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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.54  São Paulo  2020  Epub Apr 17, 2020

http://dx.doi.org/10.11606/s1518-8787.2020054001709 

Artigo Original

Comportamento sexual de risco e fatores associados em universitários de uma cidade do Sul do Brasil

Débora Dalmas GräfI 
http://orcid.org/0000-0002-5900-540X

Marilia Arndt MesenburgII 
http://orcid.org/0000-0001-9598-4193

Anaclaudia Gastal FassaIII 
http://orcid.org/0000-0001-6070-6214

IUniversidade Federal de Pelotas. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. Pelotas, RS, Brasil

IIUniversidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Porto Alegre, RS, Brasil

IIIUniversidade Federal de Pelotas. Faculdade de Medicina. Departamento de Medicina Social. Pelotas, RS, Brasil


RESUMO

OBJETIVO

Descrever o comportamento sexual de ingressantes universitários de acordo com características demográficas, econômicas, psicossociais e comportamentais, e avaliar a prevalência de comportamento sexual de risco e seus fatores associados.

MÉTODOS

Estudo de delineamento transversal, do tipo censo, com universitários maiores de 18 anos, de 80 cursos de graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no RS, que ingressaram no primeiro semestre de 2017 e que permaneceram matriculados no segundo semestre. Avaliou-se o comportamento sexual de risco entre os estudantes que relataram já ter tido relações sexuais alguma vez na vida, considerado quando relatado mais de um parceiro sexual nos últimos três meses e não ter utilizado preservativo na última relação.

RESULTADOS

A prevalência de comportamento sexual de risco foi de 9% (IC95% 7,6–10,5). Estudantes do sexo masculino apresentaram mais comportamento de risco do que estudantes do sexo feminino, com prevalência de 10,8% e 7,5%, respectivamente. Dos universitários, 45% não utilizaram preservativo na última relação e 24% tiveram dois parceiros ou mais nos últimos três meses. Os aplicativos de celular para fins sexuais nos últimos três meses foram utilizados por 23% dos estudantes. O comportamento sexual de risco esteve associado com sexo, idade da primeira relação sexual, frequência de consumo de bebidas alcoólicas, consumo de substâncias psicoativas antes da última relação e uso de aplicativos de celular para fins sexuais.

CONCLUSÃO

Embora se espere que os universitários sejam uma população informada, a prevalência de comportamento sexual de risco foi importante, indicando a necessidade de ampliação do investimento público em ações de educação sexual e conscientização.

Palavras-Chave: Saúde do Estudante; Universidades; Comportamentos de Risco à Saúde; Sexo sem Proteção; Infecções Sexualmente Transmissíveis

ABSTRACT

OBJECTIVE

To describe the sexual behavior of freshmen undergraduate students according to demographic, economic, psychosocial and behavioral characteristics, and evaluate the prevalence of risky sexual behavior and its associated factors.

METHODS

A cross-sectional study of the census type with undergraduate students over 18 years old of 80 undergraduate courses of the Universidade Federal de Pelotas (UFPel), in Rio Grande do Sul (RS), who entered in the first semester of 2017 and remained enrolled in the second semester. Undergraduate students who reported having had sex were evaluated. We considered as risky sexual behavior having more than one sexual partner within the last three months and not having used condoms in the last sexual intercourse.

RESULTS

The prevalence of risky sexual behavior was 9% (95%CI 7.6–10.5). Men presented more risky behavior than women, with a prevalence of 10.8% and 7.5%, respectively. Of the undergraduate students, 45% did not use condoms in the last sexual intercourse, and 24% had two partners or more within three months before the survey. Smartphone applications for sexual purposes were used by 23% of students within three months before the survey. Risky sexual behavior was associated with gender, age at first sexual intercourse, frequency of alcohol consumption, consumption of psychoactive substances before the last sexual intercourse and use of smartphone applications for sexual purposes.

CONCLUSION

Although undergraduate students are expected to be an informed population, the prevalence of risky sexual behavior was important, indicating the need to expand public investment in sexual education and awareness actions.

Key words: Student Health; Universities; Health Risk Behaviors; Unsafe Sex; Sexually Transmitted Infections

INTRODUÇÃO

Os comportamentos sexuais de risco (CSR), como relação sexual desprotegida e multiplicidade de parceiros, são mais frequentes entre adolescentes e jovens adultos (entre 15 e 24 anos). Fatores ligados ao ingresso no ambiente universitário podem aumentar a ocorrência de CSR, visto que implicam em uma série de modificações sociais na vida do indivíduo1 .

Os CSR podem ter como consequência as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs)2 , 3 e a gravidez não planejada. As ISTs estão entre as condições agudas mais prevalentes no mundo, com cerca de um milhão de casos novos por dia4 . O Brasil, nos últimos anos, vem apresentando um recrudescimento das ISTs, especialmente do vírus da imunodeficiência humana (HIV) e da sífilis, com aumento expressivo entre os jovens de 15 a 29 anos5 , 6 . As principais consequências das ISTs são infertilidade, gravidez ectópica, natimortos, doença inflamatória pélvica e implicações neurológicas e cardiovasculares em adultos4 . Já a gravidez não planejada é particularmente problemática em faixas etárias mais jovens, pois compromete a conclusão da vida escolar e acadêmica, além de aumentar o risco de complicações na gestação7 .

No Brasil, a avaliação de uma amostra representativa de estudantes do ensino médio indicou que 32% não utilizaram preservativo nas relações sexuais ocorridas no mês anterior à pesquisa8 . Entre os universitários, o não uso de preservativo na última relação variou entre 85,7% e 38,6%2 , 9 . A frequência de estudantes que tiveram entre um e três parceiros sexuais no período de três meses foi de 95% no sexo feminino e 89% no sexo masculino10 . Nos Estados Unidos, 48% dos universitários utilizaram preservativo na última relação, e a prevalência de comportamento sexual de risco foi de 14%, considerando-se aqueles que reportaram não ter utilizado camisinha na última relação e ter tido mais de um parceiro nos últimos 12 meses11 .

Ao examinar características dos comportamentos sexuais, um estudo conduzido em 31 instituições de ensino superior americanas indicou que 44% dos estudantes tiveram mais de um parceiro nos últimos três meses e 16% usaram substâncias psicoativas (álcool ou drogas ilícitas) antes da última relação sexual12 . Em universitários brasileiros o uso de substâncias psicoativas antes da última relação foi semelhante, ficando em torno de 15%2 . Na cidade de Pelotas, uma pesquisa com adolescentes entre 15 e 18 anos apontou que 10,7% ingeriram bebidas alcoólicas antes da última relação e apenas 56% dos adolescentes usaram preservativo nas últimas três relações sexuais13 .

O não uso de preservativos em estudantes, tanto escolares quanto universitários, esteve positivamente associado ao sexo masculino, à ingesta de bebidas alcoólicas e à multiplicidade de parceiros1 , 14 e inversamente associado com a idade do indivíduo e com o nível socioeconômico15 , 16 .

Os estudos que avaliam comportamento sexual de risco publicados até o momento no Brasil são predominantemente em adolescentes escolares. Os que avaliaram universitários tiveram abordagem descritiva e sua amostra foi, em sua maioria, composta por alunos de cursos da saúde ou então de conveniência, com foco na avaliação de outros desfechos relacionados ao comportamento sexual, como o nível de conhecimento a respeito de ISTs9 , 16 . Além disso, o impacto das características psicossociais dos universitários, como a orientação sexual e a identidade de gênero, a variabilidade entre as áreas do conhecimento e o papel da tecnologia sobre os comportamentos sexuais, é pouco abordado.

Este estudo tem por objetivo identificar as principais características do comportamento sexual dos ingressantes universitários de acordo com o sexo e verificar a prevalência de comportamento sexual de risco, bem como os principais fatores sociodemográficos e comportamentais associados, em um censo de ingressantes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), localizada no Sul do Brasil.

METODOLOGIA

Foi realizado um estudo transversal, do tipo censo, com estudantes ingressantes no ensino superior em cursos presenciais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), ofertados no primeiro semestre letivo de 2017. No total, foram ofertadas 3.424 vagas em 83 cursos de graduação. O censo foi realizado no contexto do consórcio de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel, um método de coleta de dados de uma população única para o desenvolvimento do estudo de uma turma de mestrandos.

Foram incluídos nesta pesquisa estudantes que ingressaram na UFPel no primeiro semestre de 2017, estavam regularmente matriculados em um curso de graduação presencial no segundo semestre letivo de 2017 e compreendiam a língua portuguesa. Foram excluídos os estudantes menores de 18 anos e os que tinham aulas ministradas fora da cidade de Pelotas ou Capão do Leão.

A coleta de dados foi realizada em horário de aula, de forma anônima, por meio de um questionário autopreenchido em tablets utilizando a ferramenta Research Electronic Data Capture (REDCap). O instrumento de pesquisa incluiu questões demográficas, econômicas, psicossociais, do contexto acadêmico e comportamentais, além da descrição do comportamento sexual dos estudantes.

Com base no Global School-Based Student Health Survey (GSHS) e no Youth Risk Behavior Survey (YRBS), foi elaborado um questionário com dez perguntas objetivas para caracterizar o comportamento sexual, aplicado apenas aos estudantes que já haviam iniciado a vida sexual. Esse questionário avaliou idade da primeira relação sexual, número de parceiros nos últimos três meses, uso de preservativo na última relação, prática de sexo anal na última relação, uso de álcool ou drogas ilícitas na última relação, uso de método contraceptivo, realização do teste de HIV alguma vez na vida, motivo da realização do teste, diagnóstico de IST alguma vez na vida e uso de aplicativos de celular com a finalidade de ter relações sexuais nos últimos três meses.

Considerou-se como comportamento sexual de risco ter mais de um parceiro sexual nos últimos três meses aliado a não utilizar preservativo (camisinha masculina ou feminina) na última relação sexual. Essa operacionalização do desfecho visou restringir a avaliação a aspectos objetivos relacionados ao risco à saúde do indivíduo.

As variáveis de exposição foram sexo biológico (feminino, masculino), idade (categorizada na análise em 18 a 19 anos, 20 a 22 anos, 23 a 25 anos, 26 anos ou mais), cor da pele (branca, preta, parda/outra), orientação sexual (heterossexual/assexual, homossexual, bissexual), identidade de gênero (cisgênero, transgênero, não binário), status de relacionamento (não se relacionando, ficando, namorando, morando com o cônjuge/namorado), classe econômica (classificação da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa – ABEP), tipo de ensino médio cursado (público, privado), onde morou no ano anterior ao ingresso na UFPel (Pelotas, outra cidade do Rio Grande do Sul, outro estado do Brasil/outro país), se segue alguma doutrina religiosa (não, sim), com quem mora (familiares, amigos/colegas, sozinho), consumo de tabaco (nunca fumou, fumante, ex-fumante), frequência de consumo de álcool (nunca, uma vez por mês ou menos, duas a quatro vezes por mês, duas a três vezes por semana, quatro ou mais vezes por semana) e área do conhecimento ao qual o curso do universitário pertence (ciências exatas e da terra/agrárias, ciências da saúde e biológicas, ciências sociais aplicadas e humanas, linguística, letras e artes).

Primeiramente, realizou-se análise descritiva das características demográficas, econômicas, psicossociais, acadêmicas e comportamentais dos estudantes por meio de frequência absoluta e relativa. O teste do qui-quadrado para heterogeneidade foi utilizado para avaliar as diferenças entre os sexos.

Para avaliar fatores associados à ocorrência de comportamento sexual de risco, procedeu-se à análise multivariável, utilizando regressão de Poisson com variância robusta, uma vez que essa é a melhor alternativa para a análise de estudos transversais com desfechos dicotômicos e fornece uma boa estimativa da razão de prevalências19 . A análise seguiu o modelo conceitual previamente definido, com seleção para trás. Incluiu-se, no primeiro nível, características demográficas, econômicas e psicossociais; no segundo nível, variáveis do contexto acadêmico e idade da primeira relação sexual e, no terceiro nível, aspectos comportamentais. As variáveis associadas ao desfecho com valor-p < 0,20 foram mantidas no modelo multivariável para controle de fatores de confusão. Foram consideradas significativas as associações com valor-p < 0,05. A análise dos dados foi realizada no programa estatístico Stata Statistical Software, versão 14.0.

O presente estudo está de acordo com a resolução vigente nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFPel, parecer de número 2.352.451.

RESULTADOS

No primeiro semestre de 2017, 3.212 alunos ingressaram em cursos de graduação da UFPel. Desses, 2.706 permaneciam matriculados na ocasião do início do estudo, o qual se estendeu entre novembro de 2017 e julho de 2018. Ao final do censo de ingressantes universitários, obteve-se 1.865 alunos entrevistados, configurando uma taxa de resposta de 69%. Dos 31% restantes, apenas 1,8% foram recusas. Os demais foram alunos não encontrados durante o período do trabalho de campo após várias tentativas. Aproximadamente 47% das perdas eram do sexo feminino, 24% tinham entre 18 e 19 anos, 29% tinham entre 20 e 22 anos e 46,7% tinham 23 anos ou mais. A área de conhecimento com maior número de perdas foi a de ciências exatas e da terra/agrárias, com 38,3%, seguida das ciências sociais aplicadas e humanas, com 38,4%, linguística, letras e artes, com 16%, e ciências da saúde e biológicas, com 11%. Os altos índices de absenteísmo e de taxas de desistência da universidade do primeiro para o segundo semestre letivos, muitas vezes sem formalização, limitaram a taxa de resposta.

Dentre os respondentes da pesquisa, 1.547 alunos (83,5% dos entrevistados) afirmaram já ter mantido relações sexuais. Desses, 72,2% eram brancos, 37,5% tinham entre 18 e 19 anos, 44,3% eram da classe econômica B, 36,4% estavam namorando e 13,4% eram casados ou dividiam moradia com o cônjuge. A orientação sexual de minorias (homossexual ou bissexual) foi relatada por 22,2%, e 10,4% não se identificaram com o gênero foi atribuído ao nascer (transgênero ou não binário). Quanto à área de conhecimento, 28,3% estavam inseridos em cursos das ciências exatas, da terra e agrárias, 18% das ciências da saúde e biológicas, 35,2% das ciências sociais aplicadas e humanas e 18,5% da área de linguística, letras e artes ( Tabela 1 ). Dos estudantes, 37% tiveram sua primeira relação antes dos 15 anos. Quanto ao uso de substâncias durante a última relação, 15% utilizaram alguma bebida alcóolica, 2,7% alguma droga ilícita e 5,8% ambos. Cerca de 12% dos universitários praticaram sexo anal durante a última relação sexual, e 22% usaram aplicativos de celular com o objetivo principal de ter relações sexuais nos últimos três meses. Segundo os entrevistados, 23% tiveram dois ou mais parceiros sexuais nos últimos três meses, e 45% não utilizaram camisinha na última relação sexual ( Tabela 2 ).

Tabela 1 Caracterização dos ingressantes universitários de acordo com o sexo biológico (N = 1.547), Universidade Federal de Pelotas, 2017–2018. 

Características Total Masculino Feminino Valor-pa



N (%) N (%) N (%)
Idade
18 a 19 anos 577 (37,5) 252 (35,6) 325 (39,0) 0,293
20 a 22 anos 509 (33,1) 228 (32,4) 280 (33,6)
23 a 25 anos 189 (12,3) 95 (13,5) 94 (11,3)
26 anos ou mais 263 (17,1) 128 (18,2) 134 (16,1)
Cor da pele
Branca 1.116 (72,2) 508 (71,8) 606 (72,6) 0,507
Preta 201 (13,0) 88 (12,4) 113 (13,5)
Parda ou outra 228 (14,8) 112 (15,8) 116 (13,9)
Status de relacionamento
Não está se relacionando 509 (33,0) 282 (39,8) 227 (27,3) <0,001
Ficando 266 (17,2) 130 (18,4) 136 (16,3)
Namorando 562 (36,4) 212 (29,9) 350 (42,0)
Morando com cônjuge ou namorado 206 (13,4) 84 (11,9) 120 (14,4)
Orientação sexual
Heterossexual ou assexual 1.198 (77,8) 575 (81,2) 622 (74,9) < 0,001
Homossexual 129 (8,4) 86 (12,2) 43 (5,2)
Bissexual 212 (13,8) 47 (6,6) 165 (19,9)
Identidade de gênero
Cisgênero 1.382 (89,6) 626 (88,4) 756 (90,5) 0,385
Transgênero 110 (7,1) 56 (7,9) 54 (6,5)
Não binário 51 (3,3) 26 (3,7) 25 (3,0)
Classe econômicab
A 221 (15,0) 115 (17,1) 106 (13,2) 0,062
B 653 (44,3) 303 (45,1) 349 (43,6)
C 536 (36,3) 223 (33,2) 312 (39,0)
D e E 65 (4,4) 31 (4,6) 34 (4,2)
Tipo de ensino médio
Público 1.136 (73,5) 510 (72,0) 624 (74,6) 0,248
Privado 410 (26,5) 198 (28,0) 212 (25,4)
Onde morou antes da UFPel
Pelotas 704 (45,6) 314 (44,3) 388 (46,5) 0,128
Outra cidade do RS 536 (34,7) 239 (33,7) 297 (35,6)
Outro estado do Brasil ou outro paísc 305 (19,7) 156 (22,0) 149 (17,9)
Com quem mora
Familiares (pais, irmãos ou cônjuges) 938 (60,8) 411 (58,0) 525 (63,0) 0,092
Amigos ou colegas 414 (26,8) 199 (28,1) 215 (25,8)
Sozinho 192 (12,4) 99 (14,0) 93 (11,2)
Religião
Não 1.086 (70,3) 540 (76,2) 546 (65,4) < 0,001
Sim 460 (29,7) 169 (23,8) 289 (34,6)
Consumo de tabaco
Nunca fumou 1.073 (69,4) 469 (66,2) 603 (72,1) 0,002
Fumante 194 (12,6) 111 (15,7) 83 (9,9)
Ex-fumante 279 (18,0) 129 (19,2) 150 (17,9)
Consumo de bebidas alcoólicasd
Nunca 126 (8,6) 62 (9,0) 64 (8,3) 0,055
Uma vez por mês ou menos 388 (26,5) 162 (23,4) 226 (29,2)
Duas a quatro vezes por mês 585 (39,9) 275 (39,8) 309 (39,9)
Duas a três vezes por semana 296 (20,2) 152 (22,0) 144 (18,6)
Quatro ou mais vezes por semana 71 (4,8) 40 (5,8) 31 (4,0)
Área de conhecimento do curso
Ciências exatas e da terra/agrárias 437 (28,3) 238 (33,6) 198 (23,7) < 0,001
Ciências da saúde e biológicas 279 (18,0) 115 (16,2) 164 (19,6)
Ciências sociais aplicadas e humanas 545 (35,2) 227 (32,0) 318 (38,0)
Linguística, letras e artes 286 (18,5) 129 (18,2) 156 (18,7)

aTeste do qui-quadrado para heterogeneidade para diferenças entre os sexos

bConforme classificação da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (ABEP)

cO número de alunos que moraram em outro país foi n = 3

dO número máximo de missings foi n = 81 para esta variável

Tabela 2 Descrição do comportamento sexual em ingressantes universitários de acordo com o sexo biológico (N = 1.547), Universidade Federal de Pelotas, 2017–2018. 

Desfechos Total Masculino Feminino Valor-pa



N (%) N (%) N (%)
Início da vida sexualb
Não 305 (16,5) 124 (14,9) 181 (17,8) 0,102
Sim 1.547 (83,5) 709 (85,1) 836 (82,2)
Idade da primeira relação
13 anos ou menos 82 (5,3) 54 (7,7) 28 (3,4) < 0,001
14 a 15 anos 483 (31,3) 239 (33,9) 244 (29,3)
16 a 17 anos 583 (37,8) 264 (37,5) 318 (38,1)
18 a 19 anos 295 (19,1) 113 (16,0) 181 (21,7)
20 anos ou mais 98 (6,4) 35 (5,0) 63 (7,6)
Uso de substânciasc
Não 1.178 (76,4) 522 (73,9) 654 (78,5) 0,011
Bebidas alcoólicas 231 (15,0) 107 (15,2) 124 (14,9)
Drogas ilícitas 42 (2,7) 21 (3,0) 21 (2,5)
Bebidas alcoólicas e drogas ilícitas 90 (5,8) 56 (7,9) 34 (4,1)
Prática de sexo analc,d
Não 1.354 (87,9) 571 (81,1) 781 (93,7) < 0,001
Sim 186 (12,1) 133 (18,9) 53 (6,3)
Uso de método contraceptivoc
Não 574 (37,3) 291 (41,3) 283 (33,9) < 0,001
Pílula anticoncepcional 728 (47,2) 293 (41,6) 433 (51,9)
Coito interrompido 62 (4,0) 21 (3,0) 41 (4,9)
Pílula do dia seguinte 48 (3,1) 21 (3,0) 27 (3,2)
Anticoncepcional injetável 31 (2,0) 11 (1,6) 20 (2,4)
Dispositivo intrauterino 15 (1,0) 10 (1,4) 5 (0,6)
Tabelinha 12 (0,8) 2 (0,3) 10 (1,2)
Outro 26 (1,7) 15 (2,1) 11 (1,3)
Não sabe 45 (2,9) 41 (5,8) 4 (0,5)
Uso de método modernoc,e
Não 719 (46,7) 370 (52,5) 349 (41,9) < 0,001
Sim 822 (53,3) 335 (47,5) 485 (58,1)
Uso de aplicativosf
Não 1.193 (77,3) 453 (64,2) 738 (88,4) < 0,001
Sim 350 (22,7) 253 (35,8) 97 (11,6)
Número de parceirosd,f
Nenhum 218 (14,2) 105 (14,9) 113 (13,6) < 0,001
Apenas 1 parceiro 950 (61,7) 382 (54,1) 566 (68,0)
2 a 3 parceiros 245 (15,9) 130 (18,4) 115 (13,8)
4 ou mais parceiros 127 (8,3) 89 (12,6) 38 (4,6)
Camisinhac
Não 700 (45,4) 280 (39,7) 418 (50,1) < 0,001
Sim 842 (54,6) 426 (60,3) 416 (49,9)
Comportamento sexual de riscog
Não 1.402 (91,0) 630 (89,2) 770 (92,5) 0,025
2Sim 138 (9,0) 76 (10,8) 62 (7,5)

aTeste do qui-quadrado para heterogeneidade para diferenças entre os sexos

bNúmero de observações: 1.862

cNa última relação sexual

dO número máximo de missings foi n = 20 para estas variáveis

eConsiderou-se pílula, dispositivo intrauterino, anticoncepcional injetável e pílula do dia seguinte

fNos últimos três meses

gMais de um parceiro nos últimos três meses e não ter utilizado camisinha na última relação sexual

Entre os estudantes do sexo masculino, 41,6% tiveram sua primeira relação sexual antes dos 15 anos, 31% tiveram dois ou mais parceiros sexuais nos últimos três meses e cerca de 40% reportaram não ter utilizado preservativo na última relação. Dos entrevistados, 20% praticaram sexo anal na última relação e 35,8% utilizaram aplicativos com a finalidade de ter relações sexuais nos últimos três meses ( Tabela 2 ).

Entre as estudantes do sexo feminino, 33% tiveram sua primeira relação sexual antes dos 15 anos, 18,4% tiveram dois ou mais parceiros sexuais nos últimos três meses e 50% não usaram preservativo na última relação. Das universitárias, 6% praticaram sexo anal na última relação e 11,6% usaram aplicativos com a finalidade de ter relações sexuais.

A prevalência de comportamento sexual de risco entre os ingressantes universitários foi de 9% (intervalo de confiança de 95% [IC95%] 7,6–10,5), sendo 10,8% entre os estudantes do sexo masculino e 7,5% entre as estudantes do sexo feminino ( Tabela 2 ).

Na análise multivariável, os homens tiveram 48% (Razão de Odds [RO] 1,48; IC95% 1,07–2,07) mais comportamento sexual de risco do que as mulheres. A idade com que os estudantes iniciaram a vida sexual esteve inversamente associada ao CSR. A frequência de consumo de bebidas alcoólicas esteve diretamente associada a comportamento sexual de risco, sendo que aqueles que consumiram álcool quatro ou mais vezes por semana tiveram uma chance cinco vezes maior de ter CSR (RO 5,10; IC95% 1,49–17,6). O uso de drogas ilícitas na última relação sexual e o uso de aplicativos de celular aumentou em mais de 100% a chance de apresentar CSR (RO 2,23; IC95% 1,14–4,39 e RO 2,57; IC95% 1,76–3,74, respectivamente). Idade, orientação sexual, onde o estudante morou antes de ingressar na UFPel, uso de tabaco e prática de sexo anal na última relação não estiveram associados à CSR na análise ajustada ( Tabela 3 ).

Tabela 3 Fatores associados ao comportamento sexual de risco em ingressantes universitários (N = 1.381), Universidade Federal de Pelotas, 2017–2018. 

Características Prevalência de CSR CSR (bruto) CSR (ajustado)



% RP IC95% Valor-pa RP IC95% Valor-pa
Nível 1

Sexo
Feminino 7,5 1 - 0,024 1 - 0,020
Masculino 10,8 1,44 1,05–1,99 1,48 1,07–2,07
Cor da pele
Branca 8,3 1 - 0,200 1 - 0,253
Preta 9,5 1,15 0,72–1,84 1,14 0,69–1,88
Parda ou outra 11,4 1,44 0,96–2,16 1,42 0,94–2,15
Identidade de gênero
Cisgênero 8,7 1 - 0,021 1 - 0,051
Transgênero 8,2 0,95 0,49–1,81 1,04 0,54–2,00
Não binário 19,6 2,27 1,27–4,06 2,12 1,16–3,87
Religião
Não 9,7 1 - 0,127 1 - 0,119
Sim 7,2 0,75 0,51–1,09 0,73 0,49–1,08
Classe econômicab
A 11,0 1 - 0,114c 1 - 0,091c
B 9,4 0,86 0,55–1,34 0,88 0,56–1,38
C 7,5 0,68 0,42–1,11 0,68 0,42–1,11
D e E 7,7 0,70 0,28–1,77 0,66 0,26–2,68

Nível 2

Com quem mora
Familiares (pais, irmãos ou cônjuges) 7,5 1 - 0,031 1 - 0,137
Amigos ou colegas 11,9 1,59 1,12–2,24 1,42 0,99–2,05
Sozinho 9,9 1,32 0,81–2,14 1,34 0,83–2,17
Área de conhecimento do curso
Ciências exatas e da terra/agrárias 7,3 1 - 0,355 1 - 0,144
Ciências da saúde e biológicas 9,0 1,23 0,74–2,02 1,18 0,70–1,99
Ciências sociais aplicadas e humanas 9,0 1,23 0,80–1,89 1,32 0,85–2,03
Linguística, letras e artes 11,3 1,54 0,96–2,45 1,75 1,08–2,84
Idade da primeira relação
13 anos ou menos 17,1 1 - < 0,001 1 - 0,001
14 a 15 anos 12,2 0,72 0,42–1,22 0,80 0,46–1,39
16 a 17 anos 7,9 0,46 0,26–0,80 0,51 0,28–0,90
18 a 19 anos 4,8 0,28 0,14–0,56 0,28 0,13–0,60
20 anos ou mais 5,1 0,30 0,11–0,79 0,34 0,13–0,90

Nível 3

Consumo de bebidas alcoólicas
Nunca 2,4 1 - < 0,001c 1 - < 0,001c
Uma vez por mês ou menos 5,9 2,49 0,76–8,16 2,30 0,69–7,66
Duas a quatro vezes por mês 6,9 2,90 0,91–9,23 2,34 0,72–7,65
Duas a três vezes por semana 17,2 7,23 2,30–22,7 4,30 1,34–13,8
Quatro ou mais vezes por semana 25,4 10,65 3,25–34,9 5,10 1,49–17,6
Uso de substâncias na última relação
Não 6,1 1 - < 0,001 1 0,024
Bebidas alcoólicas 16,1 2,63 1,81–3,80 1,56 1,06–2,33
Drogas ilícitas 19,1 3,11 1,60–6,03 2,23 1,14–4,39
Bebidas alcoólicas e drogas ilícitas 23,3 3,81 2,46–5,89 1,49 0,91–2,47
Uso de aplicativos nos últimos três meses
Não 5,6 1 - < 0,001 1 - < 0,001
Sim 20,6 3,71 2,71–5,06 2,57 1,76< –3,74

CSR: comportamento sexual de risco (mais de um parceiro nos últimos três meses e não ter utilizado camisinha na última relação sexual); RP: razão de prevalências

aTeste do qui-quadrado para heterogeneidade

bConforme classificação da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (ABEP)

cTeste do qui-quadrado para tendência

Aproximadamente 9% dos universitários tiveram alguma infecção sexualmente transmissível alguma vez na vida. Entre os estudantes que tiveram ISTs, 34,8% referiram HPV, 15,6% herpes genital e 13,3% gonorreia, sendo a herpes mais prevalente no sexo feminino e a gonorreia no sexo masculino ( Tabela 4 ). Entre os universitários, 38% relataram já ter realizado teste de HIV alguma vez na vida. Os motivos mais comuns para a realização do teste foram manter relações sexuais desprotegidas (26%), doação de sangue e solicitação médica (ambos com 15,7%), além de campanhas governamentais (13%).

Tabela 4 Frequência de infeções sexualmente transmissíveis e realização de teste de HIV alguma vez na vida em ingressantes universitários, Universidade Federal de Pelotas, 2017–2018. 

Desfechos Total Masculino Feminino Valor-pa



N (%) N (%) N (%)
Infecção sexualmente transmissível (N = 1.540)
Não 1.405 (91,2) 643 (91,3) 761 (91,2) 1,000
Sim 135 (8,8) 61 (8,7) 73 (8,8)
Infecção sexualmente transmissível (N = 135)
HPV 47 (34,8) 18 (29,5) 28 (38,4) 0,004
Herpes genital 21 (15,6) 6 (9,8) 15 (20,6)
Gonorreia 18 (13,3) 14 (23,0) 4 (5,5)
Clamídia 7 (5,2) 3 (4,9) 4 (5,5)
Tricomaníase 7 (5,2) 1 (1,6) 6 (8,2)
Sífilis 6 (4,4) 4 (6,6) 2 (2,7)
HIV/AIDS 5 (3,7) 5 (8,2) -
Outra 24 (17,8) 10 (1,4) 14 (1,7)
Realização do teste de HIV (N = 1.542)b
Não 961 (62,3) 444 (63,0) 517 (61,9) 0,673
Sim 581 (37,7) 261 (37,0) 318 (38,1)
Principal motivo para a realização do teste de HIV (N = 580)
Relação sexual desprotegida 152 (26,2) 82 (31,4) 70 (22,1) < 0,001
Doação de sangue 91 (15,7) 48 (18,4) 43 (13,6)
Solicitação médica 91 (15,7) 29 (11,1) 62 (19,6)
Campanhas governamentais 76 (13,1) 37 (14,2) 39 (12,3)
Pré-natal 43 (7,4) 1 (0,4) 42 (13,2)
Solicitação do parceiro 13 (2,2) 9 (3,5) 4 (1,2)
Exposição ocupacional 11 (1,9) 3 (1,1) 7 (2,2)
Outro 103 (17,8) 52 (19,9) 50 (15,8)

aTeste do qui-quadrado para heterogeneidade para diferenças entre os sexos

bO número máximo de missings foi n = 20 para esta variável; teste realizado alguma vez na vida

DISCUSSÃO

Comportamento sexual de risco tem diferentes definições na literatura, dificultando comparações. Além disso, alguns fatores tratados como características do comportamento sexual são abordados em outros estudos como parte do comportamento sexual de risco. O estudo que mais se aproximou da definição deste trabalho foi conduzido em universitários americanos e considerou os mesmos critérios para compor o desfecho, porém com prazo de recordatório para parceiros múltiplos ampliado para 12 meses. A prevalência de CSR encontrada nele foi de 14% e o não uso de preservativo na última relação foi de 52%11 , sendo similar aos achados nos ingressantes universitários da UFPel. Essas prevalências em universitários, uma população com nível de informação elevado, reforçam a ideia de que ter informação é um fator necessário, porém não suficiente para modificar comportamentos18 .

O estudo é consistente com a literatura que aponta que metade dos universitários fez uso de preservativo20 , 21 e 15% ingeriram bebidas alcoólicas na sua última relação sexual2 , 12 . Entretanto, um estudo mostrou que mais de 40% dos calouros universitários americanos tiveram parceiros sexuais múltiplos nos últimos três meses, o dobro do encontrado neste trabalho12 . Não foram encontrados outros estudos sobre o uso de aplicativos com a finalidade de ter relações sexuais; entretanto, esses recursos estão disponíveis há um período curto de tempo e, provavelmente, seu uso encontra-se em ascensão entre os universitários. Nesse contexto, considerou-se a prevalência elevada.

O comportamento sexual de risco esteve positivamente associado com o sexo masculino, uso de substâncias psicoativas antes da última relação sexual e uso de aplicativos de celular com a finalidade de ter relações sexuais nos últimos três meses. Ele esteve diretamente associado com a frequência de consumo de bebidas alcoólicas e inversamente associado com a idade de início das relações sexuais.

A maior frequência de comportamento sexual de risco no sexo masculino é consistente com a literatura que aponta essa associação independentemente da forma como CSR é avaliado, bem como quando se examinam os componentes do CSR separadamente (menor uso de preservativo e maior número de parceiros)1 , 8 , 11 . Ser do sexo masculino implica estar sujeito a um repertório de cobranças e pressões sociais, tais como encorajamento da expressão da sexualidade em nome da “masculinidade” e provação da virilidade e da heterossexualidade, refletindo no aumento do número de parceiros1 , 22 . Além disso, alguns homens relatam que o preservativo reduz a sensibilidade durante o ato sexual, contribuindo para o não uso.

Assim como este estudo, a literatura aponta associação inversa entre a idade da primeira relação sexual e o comportamento sexual de risco. Há indícios de que não residir com mãe ou pai aumenta o risco de ter uma sexarca mais cedo. A menor presença e supervisão dos pais pode ter impacto negativo na educação sexual dos filhos22 , 23 .

A associação positiva entre consumo de bebidas alcoólicas e uso de substâncias psicoativas com CSR está de acordo com a literatura, a qual aponta que essas substâncias potencializam comportamentos de risco2 , 10 , 12 , 24 . Isso ocorre porque substâncias entorpecentes, especialmente o álcool, deprimem o sistema nervoso central, prejudicando as habilidades psicomotoras e o processamento de informações, afetando a percepção do perigo e a capacidade de tomar decisões adequadas25 .

A literatura sobre o uso de aplicativos de celular para fins sexuais é escassa, pois esse fenômeno surgiu há aproximadamente 10 anos, com a popularização das redes sociais, e migrou de plataformas abrangentes para comunidades específicas para esse fim. Estudos apontam que, ao facilitar interações sociais entre indivíduos desconhecidos, os aplicativos ampliam a possibilidade de relações entre parceiros eventuais e aumentam a chance de ter relação sexual desprotegida26 , 27 . A associação entre uso de aplicativos e CSR chama atenção porque, apesar de esta população ter alta escolaridade e parceiros sexuais eventuais, não faz uso consistente de camisinha.

Todas as características associadas ao CSR – sexo masculino, idade da primeira relação sexual, frequência elevada de consumo de bebidas alcoólicas, uso de substâncias psicoativas antes da última relação e uso de aplicativos de celular com a finalidade de ter relações sexuais – são potenciais marcadores de indivíduos com perfis tomadores de risco11 .

A orientação sexual, identidade de gênero e prática de sexo anal não estiveram associadas com o comportamento sexual de risco. A literatura sobre essa temática é controversa. Apesar de o sexo anal aumentar o risco de transmissão de infecções como HIV28 , um estudo aponta que homossexuais do sexo masculino têm maior número de parceiros, no entanto fazem mais uso de camisinha29 . Outro estudo verificou que o uso de preservativo durante o sexo anal é, em geral, menos consistente do que durante o sexo vaginal, sugerindo que a motivação do uso é a prevenção da gravidez, não a prevenção das ISTs17 . Essas associações podem variar bastante de uma população para outra, bem como em função da definição de CSR utilizada.

Seguir uma doutrina religiosa também não esteve associado com o comportamento sexual de risco, contrariando a literatura30 . As religiões, em geral, promovem abstinência sexual e monogamia, porém não incentivam o uso de preservativo. Além disso, essa associação também pode variar em função da população, da definição de CSR utilizada e ao longo do tempo.

A prevalência de infecções sexualmente transmissíveis alguma vez na vida foi de 9%, número que está alinhado com outro estudo que avaliou universitários brasileiros de cursos da saúde10 . O programa brasileiro de prevenção de ISTs foi referência no mundo e envolveu a distribuição de preservativos, a disponibilização de profilaxias pré e pós-exposição gratuitas, além de uma série de ações educacionais voltadas aos adolescentes escolares. No entanto, as ISTs vêm apresentando indícios de recrudescimento, especialmente o HIV e a sífilis5 , 6 . O aumento da sobrevida dos portadores de HIV nas últimas décadas pode ter colaborado para reduzir a impressão do risco e, juntamente com cortes recentes nas ações governamentais, provocado relaxamento na prevenção.

Dentre as limitações do estudo, é importante mencionar que a pesquisa abrangeu um amplo escopo de temas em saúde, sendo o comportamento sexual apenas um deles, o que impossibilitou a exploração de diferentes tempos de recordatório. O viés de memória foi minimizado ao manter-se esse tempo curto, e o anonimato das respostas contribuiu para a veracidade das informações de caráter sensível. Os estudos disponíveis, em geral, abordam amostras de conveniência ou cursos da área da saúde; assim, apesar das perdas, especialmente na área das ciências exatas e sociais aplicadas, este estudo avançou na caracterização do CSR em universitários.

A padronização da medida de CSR é fundamental para a análise de consistência dos achados. Algumas definições mais conservadoras, que consideram uma diversidade maior de comportamentos de risco (por exemplo, ter mais de 10 parceiros sexuais ao longo da vida e ter mantido relações sexuais após o consumo de álcool ou alguma substância ilegal, assim como com pessoa pouco ou recentemente conhecida) ou um tempo de recordatório mais longo, colaboram com a perpetuação de tabus e estigmas sociais a respeito da expressão da sexualidade.

A operacionalização de CSR utilizada neste estudo, limitada ao uso de preservativo na última relação sexual, proporciona uma medida pontual. Considera-se que a operacionalização do desfecho com foco no risco à saúde foi adequada. Entretanto, recomenda-se que futuros estudos acrescentem um detalhamento do uso de preservativo em um período mais longo (três meses).

Além disso, estudos com universitários requerem uma logística capaz de evitar as perdas, como um trabalho de campo rápido, que não extrapole o semestre e que exclua alunos matriculados que não estão efetivamente frequentando a universidade. É preciso também ampliar os conhecimentos sobre o uso de aplicativos com o objetivo de ter relações sexuais, verificando a relevância da frequência do uso e o perfil de quem utiliza esses recursos, bem como se a associação com CSR se mantém em outras populações de universitários.

A prevalência de CSR em universitários foi relevante e demonstra que políticas de institucionalização da educação sexual nas escolas são necessárias, assim como a atualização de conceitos e do repertório de fatores que podem impactar nos comportamentos sexuais, como o uso de aplicativos. Além disso, é importante retomar as campanhas governamentais de prevenção das ISTs com foco em adultos jovens, inclusive com disponibilização de preservativos no ambiente universitário, com o objetivo de frear o aumento das taxas de infeções preveníveis.

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Financiamento: Esse estudo foi financiado com recursos provenientes do Programa de Excelência Acadêmica (Proex) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - Código de Financiamento 001.

Recebido: 05 de Maio de 2019; Aceito: 31 de Julho de 2019

Correspondência: Débora Dalmas Gräf Rua Marechal Deodoro, 1160 - 3° Piso Bairro Centro - Pelotas, RS CEP: 96020-220 E-mail: dalmasgraf@gmail.com

Contribuição dos autores: Concepção e planejamento do estudo: DDG, MAM, AGF. Análise e interpretação dos dados, elaboração do manuscrito: DDG, MAM, AGF. Revisão crítica do manuscrito: MAM, AGF. Todas as autoras aprovaram a versão final do manuscrito e assumem responsabilidade pública pelo seu conteúdo.

Conflito de interesses: As autoras declaram não haver conflito de interesses.

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