SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue178THE EXPULSION OF A “TAPUTINGA” MISSIONARY FROM POMBAL’S AMAZON: THE ANNUAL LETTER OF FATHER LOURENÇO KAULEN (1755-1756)SÁBIÈ SETTLEMENT, 1956-1975: THE ISSUE OF LAND, LABOR FORCE AND AGRARIAN CREDIT author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista de História (São Paulo)

Print version ISSN 0034-8309On-line version ISSN 2316-9141

Rev. Hist. (São Paulo)  no.178 São Paulo  2019  Epub Feb 21, 2020

https://doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2019.149358 

ARTIGO

AMAZÔNIA, DESENVOLVIMENTO E RELAÇÕES RACIAIS NA ANTROPOLOGIA DE CHARLES WAGLEY (1940-1950)*

AMAZON, DEVELOPMENT AND RACE RELATIONS IN THE ANTHROPOLOGY OF CHARLES WAGLEY (1940-1950)

1Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil


Resumo

Este artigo versa sobre as relações entre antropologia, saúde, desenvolvimento e relações raciais a partir da experiência do antropólogo norte-americano Charles Wagley no Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp), durante a Segunda Guerra Mundial (1942-1945), e no estudo de comunidade realizado em Gurupá (PA), uma das iniciativas do projeto de criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica (IIHA), sob o patrocínio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no ano de 1948. O livro Amazon town (1953) traz a etnografia de Wagley, suas experiências afeitas à antropologia aplicada, além de revelar as marcas da Guerra Fria, da política do Ponto IV, do programa Area Studies, da agenda antirracista da Unesco e, simultaneamente, expressar preocupações quanto aos efeitos considerados irreversíveis dos processos de transformação do mundo da tradição da cultura local. Com o objetivo de minimizar potenciais conflitos suscitados pelas mudanças no universo rural, Wagley pondera que as populações do interior deveriam ser entendidas em seus próprios termos para que a modernização em curso fosse bem-sucedida. Assim, o conhecimento antropológico poderia contribuir para modernização das regiões subdesenvolvidas.

Palavras-chave Amazônia; desenvolvimento; Charles Wagley; Unesco; história das ciências sociais

Abstract

This article deals with the relations between anthropology, health, development and race relations from the experience of the American anthropologist Charles Wagley at the Special Public Health Service (Sesp), during the World War II (1942-1945), and in the community study conducted in Gurupá (Pará, Brazil), one of the initiatives of the project of the creation of the International Institute of the Hylean Amazon (IIHA), sponsored by the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (Unesco), in the year 1948. The book Amazon town (1953) brings Wagley’s ethnography, his experiences fond of applied anthropology, besides revealing the hallmarks of the Cold War, the politics of Point Four, the Area Studies program, the Unesco’s anti-racist agenda, and at the same time expressing concerns about the irreversible effects of the transformation processes of the world of tradition of local culture. To minimize potential conflicts arising from changes in the rural universe, Wagley considers that the hinterland populations must be understood in their own terms for the ongoing modernization to be successful. Thus, anthropological knowledge could contribute to the modernization of developing regions.

Keywords Amazon; development; Charles Wagley; Unesco; history of social sciences

No final da Segunda Guerra Mundial, Charles Wagley (1913-1991) publicou no periódico O Jornal artigo em que expõe um quadro dos afazeres antropológicos e do lugar da antropologia no campo das ciências sociais (WAGLEY, 1945b). Discorre sobre a importância da etnografia, dos estudos de comunidade em sociedades consideradas complexas e seus problemas contemporâneos, identificando os aspectos pragmáticos da disciplina e citando alguns clássicos, a saber: Middletown: a study of contemporary America culture (1929), dos sociólogos Robert e Helen Lynd; Caste and class in a southern city, do psicólogo e cientista social John Dollard (1929), e The social life of a modern community (1941) dos antropólogos W. L. Warner e P. S. Lunt. Aos olhos de Wagley, esses estudos não só estavam atentos a processos de mudança cultural, mas guardavam relação com a emergência da Antropologia Aplicada, título da revista criada em 1941, ano do ataque a Pearl Harbor e da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Dentre os artigos publicados na revista, menciona: “Reajustamento da comunidade humana numa região carbonífera em crise”, “Receptividade de uma comunidade a um programa estatal de planejamento” e “Efeitos dos hábitos alimentares no sudeste rural sobre as relações humanas”. Verifica-se a natureza prática desses estudos utilizados por especialistas em agricultura, indústria, assistência social, urbanismo, sanitarismo, administração pública e planejamento estatal. A Segunda Guerra levara diversas agências do Estado americano a contratar antropólogos para o trabalho na formulação e implementação de programas governamentais.

Ao se deter no caso brasileiro e ressaltar a relevância da antropologia no país, Wagley menciona uma passagem do livro Problemas brasileiros de antropologia de Gilberto Freyre, publicado em 1943. A coletânea reúne palestras proferidas por Freyre, parte delas como professor de Antropologia Social na Universidade do Distrito Federal (UDF), entre 1935 e 1937. O livro foi editado durante a Segunda Guerra pela Casa do Estudante Brasileiro, instituição vinculada à União Nacional dos Estudantes.

Em Problemas brasileiros de antropologia, Freyre aborda, entre outros temas, as relações entre tradição e modernidade e o papel das ciências sociais. A partir de uma série de doenças (cárie dentária, câncer, doenças do aparelho respiratório, pulmões, vias urinárias) resultantes das mudanças dos hábitos alimentares, Freyre alerta para:

o perigo de (…) artificialização quase maciça dos alimentos em consequência das probabilidades de rápida e talvez desordenada industrialização da nossa vida e de sofisticação de populações até aqui rurais e semirrurais. (…) O industrialismo intenso que se anuncia poderá romper assim o resto de associações (…) que prendem algumas de nossas populações rústicas (…) pela artificialização de vida e de dieta. Artificialização inseparável das economias monoculturas, tanto quanto das (…) industriais e urbanas. Por outro lado, é possível que a intensificação na industrialização do Brasil resulte em melhor conhecimento do solo e das condições regionais no interesse da exploração intensa [que] (…) no momento talvez se derive algum proveito para as quase abandonadas populações rústicas do nosso país (FREYRE, 1943, p. 18-19)

Freyre oscila entre a visão de um processo ininterrupto de transformações, seus efeitos positivos e negativos, e a importância da tradição. Pondera que as ciências sociais deveriam assumir função privilegiada nas mudanças em curso mediante o conhecimento socioantropológico sobre a diversidade regional e sua utilização na definição de diretrizes e ações governamentais. É com base nesta reflexão de Freyre que Wagley o cita:

O problema no Brasil, ainda mais que nos Estados Unidos, onde tão a sério veem sendo tomadas as pesquisas antropológicas e sociológicas, é daqueles que, oferecendo grande interesse cientifico, se impõem também aos educadores, aos homens de Estado, aos administradores, aos legisladores, e, como já sugeri, aos próprios industriais e comerciantes, em geral tão desdenhosos das iniciativas desse gênero e de atividades intelectuais e científicas pelo seu grande interesse prático (Freyre, 1943, p. 75).

Em consonância com a visão de Freyre, Wagley publica o artigo “Estudos regionais e problemas sociais” na Revista do Instituto Brasil-Estados Unidos, meio de divulgação da diplomacia cultural americana no contexto da política de Boa Vizinhança durante a Segunda Guerra Mundial, no qual expõe o processo de profissionalização das ciências sociais nos Estados Unidos, calcado na pesquisa empírica, e os vínculos dos antropólogos sociais com planos governamentais (WAGLEY, 1945c, p. 63-65).1 Wagley acredita que a experiência americana poderia ser útil ao conhecimento da diversidade regional e cultural brasileira, não obstante valorize os estudos já realizados por Roquette-Pinto, Donald Pierson, Herbert Baldus, Emilio Willems, Gilberto Freyre, Arthur Ramos, Fernando Azevedo entre outros (idem, p. 66).

A relevância da aplicação das ciências sociais em diversos setores da vida pública já fora sugerida pelo sociólogo Emilio Willems, professor da Escola Livre de Sociologia e Política, no início dos anos 1940. Ele chama a atenção para a importância dos vínculos entre pesquisas e processos de mudança conduzidos pelo poder público, tendo como alvo as populações rurais. Em artigo sobre o problema rural brasileiro, Willems (1943, p. 20) aponta para a necessidade de “diagnósticos antropológicos” que precedam e orientem as ações específicas nas esferas da saúde, da educação e do trabalho. O exame da “cultura cabocla” ou “rústica”, característica das populações rurais, era “a condição mais rudimentar para aquilatar as dificuldades e consequências de uma intervenção organizada”. Ao introduzir elementos culturais novos em uma determinada localidade, os técnicos deveriam estar atentos aos significados e às possíveis funções que assumiriam em um contexto sociocultural distinto. Nesse sentido, a intervenção devia ser pensada como “mudança cultural provocada”, tendo em vista a transformação dos modos de vida das comunidades rurais e sua integração ao capitalismo moderno (Ibidem). Ainda que o termo “planejamento” não apareça no texto de Willems, ele julga central o papel das ciências sociais na formulação de programas sociais nas comunidades.

Wagley diagnostica a necessidade do planejamento em face do mosaico natural, racial, econômico, cultural e regional. Para isso, propõe uma série de estudos de comunidade que retratem as variações regionais e gerem subsídios para o “planejamento econômico”, a intervenção estatal calcada nas “necessidades e aspirações, nas tradições e crenças do povo de cada região” (WAGLEY, 1945a, p. 1). É fundamental, por sua vez, que os técnicos e administradores adquiram conhecimento em antropologia. A seu ver,

No Brasil, mais do que na maioria dos outros países, é importante que os administradores compreendam que cada povo tem a sua maneira própria de vida, tão rica em muitos aspectos quanto às outras, e que a maneira de vida de cada região do país contribui para formar a cultura nacional. Para alcançar êxito o programa nacional deve ser estabelecido de acordo com o modo de vida do seu povo, de acordo com suas tradições, instituições, costumes, crenças e aptidões especiais. O Brasil, com sua população de origem diversa com sua ampla variedade de ecologia e com seus fatores históricos diferentes para cada região tem necessariamente diversos modos de vida dentro da estrutura de sua vida nacional (WAGLEY, idem).

A preocupação com a ação do Estado em face do diverso cenário brasileiro estava afinada à experiência de trabalho de Wagley, voltado para a intervenção social na Amazônia no início dos anos 1940. Só a partir do estudo da diversidade regional seria possível traçar planos, normas de ação.

Este artigo versa sobre as relações entre antropologia e desenvolvimento com base no estudo de comunidade realizado por Wagley em Gurupá (PA), uma das iniciativas do projeto do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica (IIHA), sob o patrocínio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A etnografia de Wagley, realizada em 1948, e a publicação estudo em livro, em 1953 (Amazon Town), revelam as marcas da Guerra Fria, da política do Ponto IV, do programa Area Studies, da agenda antirracista da Unesco e, simultaneamente, expressa suas inquietações quanto aos efeitos considerados irreversíveis dos processos de transformação do mundo da tradição, da cultura local. Com o objetivo de minimizar potenciais conflitos suscitados pelas transformações no universo rural, Wagley pondera que as populações do interior deveriam ser entendidas em seus próprios termos para que a modernização fosse bem-sucedida. Wagley oscila entre o desenvolvimento como processo inexorável e o reconhecimento dos aspectos culturais das populações em seus próprios termos como parâmetro para qualquer eventual mudança social.

O encontro de Charles Wagley com a Amazônia

Wagley se graduou em antropologia pela Universidade de Columbia em 1936. Entre 1937 e 1941, foi aluno de Franz Boas, Margaret Mead, Ralph Linton e orientando de Ruth Benedict no doutorado, quando realizou pesquisa sobre a comunidade indígena dos Maias, sediada em Santiago Chimaltenango (Guatemala). Ele aportou no Brasil em 1939, no âmbito do acordo selado entre o Museu Nacional, através de sua diretora Heloisa Alberto Torres, e a Universidade de Columbia, por meio do antropólogo Franz Boas, que redundou em cursos na instituição e estudos sobre comunidades indígenas (Taipirapé/MT e Guajajara/MA). Essas pesquisas foram intercaladas pelas atividades acadêmicas como professor de Columbia a partir dos anos 1940 (MEIHY, 1987; ROSA, 1993).

Em 1942, Wagley foi convocado pelo governo americano, através do General George C. Dunham, diretor da Divisão de Saneamento e Saúde do Instituto de Assuntos Interamericanos (WAGLEY, 1983) no âmbito da mobilização de cientistas sociais para os esforços de guerra. Poucos antropólogos americanos conheciam o Brasil como Wagley, em função de suas pesquisas etnológicas e pelos contatos com a elite intelectual, a exemplo de Heloisa Alberto Torres, Anísio Teixeira, Gilberto Freyre, entre outros (MEIHY, 1987).2 Trabalhou no Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp), órgão criado pelo Iaia, desde o início de suas atividades no contexto do desenvolvimento da cooperação entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos (CAMPOS, 2006).

Os Acordos de Washington, firmados em março de 1942, obrigavam o Brasil a participar do esforço de guerra ao lado das forças aliadas. Tratava-se de um desdobramento da política de Boa Vizinhança que incluía uma série de atividades, como a ocupação da Amazônia mediante um novo ciclo da borracha, mobilização de mão de obra nordestina e ampliação dos serviços médico-sanitários na região, especialmente para seringueiros e migrantes (CAMPOS, 2006; MAGALHÃES & MAIO, 2007). Os acordos abarcaram as áreas do comércio, assistência técnica, produção de materiais estratégicos e saúde pública. Definiram medidas de suprimento de matérias-primas estratégicas, como a borracha amazônica por meio da Rubber Development Corporation (RDC). Foi criada uma estrutura administrativa que compreendia facilidades de crédito, aquisição de embarcações, saneamento e recrutamento de mão-de-obra, que ficou sob a supervisão geral da Comissão de Controle dos Acordos de Washington (MAHAR, 1978; DEAN, 1989, FIGUEIREDO, 2004).

A partir da experiência com as comunidades indígenas dos Taipirapé e os Tenetehara, a atuação de Wagley como antropólogo no Sesp caminhou pari passu ao do administrador na percepção e enfrentamento dos dramas sociais advindos da pobreza nas regiões Nordeste e Norte, as migrações, a seca, as estruturas sociais desiguais e os esforços de ocidentalização da medicina popular. Entre 1942 e 1945, Wagley foi diretor do Programa de Migração, assistente do Superintendente e Diretor da Divisão de Educação Sanitária do Serviço Especial de Saúde Pública. Esteve envolvido na formulação e implementação de políticas públicas voltadas para a migração e a saúde. Realizou diversas viagens pelo Nordeste e Norte, elaborando surveys e fazendo trabalhos de campo (KOTTAK, 2014; PACE; 2014).

No plano da educação sanitária, o Sesp concentrou-se nos serviços de saneamento (como tratamento da água e instalação de esgotamento sanitário e latrinas) e programas de assistência médica (curativos e/ou preventivos). A instituição ainda foi responsável pela distribuição de remédios contra a malária; distribuição de alimentos em situações de emergência, como a seca; estabelecimento de clínicas locais; e desenvolvimento de materiais educativos, como slides e curtas-metragens, para combate à malária e outras doenças tropicais. Ao longo desses anos, Wagley pode ser considerado como um dos antropólogos pioneiros na atuação com profissionais médicos em nome da prevenção de doenças (BASTOS, 1996; CAMPOS, 2006; HARRIS, 1990).

Ao longo de suas atividades, Wagley se indagou de que modo estudos antropológicos poderiam ser aproveitados por professores, administradores, agrônomos, nutricionistas, enfim, por todos aqueles que trabalhavam com a população. O antropólogo faz um breve histórico da atuação das unidades do Sesp e, sobretudo, o programa de saneamento e medicina preventiva nas 31 localidades da Amazônia. O grande desafio do Sesp nessas comunidades era a educação sanitária. Wagley fixou residência em Gurupá, no estado do Pará, pequena cidade de 340 habitantes, localizada à margem sul do Rio Amazonas, distante 340 km de Belém. Em maio de 1944, iniciou um inquérito na comunidade para obter subsídios que servissem para definir o perfil do programa de educação sanitária e os métodos mais adequados para o trabalho com a população da região. Parcela expressiva dos habitantes de Gurupá era constituída por analfabetos, o que exigia a produção de materiais audiovisuais, a realização de entrevistas e observação participante.

Wagley destaca o trabalho das cuidadoras na atenção às parturientes e aos doentes, não obstante atribuir a seus métodos anti-higiênicos o alto índice de mortalidade infantil. Reconhece, contudo, o prestígio social das cuidadoras e dos pajés, que são consultados por parte significativa da comunidade, inclusive entre pessoas da classe alta, identificadas como “brancos”. Ainda que na contramão da ciência médica moderna, as cuidadoras e pajés assumiriam, munidos dos saberes da medicina popular, os papéis de mediadores num programa de educação sanitária. São aliados e os mais indicados para aconselharem os doentes a frequentarem os postos de saúde (WAGLEY, 1945b, p. 67-69). Nas palavras de Wagley,

o nosso programa de educação sanitária tem por fim levar o povo ao médico, antes de qualquer tratamento por meio de drogas ou remédios aconselhados pelos curiosos, antes que os doentes já estejam, como eles costumam dizer, “mal de morte”. O indispensável é corrigir certos conceitos tradicionais a respeito de doenças e dietas que dificultam o trabalho do médico. (…) Precisamos aprender quais são, em cada caso, esses fatores culturais, coligindo objetivamente os dados científicos e contornando assim certos obstáculos, tomando conhecimento de certas atitudes e valores, e formulando nossos argumentos e explicações pelo menos nos termos da gente com a qual estamos trabalhando. (WAGLEY, idem, p. 69-70)

Era fundamental o domínio do conhecimento local, a superação de obstáculos para alterar a realidade. Wagley certifica a importância dos agentes locais, de suas práticas de cura, mas julga que a medicina científica era a única capaz de curar os “males de morte”. Cita o relatório elaborado pelo médico Claire E. Turner, Chefe da Health Education Officer do Iaia, após sua primeira visita ao Programa do Vale do Amazonas: “A educação deve começar onde o indivíduo está e conduzi-lo para onde deveria estar” (WAGLEY, 1945d, p. 5). O trabalho de Wagley no Sesp não deixa margem para dúvidas em relação a sua antropologia de intervenção, como se pode observar em carta à Heloisa Alberto Torres:

O trabalho que estou fazendo não é 100% etnologia, e não será (…). Tenho acompanhado o progresso dos imigrantes do Nordeste e preparado relatórios curtos sobre regiões específicas depois de falar com “seringalistas” aqui em Belém e em Manaus e de analisar estatísticas governamentais e trabalhar com elas. Esses relatórios são usados como base para a construção de Postos de Saúde e para distribuição de medicamentos etc. Mais adiante, deverei viajar, fazendo relatórios de várias regiões. (…) Nossos estudos seriam uma espécie de trabalho de “proteger o seringueiro” e de garantir que ele receba o que lhe é destinado.3 (CORRÊA & MELLO, 2008, grifo do autor)

À sua experiência etnográfica foi associada a antropologia aplicada. Com o término da Guerra, Wagley retorna à Universidade de Columbia e, em 1948, participa de um estudo de comunidade em Gurupá (PA), no âmbito da proposta de criação de um centro científico multidisciplinar internacional patrocinado pela Unesco.

O projeto de criação do Instituto Internacional da Hileia Amazônica e a pesquisa em Gurupá

Criada como parte do sistema das Nações Unidas em novembro de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, em um contexto histórico e político particular, no qual o cenário de disputas geopolíticas característico da Guerra Fria ainda não havia se consolidado, a Unesco refletiu, em seus primeiros anos, as aspirações universalistas de fraternidade e paz permanente entre os povos e reconstrução do mundo com base em políticas de cooperação científica e educacional em escala global (MAIO & SANTOS, 2015).

A Unesco constituiu-se em lócus privilegiado da discussão acerca da destinação social da ciência em regiões periféricas. Este debate ocorreu sob o impacto dos efeitos do conflito mundial e diante de determinados desafios, como: fome, refugiados, desequilíbrios ambientais e desigualdades socioeconômicas. O interesse pela pesquisa da riqueza biológica e ecológica dos biomas de florestas úmidas tropicais foi um dos pontos da agenda científica e política da instituição, que se traduziu em projetos como o da criação de um laboratório científico internacional na Amazônia (MAIO & SÁ, 2000).

Em maio de 1946, a proposta do engenheiro químico Paulo Estevão de Berrêdo Carneiro (1901-1982), e representante do Brasil na Unesco, de criação de um centro de pesquisas na Amazônia foi inserida no programa científico do Departamento de Ciências Naturais da Unesco. Referindo-se à magnitude da região amazônica e, em especial, ao seu valor científico e econômico, Paulo Carneiro ressaltava a urgência de se realizarem pesquisas nos campos das ciências naturais e sociais. Mencionava, ainda, a relevância de se estudar a população indígena da região. A proposta incluía os países com interesses imediatos na região: Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, França, Grã-Bretanha e Países Baixos (CARNEIRO, 1951; MAIO, 2001).

O projeto do IIHA foi inspirado no “princípio de periferia”, política de descentralização das atividades científicas, concebido pelo bioquímico marxista cristão inglês Joseph Needham, da Universidade Cambridge. Ele foi diretor do Departamento de Ciências Naturais da Unesco e julgava que a Amazônia era uma região ideal para a implementação do projeto de Wagley, ou seja, conhecer as populações da Amazônia, alvo de uma série de iniciativas da organização internacional (NEEDHAM, 1949; MAIO & SÁ, 2000).

O estudo de Gurupá contou com a participação do antropólogo Eduardo Galvão, assistente de pesquisa de Wagley no Museu Nacional, no âmbito dos estudos das comunidades indígenas dos Tenetehara e dos Tapirapé, que veio a fazer doutorado em antropologia na Universidade de Columbia. Fizeram parte da equipe as esposas dos dois antropólogos: Cecilia Wagley e Clara Galvão.4

A pesquisa foi planejada para ser replicada em outras localidades, tendo em vista a obtenção de um quadro mais geral da região Norte (WAGLEY, 1953). Ao elaborar o projeto, Wagley o concebia como parte de uma investigação que envolvesse especialistas em botânica, agronomia e fisiologia. A pesquisa estava centrada no estudo da cultura local com base no entendimento da herança ibérica, da miscigenação resultante do encontro entre portugueses, indígenas, africanos e como essa cultura mestiça se ajustou ao ambiente amazônico. Conhecer e controlar os aspectos culturais (costumes, hábitos, valores, crenças), as especificidades que norteavam a organização da sociedade, seria fundamental para o desenvolvimento de um projeto eficaz de planejamento social. Wagley retoma as questões que permearam sua atuação no Sesp. Em suas palavras:

An educational program, for example, planned for the Middle West of the United States or for Central Europe must obviously be modified before it is applicable to an Amazon community. Therefore, the problem of the social anthropologist in cooperation with other scientists in the Amazon would seem to be determine the basic patterns of the present culture and to be able in the future to advise social planners as to the feasibility, of programs of change in this region. Like the physiological organism, human culture has environmental limitations and environmental reactions, and it must be handled with care (WAGLEY, 1948c, p. 1-2).

Caberia, então, ao antropólogo oferecer conhecimento ao planejador sobre a comunidade a ser objeto de mudança, buscando evitar tensões sociais. Wagley enfatiza a análise da cultura, motivado por uma perspectiva que concebe a mudança como um processo inexorável. A cultura é a lente por meio da qual se enxerga e, ao mesmo tempo, permite regular a dinâmica das mudanças. É visível o receio de Wagley com as possíveis transformações que eventualmente escapem do controle dos planejadores e cientistas sociais.

O relatório do antropólogo apresentado à Unesco em 1948 aborda, inicialmente, os critérios que levaram à escolha de Gurupá, elevada à condição de microcosmo da Amazônia. O município condensava a variedade ecológica e racial da região. Em termos metodológicos, utilizou a observação participante e longas entrevistas com os membros da comunidade. Com base nesses recursos de pesquisa, ele faz uma descrição da cidade, aborda a estratificação social, o sistema de classificação racial, as relações entre classe social e local de moradia, a estrutura econômica, as relações interpessoais, as características da personalidade da população e os elementos próprios ao mundo religioso. Trata-se de uma etnografia sobre uma comunidade tradicional, predominantemente católica, que apresentaria sinais de declínio em função dos limites de suas atividades econômicas calcadas na agricultura de subsistência e, particularmente, na plantação de mandioca.

No final do relatório, Wagley sugere novos estudos, em perspectiva comparada, entre Gurupá e bairros periféricos de Belém e Manaus, devido às alterações na localidade, pelo estreitamento das comunicações entre Belém e Gurupá. Em suas palavras,

because communication and transportation in the Amazon is mainly via the waterways, the principal direction of culture diffusion follows the rivers. How influences generally emanate down-river, passing first to the large cities and then to small communities situated along the mainstreams of the Amazon system. From these mainstream communities new elements pass in time to smaller centers back from the mainstream or along small tributaries and finally to isolated backwoods families. This presents an excellent situation for the study of cultural change. Following studies of urban districts and of several mainstream communities, studies of isolated rural villages back from the mainstream might be carried out. A comparison of the small village of Jocojó with Gurupá, and with an urban district of Belém, would in sense give us a picture of three stages in culture change in the Amazon. The spread of new styles, new customs, and new ideas from Belém to Gurupá and finally to Jococó might be traced historically and through observation of the current process. (WAGLEY, 1948a, p. 25)

Há um gradiente em que se pode observar as transformações. Ao propor a realização de estudos de comunidade em Gurupá e outras localidades, Wagley inspira-se na hipótese da mudança cultural do antropólogo Robert Redfield, da Universidade de Chicago, em seu estudo intitulado The folk culture of Yucatán (1949). Redfield considera que quanto mais isolada uma comunidade, menor seria a importância da mudança social em seu interior e mais evidente a força da tradição. Assim, o curso e o grau da mudança que se operam na comunidade podem ser avaliados com base na identificação do ponto em que ela se situa no continuum rural-urbano, ou ainda, na medida em que sua organização social se aproxima ou se afasta de um dos extremos do gradiente cultura de folk-civilização. Segundo Redfield, o conceito de cultura de folk envolve a identificação de estruturas sociais rurais homogêneas, na qual a família e o parentesco são os principais determinantes dos laços de solidariedade social entre os indivíduos. Seu sistema de crenças, atitudes e sentimentos são de natureza mágico-religiosa. O conceito de civilização, por seu turno, é construído em oposição àquele e denota estrutura social mais heterogênea e diferenciada, com predomínio de valores impessoais, do interesse e da conveniência na vida associativa dos indivíduos. Na cultura de folk, de natureza estável, o indivíduo é refém da tradição, que consegue se perpetuar ao longo do tempo e das gerações na medida em que se mantém mais ou menos isolada de outras sociedades. Em contraposição, a civilização seria exemplificada melhor pelas grandes metrópoles, marcadas pelo contato entre diferentes povos e culturas e por constantes transformações sociais.

O interesse de Wagley pela ampliação dos estudos comparativos de comunidade na Amazônia não se limitava aos processos de mudança cultural. Numa nota de pé de página do relatório da Unesco, ele menciona discretamente os chamados area studies, como um programa de pesquisas de caráter interdisciplinar, que vinha ganhando visibilidade no mundo universitário do pós-guerra.

Antropologia, area studies e desenvolvimento na Amazônia

A nova incursão amazônica de Charles Wagley, no contexto do projeto IIHA, em 1948, ocorre no momento em que se desenvolvia um campo de conhecimento denominado area studies nos Estados Unidos, protagonizado por antropólogos como Julian Steward (Universidade de Columbia), o geógrafo Robert B. Hall (Universidade de Michigan) e Charles Wagley, autor de Area research and training: a conference report on the study of world areas, que revela a nova fase de sua antropologia de intervenção.

No fim do conflito mundial e nos primórdios da Guerra Fria, o governo americano constatou o profundo desconhecimento de amplas regiões do mundo. Agências de informação do Estado em associação com universidades estimularam a criação de institutos de pesquisa de caráter interdisciplinar (geografia, antropologia, economia, psicologia social etc.) oferecendo um elevado número de bolsas de estudo (WAGLEY, 1948c; WAGLEY, 1948a). Este período coincide com a iniciativa do Ponto IV de desenvolvimento do governo Truman. Criado em 1949, o programa definia o uso dos recursos técnico-científicos norte-americanos no combate à pobreza, na melhoria dos aspectos econômicos, sociais e sanitários nos países periféricos. Tratava-se de um amplo empreendimento que, apelando à cooperação internacional, à assistência técnica, visava a elevação das condições de vida das populações locais, ampliando as zonas de influência norte-americana no âmbito da Guerra Fria (LLEYS, 2005; PACKARD, 1997; CUETO, 2007).

Na virada dos anos 1940 para 1950, foram criados centros de estudos em diversas universidades: Regional Program on China and Peripheral Areas (Universidade Harvard); Far Eastern Institute (Universidade de Washington); Center for Japanese Studies (Universidade de Chicago); Russian Institute (Universidade de Columbia); Institute for Brazilian Studies (Universidade Vanderbilt). Esses centros ofereciam cursos de idiomas, geografia, cultura e economia de distintos países. Tornou-se evidente que interesses geopolíticos em amplas áreas e civilizações exigiam a cooperação de diferentes disciplinas e ciências. Antropólogos, sociólogos, cientistas políticos, psicólogos, geógrafos, economistas, transformaram-se em conselheiros de administradores e policy-makers. A Segunda Guerra Mundial não se limitou a apontar a necessidade de conhecimento, mas também a difusão desses saberes entre funcionários do Estado no exterior (PRICE, 2012; WAGLEY, 1948e).

Em relatório elaborado enquanto secretário-executivo do Comitê Area Studies do Social Science Research Council, com financiamento da Carnegie Foundation, Wagley fez um amplo mapeamento dos temas, instituições e atores envolvidos na formulação de uma agenda de pesquisas e de aplicação do conhecimento em áreas estratégicas para o Departamento de Estado (WAGLEY, 1948b, p. 1, PRICE, 2008). Ao concluir um artigo publicado em maio de 1948, Wagley afirma a necessidade de observar as diferenças regionais na América Latina para a formulação de políticas públicas, destacando o caso brasileiro como uma: “distinctive and important ‘culture area’ of modern Latin America, and within Brazil there are important regional differences in the Brazilian culture pattern. These facts must be taken into account in forming policies for Latin America as a whole or specifically for Brazil” (WAGLEY, 1948d, p. 464). No segundo semestre de 1948, Wagley ministrou um curso de pós-graduação sobre cultura no Brasil contemporâneo na Universidade de Columbia, no qual privilegiou o estudo dos diversos grupos étnicos formadores da cultura brasileira, examinando as relações raciais, a estrutura de classes, as instituições sociais, o folclore regional e a cultura do Brasil moderno5. Ademais, na mesma universidade, Wagley criou a cadeira de estudos brasileiros (WAGLEY, 1948c; ROSA, 1993).

Os area studies se expandem sob o signo do desenvolvimento. Em conferência proferida em um dos centros criados pelo programa, intitulada “The Brazilian amazon: the case of under-developed area”, sob o patrocínio do Institute for Brazilian Studies (Universidade Vanderbilt) (WAGLEY, 1951), no primeiro semestre de 1950, Wagley declarou que os fatores humanos, representados pela sociedade e cultura locais, eram os principais entraves ao aproveitamento eficaz dos recursos naturais de grande potencial econômico (Ibidem, p. 16). No contexto dos compromissos firmados pelo governo norte-americano por ocasião do Ponto IV, de fomento aos programas de desenvolvimento nas regiões periféricas, Wagley ponderava:

O que nós concebemos como “racional” e “eficiente” pode não parecer desta forma, ou realmente pode não ser desta forma, nos termos de uma outra cultura. Nem a cultura é transmitida mecanicamente como um carregamento de mercadorias de uma cultura para outra. O problema de “tornar os benefícios do nosso conhecimento científico disponível (…) para nações subdesenvolvidas” proposto pelo presidente Truman é mais complexo do que simplesmente torná-lo “disponível”. Não é suficiente enviar especialistas para as regiões a fim de recuperar terras, construir pontes, instalar fábricas, e assim por diante, nem é suficiente treinar grande número de pessoas da localidade em questão nos nossos métodos. O novo conhecimento, as novas ferramentas, e as demais inovações devem se fazer aceitáveis para a população em seus próprios termos. (Ibidem, p. 29)

Segundo Wagley, a transferência de tecnologia das nações ricas para as subdesenvolvidas, um dos objetivos delineados pelo Ponto IV, era geralmente pensada de forma impositiva, sem que fosse devidamente considerado o problema da incorporação, pelas populações locais, dos padrões culturais ocidentais. Investidos de uma visão que privilegiaria sobremaneira a dimensão cultural (códigos de conduta, sistema de crenças, rituais, costumes, normas, valores, linguagem), os antropólogos seriam capazes de aquilatar as implicações, em termos de reações e conflitos, que inovações técnicas em determinado setor da vida social podiam acarretar outros. Isto porque, com frequência, a integração efetiva à cultura local exigia a tradução dos novos elementos (Ibidem, p. 27). No caso da Amazônia, a expectativa otimista de Wagley, cônscio do caráter assimétrico que pautava as relações entre nações centrais e periféricas, era de que uma nova cultura emergisse, “combinando as forças produtivas da ciência e da tecnologia modernas com os valores humanos positivos e a íntima adaptação ao ambiente da cultura presente” (Ibidem, p. 30). Entre os especialistas, os cientistas sociais devem se esforçar para reduzir as tensões no processo de mudança cultural. Com efeito, há uma inflexão no pensamento de Wagley, do tempo do Sesp, em que haveria um sentido único, incontornável no processo de mudança cultural, para o estudo de Gurupá, sob a chancela da Unesco, na era do desenvolvimento, sensível à dinâmica local, atento aos perigos ditados pela mudança dirigida sem levar em consideração a cultura local, os saberes da população “em seus próprios termos” (MAIO et al., 2013).

Em março de 1949, nos primórdios do desenvolvimento do area studies, Wagley e o antropólogo Eduardo Galvão elaboraram um plano de estudos de comunidade no interior da Bahia (WAGLEY, 1949b)6 encomendado por Anísio Teixeira, então Secretário de Educação e Saúde, e aprovado pelo governo baiano em julho de 1949.7 Constava da Exposição de Motivos do Convênio o “interesse de se aparelhar com os elementos informativos necessários ao planejamento do Sistema Estadual de Educação [por meio] de pesquisas e estudos do meio físico, social e econômico de comunidades típicas das várias regiões do Estado”.8

Entre setembro de 1949 e maio de 1950, Wagley ministrou curso e seminário sobre a sociedade brasileira na Universidade de Columbia para seus alunos de doutorado.9 Das leituras constavam: Gilberto Freyre (Casa-Grande & senzala), Euclides da Cunha (Os sertões), os romances sociais de Jorge Amado, os trabalhos do geógrafo Preston James (Universidade de Michigan) e do sociólogo T. Lynn Smith (Universidade do Estado da Louisiana) sobre América Latina, além das leituras acerca dos “estudos de comunidade.”10

Assim, a partir do convênio celebrado entre a Universidade de Columbia e o estado da Bahia, sob a coordenação de Charles Wagley, o antropólogo Thales de Azevedo (UFBA) e do sociólogo Luiz de Aguiar Costa Pinto (Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro) propunha-se um conjunto de investigações em comunidades do interior baiano com o fito de colher informações que promovessem a modernização do sistema educacional e de saúde nas áreas rurais. O projeto tinha como objetivo “investigar (…) a mudança cultural associada à introdução de tecnologia e ideologia ocidentais, concomitantemente a procedimentos administrativos complexos em área atrasada em que o processo está atualmente ocorrendo com rapidez.” (WAGLEY, 1949, p. 2).

O perfil dos estudos planejados para a Bahia lembrava o projeto amazônico, uma vida estagnada, numa região subdesenvolvida, no qual as condições de vida em Gurupá seriam representativas da realidade da maior parte das comunidades rurais do Brasil, como também de outras regiões “economicamente marginais” em diversas partes do globo (WAGLEY, 1953, p. 2).

A investigação versa sobre as principais características da vida humana naquela região: as técnicas utilizadas para a sobrevivência (atividades agrícolas e extrativas, caça e pesca, manufatura, alimentação, moradia etc.); estrutura das classes sociais; composição étnica da população; relações de parentesco e compadrio; comportamento social, lazer, festas rurais, crenças e demais elementos do imaginário popular; entre outros aspectos relacionados à cultura local. Wagley também identificou os principais problemas que o ambiente tropical impõe ao homem na região amazônica, como as intempéries climáticas e a pulverização da população num território dominado pelos igarapés. Além da coleta de dados por meio da observação participante, o autor utilizou recursos como entrevistas, formulários temáticos, e informações estatísticas disponíveis para descrever a comunidade. O objetivo da pesquisa era conhecer o modo de vida do homem da Amazônia, de forma que tal conhecimento indicasse quais aspectos deveriam ser alterados em nome do desenvolvimento. Assim, as reações contrárias às intervenções governamentais seriam previstas, permitindo adequá-las previamente ao contexto local e torná-las efetivas (Ibidem, p. 39).

A Amazônia como laboratório racial

A pesquisa na comunidade de Gurupá, cunhada com o nome de Itá, foi patrocinada pela Unesco no âmbito do projeto de criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica (IIHA). Ela fez parte de uma série de estudos no campo das ciências sociais, que foram expandidos durante a década de 1950 no Brasil, quando antropólogos e sociólogos voltaram-se para o exame das possibilidades de desenvolvimento do país e o papel que caberia a eles assumir. A análise das transformações vinha acompanhada pela avaliação das chamadas “resistências às mudanças”, a exemplo do Convênio Universidade de Columbia/estado da Bahia, do projeto do Vale do São Francisco e do estudo das cidades-laboratórios do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE). Estes investimentos acadêmicos e políticos envolveram parcerias internacionais em contexto de avanço da institucionalização das Ciências Sociais e o reconhecimento desses cientistas como agentes da mudança (CORRÊA, 1987).

Entre os projetos em curso nesse período, destaca-se o ciclo de pesquisas sobre as relações raciais no Brasil, sob a chancela da Unesco. A origem do programa de estudos está associada à agenda antirracista formulada pela agência internacional no final dos anos 1940, ainda sob o impacto do genocídio nazista, da persistência do racismo, do processo de descolonização africano e asiático, e dos primeiros passos da Guerra Fria. Em meio ao debate sobre o valor heurístico do conceito de raça sob o patrocínio da Unesco, o Brasil foi concebido como um laboratório que atestaria cientificamente uma sociedade sem assimetrias raciais, como um contraponto positivo às experiências do racismo nos Estados Unidos e na África do Sul. Como consequência dessa premissa inicial da Unesco, uma rede transatlântica de cientistas sociais (Charles Wagley, Roger Bastide, Virginia Leone Bicudo, Luiz de Aguiar Costa Pinto, Oracy Nogueira, Aniela Ginsberg, Florestan Fernandes, René Ribeiro, Edson Carneiro, Marvin Harris, entre outros) desenvolveu pesquisas em diversas regiões do país, em áreas tradicionais e modernas, gerando um novo, amplo e diversificado quadro interpretativo das relações raciais no Brasil (MAIO, 2004).

Sob o patrocínio do convênio Universidade de Columbia/Estado da Bahia/Unesco, sob a coordenação de Wagley, os estudos trataram das relações raciais em três comunidades no interior baiano. Compreendeu os trabalhos dos orientandos de doutorado Harry William Hutchinson, Benjamin Zimmerman e Marvin Harris. Eles utilizaram diversos métodos e técnicas de investigação, a saber: observação participante, entrevistas, questionários, documentos históricos e dados estatísticos. A primeira delas, São Francisco do Conde, denominada de Vila Recôncavo, era uma antiga zona açucareira que vivia num período de decadência. A segunda, Rio de Contas ou, como foi definida na pesquisa, Minas Velhas, tinha uma longa história que remontava à fase heroica do ciclo do ouro. Finalmente, Monte Serrat (Monte Santo) era uma região onde predominava a criação de gado. A escolha das localidades respeitou os seguintes critérios: 1) os vínculos socioeconômicos das comunidades com a cidade de Salvador; 2) espaços sociais em que fosse possível se observar a dinâmica da mudança social, como forma de colher subsídios para futuras intervenções governamentais. Dessa forma, o projeto resolveu optar por comunidades consideradas tradicionais, que revelariam indícios de decadência e isolamento, e comunidades “progressistas”, nas quais haveria sinais de transformações. Comparando os dois padrões de comunidade (o tradicional e o moderno) se poderia desvendar os vetores da mudança social (WAGLEY, 1950, p. 17). Acabou prevalecendo a descrição de três localidades de tipo tradicional, pouco afeita a transformações.

Os resultados foram publicados no livro Race and class in rural Brazil (1952), que incluiu ainda o estudo de Gurupá conduzido por Wagley. No prefácio, Wagley apresenta de modo sintético a diversidade regional, cultural e racial existente no Brasil e estabelece comparações com a experiência norte-americana. Pondera que o país teria uma série de contrastes sociais expressos nas disparidades regionais, na convivência entre áreas atrasadas e modernas e nas expressivas desigualdades sociais. Considera ainda que o preconceito e a discriminação raciais no Brasil teriam papel secundário quando comparada à experiência de outros países. Está afinado assim com a visão do sociólogo Donald Pierson, ao considerar que na sociedade brasileira não haveria um sistema de castas, propiciando mobilidade social de pardos e negros com reduzida taxa de tensões sociorraciais (WAGLEY, 1952a, p. 7). De todo modo, Wagley alerta para o aumento da visibilidade do preconceito racial nas áreas modernas do país:

estereótipos e atitudes bem conhecidos no Brasil indicam desprezo pelo negro e pelo mulato. Existem ainda bem conhecidas barreiras a ascensão social das ‘pessoas de cor’ (…). Há um crescimento da discriminação em centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro motivando o Congresso Nacional a aprovar uma lei [Afonso Arinos] que transforma a discriminação racial em crime. (Ibidem, p. 8)

Apesar do reconhecimento do preconceito racial, Wagley acreditava que o predomínio de uma ideologia igualitária na esfera das relações raciais facilitaria o desenvolvimento econômico e social brasileiro.

Nesse sentido, os estudos etnográficos sobre as relações raciais poderiam significar um passo à frente em relação aos estudos de história social (Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda) ou a pesquisa sociológica de Donald Pierson, que se limitou à cidade de Salvador. Na medida em que o país contemplaria diferenças regionais e estilos de vida diversos, caberia observar as variáveis que interferem na estrutura da sociedade nacional brasileira e, por conseguinte, nos padrões de relações raciais.

As investigações socioantropológicas em tela elaboraram um sistema de classificação baseado nas características fenotípicas reais e imaginárias, ou seja, construções sociais e culturais. É com base em sua experiência de trabalho etnográfico que Wagley elabora o conceito de “raça social”, isto é, “a maneira pela qual os membros de uma sociedade se classificam mutuamente por características físicas e por uma série de valores que permitem os indivíduos classificarem e determinarem suas relações sociais”. A maneira como uma pessoa é classificada pode depender do contexto (Ibidem, p. 14; WAGLEY, 1965). O antropólogo estava interessado nos significados sociais de raça e classe e seus efeitos sobre a vida das comunidades.

Em seu artigo intitulado “Race relations in an Amazon community”, Wagley parte do contexto cultural e social da região para compreender as relações inter-raciais de Gurupá. Ele destaca que as interações raciais na região amazônica diferem das encontradas no restante do Brasil. Ali também estão presentes o branco, o negro e o índio, mas eles aparecem em diferentes proporções se comparados a outras regiões do país. O mesmo acontece com a miscigenação racial, dadas as circunstâncias históricas e sociais específicas (WAGLEY, 1952b, p. 116).

O relato histórico de Wagley descreve uma região que não experimentou o sistema de plantation tampouco o de exploração de minérios, atraindo pouco interesse dos europeus, que se expressou, entre outros aspectos, no reduzido número de negros escravizados no Norte. O Vale Amazônico foi próspero entre os anos de 1880 e 1912, enquanto monopolizava mundialmente a plantação de seringueiras. Após este período, com a competição derrubando o alto preço da borracha, a região entrou em declínio e novamente ficou isolada. Este isolamento em relação ao resto do país foi um importante fator de persistência de inúmeros traços da cultura tradicional em suas áreas rurais (Ibidem, p. 117).

O estudo de Gurupá buscou entender como pessoas de diferentes características fenotípicas interagiam. Na comunidade, a mistura racial seria facilmente percebida, com o predomínio do tipo físico dos índios. Na medida em que a miscigenação suscita a formação de um gradiente em vez de grupos raciais estanques, os moradores da comunidade raramente estão conscientes dos traços físicos que eles mesmos utilizam no sistema de classificação racial. A cor da pele, o tipo de cabelo e as características fisionômicas - como formato do nariz, tamanho dos lábios, largura da face - são os traços fenotípicos determinantes na caracterização dos indivíduos. Os tipos físicos encontrados são: branco, moreno, caboclo ou tapuia, e mulato (esse último utilizado apenas para as mulheres, referindo-se a uma mulher atraente (Ibidem, p. 120-121).

Wagley constata que o termo negro é raro, mas quando pronunciado, costuma expressar atributos negativos. Utilizar a expressão “negro ruim” durante uma briga com alguém que possui traços indicando ancestralidade negra é um grande insulto. Já a categoria moreno é usada para contemplar as pessoas miscigenadas que não são vistas como de origem preta, indígena ou branca. Para evitar qualquer ofensa, o termo, que é dotado de certa ambiguidade, ainda pode ser utilizado em relação a um preto ou caboclo em sua presença. No entanto, são categorias livremente usadas para descrever um amigo ou vizinho: “aquele branco”, “aquele preto que vive perto de João Gomes”. Assim, 202 adultos da comunidade, incluídos numa pesquisa detalhada feita de casa em casa, foram classificados como moreno (50% do total), branco (17%), caboclo (23%) e preto (10%) (Ibidem, p. 121-122).

Em Gurupá verifica-se a tendência dos moradores a associarem o comportamento dos indivíduos às suas características físicas. As visões estereotipadas resultantes desta associação seriam parte da herança colonial e refletem as posições sociais dos três grupos raciais no passado escravocrata. É importante ainda indicar que nas categorias raciais estão implícitos alguns valores associados à sexualidade. A aparência clara e as características finas do caucasiano são consideradas mais atraentes, sinais do ideal do branqueamento. Há ainda uma inclinação das pessoas encararem o “moreno” e a “morena” como seu ideal de beleza. Os homens julgam a morena como o tipo feminino mais atraente, gostam do cabelo longo e liso da mulher “tapuia” (denominação genérica de indígena), da feição fina da branca e dos grandes olhos castanhos, da aparência escura e do cabelo preto da mulher mestiça. Já as mulheres preferem os homens mais claros com cabelo “bom”, liso e feições brancas. Suas preferências também estão ligadas a fatores econômicos e sociais, como no exemplo de Emilia, uma jovem de descendência luso-indígena, casada com um mulato muito escuro, mas bem-sucedido homem de negócios e “muito atraente”. Ela declarou que nunca se casaria com um preto, a não ser que ele estivesse perfumado, e que gostaria de ter se casado com um moreno claro. Porém, seu marido, “apesar de ele ser muito escuro, tem dinheiro” (Ibidem, p. 123), revelando que a condição de classe, de status social elevado embranquece, sobrepujando juízos estéticos.

As pessoas de origem mestiça de negro com branco, classificadas como morenas em Gurupá e mulatas em outras regiões do país, recebem também atributos negativos, como traiçoeiras, irascíveis e difíceis de lidar. Aqueles que possuem a pele mais clara são vistos como tendo “mau gênio”, termo empregado para indicar uma pessoa impaciente, cujo humor facilmente muda e torna-se raivosa. Em outro caso, um dos médicos do posto de saúde, um moreno escuro considerado rude e agressivo, provocou o seguinte comentário: “Quando um moreno escuro se torna médico, ele fica orgulhoso e tenta agir como um branco” (Ibidem, p. 124). Os relatos conferem às restrições a condição de mestiço e reforçam críticas à mestiçagem.

O número e a variedade de estereótipos em relação ao preto destoam do reduzido número de negros existente na população de Gurupá e com a pouca influência das raízes culturais africanas e modos de vida na comunidade. Há uma certa aura de prestígio relacionada aos “velhos pretos”, que foram líderes da irmandade devota de São Benedito, o santo mais famoso e mais milagroso de toda área da Baixa Amazônia (Ibidem, p. 124-125). O preto também é conhecido como um eloquente conversador e bom contador de histórias. De acordo com um ditado local, “qualquer que seja a pessoa que fale muito, é um negro”. Além do mais, o negro é encarado como espirituoso e esperto, e os homens são reconhecidos como sexualmente vigorosos. No caso das mulheres negras ou morenas escuras, elas são retratadas como tendo um alto desejo sexual, mais do que as caboclas ou as mulheres brancas (Ibidem, p. 125-126). De acordo com essas apreciações, os negros seriam valorizados a partir de estereótipos quanto aos atributos sexuais e à herança religiosa.

Wagley observa que mesmo que os estereótipos sobre os negros se apresentem favoráveis, através do destaque a atributos considerados valiosos na comunidade, eles o mostram, na verdade, como inferiores aos brancos (Ibidem, p. 126). De fato, as pessoas em Gurupá desprezam o negro de uma maneira jocosa, por meio de certos ditados, falas proferidas pelas pessoas de modo geral e mesmo pelos próprios negros, o que lembra os relatos contidos no estudo Negroes in Brazil: a study of race contact at Bahia (1942), de Donald Pierson, sobre as relações raciais em Salvador.

O caboclo é retratado como bom caçador e pescador, porém o termo adquire duplo significado: status social e características físicas indígenas. Assim, os habitantes das cidades amazônicas frequentemente empregam a categoria caboclo para se referir aos camponeses; a classe alta de Gurupá o utiliza para todos aqueles situados nas classes inferiores; e as pessoas de baixo status social associam os caboclos às comunidades indígenas que vivem nos afluentes do Amazonas.

O caboclo é considerado preguiçoso e vive “como um bicho” isolado na floresta. É ainda encarado como complicado e extremamente desconfiado. Tais estereótipos, entretanto, não são aplicados somente às pessoas do tipo físico indígena, mas também aos trabalhadores da borracha (Ibidem, p. 127-128). Ao abordar os preconceitos, Wagley sugere que essas ideias e conceitos estabelecidos pela população de Gurupá em relação com diferentes características físicas se refletem no sistema de classificação social. Deste modo, uma combinação de fatores determina a posição social, sendo a aparência física um deles (Ibidem, p. 128-129), e “raça” uma varável dependente.

Após pedir para onze informantes classificarem vinte indivíduos bem conhecidos na comunidade, o pesquisador percebeu um consenso quanto à classificação das pessoas com características nitidamente negras ou brancas, mas uma discordância a respeito das pessoas sem características bem demarcadas, mestiças. Notou, ainda, que a classificação por tipo físico sofria influência da posição social. Exemplos disto são o da professora classificada por cinco informantes como branca, provavelmente por conta de sua posição social, e por seis como morena, talvez devido a sua aparência proxima à cor preta e à textura de seu cabelo; e o de Dona Dora, uma das pessoas com maior prestígio na cidade, proprietária de uma grande casa comercial, que apesar de ser mulata escura, foi classificada por nove informantes como morena e branca por dois.

Com base em sua experiência etnográfica Wagley descreve as classes sociais: a primeira é composta por “gente de primeira”, que são os brancos; a classe baixa da população forma a segunda classe ou a “gente de segunda”; há os agricultores de subsistência, ou “gente do sítio”, que são os habitantes das terras altas nas proximidades de Gurupá; e, finalmente, os seringueiros, extrativistas da ilha ou “caboclos de beira”, que vivem nas casas construídas em estacas acima do mar na ilha e nos pântanos perto de Gurupá. Em decorrência do fato de a diferença entre a primeira classe e as outras três ser mais visível, Wagley pondera que talvez seja apropriado dizer que a sociedade divide-se em duas classes: a composta pela “gente de primeira” e a classe baixa, que inclui os agricultores e os seringueiros (Ibidem, p. 131-132).

Os principais critérios que Wagley lançou mão para compreender como essas classes sociais se formaram e se relacionam, com base no que os seus informantes declararam, foram: ocupação (o trabalho manual é símbolo da classe mais baixa); padrão de vida (a renda média das famílias da classe alta costumava ser três vezes maior do que a das outras três camadas juntas; além disso, há disparidades quanto ao tipo de alimentação consumida, vestimentas e o padrão das residências; educação (todos membros da classe alta eram alfabetizados, enquanto mais de 80% das pessoas de todo município de Gurupá são analfabetas); e tipo racial ou aparência física (a maioria dos componentes da classe alta são do tipo racial europeu, branco, enquanto a aparência da classe baixa é majoritariamente mestiça, negra ou ameríndia) (Ibidem, p. 133-134).

Assim, Wagley afirma que na “primeira classe” há diversos habitantes de origem mestiça, sendo muitos deles com ascendência de índios ou negros, e na classe baixa, por sua vez, há pessoas com aparência branca. Isto mostra, portanto, que raça enquanto características fenotípicas é uma representação informada pela indeterminação, subjetividade e dependência contextual da posição social, e não um determinante absoluto. Para Wagley, quando a aparência entra em conflito com a posição social de um indivíduo, esta tende a anular as características físicas observáveis. É por isto que as pessoas encontram dificuldade em chamar de caboclo ou de preto alguém de posição mais alta, ou de branco alguém da camada mais baixa (Ibidem, p. 136).

Portanto, mesmo que a ascensão social encontre obstáculos em Gurupá, não prevaleceria as restrições com base em marcas fenotípicas, mas, sobretudo, pelos determinantes sociais. Wagley cita o caso de Lobato, o marido de Dona Dora, filho de pais negros que o abandonaram, sendo adotado pelo coronel Filomeno Cesar Andrade, um poderoso comerciante. Lobato tornou-se um excelente trabalhador manual e um comerciante perspicaz, levando seu pai adotivo a lhe confiar tarefas cada vez mais importantes. Ele terminou por casar-se com Dora, filha da união anterior do coronel com uma negra. Quando o sogro faleceu, Lobato ficou responsável pela loja (e não as filhas do casamento com a esposa legal, que era branca). Esta história, de acordo com Wagley, mostra que a cor não foi um fator impeditivo para o sucesso de Lobato: o apoio da família, habilidade comercial, casamento com Dora e sucesso econômico foram suficientes para reduzir os preconceitos em relação aos seus traços físicos (Ibidem, p. 139-140).

Wagley conclui o estudo reafirmando que o preconceito ou a discriminação de raça ou de cor não é o único fator a determinar os padrões de relações entre indivíduos ou grupos, tal como ocorreria nos Estados Unidos. Em Gurupá e em outras comunidades amazônicas, a miscigenação criou uma população diversificada. Há representantes dos três grupos raciais em todas as classes sociais. Diante disto, Wagley declara que na Amazônia não existe problema de raça, e sim de classe (Ibidem, p. 140).

Embora as relações raciais em Gurupá sejam vistas por Wagley como predominantemente benignas, o antropólogo observa que o processo de modernização do Brasil suscitaria dois cenários possíveis. O primeiro deles diz respeito ao acelerado desenvolvimento econômico, que ampliaria o mercado de trabalho, permitindo a mobilidade social acompanhada da elevação do nível educacional, incluindo a população negra e mestiça. Não haveria, assim, barreiras raciais rígidas para a ascensão social, o que levaria à superação das disparidades socioeconômicas entre brancos e negros (Ibidem, p. 154-155). Nesta interpretação, em que raça aparece como dimensão subordinada da hierarquia de classes, perde-se de vista o poder estratificador do atributo racial.11

Contudo, Wagley apresenta simultaneamente um diagnóstico pessimista, revelando a possibilidade de ocorrência de determinadas situações na era do desenvolvimento, que resultam em tensões raciais, mais visíveis no Sudeste, como já havia assinalado o antropólogo no prefácio do livro Race and Class. Para ele,

Há indícios, tanto nos estudos atuais quanto em notícias dos grandes centros metropolitanos do país, de que estão surgindo discriminações, tensões e preconceitos baseados em raça. (…) Quando o número de indivíduos de ascendência negra ou mestiça melhora sua posição educacional e econômica, eles desafiam a posição da classe dominante branca. Isso pode resultar em uma ênfase na “raça” como um critério de posição social, em maior preconceito, em tensão entre os grupos raciais e até mesmo na discriminação. Tanto observadores estrangeiros como brasileiros têm a impressão de que as atitudes e conceitos ocidentais do racismo estão entrando no Brasil, juntamente com os avanços industriais e tecnológicos. Mas não existe uma relação inerente entre o industrialismo, a tecnologia Ocidental e o racismo Ocidental. Não há uma conexão necessária entre a melhoria generalizada das condições sociais, o desenvolvimento, através da competição, e as tensões e discriminação entre grupos raciais ou minoritários. Consciente dos perigos e armadilhas e tendo o cuidado de evitá-las, o Brasil poderá usufruir dos benefícios da mudança tecnológica e de maiores recompensas por suas potencialidades como país subdesenvolvido, sem perder sua rica herança da democracia racial. (WAGLEY, 1952, p. 155)

Wagley não descarta os conflitos ditados pelas relações entre modernidade e racismo. Mantém, no entanto, a crença de que a tradição, a “herança” na suposta preservação de uma espécie de cooperação racial venha prevalecer no Brasil. O antropólogo lembra os achados sociológicos de Costa Pinto e Oracy Nogueira em suas pesquisas do Projeto Unesco. O avanço do capitalismo moderno não cancela necessariamente as tensões raciais. Pode, inclusive, aguçá-las pelo processo de competição e de mobilidade social. Nesse sentido, Gurupá representaria a tradição do ideário da democracia racial ameaçado pelo desenvolvimento.

Considerações Finais

Wagley observou, por meio de seu estudo em Gurupá no final da década de 1940, que transformações moleculares vinham ocorrendo nas condições de vida das comunidades rurais, em decorrência de projetos de desenvolvimento, a exemplo das atividades sanitárias implantadas pelo Sesp. A introdução de novas técnicas de agricultura começava a tomar o lugar da agricultura de subsistência; consequentemente, os hábitos alimentares da população foram afetados; o incremento do comércio foi modificando as relações econômicas, agregando a lógica do mercado e do crédito; e as novas relações econômicas alteraram os parâmetros de distinção das classes sociais. Estas transformações no meio rural brasileiro, do qual a vida em Gurupá era representativa, tornava latente o processo de mudança social - tema caro às ciências sociais brasileiras (WAGLEY, 1953; MAIO & LIMA, 2009). A pesquisa pretendia demonstrar que o sucesso das intervenções estaria na razão direta da integração do conhecimento da realidade sociocultural das comunidades alvo dos programas voltados para a educação, saúde e economia.

Esse processo de transformações era visto por Wagley como benéfico e inevitável. A Amazônia estava fadada à incorporação ao mundo moderno. A solução indicada para o problema era o planejamento das ações, de forma a controlar as mudanças para que se tornassem eficazes e permanentes:

O conhecimento do modo de vida do homem na Amazônia fornecerá os indícios do que deverá ser modificado para que possam ser melhorados os padrões de vida. Esse conhecimento nos permitirá prever algumas das reações que não poderão deixar de provocar a introdução de novos elementos na cultura amazônica. O ideal que consiste em ‘fazer com que os benefícios oriundos de nossas conquistas científicas e de nosso progresso industrial concorram para o progresso e o crescimento das áreas subdesenvolvidas’ requer uma mudança cultural. (WAGLEY, 1953, p. 17)

As palavras de Wagley ratificam, nesse sentido, a ideia de que os cientistas sociais tinham uma contribuição a dar na passagem do mundo subdesenvolvido à modernidade. Os “benefícios oriundos de nossas conquistas científicas” estavam voltados também para a Amazônia, enquanto área com potencial econômico.

A perspectiva de Wagley poderia ser vista como afinada à antropologia do desenvolvimento. Arturo Escobar localiza a era do desenvolvimento no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, quando houve a destruição econômica da Europa ocidental, o subsequente desmantelamento final de seus impérios coloniais, o estabelecimento de uma nova hegemonia dos Estados Unidos no mundo, a consolidação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) como potência concorrente e pela emergência da Guerra Fria. Neste momento, se testemunhou a emergência de um modo peculiar de conceber e realizar as relações entre sociedades e povos. Em sua reflexão pós-desenvolvimentista, Escobar aborda o “desenvolvimento” como um regime de representações e um domínio de intervenção na realidade que pretendia - mediante um modo de conhecer, da introdução de capitais e procedimentos técnicos de vários tipos - empreender uma transformação radical das sociedades tidas por mais empobrecidas e atrasadas, segundo os padrões vigentes nas formações sociais mais ricas do mundo situadas no eixo Europa-Estados Unidos, moldando-as à feição de um Ocidente moderno que avançava em seu processo de mundialização. Assim, o desenvolvimento tanto se constitui quanto se expressa por meio de seus “aparatos do desenvolvimento” um conjunto de instituições, conhecimentos, métodos, técnicas e tecnologias. Tais aparatos e as conexões entre eles tanto concorrem - e são mesmo constituídos - para o atendimento de necessidades e para a resolução dos problemas da relação subdesenvolvimento/desenvolvimento quanto para a própria construção dessa arena ou domínio de conhecimentos, poder e práticas sociais (ESCOBAR, 1995; PIRES-ALVES & MAIO, 2015).

Não são poucas as críticas à visão pós-desenvolvimentista proposta por Escobar e por essa modalidade de pensamento pós-moderno. Uma delas, a do antropólogo Ralph Grillo, diz respeito à concepção monolítica do desenvolvimento e a enunciação de apenas uma dura uni-direcionalidade na produção de representações e funcionamento dos seus aparatos. Esta visão essencializada, monolítica da “antropologia do desenvolvimento” não permite um olhar mais matizado das diferenças do conhecimento, das experiências históricas de países centrais e periféricos, entre o saber dominante e o local, sobretudo nos anos 1950 e 1960. Nesse sentido, haveria uma significativa pluralidade entre os chamados antropólogos do desenvolvimento, contemplando diversas vozes e conhecimentos. Em realidade, há uma distância expressiva entre ideias e ações das agências de desenvolvimento e as das populações locais (ANDRADE, 2015, p. 59).

Em princípio, aos olhos de Escobar, Wagley poderia ser identificado com a antropologia do desenvolvimento, com uma agenda de modernização, instrumento ideológico norte-americano. O antropólogo acreditava que era irreversível o processo de mudança social, a necessidade de assimilação dos padrões econômicos, tecnológicos e culturais ocidentais. Contudo, esta visão deve ser matizada caso não se considere como meramente ideológico o comportamento dos atores, o esforço dos cientistas sociais em produzir uma ciência axiologicamente neutra e de alcance universal (FIGUEIREDO, 2009). Indo além, Wagley revela uma preocupação com a possibilidade de tensões no processo de implementação de políticas públicas. Com o objetivo de minimizar potenciais conflitos suscitados pelas mudanças no universo rural, ele pondera que as populações do interior deveriam ser entendidas “em seus próprios termos” para que a modernização em curso fosse bem-sucedida. Com efeito, seu pensamento denota certa ambivalência ao reconhecer a importância da cultura local, o papel dos membros das comunidades na sedimentação dos comportamentos das populações rurais e, simultaneamente, creditar aos atores do campo da saúde e das ciências sociais a missão de transformar hábitos e valores dessas populações; em suma, de promover a mudança cultural.

No plano das relações raciais, Wagley é mais cauteloso, buscando combinar tradição e modernidade, acreditando na preservação da sociabilidade brasileira positiva em face do desenvolvimento do capitalismo, do crescimento das tensões raciais nos principais centros urbanos brasileiros. A modernização não deveria importar em perda da “rica herança da democracia racial” (WAGLEY, 1952a, p. 155).

O exame do estudo de comunidade em Gurupá permite abordar as relações entre ciências sociais e desenvolvimento no Brasil. Mantidas suas especificidades, a posição de Wagley e seu projeto de “mudança cultural”, ao sublinhar a participação do antropólogo no processo de “mudança provocada”, permite um diálogo com outros cientistas sociais, como Oracy Nogueira, Emílio Willems, Luiz de Aguiar Costa Pinto, Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos. Na era do desenvolvimento, esses profissionais não perderam de vista a possibilidade de o conhecimento socioantropológico assumir um sentido crítico das assimetrias provocadas pelas mudanças.

*Todas as obras e todos os documentos utilizados na pesquisa e na elaboração do artigo são citados nas notas e na bibliografia. O artigo não foi publicado em plataforma de preprint.

**Doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj). Pesquisador titular do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes) e professor do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. Bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) 1B.

1Duas semanas após publicar “Antropologia aplicada”, Wagley resenhou o livro Plaineville, USA, do antropólogo norte-americano Carl Withers, que se tornou uma referência na área dos estudos de comunidade (WAGLEY, 1945d).

2Wagley foi casado com Cecilia Roxo, funcionária da Biblioteca Nacional. Ele a conheceu na Universidade de Columbia, onde a bibliotecária foi fazer um curso. Cecilia pertencia à família da elite brasileira oriunda da nobreza do império e facilitou uma série de contatos de Wagley com os intelectuais que viviam no Rio de Janeiro (KOTTAK, 2014; PACE, 2014).

3Carta de Charles Wagley a Heloisa Alberto Torres em 2 de agosto de 1942.

4Um exemplo da atuação de Cecilia Roxo e Clara Galvão encontra-se no relatório de Wagley à Unesco. Em suas palavras: “In general it was easier for Cecilia Wagley and Clara Galvão to work with the women, and Eduardo Galvão and the writer to interview men. The results of each day´s interviews were recorded in our notebooks na information was exchanged in the evenings so that facts collected by each of us might be checked by others with other informants during the next day.” (WAGLEY, 1948a, p. 4).

5Columbia University Bulletin of Information, nº 36, 1948, p.31.

6Carta de Charles Wagley a Donald Pierson, 5/04/1949, 2p., ISA/NAA, caixa 10, correspondence Donald Pierson, 1950-1951.

7Carta de José Valladares a Charles Wagley, 3/05/1949, 1p., Marvin Harris Papers, National Anthropological Archives (NAA), Box 10.

8Exposição de Motivos, 15/7/1949, 1p. Marvin Harris Papers, National Anthropological Archives (NAA), Box 10.

9Gilberto Freyre, em sua estada em Nova York, como representante brasileiro na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em outubro de 1949, foi convidado por Charles Wagley “para fazer uma exposição sobre qualquer tema que lhe conviesse para um seminário para alunos de pós-graduação que estão trabalhando sob minha orientação acerca da tradição cultural portuguesa. A maioria está diretamente interessada no Brasil, mas também há alunos trabalhando com Portugal e sobre os portugueses na África. Eu espero que no mínimo dois ou três alunos comecem o trabalho de campo no Brasil no próximo ano” (tradução livre do autor). Na mesma carta, Wagley lembra o encontro que teve com Gilberto Freyre em 1941, no Museu Nacional, quando era pesquisador-visitante. Carta de Charles Wagley a Gilberto Freyre, provavelmente da primeira quinzena de outubro de 1949. Arquivo da Fundação Gilberto Freyre.

10Informações extraídas das entrevistas prestadas ao autor por Harry William Hutchinson (8 e 9/7/1995, informação verbal), Benjamin Zimmerman (20/3/1996, informação verbal) e Marvin Harris (24/4/1996, informação verbal).

11Uma crítica à visão de Wagley encontra-se em Hasenbalg (1999, p. 76). Para o autor: “Raça (cor, marca ou fenótipo) como atributo ascrito que os indivíduos não podem modificar ao longo de sua vida, não é uma característica a mais como renda, educação e ocupação. Raça, cor ou fenótipo é um componente causal decisivo nas possibilidades de realização individual nessas outras dimensões da hierarquia social, que são dimensões do status adquirido.”

Referências bibliográficas

ANDRADE, Romulo de Paula. Contribuições para um debate: a antropologia do desenvolvimento e a valorização econômica da Amazônia (1951-1955). Cadernos do Desenvolvimento, Rio de Janeiro, v. 10, n. 16, p. 53-72, 2015. Disponível em: <https://bit.ly/2kg3sL1>. Acesso em: 13 set. 2019. [ Links ]

BASTOS, Nilo Chaves Brito. Sesp/FSESP: 1942 - evolução histórica - 1991. Brasília, DF: Fundação Nacional de Saúde, 1996. [ Links ]

CAMPOS, André Luiz Vieira. Políticas internacionais de saúde na Era Vargas: o Serviço Especial de Saúde Pública, 1942-1960. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006. [ Links ]

CARNEIRO, Paulo E. de Berrêdo. O Instituto Internacional da Hileia Amazônica: razões e objetivos de sua criação. Rio de Janeiro: Impr. Nacional, 1951. [ Links ]

CORRÊA, Mariza. Histórias da Antropologia no Brasil: 1930-1960. Testemunhos: Donald Pierson e Emilio Willems. São Paulo: Vértice, 1987. [ Links ]

CORRÊA, Mariza & MELLO, Januária (org.). Querida Heloísa/Dear Heloisa: cartas de campo para Heloisa Alberto Torres. São Paulo: Editora Unicamp, 2008. Série Pesquisa. [ Links ]

CUETO, Marcos. Cold War, deadly fevers: malaria eradication in México, 1955-1975. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2007. [ Links ]

DEAN, Warren A luta pela borracha no Brasil. São Paulo: Nobel, 1989. [ Links ]

ESCOBAR, Arturo. Encountering development: the making and unmaking of the Third World. Princeton: Princeton University Press, 1995. [ Links ]

FIGUEIREDO, Regina Érika Domingos. Cuidando da saúde do vizinho: as atividades de antropólogos norte-americanos no Brasil. Dissertação de mestrado em Antropologia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2004. [ Links ]

FIGUEIREDO, Regina Érika Domingos. Histórias de uma Antropologia da “Boa Vizinhança”: um estudo sobre o papel dos antropólogos nos programas interamericanos de assistência técnica e saúde no Brasil e no México (1942-1960). Tese de doutorado em Antropologia. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2009. [ Links ]

FREYRE, Gilberto. Problemas brasileiros de Antropologia. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943. [ Links ]

HARRIS, Marvin. Charles Wagley’s contribution to Anthropology. Florida Journal of Anthropology, Gainesville, n. 6, p. 1-4, 1990. [ Links ]

HASENBALG, Carlos. O negro no Rio de Janeiro: revisitando o Projeto Unesco. In: HASENBALG, Carlos et al. Cor e estratificação social. Rio de Janeiro: Contra Capa, 1999, p. 60-85. [ Links ]

KOTTAK, Conrad Philip. Charles Wagley: sua carreira, seu trabalho, seu legado. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, Belém, v. 9, n. 3, p. 623-630, 2014. Disponível em: <https://bit.ly/2kgR25L>. Acesso em: 13 set. 2019. doi: http://dx.doi.org/10.1590/1981-81222014000300004Links ]

LLEYS, Collin. The rise and fall of Development Theory. In: HAUGERUD, Angelique; EDELMAN, Marc (org.). The Anthropology of Development and globalization: from classical political economy to contemporary neoliberalism. Oxford: Blackwell, 2005, p. 109-125. [ Links ]

MAGALHÃES, Rodrigo Cesar da Silva; MAIO, Marcos Chor. Desenvolvimento, ciência e política: o debate sobre a criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica. História, Ciências, Saúde, Rio de Janeiro, v. 14, suplemento, p. 169-189, 2007. Disponível em: <https://bit.ly/2lMUQMz>. Acesso em: 20 jun. 2017. doi: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702007000500008Links ]

MAHAR, Dennis J. Desenvolvimento econômico da Amazônia: uma análise das políticas governamentais. Rio de Janeiro: Ipea; Inpes, 1978. [ Links ]

MAIO, Marcos Chor; SÁ, Magali Romero. Ciência na periferia: a Unesco, a proposta de criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica e as origens do Inpa. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 6, p. 975-1017, 2000. Disponível em: <https://bit.ly/2kzuhu4>. Acesso em: 15 jul. 2016. doi: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702000000500011Links ]

MAIO, Marcos Chor. A tradução local de um projeto internacional: a Unesco, o CNPq e a criação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. In: FAULHABER, Priscila & TOLEDO, Peter Mann (ed.). Conhecimento e fronteira: história da ciência na Amazônia. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi; Brasília, DF: Paralelo 15, 2001, p. 51-81. [ Links ]

MAIO, Marcos Chor. Abrindo a “caixa-preta”: o projeto Unesco de relações raciais. In: PEIXOTO, Fernanda Arêas et al. (org.). Antropologias, histórias, experiências. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 143-168. [ Links ]

MAIO, Marcos Chor. A Unesco e o projeto de criação de um laboratório científico internacional na Amazônia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 19, n. 53, p. 115-130, 2005. Disponível em: <https://bit.ly/2kLFurd>. Acesso em: 10 set. 2017. doi: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142005000100008Links ]

MAIO, Marcos Chor & LIMA, Nísia Trindade. Tradutores, intérpretes ou promotores de mudança? Cientistas sociais, educação sanitária rural e resistências culturais (1940-1960). Sociedade e Estado, Brasília, DF, v. 24, n. 2, p. 529-561, 2009. Disponível em: <https://bit.ly/2kzxfPc>. Acesso em: 25 jul. 2015. doi: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922009000200008Links ]

MAIO, Marcos Chor et al. Donald Pierson e o Projeto do Vale do Rio São Francisco: cientistas sociais em ação na era do desenvolvimento. Dados, Rio de Janeiro, v. 56, n. 2, p. 245-284, 2013. Disponível em: <https://bit.ly/2kl7Jgq>. Acesso em: 13 set. 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52582013000200001Links ]

MAIO, Marcos Chor & SANTOS, Ricardo Ventura. Antiracism and the uses of science in the post-World War II: an analysis of UNESCO’s first statements on race (1950 and 1951). Vibrant, Brasília, DF , v. 12 , n.2, p. 1-26, 2015. Disponível em: <https://bit.ly/2kgMOuO>. Acesso em: 7 abr. 2016. doi: http://dx.doi.org/10.1590/1809-43412015v12n2p001Links ]

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Visita ao velho senhor: Charles Wagley. Revista USP, São Paulo, n. 5, p. 119-130, 1987. [ Links ]

NEEDHAM, Joseph. Science and international relations. Oxford: Blackwell, 1949. [ Links ]

PACE, Richard. O legado de Charles Wagley: uma introdução. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, Belém, v. 9, n. 3, p. 597-615, 2014. Disponível em: <https://bit.ly/2kgMGLQ>. Acesso em: 13 set. 2019. doi: http://dx.doi.org/10.1590/1981-81222014000300002Links ]

PACKARD, Randall. Visions of the postwar health and development and their impact on public health interventions in the developing world. In: PACKARD, Randall & COOPER, Frederick (ed.). International development and the Social Sciences. Berkeley: University of California Press, 1997, p. 93-118. [ Links ]

PIRES-ALVES, Fernando A. & MAIO, Marcos Chor. A saúde na alvorada do desenvolvimento: o pensamento de Abraham Horwitz. História, Ciências, Saúde, Rio de Janeiro, v. 22, n. 1, p. 69-93, 2015. Disponível em: <https://bit.ly/2lPMeEK>. Acesso em: 4 jan. 2018. doi: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702015000100005Links ]

PRICE, David H. Anthropological intelligence: the deployment and neglect of American Anthropology in the Second World War. Durham: Duke University Press, 2008. [ Links ]

PRICE, David H. Connecting wartime Anthropology’s trajectories with the birth of area studies. In: OSS, INTELLIGENCE, AND KNOWLEDGE OF THE WORLD, 2012, New York. Proceedings. New York: Columbia University Press, 2012. [ Links ]

REDFIELD, Robert. Civilização e cultura de folk: estudo de variações culturais em Yucatan. São Paulo: Martins Fontes, 1949. [ Links ]

ROSA, Francisco Tadeu Ribas Santos. A aliança e a diferença: uma leitura do itinerário intelectual de Charles Wagley. Dissertação de mestrado em Antropologia Social, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1993. [ Links ]

WAGLEY, Charles. A educação sanitária no Brasil, Boletim do SESP, Rio de Janeiro, n. 25, p. 5-8, 1945a. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Antropologia aplicada. O Jornal, Rio de Janeiro, 29 abr. 1945b, p. 1. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Estudos regionais e problemas sociais. Revista do Instituto Brasil-Estados Unidos, Rio de Janeiro, v. 3, n. 9, p. 61-70, 1945c. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Plaineville, USA. O Jornal, Rio de Janeiro, 13 maio 1945d, p. 3. [ Links ]

WAGLEY, Charles. A social survey of an Amazon community with recommendations for future research. International Institute of Hylean Amazon, Part III b, 330.19(8)A 01 IIHA, Paris: Unesco Archives, 1948a, 26 p. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Area research and training on the study of World Areas. New York: Social Science Research Council, 1948b. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Tentative program for an exploratory community study in the Amazon Valley. International Institute of Hylean Amazon, Part III b, 330.19(8)A 01. Paris: Unesco Archives, 1948c, 3 p. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Regionalism and cultural unity in Brazil. Social Forces, Oxford, v. 26, n. 4, p. 457-464, 1948d. Disponível em: <https://bit.ly/2kl391I>. Acesso em: 9 ago. 2018. doi: https://doi.org/10.2307/2571881Links ]

WAGLEY, Charles. The study of world areas: a report on the national conference. Social Science Research Council, New York, v. 2, n. 1, p. 1-12, 1948e. [ Links ]

WAGLEY, Charles. A project for regional analysis, Marvin Harris Papers. National Anthropological Archives, Smithsonian Institution, Washington, DC: Caixa 1, 5p., 1949. [ Links ]

WAGLEY, Charles et al. Uma Pesquisa Sobre a Vida Social no Estado da Bahia. Salvador, Publicações do Museu do Estado, nº 11, 1950. [ Links ]

WAGLEY, Charles. The Brazilian Amazon: the case of under-developed area. Four Papers presented in the Institute for Brazilian Studies. Nashville: Vanderbilt University Press, p. 9-31, 1951. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Race and class in rural Brazil. Paris: Unesco, 1952a. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Race relations in an Amazon community. In: WAGLEY, Charles (ed.). Race and class in rural Brazil. Paris: Unesco, 1952b, p. 116-141. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Amazon town. New York: Columbia University Press, 1953. [ Links ]

WAGLEY, Charles. On the concept of social race in the Americas. In: ADAMS, Richard N. & HEALTH, Dwight B. (ed.). Contemporary cultures and societies of Latin America. New York: Random House, 1965, p. 531-545. [ Links ]

WAGLEY, Charles. Interview: Video Oral history of anthropologist Charles Wagley, University of Florida’s Department of Anthropology & Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=e_b1YrKu0Ts. 1983, Acesso em: 25 mar. 2017. [ Links ]

WILLEMS, Emilio. A solução do problema rural brasileiro como mudança social provocada. Sociologia, [S. l.], v. 2, n. 5, p. 20-28, 1943. [ Links ]

Recebido: 27 de Agosto de 2018; Aceito: 02 de Agosto de 2019

Contato Av. Brasil, 4365 - sala 316 21040-900 - Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil marcos.maio@fiocruz.br

Editores responsáveis:

Júlio Pimentel Pinto e Flavio de Campos

Organizadores do Dossiê

Amazônia Global: Espaços de Circulação e Representação da Fronteira:

Nelson Sanjad (MPEG)

Érico Silva Muniz (UFPA)

Júlio Schweickardt (Fiocruz)

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution NonCommercial, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que sem fins comerciais e que o trabalho original seja corretamente citado.