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Revista de Saúde Pública

On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.51  São Paulo  2017  Epub Dec 04, 2017

https://doi.org/10.11606/s1518-8787.2017051006775 

Artigos Originais

Validade de peso, estatura e IMC referidos por puérperas do estudo Nascer no Brasil

Roberta Gabriela Pimenta da Silva AraújoI  II  IV 

Silvana Granado Nogueira da GamaI 

Denise Cavalcante de BarrosII 

Cláudia SaundersIII 

Inês Echenique MattosI 

I Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

II Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

III Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Nutrição Josué de Castro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

IV Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública. Rio de Janeiro, RJ, Brasil


RESUMO

OBJETIVO

Avaliar a acurácia das informações de peso pré-gestacional, estatura, índice de massa corporal pré-gestacional e peso na última consulta de pré-natal, segundo características maternas, variáveis sociodemográficas e de pré-natal.

MÉTODOS

O estudo foi desenvolvido com dados do questionário face a face e do cartão da gestante (padrão-ouro) do estudo “Nascer no Brasil, 2011–2012”. Para avaliar as diferenças entre as variáveis antropométricas medidas e referidas, utilizou-se o teste de Kruskal-Wallis para as variáveis dividas em quartis. Para as variáveis contínuas, adotou-se o teste de Wilcoxon, gráficos de Bland e Altman, diferença média entre as informações medidas e referidas pelas mulheres. Estimou-se a sensibilidade e o coeficiente de correlação intraclasse.

RESULTADOS

No estudo, 17.093 mulheres possuíam cartão de gestante. Observou-se uma subestimação do peso pré-gestacional em 1,51 kg (DP = 3,44) e do índice de massa corporal em 0,79 kg/m2 (DP = 1,72), e superestimação da estatura em 0,75 cm (DP = 3,03) e do peso na última consulta em 0,22 kg (DP = 2,09). Os coeficientes de correlação intraclasse (CCIC) obtidos para as variáveis antropométricas foram: estatura (CCIC = 0,89), peso pré-gestacional (CCIC = 0,96), índice de massa corporal pré-gestacional (CCIC = 0,92) e peso na última consulta (CCIC = 0,98).

CONCLUSÕES

Os resultados sugerem que as variáveis antropométricas referidas foram válidas para a população de estudo, e podem ser utilizadas em estudos com populações que tenham características semelhantes.

Palavras-Chave: Gestantes; Peso Corporal; Estatura; Índice de Massa Corporal; Autoavaliação; Reprodutibilidade dos Testes; Estudos de Validação

ABSTRACT

OBJECTIVE

To evaluate the accuracy of information on pre-gestational weight, height, pre-gestational body mass index, and weight at the last prenatal appointment, according to maternal characteristics and sociodemographic and prenatal variables.

METHODS

The study was developed using data from the face-to-face questionnaire and prenatal card (gold standard) of the study “Birth in Brazil, 2011–2012”. To evaluate the differences between the measured and self-reported anthropometric variables, we used the the Kruskal-Wallis test for the variables divided into quartiles. For the continuous variables, we used the Wilcoxon test, Bland-Altman plot, and average difference between the information measured and reported by the women. We estimated sensitivity and the intraclass correlation coefficient.

RESULTS

In the study, 17,093 women had the prenatal card. There was an underestimation of pre-gestational weight of 1.51 kg (SD = 3.44) and body mass index of 0.79 kg/m2 (SD = 1.72) and overestimation of height of 0.75 cm (SD = 3.03) and weight at the last appointment of 0.22 kg (SD = 2.09). The intraclass correlation coefficients (ICC) obtained for the anthropometric variables were: height (ICC = 0.89), pre-gestational weight (ICC = 0.96), pre-gestational body mass index (ICC = 0.92), and weight at the last appointment (ICC = 0.98).

CONCLUSIONS

The results suggest that the mentioned anthropometric variables were valid for the study population, and they may be used in studies of populations with similar characteristics.

Key words: Pregnant Women; Body Weight; Body Height; Body Mass Index; Self-Assessment; Reproducibility of Results; Validation Studies

INTRODUÇÃO

A avaliação do estado nutricional antropométrico faz parte da prática clínica e, frequentemente, é utilizada em pesquisas na área de saúde. Peso e estatura são importantes instrumentos da avaliação antropométrica da população, pois são bons preditores das condições funcionais do organismo, da morbidade e mortalidade25. Durante a gestação, essas medidas compõem indicadores antropométricos úteis para a prevenção de desfechos maternos desfavoráveis, como ganho de peso inadequado, diabetes gestacional e hipertensão, além de problemas com a criança, como macrossomia e morte perinatal8,11,25.

O índice de massa corporal (IMC) pré-gestacional é um dos indicadores de maior relevância para o acompanhamento do estado nutricional da mulher durante a gestação. O Institute of Medicine (IOM) e o Ministério da Saúde recomendam que seja realizada a classificação do IMC, para estimar o ganho de peso gestacional total adequado, para cada mulher, o que pode diminuir o número de intercorrências para o binômio mãe-filho6,11.

Além disso, o IOM recomenda que sejam desenvolvidos estudos de validação para o peso, estatura e IMC nos diferentes estágios do período gestacional para embasar diretrizes propostas para o ganho de peso durante a gestação11.

Essas medidas são obtidas por meio de técnicas de fácil à média complexidade e pouco invasivas, e a aferição direta é a forma preferencial para a obtenção desses dados. No entanto, devido a problemas como falta de equipamentos e alto custo das pesquisas, os estudos epidemiológicos, de base populacional, têm utilizado medidas de peso e estatura referidos como alternativa válida às adquiridas de forma direta, pois produzem resultados proxy dos valores reais9,11,18.

Dada a importância dessas medidas, verificar a validade dessas informações pode ajudar na correta classificação do estado nutricional da mulher, possibilitando a utilização de dados referidos para uma amostra populacional com as mesmas características.

O presente estudo objetivou avaliar a acurácia do peso pré-gestacional, estatura, IMC pré-gestacional e do peso na última consulta de pré-natal referidos pelas mulheres, segundo características maternas, variáveis sociodemográficas e de pré-natal.

MÉTODOS

Estudo descritivo de validade das informações antropométricas da pesquisa “Nascer no Brasil, 2011–2012”, de âmbito nacional e de base hospitalar, realizado com puérperas e seus conceptos, entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012. A amostra foi selecionada em três estágios. O primeiro, composto por hospitais com 500 ou mais partos/ano, estratificado pelas cinco macrorregiões do país, localização (capital ou não capital), e tipo de hospital (privado, público e misto). O segundo estágio foi composto pelo número de dias em cada hospital (mínimo de sete dias) e o terceiro, composto pelas puérperas. Em cada um dos 266 hospitais amostrados, foram entrevistadas 90 puérperas, totalizando 23.894 sujeitos. Mais informações sobre o desenho amostral encontram-se detalhadas em Vasconcellos et al.24

Foram realizadas entrevistas face a face com as puérperas durante a internação hospitalar, extraídos dados do prontuário da mulher e do recém-nato e fotografados os cartões de pré-natal7,15.

Para atender ao objetivo deste estudo de validação, foram consideradas elegíveis as mulheres que possuíam o cartão de gestante, do qual foram obtidos os valores de referência (padrão-ouro) para as variáveis: peso pré-gestacional em quilogramas (kg), estatura em centímetros (cm), peso na última consulta (kg) e IMC pré-gestacional obtido por meio da fórmula [peso pré-gestacional (kg) / estatura2 (m2)].

Outro critério de inclusão foi a puérpera ter respondido a pelo menos uma das questões presentes no questionário face a face sobre informações biométricas, correspondentes às medidas referidas “Qual era o seu peso antes de ficar grávida?”, “Qual foi seu peso na última consulta de pré-natal?”, “Qual é a sua estatura?”.

As variáveis de interesse para o estudo de validação foram: peso pré-gestacional, estatura, peso na última consulta de pré-natal, IMC pré-gestacional, macrorregião hospitalar, tipo de serviço em que realizou as consultas de pré-natal (público, privado ou ambos), faixa etária (< 20; 20–34; ≥ 35 anos), cor da pele autorreferida (preta, parda, branca, amarela e indígena), situação conjugal (vive com ou sem companheiro), nível de escolaridade (ensino fundamental incompleto, ensino fundamental completo, ensino médio completo, ensino superior completo), classificação econômica (classe A ou B; classe C; classe D ou E)1, número de consultas pré-natal (1–3, 4–5, 6 ou mais consultas) e número de gestações anteriores (nenhuma, uma, duas, três ou mais).

A Figura 1 representa o fluxograma com os critérios de inclusão utilizados para obtenção da amostra final. Para exclusão dos outliers das variáveis antropométricas medidas e referidas, optou-se pela utilização dos parâmetros propostos por Larsen et al.13, com base nos quais as classificações no intervalo estabelecido por ±3 z-escore da diferença entre as variáveis medidas e referidas foram incluídas nas análises e nos resultados apresentados. Avaliou-se, com isso, a influência desses pontos na concordância das informações, por meio dos valores apresentados pelo kappa ponderado, usando o peso quadrático, que tem sua interpretação próxima ao coeficiente de correlação intraclasse CCIC12.

PN: pré-natal; IMC: índice de massa corporal

Figura Fluxograma de obtenção da amostra. 

Foram avaliados a validade da análise e o potencial de viés de seleção dado que 25% das mulheres não foram incluídas, porque eles não possuíam o cartão de pré-natal. Para esta fase das análises, foram considerados o projeto de amostragem complexa, aplicando pesos de amostras e correções para dar consistência entre as estimativas da população24.

Na Pesquisa Nascer no Brasil, a probabilidade de seleção das mulheres era distinta; logo, foi necessária a criação de pesos amostrais e ponderações para que os resultados de prevalências fossem representativos. Para as análises de concordância, foram utilizados os dados amostrais originais, pois o intuito deste estudo foi validar as respostas, e não avaliar algum tipo de prevalência. Portanto, as ponderações e pesos não caberiam nessa etapa. O teste qui-quadrado foi utilizado para as análises de concordância.

As médias das diferenças das variáveis antropométricas foram calculadas subtraindo os valores das variáveis referidas dos valores das variáveis medidas. Então, um valor negativo indica superestimação da variável informada em relação à medida e, um valor positivo, subestimação9,21.

Os valores das variáveis antropométricas foram testados por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov para verificação da normalidade. O teste de Kruskal-Wallis foi utilizado para avaliar a diferença média das variáveis referidas (peso pré-gestacional, estatura, peso na última consulta e IMC) em relação às variáveis medidas (referência), divididas em quartis. O teste de sinais de Wilcoxon foi utilizado para identificar diferenças entre as médias das informações diretas e referidas das variáveis analisadas, em suas formas de distribuição contínua. Optou-se pela utilização de testes não-paramétricos, dado que as variáveis de interesse não possuíam distribuição normal.

Para a validação das medidas, foi estimada a sensibilidade das variáveis antropométricas referidas em relação às aferidas, do peso pré-gestacional, peso na última consulta, estatura e IMC pré-gestacional, divididas em quartis (P25 – 1º quartil; P25-50 – 2º quartil; P50-75 – 3º quartil e P75 – 4º quartil) e variações na sensibilidade foram avaliadas, segundo variáveis maternas, de pré-natal, socioeconômicas e demográficas. O IMC pré-gestacional medido e referido foi categorizado segundo o proposto pela World Health Organization25: baixo-peso < 18,5 kg/m2, faixa de normalidade 18,5–24,9 kg/m2, sobrepeso 25,0–29,9 kg/m2, obesidade > 30 kg/m2.

Utilizou-se o coeficiente de correlação intraclasse (CCIC), que leva em consideração o viés sistemático, misto de duas vias e com concordância absoluta para as variáveis antropométricas nas formas contínuas. Avaliou-se a existência de reprodutibilidade interobservador, ou seja, se os testes obtiveram o mesmo resultado com métodos diferentes, para fins de comparabilidade. Para avaliação dos valores observados, utilizou-se os critérios de Landis e Koch12, em que CCIC < 0 é pobre; fraca, de 0 a 0,20; provável, de 0,21 a 0,40; moderada, de 0,41 a 0,60; substancial, de 0,61 a 0,80; e quase perfeita, de 0,81 a 1,00. Utilizou-se também o gráfico de Bland e Altman2 para avaliar os possíveis erros e padrões sistemáticos de diferenças das médias entre as variáveis medidas e referidas (eixo das ordenadas), em relação à média dessas (eixo das abcissas).

O teste qui-quadrado de Pearson foi utilizado para analisar a distribuição entre aquelas que apresentavam ou não acurácia para peso pré-gestacional, peso na última consulta, estatura e IMC pré-gestacional referidos. A acurácia foi considerada aceitável quando a diferença média entre os valores medidos e referidos para peso estava dentro do intervalo de ± 2 kg, a estatura estavam entre ± 2 cm e entre ± 1,4 kg/m2 para IMC5. O nível de significância estatística adotado foi de 5%.

A análise estatística foi realizada utilizando os softwares IBM SPSS para Windows 8, versão 20 e winpepi, versão 11.43.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública (92/10) sob o CAE 0096.0.031.000-10.

RESULTADOS

No total, 17.093 (71,5%) mulheres possuíam o cartão de gestante, cerca de 23% tiveram o peso pré-gestacional aferido no primeiro trimestre, a estatura medida constava em 43% dos cartões, sendo possível calcular o IMC pré-gestacional medido em 19,1% e 41,1% dos cartões dispunham do peso na última consulta de pré-natal (Figura 1). Para o estudo de validação, dos percentuais apresentados anteriormente, considerou-se as variáveis antropométricas dentro do intervalo de ± 3 z-escore, onde foram encontradas o registro de, 50%, para de peso pré-gestacional medido, 79,8%, para estatura, 44%, para o IMC pré-gestacional e 93% para peso na última consulta.

Das que realizaram pré-natal estavam com o cartão de gestante no momento da entrevista 77% no SUS e 69,5% no privado. Portavam mais o cartão, mulheres das regiões sul e sudeste, as adolescentes, as da classe C, e D ou E, de cor parda e primigesta, dados não mostrados.

As mulheres que referiram sua estatura tenderam a superestimá-la em média 0,75 cm, quando comparadas às medidas. Verificou-se que o peso referido na última consulta está próximo do medido, com diferença de 0,2 kg (Tabela 1).

Tabela 1 Valores médios da estatura, peso pré-gestacional, peso na última consulta e IMC pré-gestacional, segundo DP e quartis. Brasil, 2011–2012. 

Variável n DP Quartis Total

Estatura Média medida 5.882 6,774 149,8 155,6 160,4 167,7 158,57
Média referida 5.882 6,993 150,0 156,5 162,5 169,9 159,32
Diferença média de estaturac 5.882 3,033 -4,7a -1,0a 0 2,9a -0,750b
Peso pré-gestacional Média medida 3.714 12,822 48,0 56,0 63,9 80,1 61,98
Média referida 3.714 12,654 46,6 54,3 61,6 77,9 60,47
Diferença média de peso pré-gestacionalc 3.714 3,436 -3,0a 0 1,8a 6,6a 1,510b
Peso na última consulta Média medida 6.546 13,396 57,2 65,9 74,6 91,4 72,436
Média referida 6.546 13,282 57,5 66,6 75,2 91,1 72,654
Diferença média de peso na última consultac 6.546 2,092 -2,6a -0,6a 0 2,4a -0,218b
IMC pré-gestacional Média medida 1.446 4,835 19,4 22,1 25,3 31,2 24,479
Média referida 1.446 4,717 18,7 21,6 24,2 30,2 23,69
Diferença média de IMC pré-gestacionalc 1.446 1,723 -1,3a 0 0,8a 3,1a 0,790b

n: total de puérperas por variável; IMC: índice de massa corporal; DP: desvio padrão

a Diferenças significativas, segundo teste de Kruskal Wallis com p < 0,05.

b Diferenças significativas, segundo teste de Wilcoxon, para as variáveis na forma contínua, com p < 0,05.

c Diferença média: diferença entre variável medida e referida, calculada para cada mulher dentro dos quartis, reportada como média de valores na tabela. Logo, houve subestimação se valor for positivo, superestimação se valor negativo.

O peso pré-gestacional e o IMC pré-gestacional têm seus valores subestimados pelas puérperas em 1,51 kg e 0,80 kg/m2, respectivamente. A partir do segundo quartil é possível notar diferença na média dos valores referidos.

As diferenças entre as variáveis medidas e referidas têm maiores variações nos extremos, 1º e 4º quartil (Q). Se destacam as acurácias das variáveis antropométricas; a maior delas, 76%, foi encontrada para o peso na última consulta do pré-natal e a menor, 50%, para o peso pré-gestacional (Tabela 2).

Tabela 2 Distribuição das puérperas por variáveis selecionadas para acurácia segundo as variáveis de peso pré-gestacional, estatura, peso na última consulta, IMC pré-gestacional. Brasil, 2011–2012. 

Variável Estatura p Peso pré-gestacional p Peso na última consulta p IMC p




Acurácia* Total Acurácia* Total Acurácia* Total Acurácia* Total








N % por categoria n N % por categoria N N % por categoria N N % por categoria N
Local de realização de PN < 0,05 < 0,05 0,158 0,091
Serviço público 3.388 63,9 5.303 1.305 47,1 2.772 3.928 75,9 5.176 794 62,1 1.279
No serviço particular 223 70,8 315 467 59,3 788 894 78,6 1.138 66 69,5 95
Nos dois 158 64,0 247 75 50,7 148 172 76,4 225 52 72,2 72
Total 3.769 64,3 5.865 1.847 49,8 3.708 4.994 76,4 6.539 909 62,8 1.446
Região geográfica < 0,05 < 0,05 < 0,05 0,129
Norte 505 63,8 792 113 42,5 266 359 67,6 531 114 68,7 166
Nordeste 1.209 63,5 1.903 456 44,7 1.019 1.531 76,6 2.000 279 59,4 470
Sudeste 1.250 62,4 2.002 878 54,4 1.615 2.067 77,8 2.658 298 63,5 469
Sul 568 70,0 811 336 49,6 677 861 77,8 1.107 164 62,8 261
Centro-Oeste 248 66,0 376 65 47,8 136 182 72,5 251 56 70,9 79
Total 3.780 64,2 5.884 1.848 49,8 3.713 4.987 76,4 6.547 908 63,0 1.445
Faixa etária (anos) 0,283 0,272 < 0,05 0,347
12–19 865 66,0 1.310 281 46,8 600 1.039 72,5 1.434 172 62,1 277
20–34 2.638 63,8 4.132 1.383 50,3 2.751 3.496 77,4 4.515 657 62,6 1.049
> 34 273 62,8 435 185 51,1 362 459 77,5 592 83 69,2 120
Total 3.776 64,3 5.877 1.849 49,8 3.713 4.994 76,3 6.541 912 63,1 1.446
Cor/Raça < 0,05 < 0,05 0,276 < 0,05
Branca 1.131 66,8 1.692 746 54,1 1.380 1.721 77,9 2.208 331 70,9 467
Preta 301 61,2 492 110 42,5 259 424 76,4 555 46 44,2 104
Parda 2.277 63,2 3.602 975 48,0 2.032 2.789 75,5 3.693 526 61,2 859
Amarela 53 76,8 69 16 48,5 33 47 72,3 65 8 57,1 14
Indígena 17 65,4 26 2 20,0 10 17 77,3 22 1 33,3 3
Total 3.779 64,3 5.881 1.849 49,8 3.714 4.998 76,4 6.543 912 63,0 1.447
Situação conjugal da mãe 0,946 0,056 0,067 0,255
Sem companheiro 724 64,4 1.125 292 53,6 545 914 74,4 1.229 121 66,9 181
Com companheiro 3.055 64,2 4.755 1.557 49,1 3.168 4.083 76,8 5.314 791 62,5 1.266
Total 3.779 64,3 5.880 1.849 49,8 3.713 4.997 76,4 6.543 912 63,0 1.447
Escolaridade materna < 0,05 < 0,05 < 0,05 < 0,05
EF incompleto 1.008 62,8 1.604 319 40,1 795 1.390 74,3 1.872 183 52,6 348
EF completo 1.175 63,2 1.858 440 46,2 953 1.368 75,3 1.817 278 63,9 435
EM completo 1.421 65,2 2.178 891 54,0 1.649 1.893 77,9 2.431 394 66,7 591
ES completo e mais 164 74,2 221 191 63,7 300 324 81,8 396 54 81,8 68
Total 3.768 64,3 5.861 1.841 49,8 3697 4.975 76,4 6.516 909 63,0 1.442
Classificação econômica < 0,05 < 0,05 0,189 0,073
Classe A+B 581 69,2 839 507 55,8 909 984 78,3 1.257 162 69,5 233
Classe C 2.106 63,4 3.321 968 48,4 1.999 2.683 75,9 3.534 534 62,0 861
Classe D+E 1.069 63,9 1.673 366 46,6 786 1.291 75,7 1.705 209 60,9 343
Total 3.756 64,4 5.833 1.841 49,8 3.694 4.958 76,3 6.496 0,178 905 63,0 1.437
Número de consultas de pré-natal 0,629 < 0,05 < 0,05 0,348
1–3 320 63,0 508 67 47,9 140 347 60,9 570 23 57,5 40
4–5 668 63,4 1.054 136 40,6 335 964 70,5 1.367 81 58,3 139
6 ou mais 2.790 64,6 4.319 1.647 50,8 3.240 3.688 80,0 4.608 807 63,7 1.267
Total 3.778 64,2 5.881 1.850 49,8 3.715 4.999 76,4 6.546 908 63,0 1.446
Número de gestações anteriores < 0,05 < 0,05 < 0,05 < 0,05
Nenhuma 1.632 65,4 2.495 939 55,2 1.701 2.130 77,0 2.765 458 67,9 675
1 1.059 64,6 1.638 525 50,0 1.049 1.376 77,9 1.767 237 60,8 390
2 553 63,6 869 244 44,8 545 817 77,4 1.056 126 57,3 220
3 ou mais 536 61,0 878 142 33,8 419 676 70,6 957 91 55,8 163
Total 3.780 64,3 5.880 1.850 49,8 3.714 4.999 76,4 6.545 912 63,0 1.448

N: total de puérperas por categoria ter acurácia (estar entre 2 kg/2 cm); n: total de puérperas por variável; IMC: índice de massa corporal; EF: ensino fundamental; EM: ensino médio; ES: ensino superior; PN: pré-natal

* Definida como informação referida entre ± 2 unidades (kg ou cm) para peso e estatura entre ± 1,4 unidade (kg/m2) para o IMC, da variável medida.

Quanto à estatura, Tabela 3, encontrou-se maior acurácia entre as mulheres com pré-natal (PN) no setor privado, da região Sul, brancas e da classe A+B.

Tabela 3 Distribuição das puérperas por variáveis selecionadas em quartis para sensibilidade, segundo estatura, peso pré-gestacional, peso na última consulta e IMC pré-gestacional. Brasil, 2011–2012. 

Variável Estatura Peso pré-gestacional Peso na última consulta IMC pré-gestacional




N Sensibilidade (%) N Sensibilidade (%) n Sensibilidade (%) n Sensibilidade (%)




1º Q 2º Q 3º Q 4º Q 1º Q 2º Q 3º Q 4º Q 1º Q 2º Q 3º Q 4º Q Baixo-peso Adequado Sobrepeso Obesidade
Local de realização de PN 5.863 3.710 6.538 1.447
Serviço público 5.302 85,9 56,6 61,6 82,0 2.774 85,5 67,7 66,5 87,1 5.175 93,8 76,2 94,2 92,9 1.280 44,8 81,1 74,1 90,6
No serviço particular 314 90,2 58,1 71,2 94,2 787 86,1 76,8 83,4 87,2 1.138 91,4 73,1 94,2 97,2 95 50,0 79,0 75,0 53,3
Nos dois 247 80,0 47,8 59,3 88,1 149 92,3 65,5 75,7 87,7 225 94,6 76,0 97,4 91,7 72 33,3 86,0 64,3 58,3
Região geográfica 5.883 3.715 6.545 1.450
Norte 793 83,6 73,7 62,2 48,2 266 91,4 67,9 69,3 83,3 529 91,7 89,4 70,2 97,0 167 72,7 94,4 46,8 68,4
Nordeste 1.901 82,7 68,7 63,6 52,3 1.019 84,4 66,3 67,6 88,6 2.000 93,3 86,5 84,5 95,3 470 63,2 86,4 60,2 58,0
Sudeste 2.003 75,6 68,3 69,5 63,9 1.616 80,0 57,0 79,7 91,1 2.658 91,6 92,6 80,5 97,3 470 92,0 86,9 55,1 84,2
Sul 811 86,9 77,4 70,2 66,8 677 86,6 71,4 79,0 93,3 1.107 88,4 89,4 83,2 97,9 263 87,5 88,4 55,3 68,8
Centro-Oeste 375 77,9 66,2 68,9 50,5 137 80,0 69,7 77,8 82,1 251 78,7 90,7 85,1 96,8 80 80,0 84,8 64,7 28,6
Faixa etária (anos) 5.877 3.711 6.540 1.447
12–19 1.310 85,1 68,0 68,4 57,2 599 86,5 67,5 78,5 82,7 1.434 90,5 86,6 77,8 95,9 278 84,6 78,3 39,3 42,9
20–34 4.133 80,2 72,1 66,2 59,1 2.750 82,7 62,0 75,3 91,1 4.514 91,8 90,2 82,5 96,9 1.050 75,0 90,5 57,0 70,8
> 34 434 81,8 63,1 69,0 59,3 362 78,3 66,7 75,9 90,3 592 93,1 95,1 81,0 98,5 119 100 90,0 73,9 86,4
Cor da pele 5.887 3.790 6.489 1.448
Branca 1.693 82,4 72,6 67,6 63,6 1377 87,1 61,3 79,7 90,7 2.207 89,7 90,3 82,2 97,9 466 94,1 92,2 69,4 75,0
Preta 494 62,9 67,9 72,4 58,9 260 79,1 67,6 69,6 94,0 555 91,7 89,6 81,9 98,2 105 100 87,5 31,1 87,5
Parda 3.601 82,7 68,9 65,5 56,8 2.030 81,8 64,3 74,0 90,0 3.693 92,0 89,2 81,2 96,1 861 72,0 85,1 55,1 67,6
Amarela 70 100 85,0 72,7 60,0 32 87,5 80,0 75,0 85,7 11 94,7 94,1 77,8 90,9 14 100 100 25,0 50,0
Indígena 29 80,0 100 57,1 50,0 10 100 0 100 100 23 100 100 100 100 2 0 0 0 0
Situação conjugal da mulher 5.882 3.715 2.519 1.447
Vive sem companheiro 1.126 82,6 62,3 65,8 57,7 546 73,7 47,0 65,9 94,7 1.228 92,0 91,7 80,4 98,7 181 81,8 88,9 53,7 85,7
Vive com companheiro 4.756 81,0 72,2 67,2 59,7 3.169 85,4 67,0 77,1 90,1 1.291 91,2 89,1 81,9 96,7 1.266 78,7 87,6 56,7 69,8
Nível de escolaridade 5.860 3.697 5.061 1.444
EF incompleto 1.604 79,3 70,2 66,0 56,8 794 84,3 63,5 67,5 82,3 1.872 92,6 85,4 80,5 94,8 349 63,2 84,1 47,6 69,0
EF completo 1.858 83,7 66,4 67,0 53,4 954 83,8 64,6 76,9 88,8 359 91,3 88,5 80,8 98,6 436 88,9 84,7 52,7 64,6
EM completo 2.178 81,0 72,9 66,6 63,9 1.650 81,7 60,3 77,8 94,2 2.432 90,2 93,8 82,2 97,4 591 80,0 91,3 60,8 79,2
ES completo ou mais 220 93,3 79,4 71,9 65,7 299 90,9 75,0 80,0 92,0 398 92,5 91,7 87,2 96,4 68 100 97,2 72,7 55,6
Classificação econômica 5.830 3.692 6.497 1.438
Classe A+B 837 80,5 70,3 69,3 66,3 910 86,2 73,8 82,3 93,7 1.260 89,9 90,5 82,4 98,0 234 90,9 86,7 65,0 64,3
Classe C 3.322 80,9 70,6 67,5 60,1 1.997 82,5 62,0 73,9 90,8 3.532 90,0 91,0 81,8 96,5 862 82,9 88,6 56,2 73,9
Classe D+E 1.671 81,9 69,9 63,6 50,9 785 83,5 57,6 67,8 84,1 1.705 93,3 86,9 80,7 96,7 342 69,2 85,9 50,6 67,6
Número de consultas de PN 5.879 3.714 6.545 1.445
1–3 508 79,5 71,7 59,5 55,7 140 82,1 19,7 73,3 90,5 569 91,3 85,8 64,8 91,2 41 100 88,9 26,7 71,4
4–5 1.053 84,1 71,8 67,1 50,9 334 84,0 67,5 70,3 68,3 1.368 88,2 85,5 82,2 94,9 137 50,0 86,1 47,6 50,0
6 ou mais 4.318 80,9 69,8 67,7 61,5 3.240 83,5 66,3 76,4 92,2 4.608 92,9 91,6 82,9 97,8 1.267 83,6 87,9 58,8 72,6
Número de gestações anteriores .5877 3.713 6.544 1.446
Nenhuma 2.495 78,8 70,4 59,1 61,4 1.702 81,7 63,5 79,8 94,2 2.765 91,6 89,6 81,1 97,2 673 88,6 89,8 47,1 67,9
1 1.638 81,2 70,5 66,8 60,8 1.049 87,4 63,1 76,2 89,1 1.766 89,9 91,2 83,0 97,5 390 57,9 83,6 64,4 71,1
2 868 84,0 73,2 59,4 50,0 544 77,6 67,5 70,7 89,9 1.057 92,8 92,6 82,9 95,5 218 71,4 90,3 63,2 80,0
3 ou mais 876 85,0 67,2 69,7 58,8 418 88,1 58,8 65,5 85,8 956 92,0 83,9 79,0 97,7 165 100 85,3 59,0 65,7

Total 5.884 81,4 70,3 66,9 59,5 3.715 83,5 63,4 75,7 90,5 6.543 91,4 89,6 81,7 97,1 1.448 79,2 87,7 56,2 71,6

IMC: índice de massa corporal; Q: quartil; n: total de puérperas por variável; n: total de puérperas por categoria; EF: ensino fundamental; EM: ensino médio; ES: ensino superior; PN: pré-natal

Para o peso pré-gestacional das que fizeram PN no setor privado, a acurácia foi maior no grupo de residentes do Sudeste, brancas, com ensino superior e que tiveram ≥ 6 consultas de pré-natal. Para o peso na última consulta de pré-natal, o resultado foi melhor nas mulheres do Sul ou Sudeste, com nível superior, ≥ 6 consultas de pré-natal, adultas e com até duas gestações. Em relação ao IMC pré-gestacional, as brancas, com nível superior e primigestas apresentaram diferenças de acurácia estatisticamente significativas.

Na Figura 2, utilizou-se o gráfico de Bland e Altman para mostrar a diferença entre o peso pré-gestacional aferido e referido. A média da diferença de peso pré-gestacional e a maior concentração de pontos estão acima do ponto zero, o que demonstra uma subestimação dos valores referidos do peso pré-gestacional, ou seja, que as mulheres tendem a referir o peso pré-gestacional menor do que o verdadeiro valor. O mesmo padrão pode ser observado para o IMC pré-gestacional. O teste de Wilcoxon foi utilizado para comparar essas medidas, confirmando a subestimação das informações.

Figura 2 Diferenças entre as variáveis antropométricas (peso pré-gestacional, IMC pré-gestacional, peso na última consulta e estatura) medidas e referidas, segundo as médias das variáveis antropométricas em puérperas. Brasil, 2011–2012. 

No sentido inverso, o peso na última consulta e a estatura, segundo o gráfico, mostraram que medidas referidas são superestimadas por parte das puérperas, ou seja, as mulheres tenderam a referir o peso da última consulta e a estatura maiores do que a medida de referência, que constavam no cartão de gestante. Entretanto, o teste de Wilcoxon mostrou que, mesmo que a maioria das mulheres tenha informado o mesmo valor da variável medida, tanto para o peso na última consulta quanto para a estatura, as diferenças entre o valor medido e o referido foram significativas.

Pelo CCIC, encontrou-se alta concordância entre as informações medidas e referidas para estatura (CCIC = 0,898; IC95% 0,880–0,912), peso pré-gestacional (CCIC = 0,957; IC95% 0,930–0,971), peso na última consulta (CCIC = 0,988; IC95% 0,987–0,988) e IMC pré-gestacional (CCIC = 0,922; IC95% 0,871–0,948) (dados não mostrados em tabelas).

A Tabela 3 faz uma comparação entre as variáveis informadas e medidas, divididas por quartis, para análise da sensibilidade. Para a estatura, a sensibilidade mostrou-se alta no 1º quartil. Conforme os quartis aumentavam, a validade das informações diminuía, chegando a 59,5% no 4º quartil. Para o peso pré-gestacional a maior sensibilidade foi encontrada no 4º quartil.

A sensibilidade para a estatura referida indicou que os menores percentuais estavam entre mulheres que tiveram consultas de PN em ambos os serviços, público e privado, na região norte, nas adolescentes, mulheres pardas, com ensino fundamental completo e as da classe D ou E. Para o peso pré-gestacional, a sensibilidade mostrou-se maior entre as mulheres dos estabelecimentos privados, da região Sul e aquelas com idade entre 20 e 34 anos.

Para o peso na última consulta de pré-natal, a sensibilidade foi alta de uma forma geral. No 1º quartil, encontrou-se o valor de 91,5%, chegando a 97,1% no 4º quartil. Quando avaliada a sensibilidade dos estratos, os menores valores encontrados estavam entre as mulheres da região norte e adolescentes.

O IMC referido apresentou sensibilidade de 88% para as mulheres com classificação adequada e o menor percentual ficou entre as mulheres com sobrepeso, ou seja, a validade das informações foi menor entre as mulheres com sobrepeso e, quando avaliada a sensibilidade das informações por meio das variáveis selecionadas por estratos, observou-se também os menores percentuais de IMC referido.

DISCUSSÃO

Este estudo mostrou que a maioria das puérperas informa seus dados antropométricos de forma acurada. A tendência à subestimação do peso pré-gestacional, assim como a do IMC corroboram com os resultados da literatura14,18,19,22.

O peso na última consulta de pré-natal apresentou superestimação, mas com uma variação menor do que a encontrada para o peso pré-gestacional, o que difere do encontrado por Oliveira et al.18, em que as gestantes tenderam a subestimar a informação. A menor variação encontrada no peso da última consulta pode estar relacionada à memória, devido ao intervalo de tempo menor entre a última consulta (quando houve a aferição do peso) e a informação coletada na pesquisa. Considerando que, nos meses que antecedem o parto, o intervalo entre as consultas pré-natais diminui, a mulher tem maior acesso a cuidados no pré-natal e à informação, fato que pode melhorar o relato de sua medida16.

As mulheres com menor peso e estatura tenderam a superestimar as informações, enquanto aquelas com maior peso e estatura tenderam a subestimar. Os padrões estabelecidos em busca de um ideal social, gerando uma distorção da autoimagem, podem levar a erros durante o fornecimento de informações, seja de peso ou estatura4,5,7,21.

A superestimação da estatura, encontrada neste estudo, também foi identificada por outros autores4,8,10,18. As mulheres mais baixas e as mais altas apresentaram maior variação das informações, diferindo dos resultados de Fonseca et al.9, nos quais, quanto maior a estatura, menor a diferença encontrada para essa medida.

A acurácia das informações referidas de estatura pode sofrer variações devido à presença do viés associado à idade. As mulheres mais jovens são medidas apenas uma vez no início da gestação pelos profissionais de saúde, que não atentam ao fato de que elas estão em fase de crescimento. Já as mais velhas referem uma estatura que possuíam anos atrás. A condição socioeconômica e a raça/cor também podem contribuir com a diminuição da acurácia tanto da estatura quanto do peso, pois estão associadas com o acesso aos cuidados e à informação sobre sua condição de saúde. Logo, pessoas em condições menos favoráveis e não brancas são as que têm menor acurácia de informações3,8,17,20.

Na análise gráfica para o peso pré-gestacional e IMC pré-gestacional, observou-se espaçamento entre os pontos para mulheres com aproximadamente 70 kg e na faixa de sobrepeso, respectivamente, além de uma tendência para ambas as medidas à subestimação do peso pré-gestacional, assim como do IMC pré-gestacional, também observado em outros estudos18,23.

Os CCIC, que levam em consideração erros sistemáticos, foram altos para todas as variáveis antropométricas, mostrando concordância quase perfeita, em acordo com outros estudos9,14.

Os valores encontrados para a sensibilidade foram elevados. A sensibilidade apresentou maior concordância de informações para o peso pré-gestacional e o peso na última consulta, no 1º e no 4º quartil, e para as mulheres que obtiveram a classificação de baixo peso e obesidade segundo o IMC pré-gestacional, indo ao encontro dos resultados de outros estudos7,18,22. Isso poderia se dar pelo fato de que as mulheres com peso inadequado (baixo ou maior do que o esperado) ou com IMC pré-gestacional inadequado são diagnosticadas em risco nutricional e recebem maior monitoramento no cuidado de pré-natal; com isso, apresentam maior acesso à informação e melhor percepção quanto aos seus dados antropométricos.

Em relação à estatura, as mulheres mais baixas têm melhor sensibilidade e as mais altas (4º quartil) tiveram menor percentual de sensibilidade, diferindo do estudo de Boström e Diderichsen4, no qual o menor valor ficou no 2º quartil.

Neste estudo, as mulheres que fizeram pré-natal no serviço privado, mais escolarizadas, brancas ou pardas, das regiões Sul ou Sudeste, com melhor classificação econômica, que tiveram seis ou mais consultas e menor paridade, apresentaram os melhores resultados para validação das variáveis antropométricas, reforçando a forte relação das condições socioeconômicas com a qualidade das informações4,6.

Este estudo de validação não teve a pretensão de ser representativo da população brasileira. No entanto, o tamanho amostral possibilitou avaliar a validade das informações e possíveis diferenças entre as medidas informadas e aferidas18.

Ressalta-se que, embora o método padrão-ouro utilizado tenha sido o cartão da gestante, as diferenças entre as informações muito se assemelharam às encontradas em estudos nacionais e internacionais que obtém suas medidas de forma direta, mostrando que o cartão é um instrumento relevante para avaliação antropométrica da gestante.

A falta de registros das variáveis antropométricas no cartão limitou a inclusão de mais mulheres que poderiam representar a população brasileira. Todavia, como os dados antropométricos apresentados apresentaram alta concordância para medidas autorreferidas, poderão ser utilizadas para traçar um panorama do perfil nutricional da mulher no período gestacional, assim como o ganho de peso, viabilizando estudos de base populacional, quando não há recursos para a tomada de medições.

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Financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Departamento de Ciência e Tecnologia, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Ministério da Saúde; Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz (Projeto INOVA/ENSP – MCT/CNPq/CT-Saúde/MS/SCTID/DECIT nº 057/2009); e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ – Processo E-26/103.083/2011).

Recebido: 19 de Outubro de 2015; Aceito: 18 de Outubro de 2016

Correspondência: Silvana Granado Nogueira da Gama. Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde – ENSP/Fiocruz Rua Leopoldo Bulhões, 1480 Sala 808 Manguinhos. 21041-210 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: roberta.araujo.nut@gmail.com

Contribuição dos Autores: Concepção e planejamento do estudo: RGPSA, SGNG, DCB. Coleta, análise e interpretação dos dados: RGPSA, SGNG, DCB. Elaboração do manuscrito: RGPSA, SGNG, DCB. Revisão crítica do manuscrito: SGNG, DCB, CS, IEM. Aprovação da versão final: RGPSA, SGNG, DCB, CS, IEM. Responsabilidade pública pelo conteúdo do artigo: RGPSA, SGNG, DCB, CS, IEM.

Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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