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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.54  São Paulo  2020  Epub May 20, 2020

https://doi.org/10.11606/s1518-8787.2020054001463 

Revisão

Classificação Internacional de Funcionalidade na reabilitação profissional: instrumentos de avaliação da incapacidade laboral

Juliana Scholtão LunaI 
http://orcid.org/0000-0003-3569-4156

Gina Torres Rego MonteiroII 
http://orcid.org/0000-0002-9900-1825

Rosalina Jorge KoifmanII 
http://orcid.org/0000-0002-2746-7597

Anke BergmannIII 
http://orcid.org/0000-0002-1972-8777

I Universidade Federal do Acre. Diretoria de Saúde e Qualidade de Vida do Servidor Federal. Rio Branco, AC, Brasil

II Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública. Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

III Instituto Nacional de Câncer (INCA). Programa de Epidemiologia Clínica. Rio de Janeiro, RJ, Brasil


RESUMO

OBJETIVO

Revisar os principais instrumentos de avaliação funcional e situação de saúde citados na literatura para avaliar trabalhadores brasileiros e verificar a compatibilidade de seus itens com o core set para reabilitação profissional.

MÉTODOS

Foi realizada uma revisão da literatura nas principais bases de dados em busca de artigos que utilizaram instrumentos de avaliação em populações de trabalhadores entre 2007 e 2017. Posteriormente foram recuperados os conteúdos dos instrumentos identificados e dois avaliadores analisaram seus itens para verificar a compatibilidade com as categorias do core set da Classificação Internacional de Funcionalidade para reabilitação profissional. O coeficiente kappa de Cohen foi utilizado para avaliar a concordância entre os avaliadores.

RESULTADOS

Foram selecionados cinco instrumentos específicos e oito genéricos que avaliaram a funcionalidade de trabalhadores. A análise dos itens do total de instrumentos permitiu o preenchimento de 58 categorias (64,5%) do core set com o mínimo de sobreposição: 13 (76,5%) do componente funções corporais, 29 (72,5%) do componente de atividades e participação e 16 (49%) de fatores ambientais.

CONCLUSÕES

A associação de vários instrumentos requer tempo e dificulta o uso da classificação. A elaboração de instrumentos com associação direta às suas categorias se faz essencial para operacionalizá-la.

Palavras-Chave: Avaliação da Deficiência; Saúde do Trabalhador; Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde; Revisão Sistemática

ABSTRACT

OBJECTIVE

To review the main instruments of functional assessment and health status cited in the literature to evaluate Brazilian workers and verify the compatibility of their items with the core set for professional rehabilitation.

METHODS

A review of the literature was conducted in the main databases in search of articles that used assessment instruments in populations of workers between 2007 and 2017. Subsequently, the contents of the identified instruments were retrieved, and two evaluators analyzed their items to verify the compatibility with the categories of the core set of the International Classification of Functioning for professional rehabilitation. Cohen’s kappa coefficient was used to evaluate the agreement between the evaluators.

RESULTS

Five specific and eight generic instruments were selected to evaluate the functioning of workers. The analysis of the items of the total instruments allowed the definition of 58 categories (64.5%) of the core set with minimal overlap: 13 (76.5%) of the body functions component, 29 (72.5%) of the activities and participation component and 16 (49%) environmental factors.

CONCLUSIONS

The association of several instruments requires time and makes it difficult to use the classification. The development of instruments with direct association with its categories is essential to operationalize it.

Key words: Disability Assessment; Occupational Health; International Classification of Functioning, Disability and Health; Systematic Review

INTRODUÇÃO

O uso de instrumentos de classificação na área da saúde ocupacional facilita a compreensão sobre os diferentes agravos e incapacidades advindos do trabalho 1 , 2 , já que suas consequências podem ser amplamente variadas. A padronização da linguagem sobre o estado de saúde dos trabalhadores otimiza as relações entre as diversas áreas que compõem a equipe de intervenção, possibilitando ações integradas e efetivas de retorno ao trabalho 1 .

A Organização Mundial de Saúde (OMS) propõe duas classificações para registrar informações sobre as condições e estados de saúde das populações. A primeira é a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), que codifica as condições de saúde em termos de sinais e sintomas. A segunda é a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), que classifica o impacto dessas condições em termos de funcionalidade 4 . Essas classificações devem ser utilizadas de forma conjunta, favorecendo a realização de comparações em pesquisas, registros de dados, alimentação de sistemas de informação, elaboração de relatórios e estatísticas em saúde pública 5 , 6 .

A reabilitação profissional (RP) é descrita como o principal processo para promover a saúde dos trabalhadores, objetivando manter o trabalhador ativo ou propiciando o seu retorno ao trabalho em casos de adoecimento ou incapacidade 1 , 7 , 8 . Deve ser realizada sob uma abordagem multiprofissional, com ações que vão desde a prevenção do adoecimento e assistência à saúde até a realização de alterações no ambiente de trabalho 1 , 2 , 9 .

No Brasil, a RP é historicamente atribuída ao Ministério da Previdência Social, tendo como critério central a identificação da incapacidade por meio da perícia com posterior concessão de benefício ao trabalhador afastado e encaminhamento a um programa de orientação profissional que objetive promover meios (treinamentos e cursos) para que o trabalhador seja reinserido no mercado de trabalho 10 . Não inclui, obrigatoriamente, ações integradas de reabilitação física e/ou psicológica, que são atribuições do Ministério da Saúde, ofertadas por centros de reabilitação, não necessariamente especializados nessa área de atuação 10 , 11 .

O Manual Técnico de Procedimentos da Área da Reabilitação Profissional , de 2016, aponta para um avanço nessa área, reconhecendo que a RP deve incluir ações combinadas de atenção, vigilância e assistência à saúde, incluindo a reinserção social e análise ambiental, com atuação de uma equipe multiprofissional especializada, sendo de responsabilidade pública e intersetorial e devendo ser pautada pela CIF em toda sua elaboração 12 . No entanto, a desarticulação entre os setores responsáveis e a falta de uma política pública consistente ainda contribuem para a não implantação de um programa de RP eficiente no Brasil, com muitos trabalhadores sem condições de retornar às suas atividades laborais 10 .

O ICF Research Branch é um importante centro colaborador da OMS para estudos com a CIF e é referência em publicações na área da RP. A adoção do modelo biopsicossocial da OMS, bem como o uso da CIF na RP, já são consolidados por permitir uma visão abrangente da incapacidade laboral e a padronização da linguagem, melhorando a comunicação entre profissionais de saúde, usuários, empregadores e gestores de políticas públicas, favorecendo os resultados esperados com a RP 13 .

Nesse sentido, um grupo de pesquisadores desse centro elaborou em 2012 o core set para RP, para servir de referência na descrição da funcionalidade de trabalhadores 2 . Core set é uma lista resumida de categorias da CIF, elaborada por consenso entre especialistas em determinada área, como uma estratégia proposta pela OMS para facilitar o uso da classificação entre os profissionais dos diversos setores 14 .

O core set para RP reúne 90 categorias da CIF e é aplicável a qualquer classe de trabalhadores, independentemente das condições de saúde. É dividido em 17 categorias do domínio de funções corporais, 40 categorias do domínio de atividades e participação e 33 categorias referentes aos fatores ambientais ( Tabela 1 ).

Tabela 1 Categorias do core set da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde para reabilitação profissional segundo Finger et al. 12  

Funções corporais (b) Atividades e participação (d) Fatores ambientais (e)



Categoria da CIF Descrição da categoria Categoria da CIF Descrição da categoria Categoria da CIF Descrição da categoria
b 117 Funções intelectuais d 155 Adquirir competências e 1101 Medicamentos
b 126 Temperamento e personalidade d 160 Concentrar atenção e 115 Produtos para uso pessoal na vida diária
b 130 Energia e funções de impulso d 163 Pensar e 120 Produtos para mobilidade pessoal
b 134 Funções do sono d 166 Ler e 125 Produtos e tecnologias para comunicação
b 140 Funções da atenção d 170 Escrever e 130 Produtos e tecnologias para educação
b 144 Funções de memória d 172 Calcular e 135 Produtos e tecnologia para o emprego
b 152 Funções emocionais d 175 Resolver problemas e 150 Arquitetura, construção uso público
b 160 Funções do pensamento d 177 Tomar decisões e 155 Arquitetura, construção uso privado
b 164 Funções cognitivas de alto nível d 210 Realizar uma única tarefa e 225 Clima
b 210 Funções da visão d 220 Realizar múltiplas tarefas e 240 Luz
b 230 Funções da audição d 230 Executar a rotina diária e 250 Som
b 235 Funções vestibulares d 240 Lidar com o stress e outras exigências psicológicas e 260 Qualidade do ar
b 280 Sensação de dor d 310 Comunicar e receber mensagens orais e 310 Família imediata
b 455 Funções de tolerância ao exercício d 315 Comunicar e receber mensagens não verbais e 320 Amigos
b 730 Funções de força muscular d 350 Conversar e 325 Conhecidos, pares, colegas, vizinhos
b 740 Funções de endurance muscular d 360 Utilizar dispositivos de comunicação e 330 Pessoas em posição de autoridade
b 810 Funções de proteção da pele d 410 Mudar a posição básica do corpo e 340 Prestadores de cuidados pessoais
d 415 Manter a posição do corpo e 355 Profissionais de saúde
d 430 Levantar e transportar objetos e 360 Outros profissionais
d 440 Utilizar movimentos finos da mão e 430 Atitudes de pessoas em posição de autoridade
d 445 Utilizar movimentos da mão e do braço e 450 Atitudes individuais de profissionais de saúde
d 450 Caminhar e 460 Atitudes sociais
d 455 Deslocar-se e 465 Normas práticas e ideologias
d 465 Deslocar-se usando algum equipamento e 525 Serviços, sistemas e políticas de habitação
d 470 Utilizar transporte e 535 Serviços e políticas de comunicação
d 475 Conduzir transporte e 540 Serviços, e políticas de transportes
d 530 Cuidados com o processo de excreção e 550 Serviços, sistemas e políticas legais
d 540 Vestir-se e 555 Serviços e políticas de associações
d 570 Cuidar da própria saúde e 565 Serviços, sistemas e políticas econômicas
d 710 Interações interpessoais básicas e 570 Serviços, políticas de seguridade social
d 720 Interações pessoais complexas e 580 Serviços, sistemas e políticas de saúde
d 740 Relacionamento formal e 585 Serviços e políticas de educação e formação
d 820 Educação escolar e 590 Serviços e políticas de trabalho e emprego
d 825 Formação profissional
d 830 Educação de nível superior
d 840 Estágio/preparação para o trabalho
d 845 Obter, manter e sair de um emprego
d 850 Trabalho remunerado
d 855 Trabalho não remunerado
d 870 Autossuficiência econômica

No entanto, a CIF e seus core sets são instrumentos de classificação e, para que sejam acessados de forma fidedigna e seus achados passíveis de comparação entre profissionais e em pesquisas, são necessários métodos padronizados de medidas para avaliar a funcionalidade dos indivíduos e que sejam preferencialmente compatíveis com o uso da classificação 14 . Visando contribuir para a operacionalização da CIF, essencial para o avanço das políticas públicas de RP no Brasil, o presente estudo teve como proposta revisar os instrumentos de avaliação funcional e situação de saúde que são utilizados em pesquisas que avaliam funcionalidade e situação de saúde de trabalhadores brasileiros em geral e verificar a compatibilidade de seus itens com as categorias do core set para reabilitação profissional.

MÉTODOS

Uma revisão da literatura foi realizada nas bases de dados PubMed, Scopus, Web of Science, Lilacs e SciELO , no período de janeiro a julho de 2018 , com objetivo de identificar instrumentos de avaliação da funcionalidade e situação de saúde aplicados em populações de trabalhadores brasileiros de qualquer categoria. A busca na literatura incluiu publicações no período de janeiro de 2007 a dezembro de 2017.

Os seguintes descritores foram considerados: “capacity evaluation, work”, OR “disability evaluation, work”, AND “functional assessment”, OR “questionnaire” . Os mesmos descritores foram utilizados para a busca em português.

Após a identificação dos artigos, foram selecionados os instrumentos utilizados nos estudos para a avaliação dos trabalhadores, e seus conteúdos foram pesquisados na íntegra. Em seguida, foram selecionados aqueles nos quais a maioria dos itens poderia responder às categorias do core set da CIF para RP, incluindo, preferencialmente, os com itens referentes à avaliação de alterações de funções corporais, limitação de atividades e questões ambientais, conforme propõe a classificação. A partir disso, foram feitas as análises dos itens de cada instrumento selecionado e verificada a possibilidade de acessar as categorias do core set da CIF para RP.

A compatibilidade de cada item dos instrumentos identificados na literatura, com o core set, foi verificada independentemente por dois avaliadores, que eram profissionais de saúde familiarizados com o uso da CIF, conforme recomendação da literatura 15 . Para essa análise, foi considerado o que o item contemplava e estabelecida a conexão com o core set por meio da descrição detalhada e das definições de cada categoria oferecidas pela CIF.

Para verificar a concordância entre os avaliadores na seleção das categorias acessadas pelos itens de cada instrumento, foram calculados os coeficientes kappa de Cohen, classificados pelos pontos de corte propostos por Landis e Koch 16: abaixo de 0 (pobre); 0 a 0,20 (fraca); 0,21 a 0,40 (razoável); 0,41 a 0,60 (moderada); 0,61 a 0,80 (substancial); e 0,81 a 1,00 (quase perfeita).

Após a análise da concordância, foi feito o estudo dos itens não concordantes entre os avaliadores em busca do consenso para retirada ou confirmação da inclusão do item como compatível com o core set .

RESULTADOS

Foram encontrados 13 instrumentos de avaliação utilizados em pesquisas sobre funcionalidade ou estados de saúde de trabalhadores brasileiros no período estudado. Por meio da recuperação de seus conteúdos, constatou-se que todos foram validados especificamente para o Brasil para avaliação de aspectos relacionados à funcionalidade ou situação de saúde.

Dos treze instrumentos revisados, cinco foram criados especificamente para a avaliação de incapacidades e aspectos relacionados ao trabalho, sendo eles: o índice de capacidade para o trabalho (ICT), o Cultural and Psychosocial Influences on Disability questionnaire (CUPID), a Work Disability Diagnosis Interview (WoDDI), o Obstacles to Return-to-Work Questionnaire (ORTWQ) e o Work Role Functioning Questionnaire (WRFQ). Os demais foram instrumentos utilizados pelos pesquisadores, em grupos de trabalhadores, porém criados para avaliação específica de algumas regiões anatômicas ou para verificar a qualidade de vida em geral sem levar em conta a natureza e as condições de trabalho que podem estar associadas aos sintomas. Os instrumentos analisados e o número de categorias do core set para RP que puderam ser acessadas por cada um deles são apresentados na Tabela 2 .

Tabela 2 Instrumentos de avaliação funcional e situação de saúde selecionados para análise de compatibilidade com o core set da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde para reabilitação profissional e número de categorias do core set que puderam ser acessadas em cada domínio. 

Instrumento Autor, ano e local do estudo Amostra de trabalhadores Número de categorias acessadas
Funções corporais Total: 17 Atividades e participação Total: 40 Fatores ambientais Total: 33
ICT Walsh et al., 2008. São Carlos, SP. 134 trabalhadoras de uma multinacional 3 9 0
CUPID Carugno et al., 2012. São Paulo, SP. 751 enfermeiras de hospitais públicos 3 7 1
WoDDI Mininel et al., 2012. São Paulo, SP. 30 trabalhadores do Hospital Universitário da USP 6 6 5
WRFQ Galash e Costa, 2007. Campinas, SP. 105 trabalhadores (formais ou informais) 1 14 0
ORTWQ Milani et al., 2016. Campinas, SP. 301 trabalhadores diversos 3 2 4
WHODAS Valério et al., 2016. Uberaba, MG. 94 trabalhadores ativos (formais ou informais) 2 13 1
NHP Bartilotti et al., 2009. Florianópolis, SC. 425 trabalhadores atendidos no CEREST de Santa Catarina 5 7 1
MIF Bartilotti et al., 2009. Florianópolis, SC. 425 trabalhadores atendidos no CEREST de Santa Catarina 1 8 0
DASH Camargo et al., 2007. São Carlos, SP. 27 trabalhadores industriais 4 5 0
ODI Walsh et al., 2008. São Carlos, SP. 134 trabalhadoras de uma multinacional 2 6 0
RMQ Sardá Jr et al., 2009. Florianópolis, SC. 234 trabalhadores de frigorífico 3 7 01
SF-36 Sena et al., 2013. Lagarto, SE. 351 trabalhadores rurais 3 10 0
WHOQOL-BREF Ferreira et al., 2017. São Paulo, SP. 50 trabalhadores açougueiros 4 6 11

ICT: índice de capacidade para o trabalho; CUPID: Cultural and Psychosocial Influences on Disability questionnaire ; WoDDI: Work Disability Diagnosis Interview ; WRFQ: Work Role Functioning Questionnaire ; ORTWQ: Obstacles to Return-to-Work Questionnaire ; WHODAS: World Health Organization Disability Assessment Schedule II ; NHP: Nottingham Health Profile ; MIF: Medida de Independência Funcional; DASH: Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand questionnaire ; ODI: Owestry Low Back Pain Disability Questionnaire ; RMQ: Roland-Morris Questionnaire ; SF-36: Short Form (36) Health Survey ; WHOQOL-BREF: versão reduzida do World Health Organization Quality of Life questionnaire ; USP: Universidade de São Paulo; CEREST: Centro de Referência em Saúde do Trabalhador

Entre esses instrumentos, quatro foram desenvolvidos com base nas categorias da CIF, o que permite uma maior conexão com ela: o World Health Organization Disability Assessment Schedule II (WHODAS), o Nottingham Health Profile (NHP), o World Health Organization Quality of Life questionnaire (WHOQOL) e o ORTWQ. O WHODAS apresentou concordância substancial entre os avaliadores no vínculo com o core set , e os demais concordância quase perfeita, conforme mostra a Tabela 3 . Os outros oito instrumentos revisados não foram criados com vistas à utilização da CIF, mas a concordância entre os itens escolhidos pelos avaliadores como compatíveis com as categorias do core set foi substancial ou quase perfeita para a maioria e moderada para o CUPID ( Tabela 3 ).

Tabela 3 Instrumentos analisados e valores de kappa encontrados na análise da concordância entre os avaliadores. 

Instrumento Valor do kappa
WRFQ 0,91
NHP 0,87
ODI 0,86
ORTWQ 0,83
DASH 0,82
WHOQOL-BREF 0,81
SF-36 0,78
WHODAS 0,74
RMQ 0,73
MIF 0,72
ICT 0,67
WoDDI 0,61
CUPID 0,49

WRFQ: Work Role Functioning Questionnaire ; NHP: Nottingham Health Profile ; ODI: Owestry Low Back Pain Disability Questionnaire ; ORTWQ: Obstacles to Return-to-Work Questionnaire ; DASH: Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand questionnaire ; WHOQOL-BREF: versão reduzida do World Health Organization Quality of Life questionnaire ; SF-36: Short Form (36) Health Survey ; WHODAS: World Health Organization Disability Assessment Schedule II ; RMQ: Roland-Morris Questionnaire ; MIF: Medida de Independência Funcional; ICT: índice de capacidade para o trabalho; WoDDI: Work Disability Diagnosis Interview ; CUPID: Cultural and Psychosocial Influences on Disability questionnaire

Nota: Classificação segundo Landis e Koch 16: pobre (<0), fraca (0 a 0,20), razoável (0,21 a 0,40), moderada (0,41 a 0,60), substancial (0,61 a 0,80), quase perfeita (0,81 a 1).

A análise da compatibilidade dos itens dos instrumentos selecionados com o core set para RP evidenciou a variabilidade no enfoque de cada instrumento ao abordar as questões funcionais do indivíduo quando o objetivo é capacidade ocupacional. A proporção de categorias do core set acessadas pelos itens de cada questionário de acordo com os componentes da CIF é apresentada no Gráfico 1 e nota-se a ênfase dada à avaliação de funções corporais e de limitação de atividades e participação. Os instrumentos específicos para avaliação de aspectos relacionados ao trabalho (ICT, CUPID, WoDDI, WRFQ e ORTWQ), incluindo limitações funcionais, puderam acessar, quando analisados em conjunto, 36 categorias do core set para reabilitação profissional (11 categorias b, 15 categorias d e 10 categorias e).

Gráfico 1 Proporção de categorias preenchidas pelos instrumentos analisados em cada domínio do core set para reabilitação profissional.ICT: índice de capacidade para o trabalho; CUPID: Cultural and Psychosocial Influences on Disability questionnaire ; WoDDI: Work Disability Diagnosis Interview ; WRFQ: Work Role Functioning Questionnaire ; ORTWQ: Obstacles to Return-to-Work Questionnaire ; DASH: Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand questionnaire ; ODI: Owestry Low Back Pain Disability Questionnaire ; MIF: Medida de Independência Funcional; NHP: Nottingham Health Profile ; RMQ: Roland-Morris Questionnaire ; SF-36: Short Form (36) Health Survey ; WHODAS: World Health Organization Disability Assessment Schedule II ; WHOQOL-BREF: versão reduzida do World Health Organization Quality of Life questionnaire 

O ICT tem como objetivo evidenciar quão bem está ou estará um trabalhador num futuro próximo e quão bem ele é capaz de executar seu trabalho em função das exigências, de seu estado de saúde e de suas capacidades físicas e mentais. Inclui domínios sobre a capacidade atual para o trabalho, capacidade em relação às exigências do trabalho, número de doenças diagnosticadas, perda estimada da capacidade para o trabalho e falta por causa das doenças, prognóstico da capacidade para o trabalho daqui a dois anos e recursos mentais. Pelos seus itens foi possível estabelecer conexão com 12 categorias do core set em questão.

O CUPID objetiva associar os sintomas musculoesqueléticos dos trabalhadores às suas atividades, aspectos psicossociais e outras incapacidades. Validado para o Brasil como Pesquisa Internacional sobre as Influências Físicas, Culturais e Psicossociais nos Sintomas Musculoesqueléticos e Incapacidades Associadas, verifica as atividades físicas no trabalho, aspectos psicossociais, sintomas musculoesqueléticos em vários sítios anatômicos associados à incapacidade para tarefas diárias comuns, saúde mental e tendência para se preocupar com os sintomas, bem como crenças sobre a natureza e a gravidade das doenças relacionadas ao trabalho. Esse instrumento possibilitou conexão com 11 categorias.

O WoDDI busca detectar os fatores preditivos de maior importância para incapacidades relacionadas ao trabalho e identificar uma ou mais causas de absenteísmo prolongado. Validado para o Brasil como Instrumento de Identificação da Situação de Incapacidade para o Trabalho, analisa a história da moléstia atual, dor, condição de saúde anterior e atual, exame físico, hábitos de vida, história sociofamiliar, situação financeira, ambiente de trabalho, percepções do trabalhador e análise de resultados e recomendações. Seus itens foram compatíveis com 17 categorias do core set .

O WRFQ é validado para o português como Questionário de Avaliação do Desempenho no Trabalho e avalia se a capacidade funcional do trabalhador está alterada devido a problemas de saúde. Analisa a demanda de trabalho, demanda física, demanda mental, demanda social e demanda de produção. Teve conexão com 15 categorias.

O último instrumento voltado à avaliação de trabalhadores, o ORTWQ, foi criado sob influência da CIF e avalia barreiras relacionadas ao retorno ao trabalho. Validado para o Brasil como Obstáculos para Retorno ao Trabalho, contém 55 itens divididos em nove domínios: dificuldade de retorno, carga física e autopercepção da nocividade do trabalho, suporte social, preocupação devido ao afastamento, satisfação, suporte/situação familiar e prognóstico autopercebido de retorno ao trabalho. Apesar de extenso, a análise de seus itens permitiu verificar uma conexão com apenas nove categorias do core set .

Os demais instrumentos revisados foram utilizados nas pesquisas de forma adaptada para estabelecimento de problemas em trabalhadores e, quando vinculados ao core set para reabilitação profissional, também apresentaram variabilidade nas categorias respondidas, com ênfase em funções corporais e limitação de atividades. Utilizados em conjunto, esses instrumentos puderam acessar 45 categorias, sendo sete relacionadas a funções corporais, 24 a atividades e participação e 13 a fatores ambientais.

O WHODAS foi criado pela OMS para oferecer correlação direta com a CIF e servir como um método padronizado de mensuração da saúde e das incapacidades de forma transcultural. Contém 36 itens e fornece o nível de funcionalidade em seis domínios: cognição, mobilidade, autocuidado, relações interpessoais, atividades de vida e participação. Analisado para acessar o core set , foi possível estabelecer conexão com 16 categorias.

O NHP é um instrumento genérico com 38 itens que se referem aos seguintes domínios: nível de energia, dor, reações emocionais, sono, interação social e habilidades físicas. Objetiva avaliar a qualidade de vida em pacientes portadores de doenças crônicas. A análise dos seus itens mostrou compatibilidade com 13 categorias.

A Functional Independence Measure (FIM), validada para o português como escala de Medida de Independência Funcional (MIF), foi elaborada com base nas categorias da versão-teste da CIF chamada de International Classification of Impairments, Disabilities, and Handicaps (ICIDH). Validada para uma ampla categoria de pessoas no Brasil, mensura o nível de incapacidade do indivíduo e o quanto de assistência é requerida para realizar suas atividades. Conta com 18 itens distribuídos nos seguintes domínios: autocuidado, controle de esfíncteres, mobilidade, locomoção, comunicação e interação social. Foi compatível com 18 categorias do core set.

Outro instrumento utilizado na avaliação funcionalidade em trabalhadores é o Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand questionnaire (DASH), criado para avaliação de disfunção e sintomas físicos em membros superiores em qualquer grupo de pessoas. Inclui 30 itens relacionados a dor, fraqueza, rigidez, formigamento, atividades diárias, tarefas domésticas, compras, atividades de recreação, autocuidado, vestir, alimentação, atividades sexuais, sono, cuidados com a família, trabalho, socialização e autoimagem. Em relação ao core set , o DASH permitiu acessar nove categorias.

O Owestry Low Back Pain Disability Questionnaire (ODI) e o Roland-Morris Questionnaire (RMQ) também são utilizados para avaliação de capacidade funcional. Ambos validados para o Brasil em diversos tipos populacionais, avaliam o efeito da lombalgia na funcionalidade. Tiveram conexão com 8 e 11 categorias do core set , respectivamente.

Os dois últimos instrumentos revisados avaliam a qualidade de vida dos indivíduos, considerando aspectos funcionais. O Short Form (36) Health Survey (SF-36) avalia a qualidade de vida dos indivíduos e inclui questões referentes à funcionalidade. É genérico e aborda os seguintes aspectos: capacidade funcional, aspectos físicos, dor, estado geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais, saúde mental e avaliação comparativa de saúde. Possibilitou estabelecer conexão com 13 categorias.

O WHOQOL-BREF também avalia qualidade de vida. É uma versão reduzida do WHOQOL, proposto pela OMS para ser utilizado de forma transcultural, composto por 26 itens distribuídos em quatro domínios: físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente. Possibilitou o vínculo a 21 categorias.

Conforme este estudo, para avaliarmos todos os aspectos considerados relevantes apontados nas categorias do core set para reabilitação profissional, seria necessária a utilização de uma combinação de instrumentos. O preenchimento do máximo de categorias do core set utilizando o mínimo de instrumentos possíveis demandaria a utilização de 10 dos 13 revisados neste trabalho e seria possível acessar 58 das 90 categorias propostas ( Tabela 4 ). Entre elas, 13 (76%) seriam referentes ao componente de funções corporais, 28 (72,5%) ao de atividades e participação e 16 (49%) ao de fatores ambientais.

Tabela 4 Relação das categorias do core set para reabilitação profissional acessadas pelos dez instrumentos de avaliação selecionados como mínimos para responder ao core set. 

Categorias* Instrumentos
b 126: funções de temperamento RMQ, DASH, WRFQ
b 130: energia e funções de impulso ICT, ORTWQ, SF-36, WHOQOL-BREF
b 134: funções do sono ICT, WoDDI, RMQ, DASH, WHOQOL-BREF
b 140: funções da atenção ICT
b 144: funções de memoria WHODAS
b 152: funções emocionais CUPID, ICT, ORTWQ, WoDDI, SF-36, WHODAS, WHOQOL-BREF
b 210: funções da visão ICT
b 230: funções da audição ICT
b 235: funções vestibulares CUPID
b 280: sensação de dor CUPID, ICT, ORTWQ, WoDDI, RMQ, DASH, SF-36, WHOQOL-BREF
b 455: funções de tolerância ao exercício ICT, WoDDI
b 730: funções de força muscular WoDDI, DASH
b 810: funções de proteção da pele ICT, WoDDI
d 160: concentrar atenção WHODAS, WHOQOL-BREF, WRFQ
d 163: pensar WRFQ
d 166: ler WRFQ
d 170: escrever CUPID, DASH
d 175: resolver problemas ICT, WHODAS
d 177: tomar decisões ICT
d 210: realizar uma única tarefa ORTWQ, WHODAS, WRFQ
d 220: realizar múltiplas tarefas RMQ
d 230: executar a rotina diária CUPID, RMQ, SF-36, WHODAS, WHOQOL-BREF
d 310: comunicar (mensagens orais) WHODAS, WRFQ
d 350: conversação WHODAS
d 360: utilização de dispositivos de comunicação WRFQ
d 410: mudar a posição básica do corpo CUPID, RMQ, SF-36, WHODAS, WRFQ
d 415: manter a posição do corpo RMQ, WHODAS, WRFQ
d 430: levantar e transportar objetos WoDDI, DASH, SF-36, WRFQ
d 440: utilizar movimentos finos da mão DASH, CUPID, WRFQ
d 445: utilização da mão e do braço DASH, CUPID, ORTWQ, SF-36, WRFQ
d 450: caminhar CUPID, WoDDI, RMQ, SF-36, WHODAS, WHOQOL-BREF, WRFQ
d 455: deslocar-se SF-36
d 465: deslocar-se com equipamento WoDDI, RMQ
d 470: utilização de transporte DASH
d 530: cuidados com processo de excreção MIF
d 540: vestir-se CUPID, RMQ, DASH, SF-36, WHODAS
d 570: cuidar da própria saúde WHODAS
d 710: interações interpessoais básicas SF-36, WHODAS, WHOQOL-BREF
d 740: relacionamento formal WoDDI, WRFQ
d 845: obter, manter e sair de um emprego SF-36
d 850: trabalho remunerado ICT, WoDDI, SF-36, WHODAS, WHOQOL-BREF, WRFQ
d 870: autossuficiência econômica WoDDI, WHOQOL-BREF
e 1101: medicamentos WoDDI
e 120: produtos de mobilidade RMQ
e 150: arquitetura (prédios de uso público) WHODAS
e 225: clima WoDDI, WHOQOL-BREF
e 240: luz WHOQOL-BREF
e 250: som WoDDI, WHOQOL-BREF
e 260: qualidade do ar WoDDI, WHOQOL-BREF
e 310: família imediata ORTWQ, WHOQOL-BREF
e 320: amigos ORTWQ, WHOQOL-BREF
e 325: conhecidos ORTWQ, WoDDI, WHOQOL-BREF
e 330: pessoas em posição de autoridade CUPID
e 355: profissionais de saúde WHOQOL-BREF
e 430: atitudes de pessoas em posição de autoridade ORTWQ
e 525: serviços relacionados à habitação WHOQOL-BREF
e 540: serviços relacionados à transportes WHOQOL-BREF
e 580: serviços de saúde WoDDI, WHOQOL-BREF

WRFQ: Work Role Functioning Questionnaire ; NHP: Nottingham Health Profile ; ODI: Owestry Low Back Pain Disability Questionnaire ; ORTWQ: Obstacles to Return-to-Work Questionnaire ; DASH: Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand questionnaire ; WHOQOL-BREF: versão reduzida do World Health Organization Quality of Life questionnaire ; SF-36: Short Form (36) Health Survey ; WHODAS: World Health Organization Disability Assessment Schedule II ; RMQ: Roland-Morris Questionnaire ; MIF: Medida de Independência Funcional; ICT: índice de capacidade para o trabalho; WoDDI: Work Disability Diagnosis Interview ; CUPID: Cultural and Psychosocial Influences on Disability questionnaire

Nota: 32 categorias do core set , descritas na Tabela 1, não foram identificadas em nenhum instrumento, sendo quatro de funções corporais (b117, b160, b164, b740), 11 de atividades e participação (d155, d172, d240, d315, d475, d720, d820, d825, d830, d840, d855) e 17 de fatores ambientais (e115, e125, e130, e135, e155, e340, e360, e450, e460, e465, e535, e550, e565, e555, e570, e585, e590).

Analisados para responder ao core set para RP, a maioria dos instrumentos prioriza a avaliação de alterações em funções corporais e a identificação de limitação de atividades que possam interferir no trabalho. Os fatores ambientais são considerados por seis instrumentos, ou seja, a interferência do meio ambiente como facilitador ou limitador da funcionalidade é pouco abordada pela maioria dos instrumentos levantados.

DISCUSSÃO

O presente estudo buscou analisar instrumentos de avaliação funcional como forma de acessar o core set da CIF para RP, visando melhorar a compreensão sobre as medidas de funcionalidade nessa área e elucidar possíveis formas de utilização da classificação. Esse core set foi escolhido por ser o único, na literatura, criado para nortear a classificação da funcionalidade de trabalhadores em reabilitação, por meio da CIF. Para utilizá-lo é importante a aplicação de instrumentos validados que mensurem a funcionalidade de forma fidedigna, gerando resultados passíveis de comparações em pesquisas 2 .

A revisão realizada durante a pesquisa evidenciou a multiplicidade de instrumentos utilizados na abordagem de questões funcionais relacionadas ao trabalho. Foram elegíveis aqueles que pudessem alcançar os domínios da CIF, respondendo ao máximo de categorias do core set estudado. Dessa forma foram selecionados cinco instrumentos específicos e oito instrumentos genéricos que avaliaram a funcionalidade de trabalhadores publicados no período proposto.

A grande variedade de instrumentos disponíveis, com diferentes bases teóricas, leva à necessidade de escolha por parte dos pesquisadores e dificulta a comparação e padronização dos resultados 17 . Uma forma de compensar essa lacuna é vincular diferentes instrumentos de avaliação a um modelo conceitual único que favoreça um quadro comum para comparar medidas 18 .

A CIF é uma base conceitual teórica, endossada pela OMS, para classificar a funcionalidade e incapacidade dos indivíduos e promover uma linguagem única e abrangente sobre o estado de saúde das populações 21 , 22 . Vinculada a instrumentos de avaliação, a classificação permite a tradução das medidas para um mesmo idioma (códigos da CIF), facilitando a análise de conteúdo de seus itens e a compreensão e comparação dos resultados 23 .

Analisados tendo como referência o core set para RP, foi possível perceber que os instrumentos reúnem itens em comum, mas diferem na abordagem dos domínios considerados pela CIF. Cerca de 38% das categorias do core set puderam ser acessadas por mais de um dos 13 instrumentos. Em relação aos domínios, os componentes relacionados a problemas em funções corporais e limitação de atividades e participação foram os mais representados, evidenciando a preocupação em verificar o adoecimento físico e a experiência dos trabalhadores nas diversas atividades envolvidas em um modo de trabalho.

Trinta e duas das 90 categorias do core set não puderam ser acessadas por meio dos itens dos instrumentos encontrados. O componente de funções corporais teve quatro categorias (23%) não acessadas, o de atividades e participação 11 categorias (27,5%) e o componente menos representado foi de fatores ambientais, com 17 categorias (51,5%) sem respostas.

Outros autores também verificaram essa menor representatividade de itens relacionados às categorias de fatores ambientais da CIF em correlações com outros instrumentos 17 , 19 , 24 . Esse fato desfavorece a abordagem dada à funcionalidade, já que ignora um importante componente influenciador na função dos indivíduos, altamente considerado pelo modelo biopsicossocial que embasou a elaboração da CIF 23 , 27 .

Na RP os fatores ambientais (físicos, sociais e atitudinais) devem ser enfatizados, já que são importantes influenciadores da participação no trabalho, interagindo com as condições do corpo (funções e estruturas corporais) e determinando o nível e a extensão do seu funcionamento 1 , 28 . O objetivo principal desse processo é a recuperação da capacidade laboral de forma eficaz e duradoura, o que está intimamente associado às condições do local de trabalho 3 .

Para se manter ativo e produtivo, o trabalhador precisa estar em um ambiente propício, que deve incluir facilitadores da funcionalidade, desde condições ergonômicas adequadas até mudanças organizacionais geradoras de bem-estar, aumento da autoestima, autonomia no trabalho e relacionamentos saudáveis 1 , 29 . Mesmo indivíduos altamente incapacitados podem ter suas possibilidades de participação recuperadas se a modificação do ambiente estiver entre as prioridades da RP 1 , 3 . Esse processo se dá com a análise dos fatores ambientais que devem ser cuidadosamente inseridos na avaliação e no acompanhamento de cada trabalhador 3 .

O coeficiente kappa, utilizado para verificar a concordância entre os avaliadores que analisaram a correspondência dos itens dos instrumentos com as categorias do core set , variou de concordância moderada (k = 0,49) para um instrumento até quase perfeita (k > 0,80) para sete instrumentos ( Tabela 3 ). Esse resultado indica que, apesar de os instrumentos não oferecerem ligação direta com a CIF, os avaliadores tiveram entendimento comum na escolha da maioria das categorias acessadas por cada item.

Resultados semelhantes foram encontrados em outros estudos na ligação da CIF com diferentes ferramentas, e os autores ressaltam que a discordância entre os avaliadores pode se dever à CIF apresentar categorias mais específicas em algumas áreas do que em outras 19 , 22 , 27 . Além disso, a interpretação de determinado conceito presente em um item de um instrumento pode diferir entre os avaliadores, de forma que categorias distintas do core set sejam selecionadas, fato que justifica a necessidade do consenso na escolha final das categorias acessadas pelos questionários 30 . O vínculo de instrumentos de avaliação com a CIF permite uma análise padronizada a respeito de seus conteúdos, favorecendo a escolha do instrumento mais adequado para uso na prática clínica 25 , 30 .

Conforme este estudo, a avaliação de todos os aspectos considerados relevantes na funcionalidade do trabalhador, sugeridas no core set para reabilitação profissional, demandaria a combinação de diversos instrumentos e a busca por mais formas de avaliação para incluir os itens faltantes, já que não foram contempladas todas as categorias. Esse resultado é aceitável, já que os core sets são instrumentos criados por uma metodologia de consenso entre especialistas que buscam reunir categorias da CIF voltadas a grupos específicos da população, baseados no conhecimento e experiência clínica na área, sem levar em conta os instrumentos de avaliação disponíveis para acessá-los 31 .

Para que a CIF e seus core sets sejam utilizados com mais praticidade e de maneira uniforme, recomenda-se a criação de instrumentos de medidas sintonizados com a classificação 34 . Para isso, os autores deste core set criaram o Work Rehabilitation Questionnaire (WORQ) 34 , adaptado para o Brasil como Questionário de Reabilitação para o Trabalho, que pode ser empregado para avaliar parte das categorias, proporcionando vínculo direto com a CIF.

Este estudo é inovador ao analisar um número considerável de instrumentos que têm sido aplicados na avaliação da funcionalidade de trabalhadores e verificar suas abordagens tendo como referência um core set da CIF específico para essa área de atuação. O fato de não ter sido analisada a totalidade de instrumentos disponíveis para avaliação funcional incluindo aspectos físicos ou psíquicos e que podem ser utilizados com trabalhadores não compromete o resultado do estudo, já que seu objetivo foi ilustrar a operacionalização da CIF por meio deste core set específico, priorizando instrumentos que pudessem responder ao maior número de categorias possível.

Nesse sentido observou-se que não foi possível estabelecer vinculação de itens com a totalidade das categorias do core set quando são utilizados instrumentos criados sem o propósito de utilização da classificação. Outros estudos são necessários para verificar o grau de compatibilidade entre o modo como cada ferramenta quantifica a magnitude do comprometimento avaliado e o modo adotado pela CIF por meio de seus qualificadores, fato que pode se constituir em mais uma barreira para a classificação da funcionalidade avaliada a partir destes instrumentos.

Além disso, o vínculo a uma mesma base conceitual possibilitou a visualização dos aspectos comuns existentes entre os instrumentos estudados, bem como das diferenças na forma de abordar a funcionalidade ou o estado de saúde dos indivíduos.

Ficou claro que os fatores ambientais ainda são altamente desconsiderados pelos modelos de avaliação da funcionalidade utilizados nas pesquisas com trabalhadores. Isso é negativo quando se objetiva restaurar a capacidade laboral e reinserir o indivíduo no seu local de trabalho, pois os fatores ambientais são determinantes para a efetividade das ações e manutenção da funcionalidade. É necessário incluir a avaliação do ambiente no processo da RP, e isso pode ser feito com a utilização da CIF, tendo como referência as categorias ambientais sugeridas pelo core set estudado.

CONCLUSÃO

A revisão de instrumentos de avaliação de funcionalidade e situação de saúde de trabalhadores e o posterior vínculo com o core set para reabilitação profissional realizados por este estudo concluiu que pelo menos dez instrumentos seriam necessários para avaliar 65% dos aspectos considerados relevantes nas categorias do core set para reabilitação profissional. O componente de fatores ambientais do core set foi o que apresentou menor possibilidade de respostas por meio dos itens dos questionários estudados, indicando a baixa ênfase dada à influência destes fatores na geração de incapacidades. A associação de vários instrumentos para responder a um core set específico requer tempo e dificulta a utilização da classificação. Instrumentos de avaliação elaborados para permitir associação direta às categorias e aos qualificadores da CIF se fazem essenciais para operacionalizá-la.

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Recebido: 20 de Janeiro de 2019; Aceito: 05 de Agosto de 2019

Correspondência: Juliana Scholtão Luna Setor de Fisioterapia. Universidade Federal do Acre Rodovia BR 364, Km 04 69920-900 Rio Branco, AC, Brasil E-mail: juliana.s.luna@gmail.com

Contribuição dos autores: Concepção e planejamento do estudo: JSL, GTRM, RJK. Coleta, análise e interpretação dos dados: JSL, GTRM, RJK. Elaboração, revisão e aprovação da versão final: JSL, GTRM, RJK, AB. Responsabilidade pública pelo conteúdo do artigo: JSL, GTRM, RJK, AB.

Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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