SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.27 número2A ideologia dos engenheirosAron, Raymond. Memórias índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista de Administração de Empresas

versão impressa ISSN 0034-7590

Rev. adm. empres. vol.27 no.2 São Paulo abr./jun. 1987

https://doi.org/10.1590/S0034-75901987000200009 

RESENHA BIBLIOGRÁFICA

 

 

João Mário Csillag

Professor no Departamento de Administração da Produção e de Operações industriais da EAESP/FGV

 

 

Oech, Roger von, A Whack on the side of the head; how to unlock your mind for innovation. New York; Warner Books, 1983.

O pensamento criativo vem sendo amplamente estudado e divulgado desde a década do 39, tendo tido um grande impulso com a técnica de brainstorming de Alex Osborn.

A grande maioria dessas estudos procura conseguir aumentar o nosso potencial criativo, atuando sobre fatores que nos inibem de desenvolvê-lo. Esses fatores, considerados como bloqueios pela maioria dos autores, prejudicam significativamente a capacidade de gerar idéias originais.

Entre os autores que se preocuparam com o estudo de idéias criativas, situam-se George M. Prince e William J. J, Gordon, com a "sitinética" (do grego; relacionamento entre duas coisas que nunca foram relacionadas) e Edward de Bono, com o pensamento lateral. Inúmeros outros escreveram sobre bloqueios e pensamento criativo, não trazendo, porém, nenhuma novidade significativa.

Mas recentemente, na década de 70, começaram as experiências que demonstraram ser o hemisfério direito do nosso cérebro a fonte do pensamento abstrato, imaginativo, espacial e associativo, e o esquerdo, a do pensamento linear e lógico. Os dois hemisférios cerebrais são, no entanto, interligados. Atualmente, na década de 80, tem havido várias experiências no sentido de desenvolverem o potencial criativo atuando na comunicação entre os hemisférios cerebrais. O livro a ser agora comentado analisa os bloqueios do processo criativo e a forma de inibi-los.

Em 1982. Roger von Oech escreveu A Whack on the side of the head; how to unlock your mind for innovation (Um safanão no lado da cabeça; como destravar sua mente para Inovação), obra de 141 páginas, onde explica o mecanismo dos bloqueios, que chamou de travas, e sugere uma classificação dos mesmos em 10 tipos, tratando cada um deles num capítulo separado.

Logo na primeira página, desfilam 18 referências elogiosas de executivos que leram o trabalho e dele gostaram. A introdução foi escrita por Nolan Bushnell, fundador da Atari, Inc. que apresentou várias inovações, por ele explica das na mesma linguagem do livro.

Trata-se de uma obra original na sua apresentação, na sua ilustração, e na maneira de introduzir os diversos assuntos. A literatura recomendada, em grande parte, nada tem a ver com o assunto em pauta.

Roger von Oech explica, na introdução, o que leva uma pessoa a ser criativa e como ocorrem as idéias criativas. A respeito do pensamento criativo, cita uma afirmação do Prêmio Nobel de Física Albert Szent Györgyi: "Descoberta consiste em olhar para as mesmas coisas que todos olham e pensar em algo diferente". O autor fala sobre o porquê de não pensarmos coisas diferentes mais freqüentemente, concluindo que não sabemos esquecer temporariamente tudo o que aprendemos ao longo da vida, especialmente aquelas rotinas que facilitam nossas vidas, como dirigir um carro numa estrada, calçar um par de sapatos, executar trabalhos administrativos, entre outras. Roger von Oech chama de travas mentais aquelas atitudes que, embora necessárias para nossa vida diária, podem nos atrapalhar muito quando precisamos ser criativos.

O mérito do autor está em propor uma classificação das travas mentais e de sugerir maneiras da abri-las uma a uma, constituindo este o tema central do livro. Os vários capítulos seguem, resumidos:

O capítulo 1 analisa a trava "A resposta correta", uma das mais importantes, porque há uma tendência nas pessoas de se livrarem dos problemas com a primeira resposta que atenda a todos os requisitos do problema. Na medida em que von Oech consegue convencer o leitor de que "nada é mais perigoso do que uma idéia quando é a única que ternos", passa a prestar-lhe um grande serviço.

O capítulo 2 comenta a trava "Isto não é lógico", introduzindo aí os conceitos de pensamento mole e pensamento duro - novos termos para pensamento vertical e pensamento lateral, propostos por Bono, ou para pensamento racional e pensamento criativo, já consagrados por outros autores. Mostra que os dois conceitos são necessários, porém em momentos diferentes. Não podem ser usados em momentos errados, pois, na geração de idéias, o duro limitará o processo criativo enquanto o mole atrapalhará a execução.

O capítulo 3 descreve a trava "Siga as regras". Desde crianças, somos ensinados a seguir regras, o que é uma coisa muito boa, pois torna nossa vida possível na sociedade. O que seria de nós se não respeitássemos os semáforos, e outras regras de convívio coletivo? Por outro lado, se estamos tentando gerar idéias novas, "seguir as regras" pode nos atrapalhar, pois estas nos limitam, submetendo nos às coisas tais como são, o que, às vezes, pode ser mau. Isto porque, assim delimita dos, somos Impedidos de fazer outras abordagens que podem até ser melhores que as determinadas por regras muitas vezes já superadas, cujas razões podem até nem mais existir.

O capítulo 4 refere-se à trava "Seja prático". O autor mostra que normalmente tendemos a ser práticos, pois, na medida em que envelhecemos, nos tornamos prisioneiros da familiaridade. Quando crianças, muitos jogos de imaginação são usados, mas depois somos ensinados "a nos portar como gente grande", isto é, a ser práticos. Roger von Oech mostra como divagar, com vistas a poder gerar novas idéias.

O capitulo S analisa a trava "Evite ambiguidade". Mais uma vez, fica demonstrado no livro que somos todos educados para comunicar claramente o que pensamos, e sem ambigüidade para evitar interpretação errônea. Mas acontece que, quando queremos novas idéias, devemos considerar o problema ambiguamente.

O capítulo 6 comenta a trava " É mau errar", Decorrente da educação que recebemos, das avaliações ao longo da vida escolar, quem não acerta, erra, e devemos acertar sempre, pois «penas neste caso é que passamos pelos testes ao fim de cada ano letivo.

Mesmo quanto aos testes psicológicos, na medição para sermos aceitos para qualquer coisa que implique melhoramentos, devemos acertar e atingir certa quantidade de pontos. A conseqüência disto é que acabamos sendo levados a "jogar no garantido" ao invés de nos arriscarmos a falhar, pois isto é estigmatizado em nossa sociedade. Para conseguir isto, as pessoas passam a utilizar-se de procedimentos usuais, pulando assim a fase inicial do processo criativo, onde deveríamos testar hipóteses, questionar regras, brincar em torno das regras. Nesta tese, respostas incorretas podem surgir.

Na realidade, os erros devem trazer ensinamentos de como não fazer, o que constitui um ensinamento valioso, além de possibilitar uma oportunidade para tentar novas abordagens.

O capítulo 7, sobre a trava "Brincar é frívolo", mostra que uma atitude brincalhona é fundamentei para o pensamento criativo, pois nela "as defesas mentais estão baixas, seus bloqueios mentais estão abertos e há pouco cuidado com as regras".

Em geral, a vida nos apresenta a proposição ganhar/perder. Se não ganhamos, então perdemos. Isto é verdade para jogos de cara ou coroa, apostas, eleições, porém seria muito melhor se nossa atitude fosse de ganhar não ganhar: a diferença é que em vez de perder, aprendemos. A brincadeira traz alegria, um dos mais poderosos motivadores conhecidos, Dara necessidade de um ambiente de trabalho alegre.

O capítulo 8, bastante vazio em conteúdo, comenta a trava "Não é minha área", em que Roger von Qech mostra que é muito frutífera a busca de idéias em outras áreas de atividades diferentes do problema em questão, Recomenda mesmo tomar a iniciativa de "ir caçar idéias" em outros contextos.

No capítulo 9, vem multo bem colocado o problema da conformidade, em que, para não aparecer e riem se destacar dos outros, as pessoas costumam seguir os demais, quer seja em grupos, quer em bando. Esta trava, que dá nome ao capítulo "Não seja bobo", é multo próxima do bloqueio conhecido como "medo de ser ridicularizado", que praticamente influi muito nas pessoas, comandando suas ações.

Para contornar este bloqueio ou abrir a trava, Roger von Oech nos recomenda apresentar o bobo, utilizando uma lógica ridícula que deve exaltar o trivial e desprezar o exaltado. Devemos parodiar as regras ou as situações para estimular o pensamento criativo.

Finalmente, a última trava "Não sou criativo" vem no capítulo 10.

O autor mostra que as pessoas criativas são mais conscientes de suas idéias por menores que sejam; sem saber como, confiam que suas idéias podem levá-las a descobertas, e acreditam que são capazes de fazer isto acontecer. Conclui que os mundos do pensamento e da ação se interceptam, desde que as pessoas tenham confiança em suas idéias.

Em várias passagens do livro, o autor comenta que, para criar, devemos combinar duas idéias que nunca foram relacionadas, e cita o exemplo de Johann Gutenberg, que combinou a prensa de amassar uvas com a prensa de cunhar moedas. "Afinalidade da prensa para cunhar moedas, é a de deixar uma imagem numa pequena érea de moeda de ouro. A função da prensa de vinho é de aplicar uma força numa grande área para prensar o suco das uvas. Num dia, Gutenberg, talvez após ter toma do um ou dois copos de vinho, perguntou, de maneira brincalhona, a si mesmo: que tal se eu tomasse uma porção destas punções de moedas e as montasse na prensa de vinho de tal maneira que, forçadas, deixassem suas imagens no papei de imprensa? A combinação resultante foi a tipografia e os tipos móveis.

Em outra passagem, o autor use o termo "tornar o estranho familiar". Nestas idéias se reconhecem nitidamente os principies de "Sinética" de Prince de Gordon, que não são citados por von Oech. Por outro lado, Edward de Bono, introdutor do pensamento lateral nunca citado por outros autores americanos, tem seu lugar neste livro.

Esta obra dá a impressão de um curso, pois, entre as travas de números 5 e 6, há um intervalo com brincadeiras e piadas. Após a 10ª trava, há um teste para que o lei-tor possa avaliar o que absorveu da leitura. Entre os capítulos existem pequenos conselhos que somam 36, muito úteis para o leitor. As ilustrações são chocantes, facilitando assim que sejam lembradas. O humor está sempre presente e é outro traço do pensamento criativo, pois o leitor é levado numa direção e repentinamente vislumbra outro caminho ou interpretação; a descoberta desta nova interpretação é que produz o riso.

As pessoas que assimilarem o que estão lendo, ao menos na primeira semana após tomarem conhecimento do conteúdo, terão maior facilidade em gerar idéias. Daí para a frente, dependerá de cada um.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons