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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.69 no.4 São Paulo July/Aug. 2003

https://doi.org/10.1590/S0034-72992003000400001 

EDITORIAL

 

Otorrinolaringologia: o que vem a ser?

 

 

Henrique Olival Costa

 

 

Chegado o momento do ano em que devemos avaliar os trabalhos científicos enviados para a apresentação em nosso congresso nacional, retomamos uma velha discussão: como dividir os temas pelas três subespecialidades, agrupadas nas respectivas sociedades de Otologia, Rinologia e Laringologia. Ao observarmos estes três nomes imediatamente percebemos que há uma nítida limitação temática com respeito ao todo de nossa especialidade. Este tipo de constrangimento "intelectual" também é vivido no dia-a-dia de nossa revista, que continuamente tem que determinar quais serão os colegas que revisarão os mais diversos conteúdos remetidos para publicação no periódico. Quem seria o mais habilitado a julgar um artigo versando sobre faringotonsilites um profissional com experiência científica na Rinologia ou um que produz mais no campo da Laringologia. E a cirurgia de base de crânio... ela é do otologista ou do rinologista ou do laringologista... ou do otorrinolaringologista? Afinal quem é este especialista? Nossos problemas de identidade tem existido desde o momento em que a especialidade começou a ser desenhada no início do século XIX. Aparentemente, naquele momento nasceu um campo de trabalho que teve sua lógica estabelecida mais por necessidade de um momento e por afinidade de um ou outro colega do que por uma base teórica lógica. Começamos com a otologia e oftalmologia e seguimos para a laringologia e rinologia. O fato é que acabamos por nos agregar a outros "especialistas de órgãos" de áreas subjacentes e, com o correr dos anos, criamos material, técnicas e procedimentos assemelhados que puderam sustentar nossa sobrevivência como especialidade. Mas os tempos mudaram e o mundo mudou. A ORL que se manteve em um tipo de interesse por mais de um século passou a acrescentar conteúdos que pertenciam aos órgãos, mas não representavam a grade informacional oferecida no preparo do, então, especialista. Vemos a ORL trabalhando nos campos da eletrofisiologia, audiologia, foniatria, cirurgia cérvico-facial, oncologia, neuro-otologia, cirurgia estética, cirurgia endoscópica, pediatria, reabilitação funcional, disfagia, estomatologia, imunologia e alergologia, cirurgia buco-maxilo-facial, traumatologia e por aí afora. Quem afinal é o otorrinolaringologista atual? Esta pergunta está sempre presente e salta aos olhos quando um revisor da área da Otologia não se sente a vontade para julgar um trabalho relacionado com o aparelho labiríntico. O mesmo se passa quando um "laringologista" não se considera apto a julgar um artigo de câncer de hipofaringe. Seria a especialização exponencial que estamos vivendo, do ponto de vista científico, a causa desta falta de habilitação em campos específicos? Ou simplesmente não estamos dando conta da formação geral de nosso especialista, simplesmente por que não sabemos mais o que vem a ser "Otorrinolaringologia". A palavra parece ter ficado pequena para o tamanho de nossa prática e também o ensino tem sido pequeno. Na realidade ele segue uma fórmula vitoriosa, mas que foi determinada há mais de um século, não sofrendo grandes reformas neste período.

Um outro lado da questão é a uniformidade mundial do nosso campo de atuação. Seria o otorrinolaringologista brasileiro semelhante ao grego ou chinês ou lituano? Mesmo aquele especialista que não se envolve com questões extremamente especializadas pode não ser o mesmo em todas as partes do mundo. Sendo as possibilidades de formação tão diversas, fica evidente que a determinação do que vai ser prioritário na formação de nossos colegas pode seguir uma lógica bastante diferente em cada pedaço do mundo. Este tipo de dúvida talvez possa ser resolvido se tomarmos como nosso universo amostral a produção científica otorrinolaringológica e tentarmos extrair quais são as principais concentrações temáticas, as perguntas mais freqüentes, as instituições e autores eleitos pelo público como gurus intelectuais e as pesquisas de ponta que tentam renovar nossas bases paradigmáticas.

Em associação com a Biblioteca Regional de Medicina (BIREME), iniciamos um projeto com o intuito de, a partir da localização destas concentrações temáticas e autorais, definir a possível fisionomia de nossa especialidade. Apesar de apenas no início, localizamos nas principais bases de dados, mais de 105.000 registros de artigos, teses, livros, capítulos e monografias em todo o mundo, nos anos de 1997 a 2002. Estes 5 anos estão servindo de suporte para uma generalização da atividade produtiva com interesse ORL em todo o mundo. Para determinarmos o que deveria ser extraído, utilizamos o acervo de descritores do DeCS/MeSH que incorpora palavras relacionadas com praticamente tudo que se faz em Medicina e Ciências da Saúde e estabelecemos uma estratégia hierárquica por afinidade. Ou seja, tudo que tiver a palavra Otorrinolaringopatia entra, mas nem tudo que tiver a palavra boca será incorporado. São mais de 50 categorias de descritores usados como técnicas cirúrgicas, procedimentos, diagnósticos, órgãos etc. Para termos uma lógica de extração, elegemos a Revista Brasileira de ORL e a Laryngoscope como máscara de filtro preliminar que foi usada após a busca feita por palavras. Esta máscara nos ajudou a determinar um perfil mínimo do que consideramos ser entendido pela maioria da comunidade acadêmica como "Otorrinolaringologia". Finalmente, procuramos o conteúdo existente apenas nas revistas ditas de Otorrinolaringologia. Desta forma temos no momento três níveis de representação: a busca completa que representa os descritores sem filtro, a busca filtrada pela máscara e a busca direta apenas em veículos especializados (revistas de ORL).

Como resultados preliminares obtivemos algumas informações que podem interessar ao nosso leitor. O Brasil, apesar de muito aquém de seu potencial científico, está ranqueado em 18º nas publicações do Medline (Excerpta Medica e Index Medicus), ficando à frente de países de muito maior tradição acadêmica (tabela 1). Ao somarmos os achados do Medline aos do LILACS (Index Medicus da América Latina e Caribe) passamos a 8º lugar na produção mundial. Também é interessante o fato de a produção científica estar localizada em campos como Saúde Pública e Epidemiologia, Estomatologia, sistema respiratório e nervoso, ficando, por exemplo, as otopatias e os transtornos da audição, esteios da formação do especialista brasileiro em posição discreta na distribuição temática (tabela 2).

 

 

 

 

Sabemos que nem sempre a realidade segue a Academia. Sabemos que nem sempre a Academia sabe o que é a realidade. Mas ainda acreditamos que a Escola pode indicar caminhos e desenhar o futuro de uma Disciplina. Entretanto, para isso é necessário que se tenha um plano e que ele tenha fundamentos na experiência, na lógica e nos resultados que se deseja alcançar. A Otorrinolaringologia mudou, talvez tenha mudado muito mais do que imaginemos, pois nossa idéia sobre ela provavelmente esteja baseada apenas na alcunha de nossa prática pessoal. O reconhecimento de uma especialidade bem definida é o primeiro passo para uma formação adequada e para uma prática com objetivos determinados.

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