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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.73 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2007

https://doi.org/10.1590/S0034-72992007000100027 

RELATO DE CASO

 

Paraganglioma timpânico: a propósito de dois casos

 

 

Romualdo Suzano Louzeiro TiagoI; Fábio Marangoni GilII; Juparethan Trento RibeiroII; Patricya Santos Figueiredo dos AnjosIII; Patrícia Maria SensIV; Lupércio Oliveira do ValleV

IDoutor em Ciências pelo programa de Pós-graduação em Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Universidade Federal de São Paulo. Médico Assistente dos Serviços de Otorrinolaringologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo
IIMédico Residente do Serviço de Otorrinolaringologia do HSPM-SP
IIIMédica Otorrinolaringologista, Ex-residente do Serviço de Otorrinolaringologia do HSPM-SP
IVMestre em Otorrinolaringologia pelo programa de Pós-graduação em Otorrinolaringologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Médica Assistente do Serviço de Otorrinolaringologia do HSPM-SP
VMestre em Distúrbio da Comunicação Humana pela PUC-SP. Médico Assistente do Serviço de Otorrinolaringologia do HSPM-SP

Endereço para correspondência

 

 


Palavras-chave: orelha média, osso temporal, paraganglioma.


 

 

INTRODUÇÃO

Os paragangliomas se originam a partir dos corpos glômicos que são quimiorreceptores não-funcionantes do osso temporal, derivados de células neuroectodérmicas da crista neural.1

Os paragangliomas timpânicos apresentam como sintoma mais freqüente o zumbido pulsátil, seguido de hipoacusia do tipo condutiva, otalgia e plenitude aural.2 Alguns pacientes podem apresentar vertigem e otorragia.3

O objetivo é apresentar dois casos de paraganglioma timpânico com a finalidade de discutir os aspectos diagnósticos e terapêuticos desta doença.

 

RELATO DE CASOS

Caso 1

Paciente RHL, 55 anos, sexo feminino, branca, procurou atendimento com queixa de zumbido pulsátil em orelha esquerda, com duas semanas de evolução. Ao exame físico foi observada lesão vinhosa no quadrante póstero-inferior da membrana timpânica esquerda (Figura 1A). Na tomografia computadorizada (TC) foi observada imagem com densidade de partes moles que ocupava parte da cavidade timpânica, sobreposta ao promontório (Figuras 1B e 1C). A paciente foi submetida a tratamento cirúrgico a partir de acesso retroauricular, que possibilitou identificar adequadamente as margens da lesão e ressecção completa (Figura 1D). O exame anatomopatológico confirmou o diagnóstico clínico de paraganglioma. Foi realizado exame audiométrico no terceiro mês pós-operatório, com limiares auditivos dentro dos padrões de normalidade.

 


 

Caso 2

Paciente EPZ, 61 anos, sexo feminino, branca, procurou atendimento com queixa de prurido e obstrução nasal. Ao exame físico foi observada lesão vinhosa, retrotimpânica, sobre o promontório, na orelha esquerda. Foi solicitada TC de ossos temporais, que evidenciou imagem com densidade de partes moles, restrita ao promontório do lado esquerdo. A paciente foi submetida a tratamento cirúrgico, com a mesma abordagem descrita para a paciente anterior. O exame anatomopatológico confirmou o diagnóstico clínico de paraganglioma. Foi realizado exame audiométrico no terceiro mês pós-operatório, com limiares auditivos dentro dos padrões de normalidade.

 

DISCUSSÃO

O paraganglioma timpânico é a neoplasia benigna mais comum da orelha média2,4, sendo de grande importância a suspeita diagnóstica deste tumor em pacientes com zumbido pulsátil e hipoacusia. Jackson et al.3 avaliaram um grupo de 60 pacientes com paraganglioma timpânico e observaram que os principais sintomas são: zumbido pulsátil (77%), hipoacusia (52%) e otalgia (18%). Aproximadamente 5% dos pacientes com diagnóstico de paraganglioma timpânico são assintomáticos.3 Ao exame físico podemos suspeitar de paraganglioma timpânico quando observamos lesão avermelhada ou vinhosa na região do promontório, e em casos iniciais é possível delimitar o tumor em toda a sua circunferência (Figura 1A). Em lesões maiores, que se estendem para o hipotímpano, devemos utilizar métodos diagnósticos de imagem para diferenciar o paraganglioma timpânico do paraganglioma jugular.1,5

A TC é o método de escolha para a investigação dos paragangliomas timpânicos devido à possibilidade de avaliação dos limites ósseos.1 A demonstração de limite nítido entre o tumor e o bulbo da jugular identifica a lesão como um paraganglioma timpânico (Figuras 1B e 1C). A ressonância magnética pode ser utilizada na avaliação de paragangliomas maiores, onde temos a necessidade de definir as relações do tumor com partes moles do pescoço ou extensão intracraniana.1

A miringotomia para fins de biópsia não está indicada quando há suspeita clínica de paraganglioma timpânico.4 O tratamento pode ser dividido em paliativo ou definitivo. O tratamento paliativo fica reservado para pacientes muito idosos ou sem condições clínicas para o tratamento cirúrgico, podendo ser utilizada a radioterapia ou apenas o acompanhamento clínico, visto que são tumores de crescimento lento e raramente apresentam transformação maligna.3 O tratamento definitivo, e de eleição, é o cirúrgico. A via de abordagem e a extensão da cirurgia estão estritamente relacionadas ao tamanho da lesão. Naqueles casos onde não é possível identificar os limites da lesão é recomendável a abordagem retroauricular com extensão para o recesso do facial e hipotímpano.2-4 Nos casos relatados foi realizada abordagem retroauricular e pequena canalplastia, o suficiente para identificar os limites da lesão (Figura 1D). Após a identificação do mesmo procedeu-se ao descolamento do tumor do promontório e cauterização do pedículo vascular, geralmente um ramo da artéria faríngea ascendente, com eletrocautério bipolar.

 

COMENTÁRIOS FINAIS

O paraganglioma timpânico é a neoplasia benigna mais comum da orelha média e o diagnóstico precoce das lesões iniciais favorece a redução dos índices de morbidade, que é elevada no tratamento de lesões mais extensas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Phelps PD, Stansbie JM. Glomus jugulare or tympanicum? The role of CT and MR imaging with gadolinium DTPA. J Laryngol Otol 1988;102:766-76.         [ Links ]

2. O’Leary MJ, Shelton C, Giddings NA, Kwartler J, Brackmann DE. Glomus tympanicum tumors: clinical perspective. Laryngoscope 1991;101:1038-43.         [ Links ]

3. Jackson CG, Welling DB, Chironis P, Glasscock ME 3rd, Woods CI. Glomus tympanicum tumors: contemporary concepts in conservation surgery. Laryngoscope 1989;99:875-84.         [ Links ]

4. Forest JA 3rd, Jackson CG, McGrew BM. Long-term control of surgically treated glomus tympanicum tumors. Otol Neurotol 2001;22:232-6.        [ Links ]

5. Stewart K, Kountakis SE, Chang CY, Jahrsdoerfer RA. Magnetic resonance angiography in the evaluation of glomus tympanicum tumors. Am J Otolaryngol 1997;18:116-20.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Romualdo Suzano L. Tiago
Rua Pio XII n° 439 ap. 122 Bela Vista
São Paulo SP 01322-030
Tel. (0xx11) 3285-6824
E-mail: romualdotiago@uol.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 19 de julho de 2006. Cod. 3276.
Artigo aceito em 2 de agosto de 2006.

 

 

Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo (HSPM-SP).

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