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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910versão On-line ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.52  supl.1 São Paulo  2018  Epub 17-Set-2018

https://doi.org/10.11606/s1518-8787.2018052000supl1ap 

Suplemento Saúde Rural

Apresentação

Saúde Rural no Brasil: tema antigo mais que atual

Carlos E A Coimbra JrI 

I Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública. Rio de Janeiro , RJ , Brasil


A dinâmica demográfica da população brasileira tem passado por importantes transformações ao longo do último século, em particular a partir da década de 1940. Essas mudanças têm sido caracterizadas por acentuadas quedas nas taxas de fecundidade e de mortalidade, aumento da esperança de vida ao nascer e, consequentemente, envelhecimento da população em geral. Esse cenário ocorreu, par-e-passo, com rápida urbanização, de maneira que saltamos de um Brasil eminentemente rural para um país no qual cerca de 85% de sua população passou a viver em áreas urbanas 1 .

A caracterização do brasileiro rural como ignorante, maltrapilho, cronicamente doente, anêmico e preguiçoso, personificado no Jeca Tatu, criado pelo escritor Monteiro Lobato 2 e que veio a público na primeira edição da coletânea de contos Urupês , em 1918, foi emblemática nos debates acerca do atraso socioeconômico, sanitário e político do país nas primeiras décadas do século XX. Personagem de literatura, Jeca tornou-se central em debates sociais e políticos acerca do projeto da nação. Ao longo do tempo, Jeca Tatu foi amplamente interpretado e reinterpretado nos meios intelectuais, médico-científicos e políticos, comprometidos com causas sociais, que clamavam pela educação e saneamento como estratégias fundamentais para alavancar o desenvolvimento do país.

A propósito, o corrente ano de 2018 marca o centenário de “nascimento” do Jeca. Como seria de se esperar, passado um século, o Brasil do presente é muito distinto daquele quando Lobato concebeu uma de suas mais conhecidas criações. Mas a alusão a esse importante personagem da literatura brasileira pode nos ajudar a refletir sobre questões sócio-históricas que apresentam algum nível de permanência no presente; comparativamente ao segmento da população brasileira que vive em áreas urbanas, persistem importantes lacunas de conhecimentos sobre os determinantes sociais, culturais e ambientais da saúde dos brasileiros que vivem nas áreas rurais.

Por um lado, é importante reconhecer que o Brasil contemporâneo logrou grandes êxitos nos campos da educação e da saúde rural. Praticamente livrou sua população rural de uma gama de doenças infecciosas e parasitárias que, nos dias de hoje, são preveníveis por meio de vacinas e outras estratégias de cuidados primários. Nos dias de hoje, dificilmente um jovem estudante da área da saúde irá se deparar com um caso de bouba (que assolava o Nordeste brasileiro até meados da década de 1950) 3 , de filariose bancroftiana (hoje rara e de ocorrência restrita a alguns poucos focos) e de infecção chagásica aguda na criança 4 , assim como de formas graves de diarreia e desnutrição infantil aguda (kwashiorkor, marasmo), tão comuns nas enfermarias pediátricas até poucas décadas atrás 5 .

Por outro lado, se essa trajetória de transformações é relativamente bem conhecida, o que dizer acerca de quem é o brasileiro que vive em área rural hoje e quais desafios enfrenta para manter sua saúde, nutrição e segurança alimentar? Independentemente de sua identidade étnica ou racial, pouco se sabe a esse respeito. Ao se levar em consideração o fato de os grandes diagnósticos nacionais de saúde raramente contemplarem estratos de populações rurais em seus planos amostrais, ficam limitadas quaisquer tentativas de tecer generalizações acerca da saúde de povos indígenas, caiçaras, caboclos, ribeirinhos, caipiras, quilombolas, pantaneiros, boias-frias, garimpeiros, dentre tantos outros.

Conforme reconhecido pelo próprio Ministério da Saúde, para alcançar efetivas ações de saúde ou desenvolver políticas públicas adequadas em áreas rurais, é preciso conhecer a população que lá reside, considerando suas especificidades culturais, sociais e ambientais 6–8 . No entanto, poucos são os trabalhos que avaliam as condições gerais ou mais de um indicador de saúde da população rural em âmbito nacional ou regional 9 . A maioria das publicações dedica-se a investigar aspectos específicos da saúde de trabalhadores rurais, comumente associadas aos campos da saúde ocupacional e toxicologia 10 , ou doenças parasitárias endêmicas, como a malária na Amazônia 11,12 e a esquistossomose no Nordeste 13 . Estudos de base populacional que contemplem múltiplos desfechos de saúde e recorte étnicos específicos são incomuns, com a ressalva que ao longo da última década tem se ampliado as pesquisas sobre as condições de saúde de indígenas e quilombolas, para citar dois exemplos 14–16 .

Nesse sentido, o presente suplemento da Revista de Saúde Pública (RSP), baseado em pesquisas coordenadas pelas professoras Helen Gonçalves, Elaine Tomasi, Maria Cecília Assunção e Luciana Tovo-Rodrigues do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, e editado por Helen Gonçalves e Euclydes A. Castilho, chega em boa hora. Além de preencher importante lacuna na literatura científica brasileira no campo da saúde rural, aborda o tema com foco nos estudos de caso do Sul do Brasil, uma das áreas mais urbanizadas do país.

O suplemento reúne resultados oriundos de um inquérito de base populacional sobre a saúde de adultos ≥ 18 anos, realizado na zona rural do município de Pelotas, estado do Rio Grande do Sul. Em oito artigos, o conjunto de autores lida competentemente com os desafios metodológicos característicos de pesquisas realizadas com populações rurais no Brasil em geral, incluindo dispersão da população, dificuldade de acesso aos domicílios, sub-registro de nascimentos e mortes, além da baixa e inconstante cobertura de serviços de atenção básica em saúde, o que limita as informações disponíveis acerca das principais causas de adoecimento e morte da população.

Sintomas depressivos, distúrbios do sono, qualidade da dieta, obesidade geral e abdominal, inatividade física, alcoolismo, tabagismo, baixa qualidade de vida e insatisfação com a saúde são as grandes questões de saúde colocadas em pauta pelo conjunto de colaboradores desse suplemento. Segundo os autores de um dos artigos, “[...] ser mulher, mais velho, não ser branco, ter baixa renda, ter menor escolaridade, residir a vida toda na zona rural, estar desempregado e portar alguma doença foram os aspectos mais relevantes para definir negativamente a qualidade de vida da população” 17 .

Os cenários de saúde que emergem a partir da zona rural de Pelotas, um dos municípios mais meridionais do país, pode a princípio parecer particular, mas ao longo da leitura dos trabalhos essa impressão se desfaz. O relato dos autores delineia um retrato próximo daquele Brasil desigual que tanto conhecemos, com gênero, raça/etnia, escolaridade e classe econômica desempenhando importante influência na determinação da morbimortalidade, assim como na interpretação dos autores acerca das percepções dos indivíduos sobre seu próprio bem-estar e saúde.

Voltando ao Jeca Tatu, tão significativa quanto sua aparição em 1918 foi a transformação que sofreu nos escritos de seu criador. O próprio Lobato reviu seu pessimismo acerca do Jeca, fazendo-o renascer sob outra perspectiva nos anos 1920, sinalizando que o Jeca “não era assim”, mas “estava assim”. Ou seja, eram as condições socioeconômicas, estruturais e políticas os principais determinantes de sua situação social e sanitária precária.

Estou certo de que esse suplemento da RSP cumprirá a contento a dupla missão de não apenas informar sobre o contexto particular das pessoas que vivem na área rural de Pelotas, como também provocar a comunidade da saúde coletiva brasileira para que dedique maior atenção à população rural do país como um todo. Compreender por que a situação de saúde das populações rurais “está assim” é um passo fundamental para a concepção e implementação de políticas públicas mais adequadas para um Brasil que, mesmo nas regiões mais investigadas e conhecidas, como no Sul, ainda permanece bastante desconhecido e negligenciado.

REFERENCES

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Recebido: 9 de Maio de 2018; Aceito: 2 de Julho de 2018

Correspondência: Carlos E A Coimbra Jr. Rua Leopoldo Bulhões, 140 sala 617. 22101-240 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: coimbra@ensp.fiocruz.br

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