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Revista Ceres

Print version ISSN 0034-737XOn-line version ISSN 2177-3491

Rev. Ceres vol.65 no.2 Viçosa Mar./Apr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0034-737x201865020008 

Produção e Reprodução Vegetal

Efeito do Glifosato no cultivo in vitro de Cattleya nobilior Rchb. F1

Effect of Glyphosate in vitro culture of Cattleya nobilior Rchb. F

Douglas Junior Bertoncelli2  * 

Guilherme Augusto Cito Alves2 

Felipe Favoretto Furlan2 

Gustavo Henrique Freiria2 

Jose Henrique Bizarri Bazzo2 

Ricardo Tadeu de Faria2 

2 Universidade Estadual de Londrina, Departamento de Agronomia, Londrina, Paraná, Brasil. dj_bertoncelli@hotmail.com; guilhermecito@hotmail.com; ffavorettofurlan@gmail.com; gustavo-freiria@hotmail.com; agrobazzo@gmail.com; faria@uel.edu.br


RESUMO

Dentre as técnicas utilizadas pela biotecnologia para multiplicação de mudas de orquídea, o cultivo in vitro destaca-se pelo elevado potencial de produção de novas plântulas. A presença de algumas substâncias químicas utilizadas no meio de cultura, dependendo da concentração, pode favorecer ou não o crescimento e o desenvolvimento da planta. Diante do exposto, objetivou-se, com este trabalho, avaliar o efeito do glifosato no cultivo in vitro da orquídea Cattleya nobilior Rchb. F. O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado, com seis tratamentos e dez repetições. Os tratamentos foram constituídos de seis concentrações de glifosato (0,0; 8,5; 17,0; 25,5; 34,0 e 42,5 mg L-1 e.a.), acrescidas ao meio de cultura MS modificado, com metade das concentrações de macronutrientes. As plântulas submetidas às diferentes concentrações de glifosato foram obtidas de sementes germinadas in vitro. As avaliações de comprimento e de biomassas secas de parte aérea e de raízes, de número de folhas, de comprimento da folha, de largura da folha, do número de brotos dos teores de clorofilas a, b e de carotenoides foram realizadas 200 dias após o transplantio das plântulas. Dentre os componentes fitométricos analisados, apenas o comprimento, a biomassa seca de raízes e o teor de carotenoides diminuíram com o incremento das doses do herbicida glifosato. Baixas concentrações de glifosato adicionadas ao meio de cultura resultam em efeito hormese, com aumento do crescimento da parte aérea de Cattleya nobilior Rchb. F.

Palavras-chave: hormese; micropropagação; Orchidaceae

ABSTRACT

Among the techniques used by biotechnology for multiplication of orchid seedlings, the in vitro cultivation stands out due to the high production potential of new seedlings. The presence of some chemical substances used in the culture medium, depending on the concentration, may or may not favor the growth and development of the plant. Therefore, the objective of this work was to evaluate the effect of glyphosate on the in vitro cultivation of the orchid Cattleya nobilior Rchb. F. The experimental design was completely randomized, with six treatments and ten replications. The treatments consisted of six concentrations of glyphosate (0.0, 8.5, 17.0, 25.5, 34.0, and 42.5 mg L-1 a.i.), added to the modified MS culture medium with half the concentrations of macronutrients. Seedlings subjected to different glyphosate concentrations were obtained from seeds germinated in vitro. The length and dry biomass measurements of the shoot and root, number of leaves, leaf length, leaf width, number of shoots, chlorophyll a, b, and carotenoid contents were performed 200 days after transplanting of the seedlings. Among the phytometric components analyzed, only the length and dry biomass of root and the carotenoid content decreased with increasing doses of the glyphosate herbicide. Low concentrations of glyphosate added to the culture medium result in hormese effect, with increased growth of Cattleya nobilior Rchb. F. shoot.

Keywords: hormone; micropropagation; Orchidaceae

INTRODUÇÃO

A família Orchidaceae, uma das maiores famílias do reino vegetal, representa o grupo de plantas mais evoluído da ordem Liliiflorae, com aproximadamente 30.000 espécies (Cronquist 1981). O gênero Cattleya engloba cerca de 70 espécies e inúmeros híbridos naturais, além de milhares de híbridos artificiais por todo o planeta (Takane et al., 2010).

As Cattleyas são encontradas exclusivamente nas Américas Central e do Sul, são consideradas as "rainhas das orquídeas", por suas flores vistosas, grandes e coloridas, além de apresentarem elevada adaptação a diferentes ambientes (Benzing et al. 1982). São cultivadas como plantas ornamentais, pela beleza de suas flores, no mundo inteiro, apresentando extensa importância econômica (Sorace et al., 2009). Dentre as várias espécies, a Cattleya nobilior Rchb. F., nativa do Brasil Central, apresenta flores de até 15 cm de diâmetro e cores que variam de branco a roxo-rosado (Watanabe, 2002).

A produção de mudas de orquídeas pode ser realizada por meio de divisão de touceira de plantas adultas, estaquia e sementes. Essas técnicas, entretanto, são consideradas lentas e onerosas, por causa da baixa velocidade de crescimento, do desenvolvimento vegetativo das plantas e da reduzida percentagem de germinação das sementes, o que inviabiliza a multiplicação em larga escala de mudas para a comercialização (Faria et al., 2006).

Uma técnica muito utilizada para contornar esse problema é o cultivo in vitro, que torna o processo de multiplicação de orquídeas viável (Stancato & Faria, 1996). Essa estratégia vem sendo utilizada no Brasil, pelos produtores de orquídeas, há mais de 30 anos, o que resultou no aumento da produção de mudas, com elevada qualidade genética e menor custo (Faria et al., 2006).

Dentre os fatores que favorecem a morfogênese in vitro, destacam-se os reguladores de crescimento e outras substâncias químicas que induzem à citocinese, causando alterações na taxa metabólica, na atividade enzimática, na indução e na formação de órgãos, na quebra de dominância apical, na mobilização de nutrientes orgânicos e inorgânicos e no aumento da longevidade de tecidos e órgãos (Oliveira et al., 2007). Normalmente, essas substâncias que induzem a embriogênese são utilizadas em baixas concentrações, pois podem apresentar toxicidade quando em excesso.

Segundo Calabrese & Baldwin (2001), quando um elemento considerado tóxico sobre uma determinada característica biológica apresenta efeito estimulatório, em baixas concentrações, porém com efeito inibitório em altas doses, isso é conhecido como efeito hormese. Os mesmos autores relatam que esse conceito foi, originalmente, definido por apresentar um comportamento bifásico, pelo qual uma característica biológica é estimulada por subdoses ou baixas doses de um composto e inibida por altas doses dele.

Dentro dessa linha de estudo, têm sido realizadas muitas pesquisas com herbicidas, vários dos quais foram desenvolvidos inicialmente como reguladores de crescimento, comprovando a hipótese do efeito hormese. Como exemplos, tem-se o 2,4-D, originalmente desenvolvido como auxina e que, em doses elevadas, apresenta efeito herbicida (Mousdale & Coggins 1991), e o glifosato, cujo antecessor, o glyphosine, ainda é utilizado como regulador de crescimento, em vários países (Halter, 2009).

Estudo realizado por Godoy (2007) revela que o uso de glifosato em pequenas doses pode estimular os ganhos de massa seca; de tirosina e de carotenoides e aumentam a absorção de fósforo em plantas de soja. Trabalhos realizados com diversas culturas evidenciam o efeito hormese do glifosato, como o crescimento das partes aérea e radicular de Commelina benghalensis (Meschede et al., 2007), aumento de matéria verde em milho (Wagner et al., 2003), crescimento inicial em cana-de-açúcar (Silva et al., 2009) e teor de fósforo em folhas de eucalipto (Carbonari et al., 2007).

Por essas razões, objetivou-se, com este trabalho, avaliar o efeito do glifosato no cultivo in vitro da orquídea brasileira Cattleya nobilior Rchb. F.

MATERIAL DE MÉTODOS

As plântulas de Cattleya nobilior Rchb. F. foram obtidas de sementes germinadas, in vitro, em meio de cultura MS (Murashige & Skoog, 1962) modificado, com a metade da concentração de macronutrientes. As sementes utilizadas foram colhidas de cápsulas maduras, provenientes da autopolinização de plantas cultivadas em estufa, localizada a 23º19’42’’ S, 51º12’11” O, em altitude de 594 m.

Após sessenta dias da realização da semeadura, as plântulas em estádio de protocormo foram subcultivadas em meio de cultura MS modificado, com a metade da concentração dos macronutrientes, acrescido de 30 g L-1 de sacarose e 7,5 g L-1 de ágar, com pH ajustado para 5,8 (± 0,2), antes da adição do ágar. Posteriormente, o meio de cultura foi autoclavado em temperatura de 120 ºC e pressão de 1,05 Kg cm-2, durante 20 minutos. Após autoclavagem o meio foi vertido, sob câmara de fluxo laminar, em frascos de vidro de 250 mL, esterilizados, com cada frasco recebendo 50 mL do meio de cultura.

O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado, composto por seis tratamentos e dez repetições. Os tratamentos constaram de seis concentrações de glifosato - glifosato atanor 48® (0,0; 8,5; 17,0; 25,5; 34,0 e 42,5 mg L-1 e.a.) acrescidas ao meio de cultura MS modificado com metade da concentração dos macronutrientes, sendo que essas concentrações foram baseadas em uma redução de cem vezes a dose comercial. Cada repetição foi formada por um frasco com cinco plântulas. O herbicida adicionado ao meio de cultura foi esterilizado por meio de filtragem em membrana millipor (0,45 µm). Após o transplantio das plântulas no meio de cultura, os frascos foram mantidos em sala de crescimento, à temperatura de 25 ºC (± 2 ºC), sob fotoperíodo de 16 horas de luz e intensidade luminosa de 25 µmol m-2 s-1.

Aos 200 dias após o transplantio das plântulas, foram avaliadas as seguintes caraterísticas fitométricas: comprimento de parte aérea (cm): determinado pela distância do colo da planta até a extremidade superior da maior folha; comprimento de raiz (cm): determinada pela distância do colo da planta até a extremidade da maior raiz; número de folhas: determinado pela contagem de folhas por planta; número de brotos: determinado pela contagem do número de brotos por planta; comprimento da folha (cm): determinado a partir da maior folha, sendo considerada a distância da inserção da folha até a sua extremidade; largura da folha (cm): determinada na maior folha com paquímetro digital; biomassa seca de parte aérea (g): determinada por meio da secagem em estufa com ventilação forçada a 60 °C; biomassa seca de raízes (g): determinada por secagem em estufa com ventilação forçada, a 60 °C.

Os teores de clorofila a, b e carotenoides foram determinados seguindo metodologia descrita por Meschede et al. (2011), em que amostras de 0,2 g de tecido foliar fresco foram colocadas em tubos com tampa, contendo 10 mL de acetona 100% (v/v). Os extratos foram filtrados, sendo as leituras realizadas em espectrofotômetro, nos comprimentos de onda de 663, 645 e 434 nm para clorofilas a, b e para carotenoides respectivamente. As determinações dos níveis de clorofila (mg gmf-1) basearam-se nas equações descritas por Whitham et al. (1971): clorofila a = (11,24 x A663 - 2,04 x A645), clorofila b = (20,13 x A645 - 4,19 x A663) e carotenoides = (1000 x A434 - 1,90 Clorofila a - 63.14 Clorofila b)/214, em que A é a absorbância no comprimento de onda indicado.

Os dados foram submetidos aos pressupostos paramétricos de normalidade e homocedasticidade de resíduos, pelos testes de Shapiro-Wilk e Hartley (R Core Team, 2012), respectivamente e, posteriormente, à análise de variância. Apresentando significância, os dados foram submetidos à análise de regressão, a 5% de probabilidade de erro utilizando-se o software R (R Core Team, 2012). Também foi estimada a correlação de Pearson entre as características avaliadas, e feita a análise de componentes principais.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados de comprimento de parte aérea ajustaram-se a uma equação quadrática, com ponto de máxima em 10,71 mg L-1 e.a. de glifosato (Figura 1 A). Carbonari et al. (2007), estudando os efeitos da aplicação de glifosato no crescimento inicial de mudas de eucalipto, verificaram que baixas concentrações do herbicida (18 mg a 36 mg L-1 do i.a.) influenciaram positivamente o crescimento das plantas, com aumento da área foliar e da biomassa fresca.

Figura 1: Comprimento de parte aérea (A), comprimento de raiz (B), massa seca de parte aérea (C), massa seca de raízes (D), número de folhas (E), comprimento de folhas (F), largura de folhas (G) e número de brotos (H) de plântulas de Cattleya nobilior Rchb. F. submetidas à adição de glifosato em meio de cultura ½ MS semissólido, 200 dias após o transplantio. 

Estudando o efeito de baixas concentrações de glifosato nos cultivares de soja BRS 232 (susceptível ao glifosato) e BRS 243 (resistente ao glifosato), Godoy (2007) verificou que as concentrações de 18 a 180 g L-1 do i.a. do glifosato estimularam o crescimento das plantas. Silva et al., (2009) obtiveram resultados positivos com a utilização da concentração de 9 mg L-1 do i.a. do glifosato sobre as características de crescimento e de desenvolvimento inicial de cana-de-açúcar variedade SP80-1842.

O glifosato atua no metabolismo das plantas por meio da inibição da via do ácido chiquímico, rota responsável pela produção dos precursores da lignina (Schmidt, 1997). A menor síntese de lignina resulta em paredes celulares mais elásticas, o que resulta em maior crescimento longitudinal (Duke et al., 2006). Essa hipótese é confirmada, pela ausência de estímulo de crescimento, em qualquer concentração do herbicida aplicada sobre a soja resistente ao glyphosate, a qual é insensível à enzima 5-enolpiruvilshiquimato-3-fosfato sintase (EPSPs), não afetando assim a rota do ácido chiquímico (Cedergreen & Olesen, 2010).

Com relação aos dados de comprimento de raiz, observou-se que essa variável apresentou redução linear com o incremento da concentração de glifosato em meio de cultura (Figura 1 B). Isso pode estar relacionado com uma possível redução da produção e da translocação de auxina para as raízes, além de menor teor de giberelinas, causado pelo glifosato.

Sabe-se que a biossíntese de ácido indolacético (AIA) é inibida pela ação do glifosato, pois essa molécula interrompe a produção de corismato e de triptofano, importantes precursores desse fitormônio (Taiz & Zeiger, 2013). O glifosato afeta ainda o AIA, por meio do aumento da oxidação desse hormônio, processo decorrente do bloqueio da formação de compostos fenólicos, os quais são inibidores da enzima AIA-oxidase, o que resulta em menor nível de AIA livre nos tecidos (Yamada & Castro, 2007), além de restringir o transporte basípeto da auxina (Baur, 1979).

O decréscimo da quantidade de auxina na planta influencia negativamente a concentração de ácido giberélico nos tecidos vegetais, já que a auxina está envolvida na biossíntese da giberelina (Ross & O’Neil, 2001). Este fato, provavelmente, também pode ter interferido na redução do comprimento de raiz.

Porém, a redução do crescimento de raiz pelo uso do glifosato pode não causar efeito negativo sobre a aclimatização das mudas, pois, segundo Mayer et al. (2008), raízes de plantas cultivadas in vitro são fracas e pouco funcionais, uma vez que seu diâmetro e seu sistema vascular são reduzidos, sendo que, no momento em que essas plantas são aclimatizadas, novas raízes são formadas e as formadas no cultivo in vitro cessam o crescimento, sendo pouco eficientes. Pierik (1990), estudando o cultivo in vitro de plantas superiores, também observou que as raízes provenientes do cultivo in vitro são fracas e pouco funcionais. Mayer et al. (2008), estudando a anatomia de raízes da orquídea Cymbidium Hort., cultivadas in vitro e ex vitro, concluíram que as estruturas das plantas in vitro não influenciam a sobrevivência durante a aclimatização.

Os dados de massa seca de parte aérea adequaram-se a uma função quadrática, com ponto de máxima em 17,00 mg L-1 e.a. de glifosato (Figura 1C). Esse resultado indica o efeito hormese do glifosato, em baixas concentrações, no desenvolvimento inicial de C. nobilior. O maior desenvolvimento da parte aérea pode estar relacionado com o fato de que baixas doses de glifosato possivelmente aumentam a condutância estomática (Carvalho & Alves, 2011), o que favorece a fixação de carbono (Cedergreen & Olesen, 2010) e o consequente aumento de massa.

Os dados de incremento de massa seca de parte aérea podem também estar vinculados ao fato de o glifosato, quando utilizado em baixas concentrações, promover a paralisação parcial da enzima 5-enolpiruvoil-shikimato-3-fosfato sintetase (EPSPS), levando a planta a um acúmulo de chiquimato e de ácido quínico nos vacúolos, o que resulta em perda do controle de retroalimentação do fluxo de carbono na rota do chiquimato, sendo essa rota responsável por aproximadamente 35 e 20% da matéria seca da planta e do carbono fixado pela fotossíntese (Kruse et al., 2000), respectivamente.

Yoshida (1969) afirma haver relação linear positiva entre o crescimento vegetal e o teor de ácido quínico em plantas, pois, em seu estudo, foi verificado o estiolamento em mudas de feijão e de trigo, e indução de brotação de coníferas, quando a concentração desse ácido foi máxima, o que permite concluir que o ácido quínico e o ácido chiquímico são ativamente metabolizados durante o crescimento das plantas.

Velini et al. (2008) observaram que a aplicação de baixas concentrações de glifosato bloqueou parcialmente a produção da enzima EPSPS, o que estimulou o crescimento de eucalipto, pinus, milho e soja convencional. Meschede et al. (2011) também relatam que a aplicação de baixas concentrações de glifosato em eucalipto reduziu a atividade da enzima EPSPS, o que elevou a concentração de ácido chiquímico, implicando maior taxa de crescimento de plantas jovens.

Os dados de massa seca de raiz ajustaram-se a uma função linear decrescente, em resposta ao aumento da concentração do glifosato no meio de cultura (Figura 1 D). A redução dessa característica ocorreu, possivelmente, pelo efeito do glifosato sobre o AIA, que pode ter diminuído o teor desse fitormônio na plântula, acarretando queda da massa da raíz, já que a auxina é responsável pelo desenvolvimento das raízes (Taiz & Zeiger, 2013). Esse mesmo fato ocorreu com a variável comprimento de raízes (Figura 1 B), o que sugere que a redução do ritmo do alongamento das raízes pode ter influenciado negativamente sua massa seca.

Os dados de número de folhas adequaram-se a uma equação quadrática com ponto de máxima em 28,24 mg L-1 e.a. de glifosato (Figura 1 E). Esse resultado está possivelmente relacionado com a baixa relação entre os fitormônios auxina/citocinina, pela aplicação do glifosato, o qual inibe a formação de AIA. Neste sentido, a maior proporção de citocinina encontrada nos tecidos vegetais, estimula o desenvolvimento das gemas laterais, o que eleva o número de folhas.

Os dados de comprimento de folha adequaram-se a uma função quadrática, com ponto de máxima em 5,44 mg L-1 e.a. de glifosato (Figura 1 F). Os de largura da folha ajustaram-se a uma função quadrática, com ponto de máxima em 15,60 mg L-1 e.a. de glifosato (Figura 1G). O aumento da expansão foliar nas menores concentrações de glifosato pode estar relacionado com o maior acúmulo de massa seca de parte aérea (Figura 1C), que também aumentou por causa do efeito hormese do herbicida.

De acordo com Pincelli-Souza (2014), a aplicação de subdoses de glifosato em cana-de-açúcar não bloqueia completamente a ação da enzima EPSPS, além de não inibir totalmente a rota do chiquimato, a qual é precursora da síntese do ácido indolacético (AIA), responsável pela expansão celular, além de estar também relacionado com a síntese de giberelinas, ou seja, a planta ainda pode ser estimulada à promover expansão e elongação celular. Esses incrementos validam a teoria de efeito de dose-resposta, como descrito por Velini et al. (2008), que relatam a ocorrência de estímulos ao crescimento vegetal, quando o herbicida glifosato é aplicado em baixas doses (variando de 9 a 180 mg e.a. L-1), e a redução do crescimento, quando aplicadas concentrações mais elevadas.

Os dados de número de brotos adequaram-se a uma equação quadrática com ponto de máxima em 25,41 mg L-1 e.a. de glifosato (Figura 1 H). Assim, como para o número de folhas (Figura 1 E), acredita-se que este fato pode estar relacionado com a menor relação auxina/citocinina, o que estimula o desenvolvimento de gemas laterais. Segundo Velini et al. (2012), alterações na atividade da enzima EPSPs, pela aplicação de glifosato, como maturador, em cana-de-açúcar, pode resultar em efeito secundário, com quebra da dominância apical e com brotação de gemas laterais.

Outra hipótese para o aumento do número de brotações em baixas concentrações de glifosato pode estar relacionada com o fato de a aplicação do herbicida aumentar a absorção de fósforo, elemento que está diretamente ligado à divisão celular.

Algumas pesquisas já comprovaram que a aplicação de subdoses de glifosato causa a indução de genes responsáveis pelo transporte de fósforo para o interior das células vegetais (Carbonari et al., 2007; Godoy, 2007). Segundo Tomaz (2009), a aplicação de baixas concentrações de glifosato aumenta o número de perfilhos em cana-de-açúcar, sendo esse resultado atribuído ao incremento do teor de fósforo na planta.

Os dados de teor de clorofila b ajustaram-se a uma função linear decrescente, em resposta ao incremento da concentração do glifosato em meio de cultura; já os de teores de clorofila a e de carotenoides adequaram-se a equações quadráticas, com ponto de máxima em 8,33 e 8,32 mg L-1 e.a. de glifosato, respectivamente (Figura 2).

Figura 2: Teores de clorofila a, clorofila b e de carotenoides de plântulas de Cattleya nobilior Rchb. F. submetidas à adição de glifosato em meio de cultura ½ MS semis-sólido, 200 dias após o transplantio. 

A redução do teor de clorofila pode estar relacionada com a inibição da síntese de seu precursor, o ácido aminolevulinato, ou com a maior degradação do pigmento pelo glifosato (Carvalho & Alves, 2011). Segundo Galli & Montezuma (2005), a diminuição da atividade da enzima EPSPS, pela aplicação do glifosato, reduz a síntese de clorofila.

De acordo com Pereira et al., (2016), o glifosato pode inibir a absorção de manganês (Mn), elemento envolvido na reação de fotólise da água e evolução de O2 no sistema fotossintético; na formação de clorofila; na estrutura, no funcionamento e na multiplicação de cloroplastos, além de realizar o transporte eletrônico e ser requerido para a atividade de algumas desidrogenases, descarboxilases, quinases, oxidases e peroxidases (Vitti et al., 2006).

Cedergreen (2008), trabalhando com a cultura da cevada, atribuiu o aumento do crescimento das plantas tratadas com subdoses de glifosato à teoria da compensação entre as raízes e a parte aérea. Outra hipótese para explicar o crescimento das plantas, pode estar relacionada com o aumento das taxas fotossintéticas, pelo maior aproveitamento de luz ou maior eficiência de fixação de carbono, graças à expansão dos órgãos da parte aérea da planta (Cedergreen & Olsen, 2010).

Como foi observado neste trabalho, baixas concentrações de glifosato (variando de 5,44 a 17,00 mg L-1 e.a.) em meio de cultura, resultam em efeito hormese, com o herbicida estimulando o crescimento e o desenvolvimento da parte aérea. Entretanto, o aumento da concentração do glifosato no meio de cultura, causa decréscimo do comprimento e da massa seca de raízes, nas características de parte aérea, bem como nos teores de clorofilas e de carotenoides de plântulas de C. nobilior.

Calabrese et al. (1999) afirmam que a planta, quando exposta a um agente estressor externo, reage a essa situação, dentre outras formas, por meio do maior desenvolvimento vegetativo, sendo esta uma característica adaptativa do sistema biológico, na busca de compensar os danos causados pelo estresse. Contudo, os mesmos autores ressaltam que os estímulos podem variar nas plantas de acordo com a intensidade do estresse, sendo que estímulos fracos aceleram a atividade fisiológica e estímulos fortes cessam essa atividade. Na Figura 3, é possível observar o desenvolvimento das plantas no meio de cultura.

Figura 3: Plântulas de Cattleya nobilior Rchb. F. submetidas à adição de glifosato em meio de cultura ½ MS semissólido, 200 dias após o transplantio 

De acordo com a correlação de Pearson (Figura 4A), observa-se correlação positiva entre comprimento de parte aérea, comprimento de raiz, comprimento da folha e largura da folha, massa seca de raízes e parte aérea, de clorofilas a e b e de carotenoides. Já o número de folhas apresentou correlação positiva com número de brotos.

Figura 4: Coeficientes de correlação de Pearson (A) e análise de componentes principais (B), entre as variáveis comprimento de parte aérea (CPA), comprimento de raiz (CR), número de folhas (NF), número de brotos (NB), comprimento da folha (CF), largura da folha (LF), massa seca de parte aérea (MSPA), massa seca de raízes (MSR), clorofila a (Clorof. a), clorofila b (Clorof. b) e carotenoides (Carot.) de plântulas de Cattleya nobilior Rchb. F. submetidas à adição de glifosato em meio de cultura ½ MS semissólido, 200 dias após o transplantio. 

Pode-se inferir que essa alta correlação positiva entre número de brotos e número de folhas esteja relacionado com o fato de o glifosato reduzir a relação auxina/citocinina, causada pela inibição da síntese de AIA. Essa maior relação de citocinina estimulou o desenvolvimento das gemas laterais e, consequentemente, resultou em maior número de folhas e brotos.

De acordo com a análise de componentes principais (Figura 4B), é possível observar que as menores concentrações (0 e 8,5 mg L-1 e.a.) de glifosato formaram um grupo e as concentrações intermediárias formaram um segundo grupo (17; 25,5 e 34 mg L-1 e.a.) por outro lado, a maior concentração (42,5 mg L-1 e.a.) de glifosato ficou isolada dos outros dois grupos, apresentando correlação inversa com todas as variáveis analisadas.

O número de brotos (NB) e o número de folhos (NF) apresentaram correlação com a concentração de 34 mg L-1 e.a glifosato, porém não apresentaram correlações com as outras variáveis analisadas. A massa seca de parte aérea (MSPA) e a largura da folha (LF) apresentaram baixa correlação com as concentrações de 17 e 25,5 mg L-1 e.a. glifosato.

Baixas concentrações de glifosato podem ser utilizadas para melhorar o desenvolvimento inicial de C. nobilior, quando cultivado in vitro, obtendo-se, assim, plantas de melhor qualidade e mais resistentes ao período de aclimatização.

CONCLUSÕES

Dentre os componentes fitométricos analisados, o comprimento de raiz, a massa seca de raízes e o teor de clorofila b apresentaram redução com o incremento das concentrações do glifosato.

Baixas concentrações de glifosato adicionadas ao meio de cultura ½ MS resultam em efeito hormese, com aumento do crescimento da parte aérea de Cattleya nobilior Rchb. F.

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Recebido: 19 de Julho de 2017; Aceito: 23 de Março de 2018

* Autor para correspondência: dj_bertoncelli@hotmail.com

Este trabalho não é parte de tese de doutorado nem dissertação de mestrado

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