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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.48 no.spe2 São Paulo Dec. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420140000800027 

Artigo Original

Entrevistas narrativas: um importante recurso em pesquisa qualitativa

Camila Junqueira Muylaert1 

Vicente Sarubbi Jr2 

Paulo Rogério Gallo3 

Modesto Leite Rolim Neto4 

Alberto Olavo Advincula Reis5 

1Psicóloga. Mestre em ciências. Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil.

2Psicólogo. Mestre em ciências. Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil.

3Médico. Professor livre docente. Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil.

4Psicólogo. Professor livre docente. Departamento de Medicina. Universidade federal do Ceará. Fortaleza, Brasil.

5Psicólogo. Professor livre docente. Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil.


RESUMO

Objetivo

Este trabalho consiste numa contribuição metodológica em que se explicitam e se enfatizam o alcance e a fecundidade da entrevista narrativa no âmbito da investigação de natureza qualitativa.

Método

Descrever o método da narrativa no âmbito da investigação qualitativa.

Resultados

O método qualitativo de pesquisa caracteriza-se por abordar questões relacionadas às singularidades do campo e dos indivíduos pesquisados, sendo as entrevistas narrativas um método potente para uso dos investigadores que dele se apropriam. Elas permitem o aprofundamento das investigações, a combinação de histórias de vida com contextos sócio–históricos, tornando possível a compreensão dos sentidos que produzem mudanças nas crenças e valores que motivam e justificam as ações dos informantes.

Conclusão

As narrativas mostram-se muito úteis em estudos de abordagem qualitativa, uma vez que a narratividade é uma forma artesanal de comunicação cujo objetivo é veicular conteúdos a partir dos quais as experiências subjetivas podem ser transmitidas.

Palavras-Chave: pesquisa qualitativa; metodologia; narração

ABSTRACT

Objetives

This methodological study explain and emphasize the extent and fertility of the narrative interview in qualitative research.

Methods

To describe the narrative method within the qualitative research.

Results

The qualitative research method is characterized by addressing issues related to the singularities of the field and individuals investigated, being the narrative interviews a powerful method for use by researchers who aggregate it. They allow the deepening of research, the combination of life stories with socio-historical contexts, making the understanding of the senses that produce changes in the beliefs and values that motivate and justify the actions of possible informants.

Conclusion

The use of narrative is an advantageous investigative resource in qualitative research, in which the narrative is a traditional form of communication whose purpose is to serve content from which the subjective experiences can be transmitted.

Key words: Qualitative Research; Methodology; Narration

RESUMEN

Objetivo

Este estudio es un aporte metodológico en que se explica y destaca el alcance y la fertilidad de la entrevista narrativa en la investigación cualitativa.

Método

Describir el método de la narrativa en la investigación cualitativa.

Resultados

El método de investigación cualitativa se caracteriza por abordar las cuestiones relacionadas con las singularidades del campo y de las personas encuestadas, siendo las entrevistas narrativas un método potente para uso de los investigadores que toman posesión de ella. Permiten que la profundización de la investigación, la combinación de historias de vida con los contextos socio-históricos e la comprensión de los sentidos que producen cambios en las creencias y valores que motivan y justifican las acciones de los posibles informantes.

Conclusion

El uso de la narrativa se presenta un recurso de investigación ventajosa en la investigación cualitativa, la narrativa es una forma tradicional de comunicación cuyo objetivo es servir contenido a partir de la que se pueden transmitir las experiencias subjetivas.

Palabras-clave: Investigación Cualitativa; Metodología; Narrac

Introdução

"As pessoas podem esquecer o que você fez, o que você disse, mas nunca esquecerão o que você as fez sentir." Fernando Pessoa.

As entrevistas narrativas se caracterizam como ferramentas não estruturadas, visando a profundidade, de aspectos específicos, a partir das quais emergem histórias de vida, tanto do entrevistado como as entrecruzadas no contexto situacional. Esse tipo de entrevista visa encorajar e estimular o sujeito entrevistado (informante) a contar algo sobre algum acontecimento importante de sua vida e do contexto social(1). Tendo como base a ideia de reconstruir acontecimentos sociais a partir do ponto de vista dos informantes, a influência do entrevistador nas narrativas deve ser mínima. Nesse caso, emprega-se a comunicação cotidiana de contar e escutar histórias. Jovchelovich e Bauer(1) ainda alertam para a importância de o entrevistador utilizar apenas a linguagem que o informante emprega sem impor qualquer outra forma, já que o método pressupõe que a perspectiva do informante se revela melhor ao usar sua linguagem espontânea. Essas asserções se assentam na compreensão de que a linguagem empregada constitui uma cosmovisão particular e, portanto, é reveladora do que se quer investigar: o “aqui” e o “agora” da situação em curso.

Desse modo, há nas entrevistas narrativas uma importante característica colaborativa, uma vez que a história emerge a partir da interação, da troca, do diálogo entre entrevistador e participantes(2).

Lukács(3) discutindo a transformação da literatura ao longo do tempo discorre sobre o contraste entre os princípios da estrutura da composição da narrativa e da descrição: a narrativa implica uma posição de participação assumida pelo escritor em face da vida e dos problemas da sociedade. Nesse sentido, há engajamento entre os interlocutores. A descrição, por seu lado, se relaciona a uma posição de observação, de desvelamentos do fato per si, sem necessariamente, provocar interfaces entre o fato e os sujeitos a ele pertencente, na conjuntura do discurso.

Nesse mesmo sentido, Benjamin(4) considera que no processo narrativo o sujeito encontra-se implicado na série de eventos e acontecimento evocados, ao passo que na descrição ele, na condição de sujeito, se encontra apartado do relato que adquire uma dimensão objetiva, descritiva e observacional.

A transformação da literatura, que permite contrastar narrativa e descrição, relaciona-se ao modelo social de cada época. Os estilos se alteram de acordo com necessidades histórico-sociais, sendo um produto da evolução social. Isto não significa que o novo seja melhor que o antigo. A tendência a observar e descrever implica a perda da significação artística das coisas, rebaixando os homens ao nível das coisas inanimadas, chegando a ser inumano. A descrição caracteriza uma tendência literária da segunda metade do século XIX e acompanha o caminho do capitalismo, sendo seu resíduo. Gradativamente, a descrição elimina a troca entre a práxis e a vida interior, características da narrativa.

A superficialidade é característica da descrição que não desperta interesses mais profundos(3).

O excesso de explicações sobre as coisas do mundo, contrapõe a narrativa à informação. A narrativa é uma forma artesanal de comunicar, sem a intenção de transmitir informações, mas conteúdos a partir dos quais as experiências possam ser transmitidas(4). Dito isto, Benjamin(4) tinha como conceito central de sua teoria a experiência e como expressão delas a narrativa que para ele seria a forma de comunicação mais adequada ao ser humano.

Nesse sentido: ``Enriquecido pela trama das narrativas, o estilo dos textos produzidos torna-se mais fluente e mais próximo da literatura, mas, sobretudo, nos ajuda a refletir sobre questões que dizem respeito a todos, nesses difíceis e complexos tempos em que vivemos(5).

Dessa forma, nas narrativas o autor não informa sobre sua experiência, mas conta sobre ela, tendo com isso a oportunidade de pensar algo que ainda não havia pensado(6).

A narrativa, portanto, pode suscitar nos ouvintes diversos estados emocionais, tem a característica de sensibilizar e fazer o ouvinte assimilar as experiências de acordo com as suas próprias, evitando explicações e abrindo-se para diferentes possibilidades de interpretação. Interpretação não no sentido lógico de analisar de fora, como observador neutro, mas interpretação que envolve a experiência do pesquisador e do pesquisado no momento da entrevista e as experiências anteriores de ambos, transcendendo-se assim o papel tradicional destinado a cada um deles.

Seguindo essa linha de raciocínio, as considerações de Lukács(3) e Benjamin(4), apontam e indicam uma opção metodológica de se utilizar a técnica de entrevista narrativa quando trazem à baila elementos teóricos necessários à interpretação dos resultados obtidos.

Tendo em vista que os processos macros são formados por ações individuais, a partir da técnica de entrevistas narrativas pode-se evidenciar aspectos desconhecidos ou nebulosos da realidade social a partir de discursos individuais.

Nesse sentido, a possibilidade de narrar o vivido ou passar ao outro sua experiência de vida, torna a vivência que é finita, infinita. Graças a existência da linguagem a narrativa pode se enraizar no outro. Sendo assim, a narrativa é fundamental para a construção da noção de coletivo(7).

A forma oral de comunicar re-significa o tempo vivido, as coisas da vida, e concomitantemente a ela, emerge o passado histórico das pessoas a partir de suas próprias palavras(8). Assim uma das funções da entrevista narrativa é contribuir com a construção histórica da realidade e a partir do relato de fatos do passado, promover o futuro, pois no passado há também o potencial de projetar o futuro. Nessa ótica, o recurso da narrativa coincide com a perspectiva de movimento, no sentido teórico, pois através dela é possível conseguir novas variáveis, questões e processos que podem conduzir a uma nova orientação da área em estudo. Ou seja, a narratividade é um recurso que visa investigar a intimidade dos entrevistados e possibilita grande riqueza de detalhes, em virtude disso, pode ser importante quando determinada área de estudo encontra-se estagnada por haver se exaurido a busca por novas variáveis sem conseguir, entretanto, avançar no conhecimento. Ressalta-se ainda que os relatos orais são valorizados porque não são encontrados em documentos(9).

O MÉTODO DA NARRATIVA

Nas entrevistas narrativas se considera que nossa memória é seletiva, lembramos daquilo que “podemos” e alguns eventos são esquecidos deliberadamente ou inconscientemente. Nessa perspectiva, o importante é o que a pessoa registrou de sua história, o que experienciou, o que é real para ela e não os fatos em si (passado versus história).

As narrativas, dessa forma, são consideradas representações ou interpretações do mundo e, portanto, não estão abertas a comprovação e não podem ser julgadas como verdadeiras ou falsas, pois expressam a verdade de um ponto de vista em determinado tempo, espaço e contexto sóciohistórico(1). Não se tem acesso direto às experiências dos outros, se lida com representações dessas experiências ao interpretá-las a partir da interação estabelecida(8).

Assim, o importante é o que está acontecendo no momento da narração, sendo que o tempo presente, passado e futuro são articulados, pois a pessoa pode projetar experiências e ações para o futuro e o passado pode ser ressignificado ao se recordarem e se narrarem experiências. As entrevistas narrativas são, pois, técnicas para gerar histórias e, por isso, podem ser analisadas de diferentes formas após a captação e a transcrição dos dados(10). Neste processo são envolvidas as características para-linguísticas (tom da voz, pausas, mudanças na entonação, silencio que pode ser transformado em narrativas não ouvidas, expressões entre outras), fundamentais para se entender o não dito, pois no processo de análise de narrativas explora-se não apenas o que é dito, mas também como é dito. Lembramos ainda que embora as entrevistas sejam a forma mais conhecida de coleta de dados, as histórias narrativas podem ser reunidas a partir de diferentes formas como observação, documentos, imagens e outras fontes(2).

A Tabela a seguir apresenta de forma estruturada o processo a obtenção das entrevistas narrativas:

Tabela 2 Fases principais da entrevista narrativa. 

As questões exmanentes referem-se às questões da pesquisa ou de interesse do pesquisador que surgem a partir da sua aproximação com o tema do estudo, ao elaborar a revisão de literatura e aprofundamento no tema a ser pesquisado (exploração do campo). Essas questões devem ser transformadas em imanentes, sendo essa tarefa crucial no processo de investigação, que deve ao mesmo tempo ancorar questões exmanentes na narração, sempre utilizando a linguagem do informante. As questões imanentes são temas e tópicos trazidos pelo informante, elas podem ou não coincidir com as questões exmanentes.

É importante mencionar que inicialmente o informante deve ser avisado sobre o contexto da investigação e sobre os procedimentos da entrevista narrativa. Então, o entrevistador expõe o tópico central que tem a função de ser disparador da narração, os critérios de elaboração desse tópico deve seguir as seguintes orientações(1):

  1. Necessita fazer parte da experiência do informante, para garantir o seu interesse e uma narração rica em detalhes.

  2. Deve ser de significância pessoal e social, ou comunitária.

  3. O interesse e o investimento do informante no tópico não devem ser mencionados, para evitar que se tomem posições ou se assumam papéis já desde o início.

  4. Deve ser suficientemente amplo para permitir ao informante desenvolver uma história longa que, a partir de situações iniciais, passando por acontecimentos passados, leve à situação atual.

  5. Evitar formulações indexadas, ou seja, não referir datas, nomes ou lugares, os quais devem ser trazidos somente pelo informante, como parte de sua estrutura relevante.

Portanto, a conduta do entrevistador é fundamental no resultado das narrativas e se houver mais de um entrevistador na mesma pesquisa pode gerar problemas, já que o método leva em consideração a interação entre pesquisador e informante. Caso haja mais de um entrevistador deve haver constante diálogo entre os pesquisadores, para alinhar os possíveis problemas e para que haja trocas que podem enriquecer a pesquisa, uma vez que cada etapa é preparada coletivamente(5).

É importante, ainda, que o pesquisador acolha bem o informante e tenha uma escuta comprometida que permite obter pistas para captar a senha que é o portal de acesso ao informante. Assim, para obter bons resultados o pesquisador deve ter uma grande capacidade de interação com o outro, uma disponibilidade psicológica para ouvir e habilidades de escrever as experiências analisadas(5).

Outro fator relevante a ser observado é o tamanho da narrativa, por revelar aspectos que devem ser analisados a cada caso, pode ser maior ou menor a depender do pesquisador, do informante ou do contexto social.

As narrativas combinam histórias de vida a contextos sócio–históricos, ao mesmo tempo que as narrativas revelam experiências individuais e podem lançar luz sobre as identidades dos indivíduos e as imagens que eles têm de si mesmo(2), são também constitutivas de fenômenos sóciohistóricos específicos nos quais as biografias se enraízam. As narrações são mais propensas a reproduzir estruturas que orientam as ações dos indivíduos que outros métodos que utilizam entrevistas. Dessa maneira, o objetivo das entrevistas narrativas não é apenas reconstruir a história de vida do informante, mas compreender os contextos em que essas biografias foram construídas e os fatores que produzem mudanças e motivam as ações dos informantes(1).

A interpretação de narrativas ainda representa um desafio aos pesquisadores que podem seguir diferentes técnicas ou métodos. Ao mesmo tempo em que o domínio de técnicas específicas é exigido, não há intenção de esgotar as possibilidades de análise, mas sim de realizar uma análise no sentido de abrir os sentidos(5).

Shutze(1), delineia uma forma de análise da entrevista narrativa bastante didática:

  1. Após a transcrição separa-se o material indexado do não indexado:

    • O primeiro corresponde ao conteúdo racional, científico, concreto de quem faz o que, quando, onde e porque, ou seja, é ordenado (consequentemente é de ordem consensual, coletiva)

    • O segundo, o material não indexado vai além dos acontecimentos e expressam valores, juízos, refere-se à sabedoria de vida e, portanto, é subjetivo.

  2. Na etapa seguinte, utilizando o conteúdo indexado, ordenam-se os acontecimentos para cada indivíduo o que é denominado de trajetórias.

  3. O próximo passo consiste em investigar as dimensões não indexadas do texto.

  4. Em seguida, agrupam-se e comparam-se as trajetórias individuais.

  5. O último passo é comparar e estabelecer semelhanças existentes entre os casos individuais permitindo assim a identificação de trajetórias coletivas.

Para analisar o material recomenda-se reduzir o texto gradativamente, operando-se com condensação de sentido e generalização, divide-se o conteúdo em três colunas, na primeira fica a transcrição, na segunda coluna a primeira redução e na terceira apenas as palavras-chave. Então, desenvolvem-se categorias, primeiramente para cada uma das entrevistas narrativas, posteriormente são ordenadas em um sistema coerente para todas as entrevistas realizadas na pesquisa, sendo o produto final a interpretação conjunta dos aspectos relevantes tanto aos informantes como ao pesquisador.

Para uma análise mais aprofundada dos dados devemos fazer a seguinte pergunta proposta por Erving Goffman: o que está acontecendo aqui e agora? Essa pergunta aponta os indicadores do contexto situacional (aqui) e o momento da interação em curso (agora). Os enquadres e as pistas contextuais podem nos auxiliar nesse processo, os enquadres constituem a forma como construímos e sinalizamos o contexto da situação em curso e as “pistas de contextualização” são muito importantes na sinalização dos enquadres. Essas pistas nos remetem tanto para traços do contexto local, situacional, como para o contexto macro, acionando informações de natureza institucional, cultural e social(11).

Ainda, para o estabelecimento das categorias e as consequentes categorizações são usados tanto o procedimento de codificação baseado em dados como o de codificação baseado em conceitos. A leitura prévia da literatura disponível que se debruça sobre esse tema bem como o foco de interesse de investigação proporcionou a definição prévia de algumas categorias. Por outro lado, com o material obtido em campo pode-se construir novas categorias.

Devemos, portanto, retirar dos dados o que de fato eles significam, não impondo uma interpretação com base em teorias preexistentes. A maior parte dos pesquisadores se movimenta entre os ditos e os não ditos do discurso circulante, favorecendo uma análise mais enquadrada do contexto narrado(12).

A NARRATIVA COMO INSTRUMENTO DE INVESTIGAÇÃO EM PESQUISA QUALITATIVA

Minayo(13) se refere ao verbo compreender como a principal ação em pesquisa qualitativa, em que questões como a singularidade do indivíduo, sua experiência e vivência no âmbito de grupo e da coletividade ao qual pertence, são fundamentais para contextualizar a realidade na qual está inserido. Ao buscar responder questões em um determinado contexto espaço-temporal ou histórico-social, as pesquisas qualitativas não são generalizáveis. Isso não significa que sejam pouco objetivas, pouco rigorosas ou sem credibilidade científica, mas sim que abordam e tratam os fenômenos de outra forma(14,15).

Se por um lado a pesquisa qualitativa se preocupa em capturar um nível de realidade que não pode ser mensurado quantitativamente, por outro, o pesquisador só poderá desenvolver uma postura crítica que o qualifique no aprofundamento da captura dos dados, se permanecer em uma busca ativa e atenta por novos interlocutores e observações em campo, com o objetivo de articular e enriquecer as informações coletadas, uma vez que o objeto da investigação é sempre um objeto construído(13,13,16).

Schraiber(17) afirma que a narrativa é a objetivação do pensamento, dado que o pensamento externalizado é apreendido em sua forma de relato oral. As narrativas assim, segundo a autora, são ferramentas bastante apropriadas para o estudo qualitativo em que se objetiva investigar representações da realidade do entrevistado. A partir dessas representações pode-se captar o contexto em que esse informante está inserido.

Nessa perspectiva, as narrativas preconizam em seu instrumento de coleta a questão gerativa(18). Esta forma de abordar o sujeito da pesquisa sugere capturar a fala a partir de um posicionamento bastante diferenciado da entrevista semidirigida que utilizam de roteiro semiestruturado com perguntas definidas ao qual se deseja circunscrever um dado objeto a ser investigado(14,18,19).

O uso do roteiro semiestruturado, desde que pré-testado e tendo o pesquisador prévio entendimento dos objetivos de cada pergunta, permite que a entrevista flua pela ordem do discurso do entrevistado, possibilitando que o entrevistador lance mão de seguir um roteiro estruturado que, em geral, quebra a naturalidade e cria imposições restritivas tanto ao pesquisador como ao próprio sujeito da pesquisa. Ainda assim, a diretividade de cada pergunta aponta para um foco, o que limita o sujeito a responder dentro de um campo associativo bastante definido e previamente delimitado pelo próprio pesquisador(20).

É mister salientar, que nas narrativas a não diretividade propõe a apreensão dos significados em que o sujeito fala e, ao construir seu próprio discurso em narrativas, possa repensar os próprios acontecimentos por ele enunciados. As interferências com perguntas pontuais para eventuais esclarecimentos, mais direcionadas ao foco do conteúdo pesquisado, são realizadas após o término da gravação. Isto porque a captura em profundidade exige do entrevistador um aprender a ouvir tanto as falas quanto as pausas, silêncios, ritmos e o próprio cenário que vai se configurando no decorrer de uma história que ali é contada(18,21).

A construção da intimidade entre o entrevistador e entrevistado permite ao pesquisador desprender-se do papel de controlar o discurso do participante, se está adequado ou não ao material que o pesquisador almeja obter(10). Ao propor que o entrevistado discorra livremente a partir de uma questão aberta, a investigação possibilita o não condicionamento das respostas, o que propicia para o sujeito da pesquisa a construção gradativa de uma história com tendências próprias, em que os conteúdos implícitos e os não ditos, possam emergir com maior naturalidade e comprometimento com a realidade cotidiana(21,22,23).

A riqueza do método das narrativas propõe ainda um desafio ao pesquisador: o de se tornar parte do processo, em que ouvir em profundidade o que emerge dos participantes implicados em suas próprias histórias, admite que seja atravessado pela singularidade da trama de significações que é criada por cada sujeito(18,22).

Assim, as entrevistas narrativas são mais apropriadas para captar histórias detalhadas, experiências de vida de um sujeito ou de poucos sujeitos. Deve-se passar um tempo considerável com cada entrevistado e captar informações por meio de diferentes tipos de fontes, que podem ser de origem pessoal, familiar ou social. Alguns exemplos são cartas, fotografias, documentos, correspondências, diários, entre outros. O pesquisador deve também estar atento a contextualizar pessoalmente, culturalmente e historicamente o sujeito de pesquisa, bem como reestoriar os relatos e outras informações obtidas de forma que se construa algum tipo de estrutura para posteriormente inserir a história em uma sequência cronológica(2).

Por sua fecundidade, as narrativas podem potencialmente capturar circunstâncias nas quais o pesquisador almeja investigar mediações entre experiência e linguagem, estrutura e eventos, ou ainda situações da coletividade envolvendo memória e ações políticas. As narrativas são uma forma dos seres humanos experienciarem o mundo, indo além da simples descrição de suas vidas, pois ao repensarem suas histórias – as que contam e ouvem – refletem quem são reconstruindo continuamente significações acerca de si(18,24).

Portanto, o pesquisador colabora com o entrevistado e o envolve na pesquisa, de modo que ambos saem modificados desse encontro(2). Nesse sentido, Clandinin e Connelly compreendem a narrativa como forma de entender a experiência, sendo a experiência o fundamental a ser captado nas pesquisas.

Por fim, a pesquisa narrativa amplia a conexão do pesquisador com o campo, seu contexto e tessitura, ao possibilitar que a tensão do enigma de pesquisa (o problema em questão) não se perca, uma vez que o material coletado oferece rica consistência de experiências e significados - pela escuta prolongada e pela noção da importância dos eventos que o encadeamento das narrativas permite capturar, e não precipita no pesquisador a busca por reconstituir vivências e atribuições dos entrevistados pela ancoragem de referenciais teóricos que pela própria empiria captada no campo(23).

Conclusão

O método qualitativo de pesquisa caracteriza-se por abordar questões relacionadas às singularidades que são próprias do campo e dos indivíduos pesquisados. O estudo qualitativo por meio das narrativas permite capturar as tensões do campo, de maneira que as ressonâncias e dissonâncias de sentidos que emergem pelas falas, sejam problematizadas a partir do encadeamento das falas que constitui a trama em que relatos biográficos e fatos vivenciados se entrelaçam. As narrativas permitem ir além da transmissão de informações ou conteúdo, fazendo com que a experiência seja revelada, o que envolve aspectos fundamentais para compreensão tanto do sujeito entrevistado individualmente, como do contexto em que está inserido.

Ao romper com a tradicional forma de entrevistas baseadas em perguntas e respostas, o método das narrativas revela-se um importante instrumento para se realizar investigações qualitativas, dispondo para os pesquisadores dados capazes de produzir conhecimento científico compromissado com a apreensão fidedigna dos relatos e a originalidade dos dados apresentados, uma vez que permitem no aprofundamento das investigações, combinar histórias de vida a contextos sócio–históricos, tornando possível a compreensão dos sentidos que produzem mudanças nas crenças e valores que motivam (ou justificam) as ações dos informantes.

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Recebido: 30 de Abril de 2014; Aceito: 16 de Julho de 2014

Correspondência Camila Junqueira Muylaert. Tel. (55) (11) 996168354. Secretaria do Departamento Materno-Infantil (11) 30617703 Email: camilajmuylaert@gmail.com Av. Dr. Arnaldo, 715. Consolação. São Paulo. SP. Brasil.

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