pesquisa.

A mesma autora cita que, na Reunião Nacional de Coordenadores de Cursos de Pós-Graduação em Enfermagem (1991)(4), diante das dificuldades apresentadas para inventariar as linhas de pesquisa existentes e em construção nas instituições de ensino de enfermagem, foram elaborados critérios para a avaliação do grau de consolidação de uma linha de pesquisa, segundo sua persistência temporal, produção científica e maturidade das equipes, considerando-se três níveis:

Nível 1: Linha de Pesquisa Consolidada: Trabalho coletivo com duração de cerca de cinco anos, que envolve pessoas em vários níveis de formação e experiência em pesquisa, receptivo a novos pesquisadores, no qual a produção já existente apresenta um forte nexo entre os diferentes projetos, que se encontram voltados para uma questão norteadora, e que favoreça ainda o intercâmbio institucional ou interdisciplinar.

Nível 2: Linha de Pesquisa Emergente: Trabalho coletivo realizado em torno de uma questão norteadora, com alguma produção já existente e projetos em andamento, com tendências à ampliação e consolidação.

Nível 3: Produção Científica Isolada: Pesquisas individuais e/ou grupais, sem necessariamente estabelecerem vínculos de internacionalidade em torno de uma única questão norteadora, mas que representam parcela importante de produção científica da unidade(4).

Há que se considerar ainda que, se a investigação resulta de um processo de trabalho no qual estão intimamente articulados pesquisador, objeto de estudo, meios e instrumentos a serem utilizados na produção do conhecimento, e que este processo de trabalho é executado por sujeitos sociais, num dado contexto social, num tempo e espaço socialmente determinados, ele reflete diretamente o seu tempo e as condições objetivas de sua produção, difusão, consumo e utilização. Isto quer dizer que sendo resultante de uma prática social, representa a superação da contradição dialética entre a possibilidade e a realidade, ressignificado como objeto de estudo transformado, em relação ao objeto anterior.

As demais etapas do ciclo de produção, quais sejam a difusão, o consumo e a utilização do conhecimento produzido, se dão de maneira semelhante, determinadas pelas condições objetivas da realidade. Não se deve esquecer que no modo de produção capitalista, uma das finalidades do conhecimento é a produção de riquezas que serão apropriadas e distribuídas diferentemente, de acordo com a inserção social dos sujeitos e grupos, uma vez que a lógica é baseada na distribuição desigual, de acordo com a valoração do sujeito ou grupo na hierarquia social.

Com base nisto, no processo de trabalho de construção do conhecimento, as linhas de pesquisa, em geral, inserem-se no conjunto de meios e instrumentos disponíveis e necessários à transformação do objeto e como tal, são regidas pela mesma visão de mundo que norteia todo o processo. Disso talvez derive o fato de que muitas vezes não é possível distinguir linha de área ou tema de pesquisa.

Procedimentos metodológicos

As fontes dos dados empíricos foram os Anais dos 16 Seminários Nacionais de Pesquisa em Enfermagem, realizados de 1979 a 2011, 11 impressos e 5 eletrônicos, consultando-se os conteúdo das mesas redondas, oficinas de trabalho e conferências. Nos resumos de trabalhos consultados (nos Anais Eletrônicos os que foram possíveis de serem abertos) não houve conteúdo significativo sobre o tema.

Os dados de cada SENPE foram compilados num instrumento contendo tema, eixos e/ou objetivos dos eventos, espaços em que foram abordados os conteúdos referentes a linhas de pesquisa, síntese dos principais aspectos sobre linhas de pesquisa discutidos ou abordados.

A análise dos resultados foi feita seguindo-se as fases resultantes da periodização da série histórica de 30 anos (1979-2009), feita por Barreira e Baptista(5), abrangendo a realização de 15 Seminários, da seguinte forma:

1º fase: "Fundamentos da Pesquisa em Enfermagem" (1979-1987): 1º, 2º, 3º, 4ºSENPE;

2º fase: "Campos de aplicação dos resultados das pesquisas" (1988-1996): 5º, 6º, 7º e 8º SENPE;

3º fase: "Crescimento e desenvolvimento da pesquisa de enfermagem" (1997-2002): 9º, 10º e 11º SENPE;

4º fase: "Intervenção no campo da enfermagem" (2003-2009): 12º, 13º, 14º e 15º SENPE.

O 16º SENPE, pelas características apresentadas, foi considerado como integrante desta última fase. Com isto, a periodização abrangeu os 16 Seminários, realizados entre 1979 e 2011.

 

RESULTADOS

O SENPE surgiu na conjuntura internacional do processo de cientificização da Enfermagem como área do conhecimento e na conjuntura nacional de criação dos cursos de mestrado em enfermagem. Ao longo do tempo o SENPE configurou-se como um dos mais significativos eventos da enfermagem brasileira, dando visibilidade à sua produção científica, congregando os pesquisadores de todas as regiões do País, articulando a ABEn com a academia e os serviços, tendo a pesquisa como fio condutor. A seguir será apresentado o estado da arte da abordagem sobre linhas de pesquisa nos SENPE (1979-2011), segundo as fases anteriormente mencionadas(5).

Estado da arte da abordagem sobre Linhas de Pesquisa nos SENPE (1979-2011), segundo as fases identificadas por Barreira e Baptista, (2009)

1ª fase - Fundamentos da Pesquisa em Enfermagem (1979-1987): do 1º ao 4º SENPE(6-9).

Esses quatro primeiros Seminários levantaram as dificuldades a serem superadas para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem como: financiamento, preparo do pesquisador, produção cientifica e sua publicação, indefinição de marcos teóricos, dispersão temática e descontinuidade dos projetos, concentração da produção científica nas universidades públicas das regiões sudeste e sul, falta de aproveitamento dos resultados das pesquisas. Nesta primeira fase, as Linhas de Pesquisa são discutidas enquanto áreas prioritárias para fundamentar a pesquisa em Enfermagem e suas limitações são reflexo do desenvolvimento de pesquisas sem uma definição consistente de linhas e grupos de pesquisa.

Em síntese, a discussão sobre Linhas de Pesquisa no âmbito da primeira fase, que compreende os quatro primeiros SENPE são delineadas a seguir.

Definição das linhas de pesquisa prioritárias, de acordo com a necessidade de construção de um corpo de conhecimentos específicos de enfermagem (pesquisas sobre o papel da enfermagem) entendendo a enfermagem como prática social (inserida socialmente);

As linhas de pesquisa parecem corresponder prioritariamente às necessidades do momento histórico, sendo influenciadas pelas práticas de saúde decorrentes da evolução social do País;

O caminho que vai se delineando nas linhas de pesquisa é a direção da dimensão intelectual do trabalho da enfermagem, cujas teorias são trazidas de outras áreas do conhecimento para a construção de conhecimentos que permitissem apreender os objetos de investigação e intervenção;

As questões sobre linha de pesquisa e marco teórico são ainda bastante polêmicas e não internalizadas suficientemente. A preocupação é a operacionalidade das colocações feitas nos seminário no nível institucional.

Os conteúdos detalhados no que concerne à discussão sobre linhas de pesquisa construída em cada Seminários estão descritos no quadro 1.

2ª fase - Campos de aplicação dos resultados das pesquisas (1988-1996): do 5º ao 8º SENPE(10-13)

No contexto da segunda fase, Linha de Pesquisa é definida como o eixo para uma perspectiva coletiva de fortalecimento da pesquisa, construção do corpo de conhecimentos e continuidade dos projetos de grupos de pesquisa. Os programas de pós-graduação desenvolvem um esforço em prol da formação de Grupos de Pesquisa, com Linhas de Pesquisa determinadas, de modo que ela tem como marco a estruturação de linhas de pesquisa e núcleos de pesquisa (8º SENPE, 1995), processo que ocorre especialmente nas universidades, no sentido de formar novos pesquisadores na mesma linha temática e metodológica, produzir novos conhecimentos e propor alternativas para a prática profissional (assistencial, de ensino e pesquisa).

Em todos os cursos de pós-graduação a pesquisa vem se organizando de forma grupal em temáticas que já eram trabalhadas por pesquisadores, isoladamente. Entretanto, as limitações discutidas nos seminários relacionavam-se à falta de financiamento, falta de continuidade dos projetos de pesquisa, preparo inadequado dos enfermeiros como pesquisadores, pressão por produção em quantidade em detrimento da qualidade e insuficiência de publicações na área de Enfermagem. O quadro 2 apresenta o detalhamento da discussão em torno das linhas de pesquisa desenvolvida em cada SENPE.

3ª fase - Crescimento e desenvolvimento da pesquisa de enfermagem (1997-2002): do 9º ao 11º SENPE(14-16)

Nesta fase, a discussão em torno das Linhas de Pesquisa é voltada para uma perspectiva conceitual, sendo ressaltada a importância da dimensão teórico-metodológica no delineamento das linhas de pesquisa. A preocupação conceitual é analisar e (re)definir as Linhas de Pesquisa com base na avaliação dos estudos produzidos nas diferentes linhas dos Programas de Pós-graduação existentes no Brasil. Nesta fase, é ressaltado que a Enfermagem já venceu uma primeira etapa, ao incorporar o impacto que as pesquisas têm tido na prática profissional, sendo capaz de ditar os seus caminhos metodológicos e desenhar o traçado das investigações.

No 10º SENPE, é redefinida a direcionalidade temática da produção científica e as Linhas de Pesquisa. A Oficina de Trabalho sobre Linhas de Pesquisa com documento-base: "Agrupamento da produção científica (dissertações e teses) dos programas de pós-graduação em enfermagem, no período de 1993 a 1997", produzido no Encontro de Coordenadores de Pós-Graduação Stricto Senso(17) possibilitou esta redefinição. Foi elaborada uma proposta de linhas de pesquisa para ser discutida no âmbito dos programas de pós-graduação.

À medida que os enfermeiros vinham se titulando, novas experiências surgiam no sentido de formação e consolidação de grupos e linhas de pesquisa e projetos interinstitucionais. Ampliou-se o espaço para o desenvolvimento de diferentes abordagens teórico-metodológicas, de modo que o enfermeiros pesquisadores tiveram acesso a outras áreas do conhecimento (psicologia, sociologia, antropologia, etc.) que forneceram subsídio para o desenvolvimento das pesquisas sob diversas óticas. O detalhamento da discussão em torno das linhas de pesquisa delineada em cada seminário, é apresentado no quadro 3.

4ª fase - Intervenção no campo da enfermagem (2003-2011): do 12º ao 16º SENPE(18-22)

Neste período há um importante incremento no número de Grupos de Pesquisa cadastrados no CNPq, aumento do número de publicações da área e expansão do acesso aos cursos de pós-graduação aos enfermeiros de serviços de saúde. Esta Fase é caracterizada pelo aprofundamento teórico no campo interdisciplinar frente à complexidade dos fenômenos. A discussão em torno das linhas de pesquisa passa a ser delineada em uma perspectiva política, na qual a complexidade dos fenômenos da enfermagem exige que a construção do conhecimento constitua um compromisso social, coletivo, para o qual a interdisciplinaridade é uma dimensão fundamental.

A Enfermagem conta com pesquisadores experientes qualificados para orientação e gestão de projetos de pesquisa. Esta situação resulta de um processo de incentivo à criação de programas de pós-graduação e de grupos e linhas de pesquisa. A formação de pesquisadores em Enfermagem, no Brasil, sofre determinações de diretrizes educacionais governamentais que conduzem desde a gênese à avaliação dos programas de pós-graduação stricto senso. O quadro 4 apresenta os principais aspectos da discussão em torno das linhas de pesquisa desenvolvida em cada SENPE.

 

DISCUSSÃO E SÍNTESE

Na retomada histórica da estruturação da discussão em torno da discussão das linhas de pesquisa em enfermagem durante os SENPE, percebe-se que a questão sobre o que pesquisar, que embasa o próprio conceito de linha de pesquisa, constituiu preocupação constante na formulação de praticamente todos as edições dos Seminário, embora com diferentes gradações entre eles e entre as fases nos quais podem ser inseridos.

Houve edições em que essa questão concentrou grande parte das discussões, desde a sua gênese até o momento. Ênfase pode ser dada nos SENPE da primeira fase, motivados pelo próprio tema (O quê pesquisar) e o reconhecimento de que a atividade de pesquisa deveria constituir um campo privilegiado do fazer em enfermagem. Na segunda fase, parece haver um desaquecimento da discussão específica sobre linhas de pesquisa por conta da necessidade de revisão dos marcos teórico-metodológicos, então prioritária. Na terceira fase, o tema foi retomado inclusive com a proposição de um documento norteador, vigente até o momento, fruto de iniciativas motivadas pela necessidade de aprofundamento da preocupação com a orientação teórico-metodológica das investigações. Finalmente, na quarta fase, observa-se um incremento da produção numa curva ascendente até nossos dias.

Na conjuntura de proposição do 17º SENPE o cenário se configura incluindo as consequências adversas da produção e difusão quantitativa de estudos sem que necessariamente estejam articulados a uma finalidade práxica. Corrobora isto a política nacional de ciência e tecnologia que, a despeito de inovadora e legitimamente interessada em colocar o Brasil no cenário internacional como produtor de conhecimento, de outra parte, propicia o surgimento de critérios muitas vezes equivocados de avaliação de programas e pesquisadores mais pela quantidade e dispersão de enfoques que pela qualidade e aplicabilidade dos seus produtos decorrentes das pesquisas.

Assim é que se propôs o temário "O clássico e o emergente: desafios para a pesquisa em enfermagem", com os seguintes eixos: 1) Desafios da ética e da bioética na produção do conhecimento em enfermagem; 2) Questões antigas e novas da pesquisa em enfermagem; 3) O que e para que pesquisar: limites e possibilidades das linhas e grupos de pesquisa em enfermagem(23).

Os objetivos traçados foram: debater a responsabilidade social e o impacto da pesquisa em enfermagem na produção, disseminação e utilização do conhecimento; discutir as implicações do conhecimento produzido pela Enfermagem na formulação de políticas públicas (sociais e de saúde) de cuidado (em Saúde e Enfermagem), de formação de pesquisadores e de redes de pesquisa; promover intercâmbio interinstitucional e socialização do conhecimento de enfermagem produzido pelas instituições de pesquisa, ensino e assistência à saúde, nos âmbitos nacional e internacional; refletir sobre limites e potencialidades das linhas e dos grupos de pesquisa em enfermagem e sua contribuição para a transformação das práticas em saúde e em enfermagem(23).

Especificamente sobre o terceiro eixo, buscou-se incrementar o questionamento sobre a pertinência do conhecimento produzido (em quantidade e qualidade) para a necessária articulação entre teoria e prática na produção, difusão, consumo e avaliação do conhecimento; encontrar formas de articulação entre as linhas de pesquisa definidas pela ABEn com as da CAPES e do CNPq; obter subsídios para a proposição de novas linhas de pesquisa para dar conta das transformações decorrentes de inovações instrumentais, metodológicas e epistemológicas na produção do conhecimento; discutir e rever os critérios para a classificação dos veículos de difusão do conhecimento (para superar as dificuldades trazidas pelo incentivo à quantidade em detrimento da qualidade), articulada à revisão das linhas de pesquisa.

Ainda, ao propor (re)discutir a ética que deve nortear o processo de conhecimento, pretende-se reforçar o resgate dos valores nos quais se baseiam a profissão. Arrisca-se a dizer que as preocupações exteriorizadas no temário de um evento do porte do SENPE - iniciativa esta bastante bem aceita pela comunidade científica presente - inauguram uma nova fase na periodização proposta por Barreira e Baptista, intensificando a busca pela práxis na enfermagem, nos seus campos assistencial, educacional, organizacional e investigativo. Em outras palavras, intensifica-se com isto a discussão do "Para quê pesquisar". Estaríamos, assim, inaugurando uma nova fase "Rumo à práxis de enfermagem"?

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com este trabalho, esperamos contribuir para a discussão das linhas de pesquisa em enfermagem na perspectiva da politicidade da construção, difusão, consumo e avaliação do conhecimento entendendo que as contradições inerentes a este processo, assim como ele, são socialmente determinadas pela organização social da ciência e tecnologia no País. Enquanto sociedade civil privilegiada para o controle social, a Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) tem o desafio de intervir cotidianamente nos órgãos de fomento, de regulação, na academia e nos serviços para democratizar o acesso de toda a população aos avanços tecnológicos advindos da aplicação dos conhecimentos produzidos na assistência à saúde da população, na qualidade do cuidado prestado, na qualidade e quantidade de profissionais necessários para tanto, bem como nas condições de trabalho e segurança destes profissionais. Somente assim, entendendo o conhecimento como instrumento privilegiado de intervenção e transformação da realidade, estaremos cumprindo o dever cívico de participar da construção de uma sociedade mais justa e equânime.

 

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Autor correspondente:
Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca
E-mail: rmgsfon@usp.br

Submissão: 06-09-2013
Aprovação: 06-09-2013

 

 

Extraído de: Fonseca RMGS; Oliveira RNG. Reflexões e considerações sobre Linhas de Pesquisa realizadas no âmbito dos Seminários Nacionais de Pesquisa em Enfermagem (1979-2011) In: Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem, 17, 2013 jun 3-5. Anais. Natal: Associação Brasileira de Enfermagem - Seção Rio Grande do Norte, 2013. [disponível em: http://www.abeneventos.com.br/anais_senpe/17senpe/pdf/9010me.pdf]

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