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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.13 no.2 São Paulo June 1979

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101979000200010 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Taxa de chumbo em amostra de voluntários "não expostos" habitantes da Grande São Paulo — Brasil

 

The level of lead in blood samples from non-exposed volunteer residents of Great S. Paulo (Brazil)

 

 

Diogo Pupo NogueiraI; Sérgio ColacioppoI; José Maria Pacheco de SouzaII; Cleide Bernardes PezzaIII; Marlene Lopes Assis de SouzaI; Jorge da Rocha GomesI

IDo Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP — Av. Dr. Arnaldo, 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil
IIDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP — Av. Dr. Arnaldo, 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil
IIIDa Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho — Alameda Barão de Limeira, 539 — 01202 — São Paulo, SP — Brasil

 

 


RESUMO

Através de um espectrofotômetro de absorção atômica foram pesquisados os níveis de chumbo no sangue de 315 voluntários de ambos os sexos (167 do sexo masculino e 148 do feminino) que não revelaram exposição ocupacional a esse metal. Foi encontrado um valor médio de 17,2 µg/100 ml para o sexo masculino e 14,2 µg/100 ml para o sexo feminino. Sugere-se a execução de novos estudos que envolvam populações definidas e amostragem probabilística.

Unitermos: Chumbo. Espectrofotometria de absorção atômica.


ABSTRACT

The level of lead in the blood of 315 volunteers (167 male and 148 female) who had not been exposed professionally to the metal, was measured by the atomic absortion spectrophotometer method. The average value was 17.2 µg/100 ml in the males and 14.2 µg/100 ml in the females. It is suggested that new studies should be carried out, using a definite population and a probabilistic sampling.

Uniterms: Lead. Spectrophotometry, atomic absorption.


 

 

INTRODUÇÃO

O chumbo é um elemento químico conhecido e utilizado industrialmente desde os povos antigos, e devido à sua larga aplicação é encontrado atualmente bastante disperso no nosso meio ambiente, aumentando sua concentração normal nos organismos vivos.

Um trabalhador exposto profissionalmente a chumbo terá seu nível elevado no sangue em virtude desta exposição, porém, outro indivíduo não exposto profissionalmente ao metal poderá, igualmente, ter seu nível sangüíneo aumentado em virtude de exposição não ocupacional, através do ar, água e alimentos; desta forma torna-se tarefa difícil determinar se um indivíduo está ou não com níveis elevados de chumbo no sangue em virtude de uma exposição ocupacional ou ambiental.

Alguns autores desenvolveram estudos e apresentaram resultados de concentrações por eles consideradas "normais" de chumbo no sangue. Goldwater e Hoover,2 em estudo internacional com residentes de vários países concluíram que níveis de 15 µg/100 ml a 40 µg/100 ml poderiam ser considerados como indicativos de uma exposição ambiental e não ocupacional. No Brasil, tem-se conhecimento do trabalho de Canella 1, que encontrou em indivíduos não expostos, o valor médio de 20 µg de chumbo por 100 g de sangue, em uma amostragem de 92 adultos do sexo masculino.

No presente trabalho o objetivo foi o de conhecer a distribuição da concentração de chumbo no sangue em indivíduos que se declararam não expostos profissionalmente a este elemento químico. Desta forma, os níveis encontrados poderiam ser atribuídos a fatores ambientais, tais como inalação de emanações de veículos automotores e de fábricas, ingestão de alimentos e água contaminados por chumbo, entre outros.

Em virtude da amostra de indivíduos ser de voluntários de uma população não exatamente definida, não foram feitas inferências mais gerais e, principalmente, nenhuma tentativa de estabelecer padrões de normalidade de concentração de chumbo no sangue, servindo o presente trabalho para se obter uma idéia geral do problema e, também, como base para uma pesquisa de maior amplitude.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram obtidas amostras de sangue de uma população de trabalhadores de empresas industriais (de produtos alimentícios, de plásticos e de produtos eletrônicos); funcionários de um jornal, estudantes de curso pré-vestibular da Capital de São Paulo; pessoas não portadoras de doença atendidas no Centro de Saúde da Barra Funda; pessoal do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP); e pessoal da Faculdade de Saúde Pública da USP. Em relação aos empregados de empresas industriais, o máximo cuidado foi tido no sentido de só se obter sangue daqueles que se dedicassem a atividades onde comprovadamente não houvesse exposição ocupacional a chumbo. Decidiu-se limitar as idades entre 20 a 69 anos inclusive, tendo sido examinados, então, o sangue de 148 mulheres e de 167 homens.

As amostras de 5 ml de volume de sangue foram colhidas com seringas plásticas descartáveis, previamente heparinizadas. Após a colheita, as seringas foram fechadas por meio de protetor plástico de agulha e armazenadas sob refrigeração até o momento da análise no laboratório.

As amostras de sangue foram analisadas no laboratório de Toxicologia Industrial do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP, que funciona em convênio com a Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho — FUNDACENTRO.

A análise química foi feita segundo o método descrito por Hessel3: uma alíquota de 5 ml de sangue é hemolizada com solução de Triton-X-100; o chumbo é complexado com pirrolidin ditiocarbonato de amônio (Eastman No. 9279) e o complexo extraído com iso-butil-metilcetona. O extrato foi analisado por espectrofotometria de absorção atômica, com equipamento Perkin Elmer 360.

Para cada sexo foram calculadas as concentrações média e mediana de chumbo no sangue, a variância e o desvio padrão e obtidas a moda, a amplitude de variação e os valores máximo e mínimo, tendo-se testado a diferença entre as médias pelo teste t de Student. As distribuições de freqüência foram apresentadas sob a forma de histogramas. Estudou-se, ainda, a forma de distribuição, testando-se a possível normalidade, através do teste de Kolmogorov-Smirnov, com ajuste segundo Lillefors 4 (1967).

 

RESULTADOS E COMENTÁRIOS

A Tabela mostra os valores de chumbo encontrados, podendo-se notar que as amplitudes de variação são praticamente as mesmas nos dois sexos, com valores mínimo e máximo também extremamente próximos. No sexo masculino a menor concentração observada foi 5µg/100 ml e no sexo feminino 3 µg/100 ml; as concentrações maiores foram 44 µg/100 ml e 45 µg na mesma ordem. As variabilidades são também semelhantes, como mostram os desvios padrão de 7,8 µg/100 ml e 7,1 µg/100 ml.

Ao se comparar os valores médios, verifica-se que o sexo masculino apresenta valor mais alto do que o sexo feminino, resultado que é acompanhado pelas medianas (17,2 µg/100 ml x 14,2 µg/100 ml e 16 µg/100 ml x 13 µg/100 ml). A diferença é estatisticamente significante, a um nível de 1% (teste bicaudal), com o valor observado de t = 3,563.

As Figuras 1 e 2 são os histogramas correspondentes às distribuições de freqüência das duas amostras. A distribuição no sexo feminino parece ser mais assimétrica do que aquela do sexo masculino, havendo ainda uma grande concentração de observações na classe 10 |— 15 µg/100 ml, o que explicaria estatisticamente a diferença de médias já mencionada. Para a confirmação do presente resultado e explicações epidemiológicas, fazem-se necessários novos estudos que envolvam populações bem definidas e amostragem probabilística.

 

 

 

 

As formas das distribuições foram também testadas para normalidade. Para um nível de 10% de significância, foi possível aceitar-se a normalidade para o sexo masculino (p > 0,20), mas não para o sexo feminino (p < 0,01). Decidiu-se, então, verificar se a transformação logarítmica satisfazia aquela condição; ainda a nível de 10% de significância, a variável "logaritmo na base de 10 da concentração de chumbo" foi aceita como normal, para ambos os sexos, com os valores 0,20 > p > 0,15 para o sexo masculino e 0,15 > p > 0,10 para o sexo feminino.

 

AGRADECIMENTOS

Aos técnicos Maria Lusia Rodrigues Pereira, Maria Helena Callera Pedrosa e Juan Canet Font, da Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho, pela colaboração na colheita de amostras de sangue e no auxílio às operações de análise.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CANELLA, D. J. Concentração de chumbo no sangue de trabalhadores industriais não expostos ao metal. In: Congresso Americano de Medicina do Trabalho, São Paulo, 1964. Anais. São Paulo, ABPA, 1964, p. 300-1.        [ Links ]

2 GOLDWATER, J. & HOOVER, W. An international study of "normal" levels of lead in blood and urine. Arch. environm. Hlth, 15:60-3, 1967.        [ Links ]

3. HESSEL, D. W. A simple and rapid quantitative determination of lead in blood. At. Absor. Newsl., 7:55-6, 1968.        [ Links ]

4. LILLEFORS, H. W. On the Kolmogorov-Smirnov test for normality with mean and variance unknown. J. Amer. statist. Ass., 62:399-402, 1967.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 05/01/1979
Aprovado para publicação em 22/03/1979

 

 

O arquivo disponível sofreu correções conforme ERRATA publicada no Volume 13 Número 3 da revista.

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