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Cadernos de Pesquisa

versión impresa ISSN 0100-1574versión On-line ISSN 1980-5314

Cad. Pesqui. vol.47 no.163 São Paulo enero/marzo 2017

https://doi.org/10.1590/198053143760 

ARTIGOS

A fabricação da teoria de representações sociais

La fabrication de la théorie des représentations sociales

La elaboración de la teoría de representaciones sociales

Ivana MarkováI 

I London School of Economics and Political Science, Londres, Reino Unido; ivana.markova@stir.ac.uk


RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar a teoria das representações sociais como um modelo de teoria científica social. Ao fazê-lo, buscou-se reconstruir os fundamentos da referida teoria, concentrando-se nos recursos intelectuais que estavam disponíveis para Serge Moscovici no decorrer do desenvolvimento da mesma. Tais recursos deram forma à epistemologia que firmemente distingue a teoria das representações sociais de outras abordagens psicossociais. O foco sobre esses recursos intelectuais chama a atenção para duas questões. Em primeiro lugar, ao contrário do que Moscovici muitas vezes chamou de “teorias de uma ou duas frases”, ao fazer referência à psicologia social baseada na manipulação de variáveis, a teoria das representações sociais é construída sobre um rico conjunto de pressupostos. Em segundo lugar, o reconhecimento explícito dos pressupostos das representações sociais no emprego nas práticas profissionais, como educação, política e saúde, permite uma contribuição única para as ciências sociais e humanas.

Palavras Chave: Teoria das Representações Sociais; Abordagem Psicossocial; Epistemologia

RÉSUMÉ

Cet article présente la théorie des représentations sociales comme un modèle de théorie scientifique sociale. Il cherche à reconstituer les fondements de cette théorie, en centrant l’attention sur les ressources intellectuelles qui étaient disponibles pour Serge Moscovici lorsqu’il développait sa théorie. Ces ressources ont donné forme à l’épistémologie qui distingue fermement la théorie des représentations sociales d’autres approches psychosociales. La place centrale accordée à ces ressources intellectuelles attire l’attention sur deux questions. Premièrement, à la différence de ce que Moscovici a souvent nommé «théories d’une ou deux phrases», en référence à la psychologie sociale basée sur la manipulation de variables, la théorie des représentations sociales est construite sur un riche ensemble de présupposés. Deuxièmement, la reconnaissance explicite des présupposés des représentations sociales dans leur application aux pratiques professionnelles, comme l’éducation, la politique et la santé, peut contribuer de manière unique aux sciences sociales et humaines.

Mots Clés: Theorie des Representations Sociales; Approche Psychosociale; Epistemologie

RESUMEN

El presente artículo tiene el objetivo de presentar la teoría de las representaciones sociales como un modelo de teoría científica social. Al hacerlo, se trató de reconstruir los fundamentos de dicha teoría, concentrándose en los recursos intelectuales que se encontraban disponibles para Serge Moscovici en el trascurso de su desarrollo. Tales recursos dieron forma a la epistemología que firmemente distingue la teoría de las representaciones sociales de otros abordajes psicosociales. El enfoque sobre esos recursos intelectuales llama la atención para dos puntos. En primer lugar, al contrario de lo que Moscovici muchas veces llamó de “teorías de una o dos frases”, al referirse a la psicología social basada en la manipulación de variables, la teoría de las representaciones sociales ha sido elaborada sobre un rico conjunto de presuposiciones. En segundo, el reconocimiento explícito de las presuposiciones de las representaciones sociales en su empleo en las prácticas profesionales, como educación, política y salud, permite una contribución única para las ciencias sociales y humanas.

Palabras clave: Teoría de las Representaciones Sociales; Abordaje Psicosocial; Epistemología

ABSTRACT

This paper presents the theory of social representations as a model of social scientific theory. In doing so, it attempts to reconstruct the foundations of the theory of social representations by focusing on intellectual resources that were available to Serge Moscovici during the time he was developing the theory. These resources shaped his epistemology, and firmly distinguished the theory of social representations from other social psychological approaches. The focus on these intellectual resources draws attention to two issues. First, in contrast to what Moscovici often called ‘one or two sentence theories’ in social psychology based on the manipulation of variables, the theory of social representations is built on a rich set of presuppositions. Second, an explicit recognition of presuppositions of social representations in their application in professional practices like education, politics and health, among others, enables a unique contribution to social sciences and humanities.

Keywords: Theory of Social Representations; Social Psychological Approach; Epistemology

Neste tributo a Serge Moscovici, é discutida a teoria das representações sociais como um modelo de teoria científica social que mostra a originali­ de e a criatividade do seu pensamento. Fazendo isso, deve-se atentar para econstrução das fundações da teoria das representações sociais -TRS -, focando os recursos intelectuais disponíveis a Moscovici no período em que ele a estava desenvolvendo. Tais recursos deram forma à sua epistemologia e distinguiram firmemente a TRS de outras abordagens psicológicas. O foco nesses recursos intelectuais está voltado para dois problemas. Primeiro, em contraste ao que Moscovici costumava chamar de "teorias de uma ou duas frases" na psicologia social, baseada na ma­ nipulação de variáveis, a TRS é constituída sobre um rico conjunto de pressuposições. A menos que se entenda a natureza dos recursos intelec­ tuais que subjazem essas pressuposições, não é possível responder aos questionamentos sobre as similaridades e diferenças entre a tal teoria e outras teorias, como a da "cognição social" ou da "análise do discurso" e assim por diante. Tendo em vista que a TRS lida com problemas interdis­ ciplinares de alta complexidade, sua "tradução" para outras abordagens é trivializada com frequência, infelizmente. Segundo, o reconhecimen­ to explícito da aplicação das pressuposições das representações sociais nas práticas profissionais, como educação, política, saúde, entre outras, permite uma contribuição única para as ciências sociais e humanas (MARKOVÁ, 2016).

A posição estratégica da psicologia social

Serge Moscovici chegou a Paris em janeiro de 1948, vindo da Romênia, onde teve experiência com racismo, discriminação e o nascimento do totalitarismo comunista. Ele acreditava que a psicologia social era uma disciplina com potencial de encontrar soluções tanto para essas questões quanto para os problemas políticos, econômicos e industriais do pós-guerra. Ele expressou tais pontos de vista no prefácio da primeira edição de seu livro La psychanalyse: son image et son public, em 1961, no qual argumenta que a psicologia social ocupa uma posição única e estratégica entre as ciências sociais e, especificamente, entre a sociologia e a antropologia social. O autor se referiu, nesse contexto, às visões expressadas por dois cientistas socais bem distintos: o sociólogo francês Émile Durkheim e o marxista russo e filósofo político Georgi Plekhanov. Apesar da grande diferença política e filosófica, esses dois estudiosos tinham uma preocupação em comum: o estudo do conhecimento social. Enquanto Durkheim examinava o conhecimento social no campo da sociologia, Plekhanov deu atenção a possíveis contribuições para a psicologia social no campo do conhecimento político. A partir de suas posições diferentes, ambos pensaram que a posição estratégica da psicologia social é dada pelo seu potencial de agir em resposta aos fenômenos econômicos, políticos, históricos e sociais. Logo, desde o início, Moscovici articulou a psicologia social como uma disciplina em movimento, que possui sua especificidade. Ela é duplamente orientada com respeito a alguns tipos de relações microssocial e macrossocial conjuntas em tensão, tais como indivíduos e grupos, personalidade e cultura, psicologia e sociologia, e assim por diante (FAUCHEUX; MOSCOVICI, 1962). Sendo uma disciplina híbrida em um movimento contínuo, a psicologia social tem que lidar com as tensões produzidas por tais relações conjuntas. De fato, é o estudo dessas tensões que constitui o desafio e a especificidade da psicologia social. Ao longo de sua carreira, Moscovici seguiu o estudo dessas tensões na construção da psicologia social como uma ciência social internacional, por meio da Unesco, desenvolvendo a teoria das representações sociais, das inovações de minoria e participando de movimentos ecológicos (MOSCOVICI; MARKOVÁ, 2006).

Fundamentos intelectuais da teoria das representações sociais e comunicação senso comum e ciência

O estudo da psicanálise, que Moscovici escolheu para investigar as representações sociais, trouxe à luz a tensão entre: o pensamento científico e profissional, de um lado, e o pensamento quotidiano das pessoas comuns, de outro. A psicanálise mostrou-se particularmente adequada para explorar essa tensão, pois foi altamente controversa e amplamente comentada. Ela tinha afinidades consideráveis com pensamentos de senso comum e, portanto, os leigos tiveram seus próprios pontos de vista sobre o assunto, percebendo semelhanças entre a psicanálise e vários tipos de suas experiências diárias, como, por exemplo, entre uma confissão religiosa e uma entrevista psicanalítica.

Muitos estudiosos franceses promoveram a ideia de que não somente a ciência e o senso comum eram fenômenos descontínuos, mas também que o pensamento científico era “superior” enquanto o pensamento quotidiano era “inferior”. Como Moscovici e Hewstone (1983, p. 102) salientaram, “vários rótulos têm sido usados para descrever a descontinuidade entre estes dois tipos de pensamento: a lógica e mito, o pensamento ‘doméstico’ e ‘selvagem’ de Lévi-Strauss (1962), ‘a mentalidade lógica e pré-lógica’ de Lèvy-Bruhl (1922), o pensamento ‘crítico’ e ‘automático’ de Moscovici e Hewstone (1983)”. Todas essas diferenças referem-se à suposta superioridade do pensamento científico e à inferioridade do pensar quotidiano (MARKOVÁ, 2016). Em vez disso, Moscovici promoveu a perspectiva de um desenvolvimento contínuo do pensamento de senso comum para a ciência. Igualmente importante, o pensamento científico se difunde no pensamento quotidiano. Como é notório, a ideia da transformação do pensamento científico em senso comum tem sido vital no desenvolvimento da teoria.

Elementos versus a estrutura do todo

Nos anos pós-guerra, Norbert Wiener definiu um novo campo interdisciplinar: a cibernética, ou o estudo científico do controle, da informação e da comunicação em animais e máquinas. A cibernética focou novamente o interesse das ciências em investigações de sistemas e suas estruturas, chamando a atenção para o conceito de informação e comunicação como mecanismos essenciais de organização em domínios que vão além do estudo do indivíduo na comunidade, como a antropologia e a sociologia. Wiener (1948) argumentou que não seria possível entender as comunidades sem uma exploração completa dos meios de comunicação nos sistemas sociais. O autor mostrou que os indivíduos não criam um grupo ou comunidade, a fim de alcançar a homeostase (equilíbrio), mas que, em contrapartida, a sociedade é criada em e por meio de distúrbios heterogêneos, tensões e vários tipos de interações entre os membros e os seus modos de comunicação.

Moscovici interessou-se pela cibernética por várias razões. Em contraste com abordagens teóricas que focavam elementos mentais e comportamentais, a cibernética orientou o pensamento em direção à ideia holística da Gestalt, no sentido dos sistemas, estruturas e comunicação.

Comunicação

A visão de sociedade e de interação de Wiener (1948) contradisse a fórmula linear estabelecida de comunicação como “quem” fala “o que” para “quem” e com “que efeito”. Ao contrário, Wiener estava preocupado com padrões e configurações em sistemas e comunicação. Os conceitos de “estrutura” e “forma” em cibernética fundamentalmente contrastam com os conceitos de “elementos” ou “estímulos” e seus agregados que prevaleciam nas abordagens behavioristas da comunicação em sua época. Comunicação e linguagem são fenômenos baseados em vários tipos de tensão entre falantes e ouvintes que são essenciais para o conceito de representações sociais. Representações são formadas, mantidas e mudadas na e por meio da linguagem e da comunicação e, da mesma forma, o uso de palavras e atributos ligados aos sentidos transforma as representações sociais.

Interações heterogêneas entre os grupos e seus contextos específicos produzem uma variedade de estilos de pensamento e comunicação, alguns baseados em consenso, outros em dissenso e contradição. Comunicação não conduz necessariamente a uma melhor compreensão, harmonia e progresso. Em contraste com a teoria ascendente de conhecimento em relação à ciência e ao “conhecimento verdadeiro”, que tem sido adotada, por exemplo, por Durkheim e Piaget, a teoria das representações sociais não pressupõe progressos para formas superiores de conhecimento ou para representações mais adequadas (MARKOVÁ, 2003). Em vez disso, ela pressupõe a transformação de um tipo de conhecimento em outro; e a transformação de vários tipos de conhecimento é pertinente às condições sócio-históricas e culturais específicas. Moscovici (1961, 1976) cunhou estes diversos tipos de pensar e comunicar como polifasia cognitiva: a coexistência simultânea e dinâmica das diferentes modalidades de pensamento e conhecimento, como o tradicional e o moderno ou ritualístico e científico. Polifasia cognitiva é caracterizada por tensão, conflito e restrições, ao invés de equilíbrio e adaptação.

De atitudes à represen taç ão social

Já em seu primeiro artigo, Moscovici (1952) expressou sua forte insatisfação com o uso de questionários para examinar opiniões e atitudes em relação à psicanálise, como seus orientadores aconselharam-no. Como ele explicou em seus primeiros trabalhos publicados, os resultados das escalas dão respostas sim-não e preocupam-se apenas com medidas, não sendo possível apreender deles como as pessoas pensam. Naquela época, Moscovici (1953) descobriu as escalas de Guttman e percebeu sua originalidade, pois elas ofereciam amostras das ideias, em vez de atitudes dos respondentes. Guttman (1954, 1959) buscou descobrir as estruturas dos itens agrupando os respondentes. Padrões em que os itens estavam mais juntos representavam gestalts significativas e socialmente compartilhadas. Elas expressavam o grau de estruturação dos fenômenos sociais. O conceito de grau de estruturação já estava presente na cibernética de Wiener e, na ocasião, Moscovici o encontrou também nas escalas de Guttman. Ele compreendeu que a escala de Guttman oferecia uma abordagem que permitia o estudo de redes e interações entre os itens, avaliação e transformação do conhecimento, bem como a moralização sobre estas questões. É importante ressaltar que não se tratava da transformação de informações neutras, mas sim de conhecimento carregado de valor que grupos e sociedades acumularam em e por meio da cultura ao longo das gerações: isso contém ética. É interessante o fato de que os primeiros artigos de Moscovici sobre questionamento e rejeição de atitudes e opiniões como conceitos inadequados para seu próprio estudo também revelaram seu dilema pessoal. Ele estava desenvolvendo novos pensamentos contra o conhecimento e as práticas de investigações estabelecidas. Estes primeiros artigos indicam sua luta contra suas próprias ideias e sua consciência de ter confrontado o estabelecido. Moscovici não tinha intenção de validar a psicanálise como boa ou ruim. Em vez disso, ele tentou capturar representações sociais, que são fenômenos sociais dinâmicos e heterogêneos. Isso pode ser alcançado apenas por intensas investigações que permitam o intercâmbio e o desenvolvimento de ideias e sua circulação em grupos. Ele cuidadosamente introduziu em seus primeiros trabalhos o conceito das escalas de Guttman em oposição às visões estabelecidas na França naquela época. Moscovici chegou a Paris como refugiado político em 1948 e, quando publicou seus primeiros artigos em 1952 e 1953, ainda não tinha a cidadania francesa. Não surpreendentemente, ele encontrou dificuldade em apresentar seus pontos de vista não autorizados.

Claude Faucheaux e Moscovici apresentaram a abordagem de Guttman ao antropólogo Claude Lévi-Strauss, que viu seu valor para o estruturalismo e considerou o design da escala de Guttman uma descoberta revolucionária, porque poderia matematicamente mostrar padrões ou estruturas em fenômenos sociais. Lévi-Strauss, no entanto, nunca aceitou a teoria das representações sociais, que foi baseada no senso comum, em vez da “ciência”. Serge Moscovici comentou que Lévi- Strauss tentou cientificar tudo. Por exemplo, ele tentou usar as leis da termodinâmica para estudar parentesco, família, religião e culturas. Usando a noção de entropia termodinâmica, que se refere à medida de desordem em sistemas, Lévi-Strauss (1961, p. 397) afirmou que a antropologia deve ser renomeada como “entropologia”, isto é, como um estudo termodinâmico de processos humanos.

A breve história intelectual mostra que a pergunta “qual é a diferença entre atitudes e representações sociais?” não pode ser respondida por meio da listagem das suas características semelhantes e diferentes. Desde o início, Moscovici estava interessado no estudo da natureza dinâmica dos fenômenos sociais e este tipo de investigação é sustentado por uma epistemologia incompatível com o estudo das atitudes em psicologia social.

A ciência proletária e burguesa

Quando Moscovici estava desenvolvendo as representações sociais da psicanálise, dois termos, ciência “burguesa” e “proletária” foram aplicados pelo Partido Comunista francês às várias ciências, como física, matemática, química e também à psicanálise (LECOURT, 1977). Este foi um desdobramento dos marxistas soviéticos. A psicanálise foi concebida como uma ciência “burguesa”. Seria difícil explicar, hoje, o que significava a distinção entre ciência “proletária” e “burguesa”; uma vez que para seus proponentes constituía parte de uma “luta de classes”. Era uma questão de partido e acreditava-se que apenas o proletariado iluminado poderia avaliar objetivamente a ciência. Mas, enquanto a ciência “proletária” visava à reorganização das relações de trabalho, racionalização, centralização e planejamento da direção do trabalho, acreditava-se que o proletariado precisava de orientação. Segundo a visão marxista-leninista, as pessoas comuns são espontâneas e não podem pensar de forma racional e científica.

O objetivo de Moscovici foi reabilitar o senso comum e outras formas de pensamento prático quotidiano. Ele argumentou fortemente contra a visão de que “as pessoas não pensam” (MOSCOVICI; MARKOVÁ, 2000). Como observa Moscovici (1961) em La psichoanalysis, essa foi uma questão tão controversa que alguns cientistas deixaram o Partido Comunista, enquanto outros escreveram críticas pessoais e confissões rejeitando sua adesão anterior à psicanálise. A questão da ciência “proletária” nunca foi resolvida, mas a oposição à ideia de que as pessoas não podem pensar de forma racional e científica foi um forte recurso intelectual no desenvolvimento da teoria de Moscovici.

A história da ciência, tecnologia e senso comum

Entre importantes fontes intelectuais da TRS, estavam os estudos de Moscovici acerca da história e da filosofia da ciência dos séculos 16 e 17. Seus estudos foram iluminados, sobretudo, pela obra do filósofo da ciência Alexandre Koyré, o imigrante russo que viveu em Paris. Koyré (1948) argumentou que, assim como na Grécia antiga, também no século 17 os pensamentos científico e tecnológico foram modos independentes de pensamento. O pensamento tecnológico era pensamento de senso comum. Enquanto na Grécia antiga esses dois tipos de pensamento permaneciam independentes, no século 17, a ciência e a tecnologia absorveram elementos uma da outra. A ciência adotou elementos do senso comum, os desenvolveu e adaptou-os a novos conhecimentos e necessidades práticas. Assim, o senso comum e o conhecimento científico começaram a enriquecer um ao outro e essa ideia foi estimulante para Moscovici.

Posteriormente, as ideias de Koyré levaram Moscovici (1966) a sugerir que a inovação e as revoluções científicas não surgem de déficits e anomalias, como propusera Thomas Kuhn (1962), mas sim a partir de um “excedente”. Kuhn caracterizou uma mudança de paradigmas em termos de anomalias graves e prolongadas que ele considerava pré-condições necessárias para crise e, subsequentemente, para a emergência de novas teorias. Em sua crítica a Kuhn, Moscovici (1966) argumentou que a ideia de anomalias ou déficits era muito simplista. Mudanças científicas não acontecem por conta própria; elas são parte das mudanças no mundo, incluindo economia, filosofia, comunicação, artes e tecnologia, que interagem todas entre si. Transformação de ideias da tecnologia e artes em ciência e vice-versa são fruto da liberdade de pensamento, curiosidade, imaginação e dos riscos assumidos durante a revolução científica. A revolução mudou a estrutura de pensamento e de práticas em todas estas disciplinas, e alterou suas epistemologias.

Assim, Moscovici (1966) sugeriu que os motivadores da mudança de paradigmas não residem nos muitos problemas não resolvidos na ciência, como Kuhn pensava, mas porque existem muitas “novas verdades” que formam um “excedente”. Portadores dessas novas verdades são indivíduos ou grupos, ou minorias que atuam à margem da ciência e da tecnologia, cujo “excedente”, eventualmente, transformam-se em uma teoria científica coesa e uma tecnologia.

Fenomenologia

Após a Segunda Guerra, a fenomenologia tornou-se uma das tendências filosóficas florescentes na França. Paul Ricoeur garantiu com que Husserl fosse lido, traduzido e comentado mais na França do que em qualquer outro lugar. Moscovici interessou-se pela fenomenologia por várias razões. A fenomenologia é holística e não fragmenta o mundo em elementos. A consciência humana é intencional e direcionada a objetos e a outros seres humanos. A fenomenologia está preocupada com os conteúdos da experiência, que incluem imaginação, julgamentos, emoções, consciência do eu e do outro e interações.

Quando Moscovici estava desenvolvendo a TRS, um dos principais representantes da fenomenologia na França era Maurice Merleau- -Ponty. Havia no mínimo três fontes principais de ideias na obra de Merleau-Ponty que eram importantes para a TRS.

Em primeiro lugar, seguindo o conceito de “Lebenswelt”, de Husserl, Merleau-Ponty (1964b) enfatizou a experiência de vida como um sistema dinâmico e aberto. Ele fundamentalmente desaprovou a concepção de Piaget a respeito do desenvolvimento intelectual da criança da ilogicidade à logicicidade. Em contraste a Piaget, Merleau-Ponty enfatizou a representação do corpo da criança como uma “experiência vivida” e, como uma relação entre atividades como falar, pensar, ouvir, conhecer, imaginar, entre outras. Ele não visualizou como inadequadas ou irracionais as representações da criança, que, gradualmente, por meio da passagem de estágios cognitivos, chega a um pensamento adulto, maduro e lógico. Em vez disso, ele pensou que a representação da criança em determinado momento é adequadamente adaptada à sua experiência vivida.

A segunda fonte de ideias para as representações sociais foi a fenomenologia da linguagem e isso, de fato, consistiu na expansão do primeiro ponto, no que concerne ao corpo. Para Merleau-Ponty (1964a), o corpo vivo abrange a totalidade do processo de tomada de sentido do sujeito e da autocriação do mundo, seja por olhar para um objeto, pintar um quadro, ou, talvez mais importante, por falar. A análise do discurso e da expressão mostra a importância do corpo vivo de forma mais eficaz do que qualquer outro tipo de atividade. A perspectiva fenomenológica incide sobre o sujeito falante na comunidade viva e é orientada para o futuro.

Em terceiro lugar, Moscovici afirmou que foi a Fenomenologia da percepção, de Merleau-Ponty (1962), que o ajudou a cristalizar o conceito de representação. Aqui também encontramos uma diferença fundamental entre a fenomenologia e a teoria das representações sociais. Em contraste com Merleau-Ponty, que enfatizou a primazia da percepção, Moscovici destacou a primazia da representação social. Como ele declarou: “isto é o que fixou essa noção em minha mente, como isso era associado a certas ideias sobre a relação entre comunicação e conhecimento, e a transformação do conteúdo do conhecimento” (MOSCOVICI; MARKOVÁ, 2000, p. 233).

Fazendo escolhas éticas

Desde seus primeiros anos, delineados pela Segunda Guerra Mundial, pelo nazismo e stalinismo, Moscovici localizou o estudo das escolhas éticas, valores e normas sociais no centro de sua atenção no que diz respeito ao significado da humanidade. Como Moscovici (1997) revelou em sua autobiografia Chronique des années égares, em sua juventude, ele encontrou inspiração no pensamento filosófico de Nietzsche, em Pensées de Pascal (1995) e na Ética de Spinoza (1967). Aqui, ele examinou paixões que, durante todo o longo passado da humanidade, separaram comunidades, bem como as uniram. Em extensos contextos históricos e culturais, ele ponderou sobre valores éticos que norteiam crenças na justiça, a busca de progresso e o desejo de seres humanos por imortalidade. Em seu retrato autobiográfico, existem várias fontes de ideias relativas à ética, tanto pessoais como científicas, mas todas convergentes.

No lado pessoal, a experiência de antissemitismo, a perseguição e a humilhação durante e após a guerra se tornaram a base formativa das ideias já expressas na sua primeira publicação no periódico que Serge Moscovici coeditou com seus amigos em Bucareste. Mais tarde, durante sua pesquisa científica social na França, inspirações em Blaise Pascal, que ele descreveu na sua autobiografia, em particular as relacionadas com a ciência e a religião, a ética e a moralidade, vieram à tona. Quando Moscovici familiarizou-se com os escritos de Durkheim, ele focou no fato de a ética estar onipresente em todos fenômenos sociais, sendo conceituada de diferentes maneiras, seja no sagrado, seja em esferas profanas. Em contraste com Durkheim, Moscovici considerava a ética como interação, dinâmica e, assim, permeada de ideias sobre as forças motrizes da invenção e da inovação humanas. Ele trouxe ao primeiro plano polêmicas intelectuais relativas a valores e padrões éticos de diferentes modos de pensar, como científico, religioso e público. Fazer escolhas éticas é uma característica fundamental da epistemologia do senso comum e da teoria das representações sociais (MARKOVÁ, 2016). É a capacidade que faz da nossa espécie seres humanos. Fazer avaliações e julgamentos de eventos e de outros é indispensável em todas as interações na vida diária.

O individual e o social

Como mencionado anteriormente, Moscovici articulou a psicologia social como uma disciplina em movimento, duplamente orientada com relação a vários tipos de relações micro e macrossociais em tensão. Entre essas relações duplamente orientadas em tensão, a relação entre “individual” e o “social” teve um significado especial. Essas noções são as mais relevantes para a pergunta que fez Moscovici ao longo da vida: o que é a psicologia social? E ainda mais precisamente: o que é “social” em psicologia social? Para ele, diferentemente de outras ciências sociais, a psicologia social tem evitado a busca sobre o que entende por “social”. Na economia política e na história, Karl Marx tornou compreensível o que era “social” em suas teorias. “Social” referia-se a classes sociais e Marx definiu bem o papel histórico delas, embora ele não não tenha prestado muita atenção ao que era “individual”. Antonio Gramsci, seguindo Marx, enfatizou características socio-psicológicas, cognitivas e linguísticas de crenças populares. Sociólogos como Max Weber e Talcott Parsons também deixaram claro o que era “social” em suas teorias. A teoria da estratificação social de Max Weber é baseada em classe social, status social e partido político. Talcott Parsons desenvolveu uma teoria cultural da sociedade com base na estrutura de ação. Sigmund Freud, por sua vez, evidenciou o que quis dizer por “individual” ao postular o “id”, “ego” e “superego”. Ele também esclareceu o que era “social” em práticas terapêuticas e em sua teoria da cultura. Porém, Moscovici intrigava- se: o que era “social” em psicologia social? Não havia nenhuma teoria sobre isso. Igualmente, ele pensou que não havia o conceito de “indivíduo” em psicologia social.

Moscovici (2000) elaborava sobre ambas as questões já no início dos anos 1970, quando referiu-se à “psicologia social taxonômica”. Nela, as relações entre o “individual” e o “social” elevam-se a agregados em vez de a interações. Os estudos em psicologia social taxonômica categorizam indivíduos - como, por exemplo, homens e mulheres, jovens e idosos, católicos e protestantes - e medem graus de suas capacidades ou recursos, tais como preconceito, confiança, atitudes, opiniões, e assim por diante. Quem são os indivíduos em tais estudos? Indivíduos são entidades indiferenciadas e indefinidas, sem história, sem cultura e sem rosto. Eles não são concebidos como pessoas, mas sim como taxonomias, sendo que a finalidade da pesquisa é estudar as correlações entre taxonomias e variáveis a elas atribuídas. Nesse tocante, significa dizer que “social” está associado a essas variáveis que encontram-se em diferentes graus em qualquer indivíduo que pertence a esta ou àquela taxonomia ou categoria. Tal maneira de pensar justifica o uso de técnicas indutivas no estudo das atitudes, inteligência, motivos e outras capacidades. Esta abordagem ignora que os seres humanos vivem em sociedades e se diferenciam uns dos outros em muitos aspectos e que os seres humanos se desenvolvem e mudam, experimentam suas culturas e se comunicam. A teoria do conhecimento, em que se baseiam tais estudos, não diz o que significa “individual” ou “social”: o primeiro é uma entidade caracterizada pelo número um, enquanto o “social” corresponde a entidades (por exemplo, grupo, sociedade) caracterizadas por um número maior que um. Aqueles que são supostamente membros de um grupo pertencem ao “grupo interno” e aqueles, que não pertencem a ele são membros do “grupo externo”. No entanto, argumentou Moscovici, a sociedade não é feita de indivíduos. O fato de dois ou três indivíduos pensarem juntos não os tornam uma sociedade.

Em sua busca ao longo da vida para responder o que é “social” e “individual”, Serge Moscovici (1970, 2000) postulou que não se pode conceituar o social e o individual como duas entidades separadas. Em vez disso, o Eu e o(s) Outro(s) (ou o Ego-Alter) são mutuamente interdependentes em e pela interação. O Ego-Alter gera conjuntamente sua realidade social - objetos de conhecimento, crenças ou imagens. Aqui já temos a base da interação triangular: Ego-Alter-Objeto na TRS e na teoria da inovação das minorias ativas. O conceito de interdependência entre Ego-Alter-Objeto separa nitidamente a TRS de teorias baseadas na percepção social, como a de Fritz Heider. Heider (1958) alegou que os seres humanos percebem os objetos de forma diferente do que percebem as outras pessoas e, portanto, eles explicam de forma diferente os acontecimentos que envolvem pessoas e objetos. A hipótese de Heider de que o observador atribui juízo, raciocínio e explicação à percepção centra-se na natureza da entidade percebida, ou seja, uma pessoa ou um objeto, em vez de focar-se na relação ou interação entre o observador e a pessoa ou um objeto. Centra-se na dualidade Eu e Outro: eles são concebidos separadamente um do outro. Em vez disso, temos de nos concentrar na interação entre o Ego e o Alter e em suas relações. A maneira pela qual o ego seleciona aspectos da realidade é parcialmente determinada por sua experiência social, suas intenções, suas expectativas e sua compreensão da situação. Quando aplicamos essa perspectiva teórica para a TRS, as relações vêm em primeiro lugar; elas combinam e usam capacidades intelectuais dos indivíduos de várias maneiras. As pessoas podem expressar suas ideias de diferentes formas, usando palavras específicas, gestos e símbolos.

Epistemologia in teracional em práticas profissionais

A discussão dos recursos intelectuais subjacentes à epistemologia interacional de Moscovici do Ego-Alter-Objeto nos leva a aplicações práticas e implicações metodológicas dessa perspectiva. Na relação triangular, o Ego-Alter-Objeto é dinâmico e infinitamente aberto. Dependendo dos interesses e problemas que os pesquisadores e profissionais pretendam explorar, é possível integrar novos conceitos de interação. Veja, a seguir, alguns exemplos.

Integrando conceitos de interação

Bauer e Gaskell (1999) expandiram o triângulo Ego-Alter-Objeto, concentrando-se na dimensão temporal da construção de significados de senso comum. Os autores representam o triângulo como uma construção alongada que capta transversalmente o passado, o presente e o futuro de significados de senso comum. O triângulo alongado tornou-se tão conhecido como modelo do Toblerone quanto o famoso chocolate suíço

Os autores ressaltam, ainda, que o modelo do Toblerone tem uma importância particular para o estudo de grupos sociais. Grupos crescem e subdividem-se; em tais grupos subdivididos há uma variedade de estruturas triangulares dinâmicas coexistindo, competindo cooperando ou em conflito umas com as outras. Consequentemente, diferentes tipos de senso comum dominam em diferentes subgrupos, ao mesmo tempo, e podem seguir diferentes caminhos ao longo do tempo.

Em sua exploração da aprendizagem como um processo social na educação, Zittoun (2014) desenvolve o Eu-Outro-Objeto do conhecimento. Incidindo na mediação semiótica, a autora sustenta que, além de interagir com o professor sobre o Objeto do conhecimento, o aluno também está envolvido em um diálogo interno consigo mesmo, ou seja, acerca do Objeto do conhecimento. É necessário distinguir entre o que o aluno já sabe sobre o Objeto do conhecimento e o objeto de conhecimento a que ele está exposto. Portanto, o diálogo interior do aluno com o Objeto de conhecimento prossegue ao longo de duas linhas.

Uma linha do diálogo interno surge a partir do conhecimento prévio do aluno e sua experiência, ou seja, a partir da “cultura pessoal”, com base na memória, experiências e associações passadas. A outra linha do diálogo interno decorre de modos formais de aprendizagem aos quais o aluno é exposto, ou seja, a partir do que é social e culturalmente reconhecido como conhecimento. Para Zittoun (2014), o processo de conhecer envolve internalização, reorganização do conhecimento anterior e construção de novos conhecimentos. O estudante estabelece relações com o Objeto do conhecimento na e pela escolha de elementos culturais e intelectuais com que se vê confrontado. É por isso que a mediação semiótica de Zittoun necessita expandir o triângulo original didático Estudante-Outro-Objeto em um prisma, no qual o Objeto é cativado pela “cultura pessoal” e pelas linhas social e culturalmente reconhecidas do pensamento.

No campo da surdez-cegueira congênita, com base na triangularidade do Ego-Alter-Objeto, Ann Nafstad (2015) explorou o conceito de resiliência dos pacientes, mostrando que sua qualidade depende da confiança que o paciente desenvolveu na relação paciente-cuidador.

Exemplos do modelo de Toblerone - o prisma semiótico na relação professor-aluno ou a resiliência do paciente na interação pacientecuidador - mostram que em ambos os casos os autores começam com a interação triangular de Ego-Alter-Objeto, mas, a fim de resolver problemas concretos, eles incorporam ainda mais conceitos de base dialógica Alex Gillespie, em comunicação pessoal, declarou: o triângulo epistemológico pode ser visto como uma árvore de Natal em miniatura, em que, dependendo do objeto de estudo, podem-se balançar outros conceitos dialógicos (MARKOVÁ, 2016, p. 124).

Estudos de caso único

Há um significado empírico fundamental da interdependência do Ego-Alter: interdependência significa que a interação e a comunicação são exclusivas para cada relação diádica. O Ego define o Alter e eles transformam um ao outro. Em termos concretos, no estudo de Moscovici sobre as representações sociais da psicanálise, o poder político do Partido Comunista e da Igreja Católica associado ao pensamento dos cidadãos e as comunicações sobre a psicanálise formaram padrões de interdependência, uma vez que todos os componentes exerceram influência mútua uns sobre os outros e conjuntamente geraram novos padrões de conhecimento, crenças e imagens.

Se adotarmos a perspectiva de que o Ego-Alter constitui relação única, isto significa que o estudo de Moscovici da psicanálise como uma representação social, na década de 1950, foi um estudo de caso único. Igualmente, o estudo de Jodelet (1991) das representações sociais de loucura era um único evento histórico. A contribuição teórica fundamental desses estudos foi o tratamento dos participantes e de seus contextos socioculturais como interdependentes. Ambos, os participantes e seus contextos socioculturais, contribuíram com dados igualmente importantes para esses estudos. Isso não significa que os estudos com base em casos únicos descartam o uso de questionários, experimentos e outros métodos clássicos utilizados em ciências humanas e sociais. Estudos de caso único são muitas vezes erroneamente confundidos com métodos qualitativos. O que é vital para estudos de caso único é o conceito de que o Eur e seu contexto sociocultural são interdependentes, ambos contribuindo para os dados empíricos.

Angela Arruda (2003) insiste em que o desafio para os pesquisadores que estudam as representações sociais é desenvolver métodos adequados para a investigação cultural. De forma semelhante, Valsiner (2014) argumenta que os psicólogos culturais devem conceber “a centralidade da cultura na psique humana” como uma assumpção axiomática clara. Ao considerar o Alter, seja a cultura ou instituições, como vital no estudo das representações sociais, é claramente possível distinguir representações sociais de atitudes ou opiniões.

Se nos concentrarmos no ponto de vista profissional, o estudo de caso único não é apenas eficaz, mas também mais significativo. No entanto, isso inevitavelmente leva à questão notória: pode-se fazer qualquer generalização com base em casos únicos? Ciências e profissões procuram fornecer conhecimento crível que possa ser aplicável a diversos casos e condições e, portanto, esta questão, em toda a história da ciência e das disciplinas profissionais, foi considerada de importância vital.

Estudos de casos individuais não podem ser submetidos à generalização estatística levando à “verdade universal” nem ao “conhecimento universalmente válido”, com base em abordagens indutivas. Em vez disso, eles podem ser generalizados por meio de teorias que sustentam estudos de caso único. Charles Sanders Peirce (1958) já havia argumentado que o pesquisador ou os profissionais constroem uma teoria preliminar com base em observação cuidadosa dos fenômenos da vida real que estão em sua frente. O pesquisador observa um evento como um todo e elabora uma teoria preliminar concernente a esse todo por meio de intuição (ou o que Peirce chamou de instinto). Ao utilizar o conhecimento intuitivo ou uma teoria preliminar, o pesquisador deve estar preparado para descarta -lo ou alterá-lo, se o instinto revelar-se irrelevante.

Os resultados de um evento único têm implicações para estudos de tipos semelhantes e para generalizações de teorias. Por exemplo, pode-se colocar a questão de saber se as polêmicas intelectuais, formas de pensar e o choque de novas ideias com os valores estabelecidos são transferíveis para outros estudos de representações sociais além daqueles representados pelo caso da psicanálise na França no final da década de 1950. As forças que são funcionais em um caso histórico não deixam quaisquer componentes estáveis ao longo do tempo, quer se trate dos dados recolhidos a partir de participantes (entrevistas, a mídia) ou de interpretações de situações sócio-historicoculturais.

Os médicos têm conhecimento da unicidade de cada indivíduo e de cada interação entre o cliente/paciente, por um lado, e o médico ou a equipe terapêutica, por outro. É por isso que a generalização teórica torna- se particularmente importante nas práticas profissionais com base dialógica, como educação, psicoterapia e práticas que envolvem o cuidado e/ou cura de pessoas com transtornos de linguagem e comunicação.

Conclusão

Neste artigo, passou-se muito rapidamente por alguns recursos intelectuais de Moscovici, os quais constituem um quadro interdisciplinar coerente. O Eu e os Outros sempre formam uma relação única: uma define a outra. Portanto, a abordagem metodológica significativa é um estudo de caso único baseado na interação e interdependência do Eu e do Outro e sua transformação, em vez de estudos indutivos com base na manipulação de variáveis de sujeitos. Há sempre o perigo de que o pesquisador ou outros profissionais deslizem, ao chamar de “estudo em representações sociais” um estudo indutivo de atitudes ou opiniões.

O propósito deste tributo a Serge Moscovici foi ressaltar a originalidade de seu pensamento no desenvolvimento da TRS. A fim de preservar e desenvolver ainda mais sua herança, é vital atentar para o rico repertório de recursos intelectuais utilizado por ele para criar a rede de conceitos coerentes. Acima de tudo, estes incluem relações micro e macrossociais em tensão, que constituem a epistemologia do senso comum. Elas envolvem a interdependência Ego-Alter, a teoria Ego-Alter- Objeto do conhecimento, a estrutura holística e dinâmica de representações e comunicação, e o fazer escolhas éticas.

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Recebido: Fevereiro de 2016; Aceito: Março de 2016

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