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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.93 no.2 São Paulo Aug. 2009

https://doi.org/10.1590/S0066-782X2009000800012 

ARTIGOS ORIGINAIS
ERGOMETRIA

 

Associação entre transientes inicial e final de frequência cardíaca no teste de exercício

 

 

Gisele Messias MattioliI; Claudio Gil Soares de AraújoI,II

IUniversidade Gama Filho, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIClínica de Medicina do Exercício (CLINIMEX), Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A transição repouso-exercício-repouso é acompanhada por variações rápidas e lentas da frequência cardíaca (FC), moduladas pelos ramos do sistema nervoso autônomo. A participação vagal parece ser distinta nesses diversos transientes. Em adendo, há uma dificuldade metodológica em determinar qual é o melhor momento e modo de medir a FC de repouso.
OBJETIVO: Determinar a associação entre os transientes iniciais (rápido e lento) e final da FC no exercício, considerando diferentes formas de medir a FC de repouso.
MÉTODOS: Foram estudados, retrospectivamente, 103 indivíduos adultos não-atletas (76 homens) que realizaram o teste de exercício de 4 segundos para a obtenção do transiente rápido de FC medido pelo índice vagal cardíaco (IVC), e que finalizaram um teste cardiopulmonar de exercício máximo em exatamente 10 minutos, sendo medidas as variações da FC nos primeiros minutos do exercício (
ΔFC) e da recuperação (dFC).
RESULTADO: Há associações modestas entre o IVC e as três formas de medir o
ΔFC, r entre 0,27 e 0,31 (p<0,05), e uma mais expressiva, r=0,53 (p<0,05), entre o dFC e o IVC. As médias das três medidas de FC de repouso diferem (p<0,05) e mostram correlações apenas razoáveis entre si (r entre 0,64 e 0,76; p<0,05).
CONCLUSÃO: É importante padronizar a medida da FC de repouso para a análise de transientes; a pequena ou moderada associação entre os resultados dos diversos transientes sugere que mecanismos autônomos parcialmente distintos estejam envolvidos e que as suas medidas podem fornecer subsídios clínicos diferentes e potencialmente complementares.

Palavras-chave: Frequência cardíaca, teste de esforço, repouso, exercício, atividade vagal cardíaca.


 

 

Introdução

Com o início e o fim do exercício físico, ocorrem transientes de frequência cardíaca (FC). Denominam-se de transientes rápidos as respostas obtidas nos primeiros segundos do exercício, enquanto aquelas ocorridas em um ou dois minutos podem ser denominadas de transientes lentos. Uma resposta inadequada da FC tem sido frequentemente associada a um aumento no risco de mortalidade1-3 e valores anormais têm sido hipoteticamente associados a um distúrbio autonômico4,5. Em tese, a identificação desse distúrbio poderia indicar um grupo de indivíduos com um risco aumentado de morte súbita2,6,7.

Inúmeros modelos de avaliação da função autonômica têm sido propostos. A sensibilidade barorreflexa8-10, a variabilidade da FC11 e o transiente final da FC no teste de exercício (dFC)12 - diferença entre o valor máximo e o obtido ao final do primeiro minuto da recuperação -, têm se mostrado como marcadores prognósticos. Por exemplo, em 2005, Falcone e cols.13 sugeriram que, em coronariopatas, uma elevação da FC superior a 12 bpm no primeiro minuto do exercício estaria associada a um pior prognóstico. Contudo, esses dados não foram confirmados em estudo publicado por Leeper e cols.14, que, utilizando um protocolo de avaliação algo distinto, obtiveram resultados diametralmente opostos.

É possível que a discordância entre o estudo italiano e o americano seja devido a questões metodológicas, contudo, a possibilidade de um significado clínico na medida da variação da FC entre a condição de repouso e o primeiro minuto de exercício, passa, fundamentalmente, pela eventual associação entre essa medida e a atividade vagal cardíaca.

Desde o final dos anos 1980, o teste de exercício de 4 segundos (T4s)15 vem sendo utilizado para estudar a atividade vagal cardíaca (AVC). Esse teste, validado farmacologicamente16 e altamente fidedigno17, já demonstrou ser bastante útil, não só como instrumento diagnóstico18, mas também no acompanhamento longitudinal da AVC19, mostrando-se moderadamente associado ao dFC.

Nesse contexto, nosso objetivo foi o de determinar a associação entre os transientes inicial (rápido e lento) e final da FC. Nossa hipótese era de que o envolvimento de mecanismos autonômicos parcialmente distintos geraria uma associação significativa, porém modesta, entre essas variáveis.

 

Métodos

Amostra

Foram analisados, retrospectivamente, os dados de 103 indivíduos avaliados (76 homens), com idades entre 18 e 89 anos, atendidos em uma clínica especializada em medicina do exercício, entre 2003 e 2006. Dentre os indivíduos analisados, 44 (43%) faziam uso de medicação de ação cronotrópica negativa. Do ponto de vista clínico, 36 (35%) possuíam doença arterial coronariana - definida como infarto do miocárdio e/ou procedimento de revascularização miocárdica prévia -, 15 (14%) foram classificados pela anamnese como assintomáticos cardiorrespiratórios, e os demais 51% incluíam portadores de outras doenças cardiopulmonares ou metabólicas relevantes. O perfil clínico e demográfico dos indivíduos bastante variado reflete o cotidiano típico de um serviço que realiza testes de exercício. Todos os indivíduos foram submetidos a uma avaliação composta por consulta médica, com história clínica detalhada e exame físico, eletrocardiograma convencional de repouso, medidas cineantropométricas, espirometria de repouso, T4s e teste cardiopulmonar de esforço (TCPE), todos realizados em uma mesma visita e sempre nessa ordem. Dados referentes ao uso de medicação, presença de fatores de risco coronariano ou sintomas, foram coletados durante a anamnese realizada imediatamente antes do início dos testes. Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: 1) indivíduos não-atletas; 2) idade superior a 18 anos; 3) duração exata de 10 minutos para o TCPE máximo. Foram ainda excluídos do estudo, pacientes em uso de marca-passo cardíaco ou portadores de fibrilação atrial permanente.

Em adendo, todos os indivíduos submeteram-se ao procedimento voluntariamente e por encaminhamento dos seus médicos assistentes, tendo lido e assinado um termo de consentimento livre e esclarecido antes da realização do mesmo, o qual havia sido previamente aprovado pelo comitê institucional.

 

Protocolos

Teste de exercício de 4 segundos (T4s)

Em 1992, o T4s foi validado farmacologicamente para a avaliação da AVC por meio da análise do transiente inicial rápido (transição repouso-exercício) da FC20. De forma sucinta, o T4s consiste em pedalar, o mais rápido possível, em um ciclo-ergômetro de membros inferiores (Cateye EC-1600, CatEye, Japão) sem carga, do 4ª ao 8º segundos de uma apnéia inspiratória de 12 segundos. São dados quatro comandos consecutivos a cada 4 segundos: 1º - inspirar pela boca, o mais profundo e rápido possível, e manter-se em apnéia; 2º - pedalar o mais rápido possível; 3º - parar bruscamente de pedalar, e 4º - expirar naturalmente. Sob monitoramento eletrocardiográfico (Elite Ergo PC 3.1.2.5 ou 3.3.4.3, Micromed, Brasil), de uma única derivação, geralmente CM5 ou CC5, foram visualmente identificados e posteriormente medidos (com o auxílio dos recursos do software), com resolução de 10 milissegundos, os intervalos RR durante a manobra. O T4s quantificou a AVC por meio do índice vagal cardíaco (IVC) adimensional, que é expresso pela razão entre o intervalo imediatamente antes ou depois do primeiro do exercício, aquele que for mais longo (RRB), e o mais curto durante o exercício (RRC). Habitualmente, foram realizadas duas manobras, escolhendo-se aquela que proporciona o maior IVC. Uma descrição mais detalhada sobre o procedimento pode ser encontrado em outro artigo21.

Teste cardiopulmonar de exercício (TCPE)

Os indivíduos foram submetidos a um teste cardiopulmonar de exercício (TCPE) com análise direta dos gases expirados (VO 2000; Medgraphics, Estados Unidos), imediatamente após a realização do T4s, utilizando o mesmo ciclo-ergômetro de membros inferiores e um protocolo de rampa individualizado, visando uma duração ao redor de 10 minutos, tempo considerado ideal para a obtenção de um o2max verdadeiro e de uma melhor relação entre o o2 predito e a carga de trabalho22. Nenhuma medicação de ação cardiovascular foi alterada ou suspensa antes da realização do TCPE. Para a realização tanto do T4s quanto do TCPE, os pés foram fixados em pedaleiras, objetivando um melhor desempenho motor e assim uma maior eficiência mecânica. O registro eletrocardiográfico foi monitorado utilizando uma única derivação (CM5 ou CC5) desde o período de repouso pré-teste até, no mínimo, cinco minutos pós-exercício. Imediatamente após o teste, os indivíduos eram auxiliados a sair do ciclo-ergômetro, sendo então encaminhados a uma maca, posicionada próxima ao ergômetro, onde eram rapidamente posicionados em decúbito dorsal.

Medida da variação de FC - Transiente inicial lento (ΔFC)

As medidas do transiente inicial lento, expressas em bpm, foram obtidas através da análise dos traçados do ECG de repouso e do TCPE utilizando-se a subtração entre os valores de FC no primeiro minuto do teste e os de FC de repouso. Para a análise da FC de repouso foram realizadas três formas distintas de mensuração: a) a primeira, delta de repouso (ΔFCREP), baseada no traçado de ECG de repouso na derivação DII (Schiller Cardiovit AT 10, Suíça) de 10 segundos, na posição supina, sem controle respiratório; b) a segunda, delta efetivo (ΔFCEF), - assim denominada por acreditarmos que essa medida pudesse expressar o valor real da FC no momento em que o exercício é efetivamente iniciado -, baseada na média móvel dos últimos 8 segundos com o indivíduo já sentado no ciclo-ergômetro e com o bocal posicionado; c) a terceira, delta do TCPE (ΔFCTCPE), obtida a partir da quantificação da duração média dos dois primeiros intervalos RR do registro contínuo obtido no exercício (o registro era iniciado simultaneamente ao comando oral do avaliador para que o indivíduo começasse o exercício). Essas últimas duas formas foram obtidas através do uso do software (Elite Ergo PC 3.1.2.5 ou 3.3.4.3, Micromed, Brasil) utilizando uma derivação, normalmente CM5 ou CC5.

Frequência cardíaca máxima (FCM)

As medidas da frequência cardíaca máxima (FCM), em bpm, foram obtidas a partir da leitura feita pelo mesmo software, através da média dos últimos 7,33 segundos no décimo minuto do TCPE. Essa medida efetiva era posteriormente comparada com a FCM prevista calculada a partir da seguinte equação: 210-0,65 x idade (anos)23.

Transiente final (dFC)

Determinou-se ainda o dFC após o exercício, com o indivíduo deitado na posição supina, novamente a partir da leitura do registro feito pelo software, de modo a avaliar o transiente final lento, calculado pela subtração da FCM pela FC, no primeiro minuto da recuperação, também expresso em bpm.

Análise estatística

Inicialmente foi testada a normalidade e a homocedasticidade da distribuição, validando a utilização da estatística paramétrica.

Para a avaliação da associação entre as diversas variáveis analisadas (ex.: ΔFCREP, ΔFCEF, ΔFCTCPE, IVC) foi utilizada a correlação momento-produto de Pearson. Para a comparação das médias das três diferentes formas de medir a variação da FC de repouso para o 1º minuto de exercício, utilizou-se a ANOVA de medidas repetidas, seguidas do teste t de Bonferroni, quando apropriado. Essas análises foram realizadas para a amostra como um todo e repetidas, separando-se os indivíduos em dois grupos, com e sem uso de medicações de ação cronotrópica negativa. Admitiu-se 5% como nível de significância estatística e intervalo de confiança de 95%. Foi utilizado o software SPSS (SPSS, versão 13, Estados Unidos) para todos os cálculos. As figuras foram preparadas em GraphPad Prism 5 (GraphPad, Estados Unidos).

 

Resultados

Foram analisados 103 indivíduos (76 homens), com idades entre 18 e 89 anos. Os dados descritivos das três diferentes formas de medida da FC de repouso, da FCM, do dFC e do IVC são apresentados na tabela 1.

A ANOVA para medidas repetidas mostrou diferenças entre as três formas de medir a variação da FC de repouso (p < 0,001), com valores mais baixos para a medida da Δ FCREP; depois pela Δ FCTCPE; e finalmente pela Δ FCEF, essa última com um valor cerca de 3 bpm em média maior do que a colhida alguns instantes antes do início do exercício, com o indivíduo já sentado no ciclo-ergômetro (Figura 1).

 

 

A tabela 2 mostra os resultados das correlações entre o IVC e as outras variáveis do nosso estudo. Observa-se que a maioria desses coeficientes de correlação é positiva e significativa, indicando uma tendência para que quando uma variável aumente a outra também o faça, ainda que, pela magnitude das associações encontradas, o valor preditivo, isto é, o coeficiente de determinação (r2), seja bastante modesto. Mais especificamente, observou-se que o transiente inicial rápido quantificado pelo IVC possui uma correlação significativa, porém modesta, com as três formas de quantificar o transiente inicial lento da FC, r entre 0,27 e 0,31 (p < 0,001), sem que se tenha observado uma diferença expressiva entre as três formas. Já a associação com o transiente final lento foi um pouco mais expressiva, alcançando um r de 0,53 (p < 0,001). Uma melhor visualização dessas associações pode ser observada nas figuras 2 e 3, representando, respectivamente, a melhor associação entre as medidas de transiente inicial e final lento e o IVC.

 

 

 

 

 

 

A análise das associações quando os indivíduos foram separados entre os que faziam ou não uso de medicações de ação cronotrópica negativa não acrescentou à análise global, já que não houve diferenças expressivas em relação aos dados que consideraram a amostra como um todo. Especificamente, a maior associação permaneceu entre o IVC e a medida do descenso da FC no primeiro minuto, com coeficientes de correlação de, respectivamente, 0,32 e 0,53 (p < 0,001), mantendo níveis mais modestos para a associação entre a variação do primeiro minuto de exercício e o IVC, com valores de r de, respectivamente, 0,29 (p = 0,05) e 0,20 (p = 0,12).

 

Discussão

O presente estudo foi delineado para investigar a associação entre o transiente inicial rápido da FC no exercício, expresso através do IVC, e os transientes inicial e final lentos quantificados em um minuto e determinados por medidas específicas de variação da FC. Os resultados demonstram uma associação significativa, porém relativamente modesta, entre essas medidas. Esse resultado nos permite inferir que, apesar de moduladas pelo sistema nervoso autônomo, essas variáveis apresentam mecanismos fisiológicos parcialmente distintos. Portanto, as informações obtidas por esses transientes parecem ser complementares, tendo em vista que, no máximo, 10% a 25% da variabilidade de uma medida é explicada pela outra.

O exercício provoca uma elevação na FC ao final do 1º minuto, tanto por um aumento da atividade adrenérgica quanto por uma redução da ativação parassimpática. Enquanto Araújo e cols.20 demonstraram, através de bloqueio farmacológico, que o transiente inicial rápido da FC (primeiros 4 segundos) é mediado exclusivamente por uma inibição vagal, a contribuição específica de cada ramo do sistema nervoso autônomo no primeiro minuto do exercício ainda é incerta, pois muito embora exista um componente vagal, parece que há uma predominância da participação adrenérgica nos transientes lentos de um minuto.

Outra lacuna científica a ser preenchida envolveu a análise da medida de FC de repouso. Considerando as distintas formas de medida de ΔFC (Δ FCREP, Δ FCTCPE, ΔFCEF), a análise de variância demonstrou uma diferença significativa entre as medidas. Portanto, a forma pela qual a medida da FC de repouso é obtida demonstrou ser capaz de influenciar os resultados encontrados de quantificação do transiente inicial lento.

Apesar das diferenças nas três formas de quantificação da FC de repouso, e assim da determinação do transiente lento da FC no início do exercício, isso não afetou de modo importante a magnitude da modesta associação com o IVC. Interpretando essa associação positiva, temos que, indivíduos com maior ΔFC tenderiam a apresentar uma maior AVC medida através do IVC. Dentro dessa perspectiva, nossos resultados corroboram, ao menos em parte, os achados descritos por Leeper e cols.14, que recentemente demonstraram um melhor prognóstico em indivíduos com um ΔFC >12 bpm, quando submetidos a um TE sintoma-limitado em esteira rolante. A magnitude modesta da associação encontrada em nosso estudo pode ser explicada pelo argumento desses autores de que a resposta da FC no 1º minuto do exercício possa refletir não somente a retirada vagal esforço-induzida, mas também a magnitude da resposta adrenérgica ao esforço.

De forma semelhante ao encontrado no presente estudo, Ricardo e cols.24 demonstraram algum grau de associação entre o IVC e o dFC, um outro importante e independente marcador prognóstico, sugerindo novamente a presença de diferentes mecanismos autonômicos associados à obtenção dessas duas medidas.

Em nosso estudo, a análise dos dados envolvendo a utilização do protocolo de rampa reduziu as chances de que a magnitude da resposta da FC sofresse a interferência de alterações bruscas, relacionadas à variação da carga entre os diferentes estágios, já que, com a linearidade do incremento da carga e conforme demonstrado na literatura, esse protocolo propicia uma melhor relação entre a taxa de trabalho e a medida do consumo de oxigênio no exercício25,26.

Uma das potenciais limitações desteestudo foi a heterogeneidade da amostra, composta por indivíduos de diferentes idades, com condições clínicas e em situações distintas associadas ao uso de medicação de ação cronotrópica negativa, dados que poderiam alterar a medida do ΔFC. Contudo, em uma análise preliminar, a separação da amostra em subgrupos com e sem uso de medicação de ação cronotrópica negativa até diminuiu a magnitude da associação entre os transientes lentos e o rápido, compatível, mais uma vez, com a existência de mecanismos fisiológicos distintos e sensíveis ao β-bloqueio adrenérgico.

Os resultados encontrados têm implicações para a avaliação da função autonômica cardiovascular. Nas últimas décadas, a avaliação autonômica não-invasiva tem sido foco de inúmeros estudos, devido à forte associação entre sua disfunção e o risco de morte cardiovascular. Embora se encontre na literatura muitos procedimentos para a avaliação autonômica, o T4s destaca-se pela sua praticidade, baixo custo, validação e fidedignidade, além de sua especificidade para o componente vagal. Considerando ainda as limitações metodológicas associadas à análise da variação da FC no primeiro minuto das transições repouso-exercício-repouso, parece que a análise simultânea das três medidas de transientes pode ser complementar, aumentando assim o valor diagnóstico e prognóstico da avaliação da modulação autonômica no exercício. Estudos prospectivos e de longo seguimento devem testar, em uma mesma população, o valor prognóstico da medida dos transientes inicial (lento e rápido) e final de FC ao exercício para desfechos objetivos, tais como mortalidade por todas as causas ou a ocorrência de eventos cardiovasculares desfavoráveis.

 

Conclusão

A partir dos resultados encontrados conclui-se que: Para a quantificação do transiente inicial lento, é apropriado padronizar a forma de determinação da medida da FC em repouso, já que valores distintos podem ser obtidos em função da posição corporal e da escolha do momento exato para a medida;

Considerando a dificuldade operacional e prática de medir a FC de repouso exatamente no início do exercício, uma das opções do presente estudo, não parece justificável propor o uso rotineiro dessa medida, ainda que ela difira estatisticamente daquela obtida alguns instantes antes do início do exercício propriamente dito, pois a magnitude da diferença é, em geral, pequena e de pouca relevância clínica ou fisiológica (3 bpm).

É possível que a quantificação simultânea dos diferentes transientes de FC no exercício, determinados por mecanismos fisiológicos autonômicos apenas parcialmente similares, possa contribuir de modo complementar para a avaliação clínica prognóstica.

 

Agradecimentos

Dr. Claudio Gil Soares de Araújo é bolsista de produtividade em pesquisa nível 1 do CNPq.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo foi parcialmente financiado pelo CNPq.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de dissertação de Mestrado de Gisele Messias Mattioli pela Universidade Gama Filho.

 

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Correspondência:
Claudio Gil Soares de Araújo
Rua Siqueira Campos, 93/101 - Copacabana
22071-030 - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: cgaraujo@iis.com.br, cgil@cardiol.br


Artigo recebido em 30/07/08; revisado recebido em 12/11/08; aceito em 18/11/08.

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