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Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Print version ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.59 no.3 Rio de Janeiro  2010

https://doi.org/10.1590/S0047-20852010000300015 

CARTAS

 

Depressão e sintomas depressivos: confusão conceitual

 

Depression and depressive symptoms: conceptual confusion

 

 

Lucas Spanemberg

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Hospital São Lucas, Unidade de Internação Psiquiátrica; Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria

Endereço para correspondência

 

 

Prezado editor,

A respeito do artigo intitulado "Prevalência de depressão entre homens adultos em situação de rua em Belo Horizonte"1, cabem algumas considerações.

Em primeiro lugar, os estudos dirigidos à saúde mental de populações vulneráveis são sempre bem-vindos, uma vez que instrumentam os agentes políticos e gestores de saúde para as necessárias intervenções nessas populações. Ainda que questões sociais possam ser determinantes para a condição dessas pessoas, é evidente que muitas delas são portadoras de doenças mentais graves e passam por sofrimento psíquico significativo, cabendo também ao Estado a construção de políticas públicas pertinentes à problemática. Nesse sentido, estudos que avaliem diagnósticos e intensidade de sintomas nessas populações são necessários e pertinentes. Contudo, cabem aqui alguns comentários conceituais sobre o estudo.

O título do trabalho utiliza o termo "prevalência de depressão", definindo o diagnóstico de depressão com um ponto de corte de 12 pontos no Inventário de Depressão de Beck (BDI). Como o próprio artigo explica, esse instrumento foi desenvolvido para avaliar a intensidade dos sintomas depressivos, não sendo um instrumento diagnóstico, ainda que um ponto de corte possa ser utilizado como screening de quadros depressivos. Contudo, durante grande parte do artigo, o termo "depressão" ou "quadro depressivo" foi utilizado como diagnóstico categórico, ainda que nenhuma escala diagnóstica tenha sido aplicada, podendo induzir o leitor ao erro. Ainda que essa limitação tenha sido considerada brevemente, todas as tabelas levam a denominação "depressão", e não "sintomas depressivos", da mesma forma que o título. Esse é um grave erro conceitual comum em nosso meio2 e pode acarretar superestimação diagnóstica da depressão. Além disso, alguns dos sintomas depressivos avaliados pela BDI podem decorrer de outras patologias ou ser mais bem explicados pelas próprias condições desses indivíduos. O título e as tabelas estão, dessa forma, com termos equivocados e confundem o leitor.

Por fim, o artigo contribui para a discussão da problemática em relação ao sofrimento mental de moradores de rua, mas peca na descrição de conceitos. Penso que os autores devem ser estimulados a seguirem com estudos nessa população, mas com maior cuidado no uso dos termos. A literatura científica deve primar pelo rigor nos conceitos, uso adequado dos instrumentos e clareza das informações, ou corremos o risco de equívocos e extrapolações indevidas, num universo científico já inundado de estatísticas controversas.

 

 

REFERÊNCIAS

1. Botti NCL, Castro CGd, Silva MF, et al. Prevalência de depressão entre homens adultos em situação de rua em Belo Horizonte. J Bras Psiquiatr. 2010;59:10-6.         [ Links ]

2. Spanemberg L. Depressão pós-parto: considerações terminológicas. Rev Psiquiatr Rio Gd Sul. 2008;30:85-6.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Lucas Spanemberg
Hospital São Lucas, PUCRS, Unidade de Internação, Psiquiátrica – 6º andar sul
Av. Ipiranga, 6.690
90160-090 - Porto Alegre, RS
Telefone: (51) 3320-3041
E-mail: lspanemberg@yahoo.com.br

 

 

Recebido em 10/7/2010
Aprovado em 10/8/2010

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