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Revista Ceres

Print version ISSN 0034-737X

Rev. Ceres vol.60 no.3 Viçosa May/June 2013

https://doi.org/10.1590/S0034-737X2013000300016 

SOLOS E NUTRIÇÃO DE PLANTAS

 

Respostas de culturas à adubação sulfatada e deposição de enxofre atmosférico1

 

Crops response to sulfur fertilization and atmospheric deposition

 

 

Tales TiecherI; Danilo Rheinheimer dos SantosII; Jimmy Walter Rasche AlvarezI; Fábio Joel Kochem MallmannII; Rogério PiccinIII; Gustavo BrunettoII

IEngenheiro-Agrônomo, Mestre. Departamento de Solos, Universidade Federal de Santa Maria, Avenida Roraima, 1000, Bairro Camobi, 97105-900, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil. tales.t@hotmail.com (autor para correspondência); jwrasche@yahoo.com.br
IIEngenheiro-Agrônomo, Doutor. Departamento de Solos, Universidade Federal de Santa Maria, Avenida Roraima, 1000, Bairro Camobi, 97105-900, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil. danilonesaf@gmail.com (Bolsista do CNPq); fabiojkmallmann@gmail.com (Bolsista CAPES); brunetto.gustavo@gmail.com
IIIGraduando em Agronomia. Departamento de Solos, Universidade Federal de Santa Maria, Avenida Roraima, 1000, Bairro Camobi, 97105-900, Santa Maria, Rio Grande do SuI, Brasil. rogeriopiccin@hotmail.com (Bolsista do CNPq)

 

 


RESUMO

Solos com baixo teor de argila e matéria orgânica apresentam baixa disponibilidade de enxofre (S) e, por isso, as culturas podem responder à adubação sulfatada. No entanto, a mobilidade de S no perfil do solo e sua deposição atmosférica pela água da chuva dificultam o estabelecimento do nível de suficiência do nutriente no solo. Este trabalho objetivou avaliar a resposta de culturas à adubação sulfatada e quantificar o S atmosférico depositado no solo pela água da chuva. Os cultivos avaliados (mamoneira, trigo, feijão-de-porco e milheto) foram realizados entre 2006 e 2009, em um Argissolo Vermelho distrófico arênico. As doses de S aplicadas em cada cultivo foram de 0, 5, 10 e 20 kg ha-1, utilizando-se gesso agrícola como fonte de S. Avaliaram-se a produção de matéria seca e o acúmulo de S na parte aérea do milheto e do feijão-de-porco, e a produção e o teor de S nos grãos de mamona e de trigo. Determinou-se o teor de S disponível no solo até 60 cm de profundidade e a deposição de S pelas precipitações. A maior produção de grãos da mamona e de matéria seca do segundo cultivo de feijão-de-porco foi obtida com aplicação de 14,5±0,35 kg ha-1 de S. Mesmo com teores de S abaixo dos níveis de suficiência, não houve respostas do trigo, do milheto e do primeiro cultivo de feijão-de-porco à adubação sulfatada. O aporte de S atmosférico ao solo foi de 4,5 kg ha-1 ano-1 e pode ter contribuído para a ausência de resposta desses cultivos.

Palavras-chave: disponibilidade de enxofre, nível de suficiência de enxofre, biociclagem de enxofre, gesso agrícola.


ABSTRACT

Soils with low levels of clay and organic matter have low sulfur (S) availability. Therefore, crop yields may increase due to S fertilization. However, the mobility of S in the soil profile and its atmospheric deposition by rainwater make it difficult to establish the S sufficiency level in the soil. The objective of this study was to evaluate the response of crops to S fertilization and quantify the S atmospheric deposition in the soil via rainwater. The cultivations evaluated (castor bean, wheat, jack bean and millet) were performed between 2006 and 2009 in a Hapludalf. The S doses applied in each cultivation were 0, 5, 10 and 20 kg ha-1, using gypsum as a S source. The dry matter production and S accumulation were evaluated the in the shoots of millet and jack bean, and production and the S content were evaluated in castor bean and wheat. We also determined the level of available S in the soil to a depth of 60 cm and the S deposition by rainfall. The highest grain yield of castor bean and the highest dry matter yield in the second cultivation of jack bean were obtained with the application of 14.5±0.35 kg ha-1 S. Even with S content below the sufficiency levels, there was no response of wheat, millet and the first crop of jack bean to the S fertilization. The atmospheric input of S to the soil was 4.5 kg ha-1 year-1 and it may have contributed to the no response of these crops.

Key words: sulfur availability, sulfur sufficiency level, sulfur biocycling, gypsum.


 

 

INTRODUÇÃO

No solo, até 98% do enxofre pode ser encontrado na forma orgânica (Brady & Weil, 2002). Por isso, a capacidade do solo de suprir a demanda da planta pelo nutriente está intimamente relacionada com o teor de matéria orgânica do solo e à mineralização do S orgânico para formas inorgânicas, como o sulfato. Na solução do solo, o sulfato é facilmente lixiviado, pois é fracamente retido por meio do mecanismo de adsorção por coordenação (Essington, 2005; Ishiguro & Makino, 2011), sendo que a sua adsorção é maior em solos mais argilosos e ricos em óxidos de ferro e alumínio (Pozza et al., 2009; Jung et al., 2011). Por essa razão, solos com baixos teores de matéria orgânica, de argila e de óxidos, como aqueles com textura arenosa, apresentam, teoricamente, maior probabilidade de resposta das culturas à aplicação de S.

A deficiência de S pode ainda ser potencializada quando plantas exigentes por este nutriente, como as fabáceas, brassicáceas e liliáceas (CQFS-RS/SC, 2004) são cultivadas em sistemas de cultivo com alta produtividade e que utilizam fertilizantes minerais concentrados com baixos teores de S. Entretanto, não existe uma condição específica que determine a resposta das culturas à aplicação de S. Exemplo disso é a cultura do trigo (Triticum aestivum), que, apesar de ser uma espécie teoricamente menos exigente em S, pode aumentar sua produção de grãos com a fertilização sulfatada (Barraco et al., 2009; Salvagiotti et al., 2009; Duggan et al., 2010). Contudo, em alguns trabalhos recentes desenvolvidos no sul do Brasil, foi observada ausência de resposta do trigo à aplicação de S (Rheinheimer et al., 2005; Osório Filho et al., 2007), que pode ser atribuída à rápida lixiviação do sulfato aplicado na semeadura para além da zona de absorção das raízes, e/ou à deposição atmosférica de S, que, no Brasil, varia de 1,12 kg ha-1, em áreas distantes de zonas urbanas (Araujo, 2011), até 99,2 kg ha-1, em regiões metropolitanas (Guedes, 1985).

A mamoneira (Ricinus communis), da família eufor­biácea, é uma cultura emergente no cenário agrícola nacional, que passou a ser amplamente cultivada nos últimos anos para a produção de biodiesel. Por isso, vários trabalhos já foram desenvolvidos para avaliar a resposta da mamoneira à adubação com macro e micronutrientes (Severino et al., 2005; Severino et al., 2006; Lavres Junior et al., 2012; Silva et al., 2012), mas poucos deles têm dado importância à adubação sulfatada para essa cultura. De acordo com Lavres Júnior et al. (2005), em experimento realizado em casa de vegetação, a mamoneira pode ser uma cultura exigente em S, pois o nutriente foi o terceiro elemento que mais restringiu a produção de matéria seca da cultura. Somado a isso, informações sobre a exigência de S de outras espécies amplamente difundidas na agricultura brasileira, como as plantas de cobertura de solo, dentre elas o feijão-de-porco (Canavalia ensiformis) e o milheto (Pennisetum americanum), também são escassas.

Os objetivos deste trabalho foram: (i) avaliar a resposta da mamoneira, do trigo, do feijão-de-porco e do milheto à adubação sulfatada e sua relação com o teor de S disponível no solo; (ii) contabilizar a quantidade de S atmosférico depositado no solo pela água da chuva.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado entre novembro de 2006 e março de 2009, em Santa Maria (RS), em um Argissolo Vermelho distrófico arênico (EMBRAPA, 2006), intensivamente cultivado sob sistema de preparo convencional nas décadas de 60 e 70. Entre meados da década de 70 até 1994, o solo não foi cultivado, havendo crescimento de plantas espontâneas. Em 1994, aplicaram-se 6,4 t ha-1 de calcário dolomítico (PRNT 100%) para elevar o pH do solo, em água, até 6,0, e 140 kg ha-1 de P2O5, a lanço, na forma de superfosfato triplo, para elevar a disponibilidade de fósforo acima do nível de suficiência (CQFS-RS/SC, 2004), com posterior incorporação com uma aração e duas gradagens. Após estas operações, foi adotado o sistema plantio direto na área. O clima da região é Cfa (subtropical úmido), segundo classificação de Köppen, com precipitação e temperatura média anual de 1.769 mm e 19,2 oC, respectivamente.

Antes da instalação do experimento, o solo da camada de 0-10 cm apresentava: 140 g kg-1 de argila; 12,8 g kg-1 de matéria orgânica; pH em água de 5,2; Índice SMP 6,0; 3,4, 0,8 e 0,2 cmolc kg-1 de cálcio, magnésio e alumínio trocáveis, respectivamente; 4,5 mg kg-1 de sulfato disponível (extrator Ca(H2PO4)2.H2O, 0,008 mol L-1 de P); 20,0 e 44,0 mg dm-3 de fósforo disponível e potássio trocável (extrator Mehlich 1), respectivamente. Antes da instalação do experimento, foi reaplicada 1,6 t ha-1 de calcário dolomítico (PRNT 100%) para elevar o pH em água até 5,5, seguindo-se uma escarificação a 30 cm de profundidade. O delineamento experimental utilizado foi o de blocos ao acaso, com quatro repetições, cada unidade experimental medindo 9,5 x 11,0 m.

As doses de S aplicadas em cada cultivo foram de 0, 5, 10 e 20 kg ha-1, a lanço e utilizando-se gesso agrícola (CaSO4.2H2O). A sequência de espécies cultivadas na área experimental foi: mamoneira (Ricinus communis L.), cultivar AL-Guarany, em consórcio com feijão-de-porco (Canavalia ensiformis), em 2006/07 e 2007/2008, trigo (Triticum aestivum L.) cultivar BRS Tarumã, em 2007, e milheto (Pennisetum americanum), na safra 2008/09. Nos cultivos de mamoneira, as doses de S foram aplicadas concomitantemente com a semeadura; no cultivo de trigo as doses de S foram aplicadas no início da floração (80 DAE); no cultivo do milheto, a aplicação das doses de S foi realizada 20 DAE da cultura.

Nos cultivos de mamoneira, foram aplicados 15 kg ha-1 de N na semeadura e 45 kg ha-1 em cobertura, 45 dias após a emergência (DAE), conforme recomendação de Severino et al. (2005). Na semeadura dos cultivos da mamoneira, foram aplicados também 40 kg ha-1 de K2O, seguindo a recomendação de Moterle et al. (2007). No cultivo do trigo, foram aplicados 15 kg ha-1 de N e 20 kg ha-1 de K2O na semeadura e 45 kg ha-1 de N em cobertura divididos entre os estádios de alongamento e afilha­mento, conforme recomendação da CQFS-RS/SC (2004). Na cultura do milheto, foram aplicados 40 kg ha-1 de N no alongamento e 40 kg ha-1 de N no afilhamento. A adubação fosfatada não foi realizada em nenhum dos cultivos, pois o teor de P no solo era Muito Alto (97,5 mg kg-1), segundo a CQFS-RS/SC (2004). Em todos os cultivos foi utilizada ureia como fonte de N e cloreto de potássio como fonte de K.

Os cultivos de mamoneira foram realizados num espaçamento de 1,40 x 0,80m. Aos 52 DAE da mamoneira, no primeiro cultivo, e aos sete DAE, no segundo cultivo, foi semeado o feijão-de-porco, na entrelinha da mamoneira, em linhas duplas distantes 0,40 m entre si, com espaça­mento de 0,40 m na linha, e distantes 0,50 m das linhas de mamoneira. A parte aérea do feijão-de-porco foi coletada aos 75 e 50 DAE da cultura, no primeiro e segundo cultivos, respectivamente, numa área útil de 11,76 m2 (duas fileiras de 8,4 m em cada parcela). Após a coleta da parte aérea, o restante do feijão-de-porco foi roçado e os resíduos permaneceram na superfície do solo. Em ambos os cultivos, a colheita da mamoneira iniciou-se aos 150 DAE, com colheitas semanais até o fim do ciclo da cultura, numa área útil de 50 m2. A colheita do trigo foi realizada em uma área útil de 12 m2. A parte aérea do milheto foi coletada aos 53 DAE, em uma área útil de 6 m2.

As partes aéreas dos cultivos de feijão-de-porco e de milheto foram secadas em estufa com circulação forçada de ar a ±65 °C até massas constantes e, em seguida, a matéria seca de cada espécie foi quantificada. As produções de grãos de mamona e de trigo foram corrigidas para 13% de umidade e, após secagem, os grãos foram moídos. Amostras moídas do material seco de tecido das partes aéreas e de grãos foram submetidas à digestão completa com ácido nítrico e ácido perclórico (Tabatabai & Bremnem, 1970), com posterior determinação do S total por turbidimetria (Tedesco et al., 1995). Nos cultivos de feijão-de-porco, também foi determinado o teor de N total na matéria seca da parte aérea, seguindo procedimento proposto por Tedesco et al. (1995). Além disso, no cultivo de trigo foi determinada a massa hectolítrica de grãos.

Amostras estratificadas de solo foram coletadas nas camadas de 0-10, 10-20, 20-30, 30-40, 40-50 e 50-60 cm na floração do trigo (03/10/2007, correspondendo a 40 dias após a aplicação de S) e, após o segundo cultivo de mamoneira (16/07/2008, correspondendo a 240 dias após a aplicação de S), em uma trincheira de 0,3 x 0,3 x 0,6 m aberta em cada parcela. O solo das amostras foi secado em estufa com circulação forçada de ar a ±65 oC, moído, passado em peneira com malha de 2 mm e, em seguida, foi submetido à extração de S disponível pelo extrator de Ca(H2PO4)2 (0,008 mol L-1 de P) (Tabatabai & Bremnem, 1970). A concentração de S foi determinada por turbidimetria (Tedesco et al., 1995).

As amostras de água das precipitações e das irrigações foram coletadas entre setembro de 2007 e abril de 2009, utilizando-se pluviômetros do tipo Ville de Paris instalados no interior do experimento. As amostras de água das chuvas e da irrigação foram filtradas em membrana de celulose 0,22 m e submetidas à determinação do teor de SO4-2 por análise de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC). Os valores de precipitação foram obtidos na Estação Climatológica da Universidade Federal de Santa Maria.

Os dados de produção de matéria seca e de grãos, do teor total de S nos tecidos e nos grãos e da quantidade de S acumulado na parte aérea das plantas e exportada pelos grãos, foram submetidos à análise de variância, utilizando-se o modelo estatístico de blocos ao acaso. Quando significativas, as médias foram ajustadas por regressões polinomiais de até segundo grau, em função das doses de S aplicadas. Já os dados de sulfato extraído do solo foram analisados segundo um esquema bifatorial (doses de sulfato e camadas de solo), considerando-se a não aleatoriedade das camadas de solo, utilizando-se o seguinte modelo estatístico:

Yijk= µ + Bi+ Dj+ erro a(i, j) + Ck+ erro b(i, k) + DCjk+ erro c(i, j, k),

em que µ = média geral do experimento; B = blocos (i = 1, 2, 3, 4); D = dose de S aplicada (j = 1, 2, 3, 4); C = camada de solo (k = 1, 2, 3, 4, 5, 6) e erro = erro experimental.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A aplicação das doses de S na forma de gesso agrícola não alterou o teor de S, em nenhuma das camadas de solo amostradas nas duas avaliações (Tabela 1). Nas duas cole­tas de solo, os teores de S na camada 0-10 cm foram menores que o nível de suficiência para as culturas menos exigentes, como as gramíneas (5,0 mg dm-3), e para as culturas mais exigentes, como as leguminosas (10 mg dm-3) (CQFS-RS/SC, 2004), sendo que a média de todos os tratamentos foi de 4,0 mg dm-3, na primeira coleta, e de 4,7 mg dm-3, na segunda. Isso demonstra que, mesmo amostrando o solo 40 dias após a aplicação de S, com uma precipitação total de 243,4 mm durante esse período (24/08/2007 a 03/10/2007), o extrator Ca(H2PO4)2 não foi sensível para detectar as flutuações nos teores de S do solo, decorrentes da aplicação de fertilizante sulfatado, corroborando com os resultados obtidos por Osório Filho et al. (2009).

 

 

O teor total e a exportação de S nos grãos da mamona apresentaram aumento quadrático com a aplicação das doses de S nos dois anos de avaliação (Tabela 2). O maior teor de S nos grãos de mamona foi obtido com a aplicação de 18,2 e 17,0 kg ha-1 de S no primeiro e segundo cultivos, respectivamente. Já a maior quantidade de S exportado nos grãos de mamona foi obtida com a aplicação de 15,5 e 17,0 kg ha-1 de S no primeiro e segundo cultivos, respectivamente. A produção da mamona não foi afetada a 5% de significância, mas a 10% de significância foi verificado aumento quadrático da produção de grãos com a adubação sulfatada nos dois cultivos. Esse nível de significância mais elevado para avaliar a produção da cultura pode ser justificado pelo fato de que os cultivares de mamoneira, como a AL-Guarany, possuem ainda grande variabilidade genética, o que pode mascarar o efeito dos tratamentos. Considerando-se a significância de 10%, a maior produção de grãos de mamona foi obtida com a aplicação de 14,1 e 14,8 kg ha-1 de S no primeiro e no segundo cultivos, respectivamente. Com base nesses resultados, evidencia-se que esta cultura é uma espécie exigente em S, assim como demonstrado por Lavres Junior et al. (2005), que, em estudo de casa de vegetação, verificaram a redução de até 41% na produção de matéria seca, quando submetida à condição de deficiência de S.

A produção de matéria seca da parte aérea do feijão-de-porco, em consórcio com a mamoneira, apresentou aumento quadrático com aumento da dose de S aplicada apenas no segundo cultivo (Tabela 2), mesmo com os teores de S disponível abaixo do nível crítico para as leguminosas (10 mg dm-3, segundo a CQFS-RS/SC, 2004). Nesse cultivo, a maior produção de matéria seca da parte aérea foi obtida com a aplicação de 14,6 kg ha-1 de S. Isto pode ter ocorrido por causa de sua implantação logo após a aplicação das doses de S (7 dias), diferentemente do primeiro cultivo dessa cultura, que foi semeada 53 dias após a aplicação de S. O teor total de S nos tecidos da parte aérea aumentou com a dose, em ambos os cultivos, mas houve incremento no teor de S acumulado apenas no segundo cultivo. No segundo cultivo, o aumento quadrá­tico do teor de S na parte aérea em função da dose de S aplicada resultou na diminuição da relação N:S no tecido vegetal. Sob deficiência de S, ocorre acúmulo de N não proteico no tecido das plantas, principalmente nas formas de N-NO3- e N orgânico solúvel, causando aumento da relação N:S, o que pode causar diminuição do crescimento vegetal (Fageria, 2001; Crusciol et al., 2006). Isso pode ser uma das possíveis explicações para a menor produção de matéria seca do feijão-de-porco no tratamento testemunha, no segundo cultivo. O teor e acúmulo de N na parte aérea do feijão-de-porco não foram afetados pela aplicação de S. A quantidade de N acumulada foi, em média, de 129 e 59 kg ha-1 no primeiro e segundo cultivos, respectivamente.

A produção de grãos, o teor total de S e o acúmulo de S nos grãos de trigo não foram afetados pela aplicação das doses desse nutriente (Tabela 2). A produtividade média foi de 2,36 t ha-1, com teor médio de S nos grãos de 0,99 g kg-1, exportando-se somente 2,36 kg de S ha-1. A produção de trigo obtida situou-se acima da faixa média para a região de Santa Maria (1,77 t ha-1) e acima da faixa média colhida no Rio Grande do Sul (1,81 t ha-1), entre os anos de 2001 e 2004 (Reunião da Comissão Sul-Brasileira de Pesquisa de Trigo, 2005). A massa hectolítrica (MH) dos grãos de trigo também não foi alterada pela adubação sulfatada, sendo que a média obtida foi de 79 kg 100 L-1. Da mesma forma, Rheinheimer et al. (2005) e Osório Filho et al. (2007) não encontraram respostas do trigo à aplicação de doses crescentes de S na semeadura da cultura, sendo que uma das possíveis causas da ausência de respostas do trigo nesses trabalhos pode ter sido a rápida lixiviação do S no perfil do solo (Nogueira & Melo, 2003; Osório Filho et al., 2009) para profundidades abaixo da zona de absorção radicular, antes que a cultura tivesse se estabelecido plenamente. Porém, convém relatar que mesmo fornecendo o S no momento de maior necessidade da cultura (no início da floração do trigo), como foi o caso deste trabalho, não foi observado incremento na produção. Dessa forma, mesmo com teores de S no solo abaixo do nível de suficiência para o trigo (5 mg dm-3, segundo a CQFS-RS/SC, 2004), pode-se inferir que a quantidade de S nativo no solo e/ou depositado pela água das chuvas foi suficiente para suprir as necessidades da cultura do trigo para o seu bom crescimento e desenvolvimento.

A produção de matéria seca da parte aérea do milheto não foi afetada pela aplicação das doses de S, apresentando produção média de 7,23 t ha-1 (Tabela 2), mesmo com teores de S disponível abaixo do nível crítico estabelecido pela CQFS-RS/SC (2004) (5 mg dm-3 para as gramíneas). Já os teores e o acúmulo de S na parte aérea aumentaram linearmente com as doses de S aplicadas, sendo que no tratamento com a maior dose esses valores equivaleram, respectivamente, a 3,7 e 3,5 vezes os valores encontrados no tratamento testemunha. Considerando-se o acúmulo de S na parte aérea do milheto da testemunha como a quantidade de S nativo do solo e/ou depositado pela atmosfera que a planta pode absorver (5,3 kg ha-1), e subtraindo-se esse valor da quantidade de S acumulado nos demais tratamentos, as quantidades de S resultantes (3,6; 6,8 e 13,4 kg de S ha-1) representam 72, 68 e 67% do S adicionado pelo sulfato de cálcio nos tratamentos com 5, 10 e 20 kg ha-1 de S, respectivamente. Isso evidencia o importante papel reciclador de S dessa cultura, pois o que estava acumulado na matéria seca do milheto passou a compor as formas potencialmente disponíveis no solo para os cultivos seguintes. Dessa forma, sistemas de produção agrícola com rotação de culturas que utilizam plantas de cobertura com crescimento radicular agressivo, como o feijão-de-porco e o milheto, maximizam a biociclagem do S, diminuindo suas perdas no sistema solo-planta-atmosfera.

Pelos resultados das análises de regressão mostrados na Tabela 2, a maior produção de grãos da mamona nos dois cultivos, e a maior produção de matéria seca do segundo cultivo de feijão-de-porco foram obtidas com aplicação de 14,5±0,35 kg ha-1 de S. Apesar disso, a resposta em produção desses cultivos foi mais relacionada com a aplicação de S do que com as doses aplicadas. A aplicação de apenas 5 kg ha-1 de S foi suficiente para elevar a produção desses cultivos a valores semelhantes aos obtidos com as maiores doses de S aplicadas (10 e 20 kg ha-1 de S - Tabela 2), sendo que a aplicação de doses maiores não implicou aumento da produção, mas sim "consumo de luxo" de S (Marschner, 1995), pois as plantas absorveram quantidades do nutriente maiores que suas necessidades e as acumularam em seus tecidos.

O monitoramento da entrada de S atmosférico, no período de setembro de 2007 a abril de 2009, demonstrou que existe ampla variação na concentração de SO4-2 na água das chuvas, ao longo do tempo (Figura 1). A maior concentração de SO4-2 ocorreu nas precipitações do mês de março de 2008 (1,67 mg L-1) e, a menor, nas precipitações do mês de dezembro de 2008 (0,34 mg L-1), sendo que a concentração média de todo o período avaliado foi de 0,98 mg L-1. A chuva pode ser considerada um "sistema de limpeza" da atmosfera (Osório Filho et al., 2007). Em locais com baixa influência da contribuição de S atmosférico oriundo do aerosol marinho e da atividade vulcânica, como a região central do Rio Grande do Sul, a concentração de SO4-2 na água da chuva é influenciada, principalmente, pela quantidade de poluentes atmosféricos, que, por sua vez, varia conforme a movimentação das massas de ar, resultando, assim, em grande oscilação nos teores de SO4-2 na água das chuvas, ao longo do ano. A média mensal de S depositado no solo pela água da chuva foi de 0,37 kg ha-1 mês-1, que equivale a 4,5 kg de S ha-1 ano-1. De acordo com os teores médios de S encontrados nos grãos de trigo (0,99 g kg-1) e de mamona (1,32 g kg-1), o aporte de S atmosférico pela água das chuvas seria suficiente para a produção de 4.455 kg de grãos de trigo ou de 3.409 kg de grãos de mamona. Isso equivale a 1,9 vezes a produção média do trigo, ou a 2,2 ou 3,8 vezes a produção média do primeiro e segundo cultivos da mamoneira deste trabalho, respectivamente. Dessa forma, a deposição atmosférica de S é suficiente para repor ao solo a quantidade do nutriente exportada pelo trigo ou pela mamoneira por mais de uma safra.

 

CONCLUSÕES

A maior produção de grãos da mamona e de matéria seca do segundo cultivo de feijão-de-porco foi obtida com aplicação de 14,5±0,35 kg ha-1 de S no solo, mas a resposta em produção desses cultivos foi mais relacionada com a aplicação de S do que com as doses aplicadas.

O incremento nas doses de S adicionado ao solo proporciona aumentos lineares ou quadráticos no teor e na quantidade acumulada de S na parte aérea do feijão-de-porco e milheto, assim como no acúmulo desse nutriente nos grãos de mamona.

Mesmo com teores de enxofre disponível no solo abaixo dos níveis de suficiência propostos pela Comissão de Química e Fertilidade do Solo dos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, não houve respostas do trigo, do milheto e do primeiro cultivo de feijão-de-porco à adubação sulfatada.

A quantidade de enxofre atmosférico depositada no solo pela água da chuva foi de 4,5 kg ha-1 ano-1 e pode ter contribuído para a ausência de respostas de alguns cultivos à adubação sulfatada.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação em 18/07/2012
Aprovado em 08/03/2013

 

 

1 Pesquisa financiada pelo CNPq.

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