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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.47 no.3 São Paulo June 2013

https://doi.org/10.1590/S0080-623420130000300030 

Estudo Teórico

A fenomenologia social de Alfred Schütz e sua contribuição para a enfermagem

La fenomenología de Alfred Schütz y su contribución para enfermería

Maria Cristina Pinto de Jesus I  

Creusa Capalbo II  

Miriam Aparecida Barbosa Merighi III  

Deíse Moura de Oliveira IV  

Florence Romijn Tocantins V  

Benedita Maria Rêgo Deusdará Rodrigues VI  

Lia Leão Ciuffo VII   8 

IDoutora. Professora Associada da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora. Juiz de Fora, MG, Brasil.mariacristina.jesus@ufjf.br

IIFilósofa. Professora Doutora Aposentada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.creusa@uol.com.br

IIIProfessora Titular da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil.merighi@usp.br

IVDoutoranda pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil.deisemoura@usp.br

VProfessora Titular da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.florenceromijn@hotmail.com

VIProfessora Titular da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.benedeusdara@gmail.com

VIIDoutoranda pela Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

8Professora Assistente da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.leaociuffo@yahoo.com.br


RESUMO

O cuidado de enfermagem pode ser considerado uma ação social que tem como cenário o mundo cotidiano, onde são estabelecidas relações intersubjetivas que devem ser valorizadas pelo enfermeiro nos diversos contextos em que atua. Estudo teórico que teve como objetivo destacar as principais concepções da fenomenologia social de Alfred Schütz e sua contribuição para a Enfermagem como área de conhecimento e prática profissional. As seguintes questões nortearam este estudo: qual a compreensão do cuidar em Enfermagem sob a ótica da fenomenologia social de Alfred Schütz? Como aplicar as concepções teóricas de Alfred Schütz na ação de cuidar em Enfermagem? Foram demarcadas tais concepções e a interface destas com a Enfermagem. Ao incorporar à Enfermagem conceitos da teoria da ação social elaborados por Alfred Schütz, este estudo permite ao enfermeiro valorizar e aplicar os aspectos apontados por este referencial teórico no âmbito assistencial, no ensino e na investigação científica.

Palavras-Chave: Cuidados de enfermagem; Filosofia; Sociologia; Pesquisa em enfermagem; Pesquisa qualitativa

RESUMEN

El cuidado de enfermería puede ser considerado una acción social que tiene como escenario el mundo cotidiano, donde son establecidas relaciones intersubjetivas que deben ser valoradas por el enfermero en los diferentes contextos en que actúa. Estudio teórico que tuvo como objetivo poner de relieve las principales concepciones teóricas de la fenomenología social de Alfred Schütz y su contribución para Enfermería como un área de conocimiento y práctica profesional. Las siguientes preguntas orientaron este estudio: ¿Cuál es la comprensión del cuidado en Enfermería, desde la perspectiva de la fenomenología social de Alfred Schütz? ¿Cómo aplicar los conceptos teóricos de Alfred Schütz, en la acción del cuidado en Enfermería?. Fueron demarcadas las concepciones teóricas y la relación de las mismas con Enfermería. Al incorporar a Enfermería conceptos de la teoría de acción social elaborados por Alfred Schütz, permite al enfermero valorar y aplicar los aspectos nombrados por este referencial teórico en el ámbito asistencial, en la docencia y en la investigación científica.

Palabras-clave: Atención de enfermería; Filosofía; Sociología; Investigación en enfermería; Investigación cualitativa

ABSTRACT

Nursing care can be considered a social action that is set in the everyday world, where intersubjective relations are established and must be valued by the nurse in the different contexts in which it acts. It is a theoretical study which aimed to highlight the main concepts of the social phenomenology of Alfred Schütz's and its contribution to Nursing as a knowledge and professional practice field. The following questions guided this study: what is the understanding of caring in Nursing from the perspective of the social phenomenology of Alfred Schütz's? How to apply Alfred Schütz's theoretical concepts in the action of caring in Nursing? The theoretical concepts of the social phenomenology and their interface with Nursing were delimited. By incorporating the concepts of the theory of social action developed by Alfred Schütz into Nursing, this study allows nurses to value and apply the aspects highlighted by this theoretical framework within healthcare, education and scientific research.

Key words: Nursing care; Philosophy; Sociology; Nursing research; Qualitative research

INTRODUÇÃO

A perspectiva fenomenológica constitui uma alternativa de investigação que contribui para um olhar efetivo sobre as experiências relacionadas ao processo saúde-doença de seres humanos e, principalmente, as vividas em diferentes cenários assistenciais e de atenção à saúde( 1 ). Tal abordagem investigativa, com característica compreensiva, tem sido utilizada em pesquisas na Enfermagem. Destaca-se que, como área de conhecimento e de prática profissional, a Enfermagem é constituída fundamentalmente na relação entre seres humanos, cuja compreensão torna-se um importante sinalizador do cuidado em saúde( 2 ).

Estudo bibliométrico sobre dissertações e teses brasileiras realizadas com abordagem fenomenológica na Enfermagem constatou que, no período de 1981 a 2002, a maioria dos referenciais teórico-filosóficos que subsidiaram a análise basearam-se nas concepções de Heidegger (50,4%), Alfred Schütz (21,7%) e Merleau-Ponty (20%)( 3 ).

No presente estudo, dá-se destaque para o referencial teórico da fenomenologia social, especificamente para a fenomenologia sociológica de Alfred Schütz, que tem por fundamento a compreensão da ação de sujeitos no mundo social, tendo por referência as relações intersubjetivas inscritas em suas experiências cotidianas(4).

Schütz propõe-se a realizar uma investigação filosófica da natureza da ação, recorrendo basicamente à obra de Edmund Husserl para trabalhar o conceito de significado. Este é analisado a partir do cotidiano e não na esfera da redução fenomenológica transcendental. Refere-se à compreensão da ação de pessoas no mundo da vida, como sujeito em si ou na relação intersubjetiva, mediada pela descrição eidética, isto é, por uma estrutura invariável, a priori única, de uma sociedade composta por mentes viventes e conscientes do mundo onde estão inseridas( 5 ).

Cuidar do outro pressupõe considerar o campo de atuação da Enfermagem como sendo de interação entre sujeitos, reconhecendo-o como ambiente e espaço complexos de atividades humanas que requerem a compreensão da ação social dos sujeitos neles inseridos( 6 ).

Em nível mundial, as produções científicas do referencial da fenomenologia da relação social, na área da saúde e da Enfermagem, têm sido desenvolvidas de modo mais expressivo nos idiomas inglês (Estados Unidos da América), português (Brasil) e japonês (Japão). Estes estudos concentram-se em diversas temáticas, tendo como foco central a bioética, com valorização das vivências dos sujeitos no processo saúde-doença e na assistência à saúde( 7 ).

No Brasil, a partir dos anos 1990, a área da Enfermagem vem utilizando o referencial teórico da fenomenologia sociológica de Alfred Schütz para fundamentar o desenvolvimento de investigações qualitativas, em especial em Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu. Dá-se destaque às produções acadêmicas pioneiras( 8 - 9 ) que contribuíram para evidenciar a aplicabilidade do referencial teórico de Alfred Schütz na construção do conhecimento e no desenvolvimento da Enfermagem.

Na contemporaneidade, os desdobramentos desta iniciativa traduzem-se em publicações, especialmente oriundas de investigações acadêmicas, em diferentes ramos do conhecimento da Enfermagem, constituindo-se em evidências científicas relevantes para a área( 10 - 15 ).

Considerando a difusão de produções científicas na Enfermagem fundamentadas em Alfred Schütz foram levantadas as seguintes questões: qual a compreensão do cuidar em Enfermagem sob a ótica da fenomenologia social de Alfred Schütz? Como aplicar as concepções teóricas de Alfred Schütz na ação de cuidar em Enfermagem?

Este estudo tem como objetivo destacar as principais concepções teóricas da fenomenologia social de Alfred Schütz e sua contribuição para a Enfermagem como área de conhecimento e prática profissional. Espera-se que o conhecimento nele produzido possa constituir uma referência para pesquisadores que utilizam ou venham a utilizar esse referencial teórico na Enfermagem e áreas afins. Para os enfermeiros inseridos na prática, almeja-se que, munidos do olhar proposto por Schütz, potencializem a dimensão social inscrita na relação de cuidado, nos diversos contextos assistenciais em que atuam.

CONCEPÇÕES TEÓRICAS DA FENOMENOLOGIA SOCIAL DE ALFRED SCHÜTZ

O sociólogo Alfred Schütz (1899-1959) embasou o seu pensamento em dois filósofos, entendidos como pedra angular de sua obra: Max Weber e Edmund Husserl. Max Weber inspirou Schütz ao trazer à tona uma perspectiva de interpretação da realidade social pautada na significação dos atos pelo sujeito que os pratica. A contribuição de Schütz ao postulado de Weber foi aprofundar o significado da ação do homem no mundo social. Nesse sentido, buscou em Husserl o arcabouço filosófico que lhe permitiu compreender os fenômenos sociais a partir do significado atribuído pelo sujeito à ação, amparando-se nos conceitos de intencionalidade e intersubjetividade( 5 ).

A primeira obra de Schütz foi publicada em 1932, em Viena, intitulada Der Sinnhafte Aufbau der Sozialen Welt (A construção significativa do mundo social) entendida como fundamental por trazer a fusão dos pensamentos de Weber e Husserl. Em 1939, Schütz chegou aos Estados Unidos, onde prosseguiu a sua carreira como sociólogo, pesquisador e escritor. No total, publicou em vida, 33 textos, a maioria em inglês, alguns traduzidos para os idiomas francês, alemão e espanhol. Postumamente, foram publicados no idioma inglês os três volumes dos Collected Papers, contendo a maior parte de seus textos escritos( 5 ).

Schütz discute a estrutura da realidade e salienta a relação social como elemento fundamental na interpretação dos significados da ação dos sujeitos no mundo cotidiano. Para isso, elege como essencial a compreensão que se dá na cotidianidade da existência humana no mundo da vida, considerado o mundo social. As ciências que almejam a interpretação da ação humana devem iniciar com uma descrição das estruturas fundamentais constituídas pelo pré-reflexivo, ou seja, a realidade que se mostra evidente e inquestionável para os homens. Essa realidade é o mundo cotidiano( 16 ), que é permeado por uma estrutura que viabiliza a construção social dos sujeitos e influencia as suas relações.

Para a fenomenologia social, o mundo cotidiano é o cenário onde o ser humano vive, o qual já se encontra estruturado previamente, anterior ao seu nascimento. A leitura dessa realidade estabelecida faz o homem agir de modo natural, a partir do que lhe é apresentado como realidade social. Além disso, tem a capacidade de intervir naturalmente nesse mundo, influenciando e sendo influenciado, transformando-se continuamente e alterando as estruturas sociais. Schütz denomina atitude natural essa forma de o sujeito colocar-se no mundo da vida( 16 ).

O mundo cotidiano é considerado um mundo cultural e intersubjetivo, uma vez que os homens coexistem e convivem entre si, não só de maneira corporal e entre os objetos, mas também como seres dotados de uma consciência que é essencialmente similar( 4 ). É intersubjetivo porque o sujeito vincula-se em diferentes relações sociais, compreendendo e sendo compreendido por meio delas. É cultural, porque desde o princípio esse mundo é um universo de significação que deve ser interpretado para orientar e conduzir o ser humano( 4 ).

Para viver nesse mundo, o homem orienta-se pelo modo como define o cenário da ação, interpreta suas possibilidades e enfrenta seus desafios. Isso precede o reconhecimento da situação atual do sujeito, constituída por uma história sedimentada em todas as suas experiências subjetivas prévias( 4 ). A matriz de toda ação social tem um sentido comum, contudo cada pessoa situa-se de maneira específica no mundo da vida, o que Schütz( 4 ) denomina de situação biográfica.

Cada pessoa, durante toda a sua existência, interpreta o mundo na perspectiva de seus próprios interesses, motivos, desejos, compromissos ideológicos e religiosos. A realidade do sentido comum é dada de forma cultural como universal, contudo o modo como essas formas expressam-se na vida individual depende da totalidade da experiência que o sujeito constrói no curso de sua existência concreta. Essa experiência agrega um acervo de conhecimentos que está disponível e acessível, de acordo com a situação biográfica do sujeito( 4 ).

O acervo de conhecimentos é constituído primariamente por meio dos progenitores, considerados os mediadores da inserção do homem no mundo social. Além destes, soma-se o conhecimento agregado pelos educadores e pelas experiências concretas, que estruturam continuamente este acervo, constituindo-se em base para uma ação subsequente( 4 ). Schütz define ação como a conduta humana projetada pelo sujeito de maneira intencional, dotada de propósito. Ao projetar a ação, a pessoa antecipa um comportamento - o ato como se tivesse sido cumprido - , sendo que as possibilidades de fazê-lo estão diretamente ligadas aos elementos do presente vivido. A situação biográfica e o acervo de conhecimentos disponíveis e acessíveis condicionam a projeção da ação( 4 ). Ao realizar a ação, seu sentido inicial - tal como fora planejada - poderá se modificar, considerando o modo como ela se efetivou, abrindo um leque de infinitas reflexões( 17 ).

A ação é interpretada pelo sujeito a partir de seus motivos existenciais, derivados das vivências inscritas na subjetividade, constituindo fios condutores da ação no mundo social. Os que se relacionam ao alcance de objetivos, expectativas, projetos são chamados motivos para e aqueles que se fundamentam nos antecedentes, no acervo de conhecimentos, na experiência vivida no âmbito biopsicossocial da pessoa são denominados motivos porque ( 4 ).

O conjunto de motivos para e porque referem-se às situações típicas, com meios e finalidades típicas. Não traduzem o fluxo pleno da consciência do outro nas relações sociais, uma vez que, para que isso ocorra, faz-se necessário que esse fluxo dê-se em sua totalidade, o que é impossível( 17 ). Sob o ponto de vista das ciências sociais, a compreensão possível do homem no mundo da vida dá-se por meio de uma ótica subjetiva das relações sociais. A transcendência dessa compreensão requer que o pesquisador distancie-se do sujeito para observá-lo e elabore um esquema conceitual a partir da objetivação da matriz subjetiva de sentido, agrupando as informações acerca do mundo do senso comum - a tipificação( 17 ).

A ideia de tipificação é uma das concepções mais importantes e representativas da fenomenologia sociológica. Oportuniza a apreensão de um conhecimento anônimo e objetivo do fenômeno estudado, o qual se desvelará a partir das vivências e experiências subjetivas e intersubjetivas( 4 ).

A tipificação refere-se a um esquema conceitual que reúne as vivências conscientes de uma pessoa ou de um grupo no mundo social. Trata-se de uma representação invariante da ação ou da pessoa/grupo que a torna homogênea, abstendo-se das características individuais( 4 ). Por se constituir em uma elaboração objetiva, pode ser expressa mediante a linguagem significativa, sendo reconhecida e compreendida por aqueles que vivenciam uma situação semelhante. Assim, a compreensão que parte da motivação existencial tem ao mesmo tempo um significado que é subjetivo - porque foi vivenciado pelos sujeitos - e objetivo - que se refere a uma situação concreta, que se mostra significativa e relevante para aqueles que vivenciam o fenômeno investigado.

As características tipificadas pressupõem que o pesquisador considere os princípios da ciência para garantir a validade científica dos modelos construídos (postulado da consciência lógica), a significação subjetiva da ação (postulado da interpretação subjetiva) e a compatibilidade entre as construções do pesquisador e as experiências do sentido comum da realidade social (postulado da adequação)( 17 ).

CONTRIBUIÇÕES DA FENOMENOLOGIA SOCIAL DE ALFRED SCHÜTZ PARA A ENFERMAGEM

A Enfermagem tem como ação social o cuidar de pessoas, envolvendo atos, comportamentos e atitudes que estão relacionados ao processo saúde-doença. Os atos realizados variam conforme as situações de cuidado e com o tipo de relacionamento nelas estabelecido( 18 ).

Cuidar transcende a uma ação realizada somente por profissionais de saúde. Constitui uma atitude natural apresentada ao ser humano como uma realidade social. Cuida-se de si, da família, dos amigos, da casa. Age-se de modo natural frente ao cuidado, à medida que é um ato inerente à vivência humana, a mais originária das relações intersubjetivas, sendo as demais por ela subsidiada.

A dimensão da ação de cuidar em Enfermagem é inicialmente vivida na facticidade da vida humana, podendo variar de uma pessoa para outra. Apresenta algo em comum que possibilita, nas diversas situações de cuidado, agrupar características que pemitem ao homem reconhecê-las como tal, tendo em vista o fato de as ter vivenciado preliminarmente. O cuidado é uma ação vivida individualmente, mas inserida no mundo da vida social. Inscreve-se em relações intersubjetivas, sendo significado e ressignificado a partir do tipo de relação estabelecida com o outro.

O cuidado profissional implica um tipo de relação social específica entre os sujeitos que dela participam. Agrega ao cuidado factual a dimensão técnico-científica, que o diferencia do praticado pelo senso comum, além de se pautar na intersubjetividade, no acervo de conhecimentos e na situação biográfica do profissional cuidador.

Cuidar requer o estabelecimento de uma relação face a face, que Schütz define como aquela na qual os sujeitos envolvidos estão conscientes um do outro e voltados mutuamente, no mesmo tempo e espaço( 4 ). A relação existente na ação de cuidar em Enfermagem envolve um contexto social que expressa diferentes concepções de saúde, doença, necessidades e o próprio fazer do enfermeiro, podendo conduzir a vivências positivas e negativas dos sujeitos envolvidos, no âmbito da promoção, prevenção e recuperação da saúde.

Ao mesmo tempo, a compreensão do cuidar em Enfermagem dá-se por meio da tipificação da ação e é alicerçada no contexto sócio-histórico de sujeitos - individual e coletivo - envolvidos na relação social. Esta tipificação constitui-se mediante uma relação uniforme e homogênea de determinações e condicionantes sociais e de saúde, sendo sedimentada em experiências trazidas do senso comum para o mundo profissional. A compreensão da ação de cuidar dar-se-á em maior profundidade à medida que for pautada na reciprocidade de intenções e expectativas entre o ser cuidado e o profissional cuidador. As perspectivas recíprocas são construções típicas de objetos de pensamento que traduzem a apreensão desse objeto e seus aspectos conhecidos pelas pessoas no mundo social( 4 ).

A Enfermagem contemporânea tem como pioneira Florence Nightingale, que estabeleceu bases importantes para a enfermagem profissional no mundo, dando origem à tipificação da ação de cuidar para a profissão. Entretanto, as características típicas do cuidar originário não devem ser cristalizadas, tomadas como conhecimento final e acabado. O típico da ação de cuidar, portanto, não é fixo, sendo continuamente reestruturado a partir de situações diferentes que servirão de base para motivações que conduzirão a novas ações de cuidar.

A relevância de considerar a essência humana ao cuidar de pessoas e a busca por novas maneiras de olhar o cuidado( 19 ) justifica a adoção da investigação qualitativa com abordagem da fenomenologia social de Alfred Schütz na Enfermagem.

Tal abordagem vale-se da entrevista fenomenológica para a compreensão intuitiva do vivido, com vistas a acessar as experiências do mundo social. Esta modalidade de entrevista constitui um recurso que permite ao sujeito que vivencia o fenômeno expressar o significado da sua ação desenvolvida no mundo de suas relações( 9 ).

A entrevista pressupõe uma relação face a face - encontro direto e autêntico entre os sujeitos - tomada como o modo mais expressivo de relação social( 4 ). Possibilita à pessoa manter-se aberta e acessível às ações intencionais do outro, constituindo uma relação-nós permissível para que o fluxo da consciência de um apresente-se ao do outro( 4 ). Deve ser norteada por questões que evoquem a motivação, a qual fundamenta e impulsiona a ação.

Com este entendimento, o conteúdo temático dos questionamentos visa inserir o sujeito entrevistado no contexto de suas experiências passadas e presentes (motivos-porque) e remetê-lo ao seu futuro (motivos-para)( 4 ). Assim, o acesso ao significado da ação envolve um modo peculiar de olhar para um determinado aspecto da vivência da pessoa, a partir da consciência temporal interna que se baseia em um contexto motivacional( 4 ).

A fala dos sujeitos quanto a sua motivação constitui a exteriorização de suas intencionalidades, que são captadas pelo pesquisador ou pelo profissional enfermeiro durante a entrevista. Busca-se a compreensão intersubjetiva por meio da apreensão dos motivos da ação humana estruturada no bojo da experiência e, consequentemente, da ação que integra a relação social. A leitura cuidadosa e a análise crítica do conteúdo dessas falas possibilitam a identificação e a descrição dos significados da ação - a categorização - com consequente compreensão do fenômeno investigado.

As categorias resultantes do estudo fundamentado na fenomenologia social de Alfred Schütz são denominadas concretas e constituem sínteses objetivas dos diferentes significados da ação que emergem das experiências dos sujeitos. Constituem os denominados constructos de segundo nível, emergentes e originados de experiências no mundo social( 4 ).

Tais categorias expressam os aspectos relevantes de ações que implicam os fenômenos sociais, tal como se apresentam no mundo social, e envolvem tanto a reflexão dos sujeitos como a visão do pesquisador. Além disso, os significados que as constituem não são necessariamente excludentes, pois determinados aspectos podem estar presentes em mais de uma categoria, já que são inter-relacionadas na experiência dos sujeitos. O conjunto organizado de categorias concretas do vivido permite construir objetivamente o típico da ação, considerado uma construção teórica( 9 ). Para tanto, faz-se necessário que esta contenha o significado da ação social em foco e expresse com rigor metodológico o referencial da fenomenologia social de Alfred Schütz.

Tanto na perspectiva da investigação científica como do fundamento para o cuidar profissional, a compreensão do típico da ação no mundo social tem como eixo norteador o diálogo entre os resultados da pesquisa, o referencial teórico da fenomenologia social e as evidências científicas relacionadas à temática em estudo. Esta tríade possibilitará uma visão contextualizada e teoricamente embasada do fenômeno estudado, desdobrando-se em novas perspectivas de se pensar e fazer a Enfermagem.

Desse modo, o conteúdo que constitui a tipificação da ação do sujeito ou grupo investigado, sob o ponto de vista teórico ou da ação de cuidar, precisa ser interpretado à luz das evidências científicas referentes à temática pesquisada, considerando o contexto sócio-histórico que permeia a vivência em foco. Assim, tanto o pesquisador como o profissional de enfermagem estabelecem uma relação dialógica entre o que se mostra como característica típica da ação e/ou do vivido do grupo social estudado ou a ser cuidado e a produção do conhecimento na área, de modo a contextualizar a essência do fenômeno no campo da ciência social. Esta relação dialógica é relevante e necessária para melhor compreensão e clarificação do fenômeno investigado.

Portanto, na perspectiva da fenomenologia social de Alfred Schütz, o cuidado de enfermagem pode ser considerado como uma ação social que tem como cenário o mundo da vida, no qual são estabelecidas relações intersubjetivas que devem ser valorizadas pelo enfermeiro nos diversos contextos em que atua. Tal valorização perpassa o reconhecimento da pessoa, considerando o acervo de conhecimentos e as experiências adquiridas ao longo da vida, bem como a situação biográfica em que se encontra no momento do cuidado. Isso permitirá ao profissional lançar um olhar ampliado sobre o cuidar, alicerçado na vida do sujeito e considerando o contexto social no qual está inserido.

CONCLUSÃO

A fenomenologia social de Alfred Schütz constitui uma possibilidade de se pensar, fundamentar e desenvolver a ação de investigar e cuidar em Enfermagem, tendo como eixo norteador as relações sociais estabelecidas no mundo da vida. Tal referencial valoriza a dimensão intersubjetiva do cuidado e o traduz como a mais originária das relações existentes entre os seres humanos.

Destaca-se que os sujeitos do cuidado na Enfermagem, tanto no âmbito individual quanto no coletivo, estão inseridos em um contexto sócio-histórico e cultural que precisa ser valorizado. Nesse sentido, a situação biográfica e o acervo de conhecimentos de que dispõem constituem importantes sinalizadores para o planejamento e a efetivação das ações de cuidado profissional. No campo da pesquisa, este referencial traz à tona a importância de pensar o cuidado sob a ótica das relações que dele emanam, considerando a perspectiva dos sujeitos envolvidos na ação de cuidar em Enfermagem.

Espera-se que este estudo, ao incorporar à Enfermagem conceitos da teoria da ação social elaborados por Alfred Schütz, permita ao enfermeiro valorizar e aplicar os aspectos apontados por este referencial teórico no âmbito assistencial, no ensino e na investigação científica.

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