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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.2 São Paulo Apr. 2011

https://doi.org/10.1590/S0080-62342011000200018 

ARTIGO ORIGINAL

 

Comunicação entre acadêmicos de enfermagem e clientes com AIDS

 

Comunicación entre estudiantes de efermería y pacientes con Aids

 

 

Ivana Cristina Vieira de LimaI; Marli Teresinha Gimeniz GalvãoII; Ênia CostaIII; Julyana Gomes FreitasIV; Lorita Marlena FreitagV

I1 Mestranda em Enfermagem do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Bolsista CAPES. Fortaleza, CE, Brasil. ivanacristinalima@gmail.com
IIDoutora em Doenças Tropicais. Professora do Departamento de Enfermagem e do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, CE, Brasil. marligalvao@gmail.com
IIIEnfermeira. Mestranda em Enfermagem do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Bolsista do CNPq. Fortaleza, CE, Brasil. enia@bol.com.br
IVEnfermeira. Mestranda em Enfermagem do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Bolsista da FUNCAP. Fortaleza, CE, Brasil. julyanapitt@yahoo.com.br
VDoutora em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Coordenadora do LabCom_Saúde. Pesquisadora do CNPq. Fortaleza, CE, Brasil. pagliuca@ufc.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Propôs-se analisar a comunicação entre acadêmicos de enfermagem e pacientes com aids quando da realização da punção venosa periférica. Filmaram-se seis duplas (acadêmico-cliente) durante a execução da punção venosa em maio de 2009 em um hospital-dia em Fortaleza-Ceará. Em grupo, quatro juízes avaliaram as cenas das interações estabelecidas entre as duplas. As análises foram categorizadas em: Valorização da técnica em oposição à comunicação; Máscara: barreira para a comunicação; Invasão do espaço pessoal; Interferência do ambiente na comunicação. Concluiu-se que diferentes fatores dificultaram a efetividade da comunicação, particularmente a necessidade de o acadêmico receber um treinamento sobre a importância do estabelecimento de comunicação no cuidado, de modo a viabilizar uma assistência humanizada e peculiar, na qual a sensibilidade e a empatia se sobreponham ao medo e à insegurança.

Descritores: Comunicação; Estudantes de enfermagem ; Síndrome de imunodeficiência adquirida; Relações interpessoais.


RESUMEN

Se propuso analizar la comunicación entre estudiante de enfermería y paciente con AIDS en ocasión de punción venosa periférica. Se filmaron seis duplas (estudiante-paciente) durante ejecución de punción venosa en mayo 2009 en hospital-día de Fortaleza-Ceará. En grupo, cuatro jueces evaluaron las escenas de interacción establecida en cada dupla. Los análisis se categorizaron en: Valorización de técnica versus comunicación, Máscara: barrera para la comunicación, Invasión del espacio personal, Interferencia ambiental en la comunicación. Según se concluyó, diferentes factores dificultaron la efectividad comunicacional, particularmente la necesidad de que el estudiante recibiese entrenamiento sobre la importancia de establecer comunicación en el cuidado, apuntando a viabilizar una atención humanizada y singular en que sensibilidad y empatía se sobrepongan a miedo e inseguridad.

Descriptores: Comunicación; Estudiantes de enfermería; Síndrome de inmunodeficiencia adquirida; Relaciones interpersonales.


 

 

INTRODUÇÃO

Entre outras definições, a comunicação é um comportamento funcional motivado por uma hierarquia de necessidades, a começar pelas primárias, como comida e fluidos, tornando-se mais complexa à medida que as relações são formadas e mantidas. Embora as razões para se comunicar possam ser diversas, destacam-se: necessidade de satisfação, expressão social, regulação dos outros, obter informações, passar informações e se expressar pessoalmente(1).

Para entender o mundo de forma plena e se comunicar, o ser humano desenvolveu dois tipos de linguagem – a verbal e a não-verbal – as quais são muitas vezes complementares e simultâneas. A comunicação não verbal permite a transmissão das mensagens de forma inconsciente, por meio da expressão facial, da linguagem corporal, das características físicas, do toque e da distância. Conforme os estudiosos, quanto menor a dissociação entre fala e expressão, mais integrada e inteira será a pessoa. Assim, como se pode inferir, a importância das palavras numa relação é apenas indireta, ou seja, as palavras representam somente um pretexto ou um começo(2-4).

Existe uma relação clara entre a comunicação e o cuidado, pois ambos são fenômenos básicos intrínsecos ao ser humano e, portanto, estabelecidos de forma natural, flexível, inconsciente e passível de aprendizado(5). De forma geral, a comunicação se configura como um instrumento primordial à prática do cuidar em enfermagem, em virtude de permear todas as situações de interação com o paciente e subsidiar a compreensão do ser cuidado em aspecto holístico. Como assevera a literatura, por meio da comunicação efetiva o profissional poderá ajudar o paciente a enfrentar seus problemas e estabelecer com ele uma relação de confiança e de vínculo(6).

No caso da assistência de enfermagem aos pacientes com o HIV/aids, grupo que enfrenta rejeição social, dependência econômica, carência afetiva, entre outros, podem sobressair sentimentos conflitantes advindos da equipe de enfermagem, a indicar a necessidade de incremento das habilidades comunicativas.

Nesta perspectiva, quando estudantes de enfermagem se comunicam com pacientes na prática clínica, experienciam ansiedade e sentimentos de tensão. Ademais, as habilidades de comunicação do aluno com o cliente são deficientes. Tratando-se do cuidado direcionado a pacientes portadores do HIV, em decorrência das medidas de biossegurança e do medo da contaminação acidental, a assistência de enfermagem possui características peculiares. Por medo de contágio, esse cuidar mostra-se extremamente técnico e impessoal. Nele predomina a relação com coisas e objetos(7-9).

Em face do elevado número de pacientes na condição de soropositividade para o HIV que necessitam de medicação injetável diária, escolheu-se para essa pesquisa a técnica da punção venosa periférica para avaliar como o acadêmico interage com o cliente. Além disso, como um procedimento executado cotidianamente pelo enfermeiro, esta técnica requer conhecimentos técnico-científicos e habilidade psicomotora na sua realização, bem como envolve uma interação comunicativa do enfermeiro com o paciente para atenuar o desconforto e a invasão do seu espaço pessoal(10).

Esta pesquisa justifica-se pela lacuna de estudos relacionados ao cuidado na vigência do HIV que tenham como sujeitos os acadêmicos de enfermagem. Sobremodo, no seu cerne o intuito maior é propor a valorização do processo de ensino-aprendizagem voltado para a comunicação na graduação, com a finalidade de prover o cuidado humanístico aos portadores de HIV/aids, população ainda estigmatizada na sociedade e geradora de medo e insegurança nos profissionais.

 

OBJETIVO

Analisar a interação do acadêmico de enfermagem em relação ao cliente com aids durante a execução da punção venosa periférica em ambiente hospitalar.

 

MÉTODO

Estudo exploratório, descritivo e qualitativo. De acordo com a literatura, a abordagem qualitativa permite a elaboração de respostas a questões intrincadas e particulares, pois trabalha com o universo de significados, valores, crenças, motivos, aspirações e atitudes. Dessa maneira, seu enfoque transcende a mera operacionalização de variáveis e engloba um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos(11).

Desenvolvida no primeiro semestre de 2009, no hospital-dia do Hospital São José de Doenças Infectocontagiosas em Fortaleza-Ceará, a pesquisa contou com os seguintes sujeitos: seis acadêmicos de enfermagem e seis adultos com aids em uso de medicação endovenosa. Os alunos eram do último semestre do curso de enfermagem de universidades públicas ou privadas de Fortaleza, que se encontravam desenvolvendo estágio extracurricular na instituição. Já os clientes eram acompanhados no serviço e recebiam algum tipo de droga endovenosa, com necessidade de a mesma ser infundida em ambiente hospitalar. Desta forma, neste estudo, participaram como sujeitos seis duplas (acadêmico de enfermagem-cliente).

Para a coleta de dados, utilizou-se como recurso a técnica da filmagem. Conforme revelam determinados estudos, o vídeo constitui um instrumento valioso para a coleta e geração de dados à medida que garante a fidedignidade e a neutralidade da pesquisa, bem como permite uma análise criteriosa dos dados, pois o pesquisador pode reavaliar as filmagens em número ilimitado de vezes(12). Foram ainda utilizados formulários semi-estruturados para a identificação dos acadêmicos e dos clientes.

A captação das imagens foi feita mediante uso de uma filmadora digital manuseada pelo pesquisador, mantendo-se altura e ângulo para se obter o máximo possível de imagem da dupla. No hospital-dia, os pacientes permaneciam em poltrona reclinável e confortável para o recebimento da infusão venosa. Ao lado da poltrona havia um equipamento para amparo do frasco para gotejamento da medicação. Havia, também, mesa de cabeceira, localizada a certa distância da poltrona (mais ou menos 1,20 metro).

Os acadêmicos foram orientados a desenvolverem o procedimento da forma mais natural possível e, com vistas a não gerar ansiedade por parte deles, não se estipulou tempo para a realização da técnica.

Após a captação da comunicação ocorrida durante a punção venosa periférica, o material captado foi editado. Cada filmagem obtida foi convertida em um formato digital (DVD) e, a seguir, juntaram-se todas as cenas em um mesmo arquivo digital, cuja duração foi de 24 minutos.

Da análise do material, participaram quatro juízes, escolhidos de acordo com os seguintes critérios: a) ser enfermeiro e possuir titulação mínima de mestre; b) ter desenvolvido ou desenvolver estudo sobre comunicação em saúde; c) ter publicação na área de comunicação em saúde; d) ter desenvolvido ou desenvolver prática de ensino para acadêmicos de enfermagem.

Todos os juízes foram informados sobre os objetivos do trabalho e a forma de avaliação dos dados. Receberam material impresso contendo fatores essenciais para análise da comunicação. Os fatores indicados foram: comportamentos não-verbais de cuidado – distância, postura, eixo/posição, espaço, comportamento de contato, contato visual, expressão facial, manifestação verbal e comportamentos verbais de cuidado.

Em continuidade, o arquivo digital foi apresentado ao grupo de juízes para a análise das interações das duplas. Em uma sala as imagens foram projetadas em tela, e congeladas ao término de cada fase da punção venosa (pré-punção, punção, pós-punção). Como solicitado, os juízes teceram então comentários em grupo sobre a comunicação desenvolvida entre o acadêmico e o paciente. As verbalizações dos juízes foram então gravadas, transcritas e analisadas com base na teoria da Análise do Conteúdo(13) e geraram as seguintes categorias: a)Valorização da técnica em oposição à comunicação; b)Máscara: barreira para a comunicação; c) Invasão do espaço pessoal; d) Interferência do ambiente na comunicação.

Conforme determinado, este estudo cumpriu as recomendações da resolução 196/96 sobre a investigação com seres humanos e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital São José de Doenças Infecciosas, sob o protocolo número 35/2008. A anuência de todos os sujeitos foi formalizada mediante assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Participaram do estudo seis duplas constituídas por acadêmicos do último semestre de enfermagem e clientes adultos com aids. Os seis acadêmicos de enfermagem, em sua maioria, eram do sexo feminino (apenas um do sexo masculino), e faixa etária entre 22 e 28 anos. Como observado, revelavam experiência prévia em técnica de punção venosa, conhecimentos sobre a infecção pelo HIV e, ainda, informaram ter recebido, durante o curso, conteúdo sobre teorias de comunicação e sobre as relações de interação enfermeiro-paciente. Também como observado, os acadêmicos eram provenientes de diversas universidades de Fortaleza e foram aprovados para estágio extracurricular após serem submetidos a prova de avaliação teórica e capacidade técnica realizada pelo hospital.

Acerca dos clientes, todos tinham doença em estágio avançado (aids), a idade variou de 26 a 48 anos, predominou o sexo masculino e o estado civil solteiro. Todos aceitaram participar da pesquisa voluntariamente. No momento das filmagens, as medicações endovenosas em uso foram a Anfotericina B® e o Ganciclovir®.

Para a avaliação do enfoque comunicativo ocorrido na situação de punção venosa periférica realizada pelos acadêmicos de enfermagem e pacientes com aids, os juízes, após assistirem o vídeo sobre as interações passaram a avaliá-lo. As falas ou depoimentos emitidos pelo grupo de avaliadores propiciaram a elaboração do Quadro 1. Neste quadro constam as categorias e os principais recortes relacionados à comunicação estabelecida entre as duplas acadêmico-cliente.

 

 

DISCUSSÃO

A valorização do procedimento técnico foi a situação de destaque mencionada pelos juízes. Observou-se que os acadêmicos concentraram toda a atenção na realização da técnica da punção venosa. Desse modo, relegaram a segundo plano o estabelecimento da relação interpessoal com o cliente. Na maior parte das interações, o cuidado desenvolvido foi estritamente técnico, mecânico, fragmentado e centrado no membro a ser puncionado. Portanto, não houve a atenção ao paciente de forma holística.

No Brasil, segundo pesquisa realizada para avaliar as vivências dos alunos do Curso de Graduação em Enfermagem nas situações de estágio no cotidiano hospitalar, os acadêmicos afirmaram que durante o estágio a ênfase do cuidado voltou-se para o fazer técnico desarticulado da compreensão do doente em sua integralidade(14).

Contudo, conforme defende o cuidado holístico, é essencial ser o cliente compreendido primeiramente como pessoa e só depois como doente. Ou seja, ele não deve ser visto meramente como um conjunto de tarefas, mas como uma pessoa total com necessidades biopsicossociais e espirituais, com direitos a serem respeitados, devendo ser garantida sua dignidade ética. Assim, em sua práxis, o enfermeiro precisa dominar além dos aspectos básicos e técnicos, o aspecto humano do cuidado. Dessa forma, será possível traçar prioridades em direção à humanização dos cuidados de saúde(15-16).

Aliado à valorização do procedimento técnico esteve o fator medo do risco de contágio pelo HIV durante o procedimento. Este fator interferiu no tipo de comunicação desenvolvida entre acadêmico e cliente.

Estudos com abordagem ancorada na relação entre comunicação em saúde e cuidado de clientes com HIV são unânimes ao afirmar o despreparo da equipe multidisciplinar de saúde em estabelecer uma comunicação efetiva com esta clientela. A principal justificativa para esta deficiência se relaciona à eclosão de sentimentos como insegurança e ansiedade advindos do risco de contágio do vírus(17).

Conforme mostram os resultados desse estudo, houve uma paramentação excessiva para a realização do cuidado. Por exemplo, embora os pacientes não apresentassem doença de transmissão por via aérea, os acadêmicos utilizaram a máscara nos momentos da punção. Isso denota o receio destes diante do cuidado dos pacientes com HIV/aids em virtude do potencial risco de transmissão das infecções por via aérea e respiratória.

Consoante se depreende, o uso da máscara evidenciou-se como um obstáculo para a comunicação, pois tanto dificultou a percepção dos aspectos não-verbais da comunicação por parte do cliente como impediu o entendimento pleno das verbalizações feitas pelo aluno. Tal situação é corroborada por estudo analítico sobre os fatores proxêmicos da equipe de enfermagem no cuidado de pacientes com HIV/aids, o qual apontou como um dos obstáculos para a comunicação, a máscara de proteção respiratória(9).

É indispensável que os alunos tenham conhecimento quanto às precauções preventivas universais relativas à doença. No entanto, muitas vezes, o medo, as fantasias e os preconceitos a respeito de uma doença estigmatizante e incurável se sobrepõem ao conhecimento científico, e, desse modo, geram insegurança durante a assistência ao indivíduo com HIV. Inegavelmente, devem ser tomadas precauções no referente a todo e qualquer paciente do qual se cuide, pois, potencialmente, qualquer pessoa pode ser portadora de HIV. Dessa maneira, as precauções dizem respeito a todo procedimento no qual se possa ter contato com secreções, independente da patologia(8).

Os resultados alertam ainda para a necessidade de identificação dos riscos reais em relação ao cuidado dos indivíduos com HIV no intuito de viabilizar o procedimento de forma que o paciente não se sinta ignorado, rejeitado ou tratado de modo diferente em decorrência da doença. É direito de todo paciente ser tratado com igualdade e justiça, portanto, esses pressupostos não podem ser infringidos em virtude da soropositividade para o HIV. Por princípio ético, o portador de HIV é igual a todos os outros clientes, embora apresente necessidades específicas de cuidado.

Outros pontos foram mencionados pelos juízes, especificamente a invasão do espaço e a distância mantida entre os interlocutores. Segundo estudiosos, a forma como um interlocutor se coloca interfere no processo de comunicação. Por conseguinte, evidencia-se a necessidade de observar a distância entre o profissional e o cliente. É dever do enfermeiro respeitar as variações da distância a ser mantida nas diferentes situações de interação com o paciente com vistas a minimizar o sentimento de ansiedade relativo à invasão do espaço pessoal e propiciar uma melhor adaptação do paciente durante o cuidado de enfermagem(9).

Durante a punção venosa, a exemplo da grande parte dos procedimentos de enfermagem, a invasão do espaço pessoal e a manutenção de uma distância íntima são inevitáveis, pois é preciso transpor a bolha invisível na qual o indivíduo está envolto para tocar/palpar a veia ou manipular o membro a ser puncionado. Assim, os profissionais de enfermagem tocam o corpo e expõem o paciente constantemente, sem sua prévia autorização. Esta forma de agir pode deixar transparecer uma postura de poder do enfermeiro sobre o cliente(18).

De modo geral, o cliente pouco questiona essa invasão porque, na sua percepção, ela é indispensável para sua recuperação. Mesmo assim, ele é ferido em sua privacidade/individualidade e demonstra constrangimento, vergonha e embaraço por meio dos sinais da comunicação não-verbal, como expressão facial e corporal, ou verbais. À invasão de seu espaço, as reações do cliente são sutis, por exemplo, deixar de olhar o profissional nos olhos, responder por monossílabos as perguntas feitas, contrair os músculos, permanecer imóvel, entre outras(19). Nestes momentos, o enfermeiro deve estar atento a essas respostas, sobretudo para demonstrar ao cliente a preocupação com os sentimentos deste e o respeito à sua individualidade.

É possível, entretanto, amenizar a invasão. Para isto, deve ter a consciência dessa limitação e utilizar algumas estratégias. Entre estas, comunicar-se com o paciente antes de tocá-lo; manter uma distância íntima apenas quando necessário; atentar para a devida organização do material para evitar que objetos invasivos, como o garrote, permaneçam em contato com o paciente por um tempo prolongado (contaminação); e evitar apoiar objetos como a bandeja no corpo do cliente.

Além disso, recomenda-se melhor utilização do ambiente ao redor, como os juízes sugeriram ao acadêmico no presente estudo. Segundo eles, a adoção de uma posição mais lateralizada em relação ao paciente é mais cômoda e atenua a invasão do espaço pessoal. Por sua vez, deve-se preferir a posição sentada de ambos os sujeitos da interação, pois possui certas vantagens, como: viabiliza o contato olho a olho, atenua uma possível relação de poder, facilita a visualização da veia a ser puncionada e ainda é ergonomicamente mais saudável para o acadêmico.

Tratando-se do espaço do ambiente onde ocorreu a punção, o hospital-dia, foi considerado inapropriado para o desenvolvimento da comunicação. Determinados fatores contribuíram para que o ambiente funcionasse como uma barreira à comunicação. Entre estes, os ruídos presentes no ambiente (aparelho de televisão, diálogos paralelos), falta de privacidade decorrente do intenso fluxo de pessoas e ausência de suporte para apoio do membro superior do paciente. Embora os clientes estivessem sentados em uma poltrona reclinável, esta era considerada confortável para ele, mas incômoda para a realização de procedimentos como a punção venosa, pois o apoio do braço situava-se em nível muito baixo. Este fator levava os acadêmicos a adotarem posição incômoda e até mesmo invasiva do espaço pessoal do cliente.

Segundo especialistas, tanto o ambiente onde ocorre a comunicação como suas propriedades (espaço físico, mobiliário, iluminação, arejamento, temperatura, ruídos), são componentes marcantes para a qualidade da interação comunicativa e para seu êxito, em face da influência deles sobre as condições emocionais, físicas e psicológicas dos envolvidos. Tal fator compromete a expressão e a percepção das idéias. Portanto, o ambiente pode estimular ou inibir, a interação entre os envolvidos. Consoante se afirma, um ambiente considerado propício para o estabelecimento da comunicação é aquele no qual existem as melhores condições conforme a sua realidade, ou seja, no qual são oferecidas segurança, conforto e privacidade ao paciente. De modo geral, os ruídos presentes no ambiente podem ser prejudiciais à compreensão da mensagem e à resposta, interferindo assim na comunicação como um todo(20).

 

CONCLUSÃO

A avaliação da interação acadêmico-cliente por parte de juízes especialistas em comunicação foi primordial, sobretudo pela percepção de aspectos implícitos da interação desenvolvida entre os sujeitos. Dessa forma, a categorização das falas dos juízes indicou fatores que dificultaram a efetividade da comunicação.

Tal como outros procedimentos, a punção venosa desvelou-se como um cuidado intensamente ligado à invasão do espaço pessoal, em virtude de exigir uma distância íntima para a sua realização. Isso foi corroborado por respostas não-verbais manifestadas pelo paciente, a exemplo de contração muscular, tensão e desvio do olhar. Diante do identificado, aconselha-se ao aluno o uso de estratégias para a atenuação da invasão do espaço, por exemplo, a apresentação antes do procedimento, a explicação do procedimento ao paciente, o aviso antes de assumir a distância íntima, o pedido para tocar o corpo do cliente, entre outros. Acerca da postura, pode-se destacar a importância de o acadêmico manter a posição sentada durante o cuidado técnico da punção venosa, porquanto esta posição facilita o contato visual, viabiliza uma melhor acomodação e principalmente ameniza a relação de poder.

O ambiente onde ocorreu a maior parte das punções, o hospital-dia, funcionou como espaço-barreira para o estabelecimento de uma comunicação efetiva, em decorrência do excesso de ruídos, do intenso fluxo de pessoas e da inapropriação do mobiliário existente no local para o procedimento.

Em face dos resultados, enfatiza-se a necessidade de treinamento do aluno sobre a importância da interação e comunicação durante o cuidado com vistas a melhorar seu relacionamento interpessoal quando da realização de procedimentos invasivos e incômodos, a exemplo da punção venosa periférica. O intuito maior é proporcionar um cuidado humanizado e peculiar, no qual a sensibilidade e a empatia se sobreponham ao medo, insegurança, julgamento, preconceito e estigma, sentimentos fortemente vinculados ao cuidado direcionado a pacientes portadores do HIV.

Ainda como percebido ao longo do desenvolvimento deste estudo, pode-se indicar que a filmagem mostrou-se um bom recurso para a coleta de dados, pois permitiu a análise criteriosa e fidedigna de cada detalhe relativo à interação comunicativa acadêmico-cliente por parte dos juízes. Em contrapartida, pode ter ocasionado desvantagem na espontaneidade dos acadêmicos, levando-os a agirem de forma encenada ou a se intimidarem ao se comunicarem com o cliente. Outra preocupação do acadêmico foi o temor de errar o procedimento ao ser filmado. Tal situação causou-lhe certo constrangimento e vergonha. Assim, com base nesse estudo, espera-se melhorar a comunicação entre os acadêmicos e os clientes durante a realização dos procedimentos por ele desenvolvidos, e especificamente na punção venosa periférica de pessoas com aids.

 

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Financiado pela FUNCAP e CNPq.

 

 

Correspondência:
Marli Teresinha Gimeniz Galvão
Rua Marcos Macedo, 1350 - Apto. 702 - Aldeota
CEP 60150-190 - Fortaleza, CE, Brasil

Recebido: 14/08/2009
Aprovado: 15/08/2010

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