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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.46 no.1 São Paulo Feb. 2012

https://doi.org/10.1590/S0080-62342012000100026 

ARTIGO ORIGINAL

 

Grupos de pesquisa em história da enfermagem: a realidade brasileira

 

Grupos de Investigación en Historia de la Enfermería: la realidad brasileña

 

 

Maria Itayra PadilhaI; Miriam Susskind BorensteinII; Maria Aline Lima CarvalhoIII; Aline Coelho FerreiraIV

IEnfermeira. Doutora em Enfermagem pela Escola Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pós-Doutora pela Lawrence Bloomberg Faculty of Nursing at University of Toronto, Canada. Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora do Grupo de Estudos da História do Conhecimento da Enfermagem e Saúde. Pesquisadora do CNPq. Florianópolis, SC, Brasil. padilha@nfr.ufsc.br
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Professora Associada do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Vice-lider do Grupo de Estudos da História do Conhecimento da Enfermagem e Saúde. Pesquisadora do CNPq. Florianópolis, SC, Brasil. miriam@nfr.ufsc.br
IIIEnfermeira Graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina. Enfermeira da Prefeitura de Florianópolis. Integrante do Grupo de Estudos da História do Conhecimento da Enfermagem e Saúde. Florianópolis, SC, Brasil. maline_303@hotmail.com
IVGraduanda de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Bolsista de Iniciação Cientifica CNPq. Integrante do Grupo de Estudos da História do Conhecimento da Enfermagem e Saúde. Florianópolis, SC, Brasil. alini_zinha@hotmail.com

Endereço para correspondência:

 

 


RESUMO

Este estudo tem por objetivo analisar as atividades dos grupos de pesquisa em história da enfermagem existentes no Brasil e sua articulação com os cursos de graduação e pós-graduação em enfermagem. É um estudo exploratório qualitativo descritivo documental, realizado no período de julho de 2008 a março de 2010. Foram identificados 34 grupos de pesquisa com pelo menos uma de suas linhas de pesquisa em história da enfermagem. Os resultados indicaram que os grupos têm produzido um vasto material bibliográfico, linhas de pesquisa e ampla participação de estudantes de graduação e pós-graduação. Verifica-se também que ainda não há uma rede de comunicação entre os grupos da mesma linha de pesquisa. Conclui-se que é necessário trabalhar na interdisciplinaridade e no fortalecimento de algumas linhas de pesquisa que sustentem o conhecimento em história da enfermagem brasileira.

Descritores: Grupos de Pesquisa; História da enfermagem; Educação em enfermagem


RESUMEN

Este estudio objetiva analizar las actividades de los grupos de investigación en Historia de la Enfermería existentes en Brasil y su articulación con los cursos de graduación y posgraduación en Enfermería. Es un estudio exploratorio, cualitativo, descriptivo, documental, realizado en el período de julio 2008 a marzo 2010. Fueron identificados 34 grupos de investigación con al menos una de sus líneas investigativas focalizada en Historia de la Enfermería. Los resultados indicaron que los grupos han venido produciendo una vasta cantidad de material bibliográfico, líneas investigativas y amplia participación de estudiantes de graduación y posgraduación. Se verifica también que aún no hay una red de comunicación de la misma línea de investigación. Se concluye en que es necesario una mejora en la interdisciplinaridad, así como el fortalecimiento de algunas líneas de investigación que sustentan el conocimiento histórico de la enfermería brasileña.

Descriptores: Grupos de Investigación; História de la enfermería; Educación em enfermería


 

 

INTRODUÇÃO

A história serve para elucidar o contexto vivido e fornecer os significados deste contexto. O conhecimento das correntes socioeconômicas, culturais e políticas que influenciaram o longo percurso da história sobre a prática dos cuidados possibilitam que as enfermeiras possam libertar-se de heranças passadas. Na verdade, à medida que se conhece a história de uma profissão, como no nosso caso, a da enfermagem, se percebe quanto e como a enfermagem não é inseparável de outras atividades da vida, do mundo da saúde e seus compromissos sociais. É com este olhar que a história adere à possibilidade de delinear e identificar quem são, o que pensam, o que sentem, como agem e, ainda, quais as perspectivas do que terão as enfermeiras em sua caminhada como um grupo profissional contextualizado(1). A enfermagem, quando trata de sua história, necessariamente se apropria e se aproxima dos territórios interdisciplinares, não apenas do historiador, mas também, do antropólogo, sociólogo, psicólogo, filósofo, apenas para falar de alguns, porque sem eles não há como compreender os processos pelos quais a história da profissão foi construída. Isto foi influenciado sim pela Nova História, que ampliou o olhar do historiador para as demais disciplinas, estabelecendo relações de boa vizinhança entre estas. Cada disciplina carrega as suas particularidades e recupera o passado pelas pontes interdisciplinares, como um caleidoscópio de inúmeras facetas(2-4).

Com o desenvolvimento da pós-graduação no Brasil a partir da década 1980, foi inegável a ampliação da produção científica na área de enfermagem, tanto do ponto de vista de dissertações, teses e livros, quanto de artigos publicados em periódicos indexados, dentre outros. A pós-graduação stricto sensu é um segmento consolidado no cenário educacional brasileiro e internacional e tem contribuído decisivamente para a formação de recursos humanos qualificados e para o desenvolvimento científico-tecnológico nacional, deixando claro o seu papel estratégico no país(1,5).

Analisando a produção do conhecimento em História da Enfermagem no Brasil, decorrente dos resultados de teses e dissertações, foram identificados apenas 126 estudos no período de 1972 a 2004 que tratavam de temáticas como identidade profissional, institucionalização da Enfermagem no Brasil, entidades organizativas, especialidades de enfermagem e estudos sobre a criação das escolas de enfermagem brasileiras(1). Nestes estudos percebe-se que, a partir da década de 1980, acentuaram-se as preocupações das estudiosas de enfermagem com os estudos da profissão numa perspectiva historiográfica, especialmente para compreender a enfermagem como parte de um processo histórico, social, cultural, político, educativo e de gênero(6). Como o Brasil ainda tem poucos centros de documentação, a Enfermagem tem seguido não preservando adequadamente a sua história, tanto pelo pouco reconhecimento como pela limitação e não-organização dos arquivos utilizados para a pesquisa, além da não-importância da recuperação e preservação de fontes escritas, orais e iconográficas dos arquivos existentes e daqueles que serão criados(7).

O Centro de Estudos e Pesquisas de Enfermagem - CEPEn, da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), tem um papel relevante na mudança deste paradigma, assim como os artigos publicados em periódicos brasileiros como a Revista da Escola Anna Nery, a Revista Brasileira de Enfermagem e a Revista Texto & Contexto Enfermagem, que têm como política a publicação de artigos relativos a história da enfermagem. No âmbito internacional, podemos citar o periódico Nursing History Review, editado pela Associação Americana de História da Enfermagem e criado especialmente para divulgar estudos relativos à História da Enfermagem, e o Nursing Inquiry, cujo último número do ano é exclusivo a textos relativos à História da Enfermagem(8).

Neste sentido, procurando aprofundar as discussões acerca do assunto e contribuir com a Enfermagem brasileira para preservar sua memória e identidade, subsidiar os docentes, estudantes, pesquisadores e interessados em História da Enfermagem, entendemos que é de suma importância um estudo sobre os grupos e núcleos de pesquisa em História de Enfermagem existentes no Brasil e sua articulação com os cursos de graduação e pós-graduação em Enfermagem.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório, descritivo qualitativo do tipo documental(9), que foi realizado no período compreendido entre julho de 2008 a março de 2010. Para a construção do panorama dos grupos de pesquisa em História da Enfermagem, foram utilizadas duas bases de dados: (1) Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil do CNPq, versão 5.0(10), atualizado em março de 2010; (2) currículo individual dos pesquisadores disponibilizados na Plataforma Lattes (Currículo Lattes). Tomando como referência a base de dados do diretório, há várias maneiras de delimitar a capacidade instalada de pesquisa em História da Enfermagem. Por exemplo, uma busca na base de dados utilizando a palavra-chave história da enfermagem nos campos nome do grupo, título da linha e palavras-chave da linha forneceu um conjunto de 40 grupos. Porém, ao acrescentarmos a grande área do grupo como ciências da saúde, este número reduz para 37 grupos, e quando selecionamos a área de enfermagem, o número reduz para 34 grupos. Considerando que a apresentação dos resultados desta pesquisa tem por finalidade dar visibilidade aos grupos de pesquisa que tenham como uma de suas linhas a História da Enfermagem, optamos por analisar estes 34 grupos cuja área predominante é a Enfermagem. A partir desta definição, passamos a analisar na primeira etapa os seguintes itens: a especificidade da área do grupo; o ano de criação; sigla; a identificação dos líderes e sua formação de base; pesquisadores do CNPq; outros pesquisadores; estudantes em todos os níveis e técnicos. Além disso, identificamos as instituições a que pertencem, região do país onde o grupo se localiza; a quantidade e as características das linhas de pesquisa de cada grupo. Para facilitar a organização dos dados, elaboramos planilhas no Programa Microsoft Excel® 2007, contendo cada um dos dados a serem analisados.

A segunda etapa da pesquisa, relacionada aos participantes dos grupos de pesquisa, foi realizada pela consulta individualizada de cada um junto à Plataforma Lattes do CNPq. Com relação à formação e titulação, os dados foram coletados e organizados em tabelas, quadros e gráficos organizados também no Programa Microsoft Excel® 2007. Também consultamos o site da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), para a busca e identificação dos programas de pós-graduação em Enfermagem no país. O presente estudo não necessitou ser submetido ao Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Catarina por tratar-se de uma pesquisa documental e ter utilizado apenas fontes de domínio público para sua concretização. Porém os pesquisadores seguiram rigorosamente os cuidados éticos na busca, análise e discussão dos resultados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil é um projeto desenvolvido no CNPq desde 1992 e constitui-se em bases de dados que contêm informações sobre os grupos de pesquisa em atividade no país. O diretório mantém uma base corrente, cujas informações são atualizadas continuamente pelos líderes de grupos, pesquisadores, estudantes e dirigentes de pesquisa das instituições participantes e o CNPq realiza censos bianuais, que são fotografias dessa base corrente. Assim, para situar esta investigação no contexto geral das pesquisas em saúde no Brasil detectamos que, desde o primeiro censo em 1993 até 2008, houve um crescimento exponencial do número de Grupos de Pesquisa das Ciências da Saúde registrados, que ampliou de 4.402 para 22.797 grupos(9). O número de linhas de pesquisa na área de saúde humana também ampliou de 13.841 linhas em 2002 para 21.862 em 2008. Considerando-se especificamente a distribuição dos grupos por área predominante, selecionamos a área de Enfermagem e verificamos que houve um crescimento de 59 para 373 grupos em 2008, com 1059 linhas de pesquisa.

Verificamos através dos dados que o primeiro grupo de pesquisa com estudos na perspectiva histórica foi criado em 1988 e denominado Grupo de Pesquisa sobre Políticas e Práticas de Saúde(GRUPPS) da Universidade Federal do Ceará (UFC). O segundo grupo foi criado em 1989. Na década de 1990, foram criados nove grupos e os outros 23 a partir de 2000. Destes 34 grupos, apenas 10 possuem a palavra história em sua denominação. Entendemos a História da Enfermagem no campo do ensino e pesquisa como um processo de sedimentação e ampliação, cabendo ainda reconhecer as limitações visíveis na produção científica da Enfermagem brasileira, em processo de acelerado desenvolvimento no que se refere aos estudos de natureza sócio-histórica, criando possibilidades de reconstrução dos saberes, constituintes dos contextos históricos e culturais específicos(8,11).

Fazendo uma análise comparativa com outros grupos de pesquisa brasileiros, em estudo relativo ao desenvolvimento científico da área de epidemiologia no Brasil, os autores verificaram que na década de 1990 os grupos de pesquisa na área da saúde coletiva tiveram um aumento de 4,09% comparado aos anos seguintes a 2000(12). Esta ampliação do número de grupos de pesquisa também foi encontrada em outro estudo que analisou o crescimento dos grupos de pesquisa em educação e enfermagem no sul do Brasil, identificando que, dos 18 grupos existentes em 2006, cinco se estruturaram na década de 1990(13). A principal razão do avanço na produção do conhecimento em todas as áreas se deve com certeza ao crescimento dos cursos de pós-graduação no país e, consequentemente, à formação dos grupos de pesquisa(14).

A visibilidade do conhecimento produzido nos programas de pós-graduação e nos grupos de pesquisa se tornará evidente a partir da publicação dos resultados dos estudos de pesquisadores, docentes e estudantes participantes. O sistema de pós-graduação precisa se expandir para dar conta das novas necessidades. Isso significa maior investimento de recursos financeiros, particularmente para a formação de quadros a serem absorvidos pelas universidades, onde a pesquisa em saúde necessita de apoio(7). A pós-graduação stricto sensu em Enfermagem no Brasil teve início em 1972, na Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando iniciou o Mestrado em Enfermagem Fundamental. Em 1973, a Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) iniciou o Mestrado na área de Concentração em Fundamentos de Enfermagem(7-8). Em 1998, tinhamos 14 programas de pós-graduação em Enfermagem e em 2010 este número foi ampliado para 39, ou seja, houve um aumento de 278,57%, o que é extremamente relevante para o desenvolvimento da profissão em termos de qualificação profissional(15). Além disso, se compararmos o número de grupos em História da Enfermagem, com os 433 grupos considerados de Enfermagem registrados na Base Corrente do CNPq, estes representam apenas 7,8% do total(9). Mas, levando em conta que esta é uma área em expansão e que um número grande de grupos não garante a consolidação da pesquisa e nem a sua qualidade, entendemos que a produção dos grupos de pesquisa histórica em termos de projetos e publicações é que poderá garantir a sua manutenção e fortalecimento(16). De acordo com dados da CAPES, atualmente temos no Brasil 39 programas de pós-graduação stricto sensu em Enfermagem. Destes, 35 oferecem curso de mestrado, três mestrados profissionalizantes e 20 cursos de doutorado. Os programas estão distribuídos da seguinte forma: 19 na região Sudeste, três na região Centro-Oeste, nove na região Nordeste e oito na região Sul(15). É possível inferir que os programas de pós-graduação e os grupos de pesquisa possuem uma estreita relação, visto que nos locais onde eles existem há maior consolidação e impulso no trabalho dos grupos e, em contrapartida, fortalecem a pós-graduação, pois se configuram em espaços que comportam o cerne científico de pesquisadores. Neste sentido, verificamos que 60,70% dos grupos estão concentrados na região Sudeste, o que está relacionado com o número de programas de pós-graduação em Enfermagem nesta região. Também é interessante observar que pertencem à região Nordeste aproximadamente 17,64%, à região Sul 11,76% e apenas 5,88% à região Norte, o que demonstra claramente um desequilíbrio na distribuição dos grupos e consequentemente da produção científica nacional.

Corroborando esta informação, comparamos o desenvolvimento de outros grupos de pesquisa brasileiros e identificamos que os grupos de pesquisa da subárea de Epidemiologia estão, também, concentrados na região Sudeste, com 61% dos grupos, uma diferença peculiar comparada à região Sul, que apresenta 9,7% dos grupos nessa subárea de conhecimento, enquanto que a região Nordeste apresenta 21,6% dos grupos(12). Encontramos o mesmo dado no estudo relativo à pesquisa sobre envelhecimento humano no Brasil, quando os autores identificaram que a distribuição geográfica mostra que no Sudeste há maior número de grupos de pesquisa - cerca de 59,7% dos grupos na área de envelhecimento humano. Em seguida vem o Sul, com 21,5 %, Nordeste com 13,9%, Centro-Oeste com 4,9 % e Norte com 0%(17).

Outro dado importante na avaliação da ampliação da produção científica relativa à História da Enfermagem e Saúde é pelo número de participantes dos Grupos de Pesquisa (Tabela 1).

 

 

Verificamos que a grande maioria (13) apresenta um grupo constituído de 11 a 20 participantes entre pesquisadores, estudantes e técnicos. Embora não haja uma definição em termos de quantos membros se consideraria como ideal num grupo de pesquisa, entendemos que os extremos são indesejáveis. Ou seja, um grupo com poucos participantes poderá implicar numa produção também pouco significativa, mas não necessariamente. Já um grupo muito grande, como, por exemplo, acima de 25 participantes, poderá implicar em uma dificuldade de organização do grupo, dos estudos desenvolvidos e do planejamento das atividades coletivas. Este dado pode ser corroborado pelo estudo desenvolvido para avaliar as características dos grupos de pesquisa de Enfermagem brasileira, no período de 2005 a 2007, no qual os autores identificaram que a maioria dos grupos era composta por um a 17 membros(18).

Um aspecto importante a ser considerado é a infraestrutura dos grupos de pesquisa no sentido de garantir um espaço de integração, de produção coletiva e de organização de atividades. Neste sentido, quanto maior o número de participantes de um grupo, maior também será a necessidade de uma infraestrutura adequada para garantir o compartilhamento afetivo e de saberes, além de proporcionar a melhoria da visibilidade das atividades integrativas do grupo(13).

Segundo as informações do Diretório de Pesquisas do CNPq, a Linha de pesquisa (LP) representa temas aglutinadores de estudos científicos que se fundamentam em tradição investigativa, de onde se originam projetos cujos resultados guardam afinidades entre si(9).Toda produção intelectual dos pesquisadores, estudantes e técnicos dos grupos de pesquisa se aglutina em torno das linhas de pesquisa estabelecidas pelo grupo a partir dos projetos em desenvolvimento. Para o CNPq, projeto de pesquisa (PP) é a investigação com início e final definidos, fundamentada em objetivos específicos, visando a obtenção de resultados, de causa e efeito ou colocação de fatos novos em evidência(9). Os pesquisadores doutores são responsáveis pela criação e manutenção das linhas de pesquisa. Na avaliação relativa às LP dos grupos investigados, apresentamos abaixo o quadro com a distribuição do número de LP dos 34 grupos identificados com estudos relativos à História da Enfermagem e Saúde em seu título, linhas ou projetos de pesquisa.

No Quadro 1, optamos por analisar apenas os 31 grupos com uma ou mais LP em História da Enfermagem e Saúde. Nos três grupos excluídos do quadro, a História da Enfermagem não é o foco central de seus estudos. Verificamos que apenas oito grupos apresentam linhas específicas de História da Enfermagem e Saúde. Isto significa que os demais 25 grupos não colocam explicitamente a palavra história na descrição de seus grupos ou linhas de pesquisa. Sete grupos apresentam duas linhas de pesquisa e os demais (23) apresentam de três a cinco linhas de pesquisa, o que configura uma produção de conhecimento significativa na área e de modo diversificado.

Uma grande vitória conseguida pelas pesquisadoras da História da Enfermagem brasileira foi o fato de ter sido reconhecida como Linha de Pesquisa no Fórum Nacional de coordenadores de cursos de pós-graduação em Enfermagem, promovido em 2000 pela CAPES durante o 52º Congresso Brasileiro de Enfermagem em Belém, PA. Isto legitima enquanto área importante de investigação e também possibilita que sejam ampliados os financiamentos de pesquisas e pesquisadores em História da Enfermagem. Entretanto, a aceitação desta linha ainda não é unânime no Brasil, fato retratado pelo quantitativo reduzido de financiamentos dos estudos históricos em comparação com outros. Isto ocorre porque os órgãos financiadores de pesquisa privilegiam estudos com objetos mais pragmáticos, o que ameaça a História da Enfermagem como área de domínio, pois é no seio da comunidade científica que se constituem estes espaços(19). Assim, uma das estratégias positivas a ser utilizada é o fortalecimento desta linha de pesquisa nos programas de pós-graduação em Enfermagem.

Para verificar a inserção das LP em História da Enfermagem nos programas de pós-graduação em Enfermagem, analisamos os dados disponíveis pelo coleta CAPES de 2008, e numa primeira busca, na definição da linha de pesquisa, identificamos apenas dois programas com a palavra história na sua identificação - UFRJ, UFSC. Passamos, então, para a descrição da linha de pesquisa e nesta busca encontramos outros seis programas - UNIRIO; UFRGS; UFSM; USP/SP; USP/SP interdisciplinar e USP/RP - com a referência da palavra história na descrição da linha de pesquisa. Neste sentido, entendemos que há uma discrepância entre os dados informados no diretório do CNPq e aqueles encontrados no coleta CAPES(15). Esta constatação demonstra que os programas de pós-graduação em Enfermagem ainda não assumiram a linha de pesquisa História da Enfermagem como algo essencial em sua produção, ou pelo menos na definição de seus projetos.

Para identificar a qualificação dos membros dos grupos de pesquisa, analisamos tanto o Diretório de Pesquisa do CNPq como a Plataforma Lattes e, para tanto, enfrentamos vários desafios, dentre eles a diferença de registro entre os dados do Diretório da base corrente do CNPq e o Currículo Lattes dos integrantes, ou seja, no Diretório do Grupo, uma pessoa estava identificada como estudante de doutorado, enquanto que na plataforma Lattes constava como Doutor. Outro problema foi a distribuição dos membros do grupo nas categorias de pesquisador e técnico. Alguns grupos identificam Doutores, Mestres e especialistas como pesquisadores; outros, apenas os doutores e assim por diante. Neste sentido, visando homogeneizar a nossa avaliação, consideramos a qualificação colocada no Diretório de Pesquisa do CNPq, conforme pode ser observado a seguir:

 

FIGURA 1

 

Em relação aos membros dos grupos, identificamos um total de 643 participantes, destes 161 doutores, 90 mestres, 31 especialistas e 18 técnicos. Além disso, 343 são estudantes: 151 de graduação, 105 de mestrado, 51 de doutorado e 36 de especialização. Do número total de 161 doutores dos grupos, apenas 26 são bolsistas de produtividade do CNPq, sendo 12 PQ 1 e 14 PQ 2, que representam 16,14% do total de doutores. O Diretório de Pesquisas do CNPq considera como pesquisadores membros graduados ou pós-graduados da equipe de pesquisa, direta e criativamente envolvidos com a realização de projetos e com a a produção cientifica, tecnológica e artistica do grupo(9). Neste sentido, foram considerados pesquisadores os doutores (135), doutores pesquisadores do CNPq (26), mestres (90), especialistas (31) e graduados (6), que totalizaram 288 pesssoas. Verifica-se que 87,45% dos pesquisadores incluem-se na categoria de doutores ou mestres, o que garante um nível de qualificação importante, especialmente na condução das pesquisas dos grupos. Este dado, comparado ao estudo realizado com os grupos de pesquisa de Educação em Enfermagem da região Sul, identificou um contingente de 86% do seu quadro de pesquisadores com titulação de mestres e doutores (35% doutorado e 49,7% mestrado)(13). Um dado importante identificado neste estudo é o número de estudantes de doutorado, mestrado, especialização e graduação com bolsa de estudos de apoio para o desenvolvimento de projetos de pesquisa. A proporção de pesquisadores com titulação doutoral em todas as áreas do conhecimento presentes na base de dados do Diretório do CNPq é de 56,7%. Essa proporção, relacionada aos grupos de pesquisa da História da Enfermagem, está elevada, já que nessa subárea apresenta-se 27,65% dos pesquisadores com doutorado. Isto pode ser considerado um aspecto muito positivo para produção do conhecimento de História da Enfermagem.

Dos 343 estudantes, 83 (24,19%) recebem bolsas de estudos, sendo 33 de iniciação cientifica, 10 de doutorado e 32 de mestrado. Este número de bolsistas relativamente pequeno em termos do número total indica que a maioria dos estudantes participa dos grupos de pesquisa como voluntário, mas mostra a importância do grupo de pesquisa na formação de estudantes em todos os níveis. As agências predominantes no oferecimento de bolsas de estudo aos estudantes são as agências de fomento nacionais, estaduais e algumas internacionais vêm tendo, desde meados do século XX, grande influência na institucionalização e nos rumos da produção científica nacional e no estabelecimento de relações entre pesquisadores(14).

O grupo de pesquisa pode ampliar as possibilidades de produção dos pesquisadores dos Programas de Pós-Graduação porque mantém dispositivos que facilitam este processo, como bolsas de produtividade e de iniciação científica para preparar os acadêmicos para a pesquisa(20). É imprescindível que a inserção no campo da pesquisa inicie na graduação, pois

essa estratégia de formação não só possibilita o aprendizado dos passos do processo de pesquisa, mas proporciona a formação de uma nova geração de enfermeiros que, além de realizarem os primeiros ensaios da pesquisa, adotem uma postura de incorporação dos métodos científicos para a elaboração de conceitos, ideias, formulação de questionamentos(13).

A participação dos estudantes em seus vários níveis de treinamento tem como uma das finalidades dar suporte ao líder e os pesquisadores do grupo; desse modo, são compreendidos como a massa crítica em formação. Esse entrosamento entre pesquisadores e estudantes para a elaboração das pesquisas é um estímulo que o grupo oferece aos estudantes para que eles desenvolvam e cresçam nessa área(8,18).

Além de impulsionar a produção de pesquisa e de extensão, a inserção permanente de estudantes do mestrado e doutorado é o que fortalece a tríplice dimensão ensino, pesquisa e extensão nas instituições de ensino superior. A presença dos doutorandos nos grupos de pesquisa é fundamental, já que eles estão se formando para serem os novos pesquisadores do grupo e a relação de quantidade de membros mostra a intensidade de produção do grupo. Por meio do estudo da história, os estudantes desenvolvem insights e um melhor entendimento da profissão de enfermagem, assim como ampliam as múltiplas necessidades educacionais do currículo(4,8,21). A história promove o desenvolvimento de habilidades críticas nos estudantes com relação aos eventos e questões históricas e explora como estes eventos podem ter alterado a profissão. A história não somente oferece perspectivas contextuais, mas também esclarecimentos e nutre o orgulho e a autoestima em uma profissão que é frequentemente desvalorizada socialmente(22).

 

CONCLUSÃO

Os dados aqui apresentados nos levam à possibilidade de conhecer e analisar as atividades dos grupos de pesquisa em História da Enfermagem existentes no Brasil qualitativamente, o que indica uma área de conhecimento em desenvolvimento. Há vários pontos importantes desta investigação que devem ser considerados, dentre eles, a clara intenção e importância da articulação dos Grupos de Pesquisa com os cursos de graduação e pós-graduação em Enfermagem, levando em consideração o número de estudantes participantes.

Este estudo possibilitou a reconstrução e o fortalecimento do saber histórico da Enfermagem promovendo novas reflexões e propiciando a análise da evolução da linha de pesquisa da História da Enfermagem especialmente articulada aos programas de pós-graduação de Enfermagem strictu sensu no Brasil. Acreditamos que um dos aspectos que também vem fortalecendo a preocupação com o desenvolvimento e ampliação dos estudos históricos foi a ampliação dos grupos de pesquisa em História da Enfermagem, entendida como campo de pesquisa em desenvolvimento. A produção foi incrementada a partir da década de 1990, fato que culmina com o reconhecimento como linha de pesquisa pela CAPES em 2000. Entendemos a História da Enfermagem no campo do ensino e pesquisa ainda em processo de sedimentação e ampliação, com estas limitações visíveis no que se refere aos estudos de natureza sócio-histórica, criando possibilidades de reconstrução dos saberes, constituintes dos contextos históricos e culturais específicos da Enfermagem brasileira.

 

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Endereço para correspondência:
Maria Itayra Padilha
Rod. Amaro Antônio Vieira, 2371/818 - Itacorubi
CEP 88034102 - Florianópolis, SC, Brasil

Recebido: 05/07/2010
Aprovado: 07/07/2011

Agradecimentos
Agradecemos ao CNPq por apoiar a pesquisa que deu origem a este estudo, assim como pela Bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UFSC), pelas Bolsas de Mestrado, Doutorado e Produtividade em Pesquisa (PQ/CNPq).

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