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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.53  São Paulo  2019  Epub Aug 19, 2019

http://dx.doi.org/10.11606/s1518-8787.2019053001087 

Artigo Original

Características maternas e da assistência pré-natal associadas à peregrinação no anteparto

Rosemar Barbosa MendesI 
http://orcid.org/0000-0002-4860-7413

José Marcos de Jesus SantosII 
http://orcid.org/0000-0001-5122-1469

Daniela Siqueira PradoIII 
http://orcid.org/0000-0002-3901-3832

Rosana Queiroz GurgelIV 
http://orcid.org/0000-0001-6241-0134

Felipa Daiana BezerraV 
http://orcid.org/0000-0002-5328-2350

Ricardo Queiroz GurgelIII 
http://orcid.org/0000-0001-9651-3713

IUniversidade Federal de Sergipe. Departamento de Enfermagem. São Cristóvão, SE, Brasil

IIUniversidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Programa de Pós-Graduação Enfermagem em Saúde Pública. Ribeirão Preto, SP, Brasil

IIIUniversidade Federal de Sergipe. Departamento de Medicina. São Cristóvão, SE, Brasil

IVUniversidade Tiradentes. Departamento de Enfermagem. Aracaju, SE, Brasil

VFaculdade Estácio de Sergipe. Departamento de Enfermagem. Aracaju, SE, Brasil

RESUMO

OBJETIVO

Analisar as características maternas e da assistência pré-natal associadas à peregrinação no anteparto entre gestantes de um estado do Nordeste brasileiro.

MÉTODOS

Estudo quantitativo e transversal, com abordagens descritiva e analítica, vinculado à pesquisa Nascer em Sergipe, realizada entre junho de 2015 e abril de 2016. Foram avaliadas 768 puérperas proporcionalmente distribuídas entre todas as maternidades do estado (n = 11). Os dados foram coletados por meio de entrevistas e consultas aos cartões de pré-natal. As associações entre a peregrinação no anteparto e as variáveis de exposição foram descritas em frequências absoluta e relativa, razões de chances brutas e ajustadas e seus respectivos intervalos de confiança.

RESULTADOS

A peregrinação no anteparto foi referida por 29,4% (n = 226) das entrevistadas, a maioria das quais procurou atendimento em apenas um serviço antes do atual (87,6%; n = 198). Ressalta-se que a peregrinação no anteparto foi menos frequente entre as mulheres com idade ≥ 20 anos (OR = 0,50; IC95% 0,34–0,71), com alta escolaridade (OR = 0,42; IC95% 0,31–0,59), com trabalho remunerado (OR ajustada = 0,59; IC95% 0,41–0,82), orientadas durante o pré-natal sobre a maternidade de referência para o parto (OR ajustada = 0,88; IC95% 0,42–0,92) e que utilizaram o serviço privado para realização do pré-natal (OR ajustada = 0,44; IC95% 0,18–0,86) ou do parto (OR ajustada = 0,96; IC95% 0,66–0,98). Não foi observada evidência estatística de associação entre as características gestacionais e a ocorrência da peregrinação.

CONCLUSÕES

A peregrinação no anteparto sofre interferência das características socioeconômicas maternas, da assistência pré-natal e do tipo de financiamento para o parto.

Palavras-Chave: Gestantes; Tocologia; Serviços de Saúde Materno-Infantil, provisão & distribuição; Acesso aos Serviços de Saúde; Equidade no Acesso aos Serviços de Saúde

INTRODUÇÃO

A peregrinação no anteparto diz respeito à busca da gestante por internação para o parto em mais de um serviço de saúde, o que aumenta significativamente os riscos de intercorrências ou complicações na parturição e até de morte materna ou fetal1,2. Quanto maior essa busca, maior a distância a ser percorrida pela gestante em trabalho de parto e, comumente, menor a probabilidade de adequação dos serviços encontrados a suas necessidades, sobretudo em casos de pacientes previamente classificadas como de alto risco clínico ou obstétrico durante o pré-natal1.

No Brasil, embora a Lei 11.634/20073 assegure que toda gestante tem direito ao conhecimento e à vinculação prévia à maternidade de referência na qual será realizado seu parto, um estudo de abrangência nacional mostrou que ela não é cumprida de forma satisfatória no país, já que somente 58,7% das 23.940 mulheres entrevistadas haviam recebido essa orientação. Os autores desse mesmo trabalho também evidenciaram um percentual de peregrinação no anteparto de 16,2%, sendo a pior situação encontrada na região Nordeste, cuja peregrinação foi de 25,1%4. Ressalta-se ainda que o relatório mais recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a razão de mortalidade materna (RMM) entre os anos de 1990 a 2015 mostrou que o Brasil não alcançou a quinta meta dos objetivos de desenvolvimento do milênio (ODM), que preconizava uma redução de 75% na RMM nesse mesmo período5,6.

As principais causas da peregrinação no anteparto estão relacionadas às deficiências da assistência pré-natal e ao baixo número de leitos obstétricos disponíveis nas maternidades de risco habitual. Outros motivos são a falta de médicos plantonistas e de insumos e equipamentos nesses serviços. Tais situações reforçam a importância de uma comunicação efetiva entre os profissionais da atenção básica e aqueles que atuam em maternidades de baixa, média e alta complexidade, possibilitando assim um funcionamento adequado do sistema de referência e contra-referência dessas parturientes4,7. Albuquerque et al.7 e Souza et al.8 consideram que a escassez de publicações nacionais sobre a peregrinação no anteparto é também um dos principais fatores desfavoráveis para minimizar ou mesmo resolver esse problema, sendo motivada sobretudo pela dificuldade em obter informações quantitativas sobre sua frequência entre as mulheres brasileiras, uma vez que não há nenhuma base de dados pública com essa finalidade no país.

Dessa forma, ao considerar que o acolhimento imediato da gestante em trabalho de parto é essencial para reduzir mortes maternas/fetais e que a elucidação dos fatores associados à internação tardia pode contribuir para formular medidas de prevenção da peregrinação, objetivou-se analisar as características maternas, da assistência pré-natal e da assistência ao parto associadas à peregrinação no anteparto entre gestantes de um estado do Nordeste brasileiro.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal e quantitativo, com abordagens descritiva e analítica, vinculado à pesquisa Nascer em Sergipe, realizada entre junho de 2015 e abril de 2016. Foram avaliadas 768 puérperas proporcionalmente distribuídas entre todas as maternidades públicas, privadas e mistas do estado de Sergipe (n = 11). Reproduziu-se o método da pesquisa Nascer no Brasil9, com treinamento da equipe local por pesquisadoras da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que coordenaram o estudo nacional.

O cálculo amostral, com nível de confiança de 95%, teve um desenho probabilístico em dois estágios. O primeiro correspondeu aos estabelecimentos de saúde e o segundo às puérperas. Foram elegíveis todas as maternidades do estado que registraram no mínimo 500 partos em 2012, resultando em sete instituições no interior e quatro na capital, sendo cinco públicas, quatro mistas e duas privadas. As puérperas foram selecionadas por amostragem aleatória simples a partir de uma listagem de internação diária, sendo consideradas elegíveis todas as mulheres com parto de feto vivo e parto de feto morto com peso ao nascer ≥ 500 g ou idade gestacional ≥ 22 semanas. Não eram elegíveis ao estudo as mulheres que não falassem ou compreendessem o idioma (português) e que apresentassem transtornos mentais graves. Adotou-se alocação proporcional ao tamanho da instituição para distribuir o número amostral (n = 768).

Os entrevistadores permaneceram no mínimo sete dias em cada instituição. Caso o número de puérperas pudesse ser atingido antes desse período, procedia-se a um sorteio aleatório com a limitação do número diário de entrevistadas, para que os sete dias fossem atingidos. Foram realizadas entrevistas face a face com as puérperas com intervalo mínimo de seis horas após o parto e extraídos dados do prontuário da mulher após a alta. Os cartões de pré-natal foram fotografados e as informações digitadas no banco de dados. Informações mais detalhadas sobre a coleta de dados são também relatadas em Leal et al.10

Os resultados descritivos são provenientes das respostas às questões relacionadas à peregrinação no anteparto: 1. “Você realizou o pré-natal nesta gravidez?”, 1.1. “Durante o pré-natal você foi orientada sobre a maternidade de referência para o parto?”, 2. “Antes de ser internada nesta instituição, acreditando estar no momento de parir, você procurou alguma outra maternidade para realizar seu parto (‘peregrinação’)?”, 2.1. “Quantas maternidades você procurou antes de ser internada nesta instituição?” e 2.2. “Qual foi a justificativa das outras maternidades para não aceitar sua internação para o parto?”. As variáveis estudadas para análise dos fatores associados à peregrinação no anteparto foram: características sociodemográficas (local de moradia, faixa etária, cor da pele, escolaridade, trabalho remunerado e situação conjugal), características do pré-natal e parto (cobertura do pré-natal, início precoce, número de consultas, tipo de serviço, acompanhamento pelo(s) mesmo(s) profissional(ais), orientação sobre a maternidade de referência para o parto e tipo de financiamento para a parturição) e características do processo gestacional (idade gestacional, número de gestações, número de partos, gravidez planejada, sentimento quanto à gravidez e tentativas de aborto).

Para determinação da faixa etária, foi adotada a convenção da OMS, que delimita a adolescência dos 10 aos 19 anos de idade11. Na avaliação da idade gestacional (IG), as gestantes foram agrupadas em dois grandes grupos: IG adequada e IG inadequada. Considerou-se IG adequada de 37 a 42 semanas de gestação (a termo) e IG inadequada ≤ 36 semanas e seis dias (pré-termo) ou > 42 semanas (pós-termo)12.

A análise estatística foi realizada no IBMStatistical Package for the Social Sciences 20.0 Mac (SPSS 20.0 Mac, SPSS Inc., Chicago, Illinois, EUA). Foram utilizadas, inicialmente, as técnicas univariada e bivariada para obter a distribuição dos valores das frequências absoluta e relativa. As associações foram investigadas por meio do teste qui-quadrado entre as variáveis categóricas e o exato de Fisher para as categorias com células de baixa frequência. Estimou-se a razão de chances ou odds ratio (OR) como medida de associação e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%), com uso do método de Mantel-Haenszel. Em todos os casos, foi adotada significância de 5%.

Realizou-se, por fim, a análise estatística multivariada, tendo como variável dependente (desfecho) a peregrinação no anteparto. Descreveram-se as associações entre a peregrinação no anteparto e as variáveis de exposição (trabalho remunerado da mãe, tipo de serviço no pré-natal, orientação sobre a maternidade de referência para o parto) por meio de razão de chances ajustadas em um modelo linear generalizado com distribuição de Bernoulli (regressão logística) com erros padrão robustos.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Sergipe, sob o parecer 453.279/2013, com o seguinte CAAE: 22488213.4.0000.5546. Todos os cuidados foram adotados visando garantir o sigilo e confidencialidade das informações, conforme a resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde. As puérperas assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido com a garantia de recusa a qualquer momento, sem o sofrimento de danos por parte das instituições.

RESULTADOS

As 768 puérperas elegíveis e aleatoriamente selecionadas para participar deste estudo foram entrevistadas, sem perdas nem desistências durante a pesquisa. Quase todas haviam realizado o pré-natal (99,3%; n = 763), e 61,3% (n = 468) delas foram orientadas sobre a maternidade de referência para o parto. A peregrinação no anteparto foi referida por 29,4% (n = 226). A maioria havia procurado atendimento em um único serviço antes do atual (87,6%; n = 198), e 12,4% (n = 28) haviam passado por duas ou três unidades antes desta internação. Em relação à justificativa dada pelas outras maternidades para não realizar a internação destas gestantes, percebeu-se que a “ausência de médico plantonista” foi a mais frequente (48,7%; n = 110) (Tabela 1).

Tabela 1 Resultados descritivos das respostas das puérperas sobre questões relacionadas à peregrinação no anteparto (n = 768). Sergipe, Brasil, 2015–2016. 

Questões relacionadas à peregrinação no anteparto n % Total

n (%)
1. Você realizou o pré-natal nesta gravidez? 768 (100)
Sim 763 99,3
Não 5 0,7
1.1. Durante o pré-natal você foi orientada sobre a maternidade de referência para o parto? 763 (99,3)
Sim 468 61,3
Não 295 38,7
2. Antes de ser internada nesta instituição, acreditando estar no momento de parir, você procurou alguma outra maternidade para realizar seu parto (“peregrinação”)?
Não 542 70,6 768 (100)
Sim 226 29,4
2.1. Quantas maternidades você procurou antes de ser internada nesta instituição? 226 (29,4)
Uma 198 87,6
Duas 20 8,9
Três ou mais 8 3,5
2.2. Qual foi a justificativa das outras maternidades para não aceitar sua internação para o parto?
Ausência de médico plantonista 110 48,7 226 (29,4)
Gestante de alto risco obstétrico (referenciada) 35 15,5 226 (29,4)
Gestante ainda não estava em trabalho de parto 21 9,3 226 (29,4)
Não haviam leitos disponíveis na maternidade (ausência de vagas) 14 6,2 226 (29,4)
Não deram justificativa 5 2,2 226 (29,4)

A análise bivariada das características sociodemográficas maternas, do pré-natal e da parturição estatisticamente associadas à peregrinação no anteparto mostrou que gestantes com idade ≥ 20 anos (OR = 0,50; IC95% 0,34–0,71), com alta escolaridade (OR = 0,42; IC95% 0,31–0,59), com trabalho remunerado (OR = 0,61, IC95% 0,44–0,85), orientadas no pré-natal sobre a maternidade de referência para o parto (OR = 0,53, IC95% 0,39–0,73), que utilizaram o serviço privado para a realização desse acompanhamento (OR = 0,21; IC95% 0,12–0,36) e do parto (OR = 0,80; IC95% 0,76–0,83) foram as que menos peregrinaram no anteparto. Cabe destacar o fato de que todas as que peregrinaram haviam utilizado o serviço público na parturição (Tabelas 2 e 3).

Tabela 2 Associações entre as características sociodemográficas maternas e a peregrinação no anteparto (n = 768). Sergipe, Brasil, 2015–2016. 

Variáveis maternas Peregrinação no anteparto P OR (IC95%) Total


Sim (n = 226) Não (n = 542) n (%)


n (%) n (%)
Local de moradia
Cidade grande/Capital 136 (30,6) 308 (69,4) 0,392 0,87 (0,63–1,19) 444 (57,8)
Interior/Município 90 (27,8) 234 (72,2) 324 (42,2)
Faixa etária (anos)
≤ 19 68 (41,5) 96 (58,5) < 0,001 0,50 (0,34–0,71) 164 (21,4)
≥ 20 158 (26,2) 446 (73,8) 604 (78,6)
Cor da pele
Parda ou preta 188 (29,6) 447 (70,4) 0,812 1,05 (0,69–1,58) 635 (82,7)
Branca ou amarela 38 (28,6) 95 (71,4) 133 (17,3)
Escolaridade
Analfabeta ou Fundamental 138 (38,8) 218 (61,2) < 0,001 0,42 (0,31–0,59) 356 (46,4)
Médio ou Superior 88 (21,4) 324 (78,6) 412 (53,6)
Trabalho remunerado
Não 144 (33,8) 282 (66,2) 0,003 0,61 (0,44–0,85) 426 (55,5)
Sim 82 (24) 260 (76) 342 (44,5)
Situação conjugal
Vive com companheiro 151 (31,1) 334 (68,9) 0,174 1,25 (0,90–1,73) 485 (63,2)
Vive sem companheiro 75 (26,5) 208 (73,5) 283 (36,8)

Tabela 3 Associações entre as características do pré-natal e a peregrinação no anteparto (n = 768). Sergipe, Brasil, 2015–2016. 

Variáveis do pré-natal Peregrinação no anteparto p OR (IC95%) Total


Sim (n = 226) Não (n = 542) n (%)


n (%) n (%)
Início precoce do pré-natal
Sim 133 (30,6) 302 (69,4) 0,449 0,88 (0,64–1,21) 435 (57)
Não 92 (28) 236 (72) 328 (43)
Número de consultas
6 ou mais consultas 169 (29,6) 401 (70,4) 0,867 1,03 (0,72–1,47) 570 (74,7)
≤ 5 consultas 56 (29) 137 (71) 193 (25,3)
Tipo de serviço no pré-natal
Público 193 (35,3) 353 (64,7) < 0,001* 0,21 (0,12–0,36) 546 (71,6)
Privado 16 (10,4) 138 (89,6) 154 (22)
Acompanhamento pelo(s) mesmo(s) profissional(ais)
Sim 200 (29,8) 472 (70,2) 0,653 1,11 (0,68–1,82) 672 (88,1)
Não 25 (27,5) 66 (72,5) 91 (11,9)
Orientada sobre a maternidade de referência para o parto
Sim 114 (24,4) 354 (75,6) < 0,001 0,53 (0,39–0,73) 468 (61,3)
Não 110 (37,4) 185 (62,6) 295 (38,7)
Tipo de financiamento do local do parto
Público 226 (34,2) 434 (65,8) < 0,001 0,80 (0,76–0,83) 660 (85,9)
Privado 0 (0) 108 (100) 108 (14,1)

* Teste exato de Fisher.

Os resultados descritivos também mostraram que, entre as mulheres com idade gestacional inadequada (13,4%; n = 103), primigestas (43,2%; n = 332), primíparas (4,8%; n = 37), insatisfeitas com a gravidez (35,9%; n = 276) e que referiram tentativas abortivas durante o acompanhamento pré-natal (4,9%; n = 38), a maioria peregrinou na parturição. No entanto, não foi observada evidência estatística de associação entre nenhuma dessas variáveis (p > 0,05) (Tabela 4).

Tabela 4 Associações entre as características do processo gestacional e a peregrinação no anteparto (n = 768). Sergipe, Brasil, 2015–2016. 

Variáveis maternas Peregrinação no anteparto p OR (IC95%) Total


Sim (n = 226) Não (n = 542) n (%)


n (%) n (%)
Idade gestacional
Adequada (37 a 42 semanas) 191 (28,7) 474 (71,3) 0,296* 1,27 (0,82–1,98) 665 (86,6)
Inadequada (≤ 36 e ≥ 43 semanas) 35 (34) 68 (66) 103 (13,4)
Número de gestações
Primigesta 108 (32,5) 224 (67,5) 0,100 0,77 (0,56–1,05) 332 (43,2)
Multigesta 118 (27,1) 318 (72,9) 436 (56,8)
Número de partos
Primípara 12 (32,4) 25 (67,6) 0,712* 0,86 (0,42–1,74) 37 (4,8)
Multípara 214 (29,3) 517 (70,7) 731 (95,2)
Gravidez planejada
Sim 93 (29,4) 223 (70,6) 0,999 1,00 (0,72–1,37) 316 (41,1)
Não 133 (29,4) 319 (70,6) 452 (58,9)
Sentimento quanto à gravidez
Satisfeita 137 (27,8) 355 (72,2) 0,199 1,23 (0,89–1,69) 492 (64,1)
Insatisfeita 89 (32,2) 187 (67,8) 276 (35,9)
Tentativa de aborto
Sim 16 (42,1) 22 (57,9) 0,099* 1,80 (0,92–3,49) 38 (4,9)
Não 210 (28,8) 520 (71,2) 730 (95,1)

* Teste exato de Fisher.

Na análise multivariada, após ajustes para variáveis de confusão, constatou-se que, de fato, a peregrinação no anteparto foi menos frequente entre as mulheres com trabalho remunerado (OR ajustada = 0,59; IC95% 0,41–0,82), que foram orientadas no pré-natal sobre a maternidade de referência para o parto (OR ajustada = 0,88; IC95% 0,42–0,92) e que utilizaram o serviço privado no pré-natal (OR ajustada = 0,44; IC95% 0,18–0,86) e na parturição (OR ajustada = 0,96; IC95% 0,66–0,98) (Tabela 5).

Tabela 5 Odds ratio ajustada para variáveis determinantes da peregrinação no anteparto (n = 226). Sergipe, Brasil, 2015–2016. 

Variáveis independentes Variável dependente: peregrinação no anteparto

ORa (IC95%)
Mãe com trabalho remunerado
Sim 0,59 (0,41–0,82)
Não 1
Tipo de serviço no pré-natal
Privado 0,44 (0,18–0,86)
Público 1
Orientação sobre a maternidade de referência para o parto
Sim 0,88 (0,42–0,92)
Não 1
Tipo de financiamento utilizado para o parto
Privado 0,96 (0,66–0,98)
Público 1

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo evidenciaram uma peregrinação no anteparto de 29,4% entre as mulheres sergipanas, resultado superior ao encontrado no Brasil (16,2%) e na região Nordeste de um modo geral (25,1%)4, sendo observada a interferência de fatores socioeconômicos maternos e das características da assistência pré-natal e do tipo de financiamento do parto na ocorrência desse fenômeno.

A assistência pré-natal se mostrou inadequada às recomendações do Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN)13, sobretudo no que diz respeito à vinculação das gestantes à maternidade de referência para o parto, já que somente pouco mais da metade das mulheres entrevistadas recebeu tal orientação durante o acompanhamento. Essa falha também foi encontrada em outros estudos nacionais com delineamento semelhante, com percentuais de orientação inferiores a 60%4,14,15.

Autores discutem que um dos objetivos da vinculação precoce à maternidade de referência é a redução da peregrinação no momento do trabalho de parto14. O presente estudo confirmou a maior frequência de peregrinação quando a mulher não recebeu tal orientação durante o pré-natal.

Identificamos também que a maioria das parturientes que peregrinaram no anteparto procurou atendimento em apenas um serviço antes do atual, semelhante ao achado de outro estudo brasileiro de abrangência estadual, no qual 70,7% das 2.228 pacientes avaliadas conseguiram internação na segunda maternidade visitada1. A principal justificativa dada pelas outras maternidades para não aceitar a internação das parturientes do presente estudo foi a “ausência de médico plantonista” no momento da procura pelo serviço de saúde. Questiona-se nesse caso sobre a autonomia dos enfermeiros obstetras nas maternidades de Sergipe, uma vez que estes profissionais também têm respaldo legal para dar assistência aos partos vaginais de risco habitual em todo o território nacional. Supõe-se que, na prática assistencial, embora a resolução 516/2016 do Conselho Federal de Enfermagem assegure aos enfermeiros obstetras e obstetrizes a emissão de laudos de autorização de internação hospitalar (AIH) para o procedimento de parto normal sem distocia, bem como o acompanhamento obstétrico da mulher e do recém-nascido sob seus cuidados da internação até a alta16, muitas instituições de parto no país ainda deixam tais atribuições apenas sob a responsabilidade médica, com a possível argumentação legal de que é deste profissional a responsabilidade em caso de eventos graves que possam resultar em óbito materno ou fetal.

Ademais, esse resultado difere de outros trabalhos, que identificaram a falta de vagas na instituição1,17 e a gestação de alto risco18 como principais causas da peregrinação no anteparto. Pontua-se que, independentemente do fator etiológico da peregrinação, esse fenômeno contribui para a demasiada demora na assistência ao parto, podendo levar a complicações na parturição que, muitas vezes, evoluem para a morte materna ou fetal19,20.

Nesse contexto, entende-se que o conhecimento das características maternas associadas à peregrinação no anteparto pode contribuir para formular estratégias efetivas para vincular essas gestantes à maternidade de referência para o parto. As parturientes com maior idade, alta escolaridade e trabalho remunerado foram as que apresentaram menor percentual de peregrinação. Acredita-se que os menores índices entre mulheres de maior nível socioeconômico estejam relacionados à possibilidade de acesso a serviços privados para a parturição, nos quais a peregrinação certamente é menor pelo fato de o parto ser pago.

A adolescência e a baixa escolaridade também foram evidenciadas por outros autores como variáveis maternas preditoras desse problema1,17,21. Sabe-se que a gravidez na adolescência aumenta o risco de complicações obstétricas com possibilidade de repercussões negativas para a mãe e o recém-nascido, bem como está associada a problemas psicossociais e econômicos relacionados à constituição precoce da maternidade22. Desse modo, a não vinculação dessas adolescentes à maternidade de referência para o parto durante o pré-natal pode ser considerada um importante agravante que requer atenção emergencial por parte dos profissionais de saúde responsáveis por esse acompanhamento.

Vale ressaltar que a assistência pré-natal inadequada se constitui como uma das principais causas da peregrinação no anteparto1,5,7,8. Muitos estudos têm identificado falhas no pré-natal capazes de interferir na sua qualidade e efetividade, tais como a baixa cobertura23, o início tardio, a distribuição inadequada das consultas24, a realização incompleta dos procedimentos preconizados25 e, ainda mais relacionada ao problema da peregrinação no anteparto, a carência de informações sobre a maternidade de referência para o parto durante esse processo4.

Cita-se ainda a influência das características gestacionais e obstétricas da parturiente no acesso à maternidade de referência para o parto18. Os resultados descritivos do presente estudo mostraram que a maioria das parturientes que peregrinaram eram mulheres com idade gestacional inadequada, primigestas, primíparas, insatisfeitas com a gravidez e que referiram tentativas de aborto durante a gestação.

A idade gestacional ao nascer é a principal preditora da saúde neonatal26. No Brasil, como em outros países, tem havido uma redução constante dessa IG, com cada vez bebês nascidos nas faixas pré-termo tardio e termo precoce em comparação aos anos anteriores27. Essa situação pode também motivar a não assistência ao parto no primeiro serviço procurado pela gestante, com consequente encaminhamento ou peregrinação para maternidades de média e alta complexidade18.

A peregrinação no anteparto se torna ainda mais conflitante ao se considerar que a maioria das pacientes busca assistência em outro estabelecimento pelos próprios meios e, comumente, em transportes com conforto e segurança inadequados1,17. Estudo realizado na cidade do Rio de Janeiro mostrou que apenas um quinto das mulheres foi transportado por ambulância durante o trabalho de parto1.

As limitações deste estudo estão relacionadas à confiabilidade dos dados obtidos por meio do relato das puérperas entrevistadas, tais como o recebimento de orientação sobre a maternidade de referência para o parto durante o pré-natal, o número de maternidades visitadas antes da internação para o parto e a justificativa dessas outras maternidades para não aceitar tal internação.

Nesse contexto, destaca-se que foi evidenciada elevada peregrinação no anteparto em Sergipe, com interferência dos fatores socioeconômicos maternos e das características da assistência pré-natal e tipo de financiamento da parturição. A peregrinação no anteparto foi menos frequente entre as mulheres com idade ≥ 20 anos, alta escolaridade e trabalho remunerado, orientadas durante o pré-natal sobre a maternidade de referência para o parto e que utilizaram o serviço privado para realização do pré-natal ou do parto. Não foi observada evidência estatística de associação entre as características gestacionais e a ocorrência da peregrinação.

Percebeu-se a necessidade de um maior comprometimento por parte dos profissionais de saúde responsáveis pelo acompanhamento pré-natal, uma vez que é essencial a vinculação precoce das gestantes à maternidade de referência para o parto, visando, assim, a prevenção da peregrinação e consequentemente a diminuição dos riscos maternos e fetais relacionados à parturição. Sugere-se ainda aos gestores municipais, estaduais e federais uma maior atenção ao articular a organização dos serviços de saúde materno-infantil do país, a fim de que as gestantes tenham acesso ao parto oportuno, seguro e humanizado e de que seja garantido o cumprimento adequado dos seus direitos sexuais e reprodutivos.

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Financiamento: Bolsas de estudo do Programa de Apoio à Extensão Universitária (MEC/SESu) da Universidade Federal de Sergipe (PROEXT/UFS-2015).

Recebido: 22 de Julho de 2018; Aceito: 6 de Novembro de 2018

Correspondência: Rosemar Barbosa Mendes Av. Marechal Rondon, s/n, Jardim Rosa Elze 49100-000 São Cristóvão, SE, Brasil E-mail: rosemarbm@uol.com.br

Contribuição dos Autores: Concepção e planejamento do estudo: RBM, JMJS, RQG. Coleta, análise e interpretação dos dados: RBM, JMJS, RQG. Elaboração ou revisão do manuscrito: RBM, JMJS, DSP, RQG, FDB, RQG. Aprovação da versão final do manuscrito: RBM, JMJS, RQG. Responsabilidade pública pelo seu conteúdo: RBM, JMJS, RQG.

Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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