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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234versão On-line ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.49 no.spe2 São Paulo dez. 2015

https://doi.org/10.1590/S0080-623420150000800011 

ARTIGO ORIGINAL

Formação do eu professor na abordagem Walloniana*

Formación del yo profesor en el abordaje Walloniano

Ana Lúcia Batista Aranha1 

Leny Magalhaes Mrech2 

Adriana Pereira Gonçalves Zacharias3 

Luana Prado Figueredo4 

Catarina Terumi Abe Mendonça5 

Maria de Fátima Prado Fernandes6 

1 Mestre em Ciências, Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

2 Professora Associada, Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

3 Mestranda, Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento em Enfermagem, Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

4Mestre em Enfermagem na Saúde do Adulto, Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

5 Enfermeira do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

6 Professora Associada, Departamento de Orientação Profissional, Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.


RESUMO

Objetivos

Analisar como o professor percebe a construção de seu Eu Professor na perspectiva de Wallon e conhecer como vivencia seu cotidiano na escola na condição de ser o si mesmo e o outro.

Método

Estudo qualitativo que contou com 13 participantes atuantes no Curso Bacharelado em Enfermagem. A coleta de dados foi realizada em 2013, por meio de entrevistas submetidas à análise temática.

Resultados

Emergiram três categorias: Construção do Eu Professor; Viver o cotidiano apoiado em si mesmo e no outro; e Componentes da construção do Eu Professor, com destaque para a conscientização e valorização de si mesmo e do outro, edificando a construção do Eu Professor.

Conclusão

Os professores percorreram uma trajetória na qual permitiu reconhecer o si mesmo em diferentes movimentos da internalização do Eu.

Palavras-Chave: Docentes; Educação; Educação em Enfermagem; Relações Interpessoais; Cognição

RESUMEN

Objetivos

Analizar como el profesor percibe la construcción del Yo Profesor en la perspectiva de Wallon y conocer como vivencia su cotidiano en la escuela en la condición de ser a sí mismo y el otro.

Método

estudio cualitativo, que contó con 13 participantes actuantes del Curso de Bachiller en Enfermería. La recolección de los datos fue realizada en 2013, por medio de entrevistas, las cuales fueron sometidas al análisis temático.

Resultados

surgieron tres categorías: Construcción del Yo Profesor; Vivir el cotidiano apoyado en sí mismo y del otro; y Componentes de la construcción del Yo Profesor, destacándose la concientización y valorización de sí mismo y del otro, edificando la construcción del Yo Profesor.

Conclusión

Los profesores siguieron una trayectoria tal que les permitió reconocerse a sí mismo y en los distintos movimientos de la internalización del Yo.

Palabras-clave: Profesores; Educación; Educación en Enfermería; Relaciones Interpersonales; Cognición

ABSTRACT

Objectives

Analyze how teachers perceive the construction of their I Professor from the perspective of Wallon and learn about their everyday experiences in school in the condition of being self and other.

Method

Qualitative, with 13 participants from the Bachelor of Nursing Program. Data collection was carried out in 2013 using interviews that were subjected to thematic analysis.

Results

Three categories emerged: Construction of the I Professor; living daily life supported by oneself and the other; and the components for constructing the I Professor, highlighting consciousness and valuing of oneself and the other.

Conclusion

The teachers traveled a path that allowed them to recognize themselves in different movements of the internalization of the I.

Key words: Faculty; Education; Nursing Education; Interpersonal Relations; Cognition

INTRODUÇÃO

A construção da formação do professor encontra-se relacionada a como ele se percebe junto a seus pares, comunica suas ideias, identifica seus próprios valores, troca e produz conhecimentos com outros profissionais de diferentes áreas do saber. Esse espaço de crescimento abrange aspectos culturais, sociais, cognitivos, atitudinais e afetivos.

O professor como profissional possui uma identidade e uma formação, enquanto ser individual, que se traduz como resultado de suas interações com o meio, dos conflitos e das concordâncias sociais, cujos domínios funcionais da cognição, da afetividade e motores estão sempre presentes(1).

Em seus estudos sobre o desenvolvimento, Wallon reconhece o indivíduo como uma totalidade, porém inacabada e num constante vir a ser. Defende em sua teoria que a principal função do desenvolvimento é a individuação, ou seja, formar um indivíduo com uma identidade própria.

Essa construção se dá pelo movimento contínuo do construir-se professor, abrangendo o relacional e o inter-relacional. Implica também desconstruir percepções sobre si e construir novos modos de perceber o si mesmo. Neste contexto o professor pode trabalhar a construção do Eu Pessoa, com base em suas características individuais, de acordo com sua própria história de vida, mas não independente daquilo que foi apreendido no e pelo social.

Este estudo enfatiza a psicogenética de Wallon, que estuda a pessoa e sua relação com outras pessoas, com o meio, de modo contextualizado e integrado com a realidade em que se encontra inserida.

Wallon nasceu em 1879 em Paris e aí viveu toda sua vida, até sua morte em 1962. Foi uma vida marcada por intensa produção intelectual e ativa participação nos acontecimentos que marcaram sua época. Antes de chegar à psicologia, passou pela filosofia e medicina, em uma trajetória que trouxe marcas para a formulação de sua teoria. Ao longo da carreira, foi cada vez mais explícita sua aproximação com a educação(2)..

Sua concepção psicogenética dialética do desenvolvimento apresenta uma grande base para a compreensão do humano como pessoa integral, ajudando na superação da clássica divisão mente/corpo presente na cultura ocidental e de seus múltiplos desdobramentos(3).

A psicogenética walloniana buscou compreender o processo de desenvolvimento propondo uma articulação entre a afetividade, a inteligência e o ato – motor. Ela refere-se fundamentalmente à pessoa, que busca ao longo de sua evolução diferenciar-se, tanto no sentido afetivo como no cognitivo, orientado pela evolução da consciência de si e do outro(4).

A teoria walloniana refere que o outro e a emoção fazem parte da construção do eu. Pode-se entender que a emoção é social e biológica e que ela fornece o desenvolvimento e estabelecimentos de vínculos afetivos, que são subsídios para permear o processo de construção da pessoa.

É por meio da emoção que se dá a passagem do orgânico ao social, do fisiológico ao psíquico(4). Considera que “a emoção é, então, o ponto de partida do psiquismo, da consciência e da vida social, uma vez que é através dela que vão se estabelecer as primeiras trocas com o meio humano, os primeiros elos de significação e, posteriormente, processar a fundamental diferenciação entre eu-outro”(4).

Ao se reportar ao papel do “Outro” na consciência do “Eu”, concebe que “O sócio ou o outro é um parceiro perpétuo do eu na vida psíquica”(5). “O outro é fundamental para a construção da pessoa, para o reconhecimento de si mediante o outro. O eu e o outro manifestam ideias, valores e atitudes no mundo onde existem”(3). A partir de suas alegrias e angústias, tomam consciência de si, fazendo assim nascer um novo eu diferente do eu já existente. Pois ao relacionarem o eu e o outro se modificam e complementam-se mutuamente. Desse modo, o indivíduo, que é considerado essencialmente social, é também compreendido como geneticamente, uma vez que o social já está inscrito no biológico como uma necessidade fundamental(4).

Com bases nessas premissas, este estudo apresenta concepções sobre o mundo do professor relacionadas com a construção do Eu Professor.

Nesse particular, este estudo se justifica por poder colaborar para o professor vir a refletir acerca do si mesmo na relação com o outro em seu ambiente de trabalho. A teoria psicogenética de Henri Wallon traz a base conceitual para referenciar este estudo, com valorosas contribuições acerca do desenvolvimento da pessoa e da construção do Eu Professor. Possibilitando, assim, compreender as interações que o professor pode estabelecer com o outro em seu cotidiano de trabalho.

A hipótese do estudo apresenta-se de forma a considerar que a Formação do Eu Professor ocorre na perspectiva de uma formação que se constitui na relação com o outro. Professores percebem que seu crescimento profissional se dá junto aos seus pares. Mas nem todos têm consciência de como vivenciam esse processo na relação com o outro, construindo o Eu Professor. A partir dessa proposição, surgiu a indagação: Como o Professor se percebe no ambiente escolar no contexto das relações e interações sociais?

Os objetivos do presente estudo são: analisar como o professor percebe a construção de seu Eu Professor na perspectiva de Wallon e conhecer como o professor vivencia seu cotidiano na escola na condição de ser o si mesmo e o outro.

MÉTODO

Estudo exploratório, de abordagem qualitativa, adotando como referencial teórico de análise a psicogenética Walloniana.

Foram sujeitos da pesquisa 13 professores de diferentes áreas do conhecimento que ministram aulas em Curso de Bacharelado em Enfermagem, em uma instituição de ensino privado. Critérios de inclusão: ser professor atuando no mínimo dois anos em Curso de Bacharelado em Enfermagem e ter dois anos contínuos como professor no ensino superior.

Os dados foram coletados no segundo semestre de 2013 por meio de dois instrumentos: formulário para identificação do professor e entrevista semiestruturada. A entrevista teve cinco questões norteadoras: Conte-me do seu cotidiano como professor nesta escola? Fale-me como esse percurso o ajudou em seu crescimento? Conte-me como você se percebe sendo professor nesta escola? Relate como tem percebido seu crescimento como pessoa, junto a outras pessoas desta escola e Descreva como você percebe a construção do seu Eu Professor no ambiente escolar junto a seus pares.

Os locais da entrevista atenderam à privacidade dos participantes. Tiveram, em média, a duração aproximada de 30 a 45 minutos e todas foram gravadas em áudio e transcritas na íntegra pela pesquisadora, mantendo o caráter sigiloso. As entrevistas transcritas e gravadas foram armazenadas de forma eletrônica. Todos os sujeitos foram receptivos em participar do estudo.

Optou-se pela técnica de análise de conteúdo, trabalhando-se com análise temática. Essa análise consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação cuja presença ou frequência tenham valor para o objetivo analítico visado(6). Assim, a técnica se compôs da seguinte forma: Pré-análise – leitura compreensiva da fala de cada professor; Exploração do material – identificação das unidades de sentido que se aproximaram de componentes da construção do Eu professor; e Tratamento dos resultados e Interpretação – separação das unidades de sentido que pudessem conferir e dialogar com o tema apresentado.

O estudo respeitou os preceitos ético-legais da Resolução CNS 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que versa sobre os aspectos éticos em pesquisas envolvendo seres humanos (Conselho Nacional de Saúde, 2012)(7). Foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da USP (CEP/EEUSP), Parecer nº 375.840 aprovado pelo referido Comitê. Os dados somente foram coletados após autorização do Comitê de Ética em Pesquisa da EEUSP.

Para manter anonimato dos sujeitos da pesquisa, os discursos dos professores foram identificados por letra e número, como por exemplo, P01, correspondendo à letra P de professor, e o Número seguiu a ordem das entrevistas realizadas pela pesquisadora.

RESULTADOS

Caracterização dos sujeitos

Os professores são formados na área da saúde, da educação e da filosofia, como: enfermeiro, biomédico, psicólogo, farmacêutico, fisioterapeuta, nutricionista, pedagogo, filósofo. O tempo de formado é de 5 a 22 anos; tempo de experiência como professor, de 4 a 20 anos; idade média entre 30 e 50 anos. Na formação em Pós-graduação lato sensu, tem-se: área de gestão (1), área de saúde mental (1). E na stricto sensu: seis mestrados e dois doutorados – mestrado em Educação (3); mestrado em Enfermagem (1), mestrado em Ciências da Saúde (2), doutorado em Enfermagem (1) e doutorado em Psicologia (1).

Nas entrevistas, observamos que o referencial teórico não era um tema conhecido por todos os professores. Dois dos professores que participaram da pesquisa apresentaram mais afinidade com o referencial, em razão da formação em filosofia, sociologia e pedagogia.

As categorias

Tendo em vista as falas dos professores, foram identificadas três categorias, a saber: Construção do Eu Professor, Viver o cotidiano a partir de si mesmo e do outro; e Componentes da construção do Eu Professor.

Construção do Eu Professor

Na categoria Construção do Eu Professor, foi identificado que o professor se faz professor em um processo contínuo em fazer-se professor, o que não é uma tarefa fácil e requer apoio em seu movimento interno e, ainda, que desenvolva novas ferramentas do pensar, do sentir e, sobretudo, do conhecer-se o si mesmo.

Eu apresentei alguns projetos que eu acredito ser importante para a formação da enfermagem (...) sinto que isso pode ajudar no crescimento de todos. Além de acrescentar para a formação do aluno, eu me construo como pessoa, pois são projetos que me trazem uma realização pessoal (P01).

Meu crescimento se deu através das trocas de experiências com os colegas, que me ajudaram aprender como me posicionar em sala de aula diante de minhas inseguranças, o que me levou a um amadurecimento como pessoa e professor, sem esse espaço de troca não seria possível essa construção (P05).

Como pessoa, a troca de conhecimento me faz crescer, as experiências com os alunos (...) me leva a fazer reflexões do meu eu (...) o que sei é que não posso esquecer o lado humano, da afetividade e respeito com o outro (P08).

Os discursos expressaram que o participar de projetos pode acrescentar na formação do aluno e do professor. Percebe-se que há um compromisso por parte deles em relação à formação do aluno, bem como de sua própria formação como pessoa, enquanto constituinte da construção do Eu professor. A troca de conhecimentos envolvem relações de comunicação e interação com o outro, propiciando o crescimento de todos.

A percepção do convívio com as pessoas na escola ajuda os professores a se tornar mais conscientes na busca do Eu. Ao compartilhar conhecimentos, é possível olhar para si mesmos com base nas próprias atitudes e nas atitudes de outras pessoas.

(...) Sem dúvida, a escola teve um fator impactante na minha carreira acadêmica e quanto ao crescimento como pessoa, mas a maior contribuição veio dos alunos. Ter vivenciado e enfrentado constantes desafios fizeram com que a aproximação com o outro favorecesse meu crescimento como pessoa (P03).

A minha trajetória profissional na escola me proporcionou e me propicia momentos de crescimento e de aprendizagem, tanto profissional como pessoal. Isto porque o contato com o outro faz com que a busca de novos conhecimentos se torne necessário, determinando novos contextos e novas transformações (P07).

Na trajetória profissional, professores relataram a importância das trocas com o outro, estando abertos ao novo, a novos conhecimentos. Isso tudo lhes possibilita crescimento pessoal e profissional. É possível que ao longo de sua vida profissional o professor venha observar melhor o seu crescimento como pessoa e como professor por meio do convívio e da abertura para consigo mesmo e para com o outro, com possibilidade de abrir-se para si mesmo e para o outro.

(...) Percebo em mim um amadurecimento e crescimento pessoal e profissional, acredito que, com o passar do tempo, isso se fortalecerá, pois a escola é o ambiente propício para isso (P09).

Sempre ouvi falar que aprendemos com a prática e realmente a prática nos ensina não só a matéria em si, mas a relação com as pessoas, a percepção da nossa atuação com o ambiente, enfim, tudo ao nosso redor (P08).

Nesses discursos, a aproximação entre aquisição de conhecimentos, amadurecimento e crescimento pessoal e profissional é sustentada e apoiada mediante atividades da prática desenvolvidas no ambiente de trabalho. Ressalta-se que conhecimentos não se restringem em aprender conteúdos, mas, sobretudo, aprender a se relacionar abrindo espaços de equilíbrio para o professor reconhecer o si mesmo em sua evolução como pessoa.

Nos discursos a seguir um professor mencionou que é positivo poder vivenciar momentos que podem não ser bons. A qualidade desses momentos podem trazer lições de como trabalhar com o não previsível e dele extrair novas e ricas aprendizagens. Outro refere positivamente a realização de ser professor.

Aprender a compartilhar coisas boas e momentos ruins também faz parte desse crescimento, pois não aprendemos somente com que é positivo e bom, aprendemos também com a diversidade, que é um grande campo para a aprendizagem (P10).

(...) o meu Eu professor vem se construindo há muito tempo, a partir das minhas próprias experiências como aluna, observando meus professores, pensando nos bons modelos que pretendia seguir, e evitando as atitudes e comportamentos que considerava não serem produtivos para o meu crescimento. A realização do ser professor envolve o relacionamento com as outras pessoas, que acho muito positivo, e isso tudo tem a ver com a minha motivação para o trabalho (P01).

Os discursos dos professores relatam a importância do convívio com os pares em seus espaços de convívio de troca e de crescimento, que por meio da convivência compartilham experiências, criando possibilidades de ocorrer amadurecimento com bases sedimentadas no enriquecimento pessoal e profissional. Ainda, essa interação com o outro pode levá-los a obter satisfação pessoal.

Viver o cotidiano a partir de si mesmo e do outro

Esta categoria refere como o professor percebe elementos em seu cotidiano que se relacionam com seu fazer sendo professor, de modo que possa identificar como se dá sua evolução profissional, e como ela se associa ou auxilia em seu crescimento como pessoa.

Algumas pessoas contribuíram para eu ser o que sou. Um ser humano melhor capaz de entender o outro, ser mais tolerante e flexível. Essa construção não é fácil, é um exercício diário, constante que só é possível se houver uma entrega (P12).

Como professora fui adquirindo flexibilidade e ganhando maturidade e experiência. Crescendo como pessoa, e isso foi me dando mais segurança, me ajudou a fortalecer minha identidade profissional ao ponto de me envolver mais na minha área de conhecimento (P04).

Existem várias possibilidades de construir caminhos para o fortalecimento do Eu pessoa. O homem, como ser integral, em todo seu processo de vida constrói-se em conformidade com aquilo que produz, compartilha e recebe em seu cotidiano, de modo a tornar-se cada vez mais sociável. Para isso, o homem deve desenvolver qualidades que se conquista aos poucos, adquirindo mais segurança.

Enquanto pessoa eu sinto que sou útil e feliz, como ser humano que busca e interage com o bem comum. Na construção da pessoa, li em algum lugar que, na verdade, a gente não se constrói, e sim a gente se cultiva, tanto que estamos mais para ser cultivados do que para ser construído (...) Tudo é um processo de interação com as demais pessoas. Sinto-me feliz em colaborar e ser respeitada pelos meus colegas (P01).

Para vir a cultivar algo, a pessoa necessita adquirir conhecimentos e aperfeiçoar o que já sabe, seja nas esferas cognitiva, instrucional ou afetiva. Isso não é tão simples, pois exige dela um movimento de ir e vir, permeado por diferentes momentos e estados de consciência. Isso pode suscitar na pessoa a necessidade de buscar um modo de organizar aquilo que passa a ser novo ou que se pretende alcançar, seja de forma individual ou coletiva. Dessa maneira, a pessoa vai cultivando sua vida e ao mesmo tempo sendo cultivada pelo outro em seu cotidiano.

Construir não é um processo fácil, estou me construindo a cada momento (...) tem sido um grande aprendizado, principalmente aprender com as diferenças, com aquilo que é novo, e que me conflita. Hoje, me percebo diferente, mais flexível, ponderada. Aprendi que o outro faz parte da minha construção e da minha evolução como pessoa (P08).

A minha construção do Eu professor foi desenvolvida a partir da troca de experiências com os pares, por meio das capacitações e reuniões pedagógicas que foram conduzidas ao longo da minha carreira. Não somente pela troca com os pares, mas, por meio dela, eu pude me construir, pois tenho características próprias e algumas outras eu me espelho no outro (P02).

Mesmo o professor tendo oportunidade de valorar suas ideias, sentimentos e ações em seu cotidiano, é ele quem dará ou não sentido às novas condutas em seu agir profissional. Sobretudo para se permitir a fazer mudanças que possam alterar suas atitudes, para consigo mesmo e em relação ao outro. Obtendo crescimento quando essas mudanças são acompanhadas de outros sentidos que poderão redirecionar sua vida no contexto social e afetivo, repercutindo no campo do pessoal e do profissional.

Componentes da construção do Eu Professor

Nesta categoria, a análise evidencia que os componentes para construir o Eu Professor coexistem no meio em que a pessoa encontra-se inserida, nas relações que propiciam fazer escolhas, conscientes ou não, nos momentos de descoberta de mudança pessoal, permeada por diferentes situações e desafios. Conduta que pode abrir possibilidades para o professor vivenciar o novo para si próprio, conduzindo-o para olhar de outro modo seu processo evolutivo, bem como os sentimentos e as emoções.

Pautada nessa realidade, a pessoa pode obter novas ferramentas para trabalhar suas dificuldades no âmbito social. Nesse percurso, deve tomar algumas decisões inerentes a seu processo de crescimento profissional. Esta postura pode também ocorrer de modo consciente ou não, mesmo assim, pode-lhe conferir novos atributos cognitivos e emocionais para o fortalecimento de sua personalidade.

Sinto-me realizado profissionalmente (...) às vezes, me deparo com alguns questionamentos, porém, acredito que contribuindo com a formação dos alunos também contribuo com a minha formação (P02).

Acredito que o homem é um ser essencialmente social. Neste sentido, ele é construído e se constrói aos poucos, transformando sua própria história, ou seja, ele é o sujeito de suas próprias ações a partir de situações que precisam ser transformadas, assim, o homem sempre precisará do outro (P07).

Procuro sempre participar de tudo que acredito ser importante para ajudar a me construir como um profissional e um ser humano melhor (...) como compartilhar experiências, pois acredito que não podemos crescer sozinhos, sempre precisamos do outro até mesmo para vencer as dificuldades que encontramos durante nossa trajetória de vida (P12).

(...) minha família me deu suporte durante toda minha trajetória profissional, isso ajudou a me construir como pessoa autêntica e decidida (...) a me tornar a pessoa que sou hoje, ser eu mesmo, isso me possibilitou a ter crescimento profissional e pessoal (P13).

Os discursos pronunciados mostram a presença da conscientização progressiva dos professores em relação ao crescimento, baseada em experiências tidas no cotidiano de trabalho. Sinalizam o que não estão separados de sua pessoa, tendo compreensão da existência do outro internalizado.

A família foi apontada como algo importante na construção de si mesmo, representando o outro. Isso ajuda a dar base para o professor se construir como pessoa e como profissional. A vida corrente do dia a dia, investida nas relações pode fortalecer a pessoa no sentido da concretude do ser.

Nas relações que se estabelecem no espaço da escola, existem muitos componentes que podem ser considerados como elementos importantes, e que podem ajudar a construir o Eu Professor.

DISCUSSÃO

Os discursos dos professores mostraram a relação e a interação entre todas as categorias, envolvendo o trabalho do professor, incluindo os aspectos cognitivos e sociais, com atenção voltada ao afetivo. Houve abertura para conscientização e valorização do si mesmo e do outro, por meio de trocas de experiências, com possibilidade do professor torna-se outra pessoa, transformando o si mesmo.

Em relação à Construção do Eu Professor , os resultados revelaram que, para construir-se como professor é preciso relacionar-se com as pessoas que convivem no mesmo espaço social da escola, bem como com um conjunto de valores, comportamentos e padrões formais e informais.

A escola não é um grupo propriamente dito, mas um meio em que os grupos podem constituir-se com tendência variável e que podem estar em discordância ou em concordância com seus objetivos(5).

Na teoria Walloniana, “os conceitos de eu, de pessoa e de sujeito são semelhantes, e os prelúdios da construção da pessoa encontram-se em suas primeiras expressões emocionais que vão diferenciando-se e estabelecendo um circuito de trocas partilhadas. O processo de diferenciação eu–outro, juntamente com a tomada de consciência corporal, são os alicerces para o momento mais específico de construção do eu e da própria identidade”(4).

“O meio é um complemento indispensável ao ser vivo. Não é menos verdadeiro que a sociedade coloca o homem em presença de novos meios, novas necessidades e novos recursos que aumentam possibilidades de evolução e diferenciação individual”(5). Pode haver diferenças no modo como os professores se veem e como aprendem nessa condição, devendo-se buscar a qualidade nas relações, a fim de reconhecer aquilo que apreendeu em sua construção como pessoa.

Os discursos dos professores apontaram que dentre tantas possibilidades de crescimento, o professor vivencia processos de amadurecimento pessoal e social por meio do contato com os pares e consigo mesmo. Essa realidade ocorre pela troca de ideias e conhecimentos pautados na dimensão do agir profissional, sendo possível nutrir a construção sendo professor, em diferentes cenários do mundo escola. Nesta situação, desafios e ganhos na percepção sobre o outro e si mesmo podem ser compartilhados.

O Eu professor para se construir vive em constante conflito, em busca da diferenciação do eu e do outro, realidade que se faz presente nos discursos apresentados, ainda que de modo tímido, mas que vão ao encontro dessa natureza.

O eu para se construir vive em constante conflito, em busca da diferenciação do eu e do outro, para Wallon, esse conflito propicia a construção da pessoa, sem ele não é possível se construir, desenvolve-se, transformar-se por meio da busca incessante de se firmar, de se reconhecer como pessoa plena, completa, isso ocorre em um movimento centrípeto, pois estamos sempre nos desenvolvendo, buscando nossa construção.

Tornar-se professor é uma condição permanente da docência, permeada por opções, saberes, desejos e possibilidades. Inscreve-se num constante “vir-a-ser”, marcado pela produção e crescimento do próprio trabalho docente(8).

O desenvolvimento descontínuo pode ser entendido como um ir e vir, pois no processo de desenvolvimento da pessoa existem rupturas, muitas vezes é necessário reconstruir o que já havia sido construído, pois estamos sempre em busca de algo a mais e essa busca permite à pessoa desenvolver-se de modo gradual e cíclico, sem terminalidade(5).

Existe uma mescla de sentimentos e desejos de criar e produzir conhecimentos no ambiente escolar. Professores citaram a necessidade de se construírem como pessoas, construir junto ao outro, buscar satisfação no trabalho. Encarar novos desafios, na perspectiva do alcance do amadurecimento pessoal e profissional, pode trazer motivação e enriquecimento na esfera da constituição do Eu Professor.

Neste estudo foi possível perceber o quanto o professor precisa do outro para formar o Eu professor, aprendendo a fazer escolhas, numa crescente e contínua busca de novas respostas a partir daquilo que aprende com seus pares e com seus alunos e no ambiente de trabalho, refletindo sobre o si mesmo.

Dos discursos emergiu a possibilidade de haver diferenças no modo como os professores se veem e como aprendem. Essa questão nos levou a pensar que há uma sensibilidade em razão da construção do si mesmo e do outro. Nesse patamar o professor deve buscar compreender como se processa essas relações, reconhecendo processualmente aquilo que foi apreendido em sua construção como pessoa. Ainda, foi notório em alguns discursos perceber que o convívio com os pares ajuda o professor na construção do Eu Professor.

A pessoa constrói-se, visando à autoconstrução do sujeito e a escola deve acompanhar esse movimento, oferecer oportunidades de aquisição e de expressão, nas quais se alternam a predominância das dimensões objetivas e subjetivas(2).

O biológico vai progressivamente cedendo espaço de determinação ao social, a influência do meio social torna-se muito mais decisiva na aquisição de condutas psicológicas superiores, como a inteligência simbólica, pois cultura e linguagem fornecem ao pensamento os instrumentos para essa evolução(2).

Em relação à construção do Eu Professor, para construir-se como professor, é necessário relacionar-se com todas as pessoas que convivem no mesmo espaço social da escola. Mediante esse espaço, que também é de troca e de aprendizagem, e nesse percurso, o professor vai construindo o Eu Professor.

Em relação à Viver o cotidiano a partir de si mesmo e do outro se constatou que o viver o cotidiano pode significar ter contato permanente com o meio, aprendendo a relacionar-se e adaptar-se ao novo.

A teoria walloniana enfatiza que a pessoa é inseparável do meio à qual está inserida, por meio dele surgem relações agradáveis e desagradáveis que as afeta, mas que fazem parte de seu crescimento.

O ser humano é “geneticamente social”, é um sujeito histórico, inserido em um tempo e espaços determinados. Dotado de razão e afetividade, ao se constituir nos seus variados processos de socialização (família, escola, trabalho, diferentes grupos que pertença), vai fazendo suas escolhas com base nas representações de seu meio, assimilando valores, construindo a consciência de si e do mundo(5).

Os discursos revelaram que os professores, em seu caminhar, aprenderam com o outro, descobriram particularidades de si mesmo, desenvolvendo outras habilidades que passaram a compor o Eu Professor, e neste percurso não estavam sozinhos, e sim junto ao outro. Tiveram oportunidade de repensar o já pensado e rever-se em seus valores, visualizando novos rumos e transformações.

Também os professores referiram aspectos presentes nas relações que desmembraram em ações relacionadas com reflexão, espaço de troca, trabalho com diversidade, crescer como pessoa e transformação. Com ênfase no respeito na relação consigo mesmo e com o outro, e com compromisso de rever atitudes.

“O sujeito é compreendido como sujeito social que vai, ao longo de seu desenvolvimento, individualizando-se, diferenciando-se e construindo sua personalidade”(4).

Uma das contribuições centrais de Wallon está em dispor de uma conceituação diferencial sobre emoção, sentimentos e paixão, incluindo todas essas manifestações como um desdobramento de um domínio funcional mais abrangente: a afetividade, sem, contudo, reduzi-las umas às outras. Define a afetividade como o domínio funcional que apresenta diferentes manifestações que irão se complexificando ao longo do desenvolvimento e que emergem de uma base eminentemente orgânica até alcançarem relações dinâmicas com a cognição, como pode ser visto nos sentimentos(9).

Nos discursos, foi enfatizado o crescer juntos, compartilhar dificuldades ou vencê-las, seguido por compromisso e afetividade, expressados de diferentes maneiras, às vezes de modo indireto.

O viver cotidiano do professor, pautado no si mesmo e no outro é importante, pois pode levá-lo a construir seu conhecimento de maneira mais consciente, ampliando o conhecimento do Eu interno e externo, que engloba de modo processual as dimensões do afetivo, psicomotor, cognitivo, privilegiando a diversidade e o respeito.

Em relação aos Componentes da construção do Eu Professor, surgiram discursos dialogando entre si, vinculados a diferentes relações entre as pessoas. Falar dos componentes da construção do professor é pensar na possibilidade de identificar aqueles que podem ser considerados os mais essenciais para edificar a construção do Eu professor.

Ênfase foi dada às interações no meio social, com base nas interações que o sujeito se constrói, evidenciando que todo o processo de desenvolvimento do ser está intimamente relacionado com a vivência, e com as transações destas relações. Esse movimento se dá pela construção e reconstrução impregnadas de imagens, valores, ideias que podem ou não ser reconhecidas pelo si mesmo ou o outro.

Alguns professores despertaram o “desejo” do alcance de mudanças de modo delicado, essencialmente presente nos discursos relacionados com aprendizagens no domínio das relações, as quais podem propiciar ao professor a introspecção do próprio Eu.

Os discursos evidenciaram que, para se construir faz-se necessário a relação com o outro, o outro internalizado, “sócius”. Em muitas situações de ensino, o professor utilizou instrumentos do trabalho como o diálogo, a reflexão e a observação.

É desejável que a consciência passe a ser social, isto é, que ela se abra à representação dos indivíduos, que não são eles próprios e de que a consciência deve ter, contudo, as mesmas prerrogativas que tem a sua.

A construção da pessoa ou a constituição do sujeito é outorgar um papel fundamental para o sistema simbólico, para a linguagem e para os próprios conflitos, que vão nos orientar em busca de um “sempre mais além”. Esse mais além pode ser compreendido como um eu inacabado de um eu, que não cessa de buscar sua diferenciação ao longo da evolução humana(3).

A relação está vinculada ao modo como o professor comunica-se consigo mesmo e com o outro. Como identifica e trabalha suas possíveis potencialidades e fragilidades, e toma para si o leme que dá sentido aos sentimentos e às ações, manifestado em prol de si mesmo e do outro, colaborando, assim, para o crescimento pessoal e coletivo.

CONCLUSÃO

Este estudo mostrou uma diversidade de situações em diferentes contextos do como o professor percebe a construção do Eu Professor. Teve expressão em relação à Formação do Eu pensada sob a perspectiva dos pressupostos de Wallon. Nos espaços da escola foi constatado que o professor busca o crescimento, e isso o ajuda na construção e internalização do Eu. No aprender a ser o si mesmo e o outro, as mudanças ocorrem para ambos. Ficou muito claro e presente que a Formação do Eu professor nasce e renasce a partir das relações consigo mesmo e com o Outro, por meio da troca de saberes nutrida pelo processo da construção de novas concepções e da interiorização de novas concepções e valores.

Os professores abordaram como percebem e sentem o ambiente da escola, criando espaços para ser repensado, como buscar novos caminhos para ampliar o diálogo e o conhecimento do si mesmo, atitudes estas proclamadas em diferentes contextos. Também foi valorizada a maneira que a aprendizagem se desenvolve, tendo como estrutura as relações e interações humanas. O processo e as experiências adquiridas para a vida foram referidos, viabilizando trocas e crescimento, acrescido de compromisso com o próprio crescimento.

Neste estudo os professores tiveram oportunidade para refletir acerca da sua trajetória do conhecer si mesmo, com consciência de como se constroem, buscando reconhecer um pouco mais do si mesmos em diferentes movimentos da internalização do Eu.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 30 de Novembro de 2014; Aceito: 10 de Abril de 2015

Autor Correspondente: Maria de Fátima Prado Fernandes. Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419, Cerqueira César. CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil. fatima@usp.br

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Extraído da dissertação “Formação do Eu Professor na abordagem Walloniana”, Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento em Enfermagem, Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 2014.

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