SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.84 issue6Chlamydia pneumoniae and Mycoplasma pneumoniae in calcified nodes of stenosed aortic valvesFunction of the left atrium in the Chagas' cardiomyopathy author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

  • text in English
  • English (pdf) | Portuguese (pdf)
  • Article in xml format
  • How to cite this article
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Automatic translation

Indicators

Related links

Share


Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.84 no.6 São Paulo June 2005

https://doi.org/10.1590/S0066-782X2005000600003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Análise do atendimento intra-hospitalar de eventos simulados de fibrilação ventricular/taquicardia ventricular

 

 

Miguel Antônio Moretti; André Moreira Bento; Ana Paula Quilici; Márcia Martins; Luís Francisco Cardoso; Sérgio Timerman

Instituto do Coração do Hospital das Clínicas - FMUSP - São Paulo, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar os intervalos de tempo entre o início da Fibrilação Ventricular/Taquicardia Ventricular (FV/TV) e os principais procedimentos realizados.
MÉTODOS: Foram realizadas e filmadas 20 simulações de FV/TV em ambiente hospitalar, utilizando-se manequim estático, ocorridas em dia e hora aleatórios. Todas as equipes tinham o mesmo nível de habilidades. Foram analisados os tempos (em s) relativos ao suporte básico de vida (SBV) - chegada da equipe (TC) confirmação da parada (TCP) início da RCP (TI) e os tempos relativos ao suporte avançado de vida (SAV) - 1º desfibrilação (TD) 1º dose de adrenalina (TA) e intubação orotraqueal (TIOT). As variáveis foram analisadas e comparadas em dois grupos: unidade de cuidados intensivos (UCI) e enfermarias com telemetria (ETL).
RESULTADOS: ETL x UCI respectivamente - TC (70,2+38,7 x 38,6+49,2); TCP (89,4+57,1 x 71+63,9); TI (166,8+81,1 x 142+66,2); TD (282,5+142,8 x 108,4+52,5); TA (401,4+161,7 x 263,3+122,8) e TIOT (470,3+150,6 x 278,8+98,8). A
presenta a comparação das médias de tempos entre os dois grupos.
CONCLUSÃO: As diferenças observadas em relação a TD, TA e TIOT favoráveis à UCI estão associadas às facilidades de realização das manobras de SAV nesse ambiente. Os tempos relacionados ao SBV foram semelhantes nos dois grupos, reforçando a necessidade do uso de desfibriladores semi-automáticos mesmo em ambiente hospitalar.

Palavras-chave: atendimento intra-hospitalar, eventos simulados, FV/TV


 

 

A morte súbita decorrente de arritmias malignas, fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular (FV/TV), é importante causa de morbimortalidade, mesmo em ambiente hospitalar1-3. A frequência desses eventos, em cerca de 5% de pacientes internados, levou à criação de unidades especiais e formas de monitoração para pacientes de maior risco4.

Manter uma equipe treinada e preparada para essas situações, melhora a taxa de sucesso nas tentativas de reversão da morte súbita5. Outros fatores também contribuem para o sucesso: etiologia e mecanismo da parada cardiorrespiratória, local de ocorrência do evento, presença de testemunhas e intervalo de tempo para início das manobras de ressuscitação cardiopulmonar6. Porém, a de maior impacto na evolução dos pacientes continua sendo a desfibrilação precoce da FV/TV sem pulso, avaliada pelo intervalo de tempo entre o início da FV/TV e o primeiro choque7. Em ambiente hospitalar, o intervalo de tempo entre o início da FV/TV e o primeiro choque é de 60s para pacientes monitorados em unidades de cuidados intensivos e 300s para os não monitorados8-10.

O presente estudo teve como objetivo avaliar o intervalo de tempo entre o início de um evento e o início do tratamento e a forma como é realizado, em situações simuladas dentro de um hospital.

 

Métodos

Foram realizadas 20 simulações de parada cardiorrespiratória seguidas de atendimento, em hospital universitário terciário e selecionados setores onde os pacientes encontravam-se monitorados e tinham ou não a presença de médicos 24h (Unidades de Internação com Telemetria, Unidades de Cuidados Intensivos e Unidade de Emergência). Todas as simulações foram filmadas, com o consentimento (por escrito) das pessoas envolvidas e sua realização autorizada pela diretoria do hospital após a aprovação do projeto pela comissão científica e de ética em pesquisa. Os funcionários de cada setor foram avisados do dia do evento, mas não da hora em que ocorreria. Setores, dias e horas foram sorteados e realizados até três eventos simulados para cada setor.

Utilizou-se um manequim estático Ambú® semi-automático capaz de reproduzir arritmias, permitir ventilação mecânica (incluindo intubação endotraqueal - IOT) e acesso venoso. Através de sua programação computadorizada utilizaram-se os mesmos parâmetros em todas as simulações. O manequim foi mantido em fibrilação ventricular por 15min, independente das atitudes da equipe de atendimento, simulando uma fibrilação ventricular refratária.

Cada membro da equipe que atendeu à parada cardiorrespiratória simulada, teve que responder a um questionário com os seguintes quesitos: profissão, especialidade, idade, sexo, tempo de formado, se fez ou não os cursos de Suporte Básico (SBV) ou Avançado (SAV) e há quanto tempo. O atendimento foi registrado com base no modelo de Utestein11.

Foram analisados os intervalos de tempo entre o início da fibrilação ventricular e o início do principais procedimentos, divididos entre: relacionados ao SBV (chegada da equipe, confirmação da parada, inicio das manobras de ressuscitação cardiopulmonar) e ao SAV (1º desfibrilação, 1º adrenalina e IOT).

A análise estatística foi baseada na comparação simples (t-student) dos valores (médias e DP) de tempo observados e sua relação com o local de ocorrência do evento simulado.

 

Resultados

Foram 10 eventos simulados em unidades de internação geral (enfermarias) com pacientes monitorados através de telemetria e 10 em unidades de internação de cuidados intensivos (UTIs, Unidades Coronarianas e Unidades de Emergência).

O número médio de pessoas na equipe de atendimento foi quatro, e pelo menos duas delas possuíam treinamento em SBV e/ou SAV, realizado há mais de 6 e menos 18 meses. Ainda de acordo com o questionário todos os participantes acharam válido e importante esse tipo de ação, pela sua capacidade de reciclar e treinar, e que deveria ser repetido periodicamente. Não houve diferença entre as equipes que atuaram nas unidades de internação geral ou de cuidados intensivos no que diz respeito ao treinamento prévio em SBV ou SAV (tab. I).

 

 

Os erros mais comuns, cometidos por todas as equipes, durante as manobras de ressuscitação cardiopulmonar foram relacionados às manobras de compressão torácica (posição das mãos e freqüência) e ventilação (eficácia e freqüência). A maior parte dos participantes, independente do local de realização da simulação, não realizou tais manobras segundo as orientações da American Heart Association (AHA) e não houve uma predominância de ocorrência desses erros no início ou no fim das manobras.

Os intervalos de tempo e a comparação entre os locais de simulação encontram-se na tabela II.

 

 

Discussão

Os vários grupos que estudaram ressuscitação cardiopulmonar geraram informações que, até o momento, são confluentes quanto à importância da estruturação do atendimento aos eventos de parada cardiorespiratória em ambiente hospitalar. O assunto já foi explorado de diversas maneiras e com vários enfoques, como treinamento, estruturação de equipes, introdução de normas de atendimento e até a criação de sistemas, como o código azul e equipes específicas para esse tipo de atendimento12-15. Assim, mesmo para eventos intra-hospitalares, o tempo de atendimento e de início dos procedimentos continua sendo tão importante quanto nos eventos extra-hospitalares. Em geral esse atraso é devido ao tempo necessário para o reconhecimento do evento, a tomada de decisão, o transporte do desfibrilador até o local, o manuseio e preparo do aparelho e, finalmente, a realização da desfibrilação.

No intuito de minimizar os fatores que colaboram para esse atraso, nosso serviço adota os cursos da AHA como base de treinamento para as equipes hospitalares7, 15. Mesmo que a introdução desses cursos e métodos de padronização sejam relativamente recentes no Brasil16, já é possível observar seus efeitos quando se constata que o intervalo de tempo real entre o início de uma fibrilação ventricular e sua desfibilação, em nossa UTI é de 47s.

Pelo presente estudo, observamos que com as equipes possuindo um mesmo nível de habilidades em SBV e SAV, apesar dos tempos estarem dentro dos padrões sugeridos como ideais, existe um atraso na desfibrilação, assim como nos procedimentos, que requerem a presença de um médico, principalmente nos locais onde esse profissional não fica presente nas 24h do dia. Este estudo mostra também, que os tempos dependentes do primeiro atendimento estão dentro do esperado, ressaltando a importância da enfermagem apta e treinada para o atendimento, sugerido segundo dados publicados17, que o uso do DEA em ambiente hospitalar, principalmente em locais onde não haja médico o tempo todo, possa ser útil e eficaz para reduzir de forma importante o intervalo de tempo para desfibrilação.

O tipo de simulação utilizada no presente estudo vem inovar o que existe em termo de avaliação e retenção de aprendizado, pois ao invés de ser realizado em sala específica foi realizado dentro do próprio ambiente de trabalho, junto com todas as condições habituais de atividade. Um maior cuidado foi tomado no que diz respeito à não coincidência de simulação com eventos verdadeiros. Outra característica importante da simulação foi a manutenção do manequim em fibrilação ventricular, que diminuiu a chance dos profissionais encarar o evento como uma simulação, pois, alguns minutos após observar o envolvimento do profissional, chega-se por algum momento a esquecer que se trata de uma simulação, dando-se mais credibilidade aos dados obtidos e passando-se a encarar como um atendimento real. Talvez seja este um aspecto interessante de se analisar em estudos futuros, pois pode-se supor que os erros cometidos no início das manobras tenham ocorrido por se tratar de uma simulação com um manequim. Entretanto os mesmos erros cometidos no final da simulação, quando os participantes encontram-se mais imersos no atendimento, seriam por falta de treinamento ou de conhecimento.

Podemos concluir, portanto, que esse tipo de simulação se mostrou adequada na avaliação de aprendizado e retenção de informações e as diferenças observadas nos tempos relacionadas ao SAV estão possivelmente relacionadas às facilidades de realização dessas manobras em UTI.

 

Referências

1. Bedell SE, Delbanco TL, Cook EF et al. Survival after cardiopulmonary resuscitation in the hospital. N Eng J Med 1983; 309: 569-76.         [ Links ]

2. Kaye W, Mancini ME. Improving outcome from cardiac arrest in the hospital with a reorganized and strengthened chain of survival: an american view. Resuscitation 1996; 31: 181-6.         [ Links ]

3. Thel MC, O'Connor CM. Cardiopulmonary resuscitation: historical perspective to recent investigators. Am Heart J. 1999; 137:39-48.         [ Links ]

4. Chiriboga D, Yarzebski J, Goldberg RJ, Gore JM, Alpert JS. Temporal trends (1975 through 1990) in the incidence and case-fatality rates of primary ventricular fibrillation complicating acute myocardial infarction: a community wide perspective. Circulation 1994; 89: 998-1003.         [ Links ]

5. Moretti MA. Eficácia do treinamento em SAV nos resultados das manobras de RCP. Tese Doutorado, Cardio-Pneumologia, Cardiologia. USP - 2001.         [ Links ]

6. Dunn HM, McComb JM, MacKenzie G, Adgey J. Survival to leave hospital from ventricular fibrillation. Am Heart J 1986; 112: 745-51.         [ Links ]

7. The American Heart Association in collaboration with the International Liaison Committee on Resuscitation (ILCOR). Guidelines 2000 for CPR and ECC. Circulation 2000; 102: I-1/I-341.         [ Links ]

8. Wright D, Bannister J, Mackintosh AF. Automatic recording and timing of defibrillation on general wards by day and night. Eur Heart J 1994;15:631-6.         [ Links ]

9. Lazzam C, McCans J. Predistors of survival of in-hospital cardiac arrest. Can J Cardiol 1991;7:113-6.         [ Links ]

10. Martens P, Vandekerckhove Y. The Belgian CPR Study Group. Optimal defibrillation strategy and follow-up of out-of-hospital cardiac arrest. Resuscitation 1996; 3: 125-32.         [ Links ]

11. Cummins RO et al. Recommended guidelines for reviewing, reporting and conducting research on in-hospital resuscitation: the in-hospital "Utstein Style". Resuscitation 1997; 34: 151-83.         [ Links ]

12. Henderson SO, Ballesteros D. Evaluation of a hospital-wide resuscitation team: does it increase survival for in-hospital cardiopulmonary arrest? Resuscitation 2001; 48: 111-6.         [ Links ]

13. Spearpoint KG, Mclean CP, Zideman DA. Early defibrillation and the chain of survival in "in-hospital"adult cardiac arrest; minutes count. Resuscitation 2000; 44: 165-9.         [ Links ]

14. Andréasson AC, Herlitz J, Bang A et al. Characteristics and outcome among patients with a suspected in-hospital cardiac arrest. Resuscitation 1998; 39: 23-31.         [ Links ]

15. Cummins RO et al. Textbook of Advanced Cardiac Life Support. Texas - USA. American Heart Association 1997.         [ Links ]

16. Timerman S, Quilici AP, Paiva E et al. Cursos de suporte cardíaco básico e avançado de vida: experiência em centro de treinamento no Brasil. Arq Brás Cardiol 2001; 77 (supl. II): 5.         [ Links ]

17. Soar J and McKay V. A revised role for the hospital cardiac arrest team? Resuscitation 1998; 38: 145-9.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Miguel Antônio Moretti
Rua Marina Crespi 195/1181
03112-090 - São Paulo, SP
E-mail: moretti@cardiol.br

Enviado em 21/03/2004
Aceito em 08/11/2004

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License